The Project Gutenberg EBook of A correspondncia de Fradique Mendes, by 
Jos Maria Ea de Queirs

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Title: A correspondncia de Fradique Mendes
       memrias e notas

Author: Jos Maria Ea de Queirs

Release Date: December 27, 2008 [EBook #27637]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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A CORRESPONDENCIA

DE

Fradique Mendes




Obras do mesmo auctor:


*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes                          12$000
*As Minas de Salomo.* 1 volume                                      600
*Os Maias.* 2 grossos volumes                                      2$000
*O Crime do Padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
recomposta e differente na frma e na aco
da edio primitiva. 1 grosso volume                               1$200
*O Primo Bazilio*. Terceira edio. 1 grosso volume                1$000
*A Reliquia*. 1 grosso volume                                      1$000
*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume                                500
*A Illustre Casa de Ramires.* 1 volume                             1$000


No prelo:

*A Cidade e as Serras.*




Ea de Queiroz




A CORRESPONDENCIA

DE

FRADIQUE MENDES


(MEMORIAS E NOTAS)


PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmo, editores
1900




Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
da mesma Lei.


_Porto--Imprensa Moderna_




A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES


FRADIQUE MENDES

(MEMORIAS E NOTAS)




I


A minha intimidade com Fradique Mendes comeou em 1880, em Paris, pela
Paschoa,--justamente na semana em que elle regressra da sua viagem 
Africa Austral. O meu conhecimento porm com esse homem admiravel datava
de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no vero d'esse anno, uma tarde,
no caf Martinho, que encontrei, n'um numero j amarrotado da _Revoluo
de Setembro_, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por
baixo de versos que me maravilharam.

Os themas (os motivos emocionaes, como ns diziamos em 1867) d'essas
cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias,
tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o
tempo em que eu e os meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo
Lyrismo Epico da _Lgende des Sicles_, o livro que um grande vento nos
trouxera de Guernesey--decidiramos abominar e combater a rijos brados o
Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do corao, no
comprehendendo d'entre todos os rumores do Universo seno o rumor das
saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e
interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique
Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre
sem-igual da _Lgende des Sicles_, iam, n'uma universal sympathia
buscar motivos emocionaes fra das limitadas palpitaes do corao--
Historia,  Lenda, aos Costumes, s Religies, a tudo que atravs das
idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas alm
d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro filo poetico que me
seduzia--o da Modernidade, a notao fina e sobria das graas e dos
horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos
testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas
visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de ns
por penumbras humildes.

Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas
magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo
VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e domado por
uma to inesperada e bestial rebellio da Carne, que,  beira da
Bemaventurana, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e
custoso de cincoenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e
velho alm de toda a velhice, contava faanhas do tempo em que seguira
pelas Gallias, n'um bando alegre, as legies de Cesar, depois as hordas
de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul:
o bom cavalleiro Percival, espelho e flr d'Idealistas, deixava por
cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o
mundo, desde longas ras,  busca do San-Gral, o mystico vaso cheio de
sangue de Christo, que, n'uma manh de Natal, elle vira passar e
lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de
feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de
cidade medieval uma serenada ironica aos astros, gottas de luz no frio
ar geladas... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, l vinha
o quadro de singela modernidade, as _Velhinhas_, cinco velhinhas, com
chales de ramagens pelos hombros, um leno ou um cabaz na mo, sentadas
sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma restea de
sol d'outono.

No asseguro todavia a nitidez d'estas bellas reminiscencias. Desde essa
ssta de agosto, no Martinho, no encontrei mais as Lapidarias: e, de
resto, o que n'ellas ento me prendeu, no foi a Ida, mas a Frma--uma
frma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava
o verso marmoreo de Lecomte de Lisle com um sangue mais quente nas veias
do marmore, e a nervosidade intensa de Baudelaire vibrando com mais
norma e cadencia. Ora precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira
de Azevedo e outros camaradas tinhamos descoberto no co da Poesia
Franceza (unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade
d'estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e
especial, esses dois ses--Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a
quem chamavamos j pap Hugo ou Senhor Hugo-Todo-Poderoso, no era
para ns um astro--mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os
astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus ps Lecomte de
Lisle e Baudelaire faziam duas constellaes de adoravel brilho: e o seu
encontro fra para ns um deslumbramento e um amor! A mocidade d'hoje,
positiva e estreita, que pratca a Politica, estuda as cotaes da
_Bolsa_ e l George Ohnet, mal pde comprehender os santos enthusiasmos
com que ns recebiamos a iniciao d'essa Arte Nova, que em Frana, nos
comeos do Segundo Imperio, surgira das ruinas do Romantismo como sua
derradeira encarnao, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de
Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppe, de Dierx, de Mallarm, e
d'outros menores: e menos talvez pde comprehender taes fervores essa
parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e
de Taine, e que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde ns
outr'ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos  emoo. Eu mesmo
sorrio hoje ao pensar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira
d'Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado
moravam, rompendo por horas mortas a clamar a _Charogne_ de Baudelaire,
tremulo e pallido de paixo:

Et pourtant vous serez semblable  cette ordure,
     A cette horrible infection,
toile de mes yeux, soleil de ma nature,
     Vous, mon ange et ma passion!

Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o
raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um extase
tremente:

Alors, oh ma beaut, dites  la vermine
    Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gard la forme et l'essence divine
    De mes amours dcomposs!

Certamente Baudelaire no valia este tremor e esta pallidez. Todo o
culto sincero, porm, tem uma belleza essencial, independente dos
merecimentos do Deus para quem se evola. Duas mos postas com legitima
f sero sempre tocantes--mesmo quando se ergam para um Santo to
affectado e postio como S. Simeo Stylita. E o nosso transporte era
candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, s comparavel quelle
que outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras
nunca d'antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e
thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a
reluzir.

Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies de
Castella-a-Velha, no encontrando tambem j encanto nos pomares
verde-negros da Andaluzia--se fizera ao mar, para buscar outras terras,
e _mirar algo nuevo_. Tres annos sulcou incertamente a melancolia das
aguas atlanticas: mezes tristes errou perdido nos nevoeiros das
Bermudas: toda a esperana findra, j as pras gastas se voltavam para
os lados onde ficra a Hespanha. E eis que n'uma manh de grande sol, em
dia de S. Joo, surgem ante a armada extatica os esplendores da Florida!
_Gracias te sean, mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo!_ As
lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas--e Juan Ponce de Leon morreu
de emoo. Ns no morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho
mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por
entre o brilho sombrio e os perfumes acres das _Flres do Mal_. Eramos
assim absurdos em 1867!

De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu s procurava em Litteratura
e Poesia _algo nuevo que mirar_. E para um meridional de vinte annos,
amando sobretudo a Cr e o Som na plenitude da sua riqueza, que poderia
ser esse _algo nuevo_ seno o luxo novo das frmas novas? A Frma, a
belleza inedita e rara da Frma, eis realmente, n'esses tempos de
delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto
eu adorava a Ida na sua essencia;--mas quanto mais o Verbo que a
encarnava! Baudelaire, mostrando  sua amante na _Charogne_ a carcassa
pdre do co e equiparando em ambas as miserias da carne, era para mim
de magnifica surpreza e enlevo: e diante d'esta crespa e atormentada
subtilisao do sentir, que podia valer o facil e velho Lamartine no
_Lago_, mostrando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a
pallidez e a graa meiga? Mas se este aspero e funebre espiritualismo de
Baudelaire me chegasse expresso na lingua lassa e molle de Casimir
Delavigne--eu no lhe teria dado mais apreo do que a versos vis do
_Almanach de Lembranas_.

Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Frma, que deparei com
essas Lapidarias de Fradique Mendes, onde julguei vr reunidas e
fundidas as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que
constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois
idolos--o auctor das _Flres do Mal_ e o auctor dos _Poemas Barbaros_. A
isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez,
cinzelava assim preciosamente a lingua que at ahi tivera como joias
acclamadas o _Noivado do Sepulchro_ e o _Av Cesar!_, habitava Lisboa,
pertencia aos Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta
originalidade poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado
da _Revoluo de Setembro_ tomava assim a importancia d'uma revelao
d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moas na luz
e no calor especial a que ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi
regeladas sob o algido luar do Romantismo. Graas te sejam dadas, meu
Fradique bemdito, que na minha velha lingua _h mirado algo nuevo!_
Creio que murmurei isto, banhado em gratido. E, com o numero da
_Revoluo de Setembro_, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, 
travessa do Guarda-Mr, a annunciar o advento esplendido!

Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de
vero, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de
morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas, atirando gestos at
ao tecto, declamei-lhe a _Morte do Santo_. Se bem recordo, este asceta,
ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente trahido pela
desleal Natureza! Todos os appetites da paixo e do corpo, to
laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d'ermo, irrompiam
de repente,  beira da eternidade, n'um tumulto bestial, no querendo
para sempre findar com a carne que ia findar--antes de serem uma vez
satisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d'aza serena,
sobraando mlhos de Palmas e cantando os Epithalamios, encontravam, em
vez d'um Santo, um Satyro, senil e grotesco--que de rojos, entre
bramidos sordidos, mordia com beijos vorazes a neve, a macia alvura da
neve, onde o seu delirio furiosamente imaginava nudezes de cortezs!...
Tudo isto era tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia
sublime. J. Teixeira d'Azevedo achou tambem sublime--mas brjeiro. E
concordou que convinha desentulhar Fradique Mendes da obscuridade, e
erguel-o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos.

Fui logo n'essa noite  _Revoluo de Setembro_, procurar um companheiro
meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de
Direito Romano e Canonico, ganhra, por tocar concertina, lr a
_Historia da Musica_ de Scudo, e lanar atravs da Academia os nomes de
Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica classica.
Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na _Revoluo_, aos domingos, uma
Chronica lyrica--para gozar gratuitamente o bilhete de S. Carlos.

Era um moo com cabellos ralos e cr de manteiga, sardento, apagado de
idas e de modos--mas que despertava e se illuminava todo quando lograva
a _chance_ (como elle dizia) de roar por um homem celebre, ou de
arranchar n'uma coisa original; e isto tornra-o a elle, pouco a pouco,
quasi original e quasi celebre. N'essa noite, que era sabbado e de
pesado calor, l estava  banca, com uma quinzena d'alpaca, suando,
bufando, a espremer do seu pobre craneo, como d'um limo meio scco,
gottas d'uma Chronica sobre a Volpini. Apenas eu alludi a Fradique
Mendes, quelles versos que me tinham maravilhado--Vidigal arrojou a
penna, j risonho, com um claro alvoroado na face molle:

--Fradique? Se conheo o grande Fradique?  meu parente!  meu patricio!
 meu parceiro!

--Ainda bem, Vidigal, ainda bem!

Fomos ao Passeio Publico (onde Marcos se ia encontrar com um agiota).
Tommos sorvetes debaixo das acacias: e pelo chronista da _Revoluo_
conheci a origem, a mocidade, os feitos do poeta das Lapidarias.


Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica familia dos Aores;
e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes, filho segundo da
casa da Troba, e donatario d'uma das primeiras capitanias creadas nas
Ilhas por comeos do seculo XVI. Seu pai, homem magnificamente bello,
mas de gostos rudes, morrera (quando Carlos ainda gatinhava) d'um
desastre, na caa. Seis annos depois sua mi, senhora to airosa,
pensativa e loura que merecera d'um poeta da Terceira o nome de _Virgem
d'Ossian_, morria tambem d'uma febre trazida dos campos, onde andra
bucolicamente, n'um dia de sol forte, cantando e ceifando feno. Carlos
ficou em companhia e sob a tutela de sua av materna, D. Angelina
Fradique, velha estouvada, erudita e exotica que colleccionava aves
empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente soffria dos dardos
d'Amor. A sua primeira educao fra singularmente emmaranhada: o
capello de D. Angelina, antigo frade benedictino, ensinou-lhe o latim,
a doutrina, o horror  maonaria, e outros principios solidos; depois um
coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de
S^{t}-Merry, veio abalar estes alicerces espirituaes fazendo traduzir ao
rapaz a _Pucelle_ de Voltaire e a _Declarao dos direitos do homem_; e
finalmente um allemo, que ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na
vernaculidade de Filinto Elysio, e se dizia parente de Emmanuel Kant,
completou a confuso iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buo,
na _Critica da Razo pura_ e na heterodoxia metaphysica dos professores
de Tubinguen. Felizmente Carlos j ento gastava longos dias a cavallo
pelos campos, com a sua matilha de galgos:--e da anemia que lhe teriam
causado as abstraces do raciocinio, salvou-o o spro fresco dos
montados e a natural pureza dos regatos em que bebia.

A av, tendo imparcialmente approvado estas embrulhadas linhas
d'educaco, decidiu de repente, quando Carlos completou dezeseis annos,
mandal-o para Coimbra que ella considerava um nobre centro d'estudos
classicos e o derradeiro refugio das Humanidades. Corria porm na Ilha
que a traductora de Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe
revestiam a face d'um pllo mais denso que a hera d'uma ruina, decidira
afastar o neto--para casar com o bolieiro.

Durante tres annos Carlos tocou guitarra pelo _Penedo da Saudade_,
encharcou-se de carrasco na tasca das Camlas, publicou na _Ida_
sonetos asceticos, e amou desesperadamente a filha d'um ferrador de
Lorvo. Acabava de ser reprovado em Geometria quando a av morreu
subitamente, na sua quinta das _Tornas_, n'um caramancho de rosas, onde
se esquecera toda uma ssta de junho, tomando caf, e escutando a viola
que o cocheiro repicava com os dedos carregados d'anneis.

Restava a Carlos um tio, Thadeu Mendes, homem de luxo e de boa mesa, que
vivia em Paris preparando a salvao da Sociedade com Persigny, com
Morny, e com o principe Luiz Napoleo de quem era devoto e crdor. E
Carlos foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a
Sorbonne,  espera da maioridade que lhe devia trazer as heranas
accumuladas do pai e da av--calculadas por Vidigal n'um farto milho de
cruzados. Vidigal, filho d'uma sobrinha de D. Angelina, nascido na
Terceira, possuia por legado, conjuntamente com Carlos, uma quinta
chamada o _Corvovello_. D'ahi lhe vinha ser parente, patricio e
parceiro do homem das Lapidarias.

Depois d'isto Vidigal sabia apenas que Fradique, livre e rico, sahira do
_Quartier-Latin_ a comear uma existencia soberba e fogosa. Com um
impeto de ave solta, viajra logo por todo o mundo, a todos os sopros do
vento, desde Chicago at Jerusalem, desde a Islandia at ao Sahar.
N'estas jornadas, sempre emprehendidas por uma solicitao da
intelligencia ou por ancia d'emoes, achra-se envolvido em feitos
historicos e tratra altas personalidades do seculo. Vestido com a
camisa escarlate, acompanhra Garibaldi na conquista das Duas-Sicilias.
Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava _the
Portuguese Lion_ (o Leo Portuguez), fizera toda a campanha da
Abyssinia. Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitra
Hugo no seu rochedo de Guernesey...

Aqui recuei, com os olhos esbugalhados! Victor Hugo (todos ainda se
lembram), desterrado ento em Guernesey, tinha para ns, idealistas e
democratas de 1867, as propores sublimes e lendarias d'um S. Joo em
Pathmos. E recuei protestando, com os olhos esbugalhados, tanto se me
afigurava fra das possibilidades que um portuguez, um Mendes tivesse
apertado nas suas a mo augusta que escrevera a _Lenda dos Seculos_!
Correspondencia com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, v! Mas na ilha
sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, passear, conversar, scismar com o
vidente dos _Miseraveis_--parecia-me a impudente exaggerao d'um ilho
que me queria intrujar...

--Juro! gritou Vidigal, levantando a mo veridica s acacias que nos
cobriam.

E immediatamente, para demonstrar a verosimilhana d'aquella gloria, j
altissima para Fradique, contou-me outra, bem superior, e que cercava o
estranho homem d'uma aureola mais refulgente. No se tratava j de ser
estimado por um homem excelso--mas, coisa preciosa entre todas, de ser
amado por uma excelsa mulher. Pois bem! Durante dois annos, em Paris,
Fradique fra o eleito de Anna de Lon, a gloriosa Anna de Lon, a mais
culta e bella cortez (Vidigal dizia o melhor bocado) do Segundo
Imperio, de que ella, pela graa especial da sua voluptuosidade
intelligente, como Aspasia no seculo de Pericles, fra a expresso e a
flr!

Muitas vezes eu lra no _Figaro_ os louvores de Anna de Lon, e sabia
que poetas a tinham celebrado sob o nome de _Venus Victoriosa_. Os
amores com a cortez no me impressionaram decerto tanto como a
intimidade com o homem das _Contemplaes_: mas a minha incredulidade
cessou--e Fradique assumiu para mim a estatura d'um d'esses sres que,
pela seduco ou pelo genio, como Alcibiades ou como G[oe]the, dominam
uma civilisao, e d'ella colhem deliciosamente tudo o que ella pde dar
em gostos e em triumphos.

Foi por isso talvez que crei, intimidado, quando Vidigal, reclamando
outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao surprehendente
Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tambem assim hesitava,
enleado, ao subir uma manh em Berlim as escadas d'Hegel--perguntei a
Vidigal se o poeta das Lapidarias residia em Lisboa... No! Fradique
viera de Inglaterra visitar Cintra, que adorava, e onde comprra a
quinta da _Saragoa_, no caminho dos Capuchos, para ter de vero em
Portugal um repouso fidalgo. Estivera l desde o dia de Santo
Antonio:--e agora parra em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher
a Paris, seu centro e seu lar. De resto, accrescentou Marcos, no havia
como Fradique ninguem to simples, to alegre, to facil. E, se eu
desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo,
s duas, depois da missa do Loreto,  porta da Casa Havaneza.

--Valeu? s duas, religiosamente, depois da missa!

Bateu-me o corao. Por fim, com um esforo, como Novalis no patamar
d'Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, s duas,
religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havaneza!




II


Gastei a noite preparando phrases, cheias de profundidade e belleza,
para lanar a Fradique Mendes! Tendiam todas  glorificao das
Lapidarias. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado e repolido
esta:--A frma de v. exc.^a  um marmore divino com estremecimentos
humanos!

De manh apurei requintadamente a minha _toilette_ como se, em vez de
Fradique, fosse encontrar Anna de Lon--com quem j n'essa madrugada,
n'um sonho repassado de erudio e sensibilidade, eu passera na Via
Sagrada que vai de Athenas a Eleusis, conversando, por entre os lyrios
que desfolhavamos, sobre o ensino de Plato e a versificao das
Lapidarias. E s duas horas, dentro de uma tipoia, para que o macadam
regado me no maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havaneza,
pallido, perfumado, commovido, com uma tremenda rosa de ch na lapella.
Eramos assim em 1867!

Marcos Vidigal j me esperava, impaciente, roendo o charuto. Saltou para
a tipoia; e batemos atravs do Loreto, que escaldava ao sol do agosto.

Na rua do Alecrim (para combater a pueril emoo que me enleava)
perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique as Lapidarias.
Por entre o barulho das rodas Vidigal gritou:

--Nunca!

E contou que a publicao d'aquelles trechos na _Revoluo de Setembro_
quasi occasionra, entre Fradique e elle, uma pega intellectual. Um
dia, depois de almoo, em Cintra, emquanto Fradique fumava o seu
_chibouk_ persa, Vidigal, na sua familiaridade, como patricio e como
parente, abrira sobre a mesa uma pasta de velludo negro. Descobrira,
surprehendido, largas folhas de versos, n'uma tinta j amarellada. Eram
as Lapidarias. Lra a primeira, a _Serenada de Satan aos astros_. E,
maravilhado, pedira a Fradique para publicar na _Revoluo_ algumas
d'essas estrophes divinas. O primo sorrira, consentira--com a rigida
condio de serem firmadas por um pseudonymo. Qual?... Fradique
abandonava a escolha  phantasia de Vidigal. Na redaco, porm, ao
revr as provas, s lhe acudiram pseudonymos decrepitos e safados, o
_Independente_, o _Amigo da Verdade_, o _Observador_--nenhum bastante
novo para dignamente firmar poesia to nova. Disse comsigo:--Acabou-se!
Sublimidade no  vergonha. Ponho-lhe o nome! Mas quando Fradique viu a
_Revoluo de Setembro_ ficou livido, e chamou regeladamente a Vidigal
indiscreto, burguez e philisteu!--E aqui Vidigal parou para me pedir a
significao de _philisteu_. Eu no sabia; mas archivei gulosamente o
termo, como amargo. Recordo at que logo n'essa tarde, no Martinho,
tratei de _philisteu_ o auctor consideravel do _Av Csar!_

--De modo que, rematou Vidigal,  melhor no lhe fallares nas
Lapidarias!

Sim! pensava eu. Talvez Fradique,  maneira do chanceller Bacon e
d'outros homens grandes pela aco, deseje esconder d'este mundo de
materialidade e de fora o seu fino genio poetico! Ou talvez essa ira,
ao vr o seu nome impresso debaixo de versos com que se orgulharia
Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente
insatisfeito que no aceita ante os homens como sua a obra onde sente
imperfeies! Estes modos de ser, to superiores e novos, cahiam na
minha admirao como oleo n'uma fogueira. Ao pararmos no Central tremia
d'acanhamento.

Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Fradique Mendes,
n'essa manh, cedo, tomra uma caleche para Belem. Vidigal empallideceu,
de desespero:

--Uma caleche! Para Belem!... Ha alguma coisa em Belem?

Murmurei, n'uma ida d'Arte, que havia os Jeronymos. N'esse instante uma
tipoia, lanada a trote, estacou na rua, com as pilecas fumegando. Um
homem desceu, ligeiro e forte. Era Fradique Mendes.

Vidigal, alvoroado, apresentou-me como um poeta seu amigo. Elle
adiantou a mo sorrindo--mo delicada e branca onde vermelhejava um
rubi. Depois, acariciando o hombro do primo Marcos, abriu uma carta que
lhe estendia o porteiro.

Pude ento,  vontade, contemplar o cinzelador das Lapidarias, o
familiar de Mazzini, o conquistador das Duas-Sicilias, o bem-adorado de
Anna de Lon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez, a s e
viril proporo dos membros rijos, o aspecto calmo de poderosa
estabilidade com que parecia assentar na vida, to livremente e to
firmemente como sobre aquelle cho de ladrilhos onde pousavam os seus
largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho. A face
era do feitio aquilino e grave que se chama _cesareano_, mas sem as
linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradio das Esclas
invariavelmente attribue aos Cesares, na tela ou no gesso, para os
revestir de magestade; antes pura e fina como a d'um Lucrecio moo, em
plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Na pelle, d'uma
brancura lactea e fresca, a barba, por ser pouca decerto, no deixava
depois de escanhoada nem aspereza nem sombra; apenas um buo crespo e
leve lhe orlava os labios que, pela vermelhido humida e pela
sinuosidade subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a
Ironia e para o Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava
nos olhos--olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de onyx,
d'uma penetrao aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se
enterrava sem esforo, como uma verruma d'ao em madeira molle.

Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual  das
calas que cahiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por
botes de coral pallido: e o lao da gravata de setim negro, dando
relevo  alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a
perfeio concisa que j me encantra no seu verso.

No sei se as mulheres o considerariam _bello_. Eu achei-o um varo
magnifico--dominando sobretudo por uma graa clara que sahia de toda a
sua fora mascula. Era o seu vio que deslumbrava. A vida de to varias
e trabalhosas actividades no lhe cavra uma prega de fadiga. Parecia
ter emergido, havia momentos, assim de quinzena preta e barbeado, do
fundo vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique
festejra os trinta e tres em Cintra, pela festa de S. Pedro, eu
sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e agil de um ephebo, na infancia
do mundo grego. S quando sorria ou quando olhava se surprehendiam
immediatamente n'elle vinte seculos de litteratura.

Depois de lr a carta, Fradique Mendes abriu os braos, n'um gesto
desolado e risonho, implorando a misericordia de Vidigal. Tratava-se,
como sempre, da Alfandega, fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha
l encalhado um caixote, contendo uma mumia egypcia...

--Uma mumia...?

