The Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Scenas da Foz

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: March 11, 2009 [EBook #28310]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)









                          SCENAS DA FOZ

                               POR

                      CAMILLO CASTELLO BRANCO.




                          SOLEMNIA VERBA.

                     ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA.

                 O X DE TODOS OS PROBLEMAS DO CORAO.

          OBRA IMPORTANTISSIMA PARA TODOS OS SEXOS, MASCULINO,
                         FEMININO, E NEUTRO,
                E ESPECIALMENTE PARA AS COZINHEIRAS.

                 EM DOZE VOLUMES; SENDO O PRIMEIRO:


                          SCENAS DA FOZ

                               POR

                           JOO JUNIOR.

    SOCIO DA PHILARMONICA, E IRMO DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO.

                            2. EDIO.


                               PORTO:
                  EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
                 Rua dos Caldeireiros, n.os 18 e 20.

                               1860.


         PORTO--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA,

                       Largo do Laranjal n. 4.




JUIZO CRITICO.

(DA PRIMEIRA EDIO.)


Li, como editor, e reli, como critico, as SCENAS DA FOZ do snr. _Joo
Junior_. Declaro que encontrei uma serie de scenas, que tanto podiam ser
de S. Joo da Foz como de Freixo-de-Espada--Cinta. Entretanto, os
quadros comicos so desenhados com um pouco mais sal que um artigo de
fundo. Os episodios funebres esto escriptos em estylo de cavallo de
carruagem, como dizia _Voltaire_.

Outro sim declaro, que no vi neste livro doutrina, palavra, phrase, ou
virgula, que destoe dos maus costumes da poca em que  escripta. Como
cousa offerecida  humanidade, a offerenda  digna da deusa e do
sacerdote.

Porto 2 de Junho de 1857.

                                                 O EDITOR,

                                          _Camillo Castello Branco._




DEDICATORIA.


 ESPECIE HUMANA INCLUSIVE OS BARES.

Senhora! O sacerdocio da imprensa, cuja inveno se deve a um agiota do
seculo XIV,[1]  a mais augusta das funces, depois da Arte de
cozinha. Ocioso seria provar esta atrevida proposio, quando os
exemplos saltam como camares em terra secca. A rotundidade dos
abdomens, e a estupidez prodigiosa dos proprietarios dos ditos, senhora,
 a mais persuasiva prova de que a culinaria tem sobre a imprensa a
primasia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome,
embebecidos, no paradoxo da sciencia.

Sem embargo, porm, desta verdade, que palpita como um aneurysma, eu no
posso deixar de reconhecer as grandes vantagens que podem provir a v.
exc. da mirifica inveno dos typos.

Senhora! eu sou um desses poucos bipedes que reagem, por instincto,
contra os quadrupedes que gratuitamente se dizem meus irmos. Saturado
de estudos longos e substanciosos sobre a alveitaria, tenho querido
organisar um _Manual de pharmacia_, dedicado ao utilissimo curativo de
alguns desses meus irmos, que me ameaam as tibias, quando a dr do
alifafe moral os faz pinotear desencabrestadamente.

Neste intuito, cuja extenso eu deixo  penetrao de v. exc.,
confeioei algumas receitas, que puz em systema pathologico,
subordinadas a bases symptomatologicas, palavra grande que v. exc.
soletrar de seu vagar.

Senhora! A hygiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que
demandam um compendio novo, e uma diversa iniciativa no systema de
applical-os com aproveitamento.

O romance, senhora,  a mais proficua das pharmacias, porque neste
laboratorio douram-se as pilulas com maravilhosa limpesa. O romance,
caldeado na forja onde Voltaire assacalou as armas com que feriu no
corao o ridiculo de v. exc., n'aquella poca, ser, se me no
engana o muito amor da humanidade, um sodorifero por meio do qual
faremos transpirar as muitas fezes que v. exc. traz no sangue, e das
quaes se originam muitos miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual
no ha quarentena possivel, nem conselho de saude, por ventura o mais
necessitado, na presente conjunctura, de ser esfregado com as batas da
zombaria.

Pelo que: considerando maduramente quo proveitosa devia ser a v. exc.
a divulgao de trabalhos que o zelo da minha especie me impoz, ouso
recorrer  egide da sua proteco, offertando-lhe o primeiro da serie de
livros que vou atirar  humanidade.

Senhora! Fiquemos aqui, se lhe parece.

     [1] Preparo uma dissertao a este respeito.




                           SCENAS DA FOZ.

                           LIVRO PRIMEIRO.

                          A SORTE EM PRETO.


I.

Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. Joo da Foz, uma familia
de Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:

Pantaleo de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto
de Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega
Andrade Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara,
com todos os appellidos paternos, e cinco de sua mi. Duas criadas
graves. Uma cozinheira, casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um
gallego adjuncto  cavallaria. Dous ces de lobo; e, finalmente, uma
cadellinha atravessada de co d'agua e galga.

Eu, Joo Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria
eterna, morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas
vezes na sua o snr. Pantaleo, homem cr de lagosta cozida, com
cabelleira azulada pela aco do tempo, olhos refegados com debrum
escarlate, papeira ampla como a dos _cretins_ nos Alpes, e nariz
polidro como uma castanha do Maranho.

A snr. D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz,
queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era
tudo aguado e verrugoso, como uma mlhada de nabos velhos, em que as
fitas amarellas da touca representassem a rama das nabias.

A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de cro d'aldeia: gorda e
vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes
anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoo, brao rico de tecidos
cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o
sangue cruorico de felicissimas digestes de cabea de porco com feijo
branco.

Os servos no me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas
graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmo do snr.
Pantaleo. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que
tinha setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto
como ourio velho, e desanimei.

De quem me recordo muito  do escudeiro preto, que tinha a cara mais
velhaca da raa de Ismael. Assobiava com perfeio a _Mara Caxuxa_, e
jogava a marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos
da liteira, deixando-o quasi sempre estatellado no cho em frma de
meia-lua. E muitas vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina
Hermenigilda a brincar com o preto na sala, onde eu podia devassar estes
innocentes brinquedos. O gosto d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o
gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe surras, que terminavam sempre
quando a mi, ou o pai, ou alguma das criadas appareciam no limiar da
porta da sala.

Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr.
Pantaleo era senhor de casa vinculada, e a snr. D. Amalia tambem era
morgada, e a snr. D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta
herdeira. Soube mais que o snr. Pantaleo remontava a sua fidalguia a
uma personagem importante na dynastia goda, e no me recordo bem se era
Athanaulfo, ou Roderico.

A genealogia da mulher diziam l em casa que era a mais antiga da velha
Lusitania, e contavam maravilhas de seus avs na India, e na Amarante. A
herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze
canadas bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura
externa fazia lembrar Orense ou S. Thiago de Compostella.

Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel
companheiro dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que
tem hoje os seus sessenta e um, e est litteralmente escangalhado, como
eu que o digo. Ento era elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres
novas e vinho velho, como Byron, que elle vira no theatro de S. Carlos
em 1813, e affirmava que bebeu com elle uma garrafa de aguardente de
canna no _Nicla_, botiquineiro do Rocio. Parece-me pta, porque Byron,
se emborcasse uma botelha de aguardente em Portugal, no nos chamava
_barbaros_. Paiz onde um inglez se embebedar, ser sempre um paiz
civilisado.

Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do _grande mundo_.
Chamava-se Bento de Castro da Gama, e no sei que mais. Era natural de
Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do _Olho-vivo_,
no sei porque derivao.

Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga.
Bento corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica,
sendo a arte de bem pensar, no exime um fraco mortal de pensar o peor
que  possivel. D'essas envestidas nocturnas  moral, resultou um
escandalo em casa d'um chapelleiro da _Senhora  branca_, e o seductor
teve de fugir do seminario, onde estava debaixo de olho, pendurando-se
para a rua nos lenoes.

Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mi lhe
preparava algumas tigellinhas de gela de mo de vacca, para o
indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario,
emmagrecidas sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.

A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella
manh fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praa em infanteria. O
pai, sabendo-o, mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e
estabeleceu-lhe avultada penso para se habilitar a exercer todas as
travessuras e maroteiras de que o seu caracter era susceptivel. Em seis
mezes de praa estivera tres na cadeia, por causa de varios scos com
que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a baixa, deram-lh'a
promptamente, e recolheu a casa, onde no encontrou j vivo o pai.

Pouco depois, morreu a mi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa
legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pde,
e tornou para casa, onde o irmo morgado o recebeu de braos abertos.

N'esse tempo  que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a
banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caa das gaivotas, e
convivemos alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos
ahi excellentes tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres
tios, que eram santos vares, doutos, e alegres. Ahi conhecemos Jos
Pacheco d'Andrade, morgado de uma casa illustre, que nos ensinou a jogar
o pau, como bom mestre que era! Na feira do Arco vimol-o ns uma vez
varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava como um gamo, e apanhava
pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de Barroso! Fui
amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro onde
mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo  uma
historia muito longa, e que j vi fugitivamente esboada nos versos de
no sei que livro.

Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?

Se me comeam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha
idade, com a reputao feita, escreve as cousas como ellas lhe
escorregam dos bicos da penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o
pensamento, nem trao plano. No me apoquentem. L vamos  Foz.


II.

O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do
Brito, onde perdera,  banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um
relogio, dous anneis com brilhante, e ficra a dever outro tanto. s 2
horas, bateu-me  porta, sentou-se na minha cama, e comeou assim um
pathetico discurso:

Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. No tardar o dia
em que meu irmo me d de comer como se d uma esmola. O jogo tem sido o
meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me 
contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir
dinheiro ao moo de farda da casa onde joguei. Quando vinha para c,
alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida
diabolica!... Se o no fiz, outra vez ser.  no que ha-de parar este
negro fado que me traz a pontaps da desgraa... No me dirs tu que
hei-de eu fazer para ser o que tu s?

--E que achas tu que eu sou?--perguntei eu, porque no sabia ainda ento
o que era. s homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e
magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de po e
quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos
rapados, e vives feliz.

--Muito feliz.

Pois ahi est! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho
gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.

--Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos
cotovellos, limita o teu luxo de equitao a um cavallo digno de ser
cantado pelo Manoel Duarte Ferro, faz de conta que colhes doze carros
de po e quinze pipas de vinho verde e sers feliz.

 tarde, meu caro Joo Junior,  tarde. Creei necessidades que no
posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde
vier.

--De mim, de certo no vai, meu amigo. Bem sabes que o po e o vinho
este anno no deram nada. Desde Maro d'este anno, em que morreu o rei,
parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que
tinhamos. Tu no tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?

Ainda no. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas,
sou to infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.

--Ridiculo  esse susto. A experiencia ainda te no amadureceu quanto 
necessario para viver neste mundo. Ridiculo s conheo um homem neste
planeta:  o que no tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para
alcanal-o, so sempre srias, heroicas, e at picas. Se fizeres namoro
a uma rapariga rica, riem-se de ti os zombeteiros candidatos  rapariga,
mas esse riso s pde ser penoso se a mulher te no indemnisar com o
sorriso d'ella. A questo  _To be or not to be_: ser ou no ser amado.
Sirvo-me deste fragmento de Shakspeare por que no est ainda estafado
pelos folhetinistas.

_Folhetinistas_! que so _folhetinistas_?

--Folhetinistas so uns pataratas que ho-de vir d'aqui a vinte annos,
trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos
coeiros, viro para a imprensa com seu cabedal de erudio empalmado nos
romances de certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e ser ento o
primeiro corruptor da litteratura em Frana. Sabero menos latim do que
tu quando saltaste pela janella do seminario de Braga, e diro que o
latim  uma cataplasma que mata a originalidade nativa, e a natividade
original, e no sei que outras sandices usadas na linguagem delles
pataratas. A respeito de logica e rhetorica diro que antes do diluvio
j estavam banidas das esclas mais illustradas. Ho-de provar que o
talento no precisa desses causticos para ressumar a materia do
espirito, e, provando-o, diro tolices em que ficar salvo o Genuense e
o Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de
Refojos. Fallaro muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito,
e diro dellas cousas maravilhosas que tero o superior merecimento de
no serem ditas em portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os
folhetinistas sero...

No me importa saber o que sero os folhetinistas, o que eu quero 
saber o que serei d'hoje a vinte annos.

--Sers folhetinista, visto que te no vejo com habilitaes para seres
cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra
para depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos
contraltos, e dos bassos, e deste Curti que hoje est creando uma
reputao no Porto, e eu espero ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo
timbre, o mesmo volume de voz, e a mesma preciso de notas graves em
_sibmol_.

Que diabo de embrulhada  essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes
tu  tentativa d'um casamento rico?

--Digo-te que conheo grandes alarves que tentaram e prosperaram. Quando
um homem se diz: hei-de casar rico, apesar de todos os contratempos
casa rico. O primeiro passo a dar  convencer-se de que a vergonha  uma
excrescencia que nos maga, e deve ser amputada da consciencia como quem
corta um callo. O segundo  procurar a mulher, atravs de todas as
torpesas, como o mineiro procura o ouro atravs do saibro e dos charcos
lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos ps. O terceiro  levar com a
porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O quarto 
teimar. O quinto  teimar. O sexto...

 teimar. Tenho entendido. Mos  empreza. Cobrei espirito novo. Dentro
d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente,
virtuosa...

--Alto l! isso  muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas
disseram-lhe que no... Rica? d'accordo: isso  possivel. Intelligente?
Deixa-te d'isso: mulher intelligente no se deixa engodar por
especuladores matrimoniaes: -lhe mais facil ceder ao corao toda a
liberdade dos seus desejos os menos puros, do que algemar-se com
grilhes que ella parte facilmente no momento em que a razo illustrada
lhe diga: Entre ti e o homem so iguaes os direitos... Formosa?
Pieguice e contrasenso. Mulher formosa  sempre a mesma cousa, e aos
olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da belleza. Mulher feia,
pela continuao da convivencia, perde pouco e pouco a fealdade, e chega
a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem inspirado
paixes ardentissimas. Dizem que ha uma compensao de graas ocultas as
quaes fazem ganhar raizes no corao do homem. Eu no sei se  no
corao, se no figado: o que posso asseverar-te  que tenho visto
mulheres formosas apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos.
Dido, Helena, e Cleopatra dizem que foram lindas mulheres, por terem
apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. O que de certo se no sabe  se eram
feias. Verdadeiramente feio, meu amigo,  o diabo, como diz a ama de
leite dos teus sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse
respeito tinhamos muito que dizer, se eu no tivesse somno. A virtude 
o escolho de muitas posies sociaes. Felizmente que ella vai em
decadencia, e por isso veremos, de hoje a trinta annos, muitas posies
brilhantes com um p no pescoo da virtude. Virtude  uma sociedade
mercantil, em que a maior parte dos empresarios se sustentam  custa da
pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.

Fra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de
casamento, indico-te uma mulher.

Qual?!

--A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleo.

Pois achas que est no caso?

--Muito no caso.

Sei que  rica, no  feia,  estupida,  fidalga; mas... em quanto a
virtude, no sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva
aspar a palavra do meu programma!

-- que eu desconfio do preto!

Do preto?! que preto?

--Fallaremos manh. Agora quero dormir.

Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o
preto.

..........................................................................

Suaves recordaes da mocidade, sde a cebola destes olhos que j no
podem chorar!


III.

No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de
acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.

Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira
a respeito do preto.

No valia a pena--disse eu--perturbares o meu somno da manh por
similhante insignificancia. A historia do preto  a mais innocente das
historias. No sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare.  certo
que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixes por uma
branca. No sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a
carapinha como faz a filha do snr. Pantaleo ao dito preto. Em todo o
caso ha muito a recear do espirito de imitao, porque o plagiato do
amor  de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitao, ama-se, por
imitao, deshonra-se, por imitao, casa-se, por imitao, suicida-se.
Quem sabe se a snr. D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o
preto no corao?

--Ests a mangar!--respondeu o meu amigo Bento--Pde l dar-se
similhante asneira!

Do-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima...
ds licena que te conte a historia de minha prima?

--Se no fr muito estirada...

Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de
Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfes, e povos circumvisinhos. Tinha um
bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos
casamentos, e resistiu s minhas tentaes, quando eu era um homem
perigoso em casa de primas. Uma bella manh a priminha desapparece de
casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e
depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as
igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e at um poo onde
uma allucinao a poderia ter precipitado... depois de muitas
diligencias, e lagrimas, e gritos, e informaes, minha prima
apparece... imagina l aonde?

--Eu sei c!...

N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro
arrobamento do amor com...--meus illustres avs! perdoai-me a
revelao!--com um dos gallegos que tinham vindo  vindima. E que pedao
de gallego!

--Que se seguiu? mataram o bruto?

Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado  sua existencia.
Minha prima foi interrogada pelo irmo, seu tutor, e respondeu que havia
de casar com o gallego.

--E casou?

Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapo de sda, e,
o que mais , meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires
hoje, no dirs o pessimo texto que est n'aquella encadernao.

--E ella ama-o?!

Essa admirao  sufficientemente parva! Ama-o como o amou sempre, bebe
a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura,
das largas espaduas, aperta ao corao a cabea amante do conjuge
inseparavel, no receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o
mais mechanicamente que se pde, rapazes robustos, vermelhos, e gordos
como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima est
gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestes na suave beatitude
da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que
esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um
melindre d'orgos, e d'uma susceptibilidade de emoes, que fazia
receiar muito pela sua vida.

Lia novellas de La-Calprende, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,
fitava no co os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava
parte nas dres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cpia
do seu modlo, a realisao das suas esperanas, estava no co. Como
diabo desceu do co c para baixo o gallego, isso  que eu no sei. Eu
vivia persuadido de que o co no importava aquelle genero.

Seja o que fr, esta historia vem aplo para exemplificar um dos muitos
casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto  um rival
temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porm, a minha
visinha no d ares de quem procura no co a realizao das suas
esperanas; e, se procura, quem me diz a mim que o preto no desceu de
l pelo mesmo alcatruz que pz c em baixo o gallego? Que me dizes tu a
isto?

--Eu digo que no quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao
preto em boa paz.

No vou para ahi. Suspeitas no fazem prova.

--Mas o que tens tu visto?

A pequena a brincar com o preto.

--De que modo?

Jogam os cantinhos sem interveno d'um terceiro: inveno rara que se
deve  estrategia do amor, assim como o xadrez se deve  estrategia
militar.

--E que mais fazem?

A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle d-lhe duas
palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patro lhe d a elle os
pontaps. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a
moral domestica folga do resultado. J vs que no ha aqui bastante
motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma
mulher que promette estar contente dando-lhe o comer s horas, e tres
duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o
preto, e no te acceita a crte, ou no ama o preto, e acceita. Que
perdes tu na tentativa?

--Dizes bem, eu no perco nada. Como no tenho melhor cousa em que
esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?

Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes
rodeios, que ests ferido.

--Ser demasiada liberdade...

Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que  a do preto. Certas
mulheres s entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa
visinha  d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no
pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro.
Pe o teu codigo de civilidade ao p do Genuense e do Quintiliano. Nada
de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que  da
tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases
que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os
caadores novatos, que atiram  perdiz quando ella vai muito longe do
alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar
tem oito dias de alienao moral. O espirito anda-lhe  solta, e um
habil caador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a
alma  uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma,
o corpo, sem governo,  uma nau desmastreada, sem leme,  merc das
ondas.

Espera... ouo-a fallar... Olha...

Ella l est na janella.


IV.

O meu amigo chegou  janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de
1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica
larynga. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a
cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou
depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das
olhadellas do visinho. Eu c da minha alcova, por entre os farrapes das
cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais
solemne da vida dos povos, que era o casamento ento, e hoje so as
eleies.

O meu amigo no se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e
vinha; olhava-o, como a disfarce, l do fundo da sala, e trazia sempre
um tero do olho esquerdo compromettido.

Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na
victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O
nariz, considerado porta-voz do corao, ecco da poesia intima,
interprete da linguagem muda da ternura, exerce a mais nobre das misses
corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois
do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de
simonte.

Fui almoar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle
radioso de gloria.

Ento?--disse-lhe eu--quantos graus acima de zero marca o thermometro
da visinha?

--Est pegado o namoro.

Eu vi tudo.

--Mas no viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse
que no...

Que no sabia lr?

--No, homem: disse que no acceitava. Instei, e, por fim, deu signal
affirmativo com a cabea, e fugiu da janella.

Oh!  tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina no pde
mostrar a fronte  luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixo a
compelliu!

--Tu ests caoando!

Forte scisma a tua! No pde a gente vestir as suas idas com as pompas
da linguagem! Ora vamos, Bento.  preciso escrever  pequena.

-- um grande embarao. No sei como se escreve a esta mulher. Ser
muito estupida?

Parece-me que , e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola.
Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu corao e fallo por ti.

--Valeu! nota l a carta.

Senta-te, e escreve.

Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei
em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que
offereo como norma aos amadores das Hermenigildas:

                                                     Meu adorado Bem.

Com o corao em viva brasa, lano mo da penna tremula para expr 
vossa compaixo o triste sudario da minha alma.

Os vossos olhos so settas do deus implacavel, que no perda a rei nem
a vassallos, que abranda o corao da panthera de Java, e enternece as
melodias do rouxinol do salgueiro.

Ferido neste corao, que  vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo
para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.

Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes 
dr, os olhos que tamanha dr causaram! No!  impossivel que nesse
peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da
ingratido!

No vosso angelico sorriso,  cara amada, pousou a minha felicidade,
que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o
trilho aerio da sua patria, e ficou erma e s na regio das neves...

--Ella no entende isto!--exclamou o meu amigo!

 justamente o que nos convm. Se ella entendesse isto, faria da carta
dous papelotes, e mandava-te  fava. Contina:

Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede,
pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos
raios do sol oriental!

--Isto parece-me asneira!--replicou o amanuense--_Bebendo candeias!_
Viu-se j um similhante disparate!

Pois tu queres que ella te entenda, ou no?

--Quero que entenda:  boa a pergunta!

Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar
de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella
perfeitamente o que so; e linguas, em quanto a mim, s conhece a de
porco e a de vacca. Se me pes contraditas ao libello, recolho a
inspirao, e deixo-te nas trevas. Escreve l:

Nos meus sonhos...

_Entre parenthesis._ Este estylo hoje  ranoso, e qualquer caixeiro o
escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres
achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porm, em 1826, era necessario
ter um talento creador para espetar a phrase na regio do sublime. Eu
fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escla.
Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo
que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.

Escreve l, Bento de Castro.

Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma viso vestida de nuvens
coradas de luz, calada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada
na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus ps.
Ereis vs, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso
reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a
acolheita.

Vr-vos, e no amar-vos, seria morrer de vr-vos; e amar-vos sem
vr-vos, s eu pude; e que faria eu depois ao vr-vos, seno amar-vos!?

--Acaba depressa com isto!--interrompeu o meu amigo--Vr-vos, no
vr-vos, amar-vos, e vr-vos, e no amar-vos... que diabo de embrulhada
 esta!?

Tu s um tolo!--redargui eu--Est explicado o segredo da tua nullidade
perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas
reduzem-se  filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em
Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e  tua excellente
figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a
conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas.
A ida no  que persuade uma mulher,  a palavra. O que tu chamas
_embrulhada_, meu patavina,  o melhor que se pde dizer quando no ha
nada que se diga.

--Suppomos---replicou elle--que esta mulher no me entende?

Certo disso estou eu.

--O que se segue  no me responder, porque receia que eu me ria da sua
ignorancia.

 justamente o que te convem, tolo.

--Que me convem!

Sim; convem-te que no responda, porque no respondendo, falla-te. Que
lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?

--Parece-me que pensas bem!... Tu s um grande homem! Ora anda l, diz
mais alguma asneira.

Onde estavamos ns?

--Estavamos no _vr-vos e no vr-vos, amar-vos e no amar-vos_...

Ah! j sei... pe l:

Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa
coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!

Mas  to dce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vs
ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor;
subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei
esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.

Se no quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de
que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,

                                            _Bento de Castro da Gama._

O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em corao, e postou-se na
janella. Hermenigilda appareceu. A carta foi-lhe mostrada; ella fez
meno de recebel-a. Castro sahiu, roou-se pela porta, lanou-a no
pateo, e tornou para a minha janella.

Hermenigilda no apparecia: estava naturalmente estudando os
jeroglificos druidicos da carta.

O preto, porm, veio  sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.


V.

A careta do preto fez pensar o meu amigo to seriamente que desde logo
resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontaps homericos.

Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vr ao
pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes
caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido
zoologicamente da aproximao das duas especies, visto que a careta era
de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de
sobre a cabea do negro, no direi a espada de Damocles, mas a bota de
montar com espora de prateleira, seu calado favorito.

Mais do que as minhas razes, a presena da visinha aquietou os impetos
cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me  espreita. Vinha jubilosa, com
cara de paschoas, um ar de alegria lrpa, e a expresso mais
significativa de que no entendra palavra da carta arripiada.

Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.

Pergunta-lhe se responde disse-lhe eu c de dentro.

