The Project Gutenberg EBook of Ubirajara, by Jos Alencar

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Title: Ubirajara
       Lenda tupi

Author: Jos Alencar

Release Date: January 5, 2012 [EBook #38496]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK UBIRAJARA ***




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  JOS DE ALENCAR




  UBIRAJARA

  [Illustration]


  FRANCISCO ALVES & C.a

  RIO DE JANEIRO
  166, Rua do Ouvidor, 166

  S. PAULO
  65, Rua de S. Bento, 65

  BELO HORIZONTE
  1055, Rua da Baa, 1055


  AILLAUD, ALVES & C.a

  PARIS
  96, Boulevard Montparnasse
  (Livraria Aillaud)

  AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a

  LISBOA
  73, Rua Garrett, 75
  (Livraria Bertrand)

  1911




  UBIRAJARA


  Composto e impresso na Tipografia JOS BASTOS Rua da Alegria,
  100--Lisboa




  J. DE ALENCAR




  UBIRAJARA


  LENDA TUPI

  [Illustration]


  FRANCISCO ALVES & C.a

  RIO DE JANEIRO
  166, Rua do Ouvidor, 166

  S. PAULO
  65, Rua de S. Bento, 65

  BELO HORIZONTE
  1055, Rua da Baa, 1055


  AILLAUD, ALVES & C.a

  PARIS
  96, Boulevard Montparnasse
  (Livraria Aillaud)

  AILLAUD, ALVES, BASTOS & C.a

  LISBOA
  73, Rua Garrett, 75
  (Livraria Bertrand)

  1911


[Illustration]




UBIRAJARA




I

O CAADOR


Pela marjem do grande rio caminha Jaguar, o joven caador.

O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no
coldre da uiraaba.

Os veados saltam das moitas de ubaia e vm retouar na grama, zombando
do caador.

Jaguar no v o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de
rezistir-lhe ao brao robusto.

O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caador tambem despreza o
jaguar, que j canou de vencer.

Elle chama-se Jaguar, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem
espavoridos quando de lonje o presentem.

No  esse o inimigo que procura, porm outro mais terrivel, para
vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra.

Jaguar chegou  idade em que o mancebo troca a fama do caador pela
gloria do guerreiro.

Para ser aclamado guerreiro por sua nao  precizo que o joven caador
conquiste esse titulo por uma grande faanha.

Por isso deixou a taba dos seus e a prezena de Jandira, a virjem
formoza que lhe guarda o seio de espoza.

Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caador atravs das
campinas, e tres vezes como agora deitou-se alm nas montanhas da
Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.

A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre
a face de Jaguar.

O joven caador empunha a lana de duas pontas, feita da roxa craba,
mais rija que o ferro.

Nenhum guerreiro brandiu jmais essa arma terrivel, que sua mo primeiro
fabricou.

L estaca o joven caador no meio da campina. Volvendo ao cu o olhar
torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.

O bramido rolou pela amplido da mata e foi morrer lonje nas cavernas da
montanha.

Respondeu o ronco da sucur na madre do rio e o urro do tigre escondido
na furna; mas outro grito de guerra no acudiu ao dezafio do caador.

Jaguar arremessou a lana, que vibrou nos ares e foi cravar-se alm no
grosso tronco da emburana.

A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento,
e o tronco gemeu at  raiz.

O caador repouza  sombra de sua lana.

       *       *       *       *       *

Salta uma cora da mata e veloz atravessa a campina.

Mais veloz a persegue gentil caadora com a seta embebida no arco
flexivel.

Ergue-se Jaguar.

Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.

Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.

Pela faxa cr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguar conheceu que
era uma filha da valente nao dos Tocantins, senhora do grande rio,
cujas marjens elle pizava.

A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que
nenhum guerreiro jmais possuira a virjem formoza.

A cora veiu cair aos ps de Jaguar, atravessada pela flecha certeira
da joven caadora que a seguia de perto.

A virjem reconheceu o cocar da nao que na ultima lua chegra aos
campos do Taari e da qual os pajs tinham dado noticia.

--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que
pertences a essa nao valente; se pizas os campos dos Tocantins como
hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua
mi no chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice.

--Virjem dos Tocantins, Jaguar j soltou seu grito de guerra. Elle piza
os campos de teus pais como senhor. Tu s sua prizioneira. No que
vencer a cora timida seja gloria para o caador; mas tu chamars o
inimigo que elle espera.

--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle no te
servir seno para ver o rasto de meu p antes que o vento o apague.

A linda caadora desferiu a corrida pela imensa campina. Aps ella se
arremessou Jaguar, que muitas vezes vencera o tapir.

Mas a virjem dos Tocantins corria como a nand no dezerto, e o caador
conheceu que seu brao nunca a poderia alcanar.

Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do
assa a faxa que flutuava ao sopro do vento.

--A filha dos Tocantins tem no p as azas do beija-flr; mas a seta de
Jaguar va como o gavio. No te assustes, virjem das florestas; tua
formozura venceu o impeto de meu brao e apagou a clera no corao
feroz do caador. Feliz o guerreiro que te possuir.

--Eu sou Arac, a estrela do dia, filha de Itaqu, pai da grande nao
Tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para
merecer que elle o escolha por filho. O mais forte e valente me ter por
espoza. Vem comigo, guerreiro araguaia; excede aos outros no trabalho e
na constancia, e tu rompers a liga de Arac na proxima lua do amor.

--No, filha do sol; Jaguar no deixou a taba de seus pais, onde
Jandira lhe guarda o seio de espoza, para ser escravo da virjem. Elle
vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho a sua
nao. Torna  taba dos Tocantins e dize aos cem guerreiros cativos de
teu amor, que Jaguar, o mais destemido dos caadores araguaias, os
dezafia ao combate.

--Arac vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ella guardar tua
lembrana, pois nunca seus olhos viram mais belo caador. Se fores
vencedor, ser uma alegria para a virjem do sol pertencer ao mais
valente dos guerreiros.

A virjem disse e dezapareceu na selva. Os olhos de Jaguar seguiram o
passo lijeiro da formoza caadora, como o guachimim que rasteja a
zabel.

Quando ella dezapareceu, o joven caador recostou-se ao tronco da
emburana e esperou.

       *       *       *       *       *

Do outro lado da campina assoma um guerreiro.

Tem na cabea o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma
franja das mesmas penas.

 um guerreiro tocantim. De lonje avistou Jaguar e reconheceu o penacho
vermelho dos araguaias.

As duas naes no esto em guerra; mas sem quebra da f pde um
guerreiro cansado do longo repouzo oferecer a outro guerreiro combate
leal.

Quando o tocantim armou o arco, Jaguar j tinha brandido o seu e
disparado no ar uma seta, mensajeira do dezafio.

Respondeu o guerreiro disparando tambem uma flecha no ar, para dizer que
aceitava o combate.

Ento os dois campees caminharam um para o outro com o passo grave e
pararam frente a frente.

--Eu sou Jaguar, filho de Camacan, chefe da valente nao dos
araguaias, que vem de lonje em busca da terra de seus pais. Minha fama
corre as tabas e tu j deves conhecer o maior caador das florestas. Mas
Jaguar despreza a fama de caador; elle quer um nome de guerra, que
diga s naes a fora de seu brao e faa tremer aos mais bravos. Se
tua nao te aclamou forte entre os fortes, prepara-te para morrer; se
no, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o sangue do fraco no
manche o tacape virjem de Jaguar.

--O caraiba guiou teu passo ao encontro de Pojucan, o matador de gente,
guerreiro chefe da terrivel nao tocantim, que enche de terror as
outras naes. Ha tres luas, desde que fujiram espavoridos os barbaros
Tapuias, que Pojucan no combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu
no s digno dos golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucan se compadece
de tua mocidade e consente em combater comtigo. Ters a gloria de ser
morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos
lembraro teu nome; e todos os mancebos de tua nao invejaro tua
sorte.

--Jaguar agradece a Tupan que te fez um grande guerreiro e o chefe mais
feroz da terrivel nao tocantim, Pojucan, matador de gente. A tua morte
ser a primeira faanha do caador araguaia e lhe dar um nome de guerra
que se torne o espanto dos seus e o terror das outras naes.

Os dois campees recuaram passo a passo at que se acharam a um tiro de
arco.

Ento soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra outro
brandindo o tacape.

       *       *       *       *       *

Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes
impetuozas no remoinho da Itaoca.

Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.

Os animais que passavam na floresta fujiram espavoridos, como se a
borrasca ribombasse no cu.

Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos
ares.

--O ubiratan  forte; mas ha outro ubiratan que lhe reziste. Como o
brao de Pojucan  que no ha outro brao. J viste, joven caador, o
veado nas garras da giboia? Assim vais morrer.

--Se tu fosses a cascavel que smente sabe morder, Jaguar te esmagaria
a cabea com o p e seguiria o seu caminho. Mas tu s a giboia feroz; e
Jaguar gosta de estrangular a giboia. No morrers pelo p, mas pela
mo do caador. Lana teu bote, guerreiro tocantim.

Pojucan estendeu os braos e estreitou os rins de Jaguar, que por sua
vez cinjiu os lombos do guerreiro.

Cada um dos campees pz na luta todas as suas foras, bastantes para
arrancar o tronco mais robusto da mata.

Ambos, porm, ficaram imoveis. Eram dois jatobs que naceram juntos e
entrelaaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.

Nada os desprende; nada os abala. O tufo passa bramindo sem ajital-os;
e elles permanecem quedos pelo volver dos tempos.

Um paj que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os,
pensando que eram as almas de dois guerreiros prezos no abrao da morte.

J a sombra se desdobrava pelo vale fra e o sol despedia-se dos cimos
dos montes, sem que os campees se movessem.

Por fim afrouxaram os braos e cada lutador recuou para contemplar seu
adversario. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.

Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um
prostrasse o outro.

--Tu s igual na valentia e na fora ao guerreiro chefe da nao
tocantim. Mas Pojucan no consente que haja na terra quem rezista a seu
brao.  precizo que tu morras, Jaguar, para que elle seja o primeiro
dos guerreiros que o sol alumia.

--Pojucan, matador de gente, guerreiro feroz da nao tocantim, Jaguar
deixou-te viver at este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe
um nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros
que existiram at este momento, elle quer que tua derrota seja a sua
primeira faanha.

Disse, e, arrancando do tronco da emburana a lana de duas pontas,
caminhou outra vez para Pojucan.

--Esta arma que tu vs  a lana de duas pontas. Jaguar fabricou-a do
rijo galho da craba, endurecido pelo fogo. Sua mo foi a primeira que a
arremessou e teu corpo  o primeiro cujo sangue ella vai beber. Empunha
a lana de duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguar para receberes
a morte dos valentes.

       *       *       *       *       *

Pojucan repeliu a lana que o joven caador lhe aprezentra.

--Jmais no combate um guerreiro tocantim atacar seu adversario
dezarmado; nem Pojucan preciza da lana. Ataca tu, Jaguar, que no tens
confiana em teu brao; o de Pojucan basta para te prostrar.

--O orgulho te cega, guerreiro chefe. A lana conhece Jaguar que a
inventou e lhe obedece como o arpo  corda do pescador. Aperta-a bem em
tua mo robusta e Jaguar estar duas vezes mais armado do que tu, que
no sabes manejal-a.

O chefe tocantim cruzou os braos.

--Toma a lana, Pojucan, se no queres que te chame covarde; pois tu
sabes que Jaguar no te matar dezarmado, mas te abandonar como
indigno de combater com o filho do maior guerreiro araguaia, o grande
Camacan.

O chefe tocantim arrojou-se contra Jaguar que lhe travou dos pulsos e
outra vez os dois campees ficaram imoveis.

A noite veiu achal-os na mesma pozio. Tres vezes cessaram a luta, e de
novo a travaram. Mas afinal se convenceram que nenhum derrubaria o
outro.

Ento Pojucan disse:

--Guerreiro araguaia,  precizo acabar o combate. A terra no chega
para dois guerreiros como ns. Finca no cho a lana e caminhemos at 
marjem do rio. Aquelle que primeiro chegar, ser o senhor da lana e da
vida do outro.

Assim fizeram os dois campees. Chegados  marjem do rio, dispararam a
corrida. Ao mesmo tempo a mo de ambos tocou a haste da lana; mas
Jaguar, arremessado pelo impeto da desfilada, no pde arrancar a arma
que ficou na mo de Pojucan.

       *       *       *       *       *

O guerreiro chefe enrista desdenhozamente a lana e caminha para
Jaguar. No vai como o guerreiro que marcha ao combate, mas como o
matador que se prepara para imolar a vitima.

--Guerreiro chefe, Jaguar no te quer matar como a serpente que ataca o
descuidado caador. Dez vezes j, se quizesse, elle te houvera ferido
com tua propria mo.

--Abandona a gloria do guerreiro, que no  para ti, nhengaba. Pojucan
te conceder a vida, e te levar cativo  taba dos tocantins para que tu
cantes as suas faanhas na festa dos guerreiros.

--Cativo sers tu, mas no para cantar os feitos dos guerreiros. Tu
servirs na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.

Arremessou-se Pojucan avante e desfechou o golpe; mas a lana rodra e
foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.

Quando o corpo robusto de Pojucan tombava, cravado pelo dardo, Jaguar
de um salto calcou a mo direita sobre o hombro esquerdo do vencido e
brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo:

--Eu sou Ubirajara, o senhor da lana, o guerreiro invencivel que tem
por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucan, e proclama o
primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior guerreiro que
existiu antes delle.

--Se meu valor, que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma
graa, no deixes que Pojucan sofra mais um instante a vergonha de sua
derrota.

--No, chefe tocantim. Tu me acompanhars  taba dos araguaias para
narrar meu valor. A fama de Jaguar preciza de um prizioneiro como o
grande Pojucan na festa da vitoria.

--Tu s cruel, guerreiro da lana; mas fica certo que, se tua arma
traioeira me feriu o peito, o suplicio no vencer a constancia do
varo tocantim que sabe afrontar as iras de Tupan e desprezar a vingana
dos araguaias.




II

O GUERREIRO


Retumba a festa na taba dos araguaias.

As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura
as chamas da alegria.

Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas 
grande taba do chefe.

Era a festa guerreira de Jaguar, filho de Camacan, o maior chefe dos
araguaias.

No fundo da ocara prezide o conselho dos ancios, que decide da paz ou
da guerra, e governa a valente nao.

Os ancios, sentados no longo giru, contemplam taciturnos a gerao de
guerreiros que elles ensinaram a combater, e tm saudades da passada
gloria.

Suspenso em frente delles est o grande arco da nao araguaia, ornado
nas pontas das penas vermelhas da arara.

 a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguar,
conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.

Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mo tantas vezes brandiu
na guerra. Em p, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa.

De um e outro lado da vasta ocara, est a multido dos guerreiros,
colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os vares;
por ultimo os moos guerreiros.

Vm depois os jovens caadores que j deixaram a oca materna e esto
impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre
os guerreiros.

Mas para isso tm de passar pelas provas, e sua juventude no lhes
consente ainda a robustez, que tamanho esforo demanda.

Todos invejam a gloria de Jaguar que hontem era o primeiro entre elles,
e hoje ali est disputando a fama aos mais valentes guerreiros.

Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito
patrio no podem ser admitidas nas festas guerreiras.

De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as
espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos.

Exultam quando ouvem celebrar as faanhas dos seus; mas no ouzam
murmurar uma palavra.

Entre ellas est Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos no se
cansam de admirar Jaguar, seu futuro senhor.

J lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caador, para
ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como
espoza ao combate.

       *       *       *       *       *

No centro da ocara ergueu-se Jaguar.

Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida no abateu, mostra a
grande alma, serena em face dos inimigos.

Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho comeou:

--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra.

Depois que Jaguar sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um
nome famozo.

Deixando a taba, viu o falco negro que despedia o vo para as aguas
sem fim, e Jaguar disse:

O falco negro  o valente guerreiro dos ares; elle ser a fama do
guerreiro araguaia que atravessar as nuvens e subir ao cu.

Ento Jaguar marcou o vo do falco negro e seguiu por elle.

O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol
Jaguar encontrou um guerreiro da nao tocantim, senhora do grande rio.

Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeo que Tupan enviou
a Jaguar para dar-lhe o nome de guerra?

Elle a est diante de vs.

 o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais
valente da poderoza nao dos tocantins, senhores do grande rio.

Vs que o tendes aqui prezente, vde como  terrivel o seu aspeto, mas
s eu que o pelejei conheo o seu valor no combate.

O tacape em sua mo possante  como o tronco do ubiratan que brotou no
rochedo e creceu.

Jaguar, que arranca da terra o cedro gigante, no o pde arrancar de
sua mo; e foi obrigado a despedaal-o.

Os braos de Pojucan, quando elle os estende na luta, no ha quem os
vergue; so dois penedos que saem da terra.

Seu corpo  a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo
Camacan, o pde abalar.

Pojucan era o varo mais forte e o mais valente guerreiro que o sol
tinha visto at quelle momento.

Foi este, guerreiros araguaias, o here que ofereceu combate ao filho
de Camacan; e Jaguar aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado
um inimigo digno de seu valor.

Elle vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguem duvida da palavra
de Jaguar e da fora do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saber
quem  Pojucan.

O chefe tocantim lanou um olhar ameaador  multido dos guerreiros;
mas nenhum ouzou aceitar o dezafio.

       *       *       *       *       *

Pojucan alou a mo em sinal de que dezejava falar; todos escutaram com
respeito o here, ainda maior na desgraa.

--Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucan, vosso inimigo, que
afronta as iras dos fortes e despreza a vingana dos fracos.

Pojucan, guerreiro chefe da grande nao tocantim, jmais encontrou
guerreiro que rezistisse  fora de seu brao invencivel.

Mas Tupan, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de
Pojucan, como vencedor, emprestou sua fora a Jaguar, o maior guerreiro
que j pizou a terra.

Eu que senti o impeto de sua corajem, posso dizer-vos que s o sangue
tocantim  capaz de gerar um guerreiro to poderozo.

Foi alguma virjem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucan,
e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.

Seu brao  como o corisco do cu; e a sua fora como a tempestade que
dece das nuvens.

Calou-se Pojucan; e Jaguar continuou o seu canto de guerra:

Quando a sombra comeava a decer da crista da montanha, Pojucan e
Jaguar caminharam um contra o outro.

Toda a noite combateram. O sol nacendo veiu achal-os ainda na peleja,
como os deixra; nem vencidos, nem vencedores.

Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo,
e na destreza das armas.

Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois
ambos queriam ser o primeiro.

Foi ento que o chefe tocantim ganhou na corrida a lana de duas
pontas, que Jaguar havia fabricado.

Tres vezes seu punho robusto a brandiu, e tres vezes ella escapou-lhe
da mo, como a serpente das garras do gavio.

Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lana,
escrava de Jaguar, cravou o peito do inimigo.

Elle caiu, o guerreiro chefe, o grande varo dos tocantins, o valente
dos valentes, Pojucan, o feroz matador de gente.

E Jaguar brandindo a arma da vitoria bradou:

Eu sou Ubirajara, o senhor da lana, que venceu o primeiro guerreiro
dos guerreiros de Tupan.

Eu sou Ubirajara, o senhor da lana, o guerreiro terrivel que tem por
arma uma serpente.

       *       *       *       *       *

O trocano ribombou, derramando lonje pela amplido dos vales e pelos
cos das montanhas a pocema do triunfo.

Os tacapes, vibrados pela mo pujante dos guerreiros, bateram nos largos
escudos retinindo.

Mas a voz possante da multido dos guerreiros cobriu o imenso rumor
clamando:

--Tu s Ubirajara, o senhor da lana, o vencedor de Pojucan, o maior
guerreiro da nao tocantim.

Os guerreiros araguaias te recebem por seu irmo nas armas e te aclamam
forte entre os fortes.

Os cantores celebraro teu nome como os mais famozos da nao araguaia
e Camacan ter a gloria de chamar-se pai de Ubirajara, como foi gloria
para Jaguar ser filho de Camacan.

Quando parou o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros,
avanou Camacan, o grande chefe dos araguaias.

De um salto o ancio alcanou o arco da nao, insignia do chefe na
guerra, e caminhou para Ubirajara.

O arco era de ubiratan, grosso como o brao do mais robusto guerreiro; a
corda tranada de craut tinha o corpo do dedo que a brandia.

Os mais possantes vares da nao araguaia a custo empunhavam o grande
arco; mas s um tinha fora para disparar a seta.

Era Camacan, o chefe dos chefes, que dirijia na guerra os guerreiros
araguaias.