Sim, perfeitamente, uma mumia historica, o corpo veridico e veneravel de
Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista de
Ramzes II. Mandra-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legao
d'Inglaterra, Lady Ross, sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e
plena ventura, colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da
Assyria... Mas, apesar d'esforos sagazes, no conseguia arrancar o
defunto letrado aos armazens da Alfandega--que elle enchera de confuso
e de horror. Logo na primeira tarde, quando Pentaour desembarcra,
enfaixado dentro do seu caixo, a Alfandega aterrada avisou a policia.
Depois, calmadas as desconfianas d'um crime, surgira uma insuperavel
difficuldade:--que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d'um
hierogrammata do tempo de Ramzes? Elle Fradique suggerira o artigo que
taxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que  um arenque
defumado seno a mumia, sem ligaduras e sem inscripes, d'um arenque
que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos
fiscaes. O que a Alfandega via diante de si era o corpo d'uma creatura,
outr'ora palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava
n'um cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha
quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os _capitulos
de fim de dia_--no era certamente da conta dos Poderes Publicos. Isto
parecia-lhe logico. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a
hesitar, coando o queixo, diante do cofre sarapintado que encerrava
tanto saber e tanta piedade! E agora n'aquella carta os amigos Pintos
Bastos aconselhavam, como mais nacional e mais rapido, que se arrancasse
um _empenho_ do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direitos o
corpo augusto do escriba de Ramzes. Ora este empenho, quem melhor para
o alcanar que Marcos--esteio da Regenerao e seu Chronista musical?

Vidigal esfregava as mos, illluminado. Ahi estava uma coisa bem digna
d'elle, bem catita--salvar do fisco a mumia d'um figuro pharaonico!
E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou para a tipoia, gritou ao
cocheiro a morada do Ministro, seu collega na _Revoluo de Setembro_.
Assim fiquei s com Fradique--que me convidou a subir aos seus quartos,
e esperar Vidigal, bebendo uma soda e limo.

Pela escada, o poeta das Lapidarias alludiu ao torrido calor d'agosto. E
eu que n'esse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com
um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha
rosa--deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

--Sim, est d'escachar!

E ainda o torpe som no morrera, j uma afflico me lacerava, por esta
chulice de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lanada como um
pingo de sbo sobre o supremo artista das Lapidarias, o homem que
conversra com Hugo  beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com
bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra
phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda scintillante e nova! Nada! S
me acudiam sordidezes parallelas, em calo teimoso:-- de rachar!
est de ananazes! derrete os untos!... Atravessei alli uma d'essas
angustias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se comea a
vida e a litteratura, vincam a alma--e jmais esquecem.

Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova.
S, limpando o suor, considerando que altos pensadores se exprimem
assim, com uma simplicidade rude,--serenei. E  perturbao succedeu a
curiosidade de descobrir em torno, pelo aposento, algum vestigio da
originalidade intensa do homem que o habitava. Vi apenas canadas
cadeiras de reps azul-ferrete, um lustre embuado em tulle, e uma
console, de altos ps dourados, entre as duas janellas que respiravam
para o rio. Smente, sobre o marmore da console, e por meio dos livros
que atulhavam uma velha mesa de pau preto, pousavam soberbos ramos de
flres: e a um canto afofava-se um espaoso divan, installado decerto
por Fradique com colches sobrepostos, que dois cobrejes orientaes
revestiam de cres estridentes. Errava alm d'isso em toda a sala um
aroma desconhecido, que tambem me pareceu oriental, como feito de rosas
de Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.

Fradique Mendes voltra de dentro, vestido com uma cabaia chineza!
Cabaia de mandarim, de sda verde, bordada a flres de amendoeira--que
me maravilhou e que me intimidou. Vi ento que tinha o cabello
castanho-escuro, fino e levemente ondeado sobre a testa, mais polida e
branca que os marfins de Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz
franca, no apresentavam aquella negrura profunda que eu comparra ao
onyx, mas uma cr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu uma
cigarrette e ordenou a soda e limo a um creado surprehendente, muito
louro, muito grave, com uma perola espetada na gravata, largas calas de
xadrez verde e preto, e o peito florido por tres cravos amarellos!
(Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). O meu enleio
crescia. Por fim Fradique murmurou, sorrindo, com sincera sympathia:

--Aquelle Marcos  uma flr!

Concordei, contei a velha estima que me prendia a Vidigal, desde o
primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Concertina e
_Sebenta_. Ento, alegremente, recordando Coimbra, Fradique perguntou-me
pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros lentes ainda, do antigo typo
fradesco e bruto; depois pelas tias Camlas, essas encantadoras velhas,
que escrupulosamente, atravs de lascivas geraes d'estudantes, tinham
permanecido virgens, para poderem no co, ao lado de Santa Cecilia,
passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memorias
melhores de Coimbra essa taverna das tias Camlas, e as ceias
desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra
fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por
entre temerosas contendas de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que
arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrra das
risadas, das illuses e dos piteus d'ento!...

Tudo isto vinha n'um tom muito moo, sincero, singelo--que eu
mentalmente classificava de _crystallino_. Elle estirra-se no divan; eu
ficra rente da mesa, onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre
volumes de Darwin e do Padre Manoel Bernardes. E ento, dissipado o
acanhamento, todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idas
de Litteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder o
seu genio poetico, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra
imperfeita,--alludi s Lapidarias.

Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir--com um riso que
seria genuinamente galhofeiro, se de certo modo o no contradissesse um
laivo de vermelhido que lhe subira  face cr de leite. Depois declarou
que a publicao d'esses versos, _com a sua assignatura_, fra uma
perfidia do leviano Marcos. Elle no considerava _assignaveis_ esses
pedaos de prosa rimada, que decalcra, havia quinze annos, na idade em
que se imita, sobre versos de Lecomte de Lisle, durante um vero de
trabalho e de f, n'uma trapeira do Luxemburgo, julgando-se a cada rima
um innovador genial...

Eu acudi affirmando, todo em chamma, que depois da obra de Baudelaire
nada em Arte me impressionra como as Lapidarias! E ia lanar a minha
esplendida phrase, burilada n'essa noite com paciente cuidado:--A frma
de v. exc.^a  um marmore divino... Mas Fradique deixra o divan e
pousava em mim os olhos finos de onix, com uma curiosidade que me
_verrumava_:

--Vejo ento, disse elle, que  um devoto do magano das _Flres do
Mal_!

Crei, quelle espantoso termo de _magano_. E, muito grave, confessei
que para mim Baudelaire dominava,  maneira d'um grande astro, logo
abaixo d'Hugo, na moderna Poesia. Ento Fradique, sorrindo
paternalmente, afianou que bem cedo eu perderia essa illuso!
Baudelaire (que elle conhecera) no era verdadeiramente um poeta. Poesia
subentendia emoo: e Baudelaire, todo intellectual, no passava d'um
psychologo, d'um analysta--um dissecador subtil d'estados morbidos. As
_Flres do Mal_ continham apenas resumos criticos de torturas moraes que
Baudelaire muito finamente comprehendera, mas nunca pessoalmente
_sentira_. A sua obra era como a d'um pathologista, cujo corao bate
normal e serenamente, emquanto descreve,  banca, n'uma folha de papel,
pela erudio e observao accumuladas, as perturbaes temerosas d'uma
leso cardiaca. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa
as _Flres do Mal_--e s mais tarde, depois de rectificar a justeza das
analyses, as passra a verso, laboriosamente, com um diccionario de
rimas!... De resto em Frana (accrescentou o estranho homem) no havia
poetas. A genuina expresso da clara intelligencia franceza era a prosa.
Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia
se caracterisasse pela preciso, lucidez, sobriedade--que so qualidades
de prosa; e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais
visivelmente possuia o genio de prosador. Boileau continuaria a ser um
classico e um immortal, quando j ninguem se lembrasse em Frana do
tumultuoso lyrismo de Hugo...

Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, penetrante--que ia
recortando os termos com a certeza e a perfeio d'um buril. E eu
escutava, varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambo de crte,
permanecesse nos cimos da Poesia Franceza, com a sua _Ode  tomada de
Namur_, a sua cabelleira e a sua ferula, quando o nome do poeta da
_Lenda dos Seculos_ fosse como um suspiro do vento que
passou--parecia-me uma d'essas affirmaes, de rebuscada originalidade,
com que se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente
classificava de _insolente_. Tinha mil coisas, abundantes e esmagadoras,
a contestar: mas no ousava, por no poder apresental-as n'aquella frma
translucida e geometrica do poeta das Lapidarias. Essa cobardia, porm,
e o esforo para reter os protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da
minha mocidade, suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava s por
abalar d'aquella sala onde, com to bolorentas opinies classicas, tanta
rosa nas jarras e todas as molles exhalaes de canella e mangerona,--se
respirava conjuntamente um ar abafadio de Serralho e de Academia.

Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella
conversao com o familiar de Mazzini e d'Hugo, miudos reparos sobre o
Pedro Penedo e o carrasco das Camlas. E na justa ambio de deslumbrar
Fradique com um resumo critico, provando as minhas finas letras, recorri
 phrase,  lapidada phrase, sobre a frma do seu verso. Sorrindo,
retorcendo o buo, murmurei:--Em todo o caso a frma de v. exc.^a  um
marmore... Subitamente,  porta que se abrira com estrondo, surgiu
Vidigal:

--Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!

O ministro, homem de poesia, e de eloquencia, interessra-se francamente
por aquella mumia d'um collega, e jurra logo poupar-lhe o opprobrio
de ser tarifada como peixe salgado. S. exc.^a tinha mesmo
ajuntado:--No, senhor! no, senhor! Ha de entrar livremente, com todas
as honras devidas a um classico! E logo de manh Pentaour deixaria a
Alfandega, de tipoia!

Fradique riu d'aquella designao de _classico_ dada a um hierogrammata
do tempo de Ramzes--e Vidigal, triumphante, abancando ao piano, entoou
com ardor a _Gr-Duqueza_. Ento eu, tomado estranhamente, sem razo,
por um sentimento de inferioridade e de melancolia, estendi a mo para o
chapo. Fradique no me reteve; mas os dois passos com que me acompanhou
no corredor, o seu sorriso e o seu _shake-hands_, foram perfeitos.
Apenas na rua, desabafei:--Que pedante!

Sim, mas inteiramente _novo_, dessemelhante de todos os homens que eu
at ahi conhecera! E  noite, na travessa do Guarda-Mr (occultando a
escandalosa apologia de Boileau, para nada d'elle mostrar imperfeito),
espantei J. Teixeira d'Azevedo com _um_ Fradique idealisado, em que tudo
era irresistivel, as idas, o verbo, a cabaia de sda, a face marmorea
de Lucrecio moo, o perfume que esparzia, a graa, a erudio e o gosto!

J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar. O
homem deu-lhe apenas a impresso de ser postio e theatral. Concordou no
emtanto que convinha ir estudar um machinismo de _pose_ montado com
tanto luxo!

Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipoia. Eu,
engravatado em setim, de gardenia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo,
caracterisado de Diogenes do seculo XIX, com um pavoroso cacete
ponteado de ferro, chapo braguez orlado de sbo, jaqueto encardido e
remendado que lhe emprestra o creado, e grossos tamancos ruraes!...
Tudo isto arranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, s para
horrorisar Fradique--e diante d'esse homem de sceptismo e de luxo,
altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral
do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867!

Tudo perdido! Perdida a minha gardenia, perdida a immundicie estoica do
meu camarada! O snr. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na
vespera n'um vapor que ia buscar bois a Marrocos.




III


Alguns annos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os
homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Frma, no tornei
a lr Baudelaire. Marcos Vidigal, que, atravs da _Revoluo de
Setembro_, trepra da Chronica Musical  Administrao Civil, governava
a India como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ocios asiaticos
que lhe fazia o Estado,  _Historia da Musica_ e  concertina: e levado
assim esse grato amigo do Tejo para o Mandovi eu no soubera mais do
poeta das Lapidarias. Nunca porm se me apagra a lembrana do homem
singular. Antes por vezes me succedia de repente _vr_, claramente
_vr_, n'um relevo quasi tangivel--a face eburnea e fresca, os olhos cr
de tabaco insistentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde
viviam vinte seculos de litteratura.

Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasio, em Memphis, ou no sitio em que
foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por entre
palmeiraes que emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante
de luar oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas
arcarias de claustros. Era uma solido, um vasto silencio de terra
morta, apenas dcemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto
dolente do arraes... E eis que subitamente (sem que recordao alguma
evocasse at esta imagem)--_vejo_, nitidamente _vejo_, avanando com o
barco, e com elle cortando as faxas de luz e sombra, o quarto do Hotel
Central, o grande divan de cres estridentes, e Fradique, na sua cabaia
de sda, celebrando por entre o fumo da cigarette a immortalidade de
Boileau! E eu mesmo j no estava no Oriente, nem em Memphis, sobre as
immoveis aguas do Nilo; mas l, entre o reps azul, sob o lustre embuado
em tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo
as carroas de ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera porm o
acanhamento que ento me enleava. E, durante o tempo que assim remmos
n'esta decorao pharaonica para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui
argumentando com o poeta das Lapidarias, e enunciando emfim, na defeza
de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e tremendas com que o devia ter
emmudecido n'aquella tarde de agosto! O arraes cantava os vergeis de
Damasco. Eu berrava mentalmente:--Mas veja v. exc.^a nos _Miseraveis_ a
alta lio moral...

Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora
mais quente; quando os _muezzins_ cantam a terceira orao. E ao apear
do meu burro, diante do Hotel Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei
de eu avistar? Que homem, d'entre todos os homens, avistei eu no
terrao, estendido n'uma comprida cadeira de vime, com as mos cruzadas
por traz da nuca, o _Times_ esquecido sobre os joelhos, embebendo-se
todo de calor e de luz? Fradique Mendes.

Galguei os degraus do terrao, lanando o nome de Fradique, por entre um
riso de transbordante prazer. Sem desarranjar a sua beatitude, elle
descruzou apenas um brao que me estendeu com lentido. O encanto do seu
acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas
lunetas azues, e o meu vasto chapo panam:

--Ento como vai desde o Hotel Central?... Ha quanto tempo pelo Cairo?

Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. N'um banco ao seu
lado, todo eu sorria, limpando o p que me empastra a face com uma
espessura de mascara. Durante o curto e dce momento que alli
conversmos, soube que Fradique chegra havia uma semana de Suez, vindo
das margens do Euphrates e da Persia, por onde errra, como nos contos
de fadas, um anno inteiro e um dia; que tinha um _debarieh_, com o lindo
nome de _Rosa das Aguas_, j tripulado e amarrado  sua espera no caes
de Boulak; e que ia n'elle subir o Nilo at ao Alto Egypto, at  Nubia,
ainda para alm de Ibsambul...

Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates no lhe tostra
a pelle lactea. Trazia, exactamente como no Hotel Central, uma larga
quinzena preta e um collete branco fechado por botes de coral. E o lao
da gravata de setim negro representava bem, n'aquella terra de roupagens
soltas e rutilantes, a preciso formalista das idas occidentaes.

Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vidigal que burocratisava
entre os palmares brahmanicos... Depois, como eu continuava a esfregar o
suor e o p, aconselhou que me purificasse n'um banho turco, na piscina
que fica ao p da Mesquita de El-Monyed, e que repousasse toda a tarde,
para percorrermos  noite as illuminaes do Beiram.

Mas em logar de descanar, depois do banho lustral, tentei ainda, ao
trote dce de um burro, atravs da poeira quente do deserto libyco,
visitar fra do Cairo as sepulturas dos Kalifas. Quando  noite, na sala
do Sheperd, me sentei diante da sopa de rabo de boi, a fadiga
tirra-me o animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas. O que me
appetecia era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde
to romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes entre os rosaes.

Fradique Mendes j estava jantando, n'uma mesa onde flammejava, entre as
luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado pousava de leve, sobre um
escabello mourisco, uma senhora, vestida de branco, a quem eu s via a
massa esplendida dos cabellos louros, e as costas, perfeitas e
graciosas, como as d'uma estatua de Praxiteles que usasse um collete de
Madame Marcel; defronte, n'uma cadeira de braos, alastrava-se um homem
gordo e molle, cuja vasta face, de barbas encaracoladas, cheia de fora
tranquilla como a de um Jupiter, eu j decerto encontrra algures, ou
viva ou em marmore. E cahi logo n'esta preoccupao. Em que rua, em que
museu admirra eu j aquelle rosto olympico, onde apenas a fadiga do
olhar, sob as palpebras pesadas, trahia a argilla mortal?

Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarro. O
selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ebano do caro
redondo, e, atravs da mesa, grunhiu com respeito:--_C-le-diu_...
Justos cos! _Le Dieu!_ Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de
barbas encaracoladas _era um Deus_--_o Deus_ especial e conhecido que
habitava o Sheperd! Fra pois n'um altar, n'uma tla devota, que eu vira
essa face, dilatada em magestade pela absorpo perenne do incenso e da
prece? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mos
espalmadas uma travessa que fumegava. De novo o Nubio me atirou, em
syllabas claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza--_C'est le
Dieu!_

Era um Deus! Sorri a esta ida de litteratura--um Deus de rabona,
jantando  mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco, da minha imaginao
esfalfada foi-se evolando no sei que sonho, esparso e tenue, como o
fumo que se eleva de uma brazeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os
velhos Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter.
Os Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates)
no tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo  Grecia,
viviam refugiados n'um valle da Laconia, outra vez entregues, nos ocios
que lhes impozera o Deus novo, s suas occupaes primordiaes de
lavradores e pastores. Smente, j pelo habito que os Deuses nunca
perderam de imitar os homens, j para escapar aos ultrajes d'uma
Christandade pudibunda, os olympicos abafavam sob saias e jaquetes o
esplendor das nudezas que a Antiguidade adorra: e como tomavam outros
costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil
ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser
Homem), os Deuses iam lentamente consummando a sua humanisao. J por
vezes deixavam a doura do seu valle bucolico; e com bahs, com saccos
de tapete, viajavam por distraco ou negocios, folheando os _Guias
Bedecker_. Uns iam estudar nas cidades, entre a Civilisao, as
maravilhas da Imprensa, do Parlamentarismo e do Gaz; outros,
aconselhados pelo erudito Hermes, cortavam a monotonia dos longos estios
da Attica bebendo as aguas em Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na
saudade imperecivel das omnipotencias passadas, peregrinavam at s
ruinas dos templos onde outr'ora lhes era offertado o mel e o sangue das
rezes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem, cuja face cheia de
magestade e fora serena reproduzia as feies com que Jupiter se
revelou  Escla d'Athenas--fosse na realidade Jupiter, o Tonante, o
Fecundador, pai inesgotavel dos Deuses, creador da Regra e da Ordem. Mas
que motivo o traria alli, vestido de flanella azul, pelo Cairo, pelo
Hotel Sheperd, comendo um macarro que profanadoramente se prendia s
barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente o dce motivo
que atravs da Antiguidade, em Co e Terra, sempre inspirra os actos de
Jupiter--do frascario e femeeiro Jupiter. O que o podia arrastar ao
Cairo seno _alguma saia_, esse desejo esplendidamente insaciavel de
deusas e de mulheres que outr'ora tornava pensativas as donzellas da
Hellenia ao decorarem na Cartilha Pag as datas em que elle batera as
azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de touro
entre os braos d'Europa, gottejra em pingos d'ouro sobre o seio de
Danae, pulra em linguas de fogo at aos labios d'Egina, e mesmo um dia,
enojando Minerva e as damas srias do Olympo, atravessra toda a
Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da morena
Semle? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar umas frias
sentimentaes, longe da Juno molle e conjugal, com aquella viosa mulher,
cujo busto irresistivel provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de
Madame Marcel. E ella, quem seria ella? A cr das suas tranas, a suave
ondulao dos seus hombros, tudo indicava claramente uma d'essas
deliciosas Nymphas das Ilhas da Ionia, que outr'ora os Diaconos
Christos expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baptisar
centuries cacheticos e comidos de dividas, ou velhas matronas com pllo
no queixo, tropegas do incessante peregrinar aos altares de Aphrodite.
Nem elle nem ella porm podiam esconder a sua origem divina: atravs do
vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e,
attendendo bem, vr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em
cadencia, no calmo esforo de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem.

Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos Immortaes,
bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a harmonia
ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do
Olympo, devotamente prostrado diante da Frma, e transbordando de
alegria pag. Visitra a Laconia; fallava a lingua dos Deuses; recebia
d'elles a inspirao. Nada mais consequente do que descobrir Jupiter no
Cairo, e prender-se logo ao seu servio, como _cicerone_, nas terras
barbaras de Allah. E certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia
Fradique subir o Nilo, na _Rosa das Aguas_, at aos derrocados templos
onde Jupiter poderia murmurar, pensativo, e indicando minas d'aras com a
ponta do guarda-sol:--Abichei aqui muito incenso!

Assim, atravs da salada de tomates, eu desenvolvia e coordenava estas
imaginaes--decidido a convertel-as n'um Conto para publicar em Lisboa
na _Gazeta de Portugal_. Devia chamar-se _A derradeira campanha de
Jupiter_:--e n'elle obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar
todas as notas de costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do
Egypto. Smente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de
realismo picante, levaria a Nympha das aguas, durante a jornada do Nilo,
a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada
recanto de palmeiral e cada sombra lanada pelos velhos pilones d'Osiris
para se pendurar do pescoo do poeta das Lapidarias, murmurar-lhe coisas
em grego mais dces que os versos de Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o
seu aroma de ambrosia, e ser por todo esse valle do Nilo immensamente
_cochonne_--emquanto o Pai dos Deuses, cofiando as barbas encaracoladas,
continuaria imperturbavelmente a conceber a Ordem, supremo, augusto,
perfeito, ancestral e cornudo!

Enthusiasmado, j construia a primeira linha do Conto: Era no Cairo,
nos jardins de Choubra, depois do jejum do Ramadan...--quando vi
Fradique adiantar-se para mim, com a sua chavena de caf na mo. Jupiter
tambem se erguera, canadamente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com
um principio de obesidade, arrastando a perna tarda, bem proprio para o
ultrage que eu lhe preparava na _Gazeta de Portugal_. Ella porm tinha a
harmonia, o aroma, o andar, a irradiao d'uma Deusa!... To realmente
divina que resolvi logo substituir-me a Fradique no Conto, ser eu o
_cicerone_, e com os Immortaes vogar  vla e  sirga sobre o rio de
immortalidade! Junto  minha face, no  de Fradique, balbuciaria ella,
desfallecendo de paixo entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou,
as coisas mais dces da _Anthologia_! Ao menos, em sonho, realisava uma
triumphal viagem a Thebas. E faria pensar aos assignantes da _Gazeta de
Portugal_:--O que elle por l gozou!

Fradique sentra-se, recebendo, de Jove e da Nympha que passavam, um
sorriso cuja doura tambem me envolveu. Vivamente puxei a cadeira para o
poeta das Lapidarias:

--Quem  este homem? Conheo-lhe a cara...

--Naturalmente, de gravuras...  Gautier!

Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro
ardente enlevo da minha mocidade! No me enganra pois inteiramente. Se
no era um Olympico--era pelo menos o derradeiro Pago, conservando,
n'estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade, a religio
verdadeira da Linha e da Cr! E esta intimidade de Fradique com o auctor
de _Mademoiselle de Maupin_, com o velho paladino de _Hernani_,
tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava  nossa gasta
Patria um lustre to original! Para saber se elle preferia aniz ou
genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi em mim um extase
ruidoso, diante da sua agudeza, quando elle me aclarou o grunhir do
negro de Seneh. O que eu tomra pelo annuncio d'uma presena divina
significava apenas--_c'est le deux!_ Gautier no hotel occupava o quarto
numero dois. E, para o barbaro, o plastico mestre do Romantismo era
apenas--_o dois!_

Contei-lhe ento a minha phantasia pag, o Conto que ia trabalhar, os
perfeitos dias de paixo que lhe destinava na viagem para a Nubia. Pedi
mesmo permisso para lhe dedicar a _Derradeira Campanha de Jupiter_.
Fradique sorriu, agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa
fosse a realidade, porque no se podia encontrar mulher de mais genuina
belleza e de mais aguda seduco do que essa Nympha das aguas, que se
chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos _Delassements-Comiques_. Mas,
para seu mal, a radiosa creatura estava caninamente namorada de um
Sicard, corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fra n'essa
tarde, com banqueiros gregos, jantar aos jardins de Choubra...

--Em todo o caso, accrescentou o originalissimo homem, nunca esquecerei,
meu caro patricio, a sua encantadora inteno!

Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicuriana ou atomista, falla
algures das affeioes produzidas pelos _Atomes crochus_, atomos
recurvos, em frma de colchete ou d'anzol, que se engancham
invisivelmente de corao a corao, e formam essas _cadeias_,
resistentes como o bronze de Samothracia, que para sempre ligam e fundem
dois sres, n'uma constancia vencedora da Sorte e sobrevivente  Vida.
Um qualquer _nada_ provoca esse fatal ou providencial enlaamento
d'atomos. Por vezes um olhar, como desastradamente em Verona succedeu a
Romeu e Julieta: por vezes o impulso de duas creanas para o mesmo
fructo, n'um vergel real, como na amizade classica de Orestes e Pylades.
Ora, por esta theoria (to satisfatoria como qualquer outra em
Psychologia affectiva), a esplendida aventura de amor, que eu to
generosamente reservra a Fradique na _Ultima campanha de Jupiter_,
seria a causa mysteriosa e inconsciente, o _nada_ que determinou a sua
primeira sympathia para commigo, desenvolvida, solidificada depois em
seis annos de intimidade intellectual.