O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez meno de escrever na
palma da mo esquerda, tregeitou com a cabea uma pergunta, e ella de l
respondeu que no. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os
hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem
melancolicamente sandia.

Pergunta-lhe se falla tornei eu c do meu centro de operaes.

--Podeis fallar-me?--disse elle, improvisando com as mos um ridiculo
porta-voz.

Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia  pergunta:

--Se podeis fallar-me...

Hermenigilda no respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com
toda a franqueza dos seus pulmes, quando viu, l ao fundo da salta,
reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se
no podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos,
recolheu-se para dentro, murmurando:

--Eu quebro a cara ao preto! La est o patife a espreitar-me.

Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo.
Fiz-lhe vr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de
paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo
jogando o sopapo com a tripulao; Bonaparte comendo farinha de pau no
deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da
historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.

A ti o que te convem--disse-lhe eu-- relacionares-te com o Pantaleo.
Tu no conheces o Miguel das Infuzas?

--Quem  o Miguel das Infuzas?

 um fidalgo do Porto, grande genealogico.

--No conheo na nobliarchia portugueza esse appellido _Infuzas_.

Tambem eu no; mas o appellido  acquisio feita pelo tal Miguel.
Chamam-lhe o _das Infuzas_, porque elle, amador das artes, viu duas
pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do
Porto, e quando a occasio lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que
pde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das
infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito
genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos
Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou
as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a
esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou
sexto av, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos
primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.

Aqui tens o maior amigo de Pantaleo. Eu no posso apresentar-te porque
no perteno  roda, como sabes; mas tu que s irmo de morgado,
procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo av.
Logo que fallares em oitavo av, o homem manda-te sentar, e pergunta-te
onde ests hospedado.

--E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo av?!

Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo av
instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo av casou com a
segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu
oitavo av foi casado com a tua oitava av. Ha trinta mil cousas a saber
d'um oitavo av, pois no ha!

--Mas eu sei c quem foi o meu oitavo av?

Isso elle t'o dir.  capaz de te descobrir um joanete que elle tinha
no p esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora
da tua familia  exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de
Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame
primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu no casares com Hermenigilda,
apesar de todas as caretas do preto.

--Tu nunca fallas serio, Joo! Devras entendes que eu falle ao homem?

Hoje, se  possivel. Isto so favas contadas. O Miguel das Infuzas vem
jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleo, e tu s apresentado no
proximo domingo.

Castro foi  janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.

Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar,
disse, affectando muito receio de ser ouvida:

Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mi
estiverem deitados.

--A que horas?

s nove.

--s nove!?--replicou elle maravilhado.

Sim, sim, tornou ella, e desappareceu.

--Isto vai bem!--exclamou Castro--Mas s nove horas! to cedo!

Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares
gretados, come o seu caldo requentado s sete horas, arrota at s oito,
deita-se s oito e um quarto, adormece s oito e meia, e s nove  uma
massa bruta, inerte, inamovivel. Bom  que vs sabendo o programa do teu
futuro em casa do fidalgo d'Amarante. s oito horas has-de estar no
thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e s nove
has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua
mulher.

--Ests enganado!--replicou elle--Se eu casasse com ella, pensas que me
ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar  custa de minha
mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que pde viver a mi de
Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate
da gotta, est a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella
vir quando vier, e vir sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres
tu viajar comnosco?

Oh! pois no hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo
Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por
largo, iremos a Vianna,  Senhora da Agonia! Que bello futuro!

--s um pateta!--redarguiu lisongeiramente o meu amigo.--No se pde
fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla s nove
horas,  escusado procurar a proteco do Miguel das Infuzas.

Pateta s tu! Sem o Miguel das Infuzas no fazes nada. Se o teu fim
fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro
clandestinamente, evitando relaes com o pai. Mas tu queres casar, e
casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao
teu namoro um ar de honestidade boal; cabecear com somno todos os dias,
meia hora ao p da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e
representares, em fim, de palerma at ao dia em que se cruzarem
definitivamente as raas. No deixes, portanto, de procurar o Miguel das
Infuzas. V o que ella te diz hoje, e manh vai ao Porto saber alguma
cousa do teu oitavo av.

Castro foi  janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares,
como so todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.


VI.

s nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e
plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleo. Eu apagra a luz, e
espreitava pelos buracos da cortina o introito do _rendez-vous_.
Espreitava, e escutava, no por mera curiosidade, porque no sou
curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em
grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito
mulheres.

O leitor casto--(para no ser sempre _pio_), que chegou aos cincoenta
annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista,
est muito longe de imaginar o que  uma agonia sria!

Eu, Joo Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais
um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha
quarenta annos, diante dos meus namoros.

A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera
bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogra, por
causa d'um ajudante d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa
celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o
dominio da historia.

Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava
admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a aco
immoral que a revoluo franceza exercera, por tabella, nos sales
lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os
inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da Frana.
Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das
mulheres lusitanas, raa das Brites, e das Vilhenas, o que os romances
de Voltaire, no poderam fazer.

Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mo o
travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!

Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites
sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e
cahirem no espao infinito dos conquistadores aleijados.

Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que
escorregra do _penedo d'Apollo_ ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o
casaco, metti-me at ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a
ressaca levava para o mar, e, como Cames,

      Dos procellosos baixos escapado,

vim lanar no regao da afflicta dama a cadella gemebunda.

Fui bonito, como vem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no
seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem
agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica,
metti-me  cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana;
puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo d'uma semana fui
deixar um bilhete  exc.ma dona da cadella, que mandra saber de mim
todos os dias duas vezes.

Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:

Eu no me satisfao com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me
d o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e
ri, e conversa, depois d'um mau ch. Hoje poderei contar com a honra da
sua visita?

--Oh minha senhora!...

No me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer...
(Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos
de s. exc., querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que
progresso immenso em quarenta annos!)

No nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter
feito um grande favor, no se segue que me prive d'outros.

--Oh minha senhora!...

Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. 
ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relaes
de infancia. (_Nota_: s. exc. tinha recebido a cadella em 1812; tinha
ella ento _trinta e dous annos_... que _infancia_! e que relaes!)
Calcule o impagavel servio que recebi...

--Oh minha senhora!

Nunca pude passar desta apostrophe palerma: _oh minha senhora!_

Que ida far esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro
_eu_.

Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr. D.
Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.

(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia! J agora, leitor,
no queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da
inspirao saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de
caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala.
Fui l fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um
pouco a cabea. As outras perguntavam  dona da casa quem era eu. Este
_quem _ ignominioso passava de bocca em bocca, j depois que D.
Vicencia dissera alto e bom som: O snr. Joo Junior  o salvador
intrepido da minha cadellinha. Ser Joo, e salvar cadellas no era
habilitao bastante para ser apresentado.

Deu-se-me pouca importancia; apenas o capello me veio perguntar quem
era, d'onde era, que modo de vida tinha.

O orgulho comeou a picar-me, e eu respondi que era o que fra antes de
ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera
nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos
tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.

O capello ficou atonito deste trocadilho insulso, e fl-o mais parvo do
que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.

Ella, porm, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com
as liberdades da sua conversao.

Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo
deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a
ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.

Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela
primeira vez, e no sentira ainda o que era amor.

Sim!?--atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.

--Sim, minha senhora.

Um corao virgem!  crivel! Qual ser a feliz mulher que se aquea s
primeiras chammas da sua alma?

Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impresso! Se lhe
respondesse, diria necessariamente uma futilidade chcha. Calei-me, e,
se bem me recordo, crei.

Se dispensam saber o resto, no leiam o capitulo seguinte.


VII.

Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao p
de D. Vicencia, e comearam a fallar de cavallos. Discutiu-se a
pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alaso de Alter. D.
Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel
general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII
florescera o tronco d'um cavallo pigaro que lhe morrera d'um aguamento
na estalagem de Vallongo.

Eu assisti estupidamente silencioso  pratica destes dignos Plutarcos de
cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversao,
poderia apenas apresentar as minhas averiguaes sobre quatro mataduras
d'uma egua em que viera, graas  benevolencia prestante do meu abbade.

 meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da s patriarchal,
principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto
ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos
principiou a sahir, e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas
por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D.
Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher,  luz d'uma bugia.

Devo confessar que me no sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas
palavras: qual ser a primeira mulher que aquea as primeiras chammas
da sua alma? Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta
annos que meus olhos viram, alvoroou-me o sangue, e tirou-me a vontade
da ceia, dce amiga que at ento me embalava nos sonhos deliciosos d'um
Vitellio de meia tigella.

Vi duas vezes a mulher, em sonhos. No sei porque, mas o sonho com a
mulher que pde amar-se, essa casta idealisao em que o material do
corpo no entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a atravs da
nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos,
que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem
chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.

Rompia a manh no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito
da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa
madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma
enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:

     Meu amante corao.

 realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda
lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema
poderia ter uma at duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu
asseverar que no aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu
talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu
glorio-me de ter feito obra que muitos annos depois encontrei executada,
com pequenas correces, ao som da viola, fazendo as delicias d'um
arraial.

Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepes amargas do
poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do
vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, _ipso facto_,
dispensava o almoo,--enganei-me redondamente. s nove horas e meia,
quando o corao parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgos,
comearam-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia
ser a da abertura d'uma opera muito sria. Fui a casa, e aquietei o
motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha:
_panem_, mas com manteiga, que os romanos no conheceram; o _et
circenses_ traduzi-lh'o em caf com leite.

Consummada esta operao mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um
soneto excellente durante a digesto. Era um acrostico a _Vicencia_; mas
como Vicencia tem s oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a
difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras.
Encontrei _Raposo_; por consequencia--VICENCIA RAPOSO!

Era um bello soneto, que ser publicado na 2. edio, para no alterar
a ordem delineada da 1. Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e
cinco minutos. O corao dava-me cambalhotas no peito, quando a
vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhes, appareceu na calada.
Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto  possivel amar-se uma
cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!

Ento  que foi! Eu j no sabia o que havia de fazer das mos!
Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros
encolhiam-se-me, e os braos procuravam, entre todas, a postura mais
desengraada! D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo
corresponder-lhe, tirei o chapo tanto  pressa que me ficou metade do
forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho.
Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado,
quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com
sobresenho, e resvalou-me um p na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada
os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando
n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o
patrio ninho.

No o quiz assim a minha desventura.

D. Vicencia no testemunhra a minha segunda catastrophe, graas ao
cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre
as barracas, no pude deixar de envesgar um olho miserando sobre
Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres
espertas, que parecem no querer vr o homem que mais procuram. Ora,
Vicencia, alm de esperta, tinha um uso!... No fallemos disso!

O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os ps  areia como os da estatua
do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com
as borlas do seu elegante casaco, roupo, ou como  que se chamava, de
castorina cr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acno,
e penso que me no enganei. Este espirito sagaz  uma cousa muito velha
em mim!

Fui-me aproximando disfaradamente. Vicencia, com mais subtil disfarce,
deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices
habituaes. Foi sentar-se solitaria ao p d'uma barraca, e eu, tremulo de
susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava,
avisinhei-me com o chapo na mo.

--Como passou a noite, snr. Joo Junior?--acudiu ella ao meu embarao.

Muito obrigado, minha senhora...--gaguejei eu.

--Passou bem, no  assim?

Creio que fiz um tregeito parvo com os beios, no qual tregeito queria
eu significar-lhe que no passra l grande cousa.

--Ento passou mal?--tornou ella.

Uma ida, distinctamente tola, me acudiu de improviso  mente. Julguei
do meu dever no atraioar o legitimo sentimento de ternura que ella
fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os
patetas bisonhos, e respondi bruscamente:

Quem sonha com o objecto amado no passa bem.

Nos labios de Vicencia esvoaou um riso imperceptivel. Ainda hoje me d
muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para ns, que a generosa
mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa
gargalhada.

--Pois o senhor no me disse ainda hontem que no amava?

 verdade, minha senhora... mas... l vem a mar...

--Vem a mar?! (disse ella) a que horas vir ella hoje? Tanto queria
tomar banho cedo!

Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!


VIII.

--Eu no fallava na mar do mar, minha senhora...

Ah... no? eu pensava...

--Queria eu dizer que... o corao muda d'um instante para o outro.

Agora entendo! Ora sente-se...

E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu
fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna
sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era
signal de m criao cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento
angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razo directa
da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez,
ficava-me o p direito em aleijo; outras, o joelho esquerdo formava com
o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender
uma perna, e encurvar a outra em frma de fateixa. Isto em quanto s
extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez
as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mo
direita andou longo tempo em busca de uma posio, desde o seio do
collete at ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda
inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posio,
immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as
minhas attenes plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para
destruir o mau effeito do involucro.

--No toma banhos?--disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as
bellas cousas que tencionava dizer-me.

Sim, minha senhora, j tenho vinte banhos.

--Soffre dos nervos?...  um terrivel padecimento...

Eu tambem soffro bastante dos intestinos atalhei eu com toda a
ingenuidade.

--Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do corao  que no se curam.

E v. exc. padece do corao?--disse eu com sincera condolencia.

--Muito...

Algum aneurisma?

--Aneurisma moral... que  o peior de todos. O snr. Joo Junior ha-de
soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.

Por em quanto, no sinto dres de peito, minha senhora. O meu mal 
todo de intestinos.

--O corao--tornou ella sorrindo de um modo celebre--o corao tambem 
um intestino.

Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos esto por debaixo do
estomago. Tenho um tio cirurgio que sabe perfeitamente a anatomia, e
nunca lhe ouvi dizer que o corao era um intestino.

D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido
deste mau gosto de discutir s gargalhadas.

De que se ri v. exc.?--interpellei eu, desarranjando um pouco a minha
attitude, que tanta arte me custra, e tanto me custou a restaurar.

--Eu rio-me da boa f com que o senhor enrista a lana em defesa da
anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. Joo
Junior sabe perfeitamente o que  allegoria.

Pois no sei?--repliquei eu com ar de triumpho--_Allegoria est
tropus_... V. exc. sabe latim?

--No, no sei.

Eu traduzo: Allegoria  o tropo, por meio do qual se mostra nas
palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando
todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha
duas especies de Allegoria, que so: a _total_, e a... V. exc. ri-se?
Cuida que eu estou a mentir?

--No cuido; peo-lhe que no repare nos meus risos. Eu estou folgando
de ouvir um sabio...

Sabio, no digo; mas ainda no ha tres mezes que eu estudei o meu
Quintilliano...

--E sabe-o de cr... Qual  o seu destino? tenciona ser frade?

No, minha senhora... Eu parece-me que no sirvo para a vida
ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho
que no se pde ser bom frade, quando se fazem versos.

--Pois o senhor  poeta?

Tenho minha tal ou qual inclinao para isso.

--Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz,
cantando o Neptuno, e as deusas do mar?

Ainda no escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc. ordena, farei uns
versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que
deixei em casa.

--Deixou em casa? que pena! No se lembra de alguns versos?

No, minha senhora.

--Qual foi o motivo?

O motivo... o motivo...--gaguejei eu, esfregando os dedos da mo
esquerda na palma da mo direita--O motivo... bem sabe v. exc. qual
foi...

--Eu!... no sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha
cadellinha!...

Qual cadellinha!? Ora! no fallemos n'isso... Os versos foram feitos...
a v. exc.

--A mim?! Dobrada razo para lh'os pedir. O que me pertence no pde ser
retido, em seu poder, sem meu consentimento. V j buscar os meus
versos, snr. Joo Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?

Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa
no vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me
parecia azul-celeste. O corao dava encontres na estreita bocta do
peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.

Fatalidade! O extremo d'um grande prazer  um desgosto. Procurei os meus
versos que deixra sobre a banca, e no os vi. Corro  cozinha, e
interrogo uma velha, que me acompanhra de casa. Pergunto-lhe pelos meus
poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o
que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, 
mingua de carqueja, accendera o fogo com uns papellitos que achra
sobre a mesa.

Senti a cruenta preciso de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos
de idas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva.
Entrou em mim o _delirium tremens_... Foi a imagem de Vicencia que me
salvou... se no... ai da velha! e ai de mim tambem!

Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a
longos tragos a inspirao, reproduzi as idas da poesia supplementar 
carqueja, e outras novas suggeridas por um novo ardor.  poder do genio!
Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspirao ejaculou d'um
vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um
tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da
1. edio, que a fez rir muito. Deixei-a lr mentalmente a segunda, e
no ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensao que lhe
faziam.

Lido o poema, D. Vicencia, sria, magestosa, e commovida, sentou-se,
fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que
nunca, atravs de trinta annos, pude esquecer:

--O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais
seriedade do que eu queria. O senhor  uma criana de corao,
annunciando talento e infortunio.  um innocente que far rir, antes que
o ensinem a chorar... Agradeo os seus versos, os seus sentimentos, e o
offerecimento do seu corao.

Felizmente para mim entrou gente na sala.

O capitulo seguinte no sei se terei a coragem de escrevl-o! Vou lr
alguns das _Confisses de J. J. Rousseau_ para me animar.


IX.

Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos
da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas
de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua no diffundia o
seu claro, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao
cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do
redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam,
cousa de que no fao questo.

E eu fitra os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso;
quadro indecifravel desde o chos, provocao eterna ao orgulho do verme
chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas,
a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que l se confundem
com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu
espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do
co, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das
chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.

Eram dez horas da noite.

Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me
machinalmente debaixo d'um caramancho de faias e loureiros que
abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.

Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de
tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da
janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para
ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de
modo que o leitor parece-lhe que o est vendo.  o que se quer.

Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais
bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com
vergonha o confesso, no tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos
tempos,  preciso ser grande alarve para no saber tudo isto e muitas
cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo,
conhecedores de todos os nomes distinctos,  excepo do Lobato, e do
Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros,
que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca _Charpentier_.

Estava eu, pois, nesta idealisao de todos os meus cinco sentidos,
divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face
voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mo eburnea.

Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto _eburnea_.
Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos.
Arredondar o periodo  a condio imposta pela tyrannia do gosto ao
escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa
no tympano, desmancho a orao em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as
de artigos, e pronomes, e conjunes, o mais afrancezadamente que posso,
e sahe-me a cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um
clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimares.

_Com geito encantador na mo eburnea_: reparem que  um verso
hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem
desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a
estrangeirice?

Tudo isto veio adrde (eu traduzo: _-propos_) para dizer que, estando
eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente
a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.

Viu-me, e no me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na
appario, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de
conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (no seja
sempre _potencias_) para vencer o acanhamento, murmurei:

Sou eu...

-- o snr. Joo?

 verdade, minha senhora.

--Ento que faz por aqui?! versos?

Estava a admirar a natureza, minha senhora.

--E admiravel que ella est!

Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita  a natureza!

--Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha to poeticamente! Mas a
noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipaes  beira-mar. Se
me d licena, recolho-me...

Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite...
Quem ama, no tem medo s constipaes...

Estas palavras proferi-as com certa entonao de despeito, e fiquei
satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porm, redarguiu:

--O logar  incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a
deshoras suspeitaria de ns. Nada de escandalos, snr. Joo Junior. Venha
c manh, e ento me dir o effeito que lhe fez o poetico espectaculo
desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade,
peo-lhe que se recolha, e no queira privar-se de me ver manh,
constipando-se hoje... Promette ir?

Sim, minha senhora...

--Ento, boas noites.

E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da
travessa, que era de pouquissima passagem.

Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferena
glida com que fra recebido, em hora to romantica, to mysteriosa!
N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram
fugir com mais presteza.

O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o
piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns
passos, e retrocedeu... Confesso que j no estava contente!

O encapotado foi at  extremidade do bcco, e voltou. Parou diante de
mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:

--Que quer voss aqui?

No quero nada...--gaguejei eu.

--Pois ento, mude-se.

Eu demorava um pouco a execuo do mandado solemne de despejo, quando o
homem recalcitrou:

--Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.

A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo
deixou vr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio
offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas
appensas a uma noite de lua cheia  beira mar.

Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. Ser aquelle
homem um amante de Vicencia?!

O ciume deu-me intrepidez, quero dizer--a intrepidez de parar e
esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o
leitor tem noticia!

A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! No sei o que
ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no
peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do
embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela
janella, recolher a corda... e... maldio! maldio!...

..........................................................................

E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabea
de estatua que um raio fulminou.

Contei as minhas amarguras  vaga gemente, e acordei os eccos das
solides compadecidas.

Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a
vida no era uma grande patacuada.

O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.

Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha
do instrumento.

Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!

A pistola, o punhal, o lao, a asfixia, o verdete eram j n'esse tempo
expedientes muito safados.

Em cata d'um morrer distincto, habituei-me  dr. Vivi, se vida pde
chamar-se este mixto de funces animaes em que predomina o almoo, o
jantar, e a ceia.

No se conhecia ento o instrumento de suicidio que a sociedade actual
inventou: O ARTIGO DE FUNDO.


X.

Eu, Joo Junior, no soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para
outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante
como de diante para traz. Classico em toda a extenso da palavra,
respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das _Pastoris_ de _Longus_,
do _Jumento_ de _Lucius de Patras_, e outros venerandos monumentos da
arte adulta, cuja leitura no aconselho quelles que dormem as suas
horas, sem o recurso do ludanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope,
e Boileau no legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte
que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por
introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a
occasio para certificar aos principiantes n'este esperanoso ramo de
litteratura, que  bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter
lido duas comedias de Scribe, a _Dama das Camelias_, e--se o
principiante fr extremamente estudioso--o _Chatterton_, o _Bug Jargal_,
afra a immensa erudio que vem no La Place. Com estes seis volumes,
uma capacidade mediocre abrange todas as ramificaes da sciencia
humana, e pde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter
produzido quarenta volumes.

Os meus quarenta annos j l vo ha muito; mas, se Deus me der mais dez,
prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome.  este
o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas to maduramente
pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero
intellectual, que, se me no logra a vaidade, comeo por onde muitos
acabam.

A logica com que os capitulos anteriores vo coordenados, a naturalidade
das transies, o alinho das frmas em harmonia com a substancia, a
intima alliana da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que
os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o
atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os
portuguezes d'esta nossa afortunada poca, tudo isso, e outras louanias
que omitto, por preguia, provam que eu, Joo Junior, conheo
Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto
sentido, o _illuminismo_, que tambem no sei bem o que . Pelo que,
muito importa que o leitor saiba

    _Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por l fazia
    quellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora
    por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do
    capitulo melhor se ver._

Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou
 Foz, sentiu, na presena do occeano, rejuvenescer-se o corao,
desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaarem-lhe de redor candidos amorinhos.
_Souvent l'onde irrite la flamme_, disse Corneille, e D. Vicencia,
aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo
readquiriu as necessidades velhas, as illuses de 1801, as realidades de
1809, e at o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, poca
da sua fatal decadencia.

Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que
pde, distribuiu nas faces, um pouco encortiadas, dous escropulos de
alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear at Carreiros.

O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem
apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras,
requebros, posturas, e varias outras momices que do nos olhos da mulher
disposta a amar.

D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha
volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vrem! O cadete
no podia ser indifferente  provocao, e azado era elle para segurar a
fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta
o seu leno branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o
namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e j n'essa tarde
o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.

Saibam desde j que o meu rival era... so l capazes de adivinhar!...
Bento de Castro.

Depois d'aquella negregada scena do bco, ser ocioso dizer-lhes que o
meu achaque de intestinos recrudesceu; alis, para evitar os olhos da
perfida, ter-me-hia retirado a curar o corao no abrigo dos meus
velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas
contas, e no fizesse asneiras. A gravidade do mal no me deixava
assentar no albardo, apesar de doze semicupios! Era-me foroso
testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu
primeiro amor.

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas  hora em que
o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura,
sentar-me n'uma collina fronteira s janellas d'ella, e d'ahi, com um
enorme oculo de papelo, conseguia lobrigal-a atravs das vidraas.

Se quereis saber qual era ento a minha angustia, perguntai  onda
porque geme,  fonte porque murmura, e  calhandra porque pipila entre
as franas de avellanzeira!  que a minha angustia era vaga e mysteriosa
como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e
a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou
barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por
onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou
em minha alma virgem esta paixo filha do inferno, como lhe chama
Homero, fez-se uma subita mudana na minha natureza. Eu fra incapaz de
entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um
homem! Levaria tres scos sem resistencia para no levar o quarto, com
heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa
louros e cabeas!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me
do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da
velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui
postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas,  terceira apparece, entre uma hora e
duas da manh, o nosso homem.

Aqui entre ns que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha
coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas
pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da
vassoura, para que elle no denunciasse as minhas tenes
reconsideradas, e, o mais subtilmente que  possivel, fiz uma pirueta,
preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a
vanguarda, e diz com voz soturna:

Que diabo estava o senhor alli fazendo?!

--Nada...--regouguei eu.

Isso no  possivel. O senhor no estava alli para me vr passar... No
se assuste que eu no lhe fao mal... Diga l o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

--Eu ao senhor no lhe quero nada.

Ora venha c;--tornou elle--vamos passear e conversar. O senhor
chama-se Joo Junior.

--Seu criado.