Assim falou o ancio:

--Ubirajara, senhor da lana,  tempo de empunhares o grande arco da
nao araguaia, que deve estar na mo do mais possante. Camacan o
conquistou no dia em que escolheu por espoza Jaanan, a virjem dos olhos
de fogo, em cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apezar
da velhice que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ouzaria disputar o
grande arco ao velho chefe, que no sofresse logo o castigo de sua
audacia. Mas Tupan ordena que o ancio se curve para a terra at
dezabar como o tronco carcomido, e que o mancebo se eleve para o cu
como a arvore altaneira. Camacan revive em ti; a gloria de ser o maior
guerreiro crece com a gloria de ter gerado um guerreiro ainda maior do
que elle.

       *       *       *       *       *

Ubirajara tomou o arco que lhe aprezentava o pai e disse:

--Camacan, tu s o primeiro guerreiro e o maior chefe da nao araguaia.
Para a gloria de Jaguar bastava que elle se mostrasse teu filho no
valor como  teu filho no sangue. Mas o grande arco da nao araguaia,
Ubirajara no o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o ha de
conquistar pela sua pujana.

Disse, e arremessando no meio da ocara o grande arco, bradou:

--O guerreiro que ouze empunhar o grande arco da nao araguaia, venha
disputal-o a Ubirajara.

Nenhuma voz se ergueu; nenhum campeo avanou o passo.

O trocano reboou de novo, e no meio da pocema de triunfo, a multido dos
guerreiros proclamou:

--Ubirajara, senhor da lana, tu s o mais forte dos guerreiros
araguaias; empunha o arco chefe.

Ento Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na
floresta.

Era a primeira seta, mensajeira do chefe, que levava s nuvens a fama de
Ubirajara.

Os cantores exaltaram a gloria dos dois chefes: a do velho Camacan, que
trocra a arma do guerreiro pelo bordo do conselho; e a do joven
Ubirajara, que na sua mocidade j se mostrava to grande, como fra o
pai na robustez dos anos.

Pojucan teve o consolo de ouvir seu nome, repetido muitas vezes e
louvado a par com o de seu vencedor.

Os cantores celebraram depois os grandes feitos da nao araguaia, desde
os tempos remotos em que os projenitores deixaram a grande taba dos
Tamoios, seus avs.

Quando os nhengaras entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres
com vazos cheios do generozo cauim e aprezentaram as taas aos
guerreiros.

Jandira suspirou; ella era virjem, e como suas companheiras, no podia
aparecer na festa dos guerreiros.

Sentiu no ser j espoza, para ter o orgulho de encher de vinho
espumante, por ella fabricado, a taa de seu here e senhor.

O guincho agoureiro da inhma resoava na mata, quando comeou a dansa
guerreira que durou at perto da alvorada.




III

A NOIVA


Ao raiar da luz no cu, Jandira abriu os lindos olhos negros.

Seu canto foi o primeiro que saudou o nacer do dia e acordou em seu
ninho a viuvinha.

A doce filha de Maj saltou da rde que embalra os sonhos castos da
virjem, e despediu-se della como a jaanan que deixa a moita para
habitar o ninho do amor.

A virjem tocantim acreditava ter dormido a ultima noite na cabana
paterna, que essa manh ia trocar pela cabana do espozo.

O joven caador que a amava, Jaguar, fra aclamado guerreiro, e entre
todos os guerreiros o chefe da nao.

Como guerreiro elle pde tomar uma espoza; e como chefe pertence-lhe a
virjem de sua escolha, entre as mais formozas da taba.

Ainda que a virjem tenha um noivo, ou que o pai a destine a outro, se o
chefe a dezeja, a vontade de Tupan  que lhe pertena.

Tupan assim ordena para que os grandes chefes possam gerar de seu sangue
os mais belos e valentes guerreiros.

Jaguar antes de ser aclamado chefe j a tinha escolhido, e Jandira no
aceitaria outro noivo seno o joven caador a quem amava.

Ella o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe,
ha de vir buscal-a.

Ento a virjem se despedir de Maj; e ir armar na cabana de seu
guerreiro e senhor a rde da espoza.

Lijeira e contente corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara,
para quem purifica seu corpo e se unje com o oleo fragrante do
sassafraz.

Ella quer que o destemido guerreiro ache seu amor saborozo como o vinho
que espum na taa, e ferve nas veias.

Tornando  cabana, perfumou de beijoim a larga rde que tecera dos fios
do algodo entrelaados com as penas do guar.

Essa rde tinha duas vezes o tamanho de sua rde de virjem, porque era a
rde do cazamento em que devia receber o espozo.

Depois arrumou no ur a loua que havia fabricado para o servio do
guerreiro, e que devia transportar  sua nova cabana.

Quando terminou todos os preparativos, encostou-se  porta da cabana;
seus olhos impacientes chamavam Ubirajara.

Mas o guerreiro no vinha, e o sol j tinha subido alm da crista da
serra.

A luz do dia derramava a alegria pelos campos; e a alegria que lhe
afagra os sonhos da noite fujia agora da alma de Jandira.

Ento a filha de Maj partiu em busca do noivo que a esquecera.

       *       *       *       *       *

No mais escuro da mata vaga o chefe dos araguaias.

Seus olhos fojem  luz do dia e buscam a sombra, onde encontram a imajem
que traz na lembrana.

 noite quando o guerreiro dormia em sua rde solitaria, Arac, a linda
virjem, lhe apareceu em sonho e lhe falou:

--Jaguar, joven caador, tu dormes descansado emquanto os guerreiros
tocantins se preparam para roubar a virjem de teus amores. Ergue-te e
parte, se no queres chegar tarde.

Elle erguera-se para seguil-a; mas a virjem formoza desferiu a corrida
veloz atravs da campina e dezapareceu na floresta.

Neste ponto do sonho o guerreiro acordra.

Uma estrela brilhante listrava o cu, como uma lagrima de fogo, e
Ubirajara pensou que era o rasto de Arac, a filha da luz.

A jurit arrolhou docemente na mata e Ubirajara lembrou-se da voz
mavioza da virjem do sol.

O guerreiro tornou  rde, esperando achar ali outra vez o sonho que
vizitra sua alma; porm o sono fujira de seus olhos.

Quando raiou a primeira alvorada, Ubirajara saiu da cabana e buscou no
mais espesso da mata a sombra propicia  saudade.

Seu passo o guiava sem querer para as bandas do grande rio, onde devia
ficar a taba dos tocantins.

 assim que os coqueiros, imoveis na praia, inclinam para o nacente seu
verde cocar.

Ubirajara ouviu o rumor de um passo lijeiro atravs da mata; de lonje
conheceu Jandira que o procurava.

A doce virjem achra  porta da cabana o rasto do guerreiro e o seguira
atravs da floresta.

--Que mu sonho aflige Ubirajara, o senhor da lana e o maior dos
guerreiros, chefe da grande nao araguaia, para que elle se afaste de
sua taba e esquea a noiva que o espera.

--A tristeza entrou no corao de Ubirajara, que no sabe mais dizer-te
palavras de alegria, linda virjem.

--A tristeza  amarga; quando entra no corao do guerreiro, o enche de
fel. Mas Jandira far como sua irm, a abelha, ella fabricar em seus
labios os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras sero os
fios de mel que ella derramar na alma do espozo.

--Filha de Maj, doce virjem, ainda no chegou o dia em que Ubirajara
escolha uma espoza; nem elle sabe ainda qual o seio que Tupan destinou
para gerar o primeiro filho do grande chefe dos araguaias.

       *       *       *       *       *

O labio de Jandira emudeceu; mas o peito soluou.

A virjem conheceu que o amor de Ubirajara retirava-se della, e que de
todo o perderia se o no defendesse.

Ento escondeu a dr no fundo da alma e chamou o rizo a seus labios, a
alegria a seus olhos.

Ella sabia que os guerreiros amam a flr da formozura, como a folhajem
da arvore; e que a tristeza murcha a graa da mais linda virjem.

--Chefe dos araguaias, Ubirajara, no desprezes Jandira que outr'ora
escolheste para tua noiva. Se ento ella era formoza a teus olhos, mais
formoza se far para merecer teu amor. Tu gostavas de seus cabelos
negros que arrastam no cho; ella os entranar com as plumas vermelhas
do guar para que te paream mais bonitos. Seus olhos negros que te
falavam, ella os cercar de uma listra amarela como os olhos da jaanan.
Sua boca, que ainda no provaste, Jandira a encher de amor para que
bebas nella o contentamento.

Jandira esperou a palavra de Ubirajara; mas os labios mudos do guerreiro
no se abriram.

--Teu amor, Ubirajara, ficar em meu seio como a flr no vale. Jandira
te dar muitos filhos e todos dignos de teu valor. Nestes peitos, que te
pertencem, ella os nutrir com seu sangue, no menos guerreiro do que o
teu; porque  o sangue de Maj, o maior dos ancios, depois de Camacan.
Seus braos que outr'ora querias para tua cintura, no serviro
unicamente para te abraarem, mas tambem para te servirem. Tua espoza te
acompanhar por toda a parte, na taba, como no campo do combate; ella
cuidar de tua cabana; aprontar as mais saborozas iguarias para seu
guerreiro, e fabricar para elle o vinho, que  a alma da festa.

--Jandira  a mais bela das virjens araguaias. Seu amor far a ventura
de um guerreiro valente. Ubirajara no podia achar para si uma espoza
mais fiel, nem para seus filhos outra mi to fecunda. Mas a noite deceu
em sua alma. S a estrela do dia pde restituir-lhe a alegria que o
abandonou. A filha de Maj merece um guerreiro que tenha olhos para a
sua formozura.

       *       *       *       *       *

Pojucan sentou-se pensativo  porta da cabana.

O semblante, sempre grave, como convm a um chefe, cobre-se de tristeza.

A noite que foje da terra, vencida pelo sol, parece recolher-se na alma
do chefe tocantim.

No  sua ferida que o faz sofrer. O balsamo suave da embaiba sra
rapidamente os golpes mais profundos; e os vares tocantins aprendem
desde o bero a desprezar a dr.

 em seu corao de guerreiro, que Pojucan sente as garras do Anhanga.

O revez de ser vencido e cair prizioneiro, elle o suporta como o varo
forte que viu prostrados por Aresqui no campo da batalha os mais
terriveis guerreiros.

A grandeza do vencedor o consola; resta-lhe ainda a gloria de ter
rezistido a um brao, como o de Ubirajara, grande chefe dos araguaias.

Mas elle esperava que depois de haver ornado com sua prezena a festa do
triunfo, o vencedor fosse generozo, e lhe concedesse a honra do
sacrificio.

 o temor de que Ubirajara lhe recuze uma morte glorioza e o retenha
cativo, que nesse momento acabrunha o chefe dos tocantins.

Elle, um guerreiro livre que pizra outr'ora como senhor aquelles
campos, reduzido  condio de escravo?

Elle, um varo chefe que tinha na obediencia de seu arco mais de mil
guerreiros valentes, obrigado a reconhecer um dono?

Elle, que afrontava a clera de Tupan, quando o deus irado rujia do cu,
curvar-se ao aceno de um homem, fosse embora o mais pujante dos filhos
da terra?

Pojucan estremecia quando se lembrava que podia ser condenado a to
grande humilhao.

Em seu terror promovia o passo, com o impeto de fujir para sempre da
taba dos araguaias, onde o ameaava aquella vergonha.

Mas uma fora invencivel atava-lhe a vontade. Elle no se pertencia
desde o momento em que Ubirajara lhe calcou a mo direita no hombro.

Esse era o sinal da conquista, que prendia o vencido ao vencedor;
aquelle que violasse a lei da guerra, perderia para sempre o nobre
titulo de guerreiro.

O desprezo do inimigo o acompanharia aos seus campos nativos; e a taba
de seus irmos no se abriria para o fujitivo que houvesse dezhonrado o
nome de sua nao.

Por isso na cabana solitaria, Pojucan est mais guardado do que se o
cercasse a multido dos guerreiros araguaias.

Vla elle proprio em si, porque vla em sua fama.

Pde Ubirajara esquecel-o, que na volta o encontrar ali onde o deixou.

Nada o arrancar da cabana; nem a necessidade de buscar o alimento para
o corpo.

Bem vinda ser a fome, se durar tanto que prostre seu corpo robusto, e o
entregue ao seio da terra, onde o guerreiro dorme o sono da gloria.

Alm rompe da selva Ubirajara, que se encaminha para a cabana com o
passo rapido.

Segue-o de perto Jandira, como a gentil cora acompanha o caador, que
lhe roubou o companheiro.

Descobrindo o chefe dos araguaias, Pojucan encerrou a tristeza dentro de
sua alma; e chamou ao rosto a altivez dos grandes guerreiros.

O chefe tocantim no queria que seu vencedor se regozijasse de ter-lhe
abatido o animo inflexivel.

       *       *       *       *       *

Quando Ubirajara se aproximou da cabana, Pojucan tomou-lhe o passo.

--Ubirajara, senhor da lana, grande chefe da nao araguaia, no
confessaste tu diante dos ancios das tabas e de todos os teus
guerreiros, que Pojucan era o varo mais forte e o mais terrivel no
combate, que o sol tinha visto at o momento de ser vencido por ti?

--Ubirajara o disse.  a voz da nao araguaia.

--Desde que tu cruzaste comigo a seta do dezafio at este momento,
Pojucan, guerreiro varo, e chefe de uma taba, na valente nao dos
tocantins, mostrou-se pela sua constancia e valor digno do sangue de
seus avs?

--Pojucan o disse; e a fama o repete.

--Ento porque Ubirajara, o grande chefe dos araguaias, no concede a
Pojucan a morte glorioza, que os tocantins jmais recuzaram a um
guerreiro valente, e que smente se nega aos fracos? J no serviu
Pojucan  tua gloria na festa do triunfo? Esperas delle que te obedea
como um escravo? Se aviltas o varo, a quem venceste, humilhas o teu
valor que elle exaltava.

O grande chefe araguaia ouviu sem interromper o prizioneiro, e respondeu
com gravidade:

--Ubirajara no recuza ao bravo chefe tocantim, seu terrivel inimigo, o
suplicio, que no negaria a qualquer guerreiro valente. Elle esperava
que tua ferida se fechasse de todo, para que o grande Pojucan possa no
dia do ultimo combate sustentar a fama de seu nome, e a gloria de um
varo que s foi vencido por Ubirajara.

O grande chefe dos araguaias levou aos labios a inubia de Camacan; a voz
do mando reboou pelo vasto ambito da taba.

Apareceram vinte jovens guerreiros, a quem elle ordenou que chamassem a
conselho os ancios.

Depois tornou ao chefe tocantim:

--Os araguaias receberam de seus avs o costume das naes que Tupan
creou. Elles destinam ao prizioneiro a mais bela e a mais ilustre de
todas as virjens da taba, para que ella conserve o sangue generozo do
here inimigo e aumente a nobreza e o valor de sua nao.

-- esta tambem a lei, que os guerreiros tocantins observam em suas
tabas.

--A mais bela e a mais nobre de todas as virjens araguaias, aquella que
se ergue como a palmeira no meio da campina coberta de flres, 
Jandira, a filha de Maj, que tem no seio os doces favos da abelha.

Travando ento do pulso de Jandira, que ali ficra preza de sua vista,
levou-a ao prizioneiro.

--Recebe-a como espoza do tumulo.

Jandira que ouviu espavorida aquellas palavras, quiz fujir; porm a mo
do chefe araguaia a reteve.

--Ubirajara parte, mas elle voltar para assistir a teu suplicio e
vibrar-te o ultimo golpe. Pojucan ter a gloria de morrer pela mo do
mais valente guerreiro.

       *       *       *       *       *

Ficaram Jandira e Pojucan em face um do outro.

--Virjem dos araguaias, Tupan te rezervou para espoza do mais terrivel
dos inimigos de tua nao. O filho de seu sangue ser o mais valente dos
guerreiros; tu sentirs orgulho por havel-o gerado em teu seio.

--Pojucan, chefe tocantim, Jandira nunca ser tua espoza.

--No  Ubirajara o chefe de tua nao, e no te destinou elle para
servir de noiva do tumulo ao guerreiro que vai morrer no suplicio?

--Ubirajara  o grande chefe da nao araguaia;  sua voz cala-se a
palavra dos ancios; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros;  sua
vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguem manda, nem
Tupan. Jandira  noiva de Ubirajara, e se elle no quizer aceital-a, o
guanumb a levar para os campos alegres onde repouzam as virjens que
morreram.

--Pojucan no carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins a mais
bela das virjens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes,
e de habitar sua rde. Nas tabas dos araguaias, onde nacem guerreiros
como Ubirajara, no faltaro virjens formozas, que dezejem a gloria de
ser mi de um filho de Pojucan.

--Jandira seria a primeira, se no conhecesse Jaguar, o mais belo dos
jovens caadores, que  hoje Ubirajara, o senhor da lana e chefe dos
chefes. Pojucan merece uma espoza que nunca tenha ouvido o canto de
outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno delle.

--Os ritos de tua nao no punem a noiva que rejeita o prizioneiro?

--Jandira sabe que se sujeita  morte; mas a morte  menos cruel do que
o abandono.

--Ento foje, virjem dos araguaias, e esconde-te  clera dos ancios.
Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perde.

--Jandira parte. Ella te dezeja uma espoza terna e a morte glorioza.

A filha de Maj penetrou na floresta, e afastou-se rapidamente da taba.

Quando j estava muito lonje, sentou-se  sombra de um manac coberto de
flres e cantou:

--Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cra para
enchel-os de mel saborozo.

Agora arrancaram-me as minhas azas com que eu voava pela campina
colhendo o p das flres; e secou a doura de meu sorrizo.

O canto que saa de meu seio era como o da patativa ao pr do sol,
quando se recolhe em seu ninho de paina macia.

Agora eu queria ter no corao uma serpente para morder aquella que me
roubou o amor de meu guerreiro.

Guardei a minha formozura para orgulho do espozo, e inveja dos outros
guerreiros.

Agora eu trocaria a flr do meu rosto por um aspeto terrivel que
infundisse pavor.

Meus seios mais lindos que os botes do cardo por um peito feroz, e as
mos lijeiras que tecem os fios do algodo pelas garras do jaguar.

Eu fui Jandira, o manac viozo que se vestia de flres azues e
brancas.

Agora sou como a jussara que perdeu a folha, e s tem espinhos para
ferir aquelles que se chegam.

       *       *       *       *       *

Os ancios j estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara
entrou.

Falou Camacan:

--Ubirajara, senhor da lana, chefe dos chefes, os pais da grande nao
araguaia escutam a tua voz.

O grande chefe tres vezes bateu no cho com a ponta do arco e disse:

--Pojucan, o chefe tocantim, pede a morte do combate; elle a merece,
porque  um grande guerreiro e um varo ilustre. Ubirajara concedeu-lhe
essa honra, como seu vencedor.

--Ubirajara  um inimigo generozo; respondeu Camacan.

Todos os ancios inclinaram gravemente a cabea encanecida para
exprimirem sua aprovao s palavras de Camacan.

Proseguiu Ubirajara:

-- tempo de escolher para o prizioneiro uma espoza digna de acompanhar
em seus ultimos dias ao here inimigo, e de ser mi do marab, o filho
da guerra.

Todos os abars dezejavam para si a gloria de oferecer uma filha ao
prizioneiro.

--Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Maj. Ella o merece por sua
formozura, e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.

--Ubirajara  um grande chefe, disse Camacan.

Os ancios aprovaram outra vez com a cabea; Maj acrecentou:

--O sangue do velho Maj no desmentir em Jandira a fama da nao
araguaia.

--No! disse Ubirajara e todos os ancios repetiram: No!

O grande chefe tornou com a voz pauzada:

--Celebrai a ceremonia da entrega da espoza ao prizioneiro. Ubirajara
parte; s estar de volta na proxima lua para assistir ao suplicio de
Pojucan. Se na auzencia de Ubirajara cair na taba a flecha, nuncia da
guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraam os grandes rios, e
soltai a voz da nao araguaia. Nesse dia Ubirajara ser comvosco.

Os prudentes ancios, com a cabea inclinada para melhor ouvir, recebiam
as palavras do grande chefe e as guardavam na memoria.

Quando Ubirajara se calou, Camacan repetiu, ainda mais pauzado, as
recomendaes do filho:

-- esta a vontade de Ubirajara?

--Tu o disseste.

--Os ancios guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda
Camacan.

--Ella entrou no espirito dos abars, como a raiz no seio da terra,
observou Maj.

--Bem dito, repetiram todos.

Ubirajara saiu do carbeto; aps elle os ancios se retiraram
lentamente.




IV

A HOSPITALIDADE


Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins.

 a hora em que as sombras abraam os troncos das arvores e o sol
descansa em meio da carreira.

A floresta emudece, e todos os viventes se abrigam da calma que abraza.

Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos
tocantins.