Muitas vezes, no decurso da nossa convivencia, Fradique alludiu
gratamente a essa minha _encantadora inteno_ de lhe atar em torno do
pescoo os braos de Jeanne Morlaix. Fra elle captivado pela sinuosa e
poetica homenagem que eu assim prestava s suas seduces de homem? No
sei.--Mas, quando nos erguemos para ir vr as illuminaes do Beiram,
Fradique Mendes, com um modo novo, aberto, quente, quasi intimo, j me
tratava por _voss_.


As illuminaes no Oriente consistem, como as do Minho, de tigellinhas
de barro e de vidro onde arde um pavio ou uma mecha d'estopa. Mas a
descomedida profuso com que se prodigalisam as tigellinhas (quando as
paga o Pach) torna as velhas cidades meio arruinadas, que assim se
enfeitam em louvor de Allah, realmente deslumbrantes--sobretudo para um
occidental besuntado de litteratura, e inclinado a vr por toda a parte,
reproduzidas no moderno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas _Mil
e uma noites_ que ninguem jmais leu.

Na celebrao do Beiram (custeada pelo Khediva), as tigellinhas eram
incontaveis--e todas as linhas do Cairo, as mais quebradas e as mais
fugidias, resaltavam na escurido, esplendidamente sublinhadas por um
risco de luz. Longas fieiras de pontos refulgentes marcavam a borda dos
eirados; as portas abriam sob ferraduras de lumes; dos toldos pendia uma
franja que faiscava; um brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha
d'arvore; e os minaretes, que a Poesia Oriental classicamente compara
desde seculos aos braos da Terra levantados para o Co, ostentavam,
como braos em noite de festa, um luxo de braceletes fulgindo na treva
serena. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse
cahido sobre a sordida cidade uma grossa poeirada d'ouro, pousando em
cada friso de _moucharabieh_ e em cada grade de varandim, e agora
rebrilhasse, com radiosa saliencia, na negrura da noite calma.

Mas, para mim, a belleza especial e nova estava na multido festiva que
atulhava as praas e os bazares--e que Fradique, atravs do rumor e da
poeira, me explicava como um livro de estampas. Com quanta profundidade
e miudeza conhecia o Oriente este patricio admiravel! De todas aquellas
gentes, intensamente diversas desde a cr at ao traje--elle sabia a
raa, a historia, os costumes, o logar proprio na civilisao musalmana.
Devagar, abotoado n'um paletot de flanella, com um chicote de nervo (que
 no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do brao, ia
apontando, nomeando  minha curiosidade flammejante essas estranhas
figuras, que eu comparava, rindo, s d'uma mascarada fabulosa, arranjada
por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as modas
dos Semitas e os seus typos atravs das idades:--aqui Fellahs,
ridentes e ageis na sua longa camisa de algodo azul; alm Beduinos
sombrios, movendo gravemente os ps entrapados em ligaduras, com o
pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe
Abadiehs, de grenha em frma de mda, eriada de longas cerdas de
porco-espinho que os coram d'uma aureola negra... Estes, de porte
insolente; com compridos bigodes esvoaando ao vento, armas ricas
reluzindo nas cintas de sda, e curtos saiotes tufados e encanudados,
eram Arnautas da Macedonia; aquelles, bellas estatuas gregas esculpidas
em ebano, eram homens do Sennar; os outros, com a cabea envolta n'um
leno amarello cujas franjas immensas lhes faziam uma romeira de fios
d'ouro, eram cavalleiros do Hedjaz... E quantos ainda elle me fazia
distinguir e comprehender! Judeus immundos, de caracoes frisados; Coptas
togados  maneira de senadores; soldados pretos do Darfour, com fardetas
de linho ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante verde; Persas
de mitra de feltro; mendigos de mesquita, cobertos de chagas; amanuenses
turcos, pomposos e anafados, de collete bordado a ouro... Que sei eu! Um
Carnaval rutilante, onde a cada momento passavam, sacudidos pelo trote
dos burros sobre albardas vermelhas, enormes saccos enfunados--que eram
mulheres. E toda esta turba magnifica e ruidosa se movia entre
invocaes a Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes
partindo das cordas das _dourbakas_, e cantos lentos--esses cantos
arabes, d'uma voluptuosidade to dolente e to aspera, que Fradique
dizia passarem n'alma com uma caricia rascante. Mas por vezes, entre o
casario decrepito e rendilhado, surgia uma frontaria branca, casa rica
de Sheik ou de Pach, com a varanda em arcarias, por onde se avistavam
l dentro, n'um silencio de harem, sdas colgantes, recamos d'ouro, um
tremor de lumes no crystral dos lustres, frmas airosas sob vos
claros... Ento a multido parava, emmudecia, e de todos os labios sahia
um grande _ah!_ languido e maravilhado.

Assim caminhavamos, quando, ao sahir do Moujik, Fradique Mendes parou,
e, muito gravemente, trocou com um moo pallido, de esplendidos olhos, o
_salam_--essa saudao oriental em que os dedos tres vezes batem a
testa, a bca e o corao. E como eu, rindo, lhe invejava aquella
intimidade com um homem de tunica verde e de mitra persa:

-- um Ulema de Bagdad, disse Fradique, d'uma casta antiga,
superiormente intelligente... Uma das personalidades mais finas e mais
seductoras que encontrei na Persia!

Ento, com a familiaridade que se ia entre ns accentuando, perguntei a
Fradique o que o detivera assim na Persia um anno inteiro e um dia como
nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se
demorra tanto nas margens do Euphrates por se achar casualmente ligado
a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Persia um
desenvolvimento quasi triumphal, e que se chamava o _Babismo_. Attrahido
para essa nova seita por curiosidade critica, para observar como nasce e
se funda uma Religio, chegra pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um
interesse militante--no por admirao da doutrina, mas por venerao
dos apostolos. O Babismo (contou-me elle, seguindo por uma viella mais
solitaria e favoravel s confidencias) tivera por iniciador certo
Mirza-Mohamed, um d'esses Messias que cada dia surgem na incessante
fermentao religiosa do Oriente, onde a religio  a occupao suprema
e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Christos por contacto
com os Missionarios; iniciado na pura tradio mosaista pelos judeus do
Hiraz; sabedor profundo do Guebrismo, a velha religio nacional da
Persia--Mirza-Mohamed amalgamra estas doutrinas com uma concepo mais
abstracta e pura do Mahometismo, e declarra-se _Bab_. Em persa _Bab_
quer dizer _Porta_. Elle era, pois, a _porta_--a unica _porta_ atravs
da qual os homens poderiam jmais penetrar na absoluta Verdade. Mais
litteralmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande _porteiro_, o
homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da
Verdade--e portanto do Paraiso. Em resumo era um Messias, um Christo.
Como tal atravessou a classica evoluo dos Messias: teve por primeiros
discipulos, n'uma aldeia obscura, pastores e mulheres: soffreu a sua
tentao na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras: prgou
parabolas: escandalisou em Mca os doutores: e padeceu a sua Paixo,
morrendo, no me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do
Rhamadan, em Tabriz.

Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divises religiosas--os
Sieds e os Sunis. Os Persas so Sieds, como os Turcos so Sunis. Estas
differenas porm, no fundo, tm um caracter mais politico e de raa, do
que theologico e de dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezar sempre
um persa do Euphrates como _heretico_ e _sujo_. A discordancia resalta,
mais viva e teimosa, logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se
perante uma nova interpretao de doutrina ou uma nova appario de
propheta. Assim o Babismo entre os Sieds, topra com uma hostilidade que
se avivou at  perseguio:--a isto desde logo indicava que seria
acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia.

Partindo d'esta ida, Fradique, que em Bagdad se ligra familiarmente
com um dos mais vigorosos e auctorisados apostolos do Babismo,
Said-El-Souriz (a quem salvra o filho d'uma febre paludosa com
applicaes de _Fruit-salt_), suggerira-lhe um dia, conversando ambos no
eirado sobre estes altos interesses espirituaes, a ida de apoiar o
Babismo nas raas agricolas do valle do Nilo e nas raas nmadas da
Libya. Entre homens de seita Suni, o Babismo encontraria um campo facil
s converses; e, pela tradicional marcha dos movimentos sectarios, que
no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas sinceras do povo at
s classes cultas, talvez essa nova onda de emoo religiosa, partindo
dos Fellahs e dos Beduinos, chegasse a penetrar no ensino de alguma das
mesquitas do Cairo, sobretudo na mesquita de El-Azhar, a grande
Universidade do Oriente, onde os ulemas mais moos formam uma cohorte de
enthusiastas sempre disposta s innovaes e aos apostolados
combattentes. Ganhando ahi auctoridade theologica, e litterariamente
polido, o Babismo poderia ento atacar com vantagem as velhas fortalezas
do Musulmanismo dogmatico. Esta ida penetrra profundamente em
Said-El-Souriz. Aquelle moo pallido, com quem elle trocra o _salam_,
fra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a antiga
Thebas), para sondar o Sheik Ali-Hussein, homem de decisiva influencia
em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e elle,
Fradique, no tendo agora no Occidente occupaes attractivas, cheio de
curiosidade por este pittoresco Advento, partia tambem para Thebas,
devendo encontrar-se com o babista,  lua mingoante, em Beni-Soueff, no
Nilo...

No recordo, depois de tantos annos, se estes eram os factos certos. S
sei que as revelaes de Fradique, lanadas assim atravs do Cairo em
festa, me impressionaram indizivelmente.  medida que elle fallava do
Bab, d'essa misso apostolica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra f
surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d'extasis,
da possivel fundao de um imperio Babista--o homem tomava aos meus
olhos propores grandiosas. No conhecera jmais ninguem envolvido em
coisas to altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de
receber este segredo sublime. Outra no seria minha commoo, se, nas
vesperas de S. Paulo embarcar para a Grecia, a levar a Palavra aos
gentilicos, eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de
Seleucia, ouvindo-lhe as esperanas e os sonhos!

Assim conversando, penetrmos no adro da mesquita de El-Azhar onde mais
fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas j no me
prendiam as surprezas d'aquelle arraial musulmano--nem _almes_ danando
entre brilhos de vermelho e d'ouro; nem poetas do deserto recitando as
faanhas d'Antar; nem Derviches, sob as suas tendas de linho, uivando em
cadencia os louvores d'Allah... Calado, invadido pelo pensamento do Bab,
revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n'essa campanha
espiritual! Se eu partisse para Thebas com Fradique?... Porque no?
Tinha a mocidade, tinha o enthusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar
no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher  banal
Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gaz, na _Gazeta de
Portugal_! E pouco a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia
subindo o vapor lento d'uma viso. Via-me discipulo do Bab--recebendo
n'essa noite, do ulema de Bagdad, a iniciao da Verdade. E partia logo
a prgar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente,
levando de preferencia a salvao s almas que me eram mais caras. Como
S. Paulo, embarcava n'uma galera: as tormentas assaltavam a minha pra
apostolica: a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno
olhar enchia minha alma de fortaleza indomavel. Um dia, por fim,
avistava terra, e na manh clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos
seculos no entra um enviado de Deus. Logo de longe lanava uma injuria
s igrejas de Lisboa, construces d'uma F vetusta e menos pura.
Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, n'um desprendimento j
divino de bens ainda terrestres, galgava aquella bemdita rua do Alecrim,
e em meio do Loreto,  hora em que os Directores Geraes sobem devagar da
Arcada, abria os braos e bradava:--Eu sou a _Porta_!

No mergulhei no Apostolado babista--mas succedeu que, enlevado n'estas
phantasmagorias, me perdi de Fradique. E no sabia o caminho do Hotel
Sheperd,--nem, para d'elle me informar, outros termos uteis, em arabe,
alm de _agua_ e _amor_! Foram angustiosos momentos em que farejei
estonteado pelo largo de El-Azhar, tropeando nos fogareiros onde fervia
o caf, esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. J
por sobre a turba atirava, aos brados, o nome de Fradique--quando topei
com elle olhando placidamente uma _alme_ que danava...

Mas seguiu logo, encolhendo os hombros. Nem me permittiu adiante admirar
um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrimados s
lanas, lia, n'uma toada langorosa e triste, tiras de papel ensebado. A
Dana e a Poesia, affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes,
iam em miserrima decadencia. N'uma e outra se tinham perdido as
tradies do estylo puro. As _almes_, pervertidas pela influencia dos
casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can--j polluiam a graa das
velhas danas arabes, atirando a perna pelos ares  moda vil de
Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade, mesclada de
extravagancia. As frmas delicadas do classicismo persa nem se
respeitavam, nem quasi se conheciam; a fonte da imaginao seccava entre
os musulmanos; e a pobre Poesia Oriental, tratando themas vetustos com
uma emphase preciosa, descambra, como a nossa, n'um _Parnasianismo_
barbaro...

--De sorte, murmurei, que o Oriente...

--Est to mediocre como o Occidente.

E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fradique, findando o charuto,
me contava que o espirito oriental, hoje, vive s da actividade
philosophica, agitado cada manh por uma nova e complicada concepo da
Moral, que lhe offerecem os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do
deserto...

Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak, onde elle ia embarcar para o
Alto Egypto. O seu _debarieh_ esperava, amarrado  estacaria, rente das
casas do Velho Cairo, entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e
de cana dce. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o co
adormecia, sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua
profundidade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o
cantaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo,
bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos,
vinham, como no tempo em que eram Deuses, lanar por sobre os eirados,
com um bater d'azas contentes, a beno crepuscular.

Baixei, atraz de Fradique, ao salo do _debarieh_, envidraado,
estofado, com armas penduradas para as manhs de caa, e rumas de livros
para as sstas de estudo e de calma quando lentamente se navega  sirga.
Depois, durante momentos, no convs, contemplmos silenciosamente
aquellas margens que, atravs das compridas idades, tm feito o enlevo
de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida  cheia de
bens maiores e de doura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que
arrazaram Thanis, aqui pararam como ns, alongando para estas aguas,
para estes cos, olhos cobiosos, extaticos ou saudosos: Reis de Jud,
Reis de Assyria, Reis da Persia; os Ptolomeus magnificos; Prefeitos de
Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahomet, S. Luiz enviado
de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do Oriente, Bonaparte
retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram s para contar da terra
adoravel, desde o loquaz Herodoto at ao primeiro Romantico, o homem
pallido de grande _pose_ que disse as dres de Rn! Bem conhecida 
ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre, paternal e fecundo.
Para alm verdejam, sob o vo das pombas, os jardins e os pomares de
Rhodah. Mais longe as palmeiras de Giseh, finas e como de bronze sobre o
ouro da tarde, abrigam aldeias que tm a simplicidade de ninhos.  orla
do deserto, erguem-se, no orgulho da sua eternidade, as tres Pyramides.
Apenas isto--e para sempre a alma fica presa e lembrando, e para viver
n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas
guerras.

Mas a hora chegra: abracei Fradique com singular emoo. A vela fra
iada  briza suave que arripiava a folhagem das mimosas.  pra o
arraes, espalmando as mos para o co, clamou:--Em nome de Allah que
nos leve, clemente e misericordioso! Ao redor, d'outras barcas, vozes
lentas murmuraram:--Em nome de Allah que vos leve! Um dos remadores,
sentado  borda, feriu as cordas da _dourbaka_, outro tomou uma flauta
de barro. E entre benos e cantos a vasta barca fendeu as aguas
sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.




III


Durante annos no tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrra as
suas jornadas dentro da Europa Occidental--emquanto eu errava pela
America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a
minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra,
Fradique, retomado por essa bisbilhotice ethnographica a que elle
allude n'uma carta a Oliveira Martins, comeava a sua longa viagem ao
Brazil, aos Pampas, ao Chili e  Patagonia.

Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, no se partiu; nem ns,
apesar de to tenue, o deixmos perder por entre os interesses mais
fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes
trocavamos uma carta--cinco ou seis folhas de papel que eu
tumultuosamente atulhava de imagens e impresses, e que Fradique
miudamente enchia de idas e de factos. Alm d'isto, eu sabia de
Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia
mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao vero de 1876, elle crera
amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.

Todos, apesar das dissimilhanas de temperamentos ou das maneiras
differentes de conceber a vida--tinham como eu sentido a seduco
d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o
auctor do _Portugal Contemporaneo_:--C encontrei o teu Fradique, que
considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas
parecenas com Descartes!  a mesma paixo das viagens, que levava o
philosopho a fechar os livros para estudar o grande livro do Mundo; a
mesma attraco pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia
pelo gosto de frequentar as crtes e os exercitos; o mesmo amor do
mystrio, e das subitas desapparies; a mesma vaidade, nunca
confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem
serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razo
exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um
fim srio e supremo, que estas qualidades, em si excellentes
concorressem a realisar. E receio que em logar do _Discurso sobre o
Methodo_ venha s a deixar um _vaudeville_. Ramalho Ortigo, pouco
tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:--Fradique Mendes  o
mais completo, mais acabado producto da civilisao em que me tem sido
dado embeber os olhos. Ninguem est mais superiormente apetrechado para
triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira  sempre a mais
fresca, como a ida do seu espirito  sempre a mais original. Marcha
cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford,
mette-se ssinho ao deserto a caar o tigre, arremette com um chicote na
mo contra um troo de lanas abyssinias:--e  noite n'uma sala, com a
sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri s
mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira  fadiga, ao perigo
e  morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as
noes mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia,
sobre Philologia e sobre Metaphysica.  um ensino, uma lio de alto
gosto, vl-o no seu quarto, na vida intima de _gentleman_ em viagem,
entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata
lavrada, as cabaias de sda, as carabinas de Winchester, preparando-se,
escolhendo um perfume, bebendo golos de ch que lhe manda o Gran-Duque
Vladimir, e dictando a um creado de calo, mais veneravelmente correcto
que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vo levar noticias suas aos
_boudoirs_ de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua
porta ao mundo--e l Sophocles no original.

O poeta da _Morte de D. Joo_ e da _Musa em Ferias_ chamava-lhe um
Sainte-Beuve encadernado em Alcides. E explicava assim, n'uma carta
d'esse tempo que conservo, a sua appario no mundo: Deus um dia
agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de
Brummel, em pedaos ardentes d'aventureiros da Renascena, e em
fragmentos resequidos de sabios do Instituto de Frana, entornou-lhe por
cima _champagne_ e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mos
omnipotentes, modelou  pressa Fradique, e arrojando-o  Terra disse:
Vai, e veste-te no Poole! Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira
Martins que s multiplas e fortes aptides de Fradique faltasse
coordenao e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a
personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: O cerebro de
Fradique est admiravelmente construido e mobilado. S lhe falta uma
ida que o alugue, para vivar e governar l dentro. Fradique  um genio
com escriptos!

Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das _Odes
Modernas_, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com
tanta elevao e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que
se relacionou com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Teixeira
d'Azevedo, no vero de 1877, em Cintra, na quinta da _Saragoa_, onde
Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e s republicas do
Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira
d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel
antipathia pelo que elle chamava o _lymphatismo critico_ de Fradique.
Homem todo de emoo no se podia fundir intellectualmenle com aquelle
homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem no o
impressionava. As noes d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879)
so bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia. E emfim certos
requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sda), a sua voz
mordente recortando o verbo com perfeio e preciosidade, o seu habito
de beber champagne com _soda-water_, outros traos ainda, causavam uma
irritao quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mr.
Confessava porm, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez
mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se
regularmente com elle--mas para o contradizer com acrimonia.

Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinao no Oriente), passei em
Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear
solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do
_Temps_, quando por traz do jornal que eu encostra  garrafa assomou
uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata,
uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena
murmurou: Separmo-nos ha annos no caes de Boulak... Ergui-me com um
grito, Fradique com um sorriso;--e o _maitre-d'hotel_ recuou assombrado
diante da meridional e ruidosa effuso do meu abrao. D'essa noite em
Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual--que em oito
annos, sempre igual e sempre certa, no teve uma intermisso, nem uma
sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo _intellectual_, porque esta intimidade nunca
passou alm das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle
convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa
copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a
intelligencia de Fradique--e interrompidamente assisti e me misturei 
sua vida pensante: nunca porm penetrei na sua vida affectiva de
sentimento e de corao. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de
a conhecer--talvez por sentir que a rara originalidade de Fradiqoe se
concentrava toda no sr pensante, e que o outro, o sr sensivel, feito
da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas
fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris
que iniciou as nossas relaes, ns conservmos sempre o habito
especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois
puros espiritos. Se eu ento concebesse uma Philosophia original, ou
preparasse os mandamentos d'uma nova Religio, ou surripiasse  Natureza
distrahida uma das suas secretas Leis--de preferencia escolheria
Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na
ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperana ou
d'uma desilluso. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de
inaccessivel recato--no se manifestando nunca aos meus olhos seno na
sua funco intellectual.

Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manh de maio em que
atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flr, o jardim
das Tulherias. Fradique, que se encostra ao meu brao, vinha
vagarosamente desenvolvendo a ida de que a extrema democratisao da
Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento atravs das plebes,
era o grande erro da nossa civilisao, que com elle preparava para bem
cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transprmos a grade para
a praa da Concordia, o Philosopho que assim lanava, por entre as
tenras verduras de maio, estas predices de desastre e de fim--estaca,
emmudece! Diante de ns, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passra
vivamente, para os lados da rua Royale, um coup onde entrevi, na
penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos cr de mel. Vivamente
tambem, Fradique sacode o meu brao, balbucia um adeus!, acena a um
fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do
ces d'Orsay. Mulher!, pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu
tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada
de Maio, sabbado, e comeando: Hontem philosophava com um amigo no
jardim das Tulherias...) Fradique corria n'esse fiacre a uma desilluso
bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como
combinra) buscar Fradique  rua de Varennes, ao velho palacio dos
Tredennes, onde elle installra desde o Natal os seus aposentos com um
luxo to nobre e to sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a
Heroica, porque a revestiam quatro tapearias de Luca Cornelio
contando os _Trabalhos de Hercules_, Fradique deixa a janella d'onde
olhava o jardim j esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as
mos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sda. E, como se desde essa
manh _nenhum outro_ cuidado o absorvesse seno o seu thema do jardim
das Tulherias:

--No lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser
recolhida como outr'ora aos Santuarios. No ha outro meio de nos salvar
da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um
sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as
curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta ida um programma para as
geraes novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e
de emoo: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente
occupado na deduco do seu conceito. Outro homem que, como aquelle,
tivesse soffrido horas antes uma desilluso to mortificante e rude,
murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:--Ah, amigo,
que estupida  a vida! Elle fallou da Sciencia e das
Plebes,--desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez
a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos no
penetrassem de leve, ou os seus no se detivessem demais, nas amarguras
do seu corao.

N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:--O homem, como
os antigos reis do Oriente, no se deve mostrar aos seus semelhantes
seno unica e serenamente _occupado no officio de reinar--isto , de
pensar_. Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a
um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se
comportou immutavelmente, atravs da nossa activa convivencia, no se
abrindo, no se offerecendo todo, seno nas funces da Intelligencia.
Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim
imperio e seduco.




IV


O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua
maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta  suprema audacia.
No conheci jmais espirito to impermeavel  tyrannia ou  insinuao
das idas feitas: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar
original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. Apesar de
trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J.
Teixeira d'Azevedo) que _a linha recta  a mais curta distancia entre
dois pontos_, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal
 porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo
bairro de S. Martinho e pelos altos da Graa, declararia logo  secular
geometria--que a distancia mais curta entre dois pontos  uma _curva_
vadia e delirante!. Esta independencia da Razo, que Fradique assim
aprega com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:--mas o
animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradio, da
Regra, e das concluses oraculares dos Mestres,  j uma virtude, e
rarissima, de radiosa excepo!

Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G.
Cornuski, professor e critico, que escrevia na _Revista Suissa_, e que
(diz Fradique) constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito
decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a
unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes--a
_Gerusalemme Liberata_ do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de
Racine, as oraes de Bossuet, os nossos _Lusiadas_, e outros monumentos
canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico
lhe impunha a proclamao da verdade, este homem robusto, sanguineo, que
heroicamente se batera em duas insurreies, tremia, pensava:--No!
Porque ser o meu criterio mais seguro que o de to finos entendimentos
atravs dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a
sublimidade--e s no meu espirito a impotencia de a comprehender. E o
desgraado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono,
continuava, diante dos cros da _Athalie_ e das nudezes do Ticiano, a
murmurar desconsoladamente:--Como  bello!

Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos
porm, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo
intellectual. J, com effeito, porque o nosso espirito no possua a
viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem
tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto;
j porque as idas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa
memoria, depois de leituras e conversas, nos paream ser as nossas
proprias; j porque a suggesto d'esses conceitos se imponha e nos leve
subtilmente a concluir em concordancia com elles--a lamentavel verdade 
que hoje todos ns servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de
ns e em torno de ns j se sentiu ou pensou.

O homem do seculo XIX, o Europeu, porque s elle  essencialmente do
seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma
pallida e morna _infeco de banalidade_, causada pelos quarenta mil
volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a Frana e a
Allemanha depositam s esquinas, e em que interminavelmente e
monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as
quatro idas e as quatro impresses legadas pela Antiguidade e pela
Renascena. O Estado por meio das suas esclas canalisa esta infeco. A
isto, oh Carolus, se chama _educar_! A creana, desde a sua primeira
Selecta de Leitura ainda mal soletrada, comea a absorver esta camada
do Logar-Commum--camada que depois todos os dias, atravs da vida, o
Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vo atochando no espirito at
lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem to inutil para a
produco como um slo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e
pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu
lograsse ainda hoje ter algumas idas novas, de viosa originalidade,
seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi
esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a
Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte
seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te
affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente
pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da
Civilisaco litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois
annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opra sobre o
Intellecto como Vichy sobre o figado--desobstruindo-o, e permittindo-lhe
o so exercicio da funco natural. Depois de dois annos de vida
selvagem, entre o Hottentote n movendo-se na plenitude logica do
Instincto,--que restar ao civilisado de todas as suas idas sobre o
Progresso, a Moral, a Religio, a Industria, a Economia Politica, a
Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restaro das
pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de
matagal e de brejo. E no possuindo em torno de si Livros e Revistas que
lhe renovem uma proviso de idas feitas, nem um benefico Nunes
Algibebe que lhe fornea uma outra andaina de fato feito--o Europeu
ir insensivelmente regressando  nobreza do estado primitivo, nudez do
corpo e originalidade da alma. Quando de l voltar  um Ado forte e
puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e
todas as noes amontoadas desde Aristoteles podendo proceder
soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que
distillas _espiritos_, queres remergulhar nas Origens e vir commigo 
inspiradora Hottentocia? L, livres e ns, estirados ao sol entre a
palmeira e o regato que tutelarmente nos daro o sustento do corpo, com
a nossa lana forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos
n'um canto dce a poro de poesia e de sonho que a alma
precisa--deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de
riso  ida das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das
grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que
vo por essa Europa, onde densos formigueiros de chapos altos se
atropellam, estonteados pelas supersties da civilisao, pela illuso
do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificaes dos
reformadores pela escravido da rotina, e pela estupida admirao de si
mesmos!...

Assim diz Fradique. Ora este exame inedito das coisas humanas, s
possivel, segundo o poeta das Lapidarias, ao Ado renovado que
regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do p e do lixo de
longos annos de Litteratura--tentou-o elle, sem deixar os muros
classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E
n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o
prendiam os seus gostos e os seus habitos--mundo mediano e regrado, sem
inveno e sem iniciativa intellectual, onde as Idas, para agradar,
devem ser como as Maneiras, geralmente adoptadas e no individualmente
creadas--Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos,
affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de
originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito
inventivo e novo, com uma fora de pensar muito propria, deixando
transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche-- mais
desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que no regre
e limite dentro das Conveniencias a espessura da cabelleira, o
estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse
espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiana:
Pretencioso! busca o effeito e o destaque! Ora Fradique nada detestava
mais intensamente do que o _effeito_ e o _destaque excessivo_. Nunca lhe
conheci seno gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um
d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e s para
que d'elles se falle com espanto nas praas, vo, em plena festa,
agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo
preferiria--menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) ter
de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em
casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de
levar a minha amiga na, toda na, pisando os tapetes com os seus ps
ns, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios
ns. _Amicus Mundus, sed magis amica Veritas!_ Este bello latim
significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade 
agradavel s mulheres e s desagradavel aos homens--o que duplamente me
leva a amal-a com pertinacia.

Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa
sinceridade--impedindo que por seduco elle se dsse todo a um Systema,
onde para sempre permanecesse por inercia--eram de resto as qualidades
que melhor convinham  funco intellectual que para Fradique se tornra
a mais continua e preferida. No ha em mim infelizmente (escrevia elle
a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero
dizer, no sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por
temperamento s analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que
consistem em reduzir uma multido de factos esparsos a Typos e Leis
particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou
tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por
genio s analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem
em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se
explica a essencia mesma do inteiro Universo. No sendo pois um sabio,
nem um philosopho, no posso concorrer para o melhoramento dos meus
semelhantes--nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que 
uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da
Metaphysica que  uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia
tambem se me conserva vedada:--porque, se, para se produzir Litteratura
basta possuir talentos, para tentar a Historia convm possuir virtudes.
E eu!... S portanto me resta ser, atravs das idas e dos factos, um
homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupao do
meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma ida
ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente,
explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoes intellectuaes
que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de
verdade que exista nos seus refolhos--e sahir, passar a outro facto ou a
outra ida, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as
cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia,
enlevado no esplendor das cres e das frmas. Temporal e espiritualmente
fiquei simplesmente um _touriste_.

Estes _touristes_ da intelligencia abundam em Frana e em Inglaterra.
Smente Fradique no se limitava, como esses, a exames exteriores e
impessoaes,  maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noes
e os gostos de Europeu, estuda apenas o areo relevo dos monumentos e a
roupagem das multides. Fradique (para continuar a sua imagem)
transformava-se em cidado das cidades que visitava. Mantinha por
principio que se devia momentaneamente _crr_ para bem comprehender uma
crena. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo.
Assim se afilira em Paris a um club revolucionario, _As Pantheras de
Batignolles_, e frequentra as suas sesses, encolhido n'uma quinzena
sordida pregada com alfinetes, com a esperana de l colher a flr de
alguma extravagancia instructiva. Assim se incorporava em Londres aos
Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vo
queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a
Imagem de Augusto Comte. Assim se ligra com os _Theosophistas_,
concorrera prodigamente para a fundao da _Revista Espiritista_, e
presidia as Evocaes da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre
os dois _mediums_ supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitra
durante um longo vero Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo,
para destrinar bem (diz elle) quaes so os motivos e as formulas que
fazem um _Carlista_--porque todo o sectario obedece  realidade d'um
motivo e  illuso d'uma formula. Assim se tornra o confidente do
veneravel Principe Koblaskini, para poder desmontar e estudar pea a
pea o mecanismo d'um cerebro de Nihilista. Assim se preparava (quando
a morte o surprehendeu) a voltar  India, para se tornar budhista
praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixra a
curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte
que d'elle bem se pde dizer que foi o devoto de todas as Religies, o
partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as
Philosophias--cometa errando atravs das idas, embebendo-se
convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de
substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia
do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam
classificavam Fradique como um _dilettante_. No! essa sria convico
(a que os inglezes chamam _earnestness_), com que Fradique se
arremessava ao fundo real das coisas, communicava  sua vida uma valia e
efficacia muito superiores s que o _dilettantismo_, a diverso sceptica
que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica s naturezas que a
elle deliciosamente se abandonam. O _dilettante_, com effeito, corre
entre as idas e os factos como as borboletas (a quem  desde seculos
comparado) correm entre as flres, para pousar, retomar logo o vo
estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo.
Fradique, porm, ia como a abelha, de cada planta pacientemente
extrahindo o seu mel:--quero dizer, de cada opinio recolhendo essa
parcella de verdade que cada uma invariavelmente contm, desde que
homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou
paixo.

Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porm a
sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a
suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser--uma
percepo extraordinaria da Realidade. Todo o phenomeno (diz elle n'uma
carta a Anthero de Quental, suggestiva atravs de certa obscuridade que
a envolve) tem uma Realidade. A expresso de _Realidade_ no 
philosophica; mas eu emprego-a, lano-a ao acaso e tenteando, para
apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel,
quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente
ao nosso entendimento e  sua potencia de discriminar, uma
Realidade--quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma
imagem, como recommenda Buffon) certos _contornos_ que o limitam, o
definem, lhe do feio propria no esparso e universal conjunto, e
constituem o seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. Smente o erro,
a ignorancia, os preconceitos, a tradio, a rotina e sobretudo a
ILLUSO, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e
deforma os seus contornos, e impede que a viso intellectual o divise no
seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser.  justamente o que succede
aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai
expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! L fra o sol est
cahindo d'um co fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto
de neve dura: n'este ar to puro e claro, em que as coisas tomam um
relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia
philosophica: s me poderia exprimir por imagens recortadas  tesoura.
Mas voss decerto comprehender, Anthero excellente e subtil! J esteve
em Londres, no outono, em novembro? Nas manhs de nevoeiro, n'uma rua de
Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se
empasta  a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma
pardacenta illuso submerge toda a cidade--e com espanto se encontra
n'uma taverna quem julgra penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos
espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do
mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos so transvios, quasi
todos os seus juizos so enganos; e estes constantemente esto trocando
o Templo e a Taberna. Raras so as vises intellectuaes bastante agudas
e poderosas para romper atravs da neblina e surprehender as linhas
exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria
tartamudear.

Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas vises privilegiadas. O
proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e _detalhar em
silencio_--como dizia Oliveira Martins--revelava logo o seu processo
interior de concentrar e applicar a Razo,  maneira de um longo e
pertinaz dardo de luz, at que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a
pouco lhe surgisse na sua rigorosa e _unica_ frma.

A manifestao d'esta magnifica fora que mais impressionava--era o seu
poder de _definir_. Possuindo um espirito que _via_ com a maxima
exactido; possuindo um verbo que _traduzia_ com a maxima conciso--elle
podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que
uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com
ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definies de Arte,
enunciadas desde Plato: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o
phenomeno visto limitadamente atravs d'um temperamento. Fradique
conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim,
com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam
parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se
alargra:--A Arte  um resumo da Natureza feito pela imaginao.

Certamente, no conheo mais completa definio d'Arte! E com razo
affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que se o bom
Deus, um dia, compadecido das nossas hesitaes, nos atirasse l de
cima, do seu divino ermo, a final explicao da Arte, ns ouviriamos
resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a
definio de Fradique!


A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte
e rica. J os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Alm d'um
solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e
de Litteratura decorativa, o habilitra a crear em latim barbaro
poemetos to bellos como o _Laus Veneris tenebrosae_)--possuia
profundamente os idiomas das tres grandes naes pensantes, a Frana, a
Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me
affirmou Riaz-Effendi, chronista do sulto Abdul-Aziz) fallava com
abundancia e gosto.

As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e
religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que
divinamente o compe, desde os insectos at aos astros. Estudos
carinhosamente feitos com o corao--porque Fradique sentia pela
Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma
venerao genuinamente budhistas. Amo a Natureza (escrevia-me elle em
1882) por si mesma, toda e individualmente, na graa e na fealdade de
cada uma das frmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como
manifestao tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade
intangivel, a que cada Religio e cada Philosophia deram um nome diverso
e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em resumo adoro a Vida--de
que so igualmente expresses uma rosa e uma chaga, uma constellao e
(com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto
tudo adoro--porque tudo  viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu
esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vo. E a minha
religio est toda no credo de Athanasio, com uma pequena
variante:--Creio na _Vida_ toda-poderosa, creadora do co e da
terra...

Quando comeou porm a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto
espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas
sobretudo que pertencem  Pre-historia--a Anthropologia, a Linguistica,
o estudo das Raas, dos Mythos e das Instituies Primitivas. Quasi
todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette,
densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania,
indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderra d'elle com
intensidade e paixo. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado
com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitaes
lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica;
com as raas Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a
christianisao dos Deuses Pagos... Estas aferradas investigaes
duravam emquanto podia extrahir d'ellas alguma emoo ou surpreza
intellectual. Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e
Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre
o tapete livre:--Sorvi todo o Sabeismo!, ou Esgotei os Polynesios!

O estudo porm a que se prendeu ininterrompidamente, com especial
constancia, foi o da Historia. Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira
Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixo da
Historia. E adivinha voss porqu, Historiador? Pelo confortavel e
conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando
fiz onze annos, minha av, de repente, _para me habituar s coisas duras
da vida_ (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre
Nunes, e mandou-me a uma escla chamada _Terceirense_. O jardineiro
levava-me pela mo: e todos os dias a av me dava com solemnidade um
pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para
a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes
novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho--por me descerem
ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porm,
folheando uma _Encyclopedia de Antiguidades Romanas_, que tinha
estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam
tambem de manh para a escla, como eu, pela mo d'um servo--denominado
o _Capsarius_; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do
Velabro ou das Carinas, para comerem  merenda--que chamavam o
_Ientaculum_. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade
d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava
tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva
procurador--respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipio.
A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os
rapazes de escla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar
n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto,
evidentemente, no o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei
d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabea, pensando com uma
vangloria heroica:--Assim faziam tambem os romanos! Era por esse tempo
pouco mais alto que uma espada gda, e amava uma mulher obesa que morava
ao fim da rua...

N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:--Levou-me pois
effectivamente  Historia o meu amor da Unidade--amor que envolve o
horror s interrupes, s lacunas, aos espaos escuros onde se no sabe
o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de
exploraes e de travessias--porque me repugnava no conhecer o globo em
que habito at aos seus extremos limites, e no sentir a contnua
solidariedade do pedao de terra que tenho sob os ps com toda a outra
terra que se arqueia para alm. Por isso, incansavelmente exploro a
Historia, para perceber at aos seus derradeiros limites a Humanidade a
que perteno, e sentir a compacta solidariedade do meu sr com a de
todos os que me precederam na vida. Talvez voss murmure com
desdem--mera bisbilhotice! Amigo meu, no despreze a bisbilhotice!
Ella  um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do
reles ao sublime. Por um lado leva a escutar s portas--e pelo outro a
descobrir a America!

O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e
pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel
que nos homens de raa celtica sublinha e corrige a admirao:--Aquelle
Fradique! Tira a charuteira, e d uma synthese profunda, d'uma
transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;--depois accende
o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturo de
Leonidas! Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender
philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar
psychologicamente os caracteres individuaes--alliava-se n'elle a um
minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das
armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica
at  Frana Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o
Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)[1] so
verdadeiras maravilhas pela sagaz intuio, a alta potencia synthetica,
a certeza do saber, a fora e a abundancia das idas novas. E, por outro
lado, a sua erudio archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou,
na sabia composio das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos
Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabma.
Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabma, regando as roseiras, no seu
jardim de Chelsea.

Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo
recolhia e tudo retinha--vasto e claro armazem de factos, de noes, de
frmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a
servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel  memoria de
Fradique, como installao, ordem e excellencia do _stock_, s
conhecia a adega do caf Inglez.

A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das
viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admiraes ou de
curiosidades intellectuaes. S a Archeologia o levou quatro vezes ao
Oriente:--ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante
dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por
poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma
filha de Abraham Cppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, to
lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no
naufragio do _Magnolia_. A sua aventurosa e aspera peregrinao pela
China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente
penetrar na cidade sagrada de Lahs) at  alta Manchuria, constitue o
mais completo estudo at hoje realisado por um homem da Europa sobre os
Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo profundo
entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou
quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta fora, de
eternisar uma civilisao.

O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos
trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper
e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da
Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves,
n'uma rude telega, at s minas de prata de Nerchinski. E proseguiria
n'este activo interesse, se no recebesse subitamente, ao chegar 
costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV seco
da policia imperial:--_Monsieur, vous nous observez de trop prs, pour
que votre jugement n'en soit fauss; je vous invite donc, sur votre
intrt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte,
d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de
Paris!_--Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou
logo  Suecia, e mandou de l, sem data, este bilhete ao general
Armankoff:--_Monsieur, j'ai reu votre invitation o il y a beaucoup
d'intolerance et trois fautes de franais._

Os mesmos interesses de espirito e necessidades de certeza o levaram
na America do Sul desde o Amazonas at s areias da Patagonia, o levaram
na Africa Austral desde o Cabo at aos Montes de Zokunga... Tenho
folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idas. Para
vr _por fra_, por mera festa dos olhos, nunca fui seno a Marrocos.

O que tornava estas viagens to fecundas como ensino era a sua rapida e
carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes  maneira
do detestavel _touriste_ francez, para notar de alto e pcamente os
defeitos--isto , as divergencias d'esse typo de civilisao mediano e
generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes,
as idas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com
elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lio directa e
viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito--_em
Roma s romano_--to facil e dce de cumprir em Roma, entre as vinhas
da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle
gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do
Himalaya. E estava to homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da
Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen--como
n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da
carabina Express e da carabina Winchester, entre caadores de
elephantes.


Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris
e Londres--com excepo das visitas filiaes a Portugal: porque, apesar
da sua disperso pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas
terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um
genuino Portuguez com irradicaveis traos de fidalgo ilho.

O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e s
coisas de Portugal. A compra da quinta do _Saragoa_, em Cintra,
realisra-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoo)
para _ter terra em Portugal_, e para se prender pelo forte vinculo da
propriedade ao slo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um
ingenuo tumulto de idas grandes, os seus avs, buscadores de mundos, de
quem elle herdra o sangue e a curiosidade do _alm_!

Sempre que vinha a Portugal ia retemperar a fibra percorrendo uma
provincia, lentamente, a cavallo--com demoras em villas decrepitas que o
encantavam, infindaveis cavaqueiras  lareira dos campos, fraternisaes
ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de
bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado
de louro. A sua regio preferida era o Ribatejo, a terra ch da leziria
e do boi. Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a
vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e
lavados ares da manh, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia
de viver.

Lisboa s lhe agradava--como paizagem. Com tres fortes retoques
(escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros
mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos
lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma
varredella definitiva por essas bemditas ruas--Lisboa seria uma d'essas
bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de
sonho, de arte e de peregrinao. Mas uma existencia enraizada em Lisboa
no me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a
alma respire. Depois certas feies, singularmente repugnantes, dominam.
Lisboa  uma cidade _alitteratada_, _afadistada_, _catita_ e
_conselheiral_. Ha _litteratice_ na simples maneira com que um caixeiro
vende um metro de fita; e, nas proprias graas com que uma senhora
recebe, transparece _fadistice_: mesmo na Arte ha _conselheirismo_; e ha
_catitismo_ mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem
da politiquice e dos politiquetes.

Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais
injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos,
inaptos absolutamente para crear ou comprehender idas; horror mundano,
presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a
naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam,
rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro
morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle
no tm o habito profissional.

Havia n'estas ferozes opinies, certamente, laivos de perfeita verdade.
Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho
d'um preconceito que dogmatisa--e no d'uma observao que discrimina.
Assim lh'o affirmava eu uma manh, no Braganza, mostrando que todas
essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de
finura, to acerbamente notadas por elle nos Politicos--se explicam
sufficientemente pela precipitada democratisao da nossa sociedade;
pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias
abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razes que so no fundo
honrosas para esses desgraados Politicos, votados por um fado vingador
 destruio da nossa terra.

Fradique replicou simplesmente:

--Se um rato morto me disser,--eu cheiro mal por isto e por aquillo e
sobretudo porque apodreci,--eu nem por isso deixo de o mandar varrer do
meu quarto.

Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja
intransigencia e obstinao nem factos nem raciocinios podiam vencer.
Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa,
a inhabil, descomedida e papalva imitaco de Paris. Essa saloia
macaqueao, superiormente denunciada por elle n'uma carta que me
escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que _Lisboa 
uma cidade traduzida do francez em calo_--tornava-se para Fradique,
apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade
perpetua era ento descobrir, atravs da frandulagem do Francezismo,
algum resto do genuino Portugal.

Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em
cartas, em conversas, se lastma de no poder conseguir um cozido
vernaculo!--Onde esto (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do
Portugal portuguez, o pato com macarro do seculo XVIII, a almondega
indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa
cabidella de frango, petisco dilecto de D. Joo IV, de que os fidalgos
inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para
Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo
reles pe em calo as comedias de Labiche e os acepipes de Gouff. E
estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do
_boulevard_, requentados, e servidos em chalaa e galantine! Desastre
estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a
vitella de Lafes, os legumes, os dces, os vinhos, degeneraram,
_insipidaram_... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram
desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos
funestos no velho tronco lusitano, os fructos tm perdido o sabor, como
os homens tm perdido o caracter...

S uma occasio, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente
satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levra), diante
d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e gro de bico.
Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de
ns lanra casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual,
Fradique protestou com paixo:

--Nada de idas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita
innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. Joo V, antes da
Democracia e da Critica!

A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por
ter perdido esse typo de civilisao intensamente original, o mundo
ficra diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente,
quando via realisados em Lisboa, com uma inspirao original, o luxo e o
modernismo intelligente das civilisaes mais saturadas de cultura e
perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no
Rato--n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:

--Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia pde
dar uma festa igual: e para isto no me valia a pena ter feito a
quarentena em Marvo! Supponha porm voss que eu vinha achar aqui um
sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com
fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim,
desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos,
rezando em cro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa,
pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!

Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava,
com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do
tempo do snr. D. Joo V--Ramalho Ortigo no se conteve:

--Voss  um monstro, Fradique! O que voss queria era habitar o
confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de
viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu,
regalar-se de pittoresco e de archaismo... Voss, l na rua de Varennes,
consolado de decencia e de ordem. E ns aqui, em viellas fedorentas,
inundados  noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaas
do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurres para
a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que  o que
voss queria!

Fradique volveu serenamente:

--Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vr aqui,
a vs, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idas que toda a
Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas
algibeiras da casaca de sda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no
salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de
Marialva ou d'Aveiro,  espera que os senhores, de cima, depois de dadas
as graas, vos mandassem por um pretinho, os restos do per e o mote.
Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vs no merecieis
melhor; e a vida no  possivel sem um bocado de pittoresco depois do
almoo.

Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor
do pittoresco, estranho n'um homem to subjectivo e intellectual: mas
sobretudo havia o odio a esta universal modernisao que reduz todos os
costumes, crenas, idas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais
originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo _sujeito
utilitario e srio_ de sobrecasaca preta)--com a monotonia com que o
chinez apara todas as arvores d'um jardim, at lhes dar a frma unica e
dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.

Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo--o povo que no
mudou, como no muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus
caracteres graves e dces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos
seus defeitos:--pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria
idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia 
vassallagem com que depois do _Senhor Rei_ venera o _Senhor Governo_;
pela sua doura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pago, e
carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus
trajes, pelos seus cantos... Amava-o ainda (diz elle) pela sua
linguagem to bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se no sente
odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das _Sebentas_ de Direito
Publico.




V


A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no
Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo
poeta das Lapidarias tinha ento cincoenta annos; e cada dia se prendia
mais  quieta doura dos seus habitos de Paris.

Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo
palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilra com um luxo sobrio e
grave--tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos,
onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os
Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de _bric--brac_, tanto seduz
os financeiros e as _cocottes_. Nobres e ricas tapearias de Paizagem e
de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da
Renascena Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espao,
claridade, uma harmonia de tons castos--eis o que se encontrava nas
cinco salas que constituiam o covil de Fradique. Todas as varandas, de
ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins
de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico,
formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de
maio se arrisca a cantar um rouxinol.

A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o
toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga
dana de crte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu
creado Smith, velho escossez da _clan_ dos Macduffs, j todo branco de
pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o
acompanhava, com severo zlo, atravs da vida e do mundo.

De manh, s nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e
melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith
rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas  luz,
gritava:--_Morning, Sir!_ Immediatamente Fradique, dando de entre a
roupa um salto brusco que considerava de hygiene transcendente, corria
ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabea em agua
fria, com um resfolgar de Tryto ditoso. Depois, enfiando uma das
cabaias de sda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma
poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique)
reunia a ligeireza macia de Figaro  sapiencia confidencial do velho
Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava,
Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos
telegrammas politicos do _Times_, do _Standard_ e da _Gazeta de
Colonia_!

Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vr Smith, com a
sua alta gravata branca  Palmerston, a rabona curta, as calas de
xadrez verde e preto (cres da sua _clan_), os sapatos de verniz
decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita
sciencia e perfeita consciencia:--No se realisa a conferencia do
principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a
eleio supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo
emprestimo russo... Os amigos em Lisboa riam d'esta caturreira; mas
Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso  tradio
classica, que em todo o mundo latino, desde Scipio o Africano,
instituira os barbeiros como informadores universaes da coisa publica.
Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noes
politicas: e Fradique nunca dizia--Li no _Times_--mas Li no Smith.

Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente
tepido, d'onde voltava para as mos vigorosas de Smith, que, com um jogo
de luvas de l, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o
friccionava at que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo,
roseo e reluzente. Tomava ento o seu chocolate; e recolhia 
bibliotheca, sala sria e simples, onde uma imagem da Verdade,
radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre
os labios puros, symbolisando, em frente  vasta mesa de bano, um
trabalho todo intimo  busca de verdades que no so para o ruido e para
o mundo.

 uma hora almoava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:--e
depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de ch russo,
percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de
litteratura, de theatro ou de sociedade, que no eram da competencia
politica de Smith. Lia ento tambem com cuidado os jornaes portuguezes
(que chama algures phenomenos picarescos de decomposio social),
sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como
elle se comprazia em analysar a obra genuina e sincera da
mediocridade, e considerava Calino to digno d'estudo como Voltaire. O
resto do dia dava-o aos amigos, s visitas, aos _ateliers_, s salas
d'armas, s exposies, aos clubs--aos cuidados diversos que se cria um
homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisaco.

De tarde subia ao _Bois_ conduzindo o seu phaeton, ou montando a _Sab_,
uma maravilhosa egoa das caudelarias de An-Weibah que lhe cedera o Emir
de Mossul. E a sua noite (quando no tinha cadeira na Opera ou na
_Comdie_) era passada n'algum salo--precisando sempre findar o seu dia
entre o ephemero feminino. (Assim dizia Fradique).

A influencia d'este feminino foi suprema na sua existencia. Fradique
amou mulheres; mas fra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a
Mulher.

A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por
devoes de espiritualista, por curiosidades de critico, e por
exigencias de sanguineo.  maneira dos sentimentaes da Restaurao,
Fradique considerava-as como organismos superiores, divinamente
complicados, differentes e mais proprios de adorao do que tudo o que
offerece a Natureza: ao mesmo tempo, atravs d'este culto, ia dissecando
e estudando esses organismos divinos, fibra a fibra, sem respeito, por
paixo de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta
desappareciam para s restar n'elle um homem amando a mulher, na simples
e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.

As mulheres, alm d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas
theorias de conversao) classificadas em especies. Havia a mulher
d'exterior, flr de luxo e de mundanismo culto: e havia a mulher
d'interior, a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o
seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo
toda a investigao experimental. Estou em presena d'estas (escreve
elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com
sinete e lacre. Na presena, porm, d'aquellas que se exteriorisam e
vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se to livre e to
irresponsavel como perante um volume impresso. Folhear o livro (diz
elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas,
critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coup para
lr  noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto
percorridas as melhores paginas-- bem permittido, creio eu, segundo a
Cartilha e o Codigo.

Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um
homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejo para o
tornar litterariamente interessante? No sei. O commentario mais
instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre o
ephemero feminino. Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um
homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram
os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e cr de tabaco: mas junto
d'uma d'essas mulheres de exterior, estrellas de mundanismo,
tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi
humidos. A velha lady Mongrave comparava-os s guelas abertas de duas
serpentes. Havia alli com effeito um acto de alliciao e de
absorpo--mas havia sobretudo a evidencia da perturbao e do encanto
que o inundavam. N'essa atteno de beato diante da Virgem, no murmurio
quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento
enleado dos seus olhos finos,--as mulheres viam apenas a influencia
omnipotentemente vencedora das suas graas de Frma e d'Alma sobre um
homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que
aquelle que d sempre s mulheres a impresso clara, quasi tangivel--de
que ellas so irresistiveis, e subjugam o corao mais rebelde s com
mover os hombros lentos ou murmurar que linda tarde! Quem se mostra
facilmente seduzido--facilmente se torna seductor.  a lenda india, to
sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via
radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto
esplendor se reflecte a sua pelle engilhada--que peccados e que traies
no commetter a Maharina?...

Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente
o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sr, raro entre os
homens--um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade
inestimavel, quasi unica na nossa gerao--uma alma extremamente
sensivel, servida por um corpo extremamente forte.


De maior durao e intensidade que os seus amores foram todavia as
amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando
eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na
sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e
metallica: e atravs da admirao que me deixra a sua arte, a sua
personalidade, o seu vio, a sua cabaia de sda--confessei um dia a J.
Teixeira d'Azevedo que no encontrra no poeta das Lapidarias aquelle
_tepido leite da bondade humana_, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu,
depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A
sua mesma polidez, to risonha e perfeita, me parecera mais composta por
um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porm, concorreu para
a formao d'este juizo uma carta (j velha, de 1855) que alguem me
confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade,
lanava este rude programma de conducta:--Os homens nasceram para
trabalhar, as mulheres para chorar, e ns, os fortes, para passar
friamente atravs!...

Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do
Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu ento o
observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se
tivesse j operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges
chamou depois _le degel de Fradique_, bem cedo senti, atravs da
impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias, brotar, tepida e
generosamente, o _leite da bondade humana_.

A forte expresso de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua
incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma concluso da sua
philosophia, ou por uma inspirao da sua natureza--Fradique, perante o
peccado e o delicto, tendia quella velha misericordia evangelica que,
consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguer a mo
bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa
elle via (talvez contra a razo, mas em obediencia quella _voz_ que
fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se no calou) a
irremediavel fraqueza humana: e o seu perdo subia logo do fundo d'essa
Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica,
sempre prompto a brotar.

A sua bondade, porm, no se limitava a esta expresso passiva. Toda a
desgraa, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, at 
vasta e esparsa miseria que com a fora d'um elemento devasta classes e
raas, teve n'elle um consolador diligente e real. So d'elle, e
escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres
palavras:--Todos ns que vivemos n'este globo formamos uma immensa
caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza
inconsciente, impassivel, mortal como ns, que no nos entende, nem
sequer nos v, e d'onde no podemos esperar nem soccorro nem consolao.
S nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular
preceito, summa divina de toda a experiencia humana--ajudai-vos uns aos
outros! Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta
se misturam--cada um ceda metade do seu po quelle que tem fome;
estenda metade do seu manto quelle que tem frio; acuda com o brao
quelle que vai tropear; poupe o corpo d'aquelle que j tombou; e se
algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas
sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa
sympathia... S assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma
dignidade a esta escura debandada para a Morte.

Decerto Fradique no era um santo militante, rebuscando pelas viellas
miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle
no recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma
calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um trao a lapis,
lanando ao lado um algarismo--que indicava ao velho Smith o numero de
libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima
para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se no deve
Caridade mas Justia)--era que  hora das comidas mais vale um pataco
na mo que duas Philosophias a voar. As creanas, sobretudo quando
necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes,
singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um
pequenino que pede, tranzido de frio--param sob a chuva e sob o vento,
desapertam pacientemente o paletot, descalam pacientemente a luva, para
vasculhar no fundo da algibeira,  procura da moeda de prata que vai ser
o calor e o po d'um dia.

Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. No conheci
homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasio em
Paris, correndo ambos a uma estao de _fiacres_ para nos salvarmos d'um
chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos levva, a uma venda
de tapearias (onde Fradique cubiava umas _Nove Musas danando entre
loureiraes_), encontrmos apenas um _coup_, cuja pileca, com o sacco
pendente do focinho, comia melancolicamente a sua rao. Fradique teimou
em esperar que o cavallo almoasse com socego--e perdeu as _Nove Musas_.

Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes--por
sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente
empenhadas na lucta pelo po egoista, as almas cada dia se tornam mais
sccas e menos capazes de piedade. A fraternidade (dizia elle n'uma
carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas
vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e
luctar; e, atravs do constante deperecimento dos costumes e das
simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira
evidencia d'este egoismo  o desenvolvimento ruidoso da philantropia.
Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituio, com
regulamentos, relatorios, comits, sesses, um presidente e uma
campainha, e de sentimento natural passa a funco official-- porque o
homem, no contando j com os impulsos do seu corao, necessita
obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripes d'um estatuto. Com os
coraes assim duros e os invernos to longos, que vai ser dos
pobres?...

Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua
bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dce da lenha no
fogo, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam
ao longe, como afundados em horisontes de tristeza--para assim lamentar,
com enternecida elevao, todas as miserias humanas! E voltava ento a
amarga affirmao da crescente aspereza dos homens, forados pela
violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada
um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, _homo homini lupus_.

--Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.

Fradique encolheu os hombros:

--Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua
igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de
ser esquecido; e por fim ho de surgir novas turbas de escravos. No ha
nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia  reunir um peculio e
adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem  porta,
dar, segundo as circumstancias, ou po ou bala.


Assim, cheios de idas, de delicadas occupaes e d'obras amaveis,
decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, at que no
inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella frma que elle, como Cesar,
sempre appetecera--_inopinatam atque repentinam_.

Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Fert (velha amiga de
Fradique, com quem fizera n'um _yacht_ uma viagem  Islandia) achou no
_vestiario_ a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica
tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes
do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias
intolerantes, no se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official
rabugento e catarrhoso, e atravessou a praa da Concordia a p, de
casaca, at ao club da _Rue Royale_. A noite estava scca e clara, mas
cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que
durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e j eram
comparadas pelo velho Andr Vasali a um punhal traioeiro. Ao outro
dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porm aos resguardos,
seguro d'uma robustez que affrontra tantos ares inclementes, foi a
Fontainebleau com amigos no alto d'um _mail-coach_. Logo n'essa noite,
ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem
soffrimento, to serenamente que durante algum tempo Smith o julgou
adormecido, Fradique, como diziam os antigos, tinha vivido. No acaba
mais dcemente um bello dia de vero.

O dr. Labert declarou que fra uma frma rarissima de pleuriz. E
accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades
humanas:--_Toujours de la chance, ce Fradique!_

Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um co
cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de Frana nas coisas
do saber e da arte. Lindos rostos, j pisados pelo tempo, o choraram, na
saudade das emoes passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem
lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que
cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sda.

Jaz no _Pre-Lachaise_, no longe da sepultura de Balzac, onde no dia
dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de
Parma que tanto amra em vida o creador da _Comedia Humana_. Mos fieis,
por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore
simples que o cobre na terra.




VI


O erudito moralista que assigna _Alceste_ na _Gazette de Paris_ dedicou
a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a
sua aco:--Pensador verdadeiramente pessoal e forte, Fradique Mendes
no deixa uma obra. Por indifferena, por indolencia, este homem foi o
dissipador d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que
poderia ter talhado um monumento imperecivel--tirou elle durante annos
curtas lascas, migalhas, que espalhou s mos cheias, conversando, pelos
sales e pelos clubs de Paris. Todo esse p d'ouro se perdeu no p
commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego
desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia escrever:--Aqui jaz
o ruido do vento que passou derramando perfume, calor e sementes em
vo...

Toda esta chronica vem lanada com a usual superficialidade e
inconsiderao dos francezes. Nada menos reflectido que as designaes
de _indolencia_, _indifferena_, que voltam repetidamente, n'essa pagina
bem ornada e sonora, como para marcar com preciso a natureza de
Fradique. Elle foi ao contrario um homem todo de paixo, de aco, de
tenaz labor. E escassamente pde ser accusado de _indolencia_, de
_indifferena_, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma
religio, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisaes,
percorreu todo o saber do seu tempo.

O chronista da _Gazette de Paris_ acerta porm, singularmente,
affirmando que d'esse duro obreiro no resta uma obra. Impressas e dadas
ao mundo s d'elle conhecemos com effeito as poesias das Lapidarias,
publicadas na _Revoluo de Setembro_--e esse curioso poemeto em latim
barbaro, _Laus Veneris Tennebrosae_, que appareceu na _Revue de Posie
et d'Art_, fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas
symbolistas. Fradique porm deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de
Varennes, os entrevi eu dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de
ferro lavrado, que Fradique denominava a _valla commum_. Todos esses
papeis (e a plena disposio d'elles) foram legados por Fradique quella
_Libuska_ de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de
Jouarre, e que se nos torna to familiar e real com os seus velludos
brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno.

Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa
dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata
silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e
escrevia _capitaine_ com _t_, _e_, (_capitne_) morrera em Paris, por
fins d'outono, ainda moo, de uma languida e longa anemia.
Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa, cercada d'aias e de
crpes, recolheu s suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk,
no governo de Karkoff. Na primavera, porm, voltou com as flres dos
castanheiros,--e desde ento habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez.
Um dia, em casa de Madame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado
ento no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixo do mais
antigo e nobre dos seus poemas, o _Julgamento de Libuska_, casualmente
encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. Madame
Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora, condes de
Colloredo--e possuia justamente uma reproduco das duas folhas de
pergaminho que contm a velha epopeia barbara.

Ambos leram esse texto heroico--at que o dce instante veio em que,
como os dois amorosos de Dante, no leram mais no dia todo. Fradique
dera a Madame Lobrinska o nome de _Libuska_, a rainha que no
_Julgamento_ apparece vestida de branco e resplandecente de sapiencia.
Ella chamava a Fradique _Lucifer_. O poeta das Lapidarias morreu em
novembro:--e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo  melancolia
das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Os seus
amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira,
para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez--at que
reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez _Libuska_ no voltou, nem com as
flres dos castanheiros.

O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava
sobretudo os _menus_ e os _cotillons_. A sua carreira foi portanto
irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu no Rio de
Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario, esperando
aquella legao na Europa que o Principe Gortchakoff, ento Chanceller
Imperial, affirmava pertencer a Madame Lobrinska _par droit de beaut et
de sagesse_. A legao na Europa, n'uma capital mundana, culta, sem
bananeiras, nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das
saudades da neve:--e Madame Lobrinska, no seu exilio, chegou a aprender
to completamente a nossa dce lingua de Portugal, que Fradique me
mostrou uma traduco da elegia de Lavoski, _A Collina do Adeus_,
trabalhada por ella com superior pureza e relevo. S ella pois,
realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar como
paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento,
esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sccas e mortas
folhas de papel, cobertas de linhas incomprehendidas.

Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes,
escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo
carinhoso as feies d'esse transcendente espirito--e implorando, se no
alguns extractos dos seus manuscriptos, ao menos algumas revelaes
_sobre a sua natureza_. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa,
bem determinada, bem deduzida,--mostrando que decerto sob os claros
olhos de Juno estava uma clara razo de Minerva. Os papeis de Carlos
Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados, a ella que vivia
longe da publicidade, e do mundo que se interessa e lucra na
publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o caracter
intimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n'estas
condies o _revelar a sua natureza_ seria manifestamente contrariar o
recatado e altivo sentimento que dictra esse legado... Isto vinha
escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel
aspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma cora d'ouro, esta
divisa--Per terram ad coelum.

D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de
Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com
desconsolado orgulho denominava a _valla commum_, por julgar pobres e
sem brilho no mundo os pensamentos que para l arrojava?

Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se no completas, ao
menos esboadas, ou j coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a
que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e
um artista d'este seculo--uma _Psychologia das Religies_ e uma _Theoria
da Vontade_.

Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um
romance de realismo epico, reconstruindo uma civilisao extincta, como
a _Salammb_. E deduzem essa supposio (desamoravel) d'uma carta a
Oliveira Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia
mysteriosa:--Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas culpadas e
vs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o mal! Que demonio
malfazejo, coberto do p das Idades, e sobraando in-folios
archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de duro
inverno e de erudio decorativa:--Trabalha um romance! E no teu
romance resuscita a antiguidade asiatica!? E as suas suggestes
pareceram-me dces, amigo, d'uma doura lethal!... Que dir voss,
dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente no seu lar receber
um tomo meu, impresso com solemnidade, e comeando por estas
linhas:--_Era em Babylonia, no mez de Sivan, depois da colheita do
balsamo?..._ Decerto, voss (d'aqui o sinto) deixra pender a face
aterrada entre as mos tremulas, murmurando:--Justos cos! Ahi vem
sobre ns a descripo do templo das Sete-Espheras, com todos os seus
terraos! a descripo da batalha de Halub, com todas as suas armas! a
descripo do banquete de Sennacherib, com todas as suas iguarias!...
Nem os bordados d'uma s tunica, nem os relevos d'um s vaso nos sero
perdoados! E  isto um amigo intimo!

Ramalho Ortigo, ao contrario, inclina a crr que os papeis de Fradique
contm _Memorias_--porque s a _Memorias_ se pde coherentemente impr a
condio de permanecerem secretas.

Eu por mim, d'um melhor e mais contnuo conhecimento de Fradique,
concluo que elle no deixou um livro de Psychologia, nem uma Epopeia
archeologica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e v
ostentao de saber pittoresco e facil), nem _Memorias_--inexplicaveis
n'um homem todo de ida e de abstraco, que escondia a sua vida com to
altivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido
n'um velho solar russo, no existe uma _obra_--porque Fradique nunca foi
verdadeiramente um _auctor_.

Para o ser no lhe faltaram decerto as idas--mas faltou-lhe a certeza
de que ellas, pelo seu valor _definitivo_, merecessem ser registradas e
perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para
produzir aquella frma que elle concebera em abstracto como a unica
digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idas.
Desconfiana de si como pensador, cujas concluses, renovando a
philosophia e a sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um
movimento inesperado; desconfiana de si como escriptor e creador d'uma
Prosa, que s por si propria, e separada do valor do pensamento,
exercesse sobre as almas a aco ineffavel do absolutamente bello--eis
as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito
e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que
perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva
verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica inclemente e sagaz
que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com
redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento, to vivo n'elle, da
Realidade fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era, na
sua real potencia e nos seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais
potente ou mais largo esses fumos da illuso litteraria--que levam
todo o homem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por
faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que,
nem pela ida, nem pela frma, poderia levar s intelligencias persuaso
ou encanto que definitivamente marcassem na evoluo da razo ou do
gosto--preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos
nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que
tanto seduzia Descartes--_bene vixit qui bene latuit_.

Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os
surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim
passar  rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me
hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e ruidoso
inverno: e desde o caf, com os ps estendidos  alta chamma dos
madeiros de faia que estalavam na chamin, conversavamos sobre a Africa
e sobre religies Africanas. Fradique recolhera na regio do Zambeze
notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos nativos--que so
divinisaes dos chefes mortos, tornados pela morte _Mulungus_,
Espiritos dispensadores das coisas boas e ms, com residencia divina nas
cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e,
comparando os ceremoniaes e os fins d'estes cultos selvagens da Africa
com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou,
Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra
Junqueiro) que na religio o que ha de real, essencial, necessario e
eterno  o Ceremonial e a Liturgia--e o que ha de artificial, de
supplementar, de dispensavel, de transitorio  a Theologia e a Moral.

Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos traos
de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas. E sorrindo,
seduzido:

--Fradique! porque no escreve voss toda essa sua viagem  Africa?

Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a ida de compr um
livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe
propozesse marchar descalo, atravs da noite tormentosa, at aos
bosques de Marly. Depois, atirando a cigarette para o lume, murmurou com
lentido e melancolia:

--Para que?... No vi nada na Africa, que os outros no tivessem j
visto.

E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e
superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e
saturado de erudio, faz a travessia da Africa; e que em sciencia uma
s verdade necessita mil experimentadores--Fradique quasi se
impacientou:

--No! No tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo,
concluses que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a
pena registrar... S podia apresentar uma srie de impresses, de
paizagens. E ento peor! Porque o verbo humano, tal como o fallamos, 
ainda impotente para encarnar a menor impresso intellectual ou
reproduzir a simples frma d'um arbusto... Eu no sei escrever! Ninguem
sabe escrever!

Protestei, rindo, contra aquella generalisao to inteiria, que tudo
varria, desapiedadamente. E lembrei que a bem curtas jardas da chamin
que nos aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a
Sorbonna, o Instituto de Frana e a Escla Normal, muitos homens
houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a bella arte
de dizer.

--Quem? exclamou Fradique.

Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia
violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que
nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o _meu_ Bossuet
at Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, cr,
intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o contentava. A
disteno retumbante de Hugo era to intoleravel como a flaccidez oleosa
de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez
e nervo; a Taine fluidez e transparencia; a Flaubert vibrao e calor. O
pobre Balzac, esse, era d'uma exuberancia desordenada e barbarica. E o
preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente
indecente...

Aturdido, rindo, perguntei quelle feroz insatisfeito que prosa pois
concebia elle, ideal e miraculosa, que merecesse ser escripta. E
Fradique, emocionado (porque estas questes de frma desmanchavam a sua
serenidade) balbuciou que queria em prosa alguma coisa de crystallino,
de avelludado, de ondeante, de marmoreo, que s por si, plasticamente,
realisasse uma absoluta belleza--e que expressionalmente, como verbo,
tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz at os mais
subtis estados d'alma...

--Emfim, exclamei, uma prosa como no pde haver!

--No! gritou Fradique, uma _prosa como ainda no ha!_

Depois, ajuntou, concluindo:

--E como ainda a no ha,  uma inutilidade escrever. S se podem
produzir frmas sem belleza: e dentro d'essas mesmas s cabe metade do
que se queria exprimir, porque a outra metade no  reductivel ao verbo.

Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que
mantivera mudo aquelle superior espirito--possuido da sublime ambio de
s produzir verdades absolutamente definitivas por meio de frmas
absolutamente bellas.

Por isso, e no por indolencia de meridional como insinua
_Alceste_,--Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da
formidavel actividade do seu sr pensante alm d'aquelles que por longos
annos espalhou,  maneira do sabio antigo, em conversas com que se
deleitava,  tarde, sob os platanos do seu jardim, ou em cartas, que
eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o
separavam... As suas conversas, o vento as levou--no tendo, como o
velho dr. Johnson, um Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse
pela cidade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis
prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois s restam as suas
cartas--leves migalhas d'esse ouro de que falla _Alceste_, e onde se
sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que
pertenceram.




VII


Se a vida de Fradique foi assim governada por um to constante e claro
proposito de absteno e silencio--eu, publicando as suas Cartas, pareo
lanar estouvada e traioeiramente o meu amigo, depois da sua morte,
n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida
probidade de espirito. E assim seria--se eu no possuisse a evidencia de
que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicao da sua
Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma
carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a
um livro que me acompanhra e me encantra, a _Correspondencia de Xavier
Doudan_--um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeioar
na verdade e no para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, s
deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua
Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do
seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenos onde
gastra o vero, accrescentava n'um _post-scriptum_:--A Correspondencia
de Doudan  realmente muito legivel; ainda que atravs d'ella apenas se
sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no
doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solido e
doena, s pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo
o caso essas cartas--como leio todas as colleces de Correspondencias,
que, no sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de
Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia.
Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idas d'um homem que eu afoutamente
approvo--publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa
vantagem:--que o valor das idas (e portanto a escolha das que devem
ficar) no  decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de
amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu
julgamento quanto esto julgando um morto que s desejam mostrar ao
mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Alm d'isso uma
Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e
isto  inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter
do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta
o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo
necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar
contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentao
historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto
quente e vibrante da sua vida, contm mais ensino que a sua
philosophia--que  apenas a creao impessoal do seu espirito. Uma
Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao
immenso monto das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o
estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos,
alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo _accessivel_ ao
esforo intellectual. E finalmente como _cartas so palestras escriptas_
(assim affirma no sei que classico), ellas dispensam o revestimento
sacramental da _tal prosa como no ha_... Mas este ponto precisava ser
mais desembrulhado--e eu sinto parar  porta o cavallo em que vou trepar
ao pico de Bigorre.

Foi a lembrana d'esta opinio de Fradique, to clara e fundamentada,
que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle
camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma
coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu to
estreitamente amra e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um
anno--porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos
habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle andador de
continentes, era a mais preferida das suas occupaces, apresenta a
vastido e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de
Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na frma do
papel--esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna
corresse n'ellas com o desembarao com que a voz corta o ar; vastas
bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa
ida; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que no
prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. Calculei j, ajudado
pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas
cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora
suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contm uma
ida--resulta que cada ida me fica por _cento e vinte e cinco mil
reis_. Este mro calculo bastar para que o Estado, e a economica
Classe-Mdia que o dirige, empeam com ardor a educao--provando, como
inilludivelmente prova, que fumar  mais barato que pensar...
Contrabalano _pensar_ e _fumar_, porque so,  Carlos, duas operaes
identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento.

Estas dispendiosas folhas tm todas a um canto as iniciaes de
Fradique--F. M.--minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que
as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a
conversao de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel
como um buril para contornar bem rigorosamente a ida; ora hesitante e
demorada, com riscos, separaes, como n'aquelle esforo to seu de
tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e
rapida, lanada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de
abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava _le dgel de
Fradique_, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um
esvoaar de flammula ao vento.

Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas
familiares aos seus amigos, notava mramente o nome do mez. Existem
assim cartas innumeraveis com esta resumida indicao--_Paris, Julho_;
_Lisboa, Fevereiro_... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as
alcunhas naturalistas do kalendario republicano--_Paris, Floreal_;
_Londres, Nivoze_. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome
do mez pelo da flr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com
esta bucolica data--_Florena, primeiras violetas_ (o que indica fins de
fevereiro); _Londres, chegada dos Chrysanthemos_ (o que indica comeos
de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data
atroz--Lisboa, _primeiros fluxos da verborreia parlamentar!_ (Isto
denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e
bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fzes de velhos
compendios).

No  portanto possivel dispr a Correspondencia de Fradique por uma
ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu no
edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia
continua e intima das suas idas. Em cartas que no so d'um _auctor_ e
que no constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e
constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo
destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a
_personalidade_--o conjunto de idas, gostos, modos, em que
tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados
maos das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as
que mostram traos de caracter e relances da existencia activa; d'entre
as que deixam entrevr algum instructivo episodio da sua vida de
corao; d'entre as que, revolvendo noes geraes sobre a litteratura, a
arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu
pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as reala, d'entre as
que se referem a coisas de Portugal, como as suas impresses de
Lisboa, transcriptas com to maliciosa realidade para regalo de Madame
de Jouarre.

Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do
alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber to fundo e to certo. A
correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste--_c'est
son genie qui mousse_. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma
radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o
vinho rico e substancial que no foi nunca distribuido nem serviu s
almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em
excellente relevo, a imagem d'este homem to superiormente interessante
em todas as suas manifestaes de pensamento, de paixo, de
sociabilidade e de aco.


Alm do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que
tanto amei--eu obedeo, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um
intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nao s vive porque pensa. _Cogitat ergo est._ A Fora e a Riqueza
no bastam para provar que uma nao vive d'uma vida que merea ser
glorificada na Historia--como rijos musculos n'um corpo e ouro farto
n'uma bolsa no bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um
reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e
incontaveis diamantes nas suas collinas, ser sempre uma terra bravia e
morta, que, para lucro da Civilisao, os Civilisados pisam e retalham
to desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir
o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem
resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e,
atravs de uma serena legio de homens geniaes, incessantemente
educassem o mundo--nenhuma nao, mesmo n'esta idade de ferro e de
fora, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses slos
augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame
sublime das Idas e das Frmas.

S na verdade o Pensamento e a sua creao suprema, a Sciencia, a
Litteratura, as Artes, do grandeza aos Povos, attrahem para elles
universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de
verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo
sacrosantos. Que differena ha, realmente, entre Paris e Chicago? So
duas palpitantes e productivas cidades--onde os palacios, as
instituies, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque
frma pois Paris um fco crepitante de Civilisao que irresistivelmente
fascina a humanidade--e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor
de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o gro?
Porque Paris, alm dos palacios, das instituies e das riquezas de que
Chicago tambem justamente se glora, possue a mais um grupo especial de
homens--Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppe, Bonnat, Falguieres,
Gounod, Massenet--que pela incessante producco do seu cerebro convertem
a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as
_Origens do Christianismo_, o _Fausto_, as telas de Bonnat, os marmores
de Falguieres, nos viessem d'alm dos mares, da nova e monumental
Chicago--para Chicago, e no para Paris, se voltariam, como as plantas
para o sol, os espiritos e os coraes da Terra.

Se uma nao, portanto, s tem superioridade porque tem pensamento, todo
aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original
pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que
a tornar respeitada, a unica belleza que a tornar amada;--e  como
quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas
muralhas erguesse mais um castello.

Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de
Quental:--Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor
das _Odes Modernas_, Portugal contina a ser um grande paiz vivo... O
mestre da _Historia de Frana_ com isto significava--que emquanto viver
pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Aco, a
nossa patria no  inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e
se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestaes diversas: e se nem todas
irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de
versos pde sublimemente mostrar que a alma de uma nao vive ainda pelo
Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito
positivo, pde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio
Politico:--mas a revelao de um espirito como o de Fradique assegura
que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos
ainda, da graa, da vivaz inveno, da transcendente ironia, da
phantasia, do humorismo e do gosto...

Nos tempos incertos e amargos que vo, Portuguezes d'estes no podem
ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso
eu o revelo aos meus concidados--como uma consolao e uma esperana.




AS CARTAS




I


AO VISCONDE DE A.-T.


                                                        Londres, maio.


_Meu caro patricio._--S hontem  noite, tarde, ao recolher do campo,
encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando 
minha experiencia--qual  o melhor alfaiate de Londres. Depende isso
inteiramente do fim para que V. necessita esse Artista. Se pretende
meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto, ento
recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. So
tantos passos que forra--e, como diz o _Ecclesiastes_, cada passo
encurta a distancia da sepultura.

Se porm V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe d considerao e
valor no seu mundo; que V. possa citar com orgulho,  porta da Havaneza,
rodando lentamente para mostrar o crte ondeado e fino da cinta; que o
habilite a mencionar os Lords que l encontrou, escolhendo d'alto, com
ponta da bengala, cheviotes para blusas de caa; e que lhe sirva mais
tarde, na velhice,  hora gba do rheumatismo, como recordao
consoladora de elegancias moas--ento com ardente instancia lhe
aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que  da mais extremada moda,
absolutamente ruinoso, e falha tudo.

Para subsequentes conselhos de fornecedores, em Londres ou outros
pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato servio--Fradique
Mendes.




II


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)[2]


                                                      Paris, dezembro.


_Minha querida madrinha._--Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando
passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando
comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy, uma mulher
loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe
presentir, apesar de to indolentemente enterrada n'um divan, uma rara
graa no andar, graa altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente
da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma
estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e
_dianico_ (de Diana), provm estas garatujas.

Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho
castello do Anjou com herva nos fossos, porque me no lembro de ter
encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de
Londres em dezembro--nem aquelles hombros descahidos, dolentes,
_angelicos_, imitados de uma madona de Montegna, e inteiramente
desusados em Frana desde o reinado de Carlos X, do _Lyrio no Valle_, e
dos coraes incomprehendidos. No admirei com igual fervor o vestido
preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braos
eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um
romance triste. Deu-me assim a impresso, ao comeo, de ser uma elegiaca
do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porm surprehendi-lhe depois uma
faisca de vivacidade sensivel--que a datava do seculo XVIII. Dir a
minha madrinha:--como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao
lado fiscalisando?  que voltei. Voltei, e da hombreira da porta
readmirei os hombros dolentes de virgem do seculo XIII; a massa de
cabellos que o mlho de velas por traz, entre as orchideas, nimbava
d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos--dos olhos finos e
languidos... Olhos _finos e languidos_.  a primeira expresso em que
hoje apanho decentemente a realidade.

Porque  que no me adiantei, e no pedi uma apresentao? Nem sei.
Talvez o requinte em _retardar_, que fazia com que La-Fontaine,
dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais
longo. Sabe o que dava tanta seduco ao palacio das Fadas, nos tempos
do rei Arthur? No sabe. Resultados de no lr Tennyson... Pois era a
immensidade d'annos que levava a chegar l, atravs de jardins
encantados, onde cada recanto de bosque offerecia a emoo inesperada
d'um _flirt_, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que morbida
propenso acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto  que, depois da
contemplao junto  hombreira, voltei a cear ao p da minha radiante
tyranna. Mas por entre o banal sandwich de _foie-gras_, e um copo de
Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, j velho, se
recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos
Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi,
constantemente _vi_, os _olhos finos e languidos_. No ha seno o homem,
entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a fatias de
_foie-gras_. No o faria decerto um co de boa raa. Mas seriamos ns
desejados pelo ephemero feminino se no fosse esta providencial
brutalidade? S a poro de Materia que ha no homem faz com que as
mulheres se resignem  incorrigivel poro d'Ideal que n'elle ha
tambem--para eterna perturbao do mundo. O que mais prejudicou
Petrarcha aos olhos de Laura--foram os _Sonetos_. E quando Romeu, j com
um p na escada de sda, se demorava, exhalando o seu extasi em
invocaes  Noite e  Lua--Julietta batia os dedos impacientes no
rebordo do balco, e pensava: Ai, que palrador que s, filho dos
Montaigus! Este detalhe no vem em Shakspeare--mas  comprovado por
toda a Renascena. No me amaldie por esta sinceridade de meridional
sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura
castell do Anjou. A proposito de castellos: cartas de Portugal
annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra, na minha
quintarola, e que lhe destinava como seu pensadoiro e retiro nas horas
de ssta--abateu. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho.
Tudo tende  ruina n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu 
deputado, e escreve no _Jornal da Tarde_ estudos melancolicos sobre as
Finanas! O meu procurador em Cintra aconselha agora, para reedificar o
kiosque, um estimavel rapaz, de boa familia, que entende de construces
e que  empregado na Procuradoria Geral da Cora! Talvez se eu
necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha.  com estes
elementos alegres que ns procuramos restaurar o nosso imperio d'Africa!
Servo humilde e devoto--Fradique.




III


A OLIVEIRA MARTINS


                                                          Paris, maio.


_Querido amigo._--Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida
das Aguas-Ferreas, n'aquella manh de Maro em que conversavamos ao sol
sobre o caracter dos Antigos,--e remetto, como documento, a photographia
da mumia de Ramzes II (que o francez banal, continuador do grego banal,
teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos
reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.

Caro Oliveira Martins, no acha V. picarescamente suggestivo este
facto--_Ramzes photographado_?... Mas ahi est justificada a
mumificao dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e
tanta despeza, para que os homens gozassem na sua frma terrena, segundo
diz o Escriba, as vantagens da Eternidade! Ramzes, como elle
acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge
effectivamente com todos os seus ossos e a pelle que era sua n'este
anno da Graa de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona
dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito
decentemente a _Eternidade_ e a _Vida-Futura_. E eis-nos agora podendo
contemplar as proprias feies do maior dos Ramezidas, to realmente
como Hokem seu Eunuco-Mr, ou Pentaour seu Chronista-Mr, ou aquelles
que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de
flres, trazendo os seus chins de festa e a cutis envernizada com
oleos de Segabai. Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com
as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que
humilhantes reflexes no provoca ella sobre a irremediavel degenerao
do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha
essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior
sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que
cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel fora; todo esse
esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, no
conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um _Dono de homens_! Compare
esse semblante augusto com o perfil srno, obliquo e bigodoso d'um
Napoleo III; com o focinho de _bull-dog_ acorrentado d'um Bismarck; ou
com o caro do Czar russo, um caro parado e affavel que podia ser o do
seu Copeiro-Mr. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de
poderosos!

D'onde provm isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo
oleiro modelava o vaso fino:--e hoje, nas nossas civilisaes, no ha
logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expanso da
sua fora. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um
feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza.
Bastava ter o illimitado querer--para d'elle tirar o illimitado poder.
Eis-ahi em Ramzes um sr que tudo quer e tudo pde, e a quem Phtah, o
Deus sagaz, diz com espanto: a tua vontade d a vida e a tua vontade d
a morte! Elle impelle a seu bel-prazer as raas para norte, para sul ou
para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras
dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem
todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperana dos
homens; o logar para onde volve os seus olhos  bemdito e prospra, e o
logar que no recebe essa luz benefica jaz como o torro que o Nilo no
beijou; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando,
diante dos pylones do seu templo, Ramzes faz estalar as tres cordas
entranadas do seu latego de guerra! Eis um _homem_--e que seguramente
pde affirmar no seu canto triumphal:--Tudo vergou sob a minha fora:
eu vou e venho com as passadas largas d'um leo; o rei dos deuses est 
minha direita e tambem  minha esquerda; quando eu fallo o co escuta;
as coisas da terra estendem-se a meus ps, para eu as colher com mo
livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!

O mundo, est claro, era aquella regio, pela maior parte arenosa, que
vai da cordilheira Libyca  Mesopotamia: e nunca houve mais petulante
emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem , ou suppe
ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do
incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e
dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramzes
conserva mesmo alm da vida, resequido, mumificado, recheado de betume
da Juda.

Veja V. por outro lado as condies que cercam hoje um poderoso do typo
Bismarck. Um desgraado d'esses no est acima de nada e depende de
tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um
obstaculo. A sua aco no mundo  um perpetuo bater de craneo contra
espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenes, de
tradies, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se
lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um
artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista
obriga-o a encolher precipitadamente a garra que j ia estendendo. Dez
burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma
sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins
dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. -lhe to
impossivel dispr d'um cidado como d'um astro. Nunca pde avanar d'uma
arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A
vigilancia ambiente impe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos
cantos. Em vez de recolher as coisas da terra, com mo
livre--surripia-as s migalhas, depois de escuras intrigas. As
irresistiveis correntes de idas, de sentimentos, de interesses,
trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as,
pelo muito que braceja e ronca d'alto,  na realidade por ellas
arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em
apparencia no cimo das grandes coisas;--mas como a boia solta vai no
cimo da torrente.

Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria no pde deixar de
influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio
contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo _amolgado_ que se
nota na cara de Napoleo, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a
maior somma de poder contemporaneo--o feitio _amolgado_ d'uma coisa que
rola aos encontres, batendo contra muralhas.

Em concluso:--a mumia de Ramzes II (unica face authentica do homem
antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida
humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima fora, sem outros
limites que os do proprio querer--resultou perder-se para sempre, no
typo physico do homem, a summa e perfeita expresso da grandeza. J no
ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas
por entre os recortes do pllo. As unicas physionomias nobres so as das
feras, genuinos Ramzes no seu deserto, que nada perderam da sua fora,
nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes,
 um pobre Ado achatado entre as duas paginas d'um codigo.

Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei
hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P.,
conselheiro d'estado, _e muchas cosas ms_. _Ms_ em hespanhol; e _ms_
tambm em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta  a reaco
violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo,
desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um
conselheiro? Eu tomo um banho por dentro--um banho lustral, immenso
banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de
Shelley ou de Masset. Amigo certo _et nunc et semper_--Fradique Mendes.




IV


A MADAME S.


                                                     Paris, fevereiro.


_Minha cara amiga._--O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na
Passage Saulnier, 12, e como  aragonez, e portanto sobrio, creio que
com dez francos por lio se contentar amplamente. Mas se seu filho j
sabe o castelhano necessario para entender os _Romanceros_, o _D.
Quichote_, alguns dos Piccarescos, vinte paginas de Quevedo, duas
comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galds, que  tudo
quanto basta lr na litteratura de Hespanha,--para que deseja a minha
sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento,
o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor?
Vai assim o dce Raul desperdiar o tempo que a Sociedade lhe marcou
para adquirir idas e noes (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna,
do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento
intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)--em qu? No luxo de
apurar at a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de
adquirir noes e idas. Porque as linguas, minha boa amiga, so apenas
instrumentos do saber--como instrumentos de lavoura. Consumir energia e
vida na aprendizagem de as pronunciar to genuina e puramente que parea
que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se
pediu o primeiro po e agua da vida-- fazer como o lavrador, que em vez
de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um
pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser
trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flres e folhagens ao
comprido do pau. Com um hortelo assim, to miudamente occupado em
alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os
seus pomares Touraine?

Um homem s deve fallar, com impeccavel segurana e pureza, a lingua da
sua terra:--todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com
aquelle accento chato e falso que denunca logo o estrangeiro. Na lingua
verdadeiramente reside a nacionalidade;--e quem fr possuindo com
crescente perfeio os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma
desnacionalisao. No ha j para elle o especial e exclusivo encanto da
_falla materna_ com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o
isolam das outras raas; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente
lhe d o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca 
patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no
organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu
patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. _Rue de Rivoli_,
_Calle d'Alcal_, _Regent Street_, _Wilhem Strasse_--que lhe importa?
Todas so ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe
offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move
livremente, espontaneamente, sem hesitaes, sem attritos. E como pelo
Verbo, que  o instrumento essencial da fuso humana, se pde fundir com
todas--em todas sente e aceita uma Patria.

Por outro lado, o esforo contnuo de um homem para se exprimir, com
genuina e exacta propriedade de construco e de accento, em idiomas
estranhos--isto , o esforo para se confundir com gentes estranhas no
que ellas tm de essencialmente caracteristico, o Verbo--apaga n'elle
toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que
chegou a fallar absolutamente bem outras linguas alm da sua, perdeu
toda a originalidade de espirito--porque as suas idas forosamente
devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem
indifferentemente adaptadas s linguas mais oppostas em caracter e
genio. Devem, de facto, ser como aquelles corpos de pobre de que to
tristemente falla o povo--que cabem bem na roupa de toda a gente.

Alm d'isso, o proposito de pronunciar com perfeio linguas
estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro.
Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de _no sermos ns mesmos_,
de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o
Vocabulo. Ora isto  uma abdicao de dignidade nacional. No, minha
senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos
outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota s inspira
desconfiana, como sr que no tem raizes, nem lar estavel--sr que rola
atravs das nacionalidades alheias, successivamente se disfara n'ellas,
e tenta uma installao de vida em todas porque no  tolerado por
nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes
ver que o perfeito polyglotismo  um instrumento da alta _escroquerie_.

E aqui est como, levado pelo dilettantismo das idas, em vez d'um
endereo eu lhe forneo um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a
faa sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de
pronunciar _Viva la Gracia!_ e _Benditos sean tus ojos!_
exactissimamente como se vivesse a uma esquina da _Puerta del Sol_, com
uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto
todavia no impede que se utilisem os servios de D. Ramon. Elle, alm
de Zorrillista,  guitarrista; e pde substituir as lies na lingua de
Quevedo por lies na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhar
ainda assim uma nova faculdade de exprimir--a faculdade de exprimir
emoes por meio de cordas de arame. E este dom  excellente! Convem
mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas
d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella
tumultuam, do que poder, atravs das estalagens do mundo, reclamar com
perfeio o po e o queijo--em sueco, hollandez, grego, bulgaro e
polaco.

E ser realmente indispensavel mesmo para prover, atravs do mundo,
estas necessidades vitaes d'estomago e alma--o trilhar, durante annos,
pela mo dura dos mestres, os descampados e atoleiros das grammaticas e
pronuncias, como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que
fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda
a Europa com desafgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica,
comia simplesmente ovos--que s conhecia e s comprehendia sob o seu
nome nacional vernaculo de _ovos_. Para ella _huevos_, _oeufs_, _eggs_,
_das ei_, eram sons da Natureza bruta, pouco differenaveis do coaxar
das rs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim,
em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos--esta expedita senhora
reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem
explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar
lento das saias tufadas uma gallinha no chco, e gritava _ki-ki-ri-ki!_
_k-k-ri-ki!_ _k-r-k-k!_ Nunca, em cidade ou regio intelligente do
Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos--e superiormente
frescos!

Beijo as suas mos, benevola amiga--Fradique.




V


A GUERRA JUNQUEIRO


                                                          Paris, maio.


_Meu caro amigo._--A sua carta transborda de illuso poetica. Suppr,
como V. candidamente suppe, que trespassando com versos (ainda mesmo
seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a
Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres,
se pde desentulhar Deus da alluvio sacerdotal, e elevar o Povo (no
Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehenso
toda pura e abstracta da Religio--a uma religio que consista apenas
n'uma Moral apoiada n'uma F-- ter da Religio, da sua essencia e do
seu objecto, uma sonhadora ida de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religio a que se elimine o Ritual
desapparece--porque as Religies para os homens (com excepo dos raros
Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) no passa d'um conjunto de Ritos
atravs dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicao intima
com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, s este, tem sido o fim de
todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, at ao culto
recente do corao de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia--oh
incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um
bordo, e suba commigo por essa antiguidade fra at um sitio bem
cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do
Hymalaia, e as aras d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou,
no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro
povoado em que pararmos V. v, sobre um outeiro, um altar de pedra
coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em
torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos
por um aro d'ouro fino. So padres, meu amigo! So os primeiros
capelles da humanidade,--e cada um d'elles est, por esta quente
alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e
desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um
almofariz, com pancadas que devem resoar como tambor de victoria, as
hervas aromaticas que do o _Smma_; este, como um semeador, espalha
gros de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mos ao
co, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, esto executando
um Rito que encerra em si toda a Religio dos Aryas, e que tem por
objecto propiciar Indra--Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que
pde encher de ruina e dr o corao do Arya, sorvendo a agua das regas,
queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagas, tornando
Septa-Sindhou mais esteril que o corao do mau; ou pde, derretendo
as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo a chuva que jaz
no ventre das nuvens, restituir a agua aos rios, a verdura aos prados,
a salubridade s lagas, a alegria e abundancia  morada do Arya.
Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio,
derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que pde appetecer um povo
rural e pastoral.

No ha aqui Metaphysica, nem Ethica--nem explicaes sobre a natureza
dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma
Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para
que Indra o attenda--uma vez que, pela experiencia de geraes, se
comprovou que Indra s o escutar, s conceder os beneficios rogados,
quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de
linho candido, lhe erguerem canticos dces, lhe offertarem libaes, lhe
amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libaes,
sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e
do Intangivel, no descer  terra a derramar-se na sua bondade. E se
vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo,
o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do _Smma_, o Arya
ficar sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus--e
ser na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara
os passos.

Esta Religio primordial  o typo absoluto e inalteravel das Religies,
que todas por instincto repetem--e em que todas (apesar dos elementos
estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os
espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos
os climas, em todas as raas, ou divinisando as foras da Natureza, ou
divinisando a Alma dos mortos, as Religies, amigo meu, consistiram
sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem
simples procura alcanar da amizade de Deus os bens supremos da saude,
da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, j mais crente no esforo
proprio, pede esses bens  hygiene,  ordem,  lei e ao trabalho, ainda
persiste nos ritos propiciadores para que Deus _ajude_ o seu esforo.

O que V. observou em Septa-Sindhou poder verificar igualmente, parando
(antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Mono, que
V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde
quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisaes
greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de
Suburra, seja o proprio _Flamen Dialis_, qual  o corpo de doutrinas e
de conceitos moraes que compe a Religio,--elle sorrir, sem o
comprehender. E responder que a Religio consiste em _paces deorum
quaerere_, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses.
Na ida do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as
formulas, que uma longa tradio demonstrou serem as unicas que
conseguem fixar a attenco dos Deuses e exercer sobre elles persuaso ou
seduco. E n'esse ceremonial era indispensavel no alterar nem o valor
d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque
d'outro modo o Deus, no reconhecendo o Sacrificio da sua dileco e a
Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religio
falseava o seu fim supremo--influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a
ser a irreligio: e o Deus, vendo n'essa omisso de liturgia uma falta
de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A
obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lanado 
direita ou movido  esquerda, o cahir lento das gottas da libao, o
tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam
prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua excluso ou a sua
alterao constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra
a patria--porque attrahiam sobre ella a indignao dos deuses. Quantas
Legies vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice
deixra perder um gro de cinza da ara--ou porque Auruspice no arrancou
l bastante da cabea do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote
que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que
commettiam um erro no sacrificio--fosse elle to ligeiro como reter a
ponta da toga sobre a cabea, quando ella devia escorregar sobre o
hombro. De sorte que V., em Roma, lanando ironias d'ouro  Divindade,
era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na
_Velhice do Padre Eterno_, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo
publico, um traidor ao Estado, votado s masmorras do _Tuliano_.