Quiz namorar D. Vicencia.

--Isso l...  conforme...

Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e
conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir
apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O
senhor est muito verde... Estas mulheres no se conquistam com versos,
nem se procuram no principio da vida. O snr. Joo  provinciano, vem l
da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabea; e, como no
encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma
das tres Graas em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho.
Ora agora, faamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o
campo para as suas escaramuas? Com a melhor vontade...

--Nada, muito obrigado, eu no quero saber de mais nada... O que eu
tenho a pedir-lhe  os meus versos.

Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e no
lh'os dou. At lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com
o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa
de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se no deixe lograr por taes
mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos
desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em
fim, ser seu amigo, se o senhor no tivesse n'isso antypathias que
vencer.

--Muito obrigado...--mastiguei eu, bem disposto a favor de homem to
franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo brao delle at sua casa. Subi, e
era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lies de _savoir-vivre_. O meu
talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto
social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais cerca de D. Vicencia, e sero ellas srias e tiradas
do corao n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando no sente o corao... quando j no
ama. Vicencia amou at o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o
seu! Nem j flres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido
o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras,
encorreou-se-lhe o collo, e as mos, que to lindas foram, tingiu-as a
amarellido do tempo.

E o corao ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que no
pde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irriso e mofa, aquella mulher, que, desde os
doze at aos quarenta e cinco annos, arrancra coroas de quantas rivaes
quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais
vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o _salve_ compassivo que eu
lhe dou, depois de trinta annos.

..........................................................................

Oh vida! vida!............................................................

..........................................................................

Grandes devem ter sido as provaes de quem souber tilintar os guizos do
histrio para que lhe no ouam os gemidos!...

Chorar no corao, e rir no espirito...


XI.

Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste
exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar
com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.

Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde
podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente
espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, no poderiam
fazer outro tanto com o mesmo recato.

Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:

-- tal o prazer que me enche o corao, amada Hermenigilda, que no
posso exprimir-vos quanto por vs sinto, desde o ditoso instante em que
vr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno
peito nutre por vs, acaso ao vosso ter passado?

ELLA.

Eu passei bem, e o senhor?

ELLE (_atordoado como se lhe despejassem de cima um balde_.)

Como passar bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?

ELLA.

O senhor tambem sabe cantar a modinha das _vivas chammas d'amor?_

ELLE.

Nada, no sei.

ELLA.

Minha prima Carlota canta que  um regalinho ouvil-a.

    Althea, mimosa Althea
    Me maltractas com rigor,
    E eu por ti ardendo sempre
    Em vivas chammas d'amor.

Pois o senhor no sabia este soneto?

EU (_mentalmente_.)

 d'uma estupidez fabulosa!  pobre Bento, como estar a tua alma!...
Haver d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que no, em honra
do progresso. Alguns annos mais, e _Paulo de Kock_, e _Pigault Lebrun_,
e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, daro aos
namoros de nossas filhas occasio de ouvirem menos tolices. Os que
amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de
ento, ricas de prendas espirituaes, sabero dizer _toillette_,
_rendez-vous_, _petit-point_, _crochet_, _soire_, _boucles_,
_papier-satin_, _enveloppe_, e outros ornamentos de lingua com que faro
a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a
superabundancia do idioma, augmentaro as idas, na razo directa. A
psycologia estar no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnaro nas costas
abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saber os escaninhos da
alma como a abelha os do cortio. No haver uma s que possa, com
acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attender s imperfeies
corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice
empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodo necessario para
que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma
e algodo, ser o luxo da natureza, a boneca das creanas-decrepitas, o
ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedao de carne
e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodo e barbas de baleia
que as manufacturas celestes podiam dar-nos.

ELLE (_despeitado_).

No fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa  saber se me
tendes um affecto igual ao meu.

ELLA.

Isso l... veremos. Se meu pai disser que sim...

ELLE.

Pois vosso pi  que vos manda amar?

ELLA.

O que elle diz  o que se faz. Casamentos no me faltam. Tem-me pedido
muitos senhores de casa, e se elle diz que no...

ELLE.

Mas, eu no pergunto se quereis casar commigo.

ELLA.

Ento?! Se no quereis casar commigo, vindes enganado.

ELLE.

Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...

ELLA.

O que?

ELLE.

O vosso corao. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis
por mim?

ELLA.

Sinto muito bem, gosto de vos vr, e se meu pai quizesse, eu de mim
tambem queria ser vossa esposa.

ELLE.

A minha carta que impresso vos fez?

ELLA.

Fez-me muita: est muito bonita; parece mesmo que  cousa de livros de
historias. Tenho l em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de
Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou
uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.

ELLE (_com a voz suffocada por um vomito moral_).

Boas noites, menina.

ELLA.

Ento passe muito bem, at manh, se Deus quizer.

Bento de Castro entrou no meu quarto com as mos agarradas  cabea. Eu
estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando
de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.

Pois tu ouviste?--disse elle.

--Tudo! est vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz
Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de
tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e s
mulheres em particular!

Ests enganado--atalhou elle--gosto assim de vr a estupidez no seu
estado de perfeio primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher
como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que
arrefeci na empreza? No tenhas medo.  uma mulher deliciosa para um
homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigaes que se
contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vs,
se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai,  a unica mulher
que me convm. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe
disser que saia da Amarante para viajar commigo d-lhe um desmaio.
Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo  tudo materia
pura e estreme como a d a madre natureza. Eu corto o pescoo, se ella
tem resquicio de maldade!

Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em
casa d'ella. Fomos  janella, e vimos Pantaleo embrulhado n'um cobertor
com um toco de sbo acceso na mo, chamando Hermenigilda a grandes
berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella
fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado
para dizer que a ouvira estar fallando com um homem que costumava
fazer-lhe acenos da janella fronteira.

Pantaleo, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do
Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontap, e
perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada mooila
tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha
escripto para o bom fim. O pai disse que queria vr a carta.
Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleo, no accesso da colera, deixou cahir
o coto de sbo, e ficou em trevas.

No podemos vr nem ouvir o desenlace da scena.

O peor  que a minha carta est assignada!--disse Castro.

No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleo estava
na janella desde o romper do dia.

Fui  janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que
elle correspondia com desagrado  minha civilidade, desde que me viu
fazer  moa varias bugigangas.

Fitou-me com terrivel catadura, e disse:

 su amigo, diga l a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou
homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?

--Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente
pulmo--disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de
Fregim e coutos de Riba-Tamega.

Diga-lhe l que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o
espinhao.

--Faz o senhor muito bem... Com que ento o tal maroto desinquieta-lhe a
filha!

Voss est a mangar commigo?

--Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que
desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas
patifarias. O direito paternal  o mais sagrado de todos os direitos. V.
exc. tem carros de razo em quanto sustentar o decoro dos lares, e
mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.

Pantaleo olhava para mim, alongando os beios e franzindo a testa. Eu
prosegui:

--Mas, a fallar a verdade, eu no sei se v. exc. tem razes assaz
fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha  filho
segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. Por _Gamas_, pertence
ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de
Joo de Barros, Lucena, Cames, e da historia genealogica da casa real.
Por _Castros_, descende por bastardia d'um irmo d'Ignez de Castro, que
veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos
quaes foi dom abbade em Tibes, outro foi prior-mr de Christo, o
terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de
santidade, e est inteiro. J v v. exc. que o amante de sua filha no
 qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua
iracundia paternal. O que o senhor deve  indagar se  honesto o intuito
d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.

Eu no preciso conselhos!--bradou irado Pantaleo--Se elle quer casar
com minha filha, pea-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas no me
ande c a rentar pela porta.

--N'esse caso--redargui eu--direi ao meu amigo o que deve fazer para
captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle ir pedil-a,
conforme o estylo, e v. exc., depois de ratificar as informaes que eu
tive a honra de dar-lhe cerca da celebrada genealogia do meu amigo,
consentir que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no
oceano.

Parece incrivel, mas Pantaleo encarava-me com suave aspecto. A
seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou
acolhimento digno na soez capacidade do mirifico ornamento da Amarante e
povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que no
podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso
que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas
razes para suppr-se que descendia do primeiro homem, e no tinha
outros documentos, alm de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.

Pantaleo achou-me razo, e disse-me que o rei Vamba fra lavrador, para
consolar-me da minha baixa condio, acrescentando que sua magestade
el-rei D. Diniz, fra amigo dos lavradores.

Era para vr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora,
finalmente interrompida pela appario de Bento de Castro, que vinha
espantado da cordura com que nos travamos.

Pedi licena para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e
dei-lhe os emboras do bom andamento em que, to imprevistamente, se
achava o seu consorcio.

Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que
no tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva.
Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir s
exequias de D. Joo VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, s quatro horas
da tarde, procurou Pantaleo, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir
sua filha.

Quando, porm, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um
postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau
de pinho, comendo figos. Ao p d'ella estava o preto partindo uma
melancia.

Horrivel mysterio!


XII.

No tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor
honesto que paga, leitor honrado que no l de emprestimo, no tarda ahi
uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeies de
pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraar o author!

Deixei o seu espirito em tribulaes de curiosidade, no anterior
capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao p do preto, no
momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai.
Chamei horrivel mysterio ao mais natural dos actos--uma mulher a comer
figos!--Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o
leitor ancioso. Vo vr porque. O que, por ora, posso acrescentar,
porm,  que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns
instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no
quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia.
O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna
memoria:

1. Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o p do mesmo 
cara do preto.

2. Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar  cara rbida de
Hermenigilda um bocado do corao da melancia.

3. Viu a menina tomar do cho uma das rodellas de casca da dita
melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4. Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da
morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas
vertebras lombares.

5. Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e
teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o
preto ao cho, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco vises, por isso que lhe no faltaram receios
d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a
cabea, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da
rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observaes importantes, commentou-as com admiravel
perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e
me pedia encarecidamente que no divulgasse o seu louco intento, e
dissesse ao pai da innocentinha que elle no queria casar.

Cousa, porm, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior,
que eu no ouso chamar ciume, porque no quero dar ao meu amigo um rival
to vilipendioso. , porm, desgraadamente certo que o pobre moo,
vendo que eu no defendia a innocencia do espectaculo que elle vira,
tentou defendl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos no seriam por
ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa f
estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe
umas passagens que j contei ao leitor, cerca d'uma minha prima, que
por ahi fica archivada a paginas....

Parece-me que no devo desamparar o meu posto, sem outras provas...
disse elle.

--Eu tambem entendo que no... Tu nada tens que perder, se te
conservares na espectativa.

E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica
verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu no entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis 
questo; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar
namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com
promessa de casamento.

Apenas Pantaleo sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salta,
e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa
delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em
quanto o pai estava fra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que
 ser idiota.  to innocentemente lorpa que no conhece o desaire de
brincar com o preto. Este convite  prova da sua innocencia, no achas?

--Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso no te esqueas das tuas
provas mathematicas, que eu no sei o que so; mas muito estimo que
ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de
alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me
no disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era
possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na ida do meu amigo, e elle, contente do meu accordo,
contou-me o que passra com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir
pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que
o preto fra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio
Simo fra governador, bispo, ou no sei que me no lembra agora, mas 
de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe
dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle no se
oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do
noivo, e at desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D.
Urraca Munhz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de
Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes
de Cima-de-Villa, Ranhados, So Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio
nasceram D. Brites, que morrra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda,
e sua irm Soror Violante, que morreu santa em Lorvo d'uma indigesto
de toucinho, n'aquella celebre noite em que l pernoitou a celebre
abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo
Bento de Castro resolveu no entregar n'aquelle dia a casaca ao
boticario, attenta a reconsiderao do seu precipitado plano, por causa
de umas suspeitas to injuriosas para a mulher que lhe sahira ao
encontro na carreira da vida.

J ento se diziam estas tolices.


XIII.

Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleo
recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em
virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na
politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios
constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleo
prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu
nono av, governador de Masago, que os constitucionaes haviam
envenenado o rei, dizendo que recebra de canal puro o segredo da morte
do cirurgio Aguiar, do medico baro de Alvayasere, e do cosinheiro
Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc., que seu
primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinao com
Fernando VII, a queda da carta, e a restaurao do throno e do altar,
dos principes christos, e extirpao das heresias. Como prova de ser
informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular
amigo e primo visconde de Canellas, e outra, no menos convincente, do
padre Albito Buela.

Bento de Castro--digamol-o sem desdouro seu--era ardente correligionario
de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa poca, extremamente chato
do intellecto, e em negocios da republica no via meia pollegada adiante
do nariz. Seus tios frades, e seu irmo morgado--alis excellentes
creaturas--uns em nome da religio, outros da ordem, e todos dos seus
interesses, fizeram-lhe conceber odio  liberdade,  revoluo, e aos
principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia
de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.

Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edio nessa poca, tinha lido
o _Contracto social_ de Joo Jacques, o Espirito de Helvetius, e a
Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as
luctas tremendas das liberdades patrias, s quaes fiz servios de
tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de
sacrificios, consegui ser nomeado escrivo substituto do juiz eleito na
minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove
de... Olhem que romance este! J viram uma cousa assim? Se me no
refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos
ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel
publico!... O leitor, se continua a lr-me, d-me provas to vivas da
sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus
mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe no contasse outra
muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldioar a
sociedade que o no comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger
deputado, e brilha n'uma commisso encarregada de legislar para a
importao dos cereaes, e exportao dos bois! Isso  que ha-de ser um
romance! E, se lhes parece, comecemo-lo j... ou querem saber no que
pararam as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleo, e Bento de
Castro?

A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Plato,
dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante,  curiosamente estopador.
Desde que a vida sahe das regies sublimes do ideal e entra na esphera
das mundanidades vills, o romance espiritualista, como este meu se
preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma
moralidade bastante equivoca, e no  o mais azado guindaste para iar
espiritos de quinze annos ao setimo co de Santa Thereza de Jesus. As
heroinas e at os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os
meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos.  necessario um curso
regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciao destes fachos
precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a
philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara
de cerdos de Epicuro que ao da legio de espiritos ethereos do immortal
discipulo de Socrates.

Ejaculado este arroto de erudio, saibamos como Bento de Castro
esmerilhou mathematicamente os escaninhos do corao de Hermenigilda.

 muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de
Basto, graas a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas
vinha tomar ch a minha casa, porque Pantaleo usava apenas ch da India
quando as indigestes no cediam  terceira emborcadella d'uma botija
d'aguardente _ad hoc_.

Em honra d'aquella cabea de familia, diga-se que a ma andava vigiada,
posto que o meu amigo captasse a confiana do sogro, e, o que mais , as
sympathias do preto.

Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em
Amarante, aprazaram-no para o mez de Maro.

Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria
na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvra
aprender a lr correntemente, e havia j adverbios de sete e mais
syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava
angelicamente dos progressos da moa; e devo confessar que, ou fosse
resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a
materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas
pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba,
regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.

Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e
integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito
como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da
minha visinha.

Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte,
respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos
escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei
nessa occasio sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas;
mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.

Veremos.


XIV.

_Em que o author, depois de averiguar profundamente as conveniencias
    inviolaveis, do melindre, resolve no leccionar o publico
       em mathematicas, embora o seu amigo Bento de Castro
         assim fique privado de catalogar-se na phalange
             dos Newtons, Leibnitz, e Descartes; de
                  que resulta ficar o capitulo
                     aqui esganado pela mo
                             da moral._


XV.

O romance tem cousa m!

 a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um
titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar
de principiar pelo principio, comeava no 2. volume. O author,
respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances
eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso comear do 1. volume
para diante, como do ultimo para traz.

Isto  rasoavel e persuasivo. Porm, incoherencias deste tamanho no se
desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do
corao, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinho de
gloria com as Reflexes de Phocion com o Manual de Epicteto com os
Excerptos gnomicos de Seneca com os Caracteres de la Bruyre
excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lr na
primeira occasio, porque me dizem que so livros de muito interesse,
que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na
pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre
uma vida eivada de amarguras: isso  o que eu posso desde j affirmar,
sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de
Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto  aquelle
escravo do Thesouro de meninos que exclama, erguendo a canella partida
por uma paulada: no vos disse eu que m'a havieis de quebrar? D'onde
infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias s
avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar
capitulos de romance, de modo que a historia v bem contada, at ao fim,
que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso
de oleo de figados de bacalhau.

Joo Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os
seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a
honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi
eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de
idas, phantasia de cres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em
fim, to verdadeiras, to patriarchaes, to nuas, que o seu editor,
depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que
no patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra
contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.

Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um
accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente
escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos
da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais
abalisados dos mysterios do corao; doze paginas salpicadas d'uma
erudio exemplificativa que remontava  creao do globo, para provar
que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, so dous entes
homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas
creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no
cachpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinio
ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe
Deus com que vigilias, entravam Salomo e Dalila, Pericles e Aspazia,
Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama
d'uma at quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos
anhelitos da adolescencia, com a f pura, candida, e immaterial do amor
de Voltaire a madame du Chtelet, do amor de Larochefoucault a madame de
Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, s duas horas
da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave,
que teima em chiar, apesar do azeite prvio, quando um Romeu de capote
de mangas lhe assobia a cavatina do Trovador. Tudo isto, e muitas
cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa
que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgo da batata.

Fortissimas razes tinha eu para teimar em publicar o meu querido
capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram
antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826,
acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu
romance, se o editor ultra-honesto no teimasse em affirmar que o meu
romance no precisa de chave para abrir as portas da eternidade.
Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado,
allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias
superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico,
todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a
alma no tem nariz.

Era assim o meu fragmento:

..........................................................................

E a lua balouava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.

E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a
folhinha secca da alga.

E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as
plumas affagadas por um raio de lua.

Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das
igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro
assobia o noitib, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos
cardumes de bruxas tomam semicupios e do gargalhadas de risos maleficos
e satanicos.

E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejo nocturno, roou a
espadua pela padieira da porta, que se abriu.

Era da cr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a
haste melindrosa.

E a virao da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se
quizesse disputar  da manh o prazer de beijar mais frescas rosas.

E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a
fronte incendida ao brao tremulo do senhor de sua alma, e foi!

Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?

Flr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?

..........................................................................

E a lua passava no co, velada e triste, como a Niobe antiga.

E o homem de Celorico, de brao dado com a virgem, como qualquer
caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta,
meditando em seu corao um crime, e adoando nos labios a teno
damnada que lhe fallava n'alma.

E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leo.

Homem! tu s forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu
um dia das profundesas do co, e o tronco, affronta dos seculos, vergou
a fronte, e estalou pelas raizes.

..........................................................................

E a flr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sffrega,
pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos
homens de Celorico.

Fra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil
duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos
jornaes!

E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas,
como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............
etc. etc.

E pouco mais continha a minha descripo em estylo oriental.

 realmente demasiado respeito s conveniencias privar-se o publico d'um
fragmento assim! No obstante, rasguei-o, protestando jmais querer
editor para as minhas obras.


XVI.

Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:

Joo, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma
suspeita menos casta.

--Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?

Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente
rapariga brincava com o preto puerilmente.

--Valha-te o senso commum, amigo Bento!--repliquei eu--Que terrivel
significao tu dste  minha historia! Poderia eu criminar a simplza
d'um brinquedo que desde creana respeito e absolvo, porque o vejo
sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para
andar entre mos da mocidade!...

Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!

--Faz muito: pois j te esqueceu o _pueri ludunt_? os meninos brincam? e
posto que l no diga _utriusque coloris_, d'ambas as cres, infiro que
ser um branco e outro preto no destre a regra da boa latinidade. Logo
que se d nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...

Cala-te, importuno!--atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da
alcfa um po e um canto de queijo Chester.--Fica na certeza de que a
minha consciencia est socegada, tranquilla...

--O mesmo no pdes dizer do estomago...--acudi eu, vendo o precipicio
aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu
amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de
Hermenigilda.

Bento de Castro proseguiu exarando provas que me no deixaram a menor
suspeita de que a noiva podia, sem que o pudr lhe carminasse o rosto,
desapertar o cinto virginal,  laia das esposadas de Lacedemonia, ou
entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos
sustos deu  primeira mulher de Jacob.

Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando
Pantaleo, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli
estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado--bem sabia elle
porque, melhor que eu--e Pantaleo, com semblante rubicundo e
prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.

O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o
seguinte o que elle queria.

Pantaleo acabava de receber carta d'um seu irmo, official superior do
regimento 24 de Bragana, noticiando-lhe a acclamao do rei absoluto, e
a priso do bispo, e o triumpho certo da religio; recommendava-lhe que
sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante,
que deviam unir-se em Villa Real s foras do primo Silveira.

Pantaleo estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e
chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.

Vamos a saber, continuou elle--aqui no ha que replicar! O primo Bento
vem j comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica
sendo o capito dos vassalos fieis! Se  realista s direitas, v
amanhar a mala, e amanh de manh vamos embora. Que diz a isto, primo?

--Eu digo que estou prompto. J agora a nossa sorte  commum.

Pois ento, eu vou dar ordens.

Pantaleo sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar,
afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrra na sala,
escarlate como a flr da romanzeira. No seria facil decidir se fra
mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.

Um amante feliz gosa delicias, sabora prazeres celestes n'essa
encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella,
devia dizer-lhe palavras de tal doura que a pudibunda moa, requebrando
o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo
voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraado e arredondadinho! 
a minha especialidade, leitores.)

O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me
que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento.
Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel
para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me
saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu corao
fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixes,
e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo glo dos desenganos
acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o
homem no , como disse Plato, um animal implume, nem a sombra d'um
sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creao, como disse Moyss, nem
animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem, vistas
as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim,  um
pedao d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a
agora.

Eu tenho lido tudo quanto est escripto a respeito do homem, e, se no
fosse o pequeno embarao de me esquecer tudo o que li, tencionava
explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades
eternas de que ninguem faz caso por isso que so eternas, e tudo que 
eterno no quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.

O homem, na minha opinio,  um cabide, e mais nada. O que a mo da boa
ou m fortuna dependura n'elle  que distingue a creatura de Deus entre
os seus irmos. No ha substancia de homem: ha s frma de homem. Ora a
frma est no involucro, desde os andrajos inados de herpes at aos
arminhos recamados de brilhantes.

Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idas encubam cincoenta
annos, disse Napoleo. Em 1907 a minha ida estar na consciencia da
posteridade.

Quando se perguntar o que  o homem, responder-se-ha:  um cabide.


XVII.

Sigamos Bento de Castro,  frente da sua guerrilha, composta de cento e
tantos homens, erguidos como um s homem ao primeiro grito, e quasi
todos caseiros e foreiros de Pantaleo.

Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o
primo Silveira, a quem ia recommendado,  frente d'um destacamento de
caadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo
coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca,
instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante
enthusiasta.

Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam
amarrem esse doudo! deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu
pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vr
como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de
Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos
soldados, que arremeavam pedradas ignominiosas s canellas nuas dos
fugitivos.

Bento achou-se s, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e
vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas
tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondres, caminho
do Maro.

Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pde alcanar o Silveira
a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.

O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de
soffrer, no lhe arrefecra o animo!

Queria elle chamar s armas o povoleu das aldas suburbanas de Villa
Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro,
envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a
pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o
frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de
Bruto.

Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da
Fraga, Joo do Reguengo, e Z da Brigida dos Chos, alferes da bicha, e
cavalleiro do habito, alcanado por ter morto na serra do Mesio dous
francezes em 1812.

Silveira sentou-se sobre o cabealho d'um carro, instaurou conselho
militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel
arranjarem-lhe um salpico frito com ovos, e uma garrafa de vinho. Joo
do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo
na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpices e ovos.

N'este comenos chega um postilho de Villa Pouca de Aguiar com um
officio para o marquez. Silveira no entendia a letra de sua mulher, e
pediu a Castro que lsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a
revoluo de caadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a
coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas  marqueza,
ao bravo batalho, ao rei absoluto, e no esperou os salpices, nem
congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da
capella, de cruz alada, chamando o povo s armas.

O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio
ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a
espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.

A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em Frana
denominavam-na: o panorama da fealdade. Tinha um aspecto s comparavel
a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vsgos, que no eram
olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das
espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeava, faziam
n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios
terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um arre p'ra
diante outras vezes chamava-lhes _filhos_.

Quem  este moceto?--perguntou ella ao marido, fitando Castro.

-- ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleo da
Amarante.

 valente?--replicou ella.

--Desejo mostrar valor--respondeu Castro.

Sabe jogar a espada?

--Fui cadete de cavallaria.

Defenda-se l d'um sexto!--disse a marqueza, e recocheteou com o
cavallo para entrar em combate.

Bento no ousou levar mo  espada; mas ella instou, fazendo parar o
estado maior, que se compunha d'alguns capites mres, e meia duzia de
mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com
repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu
desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoo, que foi motivo
para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna
d'um Voltaire zombeteiro do que fra a outra, mostrasse quatro ordens de
dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores
felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso  que o ditoso Castro, por
se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lio d'esgrima, provas
inequivocas da satanica sympathia da mestra.

Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada
da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porm, de sahirem,
subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou
uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou
 evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de
1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes
Freire.

Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza  frente; e o inepto
consorte d'esta amazona recebeu, por interveno de D. Carlota Joaquina,
abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os
soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:

    Com dinheiro, po, e vinho
    Sustenta-se o Miguelzinho,
    Sem dinheiro, vinho, e po
    Sustenta-se a Constituio.

A _Megera_ de Queluz, como ento os malhados denominavam a viuva de D.
Joo VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua
_Jeanne d'Arc_, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se at
ao extremo da usura para espalhar a mos largas o preo porque to caras
ficaram  nao as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos
Canellas.[2]

O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de
Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou
em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil
cruzados com que resolveu ir viajar, se o _deus_ d'Ourique no
favorecesse a causa do marquez de Chaves.

Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio
de foras, para repassarem as fronteiras.

Chegaram  Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo
brigadeiro Claudino.

Em quanto, porm, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento
estava em casa do nosso amigo Pantaleo, no gso da mais agradavel
fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca mooila
que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um
mez, por causa da convalescena da egua, e foi depois unir-se a Braga ao
marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos
rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peas
d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,
mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o at  Ponte da Barca,
onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, 
baioneta callada, a diviso do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e,
entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas
baionetadas, salvo seja, no costado.

Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de l me
escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse
a Pantaleo, visto que duas vezes lhe escrevera, e no houvera resposta.

Fui  Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta
sorte das armas fieis, cahira doente de gta sciatica, e retirra com a
familia para uma quinta de Baio, onde no podiam chegar as cartas
porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.

Fui a Baio, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e
praguejar. Logo alli prometteu  Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho
no porto da quinta, se seu futuro genro tornasse sosinho e escorreito
para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse
da Ponte da Barca at sua casa, logo que elle se restabelecesse.

Hermenigilda no me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu
apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regao
laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lanava, e ella comia de
cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da
desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida
impassibilidade, e disse:

Coitado d'elle! Melhor fra que no andasse por l a jogar a tapona com
esses herejes!

 vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe
que seria ignobil o seu enlace com to estupida creatura. Reservei, para
mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleo o
receberia em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia  de
sua familia.

Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmo, e
passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para
isso razes fortissimas.

Estas fortissimas razes, leitor amigo, comeou Hermenigilda a
sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.

Eram as razes do amor immenso, amor que lhe inturgescia o corao,
ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se at s regies
contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as
hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o
casamento, especie de cura homoeopatica.

Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graas  minha esperteza, e
continuo a merecer a confiana dos pais de familia.

     [2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos;
     igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a Joo Paulo
     Cordeiro; 40 contos a Jos Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a
     Joo Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o
     thesouro, e as graas em titulos e commendas. D. Carlota era
     economica at  avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos
     da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominaes, eram
     enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos
     ultimos annos da sua vida, to abstrahida estava no fito das
     revolues, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage
     caseiro era um gibo de chita, e uma fota de musselina na cabea.
     Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar
     muitas vezes esta quadra:

        En porfias soy manchega,
        Y en malicia soy gitana;
        Mis intentos y mis planes
        No se me quitan del alma.


XVIII.

Tudo nos leva a crer que no tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral
publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para
com ella, ns, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios,
solus, e varias outras feies do folhetim--a moral publica, dizia eu,
quer que um romance acabe bem. Acabar bem  triumphar a virtude, punir o
crime, incitando o corao do leitor  pratica do bem, e ao horror do
mal. N'este romance, se tal nome  bem cabido n'uma biographia de
personagens ainda vivas, excepto Pantaleo, no ha nada que seduza
coraes inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o
paladar com o uso do absyntho das paixes licenciosas. Aqui  tudo posto
no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de
lepra, e parecido com o diabo, de quem  filho. A virtude, vestida com
singelas louanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo
de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flr da
virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que
to farto e nedio trazia o corao de Hermenigilda, e outras creaturas
da mesma tempera.

SCENAS DA FOZ  um livro d'ouro. Peo licena para dar cerca da minha
obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios
immerecidos, e depurado de emulao mesquinha. O author  quem mais
convincente testemunho pde dar da sua obra. Os nossos primeiros
litteratos, desde 1830 at 1840, excepto A. Herculano--que escreve
sempre com a mira posta na posteridade, e cr, como deve crer, na
perpetua florencia da sua reputao--excepto esse, os nossos primeiros
litteratos, para se pouparem s avaliaes incompletas das suas obras,
escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em
quatro gazetas; e to bem escriptos eram, to portugueza e elegante a
phrase, to bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a
nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario
crear-se-hia uma reputao capaz de correr parelhas com a do idolo.
Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal
consolidou; e, se os authores no tivessem o direito congenito de
escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje
nos limbos da velha academia.

Seja permittido a Joo Junior crear-se uma reputao tambem. O meu
romance  a historia do corao humano.  um miudo exame das
vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia.  o telescopio que
alcana os astros do universo moral.  uma amalgama de historia, de
philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina
finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios
luminosos de todos os conhecimentos humanos.  esta a opinio do leitor
illustrado, e tambem a minha.

Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente
sozes, e outros hypocritamente pudibundos. Os primeiros dizem que o meu
romance  uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhana, nem
ida fundamental, ou nucleo philosophico. So uns pataratas.

Outros, os segundos, acham que o conto est cheio de palavras
estrangeiras, e no  to bonito como as _historias proveitosas_ do
Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me
pena.

Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos
vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se
mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis
annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!

Duas velhas j me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar
fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam
a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos ns a enganar uns aos
outros com meia duzia de palavras convencionaes? _Alphonse Karr_ no
conhece creanas; o que ns chamamos creanas chama elle _mulheres
pequeninas_. A civilisao tem alterado muito o valor intrinseco de
certas palavras antiquissimas, como, _verbi gratia_, pudr, honra,
amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe.
Eu creio na _innocencia_ das mulheres como synonimo de _pureza_; mas de
_simplicidade_, no. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuados
da vida  um segundo instincto com que vieram  luz as mulheres do
seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as
suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris induces que
me levam  illuso de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do
author de _Les Femmes_.

Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecaes na alma, zango-me
quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade--e mais se
doem do pungir do espinho que j se lhes no esconde em flores...
Lembram-me ento aquelles versos de Branger:


    Prudes, qui ne criez plus
    Lorsqu'on vous viole,
    Pourquoi prendre un air confus
    A chaque parole?

No obrigueis o romancista a escrever os fastos do corao como os
chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia est dispensada
de ser caritativa.

Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com
deslastres inexequiveis, do que premunir a razo contra as realidades;
querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia atravs de oito volumes
buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel,
 renunciar  verdade, perverter o gosto e a razo, crear um mundo que
no existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.

O meu romance no far mal a alguem, no concitar o fogo d'alguma
paixo perigosa, no arrastar victimas ao abysmo, cavado por uma ida,
e coberto de flores pelas seduces do estylo, e sophismas d'uma
irreligiosa philosophia.

No farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds
melancolicamente piegas.

No verterei nas almas o nectar libidinoso do _Soph_ de Crbillon.

No farei mulheres to grrulas, to bacharelas, to fortes da sua
philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, to
flexiveis, to dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira
que no leu o Plutarcho, nem o Tasso.

No direi, como Goethe, aos infelizes que se matem; e, se fr
necessario, provarei que Werther foi um tolo, se existiu; Gilbert,
Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e
Nerval, Jorge Arthur[3], no foram mais espertos que o seu modlo.

O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma
o melhor que podr. Protesta contra as paixes srias, e quer que a
humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos
dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a
philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles so.
Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os.
Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: no nos persuadamos que
o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As
paixes so de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de
molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu
Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda,
nascida e baptisada em Amarante, no ha nada seguro n'este mundo.

O leitor pde passar em claro este capitulo XVIII, que no diz nada
importante. O que vem  de certo o melhor de todos.

     [3] Jorge Arthur  um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de
     1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem
     um monumento no cemiterio do _Repouso_, com o seguinte epitaphio
     que no diz nada:

        Saudade perennal, geme, e avalia
        Thesouro de que  cofre a sepultura.

     Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um
     sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o
     amor... da morte. Era um moo de trinta e tantos annos. Tinha
     talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve
     muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte.
     Estou-o vendo quando o tiraram, j lacerado, da agua. Era de noite.
     Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um claro medonho.
     Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um bon
     de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que no podia
     legar...


XIX.

No se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta
annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As
palavras que ento se disseram, ainda as ouo; os mais ligeiros gestos,
as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me
dra nesse tempo!  o caso:

Pantaleo foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda
da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabea de Veado, que
tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia,
D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o
qual casou na dita casa de Cabea de Veado, como consta da Chorographia
de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente,
nas Nobliarchias ineditas de Alo de Moraes, no appellido Maldonado.

Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu
primo, reparou na nutrio de Hermenigilda, e fez uma carta de pessoa
que sabe de sciencia certa o que so legitimas nutries, e quando o
alargamento dos tecidos, accumulados n'uma regio, com detrimento
d'outras,  uma pseudo-gordura.

Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou
em averiguaes, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente
casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o
como, e o progresso das relaes, excepto o que elle, ainda que
quizesse, no poderia contar em estylo oriental.

Iniciada com estes comos, a velha fidalga chamou sua sobrinha a
contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.

Com que ento--disse a velha--tu vaes casar, e no me davas parte?!

--O pai, assim comssim, diz que a tia havia de c vir...

E gostas muito do teu noivo?

--Podra no! Tomra eu j que elle viesse.

Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu c estou para os deixar
casados... Mas, diz-me c, menina, tu fizeste uma grande loucura em te
deixares vencer pela tua paixo...

--Agora fiz! pois eu no havia d'amar com paixo cga meu marido?

H cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era
um malvado que no tornava c, e te deixava nesse estado?

--Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo
machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo,
como quizerem.

 isso,  isso, menina; no preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio
 apressar o casamento antes que teu pai v para Amarante. Aqui ninguem
vos visita; mas l, que vergonha para a nossa familia!  a primeira que
acontece na nossa linhagem!... Pois tu...--continuou a velha inexoravel,
em quanto Hermenigilda fazia torcidas nas pontas do leno do
pescoo--pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa
plebe?! No te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo
mais antigo d'Entre Douro e Minho?

--O amor quando  de raiz...--balbuciou a pobre menina, purpuriada como
a fbra do presunto que lhe estava ao p disputando o carmim.

Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai--exclamou com violencia D.
Mafalda--te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos
appellidos que tens, no cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os
ossos de teus ascendentes na propria campa! O que diro os nossos primos
da Carraa, e de Ranhados, e Lamas d'Orelho, sabendo que tu fizeste
similhante affronta  nossa jerarchia?

D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da
caranguejola onde estavam penduradas as bras d'unto, que longo tempo
ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para
lhe pedir que no dissesse ao pai o mal que o seu _amor de raizes_ lhe
fizera.

Era tarde, porm. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a
descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou
por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa
possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado
em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.

Pantaleo, atordoado pelas invectivas, s depois de ouvir a cousa clara
como ella era para todos,  que sahiu do torpor, e fez meno de pegar
d'um bacamarte para arcabusar a filha.

D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assmo, e pouco e pouco persuadiu-o
de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a
Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha.
Pantaleo preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baio, onde cheguei
cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas
aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.

Eu ainda hoje as vrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a
postura afflicta de Pantaleo no momento em que entrei no seu quarto.
Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando
pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma
cadella perdigueira que tinha a cabea na travesseira do amo.

O venerando ancio, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:

Snr. Joo, saber que o seu amigo Bento de Castro  nada menos que um
bregeiro!

--Como?! V. exc. d similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu
genro?

 um bregeiro, e se no, faz favor de olhar para minha filha.

--No entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.

Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. Joo!

--Nas ilhargas! que quer isso dizer?!

Quer dizer que a minha filha, snr. Joo, ha-de casar-se j, seno o seu
amigo  mandado para o inferno.

--Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...--repliquei eu, sentindo
tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na
compresso do riso.

Pantaleo, no auge da sua colera, saltou fra do leito, e trilhou a
cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas
apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe
prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por
sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a
callosidade de um enorme joanete do p esquerdo.


XX.

Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena
lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleo. O meu honrado amigo no
hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde
muito seria marido de Hermenigilda, se a m fortuna da guerra lhe no
tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebra, e a
morosa convalescena que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo
que, obrigado a uma quasi solido de quatro mezes, reflectira
maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o
casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia,
e rica, era a posio que mais quadrava  sua alma, j desenganada das
loucas illuses da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda no
fosse muito--disse elle--isso no importava, porque o amor-habito viria
com o tempo encher o vacuo das grandes paixes. Louvei, como moralista e
humanitario, to acertado expediente, to ajuizada philosophia, e
fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os
haveres da noiva.  certo que uma imaginao creadora tanto pde erguer
castellos no ar como em Amarante.

N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baio,
onde eramos esperados por um extraordinario successo.

Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente,
berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas
palavras, que eu communiquei ao meu amigo.

Pantaleo sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que
parecia ter-se commovido com a minha revelao, antes de mais nada,
exclamou:

No esperava isto d'um fidalgo, que ainda  meu parente, snr. Bento! V.
s. portou-se muito mal, e no  digno de ser meu genro!

D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos
berros, e disse com senhoril gravidade:

--O mal feito no se remedeia, primo Pantaleo. Do que se tracta agora 
de chamar cirurgies, que a menina est muito doente. O snr. Bento est
aqui para remediar o mal que fez.

De certo, minha senhora--murmurou o meu amigo.

--Pois ento--acudiu Pantaleo--trate-se j do casamento.

J?! no  possivel!--redarguiu D. Mafalda--A menina est... pois tu
no sabes como ella est?!

--E ento que tem l isso?!--replicou o fidalgo--Chama-se ahi o abbade
ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.

Eu estou prompto a obedecer-lhe--disse Bento;--mas eu muito queria que
a minha noiva no estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa
existencia. Se ella estivesse perigosa, em to triste caso, de certo
seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se
por em quanto no ha receio, por que no ha-de o nosso casamento
espaar-se para um dia mais alegre?

--Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...--disse D. Mafalda.

Pantaleo cedeu s razes do genro, e s minhas, que tiveram sempre uma
tal ou qual preponderancia na opinio dos parvos. Serenou-se a
tempestade, e Pantaleo, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da
bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanas
seguras da queda da constituio.

D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha
chegado, ficara em grande alvoroo de alegria, e pedira que lh'o
levassem ao quarto, se isso no parecesse mal.

Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas
palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da
sua ingratido. O momento, porm, era improprio para arguies e
defezas. Hermenigilda estava pagando  natureza o doloroso preo dos
gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um
passeio no pinhal visinho.

Sabes tu, Joo, (disse-me elle com poetica ternura) que comeo desde j
a sentir o amor paternal?

Agora conheo que os prazeres singelos da vida domestica so os unicos
de que posso recobrar a minha felicidade perdida.

--Pois, parabens, meu caro Bento!

Ha nada mais poetico--proseguiu elle, cada vez mais commovido--que o
espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe
desprende do seio o thesouro d'amor que ser inexhaurivel de prazeres
para mim?!

--Oh! isso  arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da
minha particular devoo que me no dem o prazer desse espectaculo; mas
se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e
trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoo...

No podes imaginar o jubilo que me enche o peito...--atalhou o meu
amigo, que parecia no ter ouvido os doces prognosticos da minha
paternidade--Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje
esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se
Hermenigilda no  a mulher que possa corresponder bem s precises da
minha alma, o vacuo ser preenchido com o amor de meus filhos. Se fr
menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar
que se pde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fr um rapaz, oh!
ento... tu no imaginas o que ha-de ser meu filho!

A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se  pai
de certo perdoa ao meu amigo.

Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me
nas orelhas uma sensao desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que
fssemos continuar as doces _rveries_ no nosso quarto.

Estavamos ainda a p, duas horas depois. De instante, a instante,
chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a
informar-me, e voltava sempre com boas esperanas para o meu amigo.
Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende,
um cirurgio das Caldas d'Argos, uma parteira de Canavezes, e D.
Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.

J de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que
Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes,
quando annunciam  Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho
de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos
enfesadinhos.

Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido  primeira pessoa que sahiu
do quarto: era D. Mafalda. Cousa extraordinaria! A velha fidalga sahiu
como assombrada; e  pergunta que lhe fiz, respondeu: Isto  da gente
se benzer!

--Que diz v. exc., minha senhora?--repliquei eu-- menino ou menina?

Eu sei c... Santo nome de Deus!--balbuciou ella.

Sabem o que ento me lembrou, no podendo atinar com o spasmo de D.
Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberrao
da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas
minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me
disse que o nascido era rapaz, mas...

Mas o que, minha senhora, queira acabar...

--Mas  preto!--disse ella, escondendo o rosto nas mos.

Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefaco de
ns ambos. Pergunta se Hermenigilda est perigosa. Eu fico perplexo; mas
o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me at ao
fundo d'alma.

Tomo-lhe o brao, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:

--Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.

Pois que ?!

--J, j,  necessario sahir j d'aqui...

Por quem s, explica-te, Joo.

--E eu pela tua honra te supplico que me no interrogues mais. Vamos
apparelhar os cavallos.

Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do
idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: monta! no
se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpr. Cobrei animo, e
disse-lhe:

Ests disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...

--Se elle  meu filho...--murmurou elle.

Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!

--Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!

N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma
filha da caseira:

Nasceu um menino.

E a caseira respondia:

--Que seja para boa sorte.

E a SORTE EM PRETO  a melhor...--murmurei eu, segurando o estribo do
cavallo de Bento.

O infeliz comprehendeu-me. No sei como dizer o que vi na cara de
Castro. Partimos.


EPILOGO.

O preto levou sumio. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho
d'uma mina, que est  esquerda, como quem sahe da porta da cozinha.
Quem o esganou no sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar
supposies de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a
parteira de Canavezes, e no se sabe o fim que lhe deram. Pantaleo
morreu.

Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e  hoje uma das mais
respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama j foi tres
vezes deputado pelo Minho, e est muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus
 servido, pasmado do muito que tenho visto.


FIM DO LIVRO PRIMEIRO.




                          LIVRO SEGUNDO.


                            DINHEIRO.




LIVRO SEGUNDO.


DINHEIRO.


I.

Em 1835, a 22 d'Agosto, s 7 horas da tarde, pouco mais ou menos,
passeava eu, com a imaginao pelos mundos ideaes de Plato, e os ps
sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do
_Pastelleiro_, nos suburbios de S. Joo da Foz.

Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas
hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre.
Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa
impresso, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de
saber quem morava alli.

Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto
de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar.
Ahi comea a phantasia a fazer-me travessuras!

Receoso d'afugental-a, parei para que ella me no ouvisse os passos. O
ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha
cabea fertil de crendices visionarias, fizeram-me crr que tal mulher
apparecera ento para no ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a
visse.

No me enganei. N'um lano d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me
entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.

Aquella mulher  necessariamente um romance completo! disse eu commigo
mesmo, e imaginei traa de tornar a vl-a sem ser visto n'aquella noite.
Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz  Foz, retrocedi, atravs
d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos
meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.

A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com
a face encostada  palma da mo. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu
podia pouco avistal-a.

Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos
cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as
feies. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar,
vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma
estatua de marmore na solido silenciosa d'uma cidade assolada.

Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza
a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um corao
de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por
esses tempos!

Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me no
via, que nunca me vira, e eu no veria jmais!

No se riam da criana que eu era ento. Tinham passado trinta annos por
mim, mais ou menos tempestuosos, e o corao estava ainda vioso,
florido e esperanoso de fructos que por fim apodreceram antes de
sazonarem.

Era aquella a idade das paixes srias, reflectidas, consideradas. So
essas as paixes que lanam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do
seio, d'onde s a mo da morte, quasi sempre prematura, pde
desarreigal-as.

E por isso aquella mulher do _Pastelleiro_ entrra em minha alma, vaga
de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem refce e
treda que se vendera a um paparreta rico, vindo no sei d'onde, com
anneis de brilhantes em todos os dedos das mos, e joanetes enormes em
todos os dedos dos ps... que ps, meu querido padre Santo Antonio! no
eram ps; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!

Estive muito doente n'essa occasio. Dei srios cuidados aos meus
numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude  custa de muita papa de
linhaa e oleo d'amendoas doces.

Assim atraioado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de
sabio, nas minhas aspiraes de poeta, resolvra abandonar o co onde a
perfida, nos braos d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das
flres que eu cultivra para ella no seu proprio jardim. Viera  Foz
fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar
com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhes.

N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensaes do amor. A chaga
era d'aquellas que se curam homoeopathicamente, e eu de certo no
conheo argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que
dizem que a homoeopathia  a medicina que abrange ambos os dominios, o
da materia e o do espirito, definiram-na de modo que s a m f poder
ridiculisal-a, no lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma
to graves como era ento a minha. As mulheres so essencialmente
homoeopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado
se consolide. Ninguem como ellas se cura to depressa das molestias
d'alma por suppurao d'amor. Eu creio que as valvulas no corao da
mulher no so simplesmente peas mechanicas da circulao sanguinea. Em
breve tenciono dar  luz um livro de physiologia, em que prometto provar
que o corao feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra
que simultaneamente se abre  entrada d'outro. Com estas duas valvulas e
um pouco d'impudor, frma-se a mulher  laia d'aquella que me trahiu.

Acabem as divagaes.

Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me  priso magica
d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude
melancolica em que estivera tres horas. No me enganei. Ouvi o ranger da
porta no interior da casa, e um claro subito illuminou o quarto. O
vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em p, com as
costas voltadas para fra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas
palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a
mysteriosa tambem fallra. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com
a escuridade, a minha viso amada voltou  sua posio, na janella. Eu,
espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e
imaginava.

No pararam aqui as vises estupendas.

D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que
rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da
vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes
magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais
para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o
acaso podia deparar a um espirito de poeta de fora maior.

Maravilha!

Uma voz angelica, trmula como um longo gemido, mas melodiosa como o
suspirar de brisa por entre flores, e o murmurar de fontinha no cristal
da taa, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que
nunca mais sahiu da memoria do meu corao... foi a voz que ouvi... era
ella cantando, era o anjo que segredava s estrellas as magoas do seu
exilio, era a fada que invocava as magicas apparies da noite, era o
espirito aerio, como o no sonharam Wieland, Hoffmann, nem Goethe, a
descer das regies ethereas para encher a terra das harmonias santas que
foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.

Extatico, alheado, eu no podia recolher ao corao, ao mesmo tempo, a
letra e o canto. O hymno, variado de modulaes divinas, talvez
improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade,
continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensao, tentei distinguir
as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligao.

    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o meu anjo tendes l.

Houve uma longa suspenso. Os olhos da minha alma viram aquella mulher
enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez
mais triste, mais trmula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel
melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a
tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas
d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro
das correntes, e no manso espriguiar da onda sobre as algas dos
rochedos.

Calou-se o canto. Fugiu-me a viso. Fechou-se a janella. E eu pendi a
cabea triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se no
era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.

A natureza ouviu-me em silencio.

Porque no ha-de a natureza responder s perguntas dos tolos que ella
faz?!


II.

No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graa, e a minha
mania creadora era compr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura,
e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um
soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lies da semana
santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantocho, cheguei a cantar
n'uma missa de cinco vozes em cro d'aldeia, e com estes rudimentos
consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla
em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.

Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das
margens do seu rio.

E, na noite seguinte  da minha viso, eu fui sentar-me entre os
pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do brao, esperando a hora
desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella
espiritual mulher.

Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a
mesma luz, e  mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de
tristeza.

Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas
sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de
papel. A fada acabava de cantar os dous versos to lindos:

    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o meu anjo tendes l.

E eu feri as cordas do meu alade nos tons mais lugubres d'um preludio,
e cantei:

    Neste ermo, triste, e s, e abandonada
    Quem desta alma o gemer escutar?
    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o meu anjo tendes l.

A mulher estava de p; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o
mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a
ver:

    So horas mortas; vem,  meiga fada,
    E um beijo para o co leva de c.
    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o meu anjo tendes l.

Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do
estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o ento.
Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara,
febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era
a hora das expanses e eu prosegui:

    Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!
    Meu hymno, triste, como o teu dir:
    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o seu anjo tendes l.

 ultima palavra desta quadra, sumiu-se a viso; mas a janella ficou
aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da
aurora. A flr da giesta, as margaritas do prado, e a candida
florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do co.

E a janella ainda aberta.

Aclarou-se a manh: eu no despregava os olhos anciosos da janella
vasia, da escurido interior da casa. Na perplexidade de sahir do
saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de
branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam s
primeiras lufadas do sol que ia nascer.

Ver-me-ia ella?

Oh! de certo viu! O corao bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de
quem d um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por
longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia
negro e indigno de mim.

Que dia aquelle! Que cr to linda a da atmosphera! que azul to
encantador o do mar!

Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!

 amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornars a orvalhar
esta alma arida!


III.