Quando chegou  distancia do tiro de uma flecha despedida pelo mais
robusto guerreiro, tocou a inubia.

O guerreiro de vijia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta,
alou a mo direita para mostrar a senha da paz.

Ento avanou para a taba; na entrada da caissara que cercava o campo
dos tocantins, atirou ao cho a seta partida.

Os guerreiros que tinham acudido ao som da inubia, deixaram passar o
estranjeiro sem inquirir donde vinha, nem o que o trouxera.

Era este o costume herdado de seus maiores, que o hospede mandava na
taba aonde Tupan o conduzia.

Ubirajara passou entre os guerreiros, e dirijiu-se  cabana mais alta
que ficava no centro da ocara.

A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta,
dizia que era ali a cabana do grande chefe.

Mas Ubirajara j o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira 
grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sitio onde
habitava Arac, a estrela do dia.

A cabana estava dezerta naquelle instante, mas ouvia-se a fala das
mulheres que trabalhavam no terreiro.

Ubirajara transpz o limiar, e levantando a voz disse:

--O estranjeiro chegou.

Acudiram as mulheres, e conduziram Ubirajara  prezena do grande chefe
dos tocantins.

Itaqu passava as horas da ardente calma  sombra da frondoza gameleira,
que podia abrigar cem guerreiros em baixo de sua rama.

Repouzando dos combates, o formidavel guerreiro no desdenhava as artes
da paz em que era to consumado como nas batalhas.

Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho  familia
de que era pai, e a nao de que era chefe.

Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mos erguidas,
urdiam os fios de algodo, passados pelos dedos abertos em frma de
pente.

Itaqu manejava a lanadeira, to destro como na peleja vibrava o
tacape. Sua mo lijeira tramava a teia de uma rde, que entretecia das
penas douradas do galo da serra.

Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter
rematado a urdidura, entregou a lanadeira ao guerreiro Piraj que
estava a seu lado, e veiu ao encontro do hospede.

--O estranjeiro veiu  cabana de Itaqu, grande chefe da nao tocantim,
disse Ubirajara.

--Bem vindo  o estranjeiro  cabana de Itaqu, grande chefe da nao
tocantim.

Ento o tuxava voltou-se para Jacamim, a mi de seus filhos:

--Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, para que elle e o
estranjeiro troquem a fumaa da hospitalidade.

Os mensajeiros j corriam pela taba, avizando os guerreiros moacaras da
vinda do hospede  cabana de Itaqu.

Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o
passo grave  oca principal afim de honrar o hospede do grande chefe da
nao tocantim.

Ali chegados, cada um dirijiu ao estranjeiro a pergunta da hospitalidade
e deu-lhe a boa vinda.

       *       *       *       *       *

Depois que Itaqu ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com elle
trocou a fumaa da hospitalidade, os cantores entoaram a saudao da
chegada:

O hospede  mensajeiro de Tupan. Elle traz a alegria  cabana; e quando
parte leva comsigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.

Nas tabas por onde passa, e na terra de seus pais, elle conta aos
velhos, que depois ensinam aos moos, as proezas dos heres que viu em
seu caminho, e de quem recebeu o abrao da paz.

O hospede  mensajeiro de Tupan. Elle traz comsigo a sabedoria; na
cabana do guerreiro que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com
respeito.

Em suas palavras prudentes, os ancios da taba aprendem, para ensinar
aos moos, os costumes dos outros povos, as faanhas de guerra
desconhecidas por elles, e as artes da paz, que o estranjeiro viu em
suas viajens.

O hospede  mensajeiro de Tupan. O primeiro que apareceu na taba dos
avs da nao tocantim, foi Sum, que veiu de onde a terra comea e
caminhou para onde a terra acaba.

Delle aprenderam as naes a plantar a mandioca para fazer a farinha, e
a tirar do caj e do ananaz o generozo cauim, que alegra o corao do
guerreiro.

O hospede  mensajeiro de Tupan. Quando o estranjeiro entra na cabana,
o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, no sabe se elle  um chefe
ilustre ou o grande Sum que volta de sua viajem.

O sabio ensina por onde passa os segredos da paz, e o here as faanhas
da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade a gloria de ter
abrigado um grande varo.

O hospede  mensajeiro de Tupan. Por seu caminho vai deixando a
abundancia e a festa; depois do banquete da boa vinda as arvores vergam
com os frutos, e a caa no cabe na floresta.

A cabana que fecha a porta ao hospede, o vento a arranca, o fogo do cu
a abraza. O guerreiro que no se alegra com a chegada do hospede, v
murchar ao redor de si a espoza, os filhos, as mulheres e as roas que
elle plantou.

Bem vindo seja o estranjeiro na cabana de Itaqu, o grande chefe da
nao tocantim, que teve a gloria de ser escolhido pelo hospede.

Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te
saudam, mensajeiro de Tupan.

Emquanto na cabana resa o canto da boa vinda, Jacamim, a espoza de
Itaqu, chamou as amantes do marido, suas servas, para ajudal-a a
preparar o banquete da hospitalidade.

As servas pressurosas estenderam  sombra da gameleira as alvas esteiras
de palmas entranadas de airis e colocaram sobre ellas os urs cheios de
farinha d'agua.

Trouxeram tambem os camocins razos, onde se apinhavam as moquecas
envoltas em folha de banana, e peas de carne, assada no biarib, que
ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.

Depois suspenderam a caa mais volumoza, veados e antas, assim como as
igaabas de cauim, nos ramos inclinados da arvore, em altura que o brao
do guerreiro podesse alcanar.

Frutas de varias especies, pencas douradas de banana, cachos rxos de
assa, os rubros cros, e os fragrantes abacaxis, enchiam o giru
levantado no meio do terreiro.

       *       *       *       *       *

Jacamim conduzira o hospede  sombra da gameleira, onde o esperava o
banquete da chegada.

Ao lado de Ubirajara sentou-se Itaqu e depois os moacaras que tinham
vindo para a festa da hospitalidade.

Os guerreiros comeram em silencio. As mulheres dilijentes os serviam,
enchendo de vinho de caj e ananaz as largas combucas, tintas com a
pasta do crajur que d o mais brilhante carmim.

Quando o hospede, depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as
mos, Jacamim ordenou s servas que recolhessem os restos das provizes,
e retirou-se com ellas.

Tambem se afastaram os jovens guerreiros que ainda no tinham voz no
conselho. S ficaram sentados com o hospede, Itaqu, e os moacaras
senhores das cabanas.

O cachimbo do grande chefe passou de mo em mo e cada ancio bebeu a
fumaa da herva de Tupan, que inspira a prudencia no carbeto.

Ento disse o chefe:

--Itaqu dezeja dar a seu hospede um nome que lhe agrade, e preciza que
o ajude a sabedoria dos ancios.

A lei da hospitalidade no consentia que se perguntasse o nome ao
estranjeiro que chegava, nem que se indagasse de sua nao.

Talvez fosse um inimigo, e o hospede no devia encontrar, na cabana onde
se acolhia, seno a paz e a amizade.

O chefe, que tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de
que elle devia uzar emquanto permanecia na cabana hospedeira.

Foi Ip quem primeiro falou:

--Tu chamars ao hospede Juta, porque sua cabea domina o cocar dos
mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro aparece por cima
da mata.

Disse Tapir:

--Chama ao hospede Boitat, porque elle tem os olhos da grande serpente
de fogo, que va como o raio de Tupan.

Os moacaras, cada um por sua vez, falaram; e como a voz comeava do mais
moo para acabar no mais velho, as ultimas falas eram menos guerreiras e
traziam a prudencia da idade.

Assim Caraba, que era o segundo antes do chefe, disse:

--Itaqu, o hospede  o nuncio da paz. Tu deves chamal-o Jutorib, porque
elle trouxe a alegria  tua cabana.

Guarib, cujos anos enchiam a corda de sua existencia de mais ns, do
que tem o velho cip da floresta, falou por ultimo:

--O viajante  senhor na terra que elle piza como hospede e amigo; e o
nome  a honra do varo ilustre, porque narra sua sabedoria. Pergunta ao
estranjeiro como elle quer ser chamado na taba dos tocantins.

--Bem dito!

Itaqu, aprovando as palavras prudentes do ancio, perguntou a Ubirajara
que nome escolhia; este lhe respondeu:

--Eu sou aquelle que veiu trazido pela luz do cu. Chama-me Jurandir.

Nesse momento, Arac, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras,
e caminhou para a cabana.

Os mais valentes entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a
formoza caadora. Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da
virjem.

Os cantores saudaram de novo o hospede pelo nome que elle escolhera:

--Tu s aquelle que veiu trazido pela luz do cu. Ns te chamaremos
Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.

Tu s aquelle que veiu trazido pela luz do cu. Ns te chamaremos
Jurandir; e o nome de tua escolha alegrar o ouvido dos guerreiros.

       *       *       *       *       *

De longe Arac viu o estrangeiro, sentado entre os ancios, como o
frondoso jacarand no meio dos velhos troncos das aroeiras.

A virgem reconheceu logo o caador araguaia e adivinhou que ele viera 
cabana de Itaqu para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.

O corao de Arac encheu-se de alegria. Seus negros cabelos
estremeceram de contentamento, como as penas da jaanan quando presente
o formoso inverno.

O estrangeiro no queria ser conhecido; pois deixra o cocar das plumas
da arara, que era o ornato guerreiro da sua nao. Mas a imagem do jovem
caador ficra na lembrana da virgem, como fica na terra a verde
folhajem, depois da lua das aguas.

A lei da hospitalidade probia  virgem revelar o segredo do
estranjeiro, s della sabido. Nesse momento foi  sua alma que obedeceu
e no ao costume da nao.

Quando Arac chegou ao terreiro, os ancios se preparavam para ouvir a
maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.

O estrangeiro comeou:

--Jurandir  moo; ainda conta os anos pelos dedos e no viveu bastante
para saber o que os ancios da grande nao tocantim aprenderam nas
guerras e nas florestas.

O moo  o tapir que rompe a mata, e va como a seta. O velho  o
jabot prudente que no se apressa.

O tapir erra o caminho e no v por onde passa. O jabot observa tudo,
e sempre chega primeiro.

Jurandir  moo; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais
rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.

A primeira agua em que Jaanan, sua mi, o lavou, quando elle lhe
rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do
diluvio, depois que as retirou da terra.

Ainda Jurandir no era um caador, quando elle se banhou no par sem
fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se
mudam em sal.

Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde
nace, at  varzea sem fim que elle enche com suas aguas.

Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois
chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros.

Vem de um lado as aguas do mar, so os guerreiros azues, com penachos
de araruna; vem do outro as aguas do rio, so os guerreiros vermelhos
com penachos de namb.

Comea a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da
cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovo das aguas.

Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do cho o inimigo;
carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo.

Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vem passar
correndo as aguas do mar; so os guerreiros azues que fojem espavoridos
e vo esconder-se na sombra das florestas.

Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras,
senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio.

S ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros
cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade.

Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua
taba; e ellas guardam para os mais valentes a flr de sua beleza.

Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam smente as filhas;
e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes.

Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flr de
seu sangue. O filho ser maior do que elle; e o neto maior do que o
filho.

Sua gerao vai assim crecendo de tronco em tronco; e frma uma
floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e
robusto, porque recebe a seiva de seus avs.

       *       *       *       *       *

Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham
muitas vezes buscado Arac, repouzaram nella.

A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e no
escondeu sua alegria, como no esconde sua flr a juquer que o rio
beija.

A formoza caadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio
do sabi, quando se deleita com o calor do sol.

--Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella
se cobrir de sombra e frescura. Os guerreiros gostaro de reunir-se a
para falar da paz e da guerra.

Ella  como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e
que se pova de uma prole numeroza. As naes a respeitam porque  a mi
de valentes guerreiros; os ancios escutam seu conselho na paz e na
guerra.

As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, so como a palmeira do
murit, que rejeita o fruto antes que elle amadurea e o abandona 
correnteza do rio.

A espoza no desprende de si o filho, seno quando elle no chupa mais
seu peito. Ella  como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que 
a flr de seu sangue.

No  na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a
espoza; mas na taba de sua nao, onde Tupan guarda para seu valor a
mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.

O hospede respondeu:

--Jurandir sabe onde encontrar a virjem que dezeja para espoza. A luz
do cu o guia, e nada reziste  fora de seu brao.

Depois de responder ao canto de Arac, o estranjeiro continuou sua
maranduba, que todos ouviram silenciozos.

Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela
valente nao dos Tupinambs, decendentes da mais antiga gerao de
Tupi.

Os pajs dos Tupinambs lhe disseram que nas aguas do par sem fim vivia
uma nao de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.

Um dia esses guerreiros sariam das aguas para tomar a terra s naes
que a habitam; por isso os Tupinambs tinham decido s praias do mar,
para defendel-as contra o inimigo.

Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os
guerreiros da terra. Ento as aguas pulavam mais altas do que os montes;
seu estrondo era como o trovo.

Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina
amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho.

Os Tupinambs faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir
mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro
daquella nao.

Essas contas tornavam o p do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o
viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu
caminho.

Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os ancios admiravam-se de ver
o juizo prudente de um abar no corpo joven de to forte guerreiro.

Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de
Sum, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em
sua mocidade.

Calaram, porm, seu pensamento, para o comunicarem aos ancios quando se
reunisse o carbeto da nao.

O sol j decia para as montanhas quando terminou a festa da
hospitalidade na cabana de Itaqu.

Os moacaras partiram. Itaqu voltando  sua ocupao, deixou o hospede
senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse.

Vieram os jovens pescadores da taba com os anzes e gequis saber do
hospede que peixe elle preferia.

Depois delles chegaram os jovens caadores que antes de partir para a
floresta vinham receber os dezejos do hospede.

Por fim aproximaram-se as mulheres que j tinham rompido o fio da
virjindade, mas no eram nem espozas, nem amantes de guerreiros.

Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando
queriam, mas no recebiam a proteo de um guerreiro nem podiam jmais
ser mis da prole.

Os filhos concebidos no proprio seio s tinham por mi a espoza, que o
guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua gerao.

O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se d ao
estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.

Por isso vinham as moas oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle
escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rde na
cabana hospedeira.

Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos
olhos de Jurandir; pois no havia para ellas maior gloria do que a de
merecer o amor do estranjeiro.

Umas traziam as tranas urdidas com penas vistozas dos passaros de sua
predileo; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos
soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza.

Chegando diante do estranjeiro, comearam uma dansa amoroza para mostrar
a graa de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor
de Jurandir.

Arac fra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentra-se no
terreiro, junto  porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes
de jequerit, de que fazia um ramal para seu colo gentil.

Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir
abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto.

Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios
chamava o craju, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido
vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.

Jurandir apartou as mulheres e disse:

--As moas tocantins so formozas, qualquer dellas alegraria o sono do
estranjeiro. Mas Jurandir no veiu  cabana de Itaqu para gozar do amor
de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o at 
morte, e a virjem que escolheu para mi de seus filhos.

Quando Arac ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajer
se cobre de suas flres alvas e perfumadas com os orvalhos da manh.

Jurandir voltou-se ento para a virjem caadora:

--Estrela do dia, Arac, conduze-me  prezena de Itaqu.  tempo que
elle saiba o segredo do estranjeiro.

--Os sonhos disseram a Arac duas noites seguidas, que o joven caador
chegaria  cabana de Itaqu; ella te esperou. Quando meus olhos te viram
sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a
espoza.

O estranjeiro respondeu:

--Jurandir chegou  taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o
grande arco de sua nao. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua
rde no lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz
que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do
sol, e o trouxe  tua prezena.




V

SERVO DO AMOR


Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaqu e disse:

--Grande chefe dos tocantins, Jurandir no veiu  tua cabana para
receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arac,  formoza
virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a merea por sua
constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela fora
de seu brao.

Itaqu respondeu:

--Arac  a filha de minha velhice. A velhice  a idade da prudencia e
da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arac ter a
gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaqu no pde dezejar
para seu hospede maior alegria.

Desde esse momento, Jurandir no foi mais estranjeiro na taba dos
tocantins. Pertencia  oca de Itaqu, e devia, como servo do amor,
trabalhar para o pai de sua noiva.

Os guerreiros, cativos da beleza de Arac, conheceram que tinham de
combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de
perder a filha de Itaqu.

Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacar
boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaanan se balana no
seio do nenufar.

O manat erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o
rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas j levava o arpu do
pescador cravado no lombo.

Jurandir no esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha.
Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo  cabana de Itaqu, onde tres
guerreiros custaram a deital-o no giru.

As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra
para fazer as grelhas do biarib.

Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os
gritos dos caadores, que perseguiam a fra.

Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombra dos
caadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xing.

As arvores que seu peito encontrava caam lascadas.

Jurandir estendeu o brao. O velho tapir, agarrado pelo p, ficou
suspenso na carreira, como o passarinho prezo no lao. Nunca at aquelle
momento encontrra fora maior que a sua.

Uma vez decera  laga para beber. A sucur, que espreitava a caa,
mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente
encolhendo-se o arrastava at  beira d'agua.

Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho
tapir disparou pela floresta; e a sucur com a cauda preza  raiz da
arvore arrebentou pelo meio.

O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas
no pde abalar o brao de Jurandir, mais firme do que o tronco do
guarib.

O estranjeiro tornou  cabana com a caa. Nenhum dos guerreiros da taba,
nem mesmo o velho Itaqu, pde aguentar com as duas mos a fra bravia.

Ento Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos ps de Arac e disse:

--O brao de Jurandir far cair assim a teus ps o guerreiro que ouze
disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia.

       *       *       *       *       *

Nunca a abundancia reinra na cabana sempre farta do chefe dos
tocantins, como depois que a ella chegra o estranjeiro.

Jurandir era o maior caador das florestas, e o primeiro pescador dos
rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na
profundeza das aguas.

Nada escapava  destreza de sua mo. Onde ella no chegava, iam as unhas
de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras
do jaguar.

O estranjeiro soubera de Arac qual era a caa que Itaqu preferia, e
qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde ento nunca o velho
chefe sentiu a falta do manjar predileto.

Se no era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia
encontrar. No tornava  cabana sem a provizo necessaria para a
refeio do dia.

Depois da caa e da pesca, Jurandir trabalhava nas roas de Itaqu.
Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas
da maniva e semeasse o feijo, o milho e o fumo.

Entre os filhos das florestas a plantao devia ser feita pela mo da
mulher, que era mi de muitos filhos; porque ella transmitia  terra sua
fecundidade.

A semente que a mo da virjem depozitava no seio da terra dava flr; mas
da flr no saa fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim
endurecia como o pu de arco.

Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras
plantas, e s deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.

Quando o estranjeiro partia pela manh, Arac o acompanhava de lonje
pela floresta.

Sua vontade a levava aps elle.

O costume da taba no consentia que a virjem dezejada pelos servos de
seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por
espoza.

A filha de Itaqu no queria pertencer a outro guerreiro; mas
lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim
como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza.

Ento voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua
vontade, ella tecia as franjas para a rde do cazamento.

Sua mo sutil urdia com o alvo fio do crauat a fina penujem escarlate.
Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era
do peito da arra e que tinha as cres de seu guerreiro.

Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir
que voltava da caa. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do
estranjeiro.

Ento deciam ao rio. Era a hora do banho. Arac cortava as ondas mais
linda que a gara cr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como
um bando de galeires.

Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bto, podia alcanar
a formoza virjem. Ella parecia a flr do murur que se desprendeu da
haste, e passa levada pela corrente.

Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das
ondas. Jacamim cuidou que o jacar tinha arrebatado a filha de seu seio.
Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas no a encontraram.

Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braos
o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana,
onde foi esconder sua alegria.

Desde ento era no banho que Arac recebia o abrao de Jurandir, sem que
os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.

No seio das ondas ninguem a adivinhava, a no ser o ouvido sutil de
Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irer.

Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respirao. Depois
desprendiam-se do abrao e surjiam lonje um do outro.

       *       *       *       *       *

 tarde, voltando da caa, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle
conhecia.

Chegado  cabana, entregou a Jacamim o veado que matra, e saiu para
vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o
inquietava, no chegra at ali.

No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros
partiram para a caa e para a pesca. S ficaram na cabana Jacamim e as
mulheres de Itaqu.

Arac tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado
fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o
sinal de seus passos e no o descobriram.

Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoada
com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos
da trepadeira.

Nesse momento a arra cantou no olho do pirij. Arac precizava de suas
plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo.

Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabea de seu guerreiro
senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza.

A virjem armou o arco e seguiu a arra rompendo a folhajem. Quando ia
disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado.

Jurandir estava perto della, e segurava o brao de uma mulher, que ainda
tinha na mo a macana afiada.

Arac conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodo entretecida de
penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a
noiva do guerreiro.

--Filha de Maj, tua mo quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para
espoza. Tu vais morrer.

--Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella comeou a morrer, como a
baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua
alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na
voz dos sonhos.

--A virjem araguaia ameaou a vida de Arac; ella lhe pertence, disse a
filha de Itaqu.

Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imb, e atou as mos de
Jandira.

--Jandira  tua escrava. No lhe ds a liberdade. Ella tem a astucia da
serpente e seu veneno.

--Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a
guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que
traz nos labios o sorrizo da morte?

Jurandir no respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e
lembrou-se do tempo em que, joven caador, seguia na floresta a formoza
virjem araguaia.

       *       *       *       *       *

As duas virjens ficaram ss no claro da floresta.

J o rumor dos passos de Jurandir se apagra ao lonje, e ainda tinham
ambas os olhos cativos uma da outra.

Jandira pensou que ella no podia dar a Ubirajara a formozura da filha
de Itaqu. Arac receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez
para a linda virjem araguaia.

A filha de Maj preparou-se para morrer  mo de sua rival, mas ella
preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza.

Arac, a estrela do dia, cantou:

--O amor do guerreiro  a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem
fica triste como a varzea que perdeu sua relva.

Por isso Jandira est triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a
deixou solitaria como a namb, a quem o companheiro abandonou.

Mas o amor do guerreiro  como o orvalho da noite. Quando o sol queima
a varzea, elle dece do cu para cobril-a de verdura e de flres.

Arac est alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e
Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mi de seus filhos.

Quando a espoza de Jurandir no tiver mais beleza para dar a seu
guerreiro, ella consentir que Jandira durma em sua rde.

E o orvalho da noite decer do cu para cobrir a varzea de verdura e de
flres. E Jandira achar outra vez seu sorrizo de mel.

Assim cantou Arac, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu:

--A arvore que morreu no sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere
a morte  vergonha de ser tua serva, e  tristeza de ver a cada instante
a formozura da estranjeira que roubou seu amor.

Arac, a estrela do dia,  mais bela do que Jandira, mas no sabe amar
o guerreiro que a escolheu para mi de seus filhos.

Nunca Jandira ofereceria sua rde de espoza a outra mulher; e aquella
que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mo.

Ella amaria seu espozo tanto que sua graa nunca se retirasse della;
pois saberia morrer quando no tivesse mais beleza para dar-lhe.

A nao araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, seno
quando a terra j no pde dar-lhe mais frutos.

Assim  o guerreiro. Elle no retira seu amor da espoza que habita,
seno quando ella j no sabe alegrar sua alma.

Tornou a virjem tocantim:

--A cajazeira, depois que d seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca
a sombra de outra arvore para repouzar.

Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua
sombra  doce ao guerreiro.

A espoza  como a cajazeira. Quando o guerreiro no acha alegria em
seus braos, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte
a flr para chamal-o de novo ao seio.

Arac ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaqu. A cabana do grande
chefe dos tocantins est cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a
espoza.

As servas deram a Itaqu muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi
s Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do
guerreiro no morre nunca.

Elle  como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem
arrancal-a que brota sempre.

Arac quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel,
para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar.

Tu sers irm de Arac, e lhe dars um filho de Jurandir, to valente,
como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.

Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua
ira.

--Tua palavra de como o espinho da jussara, que tem o cco mais doce
que o mel.

As flechas de teu arco no matam mais do que os sorrizos que o amor do
guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.

Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro
escolheu para espoza, quando ainda era joven caador.

Nos campos alegres, onde vo os guerreiros quando morrem, elle me
chamar; e o guanumb vir buscar a minha alma no seio da flr do manac
para leval-a a seu amor.

Mata-me, ou deixa que eu morra para no ver mais tua beleza, e no
ouvir o canto de tua alegria.

Arac caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos.

--O amor do guerreiro no pertence  mulher que seus olhos primeiro
viram; mas quella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella
que no souber defender seu amor, e merecer o espozo.

Arac disse, e tirou da uiraaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os
pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos:

--A vontade de Ubirajara atou os braos de Jandira; ella rejeita a
liberdade dada por ti. Arac pde ser preferida, porm no ser mais
generoza do que a filha de Maj.




VI

O COMBATE NUPCIAL


Chegou o dia em que os noivos de Arac deviam disputar a posse da
formoza virjem.

Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo
vale sua arassoia de ouro.

A grande nao tocantim cerca a vasta campina. No centro esto os
ancios, que formam o grande carbeto.

Em frente aparece Arac, a estrela do dia, que ha de ser o premio da
constancia e fortaleza do mais destro guerreiro.

Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoa com a lembrana do dia
em que Itaqu a conquistou, lutando com os mais feros mancebos
tocantins.

De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um
cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao
combate.

 a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a
prezena das mulheres, porque se trata da sua gloria.

Contemplando o esforo heroico dos mais nobres guerreiros para
conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a
prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a f ao primeiro
amor.

Itaqu, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela
valente nao que dirije, como pela formoza virjem de que  pai.

Quando seus olhos admiram a multido de guerreiros, servos do amor de
Arac, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a
fronte soberba como o velho ip da floresta coroado de flres.

Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas
verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da
virjindade.

L caminha Piraj, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem
obedece o manat e o golfinho.

Junto delle ergue-se Uirass, que tomou este nome do valente guerreiro
dos ares, pelo mpeto do assalto.

Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagas; Cauat, o corredor
das florestas; Cor, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos,
e j guerreiros de fama.

Entre todos, porm, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabea
dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da
serrania.

Os muzicos fizeram retroar os bors, anunciando o comeo da festa; e os
servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.

Ento os nhengaras levantaram o canto nupcial.

A espoza  a alegria e a fora do guerreiro. Ella acende em suas veias
um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo
da cabana.

Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra 
conquistar uma espoza.

No basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de
um grande chefe;  precizo a paciencia para sofrer, e a perseverana no
trabalho.

Arac, a estrela do dia, filha de Itaqu, ser a alegria e a gloria do
mais forte e do mais valente.

Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande
chefe, sero os maiores guerreiros das naes.

       *       *       *       *       *

Itaqu deu sinal; o combate comeou.

Piraj foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape:

--Arac, estrela do dia, tu sers espoza do guerreiro Piraj, que te vai
conquistar pela fora de seu brao.

Avanou Uirass, e disse:

--A virjem formoza ama ao guerreiro Uirass e ha de pertencer-lhe.

A noiva cantou:

Arac ama o mais forte e mais valente. Ella pertencer ao vencedor, que
vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da
espoza.

A voz mavioza da virjem afagou a esperana de todos os campees; mas
seus olhos ternos s viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de
sua alma.

Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares
encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.

Afinal Piraj, ameaado pelo bote do adversario, recuou um passo do
logar em que se postra. Pela lei do combate estava vencido, e teve de
deixar o campo.

Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna at
Cor que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram
disputal-o.

Faltava Jurandir. O estranjeiro avanou gravemente, como convinha a um
grande guerreiro da nao araguaia.

Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para
descansar.

A mo do guerreiro arrastava pelo cho o tacape, que desdenhava erguer
para um combate sem gloria.

Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse:

--Para merecer Arac, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem
guerreiros, e no combater um guerreiro fatigado.

Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituir a
teu brao a fora que perdeu. Basta a Jurandir esta mo, para te
arrebatar todas as tuas vitorias.

Disse e arremessou a arma aos ps do adversario.

Cor, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas
Jurandir aparou-o na mo firme e arrebatando o tacape que o ameaava
arrancou o guerreiro do cho.

Assim o pinheiro que o tufo arrebata, antes de partir o tronco,
desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.

Jurandir ficou s no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado
valentes guerreiros; talvez nas outras provas sassem vencedores.

       *       *       *       *       *

Os muzicos tocaram os bors; e os jovens caadores trouxeram para o meio
do campo a figura da noiva.

Era um grosso tro de madeira, no qual a mo destra de um paj entalhra
com o dente da cotia a cabea de uma mulher.

Tres caadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para
trazel-o desde a cabana do paj at o campo, onde ficou semelhante  uma
mulher sentada.

Na vespera o paj burnira de novo com a folha da sambaiba o tro de
madeira, e o esfregra com a banha do te, para que elle escorregasse da
mo do caador.

Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores
cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os
barrancos da varzea que ia morrer  marjem do rio.

Itaqu deu sinal, e os guerreiros comearam a nova prova, mais dificil
que a primeira.

Era precizo que o guerreiro  disparada levantasse do cho, sem parar, o
tro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para
tomal-o.

Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia
possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem
dezejal-a.

Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor
que rebatendo o vo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o
veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se
pela campina.

Os outros o seguiam ardendo em mpetos de roubar-lhe a preza. Na
planicie aberta seria vo intento, porque nenhum corria como o
estranjeiro.

Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores
derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito
acumulados.

No hezitou, porm, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as
caiaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o cho.

Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos
cabelos o sopro da respirao ofegante. Em frente erguia-se a alta
estacada.

Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o
alcanariam a tempo de arrancar-lhe a preza.

Ento arremessou pelos ares o tro de madeira, como se fosse o tacape de
um joven caador; e seguiu aps.

Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta
campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos
ancios.

Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a
sua carga, saa triunfante da prova.

Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a
defenderia contra seus ataques at recolhel-a em um azilo seguro.

De todos os guerreiros s Cor e Uirass conseguiram ganhar a prova; mas
nenhum com a galhardia de Jurandir.

Cor por vezes foi alcanado, e s  confuzo dos outros deveu
escapar-se. Uirass recuperou a preza j perdida, porque Piraj, que a
havia empolgado, falseou na corrida e tombou.

Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O
triunfo no se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavio arrebata a
preza que disputam duas serpes.

Soaram os bors; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaras,
os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.

       *       *       *       *       *

Quando voltou o silencio, Ogib, o grande paj dos tocantins, estava em
p no meio do campo.

Junto delle uma das velhas mis dos guerreiros segurava o camucim da
constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho.

O paj disse:

--No basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza.

 precizo que tenha a constancia do varo, e no se perturbe com o
sofrimento.

 precizo que elle tenha a paciencia do tat, e suporte sereno as
mortificaes das mulheres e as importunaes das crianas.

O guerreiro que no tem constancia e paciencia, depressa gasta suas
foras.

O rio que se derrama pela varzea, nunca ver suas marjens cobertas de
grandes florestas.

Assim  o guerreiro que no sabe sofrer, e derrama sua alma em
lamentaes.

Nunca elle ser pai de uma gerao forte e glorioza, nem ver sua
cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.

Se queres merecer a filha de Itaqu, mostra, Jurandir, que s varo
ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.

O grande paj levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura,
bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.

Jurandir meteu a mo no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro
cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais
contentes que dois sas, pouzaram no rosto de Arac.

O camucim da constancia continha um formigueiro de savas, que o paj
havia fechado ali na ultima lua.

Auladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam
para dilacerar a primeira vitima que lhes casse nas garras.

A dentada da sava, que anda solta no campo, de como uma braza; quando
so muitas e com fome, queimam como a fogueira.

Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe
o minimo gesto de sofrimento.

Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De
propozito o guerreiro adoou a voz, para no parecer que disfarava o
gemido com o rumor do grito guerreiro.

Assim cantou elle:

A dr  que fortalece o varo, assim como o fogo  que enrija o tronco
da crauba, da qual o guerreiro fabrca o arco e o tacape.

A jussara tem setas agudas: mas Arac, quando atravessa a floresta,
colhe o cco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mo.

O ferro da sava de mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir
acha o mel dos labios de Arac mais doce do que o cco da palmeira.

Quando Jurandir era joven caador, gostava de tirar a cotia da toca,
embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.

O ferro da sava no de como o dente afiado; e Jurandir sabe que o
pelo dourado da cotia, no  to macio como o colo de Arac.

Jurandir despreza a dr. Seus olhos esto bebendo o sorrizo da virjem,
mais suave que o leite do sapot. Sua mo est sentindo o roar dos
cabelos da virjem formoza.

Os ancios deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o
guerreiro continuou seu canto de amor.

A cumar arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do
veado assada no moquem.

O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da
alma.

A sava arde como a cumar e queima como o cauim; porm torna os beijos
de Arac mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho
generozo.

Arac ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe
rasgar o seio.

Jurandir no tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arac lhe enche
a alma de amor.

Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a
mo, de inflamada que ficra.

O grande paj esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle
conhecida; e logo dezapareceu a inchao.

       *       *       *       *       *

Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem.

As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do
guerreiro, assim como a fora de seu amor.

Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou
livrar-se de um espozo, que no soubera ganhar-lhe o afeto.

Os cantores disseram:

Tupan deu azas  namb para que ella escape s garras do carcar.

Tupan deu lijeireza  virjem, para que ella fuja do guerreiro que no
quer por espozo.

Mas a namb, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue
para fabricar seu ninho.

A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana
do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.

Arac deixou a mi, e avanou at o meio do campo.

O grande paj colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje
dez vezes a cintura do guerreiro.

Estrela do dia lanou para as espaduas as longas tranas negras que
voaram ao sopro da briza.

Arqueou os braos mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas
brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida.

Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do p gentil de Arac, que
zombava do salto do jaguar.

Nem que podesse alcanal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor,
queria dever a espoza ao amor della e no a seu esforo.

Disputaria Arac no s a todos os guerreiros das naes, como a todas
as naes das florestas; s  vontade da propria virjem no a
disputaria, pois a queria rendida, e no vencida.

Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nao, se
mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo.

Arac voava pela campina. s vezes tranava a corrida como o colibri que
adeja de flr em flr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta
emplumada de seu arco.

Quando mostrou a todos que Jurandir no a alcanaria nunca, se ella
quizesse fujir-lhe, reclinou a cabea para esconder o rubor.

Jurandir abriu os braos e recebeu a espoza que se entregava a seu amor.

O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a  cabana do
amor que elle construira  marjem do rio.

       *       *       *       *       *

As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o cho
de flres.

Arac foi buscar a rde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e
arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana.

Ento o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de
passar a soleira da porta, revelou a Arac quem era o guerreiro que ella
aceitra por espozo.

--Arac pertence ao grande chefe da nao araguaia. Ella teve a gloria
de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella ser mi dos filhos de
Ubirajara; e ter por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes
poderozos.

A palmeira  formoza quando se cobre de flres e o vento ajita as suas
folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porm,  quando as flres se
mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos.

Arac tambem ficar mais formoza quando de seu sorrizo sarem os frutos
do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella
suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.

Arac ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a cora; e ornou a
fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.

Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella
vestiu o aimar mais alvo do que a pena da gara.

A tunica de algodo entretecida de penas de beija-flr dece das espaduas
at  curva da perna, cinjida pela liga da virjindade.

Quando Arac passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella
no crava, porque sua castidade a vestia, como a flr  sapucaia.

Mas agora em prezena do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua
virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura s vistas de Ubirajara.

--Os olhos do espozo so como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a
flr do corpo de Arac.

--Arac tem medo que os olhos do espozo no a achem digna de seu amor; e
vestiu seus enfeites.

Arac queria ser como a jurit, e ter no corpo uma penugem macia, que
s a deixasse ver em sua formozura.

Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimar. Os olhos de
Ubirajara no lhe queimaro mais a flr de seu corpo.

O guerreiro respondeu:

--A flr do igap  mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos
beijos do sol, do que fechada em boto e coberta de folhas verdes.

Ubirajara tomou nos braos a espoza, e pz o p na soleira da porta.

Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o
vencedor  prezena de Itaqu.

O carbeto dos ancios tinha decidido que o vencedor antes de receber a
espoza, devia declarar quem era; pois fra recebido como estranjeiro, e
ninguem na taba o conhecia.




VII

A GUERRA


Itaqu esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos ancios.

Jurandir entrou; Arac ficou na porta, orgulhoza do espozo que a
conquistra e da admirao que elle ia inspirar aos guerreiros da sua
nao.

Itaqu falou:

--Quando o estranjeiro chegou  cabana de Itaqu, ninguem lhe perguntou
quem era e donde vinha. O hospede  senhor.

Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e
conquistou uma espoza na taba dos tocantins.

 precizo que elle se faa conhecer; porque a filha de Itaqu, o pai da
nao dos tocantins, jmais entrar como espoza na taba onde habite quem
tenha ofendido a um s de seus guerreiros.

O estranjeiro disse:

--Morubixaba, abars, moacaras e guerreiros da valente nao tocantim,
vs tendes prezente o chefe dos chefes da grande nao araguaia.

Eu sou Ubirajara, o senhor da lana; e o maior guerreiro depois do
grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este
nome, ouvi a minha maranduba de guerra.

Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu,
e a festa do triunfo, at o momento em que deixou a taba dos araguaias.

Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate
da morte, como prometera ao prizioneiro.

Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido;
mas no soube que rompera do seio de Arac.

Itaqu arquejou como o rio ao pezo da borrasca.

--Tu s Ubirajara, senhor da lana. Eu sou Itaqu, pai de Pojucan. Tenho
em face o matador de meu filho; mas elle  meu hospede!

Chefe dos araguaias, tu s um joven guerreiro; pergunta a Camacan que
te gerou, qual deve ser a dr do pai, que no pde vingar a morte do
filho.

O grande chefe vergou a cabea ao peito, como o cedro altaneiro batido
pelo tufo.

Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira
na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do
caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.

Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na
floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava
prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.

Ancios e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dr do pai, e no
ouzavam perturbal-a.

Jacamim, a mi de Pojucan, aproximra-se. O grande chefe ouviu seu
gemido.

--A espoza de Itaqu no chora na prezena do matador de seu filho.

 voz do espozo, a mi teve fora para esconder no seio sua tristeza, e
mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.

Ubirajara falou:

--A vingana  a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes.
Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaqu e
de todos os chefes tocantins.

--Tu s meu hospede; emquanto Itaqu brandir o grande arco da nao
tocantim, ninguem ofender o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.

Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a
fumaa da despedida.

--Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhar
amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o
nand, partiro para levar-te a morte.

Ubirajara tomou suas armas e disse:

--O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu vers chegar
o guerreiro inimigo.

       *       *       *       *       *

Itaqu seguiu o estranjeiro at o terreiro; em torno delle se reuniram
os abars, os moacaras e os guerreiros para assistirem  partida.

Ubirajara caminhou com o passo lento e grave at o fim da taba.

Chegado ali, tornou rapido  entrada da cabana, e retrocedeu apagando no
cho o vestijio de seus passos.

A nao tocantim o observava imovel.

Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel
tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o
estrondo da montanha.

--O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu
rasto na taba dos tocantins.

Quem est aqui  um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus
inimigos.

Itaqu, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lana, grande
chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.

Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaqu levantou os
olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nao, a
seta de Ubirajara.

Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaqu
abateu as armas de seus guerreiros.

Disse o morubixaba:

--A lei de hospitalidade  sagrada. A clera do estranjeiro no deve
perturbar a serenidade do varo tocantim.

Depois voltou-se para o inimigo:

--Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaqu, o pai da poderoza nao
tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o
penhor do combate.

A corda do grande arco da nao tocantim brandiu, e a seta de Itaqu
mordeu o escudo de Ubirajara.

--Vai buscar teus guerreiros e ns combateremos  frente das naes.

--Ubirajara combater at que lhe restituas a espoza; assim como elle a
conquistou a seus rivais, saber conquistal-a a ti e  tua nao.

O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arac que o
esperava.

A formoza virjem fra  cabana do cazamento buscar a rde nupcial e
preparar-se para acompanhar o espozo.

--Ubirajara parte; mas antes de cinco ses elle estar aqui para te
conquistar  tua nao.

--A espoza te acompanha. Teu brao valente j a conquistou; e ella
entregou-se a seu senhor. Arac te pertence; deves leval-a.

A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara  taba dos araguaias. Falava
em sua alma a ternura da espoza e da irm.

Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o
amor o moveria a salvar Pojucan.

Ubirajara pensou e disse:

--Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arac, ella era sua espoza, e
ninguem a arrebataria de seus braos. Mas a virjem tocantim no pde
abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.

Arac suspirou:

--Ubirajara vai deixar a lembrana de Arac nos campos dos tocantins.
Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de
mel.

--A luz de teus olhos, Arac, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na
taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe  tua
cabana.

Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Maj no o
acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.

--O goan do lago va lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que
alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e no se lembra mais da
moita onde dormiu.

--Ubirajara  um guerreiro; elle no aprende com o goan do lago, que
foje do perigo, mas com o gavio, grande chefe dos guerreiros do ar, que
nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.

--Se Ubirajara amasse a espoza, tambem no a abandonaria. Os braos de
Arac j cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco no desprende de si
a baunilha que se entrelaou em seus galhos.

Ubirajara calcou a mo sobre a cabea de Arac:

--Itaqu respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara,
Ubirajara no deixar a traio na terra hospedeira.