E se, j farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos
philosophicos dias, encontrar nas duas grandes Religies do occidente e
do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovao ainda mais
saliente e mais viva de que a Religio consiste intrinsecamente de
praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as
penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio--flres
pregadas no altar pela imaginao ou pela virtude idealista. O
Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) est hoje
resumido a uma curta srie de observancias materiaes:--e todavia nunca
houve Religio dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta
estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porm,
obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das esclas e
dos mosteiros--onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia;
nunca penetraram nas multides para methodicamente governar os juizos ou
conscientemente governar as aces. Reduzido a catechismos, a cartilhas,
esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:--mas nunca o povo se
persuadiu que tinha Religio, e que portanto _agradava a Deus_, _servia
a Deus_, s por cumprir os dez mandamentos, fra de toda a pratica e de
toda a observancia ritual. E s decorou mesmo esses _Dez Mandamentos_, e
as _Obras de Misericordia_, e os outros preceitos moraes do Catechismo,
pela ida de que esses versiculos, _recitados com os labios_, tinham,
por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a atteno, a
bemquerena e os favores do Senhor. Para _servir a Deus_, que  o meio
_de agradar a Deus_, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o
rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos,
etc. S por estes ritos, e no pelo cumprimento moral da lei moral, se
propicia a Deus,--isto , se alcanam d'elle os dons inestimaveis da
saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Co e Inferno, sanco
extra-terrestre da lei, nunca, na ida do povo, se ganhava ou se evitava
pela pontual obediencia  lei. E talvez com razo, por isso mesmo que no
Catholicismo o premio e o castigo no so manifestaes da _justia_ de
Deus, mas da _graa_ de Deus. Ora a graa, no pensar dos simples, s se
obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos--a missa, o
jejum, a penitencia, a communho, o rosario, a novena, a offerta, a
promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religio do
Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Ancies, tudo se resume em
propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. No ha aqui
Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar
ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo,
eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e
toda a Liturgia--o catholico immediatamente abandonar uma Religio que
no tem Egreja visivel, e que no lhe offerece os meios simples e
tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes
para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse
instante ter acabado, milhes de sres tero perdido o seu Deus. A
Egreja  o vaso de que Deus  o perfume. Egreja partida--Deus
volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir  China ou a Ceylo, V. toparia com o mesmo
phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religio foi elaborada a mais alta
das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raas em que
elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no
mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multides em ritos,
ceremonias, praticas--a mais conhecida das quaes  o _moinho de rezar_.
V. nunca lidou com este moinho?  lamentavelmente parecido com o _moinho
de caf_: em todos os paizes budhistas V. o ver collocado nas ruas das
cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando
duas voltas  manivella, possa fazer chocalhar dentro as oraes
escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia
transcendente lhe ficar grato e lhe augmentar os seus bens.

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vo por este facto em decadencia. Ao
contrario! Esto no seu estado natural e normal de Religio. Uma
Religio, quanto mais se materialisa, mais se popularisa--e portanto
mais se divinisa. No se espante! Quero dizer, que quanto mais se
desembaraa dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de
Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regies naturaes que so
a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a
face com o seu Deus, n'uma unio directa e simples, to facil de
realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de
Padre-Nossos, o homem absoluto que est no co vem ao encontro do homem
transitorio que est na terra. Ora este encontro  o facto
essencialmente divino da Religio. E quanto mais elle se
materialisa--mais ella na realidade se divinisa.

V. porm dir (e de facto o diz): Tornemos essa communicao puramente
espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja
apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino. Mas para
isso  necessario que venha o Millenio--em que cada cavador de enxada
seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel
chegar, e cada tipoia de praa fr governada por um Mallebranche, ter
V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova
humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza
a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica,
intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma to grande
inspirao d'artista fez da costella de Ado,--haver sempre ao lado
d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communho mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poder ser
seno o privilegio d'uma _lite_ espiritual, deploravelmente limitada.
Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pag, budhista, christ,
mahometana, selvagem ou culta, a Religio ter sempre por fim, na sua
essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da clera
divina; e, como instrumentao material para realisar estes objectos, o
templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte
a qualquer mediano homem sahido da turba, que no seja um philosopho, ou
um moralista, ou um mystico, o que  Religio. O inglez dir:-- ir ao
servio ao domingo, bem vestido, cantar hymnos. O hind dir:-- fazer
_poojah_ todos os dias e dar o tributo ao _Mahadeo_. O africano
dir:-- offerecer ao _Mulung_ a sua rao de farinha e oleo. O
Minhoto dir:-- ouvir missa, rezar as contas, jejuar  sexta-feira,
commungar pela Paschoa. E todos tero razo, grandemente! Porque o seu
objecto, como sres religiosos, est todo em communicar com Deus; e
esses so os meios de communicao que os seus respectivos estados de
civilisao e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes
fornecem. _Voil!_ Para V. est claro, e para outros espiritos de
eleio, a Religio  outra coisa--como j era outra coisa em Athenas
para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multides humanas no so
compostas de Socrates e de Senecas--bem felizmente para ellas, e para os
que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, no se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de
ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades
rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens
do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de
entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o
seu Mulung (que era, como sempre, um seu av divinisado). O recado ou
pedido, porm, que desejava mandar  sua Divindade, no se podia
transmittir atravs dos Feiticeiros e do seu ceremonial, to graves e
confidenciaes matrias continha... Que faz Lubenga? Grita por um
escravo: d-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica
bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente
arrebata um machado, decepa a cabea do escravo, e brada
tranquillamente--parte! A alma do escravo l foi, como uma carta
lacrada e sellada, direita para o co, ao Mulung. Mas d'ahi a instantes
o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama  pressa outro
escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado,
separa-lhe a cabea, e berra:--Vai!

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulung... O segundo
escravo era um _post-scriptum_.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu
corao. Amigo do dito--Fradique.




VI


A RAMALHO ORTIGO


                                                         Paris, abril.


_Querido Ramalho._--No sabbado  tarde, na rue Cambon, avisto dentro
d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me
gritar: Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! s dez! no
caf da Paz!

Fico dcemente alvoroado; e s nove e meia, apesar da minha justa
repugnancia pela esquina do caf da Paz, Centro catita do _Snobismo_
internacional, l me installo, com um bock, esperando a cada instante
que surja, por entre a turba baa e molle do boulevard, o esplendor da
Ramalhal figura. s dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz
Carmonde, que abandonra  pressa uma sobremesa alegre _pour voir ce
grand Ortigan_! Comea uma espera a dois, com bock a dois. Nada de
Ramalho, nem do seu vio. s onze apparece Eduardo, esbaforido. E
Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres.
E assim at que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensao um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as
derradeiras fezes do bock, j desilludidos de Ramalho e das suas pompas,
quando roa pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho,
esticadinho, que traz na mo com respeito, quasi com religio, um
soberbo ramo de cravos amarellos.  um homem d'alm dos mares, da
Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo--que o retem e
apresenta o snr. Mendibal. Mendibal aceita um bock: e eu comeo a
contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada
n'uma lamina de machado, d'uma cr acobreada de chapo cco inglez, onde
a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece
coto, um coto negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada
recua, foge toda para traz, assustada. O caroo da garganta esganiada,
ao contrario, avana como o esporo d'uma galera por entre as pontas
quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na
gravata, grossa perola.

Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi
dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz 
toda de desconsolo:--mas, no que diz, revela a mais forte, segura e
insolente satisfao de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades
alm do mar, a considerao dos seus fornecedores, uma casa no
Parc-Monceau, e uma esposa adoravel. Como deslizou elle a mencionar
essa dama que lhe embelleza o lar? No sei. Houve um momento em que me
ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da
Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convico forte,
que a noute estava esplendida! Quando voltei  mesa e ao bock, o
Argentino encetra em monologo a glorificao da sua senhora. Carmonde
devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam,
deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura
pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma
cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e
os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admiraes
effervescentes, borbulhantes, que se no podem retrahir, que transbordam
por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafs: onde quer que
passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adorao pela
mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua.
Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para
fra o caroo da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza.
Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graa loira d'uma
parisiensesinha, picante em seduco e finura. Desde que comprehendi,
sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia
critica--porque foi para mim que se voltou, lanando o derradeiro trao,
o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: Sim, positivamente,
no havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da
mam (da mam d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois
era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeio... De cahir de joelhos!
Ento nos ultimos dias a mam andra to rabugenta!... Madame Mendibal
at emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira
que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a me d'ella,
madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na
_gare_ Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa
creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma
ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita  mam! A maior parte da
tarde, e uma tarde to linda, gastra-a a reunir aquelle esplendido ramo
de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!

-- verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! At consola. Olhe que
para estas lembrancinhas, para estes carinhos, no ha seno uma
franceza. Graas a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos,
um s que fosse, um rapaz, no me trocava pelo principe de Galles. Eu
no sei se o senhor  casado. Perde a confiana. Mas se no , sempre
lhe direi, como digo a todo o mundo:--Case com uma franceza, case com
uma franceza!...

No podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. no
vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com
o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite,
at ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece--o formoso
Chambray. Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e
radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinio tem
n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E,
immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava
impacientemente no sorriso e no olho humedecido.

Fra a Versalhes, com teno de visitar os Fouquiers. No mesmo
compartimento com elle ia uma mulher, _une grande et belle femme_. Corpo
soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao
meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves.
Dois solitarios nas orelhas. Sr substancial, solido, sem chumaos e sem
blagues, bem alimentado, envolto em considerao, superiormente
installado na vida.

E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de
molhar os beios a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua...
Chambray pensa comsigo:--burgueza, trinta annos, sessenta mil francos
de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova. E apenas o
comboyo larga, toma o seu grande ar Chambray, e dardeja  dama um
d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido.
Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um
pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do
_Figaro_ aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da
lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a
Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray
arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella
concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Est
travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray j se senta na banqueta ao lado
d'ella, fumando. Em Sevres, mo de Madame arrebatada por Chambray, mo
de Chambray repellida por Madame:--e ambas insensivelmente se
entrelaam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um
passeio por um sitio de Viroflay que s elle conhece, recanto bucolico,
de incomparavel doura, inaccessivel ao burguez. Depois, s duas horas
tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar--arrebata-a
moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples fora da voz
quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.

Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz
conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray
conhece  orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as
janellas encaixilhadas em madresilva. Porque no iro l almoar uma
caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente
uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo,
corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham l, com
effeito, uma installao magistral: quarto fresco e silencioso, mesa
posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. Em
todo o caso que o almoo suba depressa, porque elles tm de partir pelo
trem das duas horas--tal  o brado sincero de Chambray!

Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspirao genial--despe o
casaco, abanca em mangas de camisa.  um rasgo de bohemia e de
liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a _garota_ que ha quasi
sempre no fundo da _matrona_. Atira tambem o chapo, um chapo de
duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braos, e tem este
grito d'alma:

--_Ah oui, que c'est bon, de se desembter!_

E depois, como dizem os hespanhoes--_la mar_. O sol, ao despedir-se da
terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola;
ainda no quarto;--e outra vez  mesa, diante d'um _beefsteak_
reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.

Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar  estao para tomar o trem
de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapo, apanha uma das flres
da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo
quarto e pela alcova, para todo decorar e retr--e partem. Na estao,
ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a
Paris), Chambray n'um aperto de mo, j apressado e frouxo, supplica-lhe
que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura--_Lucie_.

--E  tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E
sei tambem que  casada porque na _gare_ Saint-Lazare,  espera d'ella,
e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o
marido...  um _rastacuero_ cr de chocolate, com uma barbita rala,
enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu
um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandra arranjar em
Viroflay... Mulher deliciosa. No ha seno as francezas!

Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que,
em resumo, este nosso Mundo  perfeito e no ha nos espaos outro mais
bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio,
todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a
Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um
immenso prazer e uma immensa vaidade--os dois unicos resultados que elle
conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de
existir. Madame experimentou uma sensao nova ou differente, que a
desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na
monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicao. E o
Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era
amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de
primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o
Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente
gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um
lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto est superiormente
organisado.

Amigo fiel, que fielmente o espera  volta da Hollanda--Fradique.




VII


A MADAME DE JOUJARRE

(Trad.)


                                                        Lisboa, maro.


_Minha querida madrinha._--Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao
chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia 
memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em
Paris, com as mos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edio
dos _Deveres_ de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar
todas as semanas, pelo correio, Portugal em descripes, notas,
reflexes e panoramas, como se l no sub-titulo da _Viagem  Suissa_ do
seu amigo o Baro de Fernay, commendador de Carlos III e membro da
Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus
juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem
reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo
escancaradamente ambos os olhos para recolher descripes, notas,
reflexes e panoramas d'esta terra que  minha e que _est a la
disposicion de ustd_... Chegramos a uma estao que chamam de
Sacavem--e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz,
atravs dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde
mortiamente surgiam aqui e alm luzinhas remotas e vagas. Eram
lanternas de faluas dormindo no rio:--e symbolisavam d'um modo bem
humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que
ao homem  dado descobrir no universal mysterio do Sr. De sorte que
tornei a cerrar resignadamente os olhos--at que,  portinhola, um homem
de bonet de galo, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu
bilhete, dizendo _Vossa Excellencia_! Em Portugal, boa madrinha, todos
somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por
_Excellencia_.

Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta
talvez--gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem
depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo
se sumia para a cidade sob a molhada noite de maro.

No casaro soturno,  espera das bagagens srias, fiquei eu, o Smith[3]
e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa
de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do
casaro regelava os ps.

No sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu
marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do
balco de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como
azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em
que oscillava o monto da nossa bagagem, veio por fim rolando com
pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de
folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos
que observavam (em seu servio, exigente madrinha!) um penteador sujo,
uma boceta de dce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda
enterrou o brao atravs d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente
declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.

Ficamos ss, Smith e eu. Smith j arrebanhra a custo a minha bagagem.
Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a
guia na mo, um carregador dava uma busca vagarosa atravs dos fardos,
barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede
enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um
embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o
saco de couro? Depois, descoroado, declarou que positivamente nas
nossas bagagens no havia nem couro nem saco. Smith protestava, j
irritado. Ento o capataz arrancou a guia das mos inhabeis do
carregador, e recomeou elle, com a sua intelligencia superior de chefe,
uma rebusca atravs das arrumaes, esquadrinhando zelosamente
caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafes...
Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para
dentro, para a escurido das plataformas interiores. Passados instantes
voltou, coando a cabea por baixo do bonet, cravando os olhos em roda,
pelo cho vasio,  espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo
desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega
atravs do casaro. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beio
(bondoso homem!), deitava tambem aqui e alm um olhar auxiliador e
magistral. Nada! Repentinamente porm uma mulher de leno vermelho na
cabea, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a
porta da estao:

--Ser aquillo, meu senhor?

Era! Era o meu saco, fra, no passeio, sob a chuvinha miuda. No
indaguei como elle se encontrava alli, ssinho, separado da bagagem a
que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras
grossas--e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima
da cabea, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia
que no havia tipoias.

--No ha! Essa  curiosa! Ento como sahem d'aqui os passageiros?

O homem encolheu os hombros. s vezes havia, outras vezes no havia,
era conforme calhava a sorte... Fiz reluzir uma placa de cinco tostes,
e suppliquei quelle benemerito que corresse as visinhanas da estao,
 cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroa, que me
levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando.
E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e
para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle servio. Em todas
as estaes do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia,  chegada
dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e
bagagem... Porque no as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel servio
que deshonrava a Nao!

O aduaneiro esboou um movimento de desalento, como na plena consciencia
de que todos os servios eram abominaveis, e a Patria toda uma
irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume
ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas
na face humana.

Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que no
havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.

--Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?

O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manh seguinte, com
uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse
recolher muito a meu contento. Essa separao porm no convinha ao
meu conforto. Pois n'esse caso elle no via soluo, a no ser que por
acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por
aquellas paragens.

Ento,  maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos
apinhamos  porta da estao, esperando atravs da treva a vela--quero
dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de
lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.

Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que iam dar tres horas, e
elle queria fechar a estao! E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado,
sob a noite agreste, a um monto de bagagens intransportavel? No! nas
entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido,
o homem lembrou outra soluo. E era que ns, eu e o Smith, ajudados por
um carregador--atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com
ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos
nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos
annos de civilisao repugnam a carregar fardos, e to tenaz  a
esperana n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o
Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escurido, com o
ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao
longe, no sentiriamos rolar para ns o calhambeque da Providencia.
Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha,
seguindo estes lances, deve ter j lagrimas a bailar nas suas
compassivas pestanas. Eu no chorei--mas tinha vergonha, uma immensa e
pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha
patria--e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada
mais fragil que a reputao das naes. Uma simples tipoia que falta de
noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma
civilisao secular!

No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e
elle queria fechar a estao! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, 
deciso do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas:
Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma
grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de
cantoeiras d'ao. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de
dia), comeamos, sombrios e em fila, a trilhar _ pata_ a distancia que
vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como
o estojo de viagem me derreava o brao, atirei-o para as costas... E
todos tres, de cabea baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com
um intenso azedume a estragar-nos o figado, l continuamos, devagar,
n'uma fileira soturna, avanando para dentro da capital d'estes reinos!
Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este
o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando,
tropeando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de
carrejo!...

No sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de
repente (como se a trouxesse,  redea, o anjo da nossa guarda) uma
caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella.
Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E,  uma,
todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos ps do
cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote,
praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa
omnipotencia--e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco
maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) no me podia levar por
menos de _tres mil reis_. Sim, minha madrinha, _dezoito francos_!
Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade
democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias
e das Revolues para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes.
Tremulo de colera, mas submisso como quem cede  exigencia d'um trabuco,
enfiei para a tipoia--depois de me ter despedido com grande affecto do
carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.

Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos
assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques,
clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e
todas as seduces. Debalde! No foi mais resistente ao bello cavalleiro
Percival o porto de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro
atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta
linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graas
te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio
dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de to barbara jornada.
Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:

--Ento, so tres mil reis?

 luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de
elle responder, o malandro sem par?

--Aquillo era por dizer... Eu no tinha conhecido o snr. D. Fradique...
L para o snr. D. Fradique  o que quizer.

Humilhao incomparavel! Senti logo no sei que torpe enternecimento que
me amollecia o corao. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos
enlaa a todos ns portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns
para os outros, e irremediavelmente estraga entre ns toda a Disciplina
e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o
snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e servial. Ambos eramos
portuguezes. Dei uma libra quelle bandido!

E aqui est, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no
ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu,
aquelle que de longe de si sempre pna--Fradique.




VIII


AO SNR. E. MOLLINET

Director da _Revista de Biographia e de Historia_


                                                      Paris, setembro.


_Meu caro snr. Mollinet._--Encontrei hontem  noite, ao voltar de
Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse
da _Revista de Biographia e de Historia_, me pergunta quem  este meu
compatriota Pacheco (Jos Joaquim Alves Pacheco), cuja morte est sendo
to vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda
o meu amigo saber que obras, ou que fundaes, ou que livros, ou que
idas, ou que accrescimo na civilisaco portugueza deixou esse Pacheco,
seguido ao tumulo por to sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua
figura e a sua vida. Pacheco no deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma
fundao, nem um livro, nem uma ida. Pacheco era entre ns superior e
illustre unicamente porque _tinha um immenso talento_. Todavia, meu caro
snr. Mollinet, este talento, que duas geraes to soberbamente
acclamaram, nunca deu, da sua fora, uma manifestao positiva,
expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado,
recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou
a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro,
Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do
conselho--Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a
seus ps, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca,
n'estas situaes, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve
necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fra, aquelle
immenso talento que l dentro o suffocava. Quando os amigos, os
partidos, os jornaes, as reparties, os corpos collectivos, a massa
compacta da nao, murmurando em redor de Pacheco _que immenso
talento!_ o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna--Pacheco
sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia,
sempre para cima, sempre para mais alto, atravs das instituies, com o
seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um
avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam
ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do
talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manh em
que Pacheco, desdenhando a _Sebenta_, assegurou que o seculo XIX era um
seculo de progresso e de luz. O curso comeou logo a presentir e a
affirmar, nos cafs da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta
admirao cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os
movimentos religiosos, das multides impressionaveis s classes
raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um
_premio_ no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou ento por toda a
academia--que, vendo Pacheco sempre pensabundo, j d'oculos, austero nos
seus passos, com praxistas gordos debaixo do brao, percebia alli um
grande espirito que se concentra e se retesa todo em fora intima. Esta
gerao academica, ao dispersar, levou pelo paiz, at os mais sertanejos
burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E j em escuras boticas
de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia,
com respeito, com esperana:--Parece que ha agora ahi um rapaz de
immenso talento que se formou, o Pacheco!

Pacheco estava maduro para a representao nacional. Veio ao seu
seio--trazido por um governo (no recordo qual) que conseguira, com
dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na
estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho
tomar ch e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:-- o
Pacheco, rapaz de immenso talento! E desde que as Camaras se
constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposio, se
comearam a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco,
que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador
recluso, os braos cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada
para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a
faiscar... Finalmente uma tarde, na discusso da resposta ao discurso da
Cora, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que
arengava sobre a liberdade. O sacerdote immediatamente estacou com
deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a
camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio
condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso
talento de Pacheco. No emtanto Pacheco no prodigalisou desde logo os
seus thesouros. De p, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito
seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurana do pensar e do
saber intimo:--que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a
autoridade! Era pouco, decerto:--mas a camara comprehendeu bem que, sob
aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idas
solidas. No volveu a fallar durante mezes--mas o seu talento inspirava
tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava
l dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sr. O unico recurso
que restou ento aos devotos d'esse immenso talento (que j os tinha,
incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco--como se olha para o co
pela certeza que Deus est por traz, dispondo. A testa de Pacheco
offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes,
junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam
maravilhados:--Nem  necessrio mais! Basta vr aquella testa!

Pacheco pertenceu logo s principaes commisses parlamentares. Nunca
porm accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades.
Apenas s vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da
sua concentrao, espetando o dedo, era para lanar alguma ida geral
sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente
attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos,
piscando o olho com finura) est  espera, l em cima, a pairar.
Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboando, com a mo gorda, o voar
superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o talento verdadeiro
s devia conhecer as coisas _pela rama_.

Este immenso talento no podia deixar de soccorrer os conselhos da
Cora. Pacheco, n'uma recomposio ministerial (provocada por uma
roubalheira) foi Ministro:--e immediatamente se percebeu que massia
consolidao viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua
pasta (que era a da Marinha) Pacheco no fez durante os longos mezes de
gerencia absolutamente nada, como insinuaram tres ou quatro espiritos
amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este
regimen, a nao deixou de curtir inquietaes e duvidas sobre o nosso
Imperio Colonial. Porqu? Porque sentia que finalmente os interesses
supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao
talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio
repleto e fecundo. s vezes porm, quando a opposio se tornava
clamorosa, Pacheco descerrava o brao, tomava com lentido uma nota a
lapis:--e esta nota, traada com saber e madurissimo pensar, bastava
para perturbar, acuar a opposio.  que o immenso talento de Pacheco
terminra por inspirar, nas camaras, nas commisses, nos centros, um
terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera
aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhao irresgatavel!
Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se
arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia ento o
Reino) de descurar a Instruco do paiz! Nenhuma incriminao podia ser
mais sensivel quelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e
succulenta, ensinra que um povo sem o curso dos lyceus  um povo
incompleto. Espetando o dedo (geito sempre to seu) Pacheco esborrachou
o homem temerario com esta coisa tremenda:--Ao illustre deputado que me
censura s tenho a dizer que emquanto, sobre questes d'Instruco
Publica, s. exc.^a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta
cadeira, fao luz!--Eu estava l, n'esse esplendido momento, na
galeria. E no me recordo de ter jmais ouvido, n'uma assembla humana,
uma to apaixonada e fervente rajada de acclamaes! Creio que foi d'ahi
a dias que Pacheco recebeu a gr-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional.
Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava s instituies que
servia, todas o appeteceram. Pacheco comeou a ser um Director universal
de Companhias e de Bancos. Cubiado pela Cora, penetrou no Conselho de
Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe.
Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do
seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nao.

 maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e
dignidades, a admirao pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz
certas frmas d'expresso s proprias da religio e do amor. Quando elle
foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mo no peito
com unco, reviravam o branco do olho ao co, para murmurar
piamente:--Que talento! E havia amorosos que, cerrando os olhos e
repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com
langor:--Ai! que talento! E, para que o esconder? Outros havia, a quem
aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e
desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando
patadas ao cho:--Irra, que  ter talento de mais! Pacheco no emtanto
j no fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais
vasta.

No relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr.
Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituies, reformas,
fundaes, obras, encontrar o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e
socialmente, est repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o
seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua
patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente
um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal--Pacheco
no teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco--Portugal no
seria o que  entre as naes!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello
radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu
immenso talento--mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite
(sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de
Arrdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.^a pensava
de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo
apenas, s. exc.^a deu com a mo grave, de leve, um corte horisontal no
ar. E foi em torno um murmurio d'admirao, lento e maravilhado.
N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim,
depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:--mediocre,
meia-altura, o snr. Canovas! Porque, note o meu caro snr. Mollinet como
aquelle talento, sendo to vasto--era ao mesmo tempo to fino!

Rebentou;--quero dizer, s. exc.^a morreu, quasi repentinamente, sem
soffrimento, no comeo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado
marquez de Pacheco. Toda a nao o chorou com infinita dr. Jaz no alto
de S. Joo, sob um mausoleu, onde por suggesto do snr. conselheiro
Accacio (em carta ao _Diario de Noticias_) foi esculpida uma figura de
_Portugal chorando o Genio_.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na
casa do dr. Videira.  uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente
intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei,
diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e
da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco,
a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservra
baixos--e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaou-lhe os
cantos da bca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos!
Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento!
Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado--Fradique.




IX


A CLARA...

(Trad.)