O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do
Pastelleiro. A anciedade no me deixava esperar a noite. As janellas
estavam fechadas. O amor nascente  to melindroso, pueril, e timido,
que receia desagradar at com o pensamento ao idolo da sua concentrada
adorao. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de
dia quella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora
das lagrimas, em presena das estrellas.

Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.

A mulher no apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das
cumiadas das serras. Eu no podia reprimir a ancia do corao: precisava
vl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte
ella me inspirava.

Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena
porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta
deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a
fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres,
uma sentada, a lr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As
pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O
sangue em lume subiu-me em borbotes s fontes, quiz esconder-me, e no
pude. O latido d'um co denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. No
sei o que ambas se disseram.  certo que a velha, sustendo o rodopio do
fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.

Engasguei-me, tartamudeando no sei que desculpa. A velha redarguiu, em
quanto a moa, j de p, cravando-me os olhos immoveis, parecia
increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.

Respondi:

--No procuro alguem; andava passeando, e cuidando que no incommodava,
entrei por aquella porta com inteno de vr esta quinta.

Ento vocemece--tornou a velha--est a banhos?

--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abenoando a curiosidade
de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava
uma demora justificada.

A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas,
tal qual , est s suas ordens.--

Leitor, se tma rap, srva uma pitada, e d-me atteno, que eu no
lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lr.

A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz s comparavel ao seu
canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha
sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas
mulheres bellas encontrra.

Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.

Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e
transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo,
apparecem para completar as formosuras que a natureza nos d
incorrectas.

Olhos da cr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos,
menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar
dos olhos negros.

Pallida, muito pallida, sem mancha de rubr, sem beta d'outra luz que
no seja a que os brandes mortuarios reflectem no crepe da ea.

Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares,
especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.

Devia ser muito delicada e breve a construco ossea d'aquella mulher,
que no melindroso das frmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro
material d'um grande espirito.

A pequenina bocca era assombrada por um buo aveludado, que sobresahia a
custo do fundo pallido em que parecra plantal-o n'um beijo o amor das
voluptuosidades, filhas do corao, e desconhecidas  sensualidade
grosseira.

Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam s frmas as
caprichosas ondulaes, de modo que as bellezas occultas pareciam
desafiar a imaginao mais fertil para vencel-a com a realidade.

Estes fugitivos traos ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o
leitor mais imaginoso no crear com elles no mundo dos phantasmas a
sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presena
della; que far a penna, sempre desobediente s vagas expresses da
alma! No sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao p de
mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo,
entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:

    Dai esmola d'amor  desgraada,
     anjos, que o meu anjo tendes l.

Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e no sei
descrevl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,
d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Cames, e o
adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta,
respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu
ideal foi deste mundo, e a arte no pde restituir-m'o!

O que s tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez
magnetica, e d-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a
immortalidade morrendo abraado ao teu milagre,  tua segunda creao!....
..........................................................................

No soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella
mulher? Vamos sabl-o. D'alli perto, est uma camponeza segando herva.
Vou fallar com esta mulher, de modo que me no vejam da varanda; receio
magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem
que no sou visto.

Pertence quella familia que mora alli? perguntei eu.

--No, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta
casa pelo S. Joo.

D'onde  a tal familia, pde dizer-me?

--No lhe sei dizer. Parece-me que so l de cima da provincia. Quem
alugou a casa foi um senhor que veio c ssinho, e no tornou a
apparecer.

Seria marido d'ella? interrompi com sobresalto.

--No tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.

E que diz a criada?!

--Pouco mais de nada; e eu, como no sou intromettida, tambem no
pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.

E como se chama a tal senhora?

-- a snr. D. Felismina, e a criada  Thereza.

E ella no toma banhos?

--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas no passa
do pinhal, ou vai at l abaixo quella moita de carvalhos.

Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a
bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um leno.

A mulher, maravilhada, acceitou no sei que, de que a amabilidade do
rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha
generosidade foi to interesseira quanto a seguinte pergunta vai
denuncial-a:

V. m. vai quella casa?

--S l vou  tarde buscar a lavagem para os cevados.

E quem lhe faz os recados?

--Vem todas as manhs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se
demora, e sahe sem vr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a
vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer
o mantimento, com ordem de no fallar a ninguem. Em quanto a
mim--concluiu a informadora, pondo  cabea o cesto da herva--em quanto
a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--

Disse adeus  mulher, e voltei pela mesma direco at  pequena porta.
No vi Felismina, nem a criada.

Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomear.


IV.

Do poente desennovellavam-se rlos de nuvens pardacentas que se
acastellaram sobranceiras  Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela
superficie do co, formando uma abobada de chumbo, onde no luzia a
crispao de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do
oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se
de norte a sul successivos relampagos, e o trovo bramia do nascente,
menos retumbante que o mugido das vagas. As franas dos pinheiros
ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.

E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este
espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando
observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as
janellas. Pobre cantora d'amarguras, no era aquelle o seu lindo co,
povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios
d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos,
fugira espavorida ao aoute do bulco do mar. Talvez que a timida
senhora, de joelhos com a aterrada Thereza, estivesse resando a
_Magnificat_ e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, ssinha, na crista de
um monte, to visinha dos raios, cercada de troves, transida de
pavr... no a verei hoje!

Assim pensava eu, resolvido a no esperar o aguaceiro da nuvem prenhe
que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.

Antes, porm, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo
pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o corao se emancipa
quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,--o que 
peor ainda... Fui ao p da casa, muito ao p, quasi rente com a parede,
e...  luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruada no
peitoril da janella!

Outro relampago... Estava ainda! no me fugiu, no se moveu, tinha os
olhos mergulhados nas trevas onde me vira.

Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu no as sentia. O que eu queria
era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupo
d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vl-a, maior do que a
minha imaginao a crera, maior que o terror d'aquelle quadro!

E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na
face, erguida para a janella, d'onde as trevas j no podiam roubar-me
os traos d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da
chuva do furaco, e dos troves no me deixavam entendel-a. Pensei que
fra um engano. Ai! no era, no!

Pde abrir--disse ella--esse portal grande, e recolher-se da chuva.

--No a sinto, minha senhora--balbuciei eu.

 impossivel que no esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva no
pra to cedo--tornou ella.

--As tempestades do corao no deixam ao corpo sentir as da natureza...

Como?!--interrompeu ella.

Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razo para temer.
Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraa.

Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua
encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as
jubas, limpei a cara a um leno que a molhou ainda mais; e, perdida a
esperana de tornar a vl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e
scismando nas imprudentes palavras com que me denuncira.

Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje
sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei
suffocado entre seis cobertores; no fiz caso d'uma dr tibio-tarsica,
aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!)
e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as
costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cucas para o
sobrado, e meditei de ccaras, no que devia fazer.

A minha tratadeira (pessoa velha, j mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a
folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, seno romantica, ao menos
desambiciosa.

Credo!---exclamou ella--o senhor est de menores! isso  feitio! Olha
que preparo!

--No fuja, tia Poncia--disse-lhe eu, meditativo e funebre como o
fidalgo manchgo, depois da aventura dos dres--Venha c, tia Poncia,
que eu preciso das suas consolaes.

Valha-o Deus!--tornou ella--Suou tres camisas, e pranta-se no meio do
soalho com o _cadable_ ao ar!

--Diz bem, tia Poncia, isto j no  seno um cadaver, lanado  margem,
exposto aos corvos e abutres das paixes carnivoras.

Que est ahi a _alanzoar_ o snr. Joo? Se eu o percebo, cebo! Ora v-se
vestir, ande-me depressa, que est o caf prompto, e toca a comer p'ra
arrijar.

--Comer, tia Poncia...! O que  comer, sobre a face da terra, quando a
vida vegetal paralisou! O meu alimento  o absyntho das lagrimas. Sou o
Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre
incessante.

Que bruto est o snr. Joo ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram
alguma os brutos c da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Est tudo
caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da
cernelha, e o berzabum de no sei que diga manda rabada, e quando Deus
quer  cada osso que te parto! A lenha isso ento  uma ladroeira que
clama justia ao co! Quatro gravatos que no do para aquecer uma agua
 um pataco. M breca os tolha!

--Accommode-se l, tia Poncia. Eu no fallo n'isso. V. m.  mulher
experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me
c aquellas pantalonas, e fallaremos.

Ora diga l... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora
queira Deus que no esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno
que lhe pz o sal na moleira...

--Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que no pertence a este mundo.

Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os
sinos a defuntos?

--No me crte o discurso. Esta mulher vive...

Ah! sim? inda bem, inda bem!

--E V. m. a dar-lhe! Oua, e falle quando dever responder. Esta mulher
vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; no tem homem
nenhum: no apparece de dia, s se v de noite a fallar com as
estrellas...

Anjo bento! isso  bruxdo! Cruzes, canhoto! Ter ella fadario?

--Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos
annos, e parece que est cada vez mais tonta!

Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. Joo! Eu no lhe
disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao milo!?
Diga, snr. Joosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com
a beia cahida, no lhe disse eu que a rapariga, s duas por tres, se
lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E
agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que s
apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer,
e Deus me tenha da sua mo, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que
anda por c  sua vontade arranja sempre bruxdo que o tolhe. Sabe que
mais, snr. Joo? Coma e beba e tome os seus banhos, que   que veio; o
mais leve o diabo, Deus me perde, as mulheres, e quando houver de casar
arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e no olhe para
estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!

Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente,
foi buscar o caf, e pediu-me que pendurasse no pescoo uma figa de
azeviche, e uma conta que fra tocada no corpo do martyr S.
Cyprianno--tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha
pobre Poncia, durante o almoo, proferiu um discurso, intermeado de
oraes _ad rem_.


V.

Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a
appario at s onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jmais!
Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se
retirra, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda
todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrra
na quinta, uma tarde, fra trancada por ordem da snr. D. Felismina.
Esta providencia apertou-me o corao, e feriu a susceptibilidade do meu
amor-proprio.

 quarta noite, demorei-me at depois da uma hora, suppondo que
Felismina appareceria mais tarde, certa de no ser importunada no seu
colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse
o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis:
pedir-lhe-hia que no se privasse desse poetico prazer, porque eu no
viria alli mais, ainda que essa privao me custasse torturas de
saudade. O corao offendido tem destas generosidades.  sempre a fabula
das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia,
quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da
casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respirao para
me no denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que
machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta,
e chapo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mo, e os outros
pareceram-me armados de paus.

Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurana das
portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a
distancia d'um tiro de pistola. Vi pr a escada a uma columnata do
patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres
marinhar lestamente por ella; porm, resvalou da aresta do balaustre, e
viria abaixo com o homem, se os companheiros a no sustentassem a prumo.
No obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi
subitamente aberta.

Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladres. Felismina
deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura.
Apenas ella appareceu na janella, e bradou: Thereza, Thereza, chama o
caseiro! eu saltei d'um pulo  estrada, e disparei sobre o grupo uma
pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos
de cora por aquella estrada fra, deixando a escada, e uma fouce
encavada n'um pau.

Em casa de Felismina ia grande rebolio. Ouviam-se os grasnidos de
Thereza, os latidos dos ces, e os gritos ameaadores do caseiro. Ella,
porm, no sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.

Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:

No se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladres que fugiram
a um homem s.

A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em
fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na
melhor disposio de m'o despejar na cabea, quando Felismina bradou:
Os ladres j fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.

O bravo em fralda poz a arma em descano. A mulher, com o saiote
vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: Este
senhor  aquelle que andou outro dia na quinta. O silencio de Felismina
provava que ella no carecia d'esta novidade.

Contei ento o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro
interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli
quella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porm, atalhou,
pedindo-me que no fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boal
desfez-se em satisfaes, e instou para que eu bebesse uma pinga
d'aguardente porque estava fria a noite. No respondi ao offerecimento,
que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da
senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa,
cheio de gloria, d'alegria, e de esperanas. A gloria era uma tolice:
sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanas alegres fundavam-se
na opinio elevada que Felismina faria de mim. No era s defendel-a dos
salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, s duas horas da
noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos
na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito
algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.

Contei, em casa, esta aventura  minha Poncia, que me esperava ainda a
p. Aqui  que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sbia em agouros e
feitios. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da
bruxa; e saltou-me ao pescoo para vr se eu tinha a figa de azeviche.
No a encontrando, chamou-me herege, e no me deixou sem eu pendurar o
bento guizo no pescoo. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto
estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo
o travesseiro, encontrei um mlho d'arruda, e um alho que tem na Flora
popular, um adjectivo desgraado. Eram exorcismos da tia Poncia, que
tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um
possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario  rua, e consegui
adormecer embalado pelas minhas esperanas.

No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a
mar, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me
o corao! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao
encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa,
parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza
fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em
redor com desconfiana, e disse-me:

Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e
pede-lhe que faa o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta
foi fechada porque no havia remedio seno fechal-a.

Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!
Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu,
caminhando com ella, lhe disse:

--A porta da quinta foi fechada para eu l no entrar?

Foi, sim, senhor, porque... no lhe posso dizer mais nada. A senhora o
que quer  que V... saiba que por vontade d'ella no foi que a porta se
fechou; em fim, ha cousas que se no podem dizer. A snr. D. Felismina
custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse....
Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheam.--

No esperou resposta.

Fiz mil conjecturas, e nenhuma s que se aproximasse da verdade. Desafio
o leitor mais esperto para que anteveja a soluo deste problema.


VI.

O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o corao era o que menos
treguas dava  minha ancia.

Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance,
Felismina atravs da vidraa. Levei ainda a mo ao chapo para
cortejal-a; mas ella no esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanas
d'aquelle sitio, at alta noite; e s depois das onze horas pude vencer
a resistencia magnetica que me l prendia.

Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um
vulto n'ella. Eu passava to subtilmente que Felismina s me viu quando
eu estava em frente d'ella. O encontro fra uma surpreza para mim.
Muitas cousas imaginra eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me
todas. Parecera-me facil e at natural perguntar-lhe a causa de me ser
prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois
do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante
prohibio; porm, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me
atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.

A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me
sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu
caminho, e confesso que me sentia tremer. O corao tem cousas!...

O arrependimento veio logo com a reflexo. Retrocedi por outro caminho,
e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada.
Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse.
Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o corao do peito. No
podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me,
causar-lhe desgosto, se por desgraa ao p d'ella estivesse um amante.

Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei,
e ouvi-as fallarem de ladres. Thereza dizia que se no salvava se
estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cra  Senhora da
Luz, se os ladres no tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella:
Se no fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos ns
feitas em pedaos, sem confisso, nem sacramentos.

Felismina fallava to baixo, que toda a minha atteno foi baldada. Por
fim, disse a criada: Menina, no esteja muito tempo ao relento da
noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir
alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre
Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mo.

Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a
primeira vez que eu via tanta luz quella hora. Conjecturei que a timida
senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu
contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com
ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o
exito. Acerquei-me da casa, para encurtar  minha timidez o tempo da
reflexo.  verdade que me no occorria uma s das bellas idas com que
de dia compozera o meu exordio; porm, atido ao improviso do corao,
iria esperando que ella, com uma s palavra, esperanosa ou
desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.

Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis
passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas
pernas, e estive, vai no vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir
antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse
Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situao n'aquelle
instante. Um tal _Estevo_, em presena d'uma tal _Magdalena_, no
podendo vencer o susto do primeiro encontro, _faz um esforo como um
homem que fecha os olhos para saltar um fsso_.  bem dito isto; no se
diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da
janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a
certeza da minha ida.

Boas noites, minha senhora disse eu: era o mais frivolo que podia
dizer, depois d'uma investida to vehemente.

--Boas noites--murmurou ella com voz abafada e tremula.

V. exc. conhece-me?--tornei eu, querendo dar  pergunta um tom
melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e scco.

--Parece-me que  a pessoa que hontem...

Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar
perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc. d'um susto...

--Devo-lhe um grande favor--atalhou ella, no menos agitada que eu--e
por isso mesmo  que hoje mandei a minha criada...

Eu no pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.
me diga se eu devo pedir-lhe perdo...

--De que?!

Da imprudencia que fiz entrando sem licena na quinta...

--A causa do meu recado no foi a sua imprudencia, foi, , e ser
sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar 
fechadura do porto, que no vo andar pelo quinteiro os caseiros...
Seria uma desgraa, se o vissem, ou escutassem...

Espreitei, e no vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina
acabava de apagar a luz, e estava j na janella.

Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim  nossa
entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se
mais n'um colloquio, por noites de completa negrido, que  luz das
serpentinas dos bailes, e ao claro d'um bico de gaz, que, nestes tempos
malditos da poesia, vos d  cara do namoro do primeiro andar uma cr
sulphurea e phantasticamente prosaica.

No fao agora cerca do gaz uma dissertao, porque me sinto abalado
pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse,
logo que eu voltei de espionar o quinteiro:

--O senhor de certo me no conhece...

No, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse
dizer como eu a conheo...

--Queira dizer...

Conheo-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se
conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina;
como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos
homens na sua frma celestial; como se conhece a possibilidade de
encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se
conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o
nas alturas do co.

Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porm, no
disse todas quantas sabia, e quantas estudra em casa (penso que foi no
_Renegado_ de Arlincourt no estou bem certo), e lhe teria dito se ella
me no interrompesse com vehemencia:

--Bem se v que no me conhece pela maneira que me falla...

Como?! explique-se por quem , snr. D. Felismina!

--_Felismina!_ (disse ella, sorrindo) Cada vez me conveno mais de que
me no conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a
caseira, no  verdade?

Sim, minha senhora.

--Pois bom  que no saiba mais que o meu nome...

E no devo esperar outra revelao da sua boa alma? No sou eu j o
depositario d'alguns segredos que v. exc. confia das estrellas? A
mulher que pedia aos anjos o anjo que elles l tem...

--No me surprehende...--tornou ella vivamente commovida--Eu sei que me
ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que
n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que
cantava era to infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de to dolorosa
saudade como as eu chorava ento...

Que faria a esse homem?

--Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha
f... a amisade santa dos infelizes quelles que se compadecem... No
queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que pde 
trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho
sobre o meu corao para jmais se alliviarem...

E o corao no lhe diz que eu serei um homem digno das suas
confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos servios, at
com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?

--Nada pde. O circulo de ferro em que a minha vida est apertada, no
pde ser quebrado por humanas foras. Podendo eu mover a sua compaixo,
dar-lhe-hia grandes penas, por no poder valer-me. O corao diz-me que
fallo com uma alma nobre e generosa;  o corao que lhe falla com tanta
franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o
conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas no v a minha sina
fatal enganar-me.

Enganal-a...--interrompi eu, com exaltado resentimento.

--Enganar-me, sim, no se offenda, que no tem razo para isso. Eu posso
julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e
d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiao
d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette no
voltar aqui?

Se prometto no voltar aqui?! respondi eu, aturdido da voz segura com
que a pergunta me era feita.

--Sim, senhor:  necessario que acabem neste instante as nossas curtas
relaes. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz;
eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso.
No podemos ser nada um para o outro; e to grande  a dr que eu sinto
desta certesa... que, por compaixo de mim propria, no quero
habituar-me  sua voz.

S por compaixo de si mesma?--atalhei eu, sinceramente commovido--No
ser antes pena de mim?

--De que? Se algum de ns ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que
no tenho distraces, e de qualquer pequena saudade fao uma grande
dr... tal  o condo da minha desgraada sensibilidade.

E no podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.... Nem sequer
_irmos_?

--Deus sabe que preciso eu tenho d'um amigo... quantas vezes eu lhe
peo uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e
virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; ser temeridade dizer to
afoutamente que a minha virtude  o unico esteio em que me amparo...
Creia-me, se poder.

E porque no hei-de eu crl-a, minha senhora? que fez v. exc. para que
eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, dra a minha vida para
suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, to erma da
vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito
desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr. D.
Felismina, e pediria  Providencia os dons que me faltassem para lhe
acudir.

--No pde, no pde...--interrompeu ella soluando--O mais que pde 
compadecer-se.

E no  a compaixo um lenitivo?

--, nem eu j agora tenho direito a outras consolaes; porm, no
imagina os resultados tristes que pde dar esta nossa innocente
entrevista, se fr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei
martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. V comprehendendo o
melindre da minha infelicidade...

E por ventura, j me fiz suspeito aos olhos d'alguem?

--Creio que no. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu
delicto... Creia que sobre o meu seio est suspenso um punhal ameaador.

Como?!--interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da
bravura, e no sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e
metade de D. Quixote de la Mancha.--Como?! pois ha, para vergonha da
minha especie, um brao de homem que ouse levantar um punhal sobre uma
victima to resignada!

--Falle baixo, senhor... Tenho mdo que o escutem... Repare que no haja
luz n'uma casa que est ao fundo do quinteiro. Quem sabe se os caseiros
esto comprados? Veja, veja.

Eu fui vr, no vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas
rispidas e sccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na
averiguao, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim
dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem
estabelecer ao menos uma hypothese cerca da extraordinaria bulha.
Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de
observao, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido
estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a
marrarem-se reciprocamente ao claro da lua: recreio sobre-modo poetico
para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas so.

A entrevista, leitores pios, demorou-se at s tres horas da manh.
Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os
passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a
disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como
elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em
harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu
escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas
e sustenidos, e as outras garatujas to necessarias a quem imprime
romances cuja linguagem  a pura e genuina do corao. Foram estas as
suas palavras:

-- dia; e agora peo-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me
deixa saudades, e tantas que s poderei consolal-as, vendo-o muitas
vezes; mas no posso acceitar esta consolao. Seja meu amigo, sim? no
me sacrifique, por quem . Eu no sou d'aquellas mulheres que lhe querem
persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu
bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posies, e no as
colloque em desagrado do mundo. Se lhe digo que me no sacrifique, 
porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual  pena
d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflices? 
preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo
deve parecer-lhe uma inveno de novella, um ar de mysterio com que
muita gente quer armar  admirao. Ha-de saber a minha vida, se
primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais prza,
nunca, em quanto eu viva fr, proferir uma s palavra das que eu lhe
confiar. No sei que sentimento de irm  este que V. me inspira! Nunca
esperei encontrar uma amiga a quem dissesse aprende a soffrer commigo.
Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse,
sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... manh, depois
da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de
tarde no passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa
criada, que me viu nascer, e respeita as minhas aces, porque me julga
incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.--

Ora aqui tem como a cousa se passou, tal e qual.

Entrei no quartel com o corao tumido de romances. Olhei-me d'alto a
baixo, por uma intuscepo peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande,
extraordinario, e fadado para grandes lances.

Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu no podia
estremar a confiana do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que
Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os
brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matra com
a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu brao, debil instrumento d'uma
alma forte,  opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogaes me
fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, no
obstante as interrupes da minha Poncia, que vendo o meu fastio ao
jantar, obrigou-me a tomar um ch de fel da terra para limpar o
estomago.

Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor
vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era foral-a a
esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expanso.
Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a presso d'um
tyranno, escondendo as lagrimas para no irritar a colera do seu
verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:

Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena s
almas, e prometta uma romaria  Senhora da Guia, para que a guie bem; e
o snr. Joo deixe-se de palanfrorios; no se metta na vida alheia, e
tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que  o mais
acertado.

Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.


VII.


Trato de afivelar j uma mordaa  maledicencia. Muita gente cuida que o
meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto
muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella
ha-de fazer tregeitos de pudicicia, at que finalmente acabemos ambos
por nos adaptarmos s formulas vulgares d'uma rotineira paixo das que
morrem no inverno, se nascem no vero ao p d'um pinhal, cuja poesia no
resiste s primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem flego que o
periodo  uma especie de machina pneumatica.

Pois sabero que no tive namoro com a snr. dona... ia dizer Felismina;
mas a mulher chamava-se Leocadia. A razo do pseudonimo vir em seu
tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos
fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leo que retorce o bigode e
enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas
imaginarias victimas--esse, que a maior parte das vezes  um pobre
homem, no leia isto porque de certo no aprender aqui a receita com
que se fascinam as mulheres.

Declaro, pois, que no namorei a snr. D. Leocadia, moradora no logar do
Pastelleiro, suburbios de S. Joo da Foz, em 1828.

Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faa  virtuosa
commemorao de sua memoria, nem consta que as ms linguas sujassem a
reputao desta senhora.

D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de to triste
historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoes que no
eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que no estava no
seio d'ella corao que podesse ser meu. Grande corao ella tinha; mas
o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume
continuo d'uma adorao, que no podia deixar cahir neste cho maldito
um s bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar
interrompl-a, comecei a sentir no sei que terror de ter tentado
disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno,
cujo espirito, porm, dizia ella, adejava entre ns, quando proferiamos
o seu nome.

Eu fui sempre criana n'isto de supersties. O ether para mim foi
sempre, e ha-de sl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma
contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que
estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de
mim o ermo do desterro, a insulao medonha do estrangeiro em solo de
barbaros--essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos
que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar
dormente... essas almas... perdoem-me a divagao... Eu cuidava agora
que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que viro algum
dia confirmar posthumamente a minha reputao de grande piegas, ou de
grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre
os meus herdeiros.

Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou
contal-a; saibam, porm, que D. Leocadia morreu j. Este preliminar
aviso  necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu
promettido a ella sigillo de confisso durante a sua vida. Ento,
pensava eu ir primeiro a descanar das minhas fadigas; esperal-a a ella
rodeada d'anjos l, cortando a immensido do co, no dia do seu resgate.
Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na
terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo
repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu,
velho e enfermo, ralado de saudades do corao que consumi, vestida a
alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que s eu tive, e
toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge
posta em altar de lama n'um templo de vendilhes torpissimos, eu,
finalmente, fiquei por c, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar
com a inteno providencial que por aqui me traz entregue aos baldes
d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.

Ahi vai agora o conto:

Leocadia nascra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era
official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragana
passra para Lisboa a commandar um regimento, e levra comsigo sua filha
de nove annos j sem mi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve at
aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em
coronel, e completou a sua educao na convivencia de algumas poucas
familias exemplares.

Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia
como se no fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem
conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o
instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a
esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graas  experiencia,
entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos
dezenove annos.

Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de
pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas,
e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da s moral. Um dos dous
sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal,
rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias,
reuma em rosto de dezenove annos, por uma razo que o leitor sabe, e
mais eu.

O sexo, porm, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!)
era, quer m'o creiam quer no, o sexo que mais gratas scismas lhe dava
nas suas contemplaes, ssinha.

Havia ahi na sua roda um rapaz, to acanhado como ella, o que menos
palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do
moo, e to frivolas eram, que, se os olhos no dissessem mais que elle,
Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido
Vasco--chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.

Amou-o ella:  o que no soffre duvida; e elle amou-a, como...
deixemo-nos de metaphoras--amou-a como ho-de vr que elle o prova,
depois.

O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou
tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. No
obstante, como as aces do Banco eram menos que as costellas nobres, o
meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava f
se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o no perdia da vista
dos olhos, e da outra vista do corao, de maior alcance ainda, se o
corao no  myope, ou zarolho, peior mil vezes.

Coraes zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheo at
pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operao do estrabismo para
elles.  infallivel, nas mulheres que vieram com esse aleijo a este
mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta
edificativa obra.

Bom corao era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando
no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o
amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo  menina
que o rapazinho era bello moo e de boa familia; mas a respeito de
haveres no tinha nada. Concluso de velhas: deixe-se a menina de
gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a
gente mal se precata, deixou perder a occasio de arranjar noivo
conveniente, e acha-se velha.

Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a
mulher, que a enfeita para se expr em leilo torpe, esta linguagem fez
crar Leocadia.

Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma
declarao amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo
aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi to
linda como ento, nem houve sorriso e pudr que tanto alindassem um
rosto innocente.

Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu
liberdade ao corao, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso no
se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se
reciprocamente uma edio diaria do seu amor em duas ou mais folhas de
papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro,
com a riquesa de imaginao usual de todos os prospectos.

Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas
almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do
mesmo som o primeiro hymno de saudao  vida, cheia de nova luz,
especie de bem-aventurana ephmera posta entre o dormir da razo na
infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas
deviam ser essas esperanas, por que o pensamento de ambos era
sanctificarem pelo casamento a sua identificao n'uma s alma, irem
ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de
arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus
ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao p dessa casinha uma
fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e
nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com
um lao escarlate no pescoo, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de
Leocadia, e daria cabeadas no co de Vasco, que havia de ser um co do
Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o co) aos ps de sua ama,
lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira cr de flr de alecrim.

Que vida, que esperanas to bonitas! Nas manhs de estio, quando o
pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos
musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia,
espriguiando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar
livre, sorveriam abraados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de
alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir  fontinha buscar
burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os
vasos; e depois, botariam milho s gallinhas, enxotariam a gata que se
encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que
ensaia os primeiros vos; depois, chamariam o co e o cordeirinho, iriam
para ao p do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos,
o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo to mal recompensado
amor do infeliz poeta, abraaria o seu, tambem fadado das musas,
exclamando: que nos vejam do co esses desgraados amantes que no
acharam c em baixo o nosso paraizo.

Isto  bonito, digamos a verdade; e mais ainda se no disse tudo.

Em quanto ao almoo, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (c
estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no
periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por
fora vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que
ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres
amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por c
se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto : no cuidavam da
receita, nem do oramento, nem do _deficit_, nem... eu sei c como se
chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem l da salvao do
paiz! O que eu sei  que este par de creaturas bemaventuradas, com
quanto fossem muito anteriores s importantes applicaes do magnetismo,
attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda no
sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles,
pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz,
como _roast-beef_ e almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que
parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na
devida considerao, e cr que isto de poesia e poetas, de idealismo e
espiritualismo, so o que realmente so: _indrminas_? Pois  verdade,
como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial
e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei
estupida por isso mesmo que  para todos, praxe, to velha como o amor,
de attender s justas reclamaes deste ser intimo que faz os grandes
estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e
particularmente os homens gordos: quero dizer--o estomago,
viscera-rainha, orgo dos orgos, potencia sempre discutida, sob um
pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais
chorudas do jornalismo, irmo gemeo da soberania do talento, o estomago,
oito letras a cujo servio esto as outras dezeseis, poro, em fim, do
homem notavel, que mais se lhe venera, por isso que a chegada de uma
summidade a qualquer terra  logo celebrada por tres, quatro, cinco
jantares em que uma concava terrina de spa e uma pyramide de boi assado
substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se
regalavam os adventicios de longes terras.

Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco no
scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por
excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o corao, se
o torpe raciocinio lhes argumentasse _ priori_ com as vills
necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria
para se amarem.

No pensava, porm, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a
snr. D. Fortunata Proena, madrasta da mesma menina, casada tambem em
segundas nupcias com o militar, e mi d'um rapaz estragado, senhor d'uma
boa casa no Alem-Tjo de que sua mi era uso-fructueira.

D. Fortunata, casando com o coronel, promettra-lhe empregar a sua
authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua
formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento
assegurava  enteada, se no um digno esposo, ao menos uma boa casa, e,
a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes
do marido fossem incorregiveis.


VIII.

O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta,
resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de
Proena, que estava a completar a formatura, annuira  proposta da mi,
conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam
j em poder do coronel.

Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu
proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pde
balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante
surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou
dizer que j no podia dispr do seu corao, porque amava outro homem.

O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que no
valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina
tomou o riso por carinho paternal, e lanou-se de joelhos aos ps do
pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do corao agradecido e
venturoso.

--Ento que  isso? (disse o coronel, tomando-a nos braos, e sentando-a
ao p de si) Cuidas tu, criana, que eu sou to criana como tu? Achas
que eu deixarei  tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha
querida filha? Essa  boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao
Vasco da Cunha, to tlo como tu, e que no sabe melhor do que tu o
futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, no se pde ser pobre n'esta
sociedade. A nossa casa  muito pequena, bem o sabes; e Vasco  um filho
segundo, sem habilitaes para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam
que ser fidalgo  uma profisso. Os filhos segundos, se lhes faltam as
sopas do primogenito, no servem para nada, no tem em si recursos para
subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam ros de leso-brazo se
pedissem uma occupao pleba. Meus irmos, Leocadia, foram para o
Brazil, logo que a razo lhes disse que a pequena casa onde viviam era
minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e esto ricos,
riquissimos, e sero mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o
eram quando de c sahiram. Quem saber melhor o que te convm do que eu,
minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para
um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vr em minha
vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana;
ido esse, o resto bem sabes o que . Se casas com esse rapaz, que no
tem nada, quem vos sustentar? Eu no poderei, nem, se podesse,
quereria. Para que reconheas quanto me tenho a ti sacrificado,
lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a
filha. A condio de casares com Francisco, acceite por ella, explica o
meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mi, cuja
memoria me no deixou jmais encarar com bons olhos outra mulher. Depois
d'isto, dir-me-has se eu no devo esperar que tu espontaneamente
acceites a sorte que eu te preparei. Serias m filha, se recusasses; e
eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei;
e, to firme estava na unio das nossas vontades, que sem te consultar,
pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado.
Enganar-me-hia eu, Leocadia?

A menina soluava com os labios collados na mo do pai, cobrindo-lh'a de
lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos
aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu
corao, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.

--No respondes, filha?--dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella
escondia no seio do pai.

J respondi... balbuciou ella.

--O que? que respondeste, Leocadia?

Farei o que fr da sua vontade, meu pai...

--s a minha Leocadia...--disse elle com apaixonada meiguice--Reconheo
a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com
Vasco... Senta-te, menina. Diz-me c: ha que tempos andam vosss com
essa brincadeira?

Brincadeira... no era brincadeira, meu pai... Ns amamo-nos muito...
ha dous mezes.

--J ha dous mezes? Est feito! mas eu no tenho dado f... Como se
entendiam vosss? fallavam s escondidas, ou...

Nunca fallmos s escondidas...

--Ento, escreviam-se, sim?

Sim, senhor.

--E as vossas tenes?

Eram sentar elle praa, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.

Est bom... E porque me no fallaste d'esse teu namro?... Diz, filha,
tu guardavas de mim o segredo;  signal de que a tua consciencia no o
approvava como digno de contar-se a um pai...

--Foi porque algumas senhoras, que deram f logo no principio, me
disseram que eu no fazia bem em gostar de Vasco, porque elle no era
rico, e eu s devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se
no fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...

--Est bom, filha. Agora  necessario que tu escrevas, e lhe digas que
teu pai deseja fallar com elle.

O pai!?

--Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se at aqui o estimava pelas
suas qualidades, e por elle ser filho de quem , mais o estimo hoje por
elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villo seria eu se lhe quizesse
mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resoluo de
seguir uma carreira at ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns
pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil,
no quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo corao, e o
seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de
transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficar amando-nos
ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jmais elle possa
queixar-se da ingratido de uma filha grata e submissa a seu pai.

Leocadia beijou-lhe a mo, e retirou-se, obedecendo a um gesto do
coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe
cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto,
desentalava a dr oppressiva do seio por um ai.

Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso:
Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. _Leocadia._

Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moo no podia
imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraa.
Faltava-lhe o animo, e o desembarao para apresentar-se,  ventura,
diante do pai de Leocadia.

No ir, porm, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e
ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenes.

Foi; e o leitor, se  curioso, pde espreitar commigo a scena que vai
passar-se na sala do coronel.


IX.

Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. No viu
alguem, e parou, ao segundo passo, com as mos juntas na aba do chapo,
e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.

A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mo
direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canap,
entrou, affavelmente encarado, como Vasco o no vira nunca.

Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como
dous homens velhos--disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo
outro ao mancebo.--J toma o seu cigarrito? A apostar que sim?

--No senhor, no fumo.

Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros comea a ter
boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a
mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do
cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz.  o tom, dizem
elles, desde 1820 para c. Parece-me que esta gerao sahida do ovo, e a
outra que est no chco, ho-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a
modo de nabal espigado. No sei se me entende: quero dizer que a seiva
forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores
e fructos, cada cousa em tempo proprio, dar fructos temporos,
bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. No acha?

--Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu--disse modestamente
o moo.

E pensa bem para a sua idade. Os vicios so de todas as pocas, mas o
do cigarro  muito moderno entre ns, ha-de confessar!

Vasco sorriu involuntariamente  visagem comica do coronel, de proposito
arranjada para se ajustar  solemnidade com que sorvia, deliciando-se,
um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que no
era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de
Borgias, que envenenam a gente, reservando s para elles as explendidas
orgias dos outros...

Est o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber--disse Gervasio
Leite--o que  que eu lhe quero. L vou j. Minha filha Leocadia...

Vasco fez-se vermelho, cr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em
menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse
nome.

Minha filha Leocadia--proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro
na ponta do segundo--tinha l um segredo no corao, mas no segredo
para o snr. Vasco; era-o s para mim, porque os pais parecem-se s vezes
muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca
pela roupa. Este ruim vso da humanidade  que  muito mais antigo que o
cigarro.

O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porm, no
tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco,
ou parecra-lhe grosseiro de mais o confronto do segredo santo da filha
com o perfido da adultera.

Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor,
continuou:

Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. No estranhei a
cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas
razes respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia  rapariga, o senhor 
rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro
cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que
elle seja mais do que cego... em quanto a mim  surdo, por que no ouve
razes,  cego por que no v precipicios,  mudo por que s tem lingua
para fallar a linguagem que no est nos diccionarios, nem pde
applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e
sentem, como, por exemplo, o vestir, o calar, o ignobil cortejo da
realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me
cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe
ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar
a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos
o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me
esta rhetorica de tarimba.

Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do
meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel
do general Beresford, tive sincera pena de ambos! No entende, no. 
necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da
alma, para conciliar duas idas contrarias: ter compaixo de duas
pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando
no entender o meu vocabulario c debaixo do mundo real, falle.

A minha casa  insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella,
junto ao meu soldo, difficilmente tem chegado para a educao de
Leocadia. Minha filha  pobre.

--Oh senhor!--interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.

Diga, diga, o que ia dizer.

--Eu... no perguntei a v. exc. o que sua filha tinha.

Isso est claro. Quem  que se lembra de perguntar o que tem a mulher
que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle . Eu tambem
amei uma mulher, casei, e, s depois de tres mezes de casado,  que me
levantei uma bella manh com a ida de saber o que ella tinha. Soube que
tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil
reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que no fiquei contente, por uma razo
das mais racionaes que eu conheo. Minha mulher precisava vestir-se para
apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da
esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me
parecer que a minha situao de solteiro era melhor que a de casado.
Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior
quelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras
de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras
nortadas lhe embaraam o vo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que
me descorooava por dentro, isso  verdade; mas o que lhe valeu para
viver e morrer feliz foi eu ajuntar  delicadeza com que sempre a
tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.

Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e
eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os
generos e feitios, herdava da mi de minha filha o maior de todos: essa
criana sem mi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu
poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como  preciso que uma senhora o
tenha, para poder escolher um marido, no podia. Um pai, que ambiciona
avaramente para seus filhos o bem-estar que elle no quer para si, 
desculpavel,  victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e
sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher
aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho,
herdeiro de um grande casal, e alm de todas as probabilidades
favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condio de que
Leocadia seria mulher do meu enteado.

Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira,
branco de neve, tremulo, que at os cabellos se lhe irriavam, pasmando
os olhos nos olhos do coronel, que se ergura tambem.

Ento, snr. Vasco, isso que ?--disse Gervasio, tomando-lhe
affectuosamente a mo--Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo vir em que
faa justia ao pai da mulher que ser sempre sua amiga.  preciso que
sejamos tres no sacrificio.

--Qual sacrificio?--balbuciou Vasco.

 preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos,
seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe
tracei, convencendo-se um e outro de que sero infelizes,
desobedecendo-me.

Vasco levou o leno aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos.
Vencendo os soluos, que forcejava por esconder no leno, disse com
intimativa:

--Eu obedeo, senhor... Creio que poderei obedecer.


X.

E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da
sala, e desceu to precipitadamente as escadas, que no voltou a cabea
para agradecer ao dono da casa a considerao de acompanhal-o fra da
sala.

No pateo encontrou o afflicto moo o aguadeiro que diariamente lhe
levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no
barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os
emolumentos que cobrra da sua posio importantemente diplomatica entre
dous coraes rendidos.

Quando viu Vasco, calou o collossal sapato, sacou dos abysmos
interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com
o barril para o hombro, e no esperou resposta.

Vasco rompeu ainda a obreia para lr a carta, mas susteve-o o receio de
ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um
canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais
copiosas, debaixo da presso do leno.

Que dir esta carta?--perguntava elle ao seu corao--Ser o adeus de
Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...

Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a ll-a, quando entrou no
pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com
grande tropel. Era Francisco de Proena que chegava de Coimbra. Vasco
no o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete 
campina, e bota branca de canho alto, conheceu o enteado do coronel, em
que Leocadia lhe fallra algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava
sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.

Francisco de Proena viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado,
e cortejou-o de passagem. O coronel descra quasi at ao pateo para
receber nos braos o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao
recem-chegado se encontrra alli ssinho o cavalheiro da casaca preta;
porm, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo
descia com grande alvoroo a mi de Francisco, com os braos abertos; e
o rapaz, depois de beijado e abraado, deu o brao  mi, que estava
gorda de mais para enthusiasmo to bulioso.

D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:

Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. J sabes que
desgraa nos ameaa. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas
bellas esperanas no podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a
vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente 
superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco.
Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; no posso; porque me
lembro que te mato. V o que queres que eu faa. No podemos esperar que
o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que s hontem me
foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra o tal homem. Decide, meu amigo.
Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus
quizer. No seremos to infelizes como meu pai diz, no achas, Vasco?
Diz-me que no; d-me animo para lhe desobedecer. No sei se te
demorars pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere
com esta carta.

                                                               Tua L.

Quando Leocadia (ahi vo reflexes philosophicas) me mostrou, entre
outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, at certa idade, das
maravilhas que se fazem no corao das raparigas! Aqui ha trinta annos,
se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das
mestras dos collegios de ento, namorada pela primeira vez, pouco ou
nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos
de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai
nas suas virginaes affeies, escrevera similhante carta ao namoro, eu
no acreditaria, sem vr a carta reconhecida pelo signal publico e razo
d'um tabellio de provada moralidade.

Pois no parece incrivel?

Hoje que no ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijes da
alma--porque esta gerao veio realmente estropeada e canhota do
espirito--hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar
sereno e puro do collegio, comparo-a eu  rla creada na gaiola, que
nunca esvoaou, nem sabe a serventia das suas azas, est contente do
espao, e da abundancia que tem, no sente o captiveiro... e, se, por
descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette
primeiro a cabea ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens,
desfere um vo rasgado, sobe, sobe, e adeus!

Era o instincto! dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe
fugira. Pelo instincto  que eu, philosopho de toda a passarinhada,
explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas
se vo do ninho para as altas regies dos aores e dos milhafres, onde,
quando o diabo quer, do grande banquete s aves de rapina que so
tantas como os nossos peccados, por esses cos d'anil, onde os poetas
imaginam colonias de amantes felizes.

Isto  hoje, que s me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que
Deus formou d'uma costella homognea:--mas, ha vinte e oito annos,
quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar
palerma, e disse-lhe:

V. exc., quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extenso
da loucura que fazia, entregando-se assim  descripo d'outra criana,
sem casa, sem vida, sem habilitaes para o trabalho?

--Ento o senhor no sabe o que  uma paixo!...

 que eu cuidava, minha querida irm...

Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu
seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou
tres pessoas s quaes eu chamava irms, disse-me, sorrindo, que tinha
dezesete irms assim. O meu amigo pertence  gerao nova, em que estas
fraternidades no tem provado bem, porque, ordinariamente, os
parentescos complicam-se de modo que no  facil saber-se quando se 
tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo est virado! No meu
tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamam
_no-comprehendidas_ na terra, ou porque entre ellas e outras de eleio
paternal e interveno ecclesiastica no havia analogia de gostos, ou
porque as posies sociaes no permittiam um enlace, ou, finalmente,
porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente
desalojar-se--em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no
catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmos toda a vida. Eu hoje
conheo netos das minhas irms de ento, e glorio-me de ser tio-av de
creanas muito gordinhas, que puxam s avs as rpas escassas das
tranas d'ebano e ouro dos meus bons tempos...

As _irms_ de hoje...--diz muito bem o meu amigo--arranjam-se s
dezesete; e a maior prova de ser o titulo j ridiculo  que a sociedade
no as reputa incestuosas...

As _no-comprehendidas_ contam em estylo lamuriante o vasio das suas
almas a confidentes denominados _irmos_, em momentos de expansiva
familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, est fra
d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes,  um anjo.
Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: o _irmo_
apresenta-se com procurao bastante do _anjo_, com poderes
_in-solidum_. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o
procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e aco
d'uma propriedade, que (aqui entre ns) os anjos no quereriam, nem eu,
s pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao
merinaque.

A gravidade d'estas reflexes veio para prevenir os leitores mal
intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de
circumstancia. Irmo, mais que irmo, fui eu de Leocadia. Esse titulo,
que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo,
talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o
sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse  melancolica saudade
com que vou recordando palavras da minha pobre irm.

Atem agora o fio partido do dialogo.

 que eu cuidava, minha querida irm--disse eu--que o amor na sua
idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem
humanos de mais, rasteiramente humanos...

--Que quer dizer?

Pensava eu que uma menina, na sua posio recatada, no seria capaz de
conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe
alguma vez esse acto?

--Nunca, e eu mesma tive esta ida quando me vi presa  vontade de meu
pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo,
estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga.
No senti aquecer-se-me o rosto de pjo, porque me pareceu natural a
aco de fugir  desgraa. O pesar da desobediencia, esse sim,
mortificou-me; porm, entre o remorso e a paixo, a lucta decidiu-se
pelo amor.

E a ida do seu descredito?

--Eu sabia l ento o que era descredito! O meu irmo no sabe o que se
passa no corao puro. Ter experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe
que as suas analyses tem sido feitas sobre coraes muito
experimentados. Uma mulher receia o descredito s depois que sabe a
maneira como elle se alcana. Eu no sabia nada, meu amigo. Se me
dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para
Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era
capaz de abrir-me os olhos para eu vr o abysmo em que me lanra
cgamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava
da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda
to santas no corao as idas do bem, que no pde crr-se victima
jmais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer
feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua
pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e
ficar ainda na obrigao de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o
senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia
de sacrificios, essas so as que querem estar bem com a sociedade,
conhecem-na, fazem parte d'ella, e lanaram j muitas favas pretas
contra o credito de algumas infelizes, cujo amor as levou  abnegao
dos diplomas de virtude, que a sociedade d s que sabem embuar-se no
manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.

Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que no a
interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas,
que eu tive o descco sandeu de alcunhar de romanticismo. Ento no se
dizia romanticismo, mas s mulheres, que fallavam muito e bem,
chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam, _pispontadas_, ou
_pronosticas_.

No obstante, que sentir to fino era o desta senhora! Que verdades to
axiomaticas a dr, a desgraa, a recluso, o entranhar-se em si propria,
lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o
livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folhera no corao, qual das
minhas leitoras no faria esse livro o seu director espiritual, nestes
calamitosos tempos em que no basta a alma que Deus lhe deu para
luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fra do seu espiritual
elemento!

C estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexes
philosophicas! Resignem-se christmente, leitores sensiveis. No posso
ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas
dos outros, porque, lisamente o digo, da minha no entendo nada, e j
agora morrerei com esta sphinge c dentro no sei aonde.

Vinha eu, pois, contando que Vasco lra a carta de Leocadia tantas vezes
quantas o leitor quizer, que eu no sei quantas foram, nem elle.  certo
que as primeiras leituras fl-as com os olhos scintillantes de alegria;
e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.

Quer-se a razo da alegria e a das lagrimas. Pois sim.

Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira
perturbado da entrevista com o coronel. De l a sua casa lembrou-lhe o
suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do corao. Convencido
de que era irremediavel o perdl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o
remedio, alvoroou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo:
eis-aqui a alegria, a radiao da alma no semblante, o volver 
existencia, o apegar-se  prancha de salvao segura, quando a garganta
da morte estava aberta.

Depois, a razo, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente
mortal no corao, o sangue refluiu-lhe todo alli,  purpura do jubilo
succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no
as lagrimas.

Que lhe disse, pois, a razo, essa divindade to cantada, essa mestra da
vida, essa filha do co, que cahiu de l  terra pela mesma razo que
Lucifer cahiu? A razo disse-lhe que Leocadia, entregue  sua
providencia, no teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de
Vasco dominava a razo da virtude que no acceitaria uma filha familia
fugitiva, se ella no tinha um patrimonio, que absolvesse um filho
segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razo que elle filho
segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre
menina um prato de feijes adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais
a consoladora razo que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai,
conspurcada pela opinio publica, e fechada na cella d'um convento como
leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe
disse a razo do mundo, formada pelo mundo, adaptada s conveniencias
vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros,
draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.

Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixra a briga das duas sensaes
contrarias.

Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:

Deus no quer a nossa unio, Leocadia. Perdeu-se tudo. Isto  to atroz
que parece impossivel.  verdade, Leocadia,  verdade que se abriu hoje
a minha sepultura. Esperava morrer cdo, mas to depressa no queria.
Vivia de esperanas, e agora  tudo negro diante de mim. Venha a morte,
e seja j. No sei o que te digo. Estou sem alma, nem foras. O que me
dizes  impossivel. Eu no tenho um bocado de po certo para cada dia.
Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de brao e de
animo. Dous desgraados  muito. Ninguem se compadeceria de ns.
Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas
espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este
beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pdes chorar
ssinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: escrava do meu
ouro, porque choras? Leocadia, eu previ sempre a desgraa, mas no
assim. Isto  muito; e para estas agonias  que a morte sahiu das mos
de Deus. O Senhor te faa feliz, e a minha memoria te seja sempre
saudosa e compassiva.