Arac no deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que
seu pai.

A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra  a primeira lei do guerreiro.

Antes de partir, o chefe consolou a espoza:

--Ubirajara vai pedir ao gavio suas azas para voltar ao seio de Arac.
Elle vir  frente de sua nao, conduzido pela luz de teus olhos.

As outras mulheres so o premio de um combate entre os servos de seu
amor. Arac ter essa gloria, que ella ser o premio da maior guerra que
j viram as florestas.

O chefe araguaia pz as mos nos hombros de Arac; duas vezes uniu o seu
ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia
separar.

Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arac caminhou para a cabana
do espozo, que ficra triste e solitaria.

A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza.

Dois ses tinham passado, e viera a noite.

A ultima estrela se apagava no cu, quando Ubirajara pizou os campos dos
araguaias.

Sua mo robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nao
araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que
arrebenta.

Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram 
grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus
guerreiros, convocados  ocara da nao.

Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse  sua prezena:

--V o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do
grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara
para inundarem teus campos.

A nao tocantim carece neste momento do brao de seus maiores
guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a
gloria de Ubirajara, seu vencedor.

Tu s livre, Pojucan; parte e va, que a guerra dos araguaias te segue
os passos.

O semblante do filho de Itaqu ficou sombrio:

--Pojucan  um chefe ilustre; no merece esta dezhonra. Tu lhe
prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate.

O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:

--Ubirajara no sabia que Pojucan era filho de Itaqu; pois elle nunca
pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado
um filho.  precizo que recuperes a liberdade para que no se diga que
Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins.

Pojucan no respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor
exijia sua volta  taba dos seus.

--Parte. Ns combateremos  frente das naes. Ubirajara pertence a
Itaqu; mas depois delle ters a gloria de ser vencido outra vez por
este brao.

--Ubirajara  um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan no consente
que Pojucan seja vencedor, elle no quer maior gloria do que a de morrer
combatendo Ubirajara.

Pojucan foi  cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara
arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ip, e
meditou.

Quando passou o chefe tocantim que voltava  sua taba, Ubirajara
levantou a cabea e disse:

--Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu s irmo de Arac, e vais para
junto della. Dize  estrela do dia, que seu espozo est com ella.

O conselho dos abars se reunira para meditar sobre a guerra. O velho
Maj, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto
do carbeto se convocasse a nao.

Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara
chegou. Antes que falasse a voz dos ancios, o guerreiro levantou o arco
e disse:

--O conselho dos ancios governa a taba, e medita nella coizas da paz.
Toda a nao respeita sua prudencia e sabedoria.

Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a
guerra fechada em sua mo.

Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecer
para sempre, ainda que venha da cabea do abar que a lua j
embranqueceu.

Quem no quizer assim, venha arrancar da mo de Ubirajara este arco
que elle conquistou por seu valor.

Os abars estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior
gloria e sabedoria da nao era ter o seu grande arco de guerra na mo
de um chefe como Ubirajara.

Camacan tratou com os ancios cerca da defeza das tabas; e o grande
chefe abriu o caminho da guerra.

       *       *       *       *       *

Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle
viu que uma nao tapuia se preparava para assaltar a taba dos
tocantins.

O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem,
primeiro dos cantores araguaias.

Correu o nhengara  prezena do grande chefe, e delle recebeu a
mensajem que devia levar ao campo inimigo.

Os cantores eram respeitados por todas as naes das florestas, como os
filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as naes em
guerra.

Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum
guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da
alegria.

Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de
Canicran, chefe dos tapuias.

--Ubirajara, o senhor da lana, que empunha o arco da poderoza nao
araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te
obedecem, a sua vontade.

O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o
cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo
sombrio e imovel no meio dos borbotes da cachoeira.

Os guerreiros de Canicran s conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran
afronta a clera de Tupan e das naes que elle gerou. Dize, mensajeiro,
o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias.

--Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nao tocantim
aceitou a sua flecha de dezafio, e elle no consente que ninguem combata
seu inimigo, antes de o ter vencido.

--Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela
vingana. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e
incendiou a cabana do paj, que foi devorado pelas chamas.

Ubirajara  um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nao
pde sofrer to dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.

O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpo e deu ao
mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema
guerreiro de sua nao.

--Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliana.

Murinhem partiu e foi  taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaqu
escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu:

--Antes que Itaqu trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan
tinha levado a guerra  taba dos tapuias.

Canicran veiu trazido pela vingana; e a nao tocantim no pde
recuzar o combate. Mas Itaqu sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer,
elle combater juntamente os dois inimigos.

O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois
chefes. Ubirajara ouviu e meditou.

--Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande
chefe araguaia no roubar a Canicran a gloria da vingana; elle
respeita a honra da nao tapuia, mas rejeita sua aliana. Restitue o
penhor que recebeste.

Itaqu pde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara no
ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de
Arac.

O chefe dos araguaias no carece de auxilio para triunfar de seus
inimigos: dezeja que a nao tocantim derrote aos tapuias, para ter elle
a gloria de vencer ao vencedor.

Se Itaqu no pde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os
barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combatero as duas
naes.

Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao mpeto dos
araguaias, Ubirajara espera que Itaqu os chame e que elles venham.

Murinhem falar assim a um e outro chefe; a ambos dir que a cabana
onde estiver Arac fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar
como inimigo, sofrer a morte vil do cobarde.

O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo:

--A Arac levars o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirs que arme a
rde nupcial, e no deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara no a fr
buscar.

Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda no deixou a
cabea de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.




VIII

A BATALHA


A um lado da imensa campina move-se a multido dos guerreiros tocantins,
do outro lado a multido dos guerreiros tapuias.

As duas naes se estendem como dois lagos formados pelas grandes
chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.

De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos
arremetendo travaram a batalha.

Itaqu achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes
tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fra vencido.

Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, no  possivel quebrar a
flecha da paz entre as duas naes.

Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o
tacape do combate, e dsse repouzo  sua nao para reparar os estragos
da guerra.

Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo
ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate.

Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois
guerreiros, e pensava qual no seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.

Durra a peleja o espao de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o
cho os tacapes e escudos que se tinham espedaado aos golpes de cada
um.

Imoveis no mesmo logar, s ajitavam a cabea e os braos, semelhantes a
dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se
dilaceram com o bico adunco.

Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e
rolou pelas profundezas da floresta.

Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao
lado do irmo, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcanava com o
brao.

Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas
de espinhos de ourio, a velocidade e a certeza do vo do guanumb.

Quando caava na floresta, divertia-se em matar as motuas
traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras
que as vespas venenozas.

Paan saltra sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao
combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.

Itaqu desfechra to formidavel golpe, que o tacape e escudo de
Canicran se espedaaram em suas mos, deixando-o  merc do inimigo.

O chefe tocantim arrojou-se, e j sua mo decia sobre a espadua do
tapuia para fazel-o prizioneiro.

O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaqu, os olhos do varo
forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue.

As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja
vista era raio. Assim a jandaia re o grelo do procero coqueiro.

Foi ento que Itaqu soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra.
Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em
um grito de horror.

Itaqu estendera os braos, hirtos como duas garras de condor.

A mo direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda
entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.

Separaram-se os braos do guerreiro cgo, e a cabea de Canicran
abriu-se como um cco que se fende pelo meio.

Ajitando no ar o craneo sangrento como um marac de guerra, Itaqu
arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia.

Quando o sol entrou, no havia na campina a sombra de um tapuia.

O velho here voltou  cabana conduzido por Pojucan:

--Tupan viu que Itaqu no podia ser vencido pela mo dos homens, e quiz
vencel-o elle mesmo pela mo de um menino.

Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes
guerreiros no restasse nenhum, para que elle o vencesse.

Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroos de sua
nao. Ergueu a mo, mas no chegou a retezar a seta.

A aguia no persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto
mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.

O chefe chamou  sua prezena Tubim, um dos jovens caadores que tinham
acompanhado a guerra para prover o alimento.

--Tubim tem as azas da abelha; se elle alcanar o corumim tapuia que eu
estou olhando, Ubirajara lhe dar o nome de Abeguar.

O joven caador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilho de
poeira. Quando os vagalumes comearam a luzir no escuro da mata, elle
estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos
braos.

Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vo, em
honra da faanha que tinha realizado.

Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caador teve a gloria de
receber os aplauzos dos moacaras de sua nao, e de um chefe como
Ubirajara.

Ao raiar da manh, Murinhem foi  taba dos tocantins, acompanhado por
vinte guerreiros que conduziam o corumim.

Quando chegou em frente  cabana do grande chefe, o cantor viu Itaqu no
terreiro sentado em uma sapopema.

O guerreiro fitava os olhos no cu, onde o calor lhe dizia que estava o
sol. Mas no encontrava a luz que para sempre o abandonra.

Ento o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o
logar do repouzo.

Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte
para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam.

Murinhem chegou e disse:

--Ubirajara envia a Itaqu o resto da vingana. Este  Paan, o filho de
Canicran. Elle te roubou a vista; mas no salvou o pai de tua mo
terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle ser a luz
de teus olhos e caminhar na frente do grande chefe para abrir-lhe o
caminho da guerra.

Paan avanou:

--O filho de Canicran jmais ser escravo; naceu tapuia e tapuia
morrer, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ourio viver nas
florestas, elle roubar seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.

Itaqu pouzou a palma da mo na cabea do menino:

--O corumim que ama seu pai  filho de Itaqu. Tu s livre, Paan; vai
caar o ourio. Quando fres um guerreiro, achars cem mancebos do
sangue de Itaqu para castigarem tua audacia.

O chefe voltou-se para o cantor:

--Tupan tirou a luz dos olhos de Itaqu; mas aumentou a fora de seu
brao. Ubirajara ter para combatel-o um inimigo digno de seu valor.

Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta.

       *       *       *       *       *

Quando partia o cantor, chegaram  cabana de Itaqu os abars da nao
tocantim.

Os ancios sentaram-se em torno do guerreiro cgo; e bebendo a fumaa da
sabedoria, formaram o carbeto.

Falou Guarib:

--O grande arco da nao carece de uma mo robusta para brandir sua
corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaqu  o maior
guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos
inimigos; seu brao fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e
elle no pde mais abrir o caminho da guerra.

O velho chefe ergueu-se com o passo trpego. Alcanando o grande arco
dos tocantins abraou-se com elle e falou-lhe.

--Quando Itaqu te recebeu da mo do grande Javar elle pensava que s a
morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu
sangue. Mas Itaqu ficou na terra, como um tronco levado pela corrente,
que no sabe onde vai.

Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos.
Era a lagrima que a desgraa lhe deixra.

Os abars meditaram. Guarib falou de novo:

--O grande arco da nao que tu recebeste do grande Javar, teu pai, no
te abandonar. Elle fica em tua mo invencivel; haver outro arco na mo
do mais valente guerreiro, que abrir o caminho da guerra. Mas emquanto
Itaqu viver, sua voz governar a nao que elle defendeu com seu brao.

O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo
sobre o qual desliza um raio do luar.

--Pais da sabedoria, abars, olhai aquelle jatob que se levanta no meio
da campina, e que eu s posso ver agora na sombra de minha alma.

Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que
o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco  um s.

As grossas raizes so os abars que sustentam o chefe com o seu
conselho. Os galhos fortes so os moacaras que cercam o chefe e geram a
multido de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco
 o chefe da nao; se elle se dividir, o jatob no subir s nuvens
nem ter foras para rezistir ao tufo.

O logar de Itaqu  no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra
foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o
que fr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nao.

O trocano chamou a nao ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas
tribus.

O velho Itaqu contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande
arco da nao, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da
cabana, e tinha a corda to grossa como a da rde do chefe.

Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o
grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta no partiu.

Itaqu escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido no feriu os
ares.

--Onde est Pojucan? perguntou o velho chefe.

O valente guerreiro do sangue de Itaqu estava de parte, grave e
taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o
primeiro a disputar.

--Teu filho te escuta, respondeu.

--Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa
conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaqu.

Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os ps, o guerreiro arrojou-se
para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote.

A seta partiu, e foi cravar a cabea de um chefe tapuia, fincada na
estaca,  entrada da taba.

Itaqu curvra a cabea. Elle ouviu brandir a arma; no era, porm,
aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mo possante.

Pojucan depz o arco chefe aos ps de Itaqu e disse:

--Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaqu.
Mas o grande arco peza em sua mo. S ha um guerreiro na terra que o
possa brandir como Itaqu: e esse no cinje a fronte com o cocar das
penas de tucano.

--Pojucan negou a Itaqu esta ultima consolao. O arco invencivel do
grande Tocantim que foi o pai da nao, vai sair de sua gerao.
Tocantim o transmitiu a seu filho Javar, que me gerou; mas eu no sube
gerar com seu sangue um guerreiro digno delles.




IX

UNIO DOS ARCOS


Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agnin  frente de sua nao,
para vingar a morte de Canicran, seu irmo.

Era grande a multido dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da
vingana e a fama do chefe que a conduzia.

No eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se
no lhes faltasse a cabea, que reje o corpo.

A poderoza nao estava como o bando de caitets que perdeu o pai, e
desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.

Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande
chefe da nao para abrir-lhes o caminho da guerra.

Os abars meditaram. Elles no podiam inventar um guerreiro capaz de
suceder a Itaqu; mas no se rezignavam a abater a gloria da nao,
trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve,
que Pojucan manejasse.

Tambem Pojucan anuncira, que no podendo brandir o arco de Itaqu,
jmais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande
Tocantim.

Abars, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nao se reuniu em torno do
here cgo.

Daquelle que durante tantas luas defendera a nao com a fora de seu
brao, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a
salvao.

O velho ouviu a voz dos abars, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a
voz dos guerreiros, e disse:

--Itaqu ainda pde combater e morrer por sua nao; mas sem a luz do
cu, elle no pde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria.

O brao de Itaqu defendeu sempre a nao tocantim; quer ella ser
defendida agora pela palavra daquelle, que no tem mais para dar-lhe
seno a experiencia de sua velhice?

Pensem os abars, os chefes, os moacaras e os guerreiros.

Guarib respondeu:

--A nao pensou. Fala e todos obedecero  tua palavra, como obedeciam
ao brao de Itaqu.

--A voz do corao diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nao que
elle gerou, no se pde extinguir. O sangue de Itaqu, passando pelo
seio de Arac, se unir a outro sangue generozo para brotar maior e mais
ilustre.

Assim a terra onde naceu uma floresta de acajs recebe o limo do rio e
gera nova floresta mais frondoza que a outra.

Jacamim, chama Arac, a filha de nossa velhice. E vs, abars, chefes,
moacaras e guerreiros, segu-me.

O velho here atravessou a taba guiado por Arac.

A nao o seguia em silencio.

Quando o guerreiro cgo passava com a mo no hombro da virjem formoza
que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco j
morto que a rama do maracuj ainda sustenta de p junto ao penedo.

Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz.

       *       *       *       *       *

Um mensajeiro de Itaqu o precedera no campo dos araguaias.

Ubirajara, cercado de seus abars, chefes, moacaras e guerreiros, veiu
ao encontro do morubixaba dos tocantins.

A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arac; mas
elle retirou os olhos da espoza, para que o amor no perturbasse a
serenidade do varo.

--Ubirajara est em face de Itaqu; para combatel-o se trouxe a guerra,
para abraal-o se trouxe a paz.

--Nunca Itaqu pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de
o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem
trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo.

O velho here avanou o passo:

--Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra  taba dos tocantins para
conquistar Arac, a filha de minha velhice.

Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a
liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim.

Mas desde que tu ameaaste tomal-a pela fora de teu brao, Itaqu no
podia mais conceder-te a filha de sua velhice, seno depois que abatesse
teu orgulho.

Elle preparava-se para te combater, e  tua nao; mas fujiu-lhe dos
olhos a luz que dirije a seta da guerra; e no ha entre seus guerreiros
um que possa brandir o arco do grande Tocantim.

Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe
no peito:

--O arco de Itaqu  como o gavio que perdeu as azas e no pde mais
levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras.

Empunha o arco de Itaqu, chefe dos araguaias, e tu conquistars por
teu heroismo uma espoza e uma nao.

 espoza fars mi de cem guerreiros como Itaqu; e  nao conservars
a gloria que ella conquistou quando o filho de Javar a conduzia 
guerra.

Tupan dar a teu brao esta fora para que o sangue de Itaqu brote
mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.

Ubirajara sorriu:

--Chefe dos tocantins, teus olhos no podem ver o grande arco da nao
araguaia; mas pergunta  tua mo, se o arco que Camacan brandia
invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaqu.

O velho here palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao
hombro, como se a haste fosse de taquar.

Ubirajara travou do arco de Itaqu e desdenhando fincal-o no cho,
elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.

O semblante de Itaqu remoou, ouvindo o zunido que lhe recordava o
tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando
as luas creciam aumentando a fora de seu brao.

O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que
talhava o azul do cu. Os cantores no tinham para elle mais doce
harmonia do que essa.

Ubirajara largou o arco de Itaqu para tomar o arco de Camacan. A flecha
araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava 
terra.

As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braos do
guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.

Ubirajara apanhou-as no ar:

--Este  o emblema da unio. Ubirajara far a nao tocantim to
poderoza como a nao araguaia. Ambas sero irms na gloria e formaro
uma s, que ha de ser a grande nao de Ubirajara, senhora dos rios,
montes e florestas.

O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres
guerreiros tocantins, ligassem com o fio do craut as hastes dos dois
arcos.

Quando o arco de Camacan e o arco de Itaqu no fizeram mais que um,
Ubirajara o empunhou na mo possante e mostrou-o s naes:

--Abars, chefes, moacaras e guerreiros de minhas naes, aqui est o
arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas so gemeas,
como as duas naes, e voam juntas.

Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim
partiram de novo como duas aguias que par a par remontam s nuvens.

Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de
Itaqu:

--Arac, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela
fora de seu brao. Agora que  senhor, elle espera tua vontade.

A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a
ao pulso de seu guerreiro.

Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a  cabana do cazamento.

O jasmineiro semeava de flres perfumadas a rde do amor.

       *       *       *       *       *

O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multido
de seus guerreiros.

Na frente assomava Agnin, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz
do que o irmo, o terrivel Canicran.

De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um  frente de seus
guerreiros.

Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins,
com que saiu ao encontro dos tapuias.

Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes
caminhou s para o inimigo.

Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de
guerra, que atroou os ares, como o estrpito da cachoeira.

Um turbilho de setas crivou o longo escudo do here, que ficou
semelhante ao grosso tronco da jussra, erriado de espinhos.

Ubirajara embraou o escudo na altura do hombro, e com o p brandiu sete
vezes a corda do grande arco gemeo.

As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao cu e se perderam nas
nuvens.

Quando voltaram, Agnin e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham
cada um fincado na cabea o dezafio do formidavel guerreiro.

Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dr, arremessaram-se contra o
inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.

Agnin era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Aps elle
vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez.

Quando o espozo de Arac viu que elles se estendiam pela campina, como
dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o here
empunhou a lana de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era
como o bramir do jaguar, senhor da floresta.

Seu p devorou o espao; e a lana de duas pontas girou em sua mo, como
a serpente que se enrosca nos ares silvando.

Caiu Agnin do primeiro bote; aps elle caram aos dois os chefes
tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.

Ento o here soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do
vento no dezerto:

--Eu sou Ubirajara, o senhor da lana, o guerreiro invencivel que tem
por arma uma serpente.

Eu sou Ubirajara, o senhor das naes, o chefe dos chefes, que varre a
terra, como o vento do dezerto.

O here estendeu a vista pela campina, e no descobriu mais o inimigo,
que se sumia na poeira.

Ubirajara lanou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingana; porm
o terror de sua lana dava azas aos fujitivos.

Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio.

       *       *       *       *       *

Ubirajara voltou  cabana, onde o esperava Arac.

A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o
macio coto da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.

Encheu depois de generozo cauim a taa vermelha feita do cco da
sapucaia; e aplacou a sde do combate.

Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o here
repouzava na rde, Arac foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira
pela mo.

--Arac, tua espoza,  irm de Jandira. Ubirajara  o chefe dos chefes,
senhor do arco das duas naes. Elle deve repartir seu amor por ellas,
como repartiu sua fora.

A virjem araguaia pz no guerreiro seus olhos de cora.

--Jandira  serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu
queres. Ella ficar em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma
virjem araguaia ama seu guerreiro.

Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro brao, a espoza e a virjem.

--Arac  a espoza do chefe tocantim; Jandira ser a espoza do chefe
araguaia; ambas sero as mis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos
chefes, e o senhor das florestas.

       *       *       *       *       *

As duas naes, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nao
dos Ubirajaras, que tomou o nome do here.

Foi esta poderoza nao que dominou o dezerto.

Mais tarde, quando vieram os caramurs, guerreiros do mar, ella campeava
ainda nas marjens do grande rio.




  FIM




NOTAS

ADVERTENCIA


Este livro  irmo de Iracema.

Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela
propriedade, como pela modestia, s tradies da patria indijena.

Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se no tiver estudado com
alma brazileira o bero de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre
outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe frma
o vigorozo relevo.

Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e
canibais, antes fras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos
que realam a dignidade do rei da creao?

Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira poca, se no de
todo o periodo colonial, devem ser lidos  luz de uma critica severa. 
indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que
serviam de mote, e das apreciaes a que os sujeitavam espiritos
acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.

Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato
de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo
novo e segregado da civilizao universal uma perfeita conformidade de
idas e costumes. No se lembravam, ou no sabiam, que elles mesmos
provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os
selvajens americanos.

Desta preveno no escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante
ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e
filozofico.

Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se
faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem
mais formoza, no se esqueceu de acrecentar este comento--_finis
spectantium est voluptas_.

Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e
justas no passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada
rezistiria  censura ou ao ridiculo.

Por igual teor, seno mais grosseiras, so as apreciaes de outros
escritores cerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os
traos mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os
sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, so deturpados por
uma linguajem impropria, quando no acontece lanarem  conta dos
indijenas as extravagancias de uma imajinao desbragada.

Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informaes
cerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta
uma com outra, ambas se achavam de acrdo nesse ponto, de figurarem os
selvajens como fras humanas. Os missionarios encareciam assim a
importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da
crueldade com que tratavam os indios.

Fao estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos
cronistas citados nas notas seguintes, no se deixem impressionar por
suas apreciaes muitas vezes ridiculas.  indispensavel escoimar o fato
dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma ida exata dos
costumes e indole dos selvajens.

       *       *       *       *       *


Paj. 5

_Grande rio_.--Os tups chamavam assim ao maior rio que existia na
rejio por elles habitada: e da rezultou ficarem tantos rios com essa
dezignao na lingua orijinal ou traduzida.

O rio grande de que se trata nesta lenda  o Tocantins, em cujas marjens
se passa a ao dramatica.


Paj. 5

_Jaguar_.--Nome composto de _Jaguar_, a ona e o sufixo __ que na
lingua tup refora emfaticamente a palavra a que se liga. _Jaguar_,
significa, pois, a ona, verdadeiramente ona, digna do nome, por sua
fora, corajem e ferocidade.


Paj. 5

_Uiraaba_.--Nome que davam os tups  aljava, de _uira_--seta e
_aba_--dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente
o que tem a seta.

Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquaruss, ou da casca de certas
arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito
rezistentes.


Paj. 6

_Nome de guerra_.--Mal nacia a criana logo se lhe punha nome. Hans
Stade achou-se prezente numa dessas ocazies. Convocou o pai aos mais
proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril
e terrivel; no lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia
escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao
rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar  idade de
ir  guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia
acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a
mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa
antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o
orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto _grande_ frequentemente se
compunha com o nome. Southey, _H. do Brazil_, tom. 1o, cap. 8o, paj.
336.

Pde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no
cap. 160, cerca do nome que tomava o tupinamb quando matava o
contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: Acontece muitas vezes cativar
um tupinamb a um contrario na guerra, onde o no quiz matar para o
trazer cativo para sua alda, onde o faz engordar com as ceremonias j
declaradas para o deixar matar a seu filho quando  moo e no tem idade
para ir  guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as
mesmas ceremonias; mas atam as mos ao que ha de padecer, _para com isso
o filho tomar nome novo e ficar_ armado cavaleiro e mui estimado de
todos.

A este trecho de Gabriel Soares  precizo dar o devido desconto cerca
da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o
mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo
de guerreiro no se conferia ao mancebo que no fizesse prova real de
seu esforo e corajem.

Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduao que a idade
estabelecia entre os tups. Havia para os guerreiros seis classes: 1o
das crianas at dois anos, _mitanga_, que significa chupador ou
mamador; 2o _curumim mirim_, isto  o pequeno que balbucia; compreendia
os meninos at sete anos; 3o _curumim_ simplesmente, correspondia 
segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o _curumim-guass_, era a
adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caa e na pesca; 5o
_aba_--o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se
cazava tornava-se apiaba, o varo, ou como diz d'Evreux, _mendarama_, o
cazado; 6o _tijuba_, o ancio ou veterano, o homem de experiencia,
guerreiro consumado.


Paj. 6

_Jandira_.--O nome  _jandara_, de uma abelha que fabrica excelente
mel; Jandira  uma contrao mais eufonica daquelle nome, que tambem por
sua vez  contrao de _Jemonhara_, que fabrica mel.


Paj. 6

_Aratuba_.--Palavra que se compe de _ara_--o sol e _tuba_--infinito do
verbo _ajub_--estar deitado. Vem a ser a significao _leito do sol_,
aplicada pelos indios  montanha do poente, onde o sol se esconde no seu
ocazo.


Paj. 6

_Lana_.--O uzo da lana no era comum aos selvajens, que empregavam de
preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo,
que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem _iverapema_; mas o nome
 aquelle de _igara-pema_, espada da cana; basta ver-lhe a frma para
compreender seu duplo destino.


Paj. 6

_Craba_.- a mesma _carabiuba_ dos indios, assim contrada pelo uzo dos
nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que no cede ao
pu-ferro no pezo e na dureza.


Paj. 7

_A liga vermelha_.--Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos
dos tups.

Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificao, da qual
tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mi punha-lhe nas
pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodo tinta de vermelho,
de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez
fechada, no era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.

A essa liga chamavam _tapacora_, e no a podia trazer seno a virjem, de
modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que
todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este
respeito no cap. 152: E como o marido lhe leva a flr,  obrigada a
noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que  feita dona; e
ainda que uma moa destas seja deflorada por quem no seja seu marido,
ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que
de outra maneira cuidar que a leva o diabo, os quais dezastres lhes
acontecem muitas vezes, etc.

Este simples trao  bastante para dar uma ida da moralidade dos tups,
e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por no compreenderem
seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam
exploradores mal informados e prevenidos.

Em que sociedade civilizada se observa to profundo respeito pela unio
conjugal, a ponto de no consentir-se que a mulher decada conserve o
segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?

A rezignao com que a moa culpada rompia a liga da virjindade, e fazia
confisso publica de seu erro,  um exemplo da lealdade do carater tup
e da venerao que inspiravam os ritos de sua relijio.

Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella
inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a
caridade  virtude da civilizao; do mesmo modo considera o amor uma
delicadeza da vida civilizada. So paradoxos de escritor. Sentimentos
naturais  creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e
condies.

No  possivel negar a castidade da mulher tup; alm desse recato da
virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres
guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relaes
com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido no violava
essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit.
Durante a gravidez e a amamentao interrompia-se absolutamente o
ajuntamento conjugal. (Barloeus 2a edic.)

Onde est a sociedade civilizada, que observe leis to rigorozas, e
refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tups?

Poderiamos fazer muitas outras observaes que rezervamos para um estudo
especial cerca dos selvajens brazileiros.


Paj. 7

_Tocantim_.--Compe-se de _tocano_ e _tim_; literalmente o nariz, o
rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabea o
despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma
nao selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.


Paj. 7

_Taar_.--Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do
Araguaia. Indica o logar da cena.


Paj. 7

_Araguaia_.--O nome  araguara, de _ara_ e _guara_, literalmente, os
guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas
encarnadas daquellas aves. Conservei a verso que ficou no nome do rio.


Paj. 8

_Arac_.--Esta palavra tup compe-se de _ara_, dia, e _ce_ ou _cej_,
grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas s pleiades, que
lhes serviam para contar os anos.


Paj. 8

_Cem dos melhores guerreiros_.--Nesta e outras frazes identicas, os
numerais cem ou mil no reprezentam algarismo exato, que no os tinham
os tups para exprimir numero to elevado. Traduzem apenas esses termos
a dezinencia _tiba_, com que os tups dezignavam cpia e multido.


Paj. 9

_Canitar_.--Enfeite de cabea. Adotei esta dezignao empregada pelos
autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A
exata lio pede _acanga atara_.


Paj. 9

_As duas naes no esto em guerra_.--As naes tups no viviam em um
estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era
frequente; mas no constante. As naes faziam a paz e nella se
mantinham at que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Ento no
comeavam as hostilidades seno depois de anunciada a guerra ao inimigo,
o que se fazia lanando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um
guerreiro o dezafio.

 uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonizao,
que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caando-os a dente de
co, ensinaram-lhes a traio que elles no conheciam.


Paj. 10

_Pojucan_.--Contrao de uma fraze tupica._I-pojuca_;--significa: eu
mato gente. Essas contraes no so arbitrarias; ellas eram da indole
da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinao. Todas as vezes que
os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as slabas dos vocabulos
que entravam na compozio, para ligal-as mais eufonicamente.

Lemos em Alfred Maury _La Terre et l'homme_, cap. VIII, o seguinte
trecho:

Nas linguas americanas, no  smente uma sinteze que concentra em uma
palavra todos os elementos da ida mais complexa; ha ainda engrazamento
(enchevtrement) das palavras umas nas outras;  o que M. F. Lieber
chama _incapsulao_, comparando a maneira por que as palavras entram na
fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria
terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporao das
palavras  por vezes levada  extrema exajerao nesses idiomas, o que
produz a mutilao dos vocabulos incorporados.

Esta observao  da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a
indole da lingua, como se v nas seguintes palavras--_A-por-u_--como
gente--_A-poro-tim_--enterro gente--_A-po-ub_--vizito a gente. (Vide
Figueira, _Gramatica da lingua do Brazil_, paj. 51.)


Paj. 10

_Tapuia_.--de _taba_ e _puir_, o que foje das tabas. Davam os indijenas
esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas
investigaes etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raa diversa da
tup, e muito aproximada, seno conjenere do tipo mongolico. Entretanto
Orbigny, _L'Homme Amricain_, sustenta a identidade das duas raas,
tapuia e tup.


Paj. 10

_Tacape_.--Davam os tups o nome de _apem_, a um corpo alongado de frma
analoga  espada, e como ella cortante. Da vinha chamarem a
unha--_po-apem_, espada do dedo; e  raiz que surje da terra e se eleva
como um galho--_sapopema_--raiz espada.

 sua principal arma de guerra chamavam _ita-ca-apem_, espada de
pu-pedra; ou _ita-qui-apem_, machado comprido de pedra, por ter sido
dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a
madeira.

cerca da fora dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery
que um tupinamb com ella armado daria que fazer a dois soldados de
espada.


Paj. 10

_Guerreiro chefe_.--Para compreender-se bem a fora dessa dezignao,
diremos alguma coiza cerca da hierarquia selvajem.

Como a relijio, era simples o governo dos tups; mas no careciam
delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado
para o seu estado de civilizao.

Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade
politica; a primeira reduzida  familia, e a segunda excluziva 
subzistencia, defeza e guerra.

A sociedade civil era constituida pela _oca_, a caza, onde o varo,
_aba_, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam
para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e
os parentes que agregava a si.

O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, _moacara_, era a
perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma
sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era
membro e para cuja defeza concorria no s por interesse proprio, mas
pela honra da nao.

_Moacara_ nos dicionarios significa fidalgo. A traduo resente-se da
preocupao do homem civilizado; mas havia realmente uma distino entre
o _moacara_, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples
individuo que ainda no possuia uma familia.

A sociedade politica, _taba_, era a reunio das ocas. Essa denominao
vem de _tama_, a patria, o bero, a terra natal, e _aba_ dezinencia que
indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, _taba_ significa
literalmente onde ou o que faz a patria, isto , aldeia natal.

O governo da _taba_, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos
_moacaras_, entre os quais predominava a experiencia dos ancios, que se
chamavam _abars_ ou _abaets_; isto , vares egrejios.

Naes essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas
jornadas e batalhas. A estes davam o nome de _tuxava_, ou _tauxaba_, o
dono da taba, _morubixaba_, o que governa o povo; de _moro_, gente, e
_aba_, dezinencia.

Quando as naes eram grandes e no cabiam numa taba, destacavam-se
alguns _moacaras_ com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas 
taba mi. Da se orijinaria a diferena das duas dezignaes, vindo
ento _tauxaba_ a dezignar o simples chefe de uma taba; e _morubixaba_ o
chefe da taba primitiva, ou da nao, _moro_.

Tambem acontecia que muitas vezes um _moacara_ poderozo separava-se de
sua nao por cauza de alguma disseno intestina, e constituia-se
independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo
parentesco. Essa _oca_ independente, chamava-se _moroca_, isto , oca de
gente, de tribu e no mais de familia. O termo _moloca_ to frequente
nos cronistas no  seno corruptela daquelle, e pde corresponder ao de
tribu ou horda.

A nomeao do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica
e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de
sua autoridade, bem como sua extenso, dependia do respeito que elle
conseguia infundir a seus guerreiros.

No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este
tornava-se o premio do mais valente. Acontecia ento que o vencido com
seus sectarios revoltava-se; e da as frequentes guerras intestinas, que
aniquilaram a raa indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos
europeus.

Na morte do _morubixaba_ ocorria igual pleito. O filho apossava-se do
poder pelo direito de herana; e o conservava se no aparecia algum
emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.

Falando com as nossas teorias da civilizao, podemos dizer que a baze
desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal.
Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao
merecimento superior, onde elle se revelasse.

Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos _moacaras_
(poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria,
como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de
muito here tup ha de ter governado to absolutamente como a espada de
Cezar ou de Napoleo.

Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia
dos _pajs_ e o poder do chefe ou dos ancios. Aquelles sacerdotes,
cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus
augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambio governar a
taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.

Eis em escoro as paixes que deviam ajitar aquella sociedade politica,
depois da guerra que era a maior preocupao.

Alm das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta
e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que j no tinham
oca, e estavam a cargo da nao; tais eram as _velhas_, e por este nome
devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os
orfos, aos cuidados daquellas mis emprestadas; e finalmente as moas
que no faziam vida conjugal.

Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos
acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.

O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica,
ainda que no passasse da simples entrega da noiva ao varo. Essa minha
supozio funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem
caracterizado, e no simples coito.

A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava
_temireco_, isto , a verdadeira mi de meus filhos; emquanto que s
outras mulheres, suas amantes, chamava _aguaaba_. O marido tinha tambem
um nome especial _menda_, que o distinguia do simples amante.

Acrece que para obter a noiva o varo sujeitava-se a certas condies, e
at mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razo, que
no era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de no o
distinguirem com uma frmula qualquer, elles que em outros pontos eram
to ceremoniozos, como na recepo do hospede, na declarao da paz ou
da guerra.

Os cronistas, porm, no se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco
para lamentarem a poligamia dos tups, tirando logo dal argumento para
pintarem os selvajens vivendo a modo de ces.

 uma falsidade. Os tups tinham moralidade conjugal, e at muito
severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o
divorcio por mutuo consentimento.

A poligamia dos tups foi da mesma natureza da que existiu entre os
hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condies da vida
selvajem, e no a poligamia sensual dos turcos e outros povos do
oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.

Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para
rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao
amparo e proteo do homem. Por outro lado cada varo, no interesse no
smente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma
familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.

Entretanto, e  isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de
muitas mulheres no destruia a instituio da familia, bem caracterizada
pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela
adoo dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos
filhos da espoza, ou da verdadeira mi, _temireco_.

Muita coiza poderia dizer cerca da educao dos filhos e da condio da
mulher, mas no cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito 
possivel que o faa.

Para a intelijencia do texto basta saber-se que alm da espoza,
_temireco_, mi da familia, das amantes, _aguaabas_, que faziam parte
da familia na condio de servas, havia--1.o as virjens, _cunhantem_,
mulheres debalde, que pertenciam  familia, e se destinavam para espozas
dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforo e denodo; 2.o
as velhas, ou mulheres j privadas de seus maridos, e que ficavam sob a
proteo da comunho, incumbidas da educao dos orfos, e dos filhos
anonimos; 3.o as _moas_ ou mulheres que desprezavam o cazamento e
viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do
qual tinham filhos, que no pertenciam  familia, mas  tribu; eram
estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao
estranjeiro que chegava  taba; 4.o finalmente, a classe infeliz,
abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor,  qual davam o nome
de _morixaba_, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de
Ives d'Evreux, _menondere_, que equivalia a ladra; porquanto entendiam
os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo
a outro o amor que lhe pertencia.

Ainda nesta ultima escala, se esto manifestando as leis severas do
recato e fidelidade da unio sexual entre os selvajens. Alm do
cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos,
produzindo direito e obrigao reciproca. A mulher que traa a f
conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto , uma ladra e decia
 ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante
entregava-a ao desprezo da tribu.


Paj. 10

_Jaguar agradece a Tupan_.--No achando entre os aborijenes templos e
idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos,
foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos.
Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma
superstio, que outra coiza no  a relijio na infancia da humanidade.

Os tups adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava
pelo raio e pelo trovo; donde se induz o grande poder que atribuiam a
essa divindade. Seu nome de raa aprezenta uma afinidade que faz
prezumir a crena de uma decendencia celeste.

Tambem temiam os tups o espirito do mal, personificado em Anhanga, o
fantasma, que habitava as trvas, e a quem referiam um poder funesto.
Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajs, que
buscavam sua fora e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.

Alm disso contava a mitologia tupica genios bons e mus, que habitavam
as florestas e os rios, e percorriam as solides montados em caitets,
ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e
a mi d'agua, cuja abuzo transmitiu-se  raa conquistadora, e de que
ainda se encontram vestijios entre as populaes do norte.

No ha contestar que a est uma relijio bem caracterizada. Mas como
faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos,
francos e celtas no podiam admitir na America uma relijio sem culto
regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.

Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos
superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem
prevenes a orijem e indole das raas indijenas do novo mundo. Na
primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.

O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos
aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade
se manifesta por dois modos: da terra ao cu, como na Grecia, ou do cu
 terra, como na America. _Voyage au Nouveau Continent_--8.o volume,
paj. 243.

Quando a imajinao do homem personificando a divindade  sua imajem a
faz subir ao cu, como os numes pagos da Grecia, ella  levada
naturalmente a oferecer-lhe uma constante adorao com que mantm o
vinculo da creatura ao creador. Da a necessidade de idolos, que
simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.

Diverso, porm,  quando, concebendo a divindade  sua imajem, o mortal
a humana inteiramente, transportando-a do cu  terra. Ento o homem
figura-se no a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.

Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentao da
divindade na terra  o mesmo homem que a contina. Cada um tem o seu
nume em si. A adorao transforma-se naturalmente no culto da propria
individualidade, nessa exajerao prodijioza do estalo humano, que
distingue as idades heroicas.

 pela ostentao da corajem, da fora, da grandeza de animo, que o
selvajem se elevava at o deus, seu projenitor; e no pela adorao,
pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem
lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tups no careciam,
pois, de oraes e sacrificios; as faanhas com que se mostravam dignos
de sua orijem celeste eram as melhores oblaes do seu culto.

Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que
matava as pessoas mais caras quando no se podiam curar da enfermidade.
Essa implacavel sujeio ao mal, abatia e humilhava uma raa forte e
guerreira.

Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da
individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem
brazileiro.

Eis o que no souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos
indijenas americanos.

Abstraindo da moral absoluta em que s ha uma verdade, a do
cristianismo, e tomada a questo no ponto de vista da arte, no se pde
recuzar a essa relijio tup, que nivela o homem  divindade, certo
cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.

O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao
passo que elle tornava a raa de Japeto escrava submissa dos deuzes, e
vitima de seus caprichos e vinganas, na mitolojia americana o homem  o
filho e o emulo da divindade.

 parte as fices graciozas do espirito helenico, a mitoloja grega s
tem uma creao que reveste a majestade da relijio tup;  a creao
dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da
divindade, qual se deu na America.

Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por
um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e
mizeria que aflijem a humanidade via as manifestaes desse poder
funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heres, porm,
rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.

 essa relijio simples e sem aparato, como devia ser uma relijio das
florestas, professada por povos caadores e guerreiros, coroava a crena
profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela venerao
s cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumao.

Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o
nome de _Camucins_; e as acompanhavam no s das armas e objetos de uzo
proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam
reviver os guerreiros e suas mulheres.

Basta este rapido esboo para dar ida da relijio dos tups, e avaliar
o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noo da
divindade.

Um povo que mantinha as tradies a que aludimos, no era certamente um
acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos
conquistadores. E quando, atravs de suas falsas apreciaes, a verdade
pde chegar at nossos tempos, o que no seria, se espiritos
despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas naes
primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenas, tradies e
costumes?

Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a
exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar
indispensavel sua catequeze. J imbuidos da intolerancia relijioza, a
politica exajerava ainda mais sua suspeio.


Paj. 11

_Ubiratan_.--Pu-ferro; literalmente _ubira_--madeira, e _atan_--duro.
_Atan_ no  seno a palavra _ita_ com a terminao _ana_, que na lingua
tup servia para a formao dos adjetivos. _Itana_, o que tem a natureza
de pedra. Assim, de pedra fizemos ns pedregozo. Rigorozamente
_ubiratan_  _pu-pedra_; pois que os indijenas no conheciam o ferro.
Era dessa madeira que faziam os tacapes.


Paj. 13

_O chefe tocantim_.--Os autores empregam em geral os termos maioral,
principal, para dezignar o cabea de uma tribu ou nao indijena.
Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos
Araucanos; Barloeus chamou-os classicamente de reis.

Neste livro, como em _Iracema_, preferi traduzir o termo indijena
_tuxaba_, por _chefe_; e fui levado pela razo de ser, alm de muito
apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estlo o
mais elevado, sem laivos de afetao. Ao _morubixaba_ pela mesma razo
chamei chefe dos chefes.


Paj. 14

_Calcou a mo sobre o hombro esquerdo_.--cerca desse modo simbolico de
assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo,  curiozo o que referiu
e notou _Ives d'Evreux_, cap. XIV.

Ento eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas
naes, que quando um prizioneiro cae na mo de algum, aquelle que o
toma, bate-lhe com a mo na espadua dizendo-lhe: Eu te fao meu
escravo; e desde ento esse pobre cativo, por maior que seja entre os
seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve
fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de
andar por onde lhe parea, no faz seno o que quer e ordinariamente
espza a filha ou irm de seu senhor, at o dia em que deve ser, morto e
comido.

Depois o missionario lembra as palavras de Isaas cap. 9--_Factus est
principatus super humerum ejus_--e cap. XXII--_Dabo clavem dominis David
super humerum ejus_; e mostra a conformidade desse rito dos tups com as
tradies dos hebreus e outros povos primitivos.


Paj. 15

_Ubirajara_--senhor da lana, de _ubira_--vara e _jara_--senhor;
aportuguezando o sentido, vem a ser lancero.

Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio
S. Francisco uma nao de que fala Gabriel Soares--Roteiro do Brazil,
cap. 182.

A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor,  a mais notavel do mundo,
como fica dito, porque a fazem com uns pus tostados muito agudos, de
comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e to agudos, de
ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais,
e so to certos com elles que no erram tiro, com o que tm grande
chegada; e desta maneira matam tambem a caa que, se lhe espera o tiro,
no lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios
to valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.

Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de
_bilreiros_ que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam
suas lanas com ajilidade e sutileza igual  da rendeira ao trocar os
bilros.


Paj. 15

_Preciza de um prizioneiro_.--Era entre os selvajens maior honra
conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de
vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares--cit. na nota
4a.


Paj. 15

_Chamas de alegria_.--Metafora tup. Chamavam a alegria e a festa
_torba_, literalmente, grande quantidade de fogueiras.


Paj. 17

_Historia de guerra_.--Os tups para exprimirem historia, ou narrativa,
diziam _maranduba_, conto de guerra, de _mara_--guerra--_nheng_--falar e
_tuba_--muito; falar muito de guerra.

Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se  que
no crearam para as outras historias o termo analogo de _poranduba_,
composto de _poro_, _nheng_, e _tuba_--falar muito da gente.

Os indios eram muito apaixonados dessas narraes, em que mostravam sua
natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do
vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que no
diga a sua maranduba, que  o recito circumstanciado de quanto viu e lhe
aconteceu em caminho.

s vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no
livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi cerca de outros termos
eufonicos tais como _tuxaba_, _moribixaba_, _moacara_, _nhengaara_,
_etc_.


Paj. 21

_Os cantores_.--Os tups eram muito dados  muzica e  dansa.

Lery fala com entuziasmo da doura de seus cantos; e Ferdinand Denis,
paj. 21, afirma, no sei com que fundamento, que a imitao dos Chataws
da America do Norte, certas naes do Brazil gozavam do privilejio de
fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios
entre os tups.

Gabriel Soares--cap. 162--descreve os cantos, improvizos e dansas dos
tupinambs, concluindo com estas palavras:

Entre este gentio, os muzicos so muito estimados e por onde quer que
vo, so bem agazalhados e muitos atravessaram j o serto por entre
seus contrarios, sem lhes fazerem mal.


Paj. 24

_Como chefe pertence-lhe a virjem_, etc, Barloeus--2.a edic. paj.
483.--Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu proecellunt,
eminentiores habentur et ut hoeroum numero, qui ob virtutis
fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire moerentur, cum
meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis
nomen, sed cum sanguine transfundi.--Quantos disputam em jogos de lana
e caa; os eminentes so tidos no numero dos heres; os quais pela
excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por
quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem  vo nome a
nobreza, pois se comunica pela transfuzo do sangue.


Paj. 25

_Purifica o corpo_.--Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio.
Ives d'Evreux diz a este respeito: Ils sont fort soigneux de tenir leur
corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et
ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec
les mains de tous cts et en toutes les parts, pour oster la poudre et
autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.


Pag. 25

_Ur_.--Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar
objetos. O _ur_ era um cesto aberto. _Panacum_ era um cesto maior com
tampa. _Sambur_ era cesto com orelha, corrupo de _nambi_ e _ur_,
literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o _patigu_ ou
_patu_, que era uma caixa de palha ou couro; e o _moc_, pequeno surro
da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda so uzados no norte
para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena,
aproveitada pelos colonizadores.


Paj. 26

_Coqueiros_.--Ao que disse em nota de Iracema cerca do indijenismo
desta planta acrecentarei a noticia que della nos deixou Guilherme
Piso--_Histori Rerum Naturalium Brasili_, Liv. 8o, p. 138.

_Inai Guacuiba_ cujus fructus _inaiaguacu_ brasiliensibus; in congo
vocatus _Ejaquiambutu_ et fructus _Quetiniga quiambutu_: Palma nucifera,
lusitanis _coqueiro_ et fructus illius _coco_; qui tribus suis
foraminulis lavam representat. Arbor caudice raro recto, sed plerumque
incurvato, quatuor, quinque sex aut etiam septem pedes crasso, triginta,
quadraginta et interdum quinquaginta pedes alto.

 esta mesma palmeira que os Mexicanos chamavam _Cogolli_. Piso viu em
1640 na cidade Maurica (Recife) transplantarem-se ps que tinham mais
de 24 anos.


Paj. 28

_Cabelos_.--Pelos cabelos costumavam distinguirem-se as diversas naes
indijenas. Southey--I, cap. 8o. Das mulheres diz Barloeus:--_Foeminis
coma promissa nisi per luctus tempora aut absens marito_.--paj. 36.
Traziam as mulheres a madeixa longa, salvo no tempo do luto ou auzencia
do marido.

Mais um trao do carater e costumes indijenas. Durante a auzencia do
marido, a mulher trazia uma especie de luto, ou mostra de tristeza e
saudade, que era simbolizada pelo sacrificio das longas tranas dos
cabelos.


Paj. 28

_Braos que tu querias para tua cintura_.--Metafora da lingua tup, que
exprime o amor; _aguaaba_, a amante, literalmente, o que se tem 
cintura.


Paj. 31

_Escravo_.--Acerca das leis do cativeiro entre os indios leiam-se os
dois capitulos XV e XVI, que a este assunto consagrou Ives d'Evreux,
citado.

Os cativos viviam em plena liberdade na taba de seus senhores, e era
muito raro que fujissem, porque se consideravam ligados por um vinculo
desde o momento em que o vencedor lhes calcava a mo sobre a espadua.
Quebrar esse vinculo, era por elles considerado uma dezhonra.

At os prizioneiros destinados ao suplicio, preferiam a morte glorioza
a se rebaixarem pela fuga no conceito de seus inimigos. Muitas vezes as
mulheres tomavam substancias que provocavam o aborto, no querendo
passar pela mizeria de verem trucidada a prole; no raro favoreciam a
fuga dos tristes maridos de alguns dias pondo-lhes comida nos bosques e
at escapulindo-se com elles. Frequentemente sucedeu isto a prizioneiros
portuguezes; os indios brazileiros, porm, julgavam dezhonroza a fuga,
nem era facil persuadil-os a tomal-a. Southey--cap. VII onde
cita--Noticias do Brazil, II, 69 e Herrera 4, 3, 13.

Abbeville ainda  mais explicito:--Et bien que estant desliez et libres
comme ils sont, ils puissent fuir et se sauver, si est ce que ils ne
font jamais encore qu'ils soient assurez de estre tuez et mangez au bout
de quelques temps. Car si quelqu'un des prisionniers s'etait eschap
pour retourner em son pays, non seulement il serai tenu pour un _couaen
eum_, c'est a dire poltron et lasche de courage; mais aussi ceux de sa
nation mesme ne manqueroient de le tuer avec mille reproches de ce qu'il
n'aurait pas eu le courage d'endurer la mort parmi ses ennemis, comme si
ses parents et tous ses semblables n'etaient assez puissants por venger
sa mort, etc. pag. 290.

As leis da cavalaria no tempo em que ella floreceu em Europa no
excediam por certo em pundonor e brios a bizarria dos selvajens
brazileiros. Jmais o ponto de honra foi respeitado como entre estes
barbaros, que no eram menos galhardos e nobres do que esses outros
barbaros, godos e arabes, que fundaram a cavalaria.

Al est uma pedra de toque para aferir-se o carater do selvajem
brazileiro, to deprimido por cronistas e noveleiros, avidos de
inventarem monstruozidades para impinjil-as ao leitor. Nem isso lhes
custava; pois a raa invazora buscava justificar suas cruezas rebaixando
os aborijenes  condio de fras, que era forozo montear.


Paj. 32

_O suplicio_.--Outro ponto em que se assopra a ridicula indignao dos
cronistas  cerca da antropofagia dos selvajens americanos.

Ninguem pde seguramente abster-se de um sentimento de horror ante essa
ida do homem devorado pelo homem. Ao nosso espirito civilizado, ella
repugna no s  moral, como ao decoro que deve revestir os costumes de
uma sociedade crist.

Mas antes de tudo cumpre investigar a causa que produziu entre algumas,
no entre todas as naes indijenas, o costume da antropofagia.

Disso  que no curaram os cronistas. Alguns atribuem o costume 
ferocidade, que transformava os selvajens em verdadeiros carniceiros, e
tornava-os como a tigres sedentos de sangue. A ser assim no faziam mais
do que reproduzir os costumes citas, que sugavam o sangue do inimigo
ferido,--quem primum interemerunt, ipsis  vulneribus ebibere. Pomponius
Moela. Descrip. da Terra.--Liv. 2o cap. 1o.

Outros lanam a antropofajia dos americanos  conta da gula, pintando-os
igual  horda bret das Gallias, os Aticotes, dos quais diz S. Jeronimo
que se nutriam de carne humana, regalando-se com o ubere das mulheres e
a fevera dos pastores. (_S. Hieronimo IV.--paj. 201, adv. Jovin.--Liv.
2o_.)

O canibalismo americano no era produzido, nem por uma nem por outra
dessas cauzas.

 ponto averiguado, pela geral conformidade dos autores mais dignos de
credito, que o selvajem americano s devorava o inimigo, vencido e
cativo na guerra. Era esse ato um perfeito sacrificio, celebrado com
pompa, e precedido por um combate real ou simulado que punha termo 
existencia do prizioneiro.

Simo de Vasconcelos, Cronica da companhia, 1  49, alude a uma velha
que sentia entojos por no ter a mozinha de um rapaz tapuia para
chupar-lhe os ossinhos: e Hans Stade, paj. 4, cap. 43 e seg., conta a
historia de dois individuos moqueados pelos tupinambs, e guardados para
um banquete.

No exajeremos, porm, esses fatos izolados, alguns dos quais podem no
passar de caraminholas, impinjidas ao pio leitor. Os costumes de um povo
no se aferem por acidentes, mas pela pratica uniforme que elle observa
em seus atos.

Se os tups fossem excitados pelo apetite da carne humana, elles
aproveitariam os corpos dos inimigos mortos no combate, e que ficavam no
campo da batalha. A guerra se tornaria em caada; e em vez de montear as
antas e os veados, os selvajens se devorariam entre si.

No ha, porm, escritor srio que deixasse noticia de fatos daquella
natureza; e no me recordo de nenhum que referisse exemplos de serem
devoradas mulheres e meninos; salvo quanto aos ultimos, o filho do
prizioneiro de guerra (Not. do Brazil.--II, 69), do que tenho razo para
duvidar.

Parece-nos, pois, que a ida da gula deve ser repelida sem hezitao. Se
em algumas tribus ou malocas se propagou o apetite depravado, essa
dejenerao foi por ventura devida ao contajio dos Aimors, cuja invazo
 posterior ao descobrimento. Em todo o cazo  uma exceo que no pde
preterir o rito da relijio tupica.

Tambem pela contraprova, havemos de excluir a ferocidade, como razo do
canibalismo americano.

Se o instinto carniceiro dominasse o tup, elle se lanaria sobre o
inimigo como o cita, ou o sarraceno de que fala Am. Marcellinus, para
sugar-lhe o sangue da ferida, e trincar-lhe as carnes ainda vivas e
palpitantes.

Mas, ao contrario, vemos que o guerreiro tup tinha por maior bizarria
cativar seu inimigo no combate, e trazel-o prizioneiro, do que matal-o.
Chegado  taba, em vez de o torturar dava-lhe por espoza uma das virjens
mais formozas, a qual tinha a seu cargo nutril-o e tornar-lhe agradavel
o cativeiro.

Releva notar que a ida da antropofajia j era comum na Europa, antes do
descobrimento da America; no s pelas tradies dos barbaros, como
pelas crendices da mdia idade, nas quais figuravam gigantes e bruxas,
papes de meninos. Que tema inexgotavel para a imajinao popular no
veiu a ser a primeira noticia, seno conjetura, sobre o canibalismo do
selvajem brazileiro?

Cronista ha que nesse costume, onde se est revelando a fora
tradicional de um rito, no enxergou seno o zelo do gloto, que engorda
a preza para saboreal-a. Mas essa ridicula supozio nem ao menos se
conforma com o teor da vida selvajem, a qual desconhecia a industria da
criao.

O selvajem comia a caa como a encontrava no mato, gorda logo depois do
inverno, e magra na fora da seca. No se dava ao trabalho de a
engordar. Porque motivo se havia de afastar desse uzo cerca do homem,
se o homem fosse para elle uma especie de caa?

E por ventura faria parte do processo da engorda do bipede, o acessorio
de uma companheira formoza e na flr da idade, qual invariavelmente a
davam ao prizioneiro?

 obvio que esse uzo tinha outra razo mui diversa. No se tratava de
engordar o prizioneiro, mas de fortalecel-o, para que elle morresse com
honra no dia do sacrificio, que devia ser o seu ultimo combate.

Ainda nessa ocazio, os vencedores ostentavam sua gravidade, deixando
que o prizioneiro exaltasse o proprio valor e os afrontasse com seu
desprezo. S chegado o momento depois de celebrada a ceremonia, o
abatiam com um golpe de tacape.

A ferocidade no se coaduna com a calma e comedimento desse proceder.
Pde-se explicar o sacrificio humano dos tups por um intenso e profundo
sentimento de vingana; mas no por sanha brutal.

Ferdinand Saint-Denis (_Univers_, _Brsil_, pag. 30) diz com muito
criterio:--_En accomplissant ces sacrifices, les tupinambs
n'obissaient pas, comme pourraient le croire quelques personnes,  un
got deprav qui leur aurait fait prfrer la chair humaine  toutes les
autres; ils taient mus avant tout par un esprit de vengeance que se
transmettait de gnration en gnration, et dont notre civilisation
nous empche de comprendre la violence_.

No era, porm, a vingana a verdadeira razo da antropofajia. O
selvajem no comia o corpo do matador de seu pai ou filho, se acontecia
matal-o em combate. Abandonava o cadaver no campo, e apenas cortava-lhe
a cabea para espetal-a em um poste  entrada da taba, e arrancava-lhe o
dente para trofu.

A vingana, pois, esgotava-se com a morte. O sacrificio humano
significava uma gloria insigne rezervada aos guerreiros ilustres ou
vares egrejios quando caam prizioneiros. Para honral-os, os matavam no
meio da festa guerreira; e comiam sua carne que devia transmitir-lhes a
pujana e valor do here inimigo.

Este pensamento resalta dos mesmos pormenores com que os cronistas
exajeraram o cruento sacrificio.

Morto o inimigo, no era devorado; antes as mulheres tratavam o corpo e
o curavam, moqueando as carnes. Essas eram guardadas; e distribuidas por
todas as tribus, incumbindo-se os que tinham vindo assistir  ceremonia,
de leval-as s tabas remotas.

Os restos do inimigo tornavam-se, pois, como uma hostia sagrada que
fortalecia os guerreiros; pois s mulheres e aos mancebos cabia apenas
uma tenue poro. No era a vingana; mas uma especie de comunho da
carne, pela qual se operava a transfuzo do heroismo.

Por isso dizia o prizioneiro:--Esta carne que vdes no  minha; porm
vossa; ella  feita da carne dos guerreiros que eu sacrifiquei, vossos
pais, filhos e parentes. Comei-a; pois comereis vossa propria carne.
Deste modo retribuia o vencido a gloria de que os vencedores o cercavam.
O heroismo que lhe reconheciam, elle o referia  sua raa de quem o
recebera por igual comunho.

Algumas naes tinham outra comunho, inspirada no mesmo pensamento.
Era a dos ossos dos projenitores que reduziam a p, e que bebiam
dissolvidos no cauim em festas de comemorao. Este fato, assim como o
sacrificio tremendo da mi, que devia absorver em si o filho que lhe
nacera morto, bem mostram que por modo algum naceu do espirito de
vingana o chamado canibalismo.

Transportemo-nos agora, no como homens e cristos, mas como artistas,
ao seio das florestas seculares, s tabas dos povos guerreiros que
dominavam a patria selvajem; e quem haver to severo que negue a fera
nobreza desse barbaro e tremendo sacrificio?

A ida repugna; mas o banquete selvajem, tem uma grandeza que no se
encontra no festim dos Atridas; e est bem lonje de inspirar o horror
dessa atrocidade que entretanto no foi desdenhada pela muza classica.

No Brazil  que se tem dezenvolvido da parte de certa gente uma averso
para o elemento indijena de nossa literatura, a ponto de o eliminarem
absolutamente. Contra essa extravagante preteno lavra mais um protesto
o presente livro.

Para concluir com este ponto, observaremos que nem todas as naes
selvajens eram antropofagas; e que em minha opinio esse costume, bem
lonje de ser introduzido pela raa tup, foi por ella recebido dos
Aimors e outros povos da mesma orijem, que ao tempo do descobrimento
apareceram no Brazil.


Paj. 32

_Espoza do tumulo_.-Este rito selvajem  muito conhecido e dispensa-me
de transcrever o que cerca delle escreveram os cronistas.

Mais uma prova do carater generozo e bizarro do selvajem brazileiro.
Lonje de torturarem seu prizioneiro, ao contrario se esforavam em
alegrar-lhes os ultimos dias pelo amor; davam-lhe uma espoza; e to
grande honra era esta que o vencedor a rezervava para sua filha ou irm
virjem; e se no a tinha, para a filha de algum dos principais da taba.

Falam alguns autores da _cunhmembira_, como de uma ceremonia em que se
devorava o filho que por ventura a espoza do tumulo concebia do
prizioneiro morto. Duvido da generalidade desse fato, que me parece
adulterado, e seria especial aos tamoios.

_Cunhmembira_, dizem esses autores, significa _filho da mulher_; e da
diz Southey, copiando Lery, tiravam elles uma horrivel consequencia, que
era devorarem a criana.

Ora, _cunhmembira_ significa sado do ventre da mulher. A lingua tup
no tinha outro modo de dezignar a maternidade: tara--isto , sado do
sangue, diziam do filho cerca do pai; e _membira_, diziam do filho
cerca da mi. Na expresso _cunhmembira_ no ha seno a antepozio do
substantivo _cunham_ (mulher) que os indios suprimiam por superfluo;
assim como suprimiam na outra palavra dizendo simplesmente _tara_ e no
_aba-tara_ sado do sangue do varo.

Se o nome de _cunhmembira_ indicasse estar a criana destinada ao
suplicio, ento todos os nacidos da taba se achariam no mesmo cazo, pois
todos eram em relao s mais, _membiras_ ou _cunh membiras_.