                                                             _Vasco._

Acabra elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabea.
Escondeu a face entre as mos, porque o voltear dos objectos lhe causava
a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dr aguda
e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue
que salpicou a carta. Lanou-se com impeto ao ar da janella, e viu na
rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao
corrimo, entregou a carta, quiz retroceder, e no pde. Sentou-se n'um
degrau, susteve o sangue no leno, encostou a face  cantaria, e
murmurou:

Se Deus quizesse que fosse j?...

--O que?!--perguntou uma voz perto d'elle.

Era a mi, que descia para sahir.

--O que, meu filho?!--repetiu ella.

A morte.

A sobresaltada senhora tomou-o nos braos, soltando vozes de afflico.
Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mi esforando-se por occultar o
sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os
espreitasse veria o filho abraado aos joelhos da mi, exclamando:

Salvou-me!

Salvou-o?! como?!

Esperem.


XI.

Saiba-se o que to extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle
aperto d'alma, que no podia desafogar-se, sem que a mo bemdita de mi
lhe alargasse as angustias que a comprimiam.

Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder
s perguntas amoraveis de sua mi, encostou-lhe, como criana amimada, a
cabea ao hombro, e soluou, chorando copiosamente.

Que  isto, meu Vasco?!--instou a impaciente senhora--Bem me parecia a
mim que a tua melancolia vaticinava desgraa!... Falla filho...

Neste momento, Vasco levou o leno aos labios para esconder o sangue que
espirrava da tosse suffocante. A mi, vendo o leno tinto de sangue
fresco, soltou um grito.

Este sangue  teu, meu pobre filho?! exclamou ella.

--Isso que importa, minha mi?...--disse Vasco, sentindo diminuir a
violencia da sua dr, ao passo que o rosto da mi dava signaes de
afflico e pasmo.

Que importa!?...--tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu
filho, e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira--Importa a minha morte,
Vasco!...

--Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a
viver. Deus acceitar na sua presena um filho que nunca desgostou sua
mi, nem aos de fra causou damno sabendo que o causava.

Jesus!--interrompeu a mi arrependida da sua exaltao--ests-me
matando com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer,
meu pobre menino? Cuidas que no tem cura lanar sangue? Tem, meu filho,
tem. Teu pai viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se
tomassem os meus conselhos, se no fossem as imprudencias dos bailes,
recuperavam a saude... Choras por te vres to cedo s portas da morte?
Tens razo, meu querido filho; mas no te assustes; vers que o sangue
cessa; vamos aos ares do campo; o que tu precisas  descano. No leias
mais, pelo amor de Deus; no recebas o ar fresco da noite; no tornes a
comer fra d'horas, nem andes a passear no teu quarto at ser dia.
Promettes isto tudo  tua afflicta mi?

--Sim, minha senhora, prometto tudo.

Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso  muito
triste... antes quero vr-te chorar.

--E eu tambem queria chorar... tambem!...

Tu escondes-me o teu corao, Vasco. Tive agora um raio de luz...
Dizes-me tudo, filho?

--Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o no pergunte.

A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...

--Por quem , minha mi!--atalhou elle com as faces instantemente
abrazadas--Leocadia  incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse,
calumniou-a cruelmente...

Pois antes assim, meu filho: mas sempre  certo que vos amaveis?

--Sim...  desgraadamente certo que nos amavamos.

No te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que
ella estava destinada para um filho da madrasta.

--Destinaram-na, minha mi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o
seu corao? Ella no sabia que estava vendida. Cuidou que podia
amar-me, e por fim...

Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?

--Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...

E ella acceita?...

--Se acceita!... a morte das mos de Deus, como eu lh'a peo. Ha-de ser
entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O corao 
meu, morre commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de
soffrer... que, j agora, pouco ser; mas o que tenho curtido calado, e
docil  desgraa, foi muito, minha querida mi, s Deus sabe o que foi.
A minha Leocadia morre... e ento ver se ella no era digna d'este amor
que me mata.

Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos
remedio, que o ha-de haver.

--Nenhum.

Pois nenhum?! ella j est casada?!

--No est; mas o mesmo  estar casada, ou sl-o manh ou depois.

Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...

--Sou pobre, minha mi... Poder v. exc. dizer ao coronel que me d um
bom patrimonio?

No, infelizmente, no; aqui  tudo d'um s, tu bem o sabes... essa dr
c a tenho como um espinho cravado no corao. O meu melhor filho, o
anjo que nunca me deu um pesar, no tem nada, e nada pde haver do amor
de sua mi!... Que barbaras leis, justo co! O que os homens fazem! De
todos os filhos que rodeam,  hora da morte, o leito de sua mi, s um 
rico, os outros... ficam  merc do seu proprio trabalho, ou das sopas
do irmo, que  sempre o mais ingrato...

Vasco obstou  continuao dos soluos que embargavam estas palavras,
com meiguice, tirando-lhe as mos da face.

Isso agora a que vem! No chore, que me faz mal. Eu no desejo a
riqueza de meu irmo mais velho; queria alcanar uma mediania pelo meu
trabalho, porque bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mi, se
Deus nos ajuntasse todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais
n'este mundo; houve uma fora superior que destruiu a minha felicidade;
no acharei outra... que fao eu agora aqui?!...

--Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...

O que, minha mi?!

--Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...

Est a querer tirar  fora do seu corao esperanas para me dar...
no estando ellas l, minha mi!  irremediavel... No nos deixemos
enganar, porque a realidade negra est perto de ns.  tarde para pensar
nos meios de mudar a vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a
deram, j est com ella. Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que no
era senhora da sua alma. O coronel chamou-me, e disse-me: faa que
minha filha me obedea; ajude-me a encaminhal-a ao destino que lhe dei;
lembre-se que eu me sacrifiquei a uma mulher aborrecida, para assegurar
a minha filha um futuro, casando-a com o meu enteado.

E tu, filho...

--Recebi o raio na cabea, e sahi com o receio de cahir morto aos ps do
homem que confiava a sorte de sua filha  minha generosidade. Isto
parece-me um sonho... Quando eu me convencer completamente que perdi a
minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!

A mi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mo direita, contemplava
seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e
como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com
impeto ao p de Vasco, aperta-lhe a mo com fora, e diz:

Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o corao das
outras: Leocadia no  digna d'esse amor; Leocadia no te ama.

Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma
palavra dura, levou a mo  fronte que revia um suor subito, e disse com
pausa e brandura:

--Minha mi, pea perdo a Deus de ter injuriado uma martyr.

E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A
solemnidade triste com que elle se queixra da injusta opinio, feriu o
seio da mi.

Pois sim, meu filho, eu peo perdo a Deus de ter calumniado a tua
amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se no posso
valer-vos a ambos, meus queridos filhos.

Vasco, arrebatado pela compuno d'estas ultimas palavras, beijou com
fervor a mo da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou
na face.

Nosso Senhor, e a Virgem Santissima--dizia ella, quasi ao ouvido de
Vasco, como quem acarinha uma criana--ho-de dar-te uma esposa que seja
o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. So poucos n'este mundo
os coraes bons; mas a Providencia faz que esses coraes se encontrem.
Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos
prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu comeo
desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento.
Empenharei todas as minhas relaes, todos os nossos parentes, com a
regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?

--No, minha senhora, no. V. exc. disse-me que iriamos para o campo;
vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar l mais tranquillamente.
Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperana que me afaga,  a
ida de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e co, e flores. O tempo
agora est bello para acabar assim...

Oh filho, que me ests despedaando o corao...

--Pois no fallemos em morrer... Olhe, mi, diz-me uma cousa?

Que , Vasco?

--Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez
ella que dsse causa  injusta suspeita de minha mi?

Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a
noticia d'ir ser casada com um homem que no amava. O que tu ests
soffrendo,  o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia
que o pai lhe fez. A paixo costuma mostrar-se d'outro modo, delira, 
capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de
receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai
lhe disse: no pdes ser esposa de Vasco, porque Vasco  pobre;
sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua
vontade. Que fez ella?

--O que fez ella?--respondeu Vasco, desafogando sob o peso das
accusaes, que a mi queria alliviar com a entonao branda da voz--O
que fez ella?... Minha mi... o que faria a senhora nas circumstancias
de Leocadia?

Se amasse com a paixo ardente com que amei teu pai... das duas uma:
morreria fulminada logo alli, ou...

--Diga, diga, minha mi, que eu preciso avaliar pelo seu corao o amor
de Leocadia.

Direi, Vasco, direi o que mi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria,
no morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer  tyrannia, fugir
 violencia d'uma desgraa perpetua, seguir o destino prospero ou
desgraado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputao, da
minha vida, de tudo!

A mi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta
irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o corao, rejuvenescido
das foras que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera
alguns minutos, apressando o giro do sangue que l estivera estanque por
falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animao d'aquelle rosto,
onde nunca vira o vio da adolescencia, porque, desde menino, vira
n'elle sempre lagrimas.

Porque a mulher que ama--continuou ella, erguendo intencionalmente os
olhos para o retracto de seu marido--porque a mulher que ama como eu
amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mi. Foge do convento onde a
aferrolharam, e vai ssinha atravs cincoenta leguas procurar um militar
que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e no tinha mais
recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia
ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez
annos. E sabes tu como eu acceitava das mos de Deus a minha sorte?
Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela Frana,
pela Russia, com teu irmo mais velho deitado n'um bero de vrga.
Quando a fora da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei,
filho, que no senti melhorar a minha felicidade intima. No era o
dinheiro que a fazia, no; maior contentamento tinha quando via as
feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, at ser eu que,
por minhas proprias mos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle
apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece
que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas de felicidade com
que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...

Trmula da commoo, que devia terminar pelo chorar angustioso da
saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mo ao p do
retracto.

Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o
retracto, com o brao erguido e convulsivo, dizia:

Aquelle homem deve estar na presena de Deus. Foi para todo o mundo o
que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino,
Vasco. Entrega a tua sorte  sua proteco; pede-lhe, commigo, que
implore ao Senhor o descano do teu espirito, e o esquecimento da mulher
que no  para ti o que tua mi foi para elle.

--No posso fazer similhante supplica...--interrompeu Vasco.

No podes, filho? por que no podes?

--Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia  para mim o que minha mi foi
para o homem que a fez desobedecer  vontade de seu pai.

E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mi.

Subiu de novo  face da viuva o ardor que as lagrimas comeavam a
desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar
supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu
silenciosa em orao, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com
energia:

Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua
mi, vai, meu filho.  tua mi que t'o diz.

Vasco, todo tremulo, s immovel nos olhos, estendia os braos para ella
como se precisasse abraal-a, para convencer-se de que no era
phantastica a viso de sua mi.

Neste momento, batem  porta do quarto; a mi de Vasco recusa abrir, e
dizem-lhe que est alli uma carta que deve ser immediatamente entregue
ao menino.

 ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o
sinete, e diz a sua mi que a leia.

Continha isto:

Matas-me, Vasco. Se me no tiras d'aqui esta noite, amanh suicido-me.
s a causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas
deste inferno. Responde-me j, j.

                                                            _Leocadia._

Eu vou responder, meu filho--disse a viuva, correndo  escrivaninha.
Vasco estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de
sua mi.

Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:

Minha filha. Hoje s 11 horas da noite est uma sege defronte do
convento de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege
espera-a a mi de Vasco, e sua mi extremosa

                                               _Maria Maldonado._

Foi ento que Vasco se lanou aos ps de sua mi, exclamando:

Salvou-me!


XII.

Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:

Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei
passada de mdo, e parece que a luz dos olhos se me toldra. Custou-me a
lr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. A mi de Vasco
roubou-me a minha carta foi logo a ida que me assaltou. Refiz-me de
coragem para lr uma reprehenso... e que espanto, que alegria a minha
ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no
papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao
co a inspirao que mandra  mi do meu Vasco. A fuga, protegida por
uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor.
Congratulei-me at da minha ida, e suppuz que o espirito de minha mi,
a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurana.

Eu no podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixra a
chorar, voltando, reparou na repentina mudana, porque os meus olhos
inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante
de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abenoavam com um
sorriso.

Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria,
pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar,
operaram estranha mudana em mim.

Francisco de Proena enganado por sua mi, e mais ainda pelo seu
orgulho, julgou que o milagre da mudana se devia a essas palavras
aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mi
e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito,
penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal
affectao o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por
cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e corao embebecida
na minha fuga, e no tirava os olhos da assustada agulha do relogio.

Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi
proferir a palavra theatro. Foi uma nuvem negra que escureceu toda a
alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfigurao; e
Francisco de Proena, que estava conversando commigo, perguntou-me se me
sentia incommodada, chamando a atteno de meu pai. Expliquei o
descramento por uma vertigem costumada, e pedi licena para entrar no
meu quarto.

Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A
ida ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu
no tinha por quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiana
de meu pai, e as criadas a da minha madrasta. Entre estas, porm, havia
uma que se mostrava minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao p de
mim, logo que minha madrasta me deixou deitada n'um canap
recommendando-me, logo que o incommodo me passasse, me fosse vestindo
para irmos a S. Carlos. A minha angustia no me deixou reflectir. Eu
disse  criada que estava muito attribulada, e s ella podia valer-me.
Pedia-lhe que chegasse ella n'um instante a levar-me um escripto a D.
Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o soubesse. A criada
respondeu-me que sim sem hesitao, e viu-me tirar d'entre os colches
uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu,
dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratido,
lhe dava um abrao de infeliz soccorrida em extremos de afflico.

Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que
eu esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do
meu quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na
cama com uma dr de cabea.

N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu
costume:

--Menina, vamos, que est sua madrasta j na sege.

Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era
de fugida perguntar  criada se entregra o bilhete; meu pai, porm,
acompanhou-me at ao meu quarto, viu-me pegar d'um leno, e no me
deixou sosinha um instante at me deixar na sege, onde depois entrou
Francisco de Proena.

Meu pai disse que iria a p, e s mais tarde, porque tinha de fazer uma
inspeco ao quartel.

Que anciedade a minha at entrar no camarote! De l procurei na platea
Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter
recebido o meu bilhete. No estava, nem entrou jmais! Jesus! como me
era custoso esconder as lagrimas e o alvoro! Que horas de inferno
aquellas! Logo que entrou em minha alma a suspeita de ter sido
atraioada, tive a tentao de sahir do camarote, sob qualquer pretexto,
e fugir.

Meu pai entrou s onze horas e meia. Estava a findar o espectaculo.
Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e sem reserva.

Fomos para casa. Vi a p todas as criadas, menos a portadora do
bilhete. Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame no tinha
animo de confrontar-se commigo, depois da traio.

Procurei entre os colches a escrivaninha. L estava tudo como eu o
deixra, e ao p os massos das cartas de Vasco.

No me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual
d'ellas mais desgraada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu
quarto, para ir  cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor;
mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara,
encontrei-a fechada! Ento, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e
d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me
o passo. Resolvi sahir disfarada com um capote de criada, at encontrar
um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperana desafogou o meu
corao. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a
porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e
voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava
noticia d'ella.

Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi
esse que o tempo no conseguiu desvanecer em minha alma.  que desde
esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas...
Senti at o desejo de matar a criada, que me atraioara. Desconhecia-me!
Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor
sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldio
que passaram n'elles contra o meu tyranno.

Abri a janella do meu quarto, com a inteno de fugir por ella.
Morreria, se o tentasse. Recuei diante da ida da morte sem justificao
aos olhos de Vasco e de sua mi, que me chamara _sua filha querida_.
Lancei-me aos ps da Virgem, que fra de minha mi, e ergui-me sem
esperana, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua
misericordia.

Eram nove horas da manh quando se abriu a porta, e entrou meu pai.

No escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as no via.

--Leocadia, disse elle, vem ahi o almoo. Depois de almoar, veste-te
que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.

Meu pai!... murmurei eu.

--Que queres tu Leocadia?--disse elle com um ar de fria seriedade que me
gelou as palavras, e sahiu.

Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoo. Minha madrasta entrou no
meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que no
almoava. Disse que no podia, e ella retirou-se, passando-me a mo pela
face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha,
juizinho.

Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com
altivez o que queria dizer a sua recommendao, e ella, carregando o
sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre
soberba.

A raiva no me deixou articular seno sons inintelligiveis. Minha
madrasta sahira com impeto, resmungando palavras, que eu no entendi.

Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a teno de
procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai,
lanando-me um olhar severo.

Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com
Proena.

Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.

Apeamos no porto de uma quinta. Proena offereceu-me o brao, e
perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos
olhos. Eu ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha
vida em relao a elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua
presena.

Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi no lhe sei dizer
que desesperada saudade me golpeava a pedaos o corao! No ruido da
folhagem parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de
Proena, e as risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus
ouvidos o som infernal d'uma ironia de demonios  minha angustia.

Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva
amaldioada seguia-me constantemente, e as attenes delicadas de
Proena provocavam-me sempre uma visagem de desdem.

Com elle s quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porm, no
nos deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.

Estive um instante sosinha  beira d'um tanque. Meu pai veio ahi
encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente,
tomando-me a mo:

--Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratido na
face do amigo que tudo te sacrificou, e at a sua liberdade vendeu a
preo do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo,
esquecendo que era pai. Cuidei que tocra o teu corao, e abenoei o
co por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma
filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho
por ter tal filha, e alegria por vr to galardoados os meus
sacrificios. Deixste o meu espirito em paz com as suas tenes. Vi que
se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha
confiana puz na tua razo, que eu iria jurar que ninguem teve uma filha
mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu
silencio. A vibora, que eu crera no seio, e acabava de afagar,
mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a
tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... No me
interrompas...  teu pai que falla e te impe silencio, Leocadia.
Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito
annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputao
pela fama que segue  mulher que deixa no limiar da casa paterna
abandonada os diplomas da sua virtude. Ests j deshonrada por inteno,
filha; mas eu, desgraado pai, serei ainda a tabua de salvao para ti.
Fiz a accusao. Agora vou condemnar-te: ests perdoada; beija a mo do
teu juiz, porque a justia d'um pai tem em si o reflexo da misericordia
de Deus.

Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinao dolorosissima.
Levei machinalmente aos labios a mo que se me offerecia, e banhei-a de
lagrimas. E eu no podia fallar, suffocada por soluos. Fazia-me
compaixo o olhar aguado de meu pai; porm... no saberei dizer que
terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a
cabea e o corao havia uma barreira insuperavel. O corao regeitava o
amoroso perdo d'um pai despotico. A cabea curvava-se diante da
magestade das suas cs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porm,
nesse instante, no senti extinguir-se o odio que me abrasra na manh
desse dia,  porque elle seria eterno,  porque o meu amor a Vasco era
immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e at 
minha propria reputao.

No respondi. Cruzei as mos na face, e no sei que tempo meu pai
esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao p de mim, e voltou com um
ramo de flores.

Aqui tens, minha filha--disse elle--o ramo de paz entre ns. Ha-de
haver dez annos que te dei um ramo neste mesmo sitio. Foi quando vieste
da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que est atraz de
ti e l vers uma inicial e uma data. J ento scismei aqui muito no teu
futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, j senhora, para te mostrar
essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que s um pai,
extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu ento que a minha
segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos
ns! Repara que eu tambem choro, Leocadia.

Ergui os olhos timidos para meu pai, e no pude conter-me. O
resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoo, e, nesse
instante... s o via a elle, s sentia por elle... a imagem de Vasco
fugira por no poder vencer as cs d'um velho soldado chorando...

..........................................................................

Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e
descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do
corao desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em
terreno afogueado.

E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me
ho-de receber como chimera, chorava tambem.


XIII.

O coronel, com palavras meigas, animra a filha a perguntar-lhe se o pai
a violentava a casar com Francisco de Proena.

A isto respondeu o pai, mudando de tom:

Eu, at aqui, empreguei todos os esforos da razo para convencer-te de
que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo,
no  violencia,  juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome
s cousas, a obrigao d'um pai  ouvir a sua vontade experiente, e
cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criana. Se
ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma
filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da
escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proena. No quero o remorso
de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade,
e a minha palavra. Proena sabe que  teu noivo. Fui eu que lh'o disse,
e basta.

Sou honrado, minha filha; e, como no tenho outra herana a legar-te,
fao quanto posso por te deixar em posio de a receberes, e guardares,
como eu a recebi e guardei.  mulher pobre  mais difficultoso manter-se
no decoro. Os appellidos de teu pai nada valero, se os no fizeres
resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da
fortuna.

A virtude pobre  uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e
pompa, se a no soffrea a rdea da religio, troca de bom grado os seus
fros de honra ignorada pela ostentao brilhante do vicio. O que eu
tenho querido  rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo
venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que
no so vulgo.

Eu no sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos
alheios, e lhes do um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam 
deshonra e ao crime... Maria Maldonado...

Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel.
Nesse olhar, disse ella que implorra o respeito de seu pai ao amor
d'aquella mi.

Maria Maldonado--proseguiu elle entendendo o olhar da filha--parece que
renegou da virtude que foi at hontem a conselheira de todas as suas
aces. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser
criana, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas
travessuras dos irmos.

Leocadia, suffocada pelos soluos, apiedou o pai, que no teve animo de
continuar. Dando-lhe o brao, passeou com ella, e as poucas palavras que
lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da
madrasta, cuja aproximao a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se
esforasse por no denunciar a scena violenta que se dera entre elles.
Leocadia fez quanto podem humanas foras. Mentiu s averiguaes de
Proena com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia.
Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e
lanava um olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo
no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe
acolhia os ditos arguciosos.

Agora me ensina tu,  musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria
Maldonado.

s dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho,
teimoso em acompanhal-a de longe, que a no seguisse.

Juntamente com ella, entrou o capello da casa, padre velho, que
resmungra longo tempo contra a crueza de o no deixarem deitar s nove
horas, por causa d'uma expedio em que elle no fra consultado.

Eram trezentos passos da casa de Vasco  do coronel. D. Maria fez parar
a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se
poucos passos distante da casa de Leocadia.

Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa.
Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e
ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre
atrapalhado.

No se esconda, snr. Dona... (disse o coronel) No pronunciarei o seu
nome, minha senhora, porque ouo sempre com reverencia pronunciar o nome
de seu defunto marido, e no quero que possa alguem saber que a mulher
do meu general est parada n'uma rua de Lisboa s onze horas da noite.

D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As
palavras do coronel tinham s o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da
ironia, e o virulento da reprehenso. O padre estava naturalmente de
bocca aberta, como quem diz eu no dei para isto prego nem estopa. No
lhe occorria ida alguma  attribulada senhora, quando o coronel,
offerecendo-lhe o brao, disse:

No a convido a entrar em minha casa, snr. D. Maria, porque em minha
casa no est senhora alguma. Se v. exc., porm, me permitte
acompanhal-a  sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer
duas palavras.

--Aceito o offerecimento...--disse D. Maria reanimada pela confiana que
pz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do
coronel.

Na sege no cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a p. O padre
parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porm,
disse ao padre que cedesse o seu logar.

O capello sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do
seu capote de castorina parda, e l foi de seu vagar, ruminando
philosophicamente aquella diabrura.

Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou,
ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apera para dar
a mo a D. Maria. Vasco surgia no limiar do porto justamente no
instante que sua mi entrava pelo brao do coronel.

O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeio de espanto,
que tanto podia ser _ah!_ como _oh!_ como _ui!_

Gervasio levou a mo ao bon, e disse risonho:

Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!

D. Maria apertou-lhe o brao, murmurando:

--No zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a
continuao da sua delicadeza...

 um direito de que eu a no privarei, minha senhora. Serei delicado
com o filho como o fui com a mi... Por isso mesmo, rogo a v. exc. que
mande seu filho assistir s duas palavras que devo dizer-lhe.

--Vem, filho...--murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel
estendia affectuosamente a mo a Vasco, bastante pundonoroso para
regeital-a.

Recusa?!--disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria
militar.

--Ento, Vasco?!--acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com
humildade diante do coronel.

Quer que subamos, snr. D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?--disse
Gervasio com mal disfarado azedume.

--No, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?

Se minha mi ordena...

--Ordeno, sim.

J na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou
assim:

Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que
minha filha, pelo facto de ser minha filha, no podia ser sua mulher.
No lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica
a Leocadia  respeitavel, em quanto est dentro dos limites que a honra
prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra
e da probidade.

O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me no desmerecer da
opinio em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos to
verdes! Pareceu-me vr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que
lhe deu o nascimento.

Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face
envergonhada diante de mim, e cortar essa mo que ainda agora hesitou
apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco
brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de ns o despreso, o
despresivel de certo no seria eu, porque o enganado, o atraioado no 
v. exc., snr. Vasco da Cunha.

Adiante: e no se estora, escutando-me, snr. D. Maria: eu estou de
certo contando a v. exc. uma novidade.

--Duvido que meu filho...--interrompeu a pobre mi.

Duvida que seu filho?...

--Promettesse a v. exc. renunciar ao amor de sua filha...

Eu no disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc. me prometteu
desviar as suas attenes de minha filha, de modo que ella no
conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto  exacto?

Vasco no respondeu: lanou a sua mi um olhar de tortura intima, um
olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no
corao do infeliz moo no sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que
nenhuma religio inventou ainda, devia de ser!

Se o examinassem de perto, vr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial
suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o corao lhe
dava no peito. Uma s ida, synthese horrivel de todas, o predominava
ento: o desejo de morrer logo alli.

A infeliz mi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!

Pediu licena ao coronel, ergueu-se, tomou a mo do filho, e disse-lhe:

--Vai para o teu quarto, Vasco. Eu no me demoro aqui... l vou ter j.

Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabea, quando passava diante do
coronel.

Pobre criana!... disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras
dissera tudo o que ns poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.

Pobre criana, sim, que no soube erguer a fronte, embora marcada com o
stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: mentes Pobre
criana, que no sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia
seguinte, o vissem morrer s mos do coronel, ou cravar um florete no
seio onde se embalara Leocadia! Pobre criana, que succumbiu, como
succumbe a honra ferida pelo remorso,  reprehenso do tyranno que lhe
vem diante de sua mi, lanar em rosto a ignominia da perfidia!

Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel
disse:

--Pouco mais ter que me dizer, creio eu.

Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco  importante.

--Se  uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou
eu a propria que me censuro.

Ento, snr. D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso
viver em paz com a minha familia. Visto, porm, que v. exc. se
reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco,
posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua
correspondencia com a minha filha.

--A minha? interrompeu ella.

A de v. exc., queria eu dizer.

--E eu digo a v. exc.--replicou D. Maria sensivelmente agastada--que
sou mulher, e no posso dar s suas ironias uma resposta condigna.

O coronel soltou um frouxo de riso, cuja inteno  difficil entender.
Era um destes risos _subjectivos_, (concedam o epytheto) cuja imagem
est dentro da pessoa que ri.

D. Maria, enraivecida pela desconsiderao, interrogava-o com um olhar
soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraando-a,
inclinou profundamente a cabea, recuou at  porta, e disse:

Muito boas noites, minha senhora.

Ora aqui est o que se passou, at que o coronel entrou no camarote.


XIV.

Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e
dana-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de
Sinfes, Francisco de Proena.

Alto l, senhor romancista! No se escreve assim um romance. Voss assim
desacredita-se, e manh no tem quem o leia. Quando a gente cuida que
est no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um
carril a vapor, e vl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite,
de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lr, pedindo o livro
emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que
fez a mi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze
dias! Isto  uma escandalosa empalmao!

Senhoras e senhores meus, v. exc.as de certo conhecem muitas meninas na
posio de Leocadia. Posio trivialissima, alis.  uma pobre rapariga
a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem
rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a morte no vier
espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre no pde
teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao
noivo rico,  sociedade torpe, casa e dana por comprazer no dia em que
casa, e almoa com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no
outro dia, e assim successivamente, at engordar. Isto  muito simples,
e muito rotineiro, no  verdade?

. Ento de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e
osso como v. exc.as, fez o que v. exc.as fizeram, viram fazer, ou faro?

Alto l! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e
lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de
remorso por me haver feito seu confidente. Perda-me, minha santa amiga!
Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco
em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem
para o harem de sujos pachs, que ao passarem a linha, lavaram a cara
dos ferretes de sangue com que sahiram do aougue humano.

Se eu fizesse uma criminosa omisso de tuas lagrimas, o mesmo seria
pisal-as, Leocadia.

Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido,
mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardo a
estas mulheres de almoeda, que, na alma, no valem mais que as de
Babylonia, e no corpo no valem tanto.

No, espirito que me vs da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e,
se no rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um trao negro
das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar,
que ouo agora, vinha casar um murmurio melancolico  tua narrao.


XV.

Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna,
causava suspeitas ao coronel, que postra militarmente o auxiliar, de
sentinella, no pateo, de dia e de noite.

Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. No achava, porm,
o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que
tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a
para dizer no quero logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir
receber a beno nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e
juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia,
todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.

Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma
antiga criada, que j o fra da primeira mulher de Gervasio, voltou da
provincia, onde fra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella
Thereza, que eu vi na Foz.

A situao de Leocadia melhorou, porque Thereza chorava com ella,
aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem
amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do
corao de sua filha uma paixo que fazia a infelicidade de todos.

Thereza no podia tanto. Conheceu as intenes da menina, e disse-as ao
coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, no.

Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritaes
orgulhosas da madrasta, e suspeitas ms de Francisco de Proena, e
continuadas lagrimas e recluso de Leocadia, o coronel queixou-se de
violentas dores de cabea, e febre.

Apenas se recolheu  cama, Leocadia foi sentar-se  cabeceira do seu
leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o
sobresalto operou uma subita mudana nas maneiras de Leocadia.

O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no
corao todas ella empregou para adoar as amarguras do pai enfermo.

O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os
que o tinham levado quelle extremo. Leocadia lanou-se aos braos
febris de seu pai, pedindo-lhe perdo, e voltou-se a Nossa Senhora,
promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai
recuperasse a saude. O coronel no ouvira o voto, mas adivinhou o
silencio de sua filha.

Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez
que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou
sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.

Pungentes palavras foram estas:

Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que no
conheces. Parto, e tu ficas s. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se
para sempre os unicos olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De
tua mi, ninguem j vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te
no conhecem. Que fars tu, filha, quando me levantarem morto desta
cama?

--Meu pai!--exclamou Leocadia com vehemente afflico--meu querido pai,
no pense que morre...

Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fr trabalhosa,  o corao
que se despedaa, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente.
Estou canado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a
da outra... a da outra, meu Deus, vs sabereis se eu a mereci com a
paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire
abenoando-te?

--Sim, sim, meu pai... quero que viva, abenoando-me!--bradou ella,
beijando-lhe as mos afogueadas.

Ento, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de
estimar, porque eu lh'o pedirei  minha ultima hora. Tu has-de ser feliz
com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te
escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os no tem
neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em
espirito agradecer-te o sacrificio. Sers ento consolada, filha, pela
memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse.
Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proena?

Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluo suffocante, e com elle
uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:

--Sim...--disse ella.

O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforo, pde ainda sentar-se
no leito, alongando os braos para ella. A filha sustentava no hombro a
cabea esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mo
convulsa.

Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluar de ambos.

O coronel desprendeu-se dos braos da filha, e pendeu a cabea para o
travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras
cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e
quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o
lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:

Quem mata meu marido  a senhora!

Veja a que estado o reduziu!  uma parricida snr. D. Leocadia!

Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai 
sepultura...  uma filha amaldioada!

Leocadia, no teve animo para responder-lhe. Pz os olhos em seu pai, e
disse-lhe em seu corao: Vs bem sabeis que no  verdade o que ella
diz! e sahiu, apertando a cabea com as mos.

A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a
irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de
esperanas, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de
dormir tranquillo vieram reparar-lhe as foras.

O coronel chamou a filha, tendo ao p de si Francisco de Proena, e sua
mi.

 cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os
preparatorios para o recebimento da extrema-unco. O enfermo pedira um
confessor, que se achava j no quarto.

Aproxima-te desta cruz, Leocadia--disse elle com energia--snr.
Francisco de Proena, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor
a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor
amasse esta creatura?

--Amal-a-hei quanto se pde amar nesta vida... disse Proena, sentindo
eriarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.

Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faa
duraveis os bons sentimentos no corao de teu esposo, e que te faa a
ti sempre digna d'elles.

Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proena, arrebatado pelo bello funebre
do lance, ajoelhou a par com ella.

E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mos erguidas. O padre
confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mos de
Leocadia.

Esto accesas as luzes do altar.

A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste
sacramento! Que unio de to bom agouro... Vamos, filhos.

O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!

Leocadia sahiu com sua madrasta.

Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem ida, sem vontade, sem
consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se
ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe
ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua
madrasta.

Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida ento sahiu do lethargo.
Leocadia achou abertos os braos paternaes para recebl-a. Lanou-se a
elles chorando, soluando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja
intensidade ella no pde explicar-me. O que me disse, para eu alcanar
com os olhos d'alma a sombra da sua dr, foi que, abraando o pai na
volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a
com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: perdoo-te a morte,
Leocadia.

..........................................................................

O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.

O festim de nupcias foi um funeral.

A noticia do casamento foram as cartas de enterro.

A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca
mais despiu.


XVI.

O pinhal do _Pastelleiro_ rumorejava brandamente, assoprado pelo ar da
noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o
dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de
chimeras volateis, brincava na alamda das fontes murmurosas, gemia com
o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos
cruzeiros, que a projeco da luz assombrava no cho.

Eu estava profundamente melancolico. E ao p de mim viera sentar-se
Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira
a uma cancella fronteira da casa.

Acabra eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.

A narradora calara-se, e eu no ousra quebrar o seu religioso silencio.

Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo
gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente as fibras do corao, como
se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.

E, por isso, o meu silencio era a expresso da pena, o pasmo em que nos
deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens,
descriptas por ella como quem as entalhra com fogo no corao. Via o
altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feies do
coronel, apanhadas pelo reglo do trespasse, essas, que eu nunca vira,
todas se me desenharam na imaginao, sempre fertil de creaes
funebres. Ao p de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa,
ainda opulenta de encantos, flr orvalhada das lagrimas do co para onde
ella mandava continuamente o seu perfume.

Que mulher  esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mos
n'um adeus para sempre?

Que attribulada expiao a da minha alma que s pde chorar as penas
d'ella!

No pde amar-me, no; eu sei que no pde, e offertar-lhe o meu amor
seria injuriar a sua saudade!

Para que te encontrei eu, santa!

Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelao d'um sonho. Leocadia
tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:

Que ? No sei o que disse...

--Nada dizia--repliquei eu--Sonhava, minha querida irm, sonhava. Sabe,
minha amiga? Est-me pesando a vida. No sei o que ha-de ser de mim...
quando a perder. Abenoada seja a mo da morte, que baixou a apanhar de
entre os felizes do mundo os que vieram com o condo da minha
desventura.

Porque, meu amigo?!

--Porque entre ns ha s de commum a confidencia d'algumas horas, a
confidencia que no modera os impetos d'um desgraado amor...

Oh! no diga, no diga isso outra vez...--atalhou Leocadia pondo-me a
mo nos labios--Tenha pena de mim... Chame-me sua irm, seno
arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...

Beijei-lhe a mo, e murmurei:

--At manh.

Sim? at manh? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro
posso ser mudada... E eu queria, meu irmo, queria acabar hoje a minha
historia. No sei que presagio me diz que no teremos outra noite
assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?

--Diga, diga, Leocadia; mas faa um juramento.

Juramento! qual?

--Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante
seu, lembre-se de seu irmo, escreva-lhe uma palavra, uma s vivo s
isto... jura?

Prometto, meu amigo, e no faltarei... E se lhe disser morro  que
Deus me chamou para ao p de Vasco...

--Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha
imaginao contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...

Eu quasi que o vi morrer.

--Viu?!  horrivel, meu Deus!

Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proena
perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me  sua vontade.
Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade.
Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.

Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevra para
Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mi
estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora
todos os dias, muitas vezes, e com immensa f.

Uma tarde, Francisco de Proena fra  caa, e eu fui com Thereza
passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um
sitio que respirava saudade, entrei por alli dentro, e fui ter a um
porto de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me quella sombra,
vendo cahir as folhas, e comparando-as  queda de tantas, de todas as
minhas esperanas. Estava assim absorvida, bebendo as douras do meu
fel, quando o porto se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o
padre capello de D. Maria Maldonado!

Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a
olhar-me, e disse:

--A menina no  a snr. D. Leocadia?

Sou, sim, senhor.

--Ento que faz por estes sitios?! disse elle admirado.

Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.

--Pois se quer entrar, eu dou parte  snr. D. Maria.

Como!?--exclamei eu--a snr. D. Maria Maldonado?!

--Sim, minha senhora, est aqui com o snr. Vasco--disse-me elle--e o
snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.

Meu Deus! eu no posso lembrar-me do que ento disse ou fiz. Entrei
n'uma tremura de susto, de terror, de no sei que tormento novo para
mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me
d'alli, e no podia; ainda pedi a mo a Thereza, e j no pude dar
passada. Desfalleci nos braos d'ella.

Voltando  vida, que a justia de Deus no quiz levar-me, achei-me
sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao p de mim estava D. Maria.
Fiz um esforo por ajoelhar-me aos ps d'ella. Susteve-me; e chorava,
meu Deus, como chorava a pobre senhora!

 a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vl-o,
minha querida mi, diga-lhe que a mo do Senhor me conduziu aqui para
receber o seu perdo... Mas eu no sou culpada... Meu pai estava a
expirar... Morreria atormentado... Ai... eu no sei o que disse, entre
gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixo, e consultava os olhos
do padre. Este acenava negativamente. No queria que eu visse Vasco... E
eu estava de joelhos aos ps de D. Maria, quando ouvi proferir o meu
nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraa. Era elle,
livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de
delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr
umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento.
Deixe-me, deixe-me vl-o! rogava eu, allucinada, louca de paixo,
capaz de matar-me alli, se me no deixassem ir!

Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. No o conteve;
desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: Vieste
para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a
salvao.

E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraado no sabia
que eu estava casada!

--Falla, falla!--gritava elle--vens ser minha esposa? fugiste a teu pai?
esse tyranno teve compaixo de ns?--Cala-te, meu filho!--exclamava D.
Maria... Ests enganado! Enganado! pois esta no  a minha esposa?!

O padre tomou-o pelo brao, e exclamou:

--No, no  sua esposa...  esposa d'outro que seu pai lhe destinou!--

Vasco soltou um terrivel grito, levou as mos  face, e foi cahir nos
braos de sua mi... Matai-me, meu Deus! exclamou elle.

Agora--proseguiu Leocadia arfando convulsivamente--peo-lhe eu que v,
meu amigo, no posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu no
podr fallar-lhe, ha-de lr o resto da minha historia.

Leocadia entrou encostada ao meu brao em sua casa. Eu fiquei alli no
sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manh.


XVII.

O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENA.

 preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.

Em 1828 o homem no era ainda feito  similhana do typo, que mais o
encantra, no romance.

Depois de 1834,  que as bibliothecas de novellas entraram por aqui
dentro a fecundar este cho bravio, como extravasantes do Nilo.

Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser
romantico em 1828.

Francisco de Proena representa a vanguarda dos descabellados em
Portugal.

Desde criana, merecra pelas suas escaramuas sanguinarias aos coelhos,
o cognome de Attila de coelheira.

Em Coimbra, chamavam-lhe o _chevalier sans peur et sans reproche_.

A sua principal mania era o braso. Estava apparentado com as primeiras
casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e
bisneto de Ruy que acompanhra D. Henrique a Crquere, a cumprir um voto
d'uma perna torcida.

Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que
lhe custou muito puxo d'orelha.

Desafiava a espado todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor
octogenario que o reprovou em mathematica.

Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o _commendador
Francisco de Proena_. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma
igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a no deixaram
responder.

Tinha destas cousas.

Os seus bens de fortuna no eram o que elle precisava que fossem para
sustentar o seu orgulho.

Aceitou a mo da filha de seu padrasto, porque a paixo o acolheu de
subito. Leocadia, com o seu desdm, pisra-lhe a soberba. Proena foi
vencido pelo desprezo.

Sua mi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva
herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.

O _dinheiro commercial_ no lisongeava o fidalgo; todavia, esta
repugnancia pde vencel-a o amor.

Casou, e no se pde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas
differenas so as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio
disfarado as amabilidades de seu marido.

Para o no detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai
moribundo, e o crucifixo do juramento.

Leocadia habitura-se a viver fra do seu corpo... A alma voava livre
onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste
modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a
chamava sua.

O trao, porm, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de
Proena, vai descobril-o um infeliz acontecimento.

Quando Leocadia sahia, encostada ao brao do capello, o portal da
quinta dos Maldonados, Francisco de Proena, vindo da caa, atravessava
a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.

Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proena pra
estupefacto, e Leocadia pra tambem. O fidalgo, que no conhecia o
padre, interroga-o:

Quem  o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!

O padre tartamudeou:

--Eu sou capello d'esta casa.

Que casa  essa?

--De uma minha amiga--balbuciou Leocadia.

 admiravel que eu no conhea as amigas da senhora! Como se chama essa
amiga?

O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proena, disse:

-- a snr. D. Maria Maldonado.

O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia no levantava os
olhos do cho. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e
 j em si um principio de penitencia.

Vamos, senhora!--disse Proena.

Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o,
deliberada a convencl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu
amor quelle homem. Proena soubera tudo de sua mi, e furtava-se ao
encontro com sua mulher.

Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que
preparasse o seu bah para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu
uma entrevista a Francisco de Proena. Respondeu-se-lhe que l fra
teriam sobejas occasies. Replicou a infeliz que no podia, que estava
muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.

A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha s
intenes do marido.

Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pde
prender a atteno de seu marido dous segundos.

Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proena apresenta-se,
pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.

--Quem lhe morreu?!--perguntou ella.

A senhora!

--Como?! est delirando!

Quem morreu foi minha mulher-- tornou elle com uma visagem
ridiculamente tragica.

--Pois se morri, eu vou morrer--disse ella com angelica mansido--o
Senhor receba a minha alma.

A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.

--No quero entender a injuria--disse ella com firmeza--Antes a morte.

Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora.
Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de
Francisco de Proena, ter de hoje em diante outro nome. A senhora
jmais dir que eu sou seu marido: o punhal est sobre o seu seio
esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque
vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...

--E eu no aceito a graa--interrompeu Leocadia...

Pois ento, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada,
para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa
criada que foi de sua mi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas,
senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certido do seu obito.
No dia em que me desmentir, matei-a!

Leocadia pendeu a cabea para o seio, e murmurou, sem lagrimas:

--Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.

Ainda no. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre
quatro montanhas: Quer habital-o?

--Sou sua escrava, senhor.

Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?

--O que quizer, mas no posso ouvil-o.

Nem eu vl-a mais; porque minha mulher morreu!

E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. Joo
Tenorio.

Aqui est o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraada.


XVIII.

Se bem me lembro, j disse que Leocadia  o nome que a mulher de
Francisco de Proena adoptou, desde a scena do anterior capitulo.

No decurso do romance, conservei esse nome, e j agora conserva-lo-hei
at final. Podra ter-lhe dado pseudonimo; mas to leal quero ser 
verdade, que, a no poder, por melindre e respeito, dizer o seu
verdadeiro nome, escrupulisei na inveno de outro.

Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera
Francisco de Proena, que, em todo o tempo da viagem, no deu signal de
ser ao menos relao de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro
hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado
de Sinfes appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnao
foram as suas palavras: V, sombra da mulher morta! v, e veja sempre
diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra s... o meu
nome, o nome de seu marido viuvo!

A desgraada quiz ajoelhar-se aos ps do seu verdugo. Proena repelliu-a
com um tregeito de escarneo e asco.

Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitao mal
reparada, sumida entre quatro montanhas.

Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a
reputava irm bastarda, ou rapariga das affeies de seu amo solteiro.
Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta
de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a
esposa do fidalgo! Leocadia abraou-se  criada, chorando, e disse: 
verdade... essa desgraada morreu...

O caseiro reparou n'isto, e disse  mulher que havia o quer que era de
historia nos modos da senhora que viera l de por ahi abaixo.

Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua
ultima paragem antes da sepultura era alli.

Foi um chorar d'ambas de cortar o corao aos caseiros, que as
escutavam.

Era rapido o deperecer de Leocadia. No se erguia do leito, e pedia a
Deus um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patro o
estado da senhora. No recebia resposta.

Um dia, porm, appareceu na alda um homem que procurava D. Leocadia,
com ordem de Francisco de Proena. Este homem diz ser medico. Examina a
enferma, e diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve
immediatamente entrar n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o.
Leocadia, quasi exanime, obedece, sem saber a quem, nem para que fim.

A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. Joo da
Foz, no sitio do Pastelleiro, onde eu, Joo Junior, encontrei Leocadia
para ouvir de seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que
eu tive a impiedade de conspurcar com algumas facecias de estragado
gosto.

O que ella me no contou  o que me disse Thereza, alguns annos depois,
quando sua ama j era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento,
em uma villa de Traz-os-Montes.

Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prgo philosophico
com que o intitulei: DINHEIRO. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras
espirituosas; prestem-me a sua benevola atteno.

Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da
quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle
dia, a senhora para no tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira,
viera buscal-a, e descera com ella pelo brao a escada, fallando-lhe com
muito bom modo. Agora vou fallar de mim um pouco.

Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!

Quem seria o homem?! O marido, de certo, no, porque o marido, at ao
dia em que fallramos, estava viuvo, e no tratava de resuscitar a
mulher. Seria a historia lamuriante uma lograo  minha boa f?! Seria
ella uma visionaria, uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres
desabusadas que mangam dos poetas da minha fora?

 impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo!  o marido que
a arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu
vinha aqui, e o malvado no comprehendeu que eu era o sacerdote da mais
santa das amisades.

E, no afgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella boua que l
verdeja ao fundo, enchi meu corao de tenebrosas angustias, e pedi aos
meus olhos o chorar do desafgo.

Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dr era como o encravar
do estilete que no sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem
gotta de pranto; era uma contrico de matar, uma abafao em que os
pulmes, batendo contra o corao, pareciam espedaar-se.

E porque?  que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres
vezes immaculado do poeta. No esperava d'alli seno a religiosa
affeio da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira
por um dia de ventura para ella. Mais nada; porm, este pouco  o ar, o
tempo, a luz, a bemaventurana do desgraado que encontrou na terra uma
mulher como Leocadia, e uma paixo como a minha.

Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no
estio da existencia!

Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos
meus soluos.

Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trvas inferiores,
e tres dias e tres noites a minha lingua no encanou o bolo alimenticio.

A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu
quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.

A brisa da tarde nunca mais se retouou lou pelas corollas das boninas
tremulas.

Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a
natureza se vestiu.

Diz tu,  Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados
da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se
partiu do Pastelleiro.

 verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da
natureza vegetativa, e s instancias impertinentes da minha consternada
Poncia.

O resultado foi sinistro: sobre uma paixo calamitosa uma indigesto
pertinaz!

Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simo Stelita, e depois... amei
perdidamente uma tal Catharina... Isto  outra historia, que ha-de vir
depois. Os meus continuados amores tem sido para mim um systema de
medicina, por que diz o grande poeta:

    Que o veneno espalhado pelas vas
    Curam-no s vezes asperas triagas.

Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homoeopatha que o proprio
Hahnemann.


XIX.

Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.

 o caso:

Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmos ricos no
Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na
ultima das suas excurses ao centro do imperio, foram assassinados por
salteadores, deixando um grande capital sem testamento.

Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a
opulenta herana. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o
coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successo.

Francisco de Proena estava ento no Porto, e mais d'um amigo lhe
repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhes.

Aqui est o nosso homem em embaraos de uma terrivel originalidade, ao
passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam
pressurosamente!

A resurreio de Leocadia ser possivel? A herana compensar a zombaria
com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?

No foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o
escrutinio, os votos a favor da resurreio tinham a maioria. Proena
resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou  provincia
o medico e a liteira.

Leocadia, como vimos,  conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres
mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas
procuraes, cuja significao ella no entendeu. Francisco de Proena
fra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.

Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido
para as relaes de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era
casado, protestando apresentar sua mulher viva em presena de
testemunhas que a conhecessem de vista, a opinio da justia foi que
viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na
ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a
mulher de Francisco de Proena.

O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital.
Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de
Coimbra reviveram com salgadas ampliaes.

Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da
moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella,
visto que resuscitou, que morte fra aquella de sete mezes, onde
estivera, e de que supplicios vira resgatal-a a herana de seus tios.

O thaumaturgo no ousava apparecer na orda das suas relaes. Ninguem,
se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O
apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais
impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia
de sete mezes, e ento dizia:

Pensei que fra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu corao
cobriu-se de lucto, o punhal vingativo pedia o sangue da perfida, mas o
meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil
mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim.
Fiz-lhe graa da existencia, para que o remorso lento me vingasse.
Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrra; e, se alguem me
perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa
a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria ento recebido
como um rasgo de heroismo na desgraa. Os maridos atraioados achariam
em fim a condigna penitencia da perfidia.

--Mas...--alguem lhe disse--tua mulher estava innocente?

A esta pergunta indiscreta Francisco de Proena titubeava, e no sabia
se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.

L se aveio como pde com os importunos, at que um dia appareceu com
sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando
foi viva.

A presena desta pobre senhora foi, s em si, uma accusao contra seu
marido. A desgraada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se
era mulher de Francisco de Proena, respondeu:

Dizem que sou.

--E a senhora no diz o mesmo?

Eu sou viuva tornou ella.

--Ento qual dos senhores  viuvo?  original a mania d'ambos--replicou
o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da
herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.

..........................................................................

No me souberam contar o resto.

O que eu sei  que cinco mezes depois recebi uma carta datada em
Londres.

Resava assim:

Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: E MORRO. Chore-me.

                                                        _Leocadia._

Em 1834 Francisco de Proena veio a Portugal. Viajra seis annos, e
vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a
filha d'um correeiro de Manchester.

Est vivo, e velho como eu.

Acabou-se a historia.


FIM.





End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***

***** This file should be named 28310-8.txt or 28310-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/8/3/1/28310/

Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
produced from scanned images of public domain material
from the Google Print project.)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