Ainda mais, se a criana era condenada ao suplicio pela razo de ser do
sangue inimigo, parece que o nome a ella dado devia exprimir esse fato
importante e derivar-se antes desta fraze: _miauubtara_--o gerado do
sangue do cativo.

A estes filhos dos prizioneiros chamavam os indijenas _marab_, gerado
da guerra, nome honrozo, que revelava o apreo em que tinham essa prole,
sada de um sangue heroico. E tanto assim era que destinavam para
conceber essa prole o seio da virjem mais ilustre da taba.

Se os selvajens, que nada praticavam sem uma razo justificativa, s
tinham em mira devorar os filhos do cativo, para que dar-lhe uma espoza
ilustre? Mais sagazmente procederiam adjudicando-lhe diversas mulheres
para terem maior criao a matar.

Est-se conhecendo que o tal banquete no passa de um invento de
cronistas, que entenderam as outras palavras dos indios to bem como a
de _cunhmembira_ que elles diziam significar filho do inimigo.

_Cunhmembira_ creio eu ser a festa que se fazia pelo parto da mulher; e
talvez acontecendo nacer morta a criana, se orijinasse a fabula do
sacrificio que ento se praticava entre algumas naes de ser a mi
obrigada a absorver em si esse fruto goro de sua fecundidade.


Paj. 33

_Guainumb_.--Persuadem-se os brazilienses haver uma ave, que chamam
colibri, a qual leva e traz noticia do outro mundo. Santa Rita
Duro--Notas ao Caramur.

Tambem chamavam os indios esse passaro, _Guaraciaba_--cabelos do sol; e
Arati, ou Aratagua segundo Marcgraff, 197. Quanto ao nome de
Guainumb, ou mais corretamente Guinamb, penso eu que significa o
brinco das flres. Os selvajens tiraram naturalmente essa dezignao do
modo por que o colibri tremula, como suspenso  flr para chupar-lhe o
mel, semelhante ao movimento das arrecadas suspensas s orelhas, e que
elles chamavam _nambpora_.


Paj. 35

_Jussara_.--Nas povoaes feitas em terra tm muitas naes guerreiras
a providencia de as segurarem e munirem com fortes muralhas, no de
pedra, mas de estacas do pu duro como pedra. Outros as fabricam de
palmeira, que chamam jussara, cujos espinhos so to grandes e duros,
que servem a muitos de agulhas de fazer meias; e as trincheiras feitas
de _jussara_ so mais seguras que as mais bem reguladas fortalezas;
porque de modo nenhum se podem penetrar e romper seno com fogo por
crecerem no s cheias de grandes estrepes ou agudos espinhos, mas to
enlaadas e enleadas umas com outras que se fazem impenetraveis.
(Tezouro descoberto no rio Amazonas, Part. 2a, cap. 1o, no 2o vol. da
Rev. do Instituto, paj. 350.)

O nome da palmeira  em tup _jussara_, de _ju_--espinho e _ara_
dezinencia.


Paj. 36

_Carbeto_.--Assim chamam Ives d'Evreux e Abbeville ao conselho dos
velhos entre os selvajens. Este nome deriva-se naturalmente de
_caraiba_, varo ilustre e _ip_, logar onde.


Paj. 37

_Hospede_.--A virtude da hospitalidade era uma das mais veneradas entre
os indijenas. Todos os cronistas do della testemunho; e alguns, como
Lery e Ives d'Evreux, descrevem com particularidade o modo liberal e
generozo por que os selvajens brazileiros a exerciam.

 certo que no escapou tambem  malevolencia dos cronistas, essa
excelencia e nobreza do carater indijena. Gabriel Soares cit. cap. 168
depois de falar do como os tupinambs agazalhavam os hospedes,
acrecenta: e lanam suas contas se vem de bom titulo ou, no; e se 
seu contrario, de maravilha escapa que o no matem, etc. Southey cit.
cap. 8o faz coro com essa verso que nos parece suspeita.

 possivel que depois da colonizao, os selvajens vitimas das
perfidias dos aventureiros relaxassem suas tradies; mas a
hospitalidade foi sempre entre elles uma coiza sagrada, como atestam em
geral os escritores, que no referem aquella exceo.

Basta refletir sobre o modo por que exerciam os selvajens a
hospitalidade para reconhecer que no  admissivel a suspeita de Gabriel
Soares. Em verdade, aquelles cuja porta estava aberta sempre ao
viajante; que franqueavam o ingresso de sua cabana por tal modo que o
estranjeiro nella entrava como senhor, ainda mesmo na auzencia do dono;
que sem perguntar o nome de quem chegava nem de onde vinha o agazalhavam
com a maior liberalidade; esses que assim acolhiam o hospede, no podiam
ocultar a inteno perfida de o matar, no cazo de ser contrario. Ha uma
tal contradio entre esse desfecho e as circumstancias precedentes, que
no se pde acreditar nelle pelo simples dizer de um cronista, que em
muitas outras inexatides caiu.

Se ha trao nobre do carater selvajem  essa hospitalidade, que o
estranjeiro no pedia e sim exijia como um direito sagrado, com esta
simples formula--_Vim_; ao que o dono da cabana respondia--_Bem vindo_.

O epizodio da deliberao do conselho sobre o nome do estranjeiro est
justificado pelo trecho seguinte de Ives d'Evreux, cap. 50.

Aprs ces paroles il vous dit--_Marap derere_? comment t'appelles-tu?
quel est ton nom? comme veux-tu que nous t'appellions? Quel nom veux-tu
qu'on t'impose? O faut-il noter que si vous ne vous estes donn et
choisi um nom, lequel vous leur dites alors et desormais estes appell
par tout le pays de ce nom, les sauvages du village ou vous demeurez
vous en choisiront um pris des choses naturelles, qui sont en leurs pays
et ce le plus convenablement qu'il leur sera possible, selon la
phisionomie qu'ils verront en votre visage, ou selon les humeurs et
faons qu'ils reconnaitront en vous..... Eh bien quel nom donnerons nous
a un tel ton compre? Je ne sais, il faut voir; lors chacun dit son
opinion et le nom qui rencontre le mieux et est reu de l'assemble, est
impos avec son consentement si c'est quelque homme d'honneur.

Ainda nessa circumstancia se revela a delicadeza da hospitalidade do
selvajem.


Paj. 38

_Artes da paz_.-- ainda de Ives d'Evreux, cap. 18, esta curioza
informao. Je raconterai ici une jolie histoire. Un jour je m'allois
visiter le grand Theon, principal des Pierres Vertes Tabaiares: comme je
fus en sa loge et que je l'eus demand, une des ses femmes me conduit
soubs une belle arbre qui estoit au bout de sa loge, qui la couvrait du
soleil; l-dessous il avait dress son mestier pour testre des licts de
coton et travaillait aprs forte soigneusement; je m'tonnai beaucoup de
voir ce grand capitaine, vieil colonel de sa nation, ennobli de
plusieurs coups de mousquets, s'amuser  faire ce mestier et je ne peus
me taire que je ne susse la raison esprant apprendre quelque chose de
nouveau en ce spectacle si particulier. Je luy fist demander par le
truchement qui estoit avec moy,  quelle fin il s'amusait  cela? il me
fit response: Les jeunes gens considrent mes actions et selon que je
fais ils font; si je demeurais sur mon lit  me branler et humer le
petim, ils ne voudraient faire autre chose; mais quand ils me voient
aller au bois, la hache sur l'paule et la serpe en main, ou qu'ils me
voient travailler  faire des licts, ils sont honteux de rien faire,
etc.


Paj. 38

_Lanadeira_.--Os indijenas tinham um tear que  descrito por Lery, cap.
18. Uzavam tambem de um fuzo comprido e grosso, que as mulheres faziam
girar entre os dedos, atirando ao ar, como ainda agora fazem as velhas
fiandeiras do serto.


Paj. 43

_Jurandir_.--Contrao da fraze _Ajur-rendipira_--o que veiu trazido
pela luz.


Paj. 45

_Jabot_.--Contou-me o Dr. Coutinho que o jabot para os indios do
Amazonas  o simbolo da gravidade, prudencia e sabedoria, e prometeu-me
dar um apologo, em que elles celebram essas virtudes, contando a
historia de um jabot, que venceu na lijeireza ao veado, na fora  ona
e assim aos mais animais.


Paj. 45

_Tetivas_.--Os Tetivas habitam nos olhos das palmeiras e de outras
arvores: pem-lhes terra e acendem fogo. Humboldt cit., paj. 283.


Paj. 46

_Mulheres guerreiras_.--Aluzo s Amazonas cuja existencia  to
controvertida. Eu acredito na sua existencia, embora reconhea que houve
exajerao de Orellana.

No  este o momento de elucidar este ponto da historia, ou antes
mitolojia do Brazil selvajem. Proponho-me a fazel-o quando publicar uma
lenda que tenho esboada cerca do assunto. Nessa ocazio direi o que
entendo cerca da memoria do Dr. Gonalves Dias, publicada na _Revista
do Instituto_.


Paj. 46

_Senhoras de seu corpo_.--Metafora tup. No varo a parte nobre era o
sangue; pelo que elle dizia do filho--_tara_, o filho do meu sangue; e
para indicar a independencia diziam _taguara_, que os dicionarios
traduzem _livre_, mas que literalmente significa, _senhor do seu
sangue_.

A mulher que dizia do filho _membira_--o gerado de meu ventre, devia
pela mesma razo uzar de expresso analoga para exprimir sua liberdade,
e dizer _membijara_--senhora de seu ventre, que eu por elegancia traduzo
menos literalmente, _senhora de seu corpo_.


Paj. 47

_Par sem fim_.--Par, diz Humboldt cit. paj. 285,  uma radical guaran
e exprime agua. Par creio eu que significou a grande abundancia de
agua, e foi primitivamente empregado para dezignar os lagos e por
ventura as vastas inundaes do vale do Amazonas. Mais tarde os
selvajens acrecentaram-lhe o verbo _nhane_ correr, e disseram
_par-nhanhe_--donde _parann_ para dezignar as grandes massas de agua
corrente, isto , os rios caudalozos.

Os dois maiores rios da America do Sul, o Amazonas e o Prata, ambos se
chamavam _Parann_, assim como outros muitos do Brazil. O mesmo radical
se encontra j composto em Paraba, Parnaba, Paranapanema, etc.

Foi a substituio do _p_ pela analoga _m_ que produziu o nome de
_Maranho_, cerca de cuja etimolojia se inventaram tantas
extravagancias.


Paj. 48

_Guerreiros do mar_.--Traduo da palavra tup _caramur_ com que os
tupinambs da Baa dezignaram Diogo Alvares Correia.

Caramur  composto de _cara_, alterao de Par--mar e _moro_, gente;
homem do mar. Os selvajens acreditavam que as aguas eram habitadas, e
da naceu a lenda da mi d'agua, que se transmitiu  raa invazora. Nada
mais natural do que chamarem ao primeiro homem branco, que lhe apareceu
surjindo do oceano, Caramur--o guerreiro do mar.


Paj. 48

_Rezina cheiroza_.-- o ambar, que os tups chamavam _Piraourepoti_, e
de que ao tempo do descobrimento abundavam as ribeiras do mar, nas
provincias do norte.


Paj. 49

_Moas_.-- dificil, seno impossivel, determinar atualmente, e pelas
informaes to falhas quo malignas dos cronistas, a condio da mulher
entre os selvajens.

Do que tenho lido coliji as idas, a que no texto se alude mui
lijeiramente, e a que em outro logar dmos maior dezenvolvimento.


Paj. 51

_Para servir a Itaqu_.--E quando o principal no  o maior da aldeia
dos indios das outras cazas, o que tem mais filhas  o mais rico e
estimado e mais honrado de todos, porque so as filhas mui requestadas
dos mancebos que as namoram; os quais servem os pais das damas dois e
tres anos primeiro que lh'as deem por mulheres e no as do seno aos
que melhor os servem, a quem os namoradores fazem a roa e vo pescar e
caar para os sogros que dezejam de ter, e lhes trazem a lenha do mato,
etc. G. Soares, cit. cap. 152.

A est a lenda biblica de Jacob servindo a Labam 7 anos para obter por
espoza a Sara. No consta, porm, que os selvajens uzassem da esperteza
do pai de Lia, para descartar-se de uma filha defeituoza; se tal
acontecesse entre os tups, de que ridiculas indignaes no se
encheriam os cronistas?


Paj. 52

_Manat_.-- o peixe-boi, de cujo couro mais forte que o do touro os
indios fazem escudos. Anunciam a chuva, saltando acima d'agua.
Gumilha--Orenoco ilustrado, paj. 276.


Paj. 52

_Biarib_.--Um dos modos porque os indios assavam a caa, e consistia em
enterral-a envolta em folhas de banana, e acender em cima o fogo, cujo
calor penetrando no cho cozia a carne, concentrando-lhe o sabor.

_Moquem_ era simplesmente o assado envolto em folha e feito sobre a
braza; da vem _moqueca_ de que tirmos os verbos moquear e amoquecar.

_Bucan_, supem alguns que seja alterao de _moquem_; mas eu o
considero termo distinto que exprimia apenas a operao de secar a carne
ao fumeiro para conserval-a. Neste sentido  que Lery e Ives de Evreux
empregam constantemente o termo francez _boucaner_, derivado da palavra
tup.


Paj. 54

_Pela mo da mulher_. Refere Gumilla, cap. 45, que estranhando aos
indios sobrecarregarem as mulheres com os trabalhos agricolas, elles
retorquiram que as mulheres sabem dar fruto, o que no sabem os homens,
e por isso na mo dellas as sementes naciam e se multiplicavam.


Paj. 56

_Pirij_.--Uma especie de palmeira chamada palmeira real;  espinhoza e
tem frutos semelhantes ao pecego. Humboldt cit., paj. 257 e 262.


Paj. 58

_Nunca Jandira ofereceria sua rde de espoza_, etc.--Arac reprezenta o
amor da virjem tup, segundo o costume tradicional de sua nao, que
admitia a comunidade e partilha do amor, como um privilejio do guerreiro
ilustre. Ser amada excluzivamente, significava para a mulher selvajem,
ser amada por um guerreiro obscuro.

Jandira reprezenta o excluzivismo do amor, que muitas vezes devia lutar
com a lei tradicional; porque  um impulso da natureza, a qual no 
dado ao homem aniquilar embora muitas vezes a sopite.


Paj. 61

_O combate nupcial_.--Este rito, de ser a virjem requestada o premio do
valor e da corajem,  atestado por grande numero de escritores.

Barloeus, paj. 420:--Lucta et hastarum concursu decertare gloriosum,
finis spectanctium voluptas est, presertim amantium foemina de cujusque
fortitudine et victoria pronuntiat, sic in proximo pignora, pugnandi
irritamenta sunt fortitudinis prcones, ciborum administr.


Paj. 65

_A figura da noiva_.--Esta prova de destreza era muito uzada pelos
selvajens. Marcgraff descreve a especie de torneio que elles faziam
divididos em duas turmas, a ver qual levava mais depressa o seu tro ao
logar destinado para acampamento. Naturalis Historia Brazilia, liv. 8o,
cap. 12.

Conclue com estas palavras:-qui deinceps tempus terunt hastilibus
certando, luctando, currendo; quibus certaminibus du fmin ad id
selectoe proesident et judicant de singulorum virtute et victoribus.

Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira,
prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campees e conferiam
premio aos vencedores, no cedem em galanteria aos torneios da
cavalaria.

cerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonalves
Dias--_Brazil_ e _Oceania_, cap. 10, _Revista do Instituto_, tom. 30,
parte 2a, paj. 153:--Um tro de barrigudo em um cabo delgado e de facil
preenso, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre ns se
uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais
poderozo que este, ou um grande pedao de tronco de palmeira, era
colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o
tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevaes,
arrojava-se s vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava
mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser
espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barloeus, Marcgraff e
outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piau, pela necessidade
que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazio de
perigo a podesse salvar fujindo.


Paj. 67

_O camucim da constancia_.--L-se no _Tezouro do Amazonas_, cit. tom. 3
da _Revista do Instituto_, paj. 169. O 5o predicado que tambem, como
muitas outras naes conservam os Arapiuns,  a prova da valentia quando
cazam;  um exame prvio ou o primeiro principio, como se diz nas
Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor
para mostrarem que posto cazem no  por afeminados, mas por valentes.
Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos
indios Arapiuns  encherem uns grandes e compridos cabaos das formigas
que chamam saugas (_savas_) grandes e mui bravas; ferram na carne com
tanta ou mais valentia que os ces de fila, com proporo  grandeza
destes e pequenez daquellas; porque os ces assim vm a largar; mas as
saugas no largam ainda que as matem e antes perdero a cabea ficando
com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso
uzam dellas alguns cirurjies quando querem cozer alguma cicatriz com
segurana, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os
cabaos de saugas, no s famintas, mas quando esto com fome talvez de
dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os
velhos e graves da misso, sae a terreiro o noivo examinando,
destapam-se os cabaos nos quais intrepido mete os braos, a que logo
acodem as filas, j para saciar a fome, j para dezabafar a ira, e j
para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dres o faam
mudar de cres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas
e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a
bucha, emquanto os examinadores j bebendo-lhe  saude e j dando voltas
em bailes se vo regalando  sua custa, etc.


Paj. 73

_Igap_.-- o nenufar na lingua tup, de _Ig_, _ipe_ e _potira_--flr
d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em
_aguap_, nome por que  vulgarmente conhecida. Penso eu, porm, que
devemos restaurar o nome indijena, at mesmo porque _aguap_ tem diversa
significao em portuguez.

Uma dessas nmfas, a rainha das flres, a que os indios chamavam milho
d'agua, ou a flr jaanan, por servir de ninho a essas aves paludais,
nace branca e com a luz do sol vai rozeando at se tornar escarlate.

Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flr _nap
jaanan_ significa, forno das jaanans, do que duvido. O genitivo
exprimiam os indios com antepozio do nome rejido por esse cazo; assim
_nap jaanan_ significaria jaanan do forno. Demais nem _nap_ quer
dizer forno; nem forno indica a ida que se pretende de pouzo ou ninho.

_Uap_ a  o mesmo _igap_ com a simples diferena de figurar-se a
vogal indijena por _u_ em vez de _ig_ adotada pelo geral dos autores.


Paj. 82

_Murinhem_.--Palavra composta de _morib_ afavel e _nheng_
falar.--Veja-se a respeito dos cantores, _nhengara_, o que se disse na
nota a paj. 117.


Paj. 86

_Paan_.--Palavra da lingua Macaul que significa seta--_Creban_
significa homem alvo; e _Agnin_, monte.


Paj. 97

_Tomou a espoza aos hombros_.--Era entre as mulheres selvajens prova de
amor, suspenderem-se s costas daquelles que preferiam, quando as
requestavam com cantos e dansas. Assim o atesta Marcgraff cit. Ubi
vespera advenit, coeunt adolescentes in varias cohortes et castra
perambulantes cantillant ante tuguria adolescentula autem qu juvenibus
delectantur, produnt et cantillantes atque tripudiantes sequuntur
adolescentes _et  tergo consistunt eorum quos amant, id enim ipsis
amoris testimonium est_. _Paj. 280_.

Escaparam-me algumas notas que a intelijencia do leitor suprir. Todavia
rezumirei as de que me recordo neste momento.

 paj. 44, quando diz Jurandir que conta os anos pelos dedos, quer
dizer que no tem mais de vinte, pois tantos so os dedos das mos e
ps.

 paj. 45, o grande lago que recolheu as aguas do diluvio  o _Manoa_,
em cujas marjens se fabulou o _El-Dorado_. _Manoa_ em achagua  diluvio,
segundo Gumilha, 2.o vol., 7; palavra homologa ao vocabulo tup
_amana_, que significa chuva.

 paj. 45, o combate que Jurandir figura entre o mar e o Amazonas  a
descrio da pororoca. Elle chama as aguas do mar-guerreiros azues-por
causa da cr das vagas, e as aguas do rio-guerreiros vermelhos-porque a
corrente do rio  ento barrenta.

 paj. 45, onde se diz que os anos de Guarib enchiam a corda de sua
existencia alude-se ao costume que tinham os selvajens de contar os anos
pelos ns que davam em um cordel, outros pelos frutos do colar.

 paj. 40 faz-se referencia  lenda de Sum, j muito conhecida. Foi
Sum que ensinou aos tups a agricultura e os primeiros rudimentos das
artes.

 paj. 54 fala-se de _matumbos_. So as leivas que se fazem no norte
para a plantao da mandioca.




INDICE


      I--O caador               5

     II--O guerreiro            15

    III--A noiva                24

     IV--A hospitalidade        37

      V--Servo do amor          51

     VI--O combate nupcial      61

    VII--A guerra               74

   VIII--A batalha              85

     IX--Unio dos arcos        92

         Notas                 101


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     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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