                                                         Paris, junho.


_Minha adorada amiga._--No, no foi na _Exposio dos Aguarellistas_,
em maro, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos
Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi
ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console,
cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos
aquelle nimbo d'ouro que to justamente lhe pertence como rainha de
graa entre as mulheres. Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir
canado, o vestido preto com relevos cr de boto d'ouro, o leque antigo
que tinha fechado no regao. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu
irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a _meditar_ em
silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e
comprehensivel, e ainda por no sei qu de fino, de espiritual, de
dolente e de meigo que brilhava atravs e vinha da alma. E to
intensamente me embebi n'essa contemplao, que levei commigo a sua
imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma
ondulao da sda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella,
alvoroado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e
cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o no confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio,
meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada
dce momento olhava--mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza,
os encantos diversos de Linha e de Cr. Era smente uma rara tela, posta
em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais
sobre mim que a d'uma frma muito bella que captiva um gosto muito
educado. O meu sr continuava livre, attento s curiosidades que at ahi
o seduziam, aberto aos sentimentos que at ahi o solicitavam;--e s
quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma
occupao mais pura, regressava  Imagem que em mim guardava, como um
Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e
ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspirao
superior.

Pouco a pouco, porm, tudo o que no foi esta contemplao perdeu para
mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da
minha alma, perdido na admirao da Imagem que l rebrilhava--at que s
essa occupao me pareceu digna da vida, no mundo todo no reconheci
mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella,
alheio s coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que  para
elle a unica realidade.

Mas no era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da
sua Imagem. No! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu
procurava conhecer atravs da Frma a Essencia, e (pois que a Belleza 
o esplendor da Verdade) deduzir das perfeies do seu Corpo as
superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o
segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, to
clara e lisa, logo me contou a rectido do seu pensar: o seu sorriso,
d'uma nobreza to intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do
mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspirao para um viver de
verdade e de belleza: cada graa de seus movimentos me trahiu uma
delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles to
adoravelmente se confunde, luz de razo, calor de corao, luz que
melhor aquece, calor que melhor alumia... J a certeza de tantas
perfeies bastaria a fazer dobrar, n'uma adorao perpetua, os joelhos
mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que
a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma
influencia descia d'ella sobre mim--uma influencia estranha, differente
de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente
omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella,
comecei a aspirar  santidade, para me harmonisar e merecer a
convivencia com a Santa a que me votra. Fiz ento sobre mim um aspero
exame de consciencia. Investiguei com inquietao se o meu pensar era
condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto no haveria
desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha
ida da vida era to alta e sria como aquella que eu presentira na
espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu corao no se
dispersra e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo
vigor junto do seu corao. E tem sido em mim agora um arquejante
esforo para subir a uma perfeio identica quella que em si to
submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha
educadora. E to dependente fiquei logo d'esta direco, que j no
posso conceber os movimentos do meu sr seno governados por ella e por
ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de
algum valor, ida ou sentimento,  obra d'essa educao que a sua alma
d  minha, de longe, s com existir e ser comprehendida. Se hoje me
abandonasse a sua influencia--devia antes dizer, como um asceta, a sua
Graa--todo eu rolaria para uma inferioridade sem remisso. Veja pois
como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer
esta supremacia salvadora, as suas mos no tiveram de se impr sobre as
minhas--bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo.
Assim um arbusto silvestre floresce  borda d'um fsso, porque l em
cima nos remotos cos fulge um grande sol, que no o v, no o conhece,
e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma...
Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a
Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo,
nenhum bem imploro de quem tanto pde e  para mim dona de todo o bem.
S desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do
simples brilho das suas perfeies, to facil e dcemente opra o meu
aperfeioamento. S peo esta permisso caridosa. Veja pois quanto me
conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adorao que at
receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da
imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a
toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um
dia de solido, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um
acto de ineffavel misericordia--como outr'ora a Virgem Maria quando
animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e
concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as
mos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, manh, vou passar a tarde com
Madame de Jouarre. No ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida,
mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em
pleno resplendor, e eu recebesse de si, no direi uma rosa, mas um
sorriso, ficaria ento radiosamente seguro de que este meu amor, ou este
meu sentimento indescripto e sem nome que vai alm do amor, encontra
ante seus olhos piedade e permisso para esperar.--Fradique.




X


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)


                                                        Lisboa, junho.


_Minha excellente madrinha._--Eis o que tem visto e feito, desde maio,
na formosissima Lisboa, _Ulyssipo pulcherrima_, o seu admiravel
afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive
ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar
d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre,
emprehendedor e destro, paladino das Idas Geraes, o meu parente, que se
chama Procopio, considerando que a mulher no vale o tormento que
espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a
um espiritualista--votou a sua vida  Logica e s se interessa e soffre
pela Verdade.  um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma
aguardente de muscatel excellente;--e eu trepo com gosto duas ou tres
vezes por semana  sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido
pela alma dce de Maine de Biran, que  o seu cicerone nas viagens do
Infinito, elle j entreviu emfim, disfarada por traz dos seus
derradeiros vos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou,
pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar
da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostes por
dia, fra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profisses em que se
occupa a classe-mdia em Portugal esto aqui representadas com
fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforo, como n'um indice, as
idas e os sentimentos que no nosso Anno da Graa formam o fundo moral
da nao.

Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio
tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa
vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,--e  mantido em
rigido asseio por uma d'estas creadas como s produz Portugal, bella
moa de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a
indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o
andar; serve nove almoos, nove jantares e nove chs; escarolla as
louas; prega esses botes de calas e de ceroulas que os portuguezes
esto constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o tero
da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um
barbeiro visinho, que est decidido a casar com ella quando fr
empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao
almoo ha dois pratos, sos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do
lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das
Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia--_quo te carmine
dicam, Rethica?_ A torrada, tratada pelo lume forte,  incomparavel. E
os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, j
morto, que  tido pelos portuguezes em grande venerao), uma imagem de
Pio IX sorrindo e abenoando, uma vista da varzea de Collares, e duas
donzellas beijocando uma rla, inspiram as salutares idas, to
necessarias, de Ordem Social, de F, de Paz campestre, e de Innocencia.

A patra, D. Paulina Soriana,  uma Madama de quarenta outonos,
frescalhota e rolia, com um pescoo muito nedio, e toda ella mais
branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sda roxa.
Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de
boa economia. Sem ser rigorosamente viuva--tem um filho, j gordo
tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim,
e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera no sei que duro mal
que o forava a infindaveis orchatas e semicupios; e est destinado por
D. Paulina  Burocracia que ella considera, e muito justamente, a
carreira mais segura e a mais facil.

--O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora,
depois do almoo, traando a perna)  ter padrinhos e apanhar um
emprego; fica logo arrumado; o trabalho  pouco e o ordenadosinho est
certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina est tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela
influencia (que  toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr.
conselheiro Vaz Netto, ha j no Ministerio das Obras Publicas ou da
Justia uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com leno,  espera
do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames,
j o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim
desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era no teimar mais
nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartio...

--Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas
confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. No era pela
necessidade, e por causa do emprego, como v. exc.^a v: era pelo gosto.

Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto
supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem
afreguezada, ha agora sete hospedes--e todos fieis, solidos, gastando,
com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais
antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente j conheo)  o
Pinho--o Pinho brazileiro, o commendador Pinho.  elle quem todas as
manhs annuncia a hora do almoo (o relogio do corredor ficou
desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto s dez horas,
pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar 
mesa, j posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial
de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a
idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o
trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou
uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no
Lazareto; desembarcou com dois bahs, a cadeira de verga, e cincoenta e
seis latas de dce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de
hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e
risonhamente, com o seis por cento das suas inscripes.  um sujeito
atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de
tijolo e de caf, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta
d'ouro pendente d'uma fita de sda, que elle, na rua, a cada esquina,
desemmaranha do cordo d'ouro do relogio para lr com interesse e
lentido os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes
regularidades que to admiravelmente concorrem para crear a ordem nos
Estados. Depois de almoo cala as botas de cano, lustra o chapo de
sda, e vai muito devagar at  rua dos Capellistas, ao escriptorio
terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um mcho,
junto do balco, com as mos cabelludas encostadas ao cabo do
guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do brao, e pela rua do
Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de
sdas mais tufadas ou alguma vittoria de librs mais lustrosas, alonga
os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de
Caneas, e repousa at que a tarde refresque. Segue ento para a
Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou d
a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em
bem-estar. s seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, cala os
chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta,
repetindo sempre a sopa. Depois do caf d um hygienico pela Baixa,
com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria
e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova
da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o
Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que  o _London
Brazilian_. Aos domingos,  noitinha, com recato, visita uma moa gorda
e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das
suas inscripces.

Toda a sua existencia  assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada
o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas
entidades--elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe d o seis por cento:
portanto o universo todo est perfeito, e a vida perfeita, desde que
Pinho, graas s aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o
Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta
para contentar a poro d'Alma e Corpo de que apparentemente se compe.
A necessidade que todo o sr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os
Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de
gestos ou sons,  em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e
diz, desdobrando o guardanapo--temos o vero comnosco: todos concordam
e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e
murmura--temos comnosco o inverno: se outro hospede discorda, Pinho
emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutao de idas
lhe basta.  mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um
prato fundo, que elle possa encher duas vezes--fica consolado e disposto
a dar graas a Deus. O _Diario de Pernambuco_, o _Diario de Noticias_,
alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas
outras necessidades de intelligencia e de imaginao, que Humboldt
encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funces do sentimento Pinho s
pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) no apanhar
uma doena. Com as coisas publicas est sempre agradado, governe este
ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que no
se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do
coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a
mim proprio me assegurou)--s deseja depois de morto que o no enterrem
vivo. Mesmo cerca d'um ponto to importante, como  para um
commendador o seu mausolo, Pinho pouco requer:--apenas uma pedra lisa e
decente, com o seu nome, e um singelo _orai por elle_.

Errariamos porm, minha querida madrinha, em suppr que Pinho seja
alheio a tudo quanto seja humano. No! Estou certo que Pinho respeita e
ama a humanidade. Smente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso
da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios,
verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles
se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que no cance
muito--para Pinho s ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo
Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe
ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos
papeis! muitas apolices! muitas inscripes!... Pois na primeira manh
que voltei, depois d'essa revelao,  casa de hospedes, Pinho,
ligeiramente crado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dce de
tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella
alma! Pinho no  um egoista, um Diogenes de rabna preta, sccamente
retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. No. Ha n'elle toda a
humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar.
Smente quem so, para Pinho, os seus genuinos semelhantes? Os
prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de
beneficio? Na cesso aos outros d'aquillo que a elle lhe  inutil. Ora
Pinho no se d bem com o uso da goiabada--e logo que soube que eu era
um possuidor de inscripes, um seu semelhante, capitalista como elle,
no hesitou, no se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o
acto de beneficio, e l veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dce
dentro d'um guardanapo.

 o commendador Pinho um cidado inutil? No, certamente! At para
manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nao, no ha mais
prestadio cidado do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o
seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta
do banco verificada s sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em
hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca pde
sahir ida ou acto, affirmao ou negao, que desmanche a paz do
Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, no
concorrendo para o seu movimento, mas no o contrariando tambem, Pinho
apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente,
Pinho  um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos
nossos tempos, em que o Estado est cheio de elementos morbidos, que o
parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta
inoffensibilidade de Pinho pde mesmo (em relao aos interesses da
ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado,
segundo corre, o vai crear baro. E baro d'um titulo que os honra a
ambos, ao Estado e a Pinho, porque  n'elle simultaneamente prestada uma
homenagem graciosa e discreta  Familia e  Religio. O pae de Pinho
chamava-se Francisco--Francisco Jos Pinho. E o nosso amigo vai ser
feito baro de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de
chuva! Desde o comeo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre
azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, est
chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados,
sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise,
formando das nuvens s ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde
a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma
aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No
caso d'estas aguas do co no cessarem, eu concluo que as intenes de
Jehovah, para com este paiz peccador, so diluvianas; e, no me julgando
menos digno da Graa e da Alliana divina do que No, vou comprar
madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou
assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fr bater com as
azas  sua vidraa, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando
commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais
tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o
Estado tenha sempre Pinhos a quem pea dinheiro emprestado, e Quinzinhos
gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do
corao--Fradique.




XI


A MR. BERTRAND B.

_Engenheiro na Palestina_


                                                         Paris, abril.


_Meu caro Bertrand._--Muito ironicamente, hoje, n'este Domingo de
Paschoa em que os cos contentes, se revestiram paschalmente d'uma
chasula d'ouro e d'azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o
santificar, me chega a tua horrenda carta, contando que findaste o
traado do _Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem_! E triumphas!
Decerto,  porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no p de
Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta, o
lapis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e atravs
das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a linha
onde em breve, fumegando e guinchando, rolar da velha Jeppo para a
velha Sio o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros,
limpando o grosso suor da faanha, desarrolham as garrafas da cerveja
festiva! E por traz de vs o Progresso, hirto contra as muralhas de
Herodes, todo engonado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando,
com estalidos asperos, as suas rigidas mos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traado, oh filho
dilecto e fatal da Escla de Pontes e Caladas! Nem necessitava esse
plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes
d'uma faca vil por cima d'uma carne nobre.  em Jaffa, na antiquissima
Jeppo, j heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estao
com os alpendres, e a carvoeira, e as balanas, e a sineta, e o chefe de
bonet agaloado, se ergue entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho,
onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a
boa tecedeira, e a ajudou a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva,
com a sua 1.^a classe forrada de chita, rola descaradamente pela
planicie de Saaron, to amada do co, que, mesmo sob o bruto pisar das
hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta
atravs de Beth-Dagon, e mistura o p do seu carvo de Cardiff ao
vetusto p do Templo de Baal, que Samso, mudo e repassado de tristeza,
derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atra com guinchos
o grande S. Jorge, que ainda couraado, emplumado, e o guante sobre a
espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua, por um tubo de
couro, do Poo Santo d'onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando
sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pra em Ramleh, que  a velha
Arymathea (_Arymathea, quinze minutos de demora!_), a aldeia dos dces
hortos e do homem dce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis
fumarentos, as collinas de Jud, onde choraram os prophetas. Rompe por
entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus.
Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia
pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo
valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o
Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no valle de
Hennom, no _terminus_ de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que no sou das Pontes e Caladas, nem
accionista da _Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina_, apenas um
peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero que a tua obra de
civilisao  uma obra de profanao. Bem sei, engenheiro! S. Pedro
resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de
Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto,  sombra das arvores
que os anjos iam adiante semeando,--so fabulas... Mas so fabulas que
ha dois mil annos do encanto, esperana, abrigo consolador, e energia
para viver a um tero da Humanidade. Os logares onde se passaram essas
historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela
necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na to linda
mythologia christ, so por isso veneraveis. N'elles viveram,
combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob at S. Paulo, todos os
sres excepcionaes que hoje povoam o co. Jehovah s entre esses montes
se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os
homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo.
Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de
Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E  penoso
que a fumaraa do Progresso suje um ar que conserva o perfume da
passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o slo onde
ainda no se apagaram as pgadas divinas.

Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma
incorrigivel fonte de Illuso. Mas a illuso, Bertrand amigo,  to util
como a certeza: e na formao de todo o espirito, para que elle seja
completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de
Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa,
tanto nos coraes simples como nas intelligencias cultas,  um
retrocesso na Civilisao, na verdadeira, n'aquella de que tu no s
obreiro, e que tem por melhor esforo aperfeioar a Alma do que reforar
o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais
util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Juda e
Galila, com a sua materialidade de carvo e ferro, o seu
desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz,
destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque
a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De
ella se ter conservado, atravs d'estes quatro mil annos, immutavelmente
_biblica_ e _evangelica_... Decerto sobrevieram mudanas em Israel; a
administrao turca tem menos esplendor que a administrao romana; dos
vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, s resta penhasco e ortiga; as
cidades, esboroadas, perderam o seu heroismo de cidadellas; o vinho 
raro; todo o saber se apagou; e no duvido que aqui e alm, em Sio,
n'algum terrao de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de
_Madame Angot_.

Mas a vida intima, na sua frma rural, urbana ou nomada, as maneiras, os
costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,--tudo permanece como
nos tempos de Abraho e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina 
penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle de cabra plantadas 
sombra dos sycomoros; o pastor apoiado  sua alta lana, seguido do seu
rebanho; as mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho
da fonte, com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda s
aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde,  porta das villas
muradas; os claros terraos cheios de pombas; o escriba que passa, com o
seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o gro; o homem de
longos cabellos nazarenos que nos sada com a palavra de _paz_, e que
conversa comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando,
para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as
procisses nupciaes, e as danas lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e
as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,--tudo transporta o
peregrino  velha Juda das Escripturas, e de um modo to presente e
real, que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher,
com largas argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro
preso pela ponta do manto, no ser ainda Rachel, ou se, entre os homens
sentados alm,  sombra da figueira e da vinha, aquelle de curta barba
frisada, que ergue o brao, no ser Jesus ensinando.

Esta sensao, preciosa para o crente,  preciosa para o intellectual,
porque o pe n'uma communho flagrante com um dos mais maravilhosos
momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais
interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoo na Grecia, e
que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua
sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas
incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em p, sob a
Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas barbara, e a Athenas
musulmana, e a Athenas constitucional e sordida. Por toda a parte o
velho scenario da historia est assim esfrangalhado e em ruinas. Os
proprios montes perderam, ao que parece, a configurao classica: e
ninguem pde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou
e to virgilianamente cantou. Um unico sitio na terra permanecia ainda
com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham
partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas
transformaes:--e esse sitio era um pedao da Juda, da Samaria e da
Galila. Se elle fr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo
social, querido do seculo, que  o districto de Liverpool ou o
departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a
opportunidade educadora de _vr_ uma grande imagem do Passado, que
profanao, que devastao bruta e barbara! E por perder essa frma
sobrevivente das civilisaes antigas, o thesouro do nosso saber e da
nossa inspirao fica irreparavelmente diminuido.

Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro,
meu Bertrand;--e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus,
como Jesus subia do valle de Jerich para Jerusalem, escarranchado n'um
burro. As coisas mais uteis, porm, so importunas, e mesmo
escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes no so
congeneres. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e
todavia ninguem, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se
installasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o
seu cheiro a guisados,--nas naves de Norte-Dame ou na velha S de
Coimbra. Um caminho de ferro  obra louvavel entre Paris e Bordeus.
Entre Jerich e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois
drachmas, e a tenda de lona que se planta  tarde entre os palmares, 
beira de uma agua clara, e onde se dorme to santamente sob a paz
radiante das estrellas da Syria.

E so justamente essa tenda, e o camello grave que carrega os fardos, e
a escolta flammejante de beduinos, e os pedaos de deserto onde se
galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de Salomo que se colhe
nas fendas d'uma ruina sagrada, e as frescas paragens junto aos poos
biblicos, e as rememoraes do Passado  noite em torno  fogueira do
acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o homem de gosto
que ama as emoes delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de
Jerusalem se partir para a Galila n'um wagon estridente e cheio de p,
talvez ninguem emprehenda a peregrinao magnifica--a no ser o destro
_commis-voyageur_ que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou
pannos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolar vazio. Que pura
alegria essa para todos os entendimentos cultos--que no sejam
accionistas dos _Caminhos de Ferro da Palestina_!...

Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que
melhor servem o Ideal, nunca resistem s tentaes sensualistas do
Progresso. Se d'um lado,  sahida de Jaffa, a propria caravana da Rainha
de Sab, com os seus elephantes e onagros, e estandartes, e lyras, e os
arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias
e balsamos, infindavel em poesia e lenda, se offerecesse ao homem do
seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomo--e do
outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse
a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por
hora, com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por
mais eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria
sofregamente para o wagon, onde podesse descalar as botas, e dormitar
de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperar pela propria virtude da sua
malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo que de
manh partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.^a classe, e comprar na
estao de Gaza a _Gazeta Liberal do Sinai_, e jantar divertidamente em
Ramleh no _Grand-Hotel dos Machabeus_--ir,  noite, em Jerusalem,
atravs da _Via Dolorosa_ illuminada pela electricidade, beber um bock e
bater tres carambolas no _Casino do Santo Sepulchro_!

Ser este o teu feito--e o fim da lenda christ.

Adeus, monstro!--Fradique.




XII


A MADAME DE JOUARRE


                                           Quinta de Refaldes (Minho).


_Minha querida madrinha._--Estou vivendo pinguemente em terras
ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um
amigo meu, que , como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente
as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda
os seus gados. Rijo, vioso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com
que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E
eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser
padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, cr de tijolo,
todo roscas e regueifas, com uma careca de melo, os olhinhos luzindo
entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No
sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornra
especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas
de roseira, e jasmineiro, l o conduzimos, todo enfeitado de laarotes e
rendas,  Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida
crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares at 
moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda no
vivera da alma, e j perdera a alma... E desde ento, como se Refaldes
fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flr
da horta a flr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de
mim, na doura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural
serenidade, que me affaga e me adormece.

O casaro conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo
Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiar no vero, prende
por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte,
com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como so
sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o porto, onde pende ainda
da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do
pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha
em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento
reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago
caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber
pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta,
brota dos ps de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que  talvez
Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando
nas mos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de
outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo atravs do
feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma
cruz gravada, ou um corao sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a
quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde
os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda
borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos mva; ou
severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi
sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de po, bem arada
e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga.
Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a
vida. Eram fidalgos que tomavam servio na milicia do Senhor, como os
seus irmos mais velhos tomavam servio na milicia d'El-rei--e que, como
elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da
sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho,
em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja--e
todos os dias os capes alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava
a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido
nas almofadas da sua cella mandava buscar o _D. Quichote_, ou as _Faras
de D. Petronilla_. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e
notas traadas pela mo erudita dos Abbades--s a adega...

No se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das
tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo
e mudez, to dces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades
do co; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por
n'ellas encontrar melhor que na sua cella a fecunda solido; nem os
claros de pinheiral gemente, com rochas nas, to proprias para a choa
e para a cruz do ermita... No! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da
fonte todavia corre dos ps da cruz) so solidas tulhas para o gro,
fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capes e de
pers reverendos. Adiante  a horta viosa, cheirosa, succulenta,
bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um
jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas
ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e
alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o
seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, to largo que os
pardaes voam dentro como n'um pedao de co. E por fim, ondulando
ricamente at s collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o
vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o
matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno
abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados,
como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas
espaosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e
recebem d'ellas, atravs da vidraaria cheia de sol, a perenne sensao
de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que no enganam. E a
sala melhor, traada para as occupaes mais gratas,  o refeitorio, com
as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do
jantar, conforme a veneravel tradio dos Cruzios, beber o seu caf aos
golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquido, ou seguindo nas
faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que no houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de
religiosa passou a secular. Estava j sabiamente preparada para a
profanidade;--e a vida que n'ella ento se comeou a viver, no foi
differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das
contradices do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou
perfeita. E, tal como , deslisa com incomparavel doura. De madrugada,
os gallos cantam, a quinta acorda, os ces de fila so acorrentados, a
moa vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a
fila dos jornaleiros mette-se s terras--e o trabalho principia, esse
trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa
sempre incansavel, porque  todo feito a cantar. As vozes vm, altas e
desgarradas, no fino silencio, d'alm, d'entre os trigos, ou do campo em
sacha, onde alvejam as camisas de linho cr, e os lenos de longas
franjas vermelhejam mais que papoulas. E no ha n'este labor nem dureza,
nem arranque. Todo elle  feito com a mansido com que o po amadurece
ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por
si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torro
tem sde, e corre para l gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios
bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que
tudo propicia e soccorre. Ella refora o brao do lavrador, torna
refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por
isso os que a servem, mantm uma serenidade risonha na tarefa mais dura.
Essa era a ditosa feio da vida antiga.

 uma hora  o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece
prodigamente:--e o vinho, o azeite, a hortalia, a fructa tm um sabor
mais vivo e so, assim cabidos das mos do bom Deus sobre a mesa, sem
passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa
superfina, se come na verdade to deliciosamente como n'estas rusticas
quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e
quatro achas a arder no cho, estas caseiras de aldeia, de mangas
arregaadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse
transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais
nobremente soube comer, desde que ha Deuses no co e na terra. Quem
nunca provou este arroz de caoula, este anho paschal candidamente
assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que
enchem a alma, no pde realmente conhecer o que seja a especial
bemaventurana to grosseira e to divina, que no tempo dos frades se
chamava a _comezaina_. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra
macia, a dormente susurrao das aguas regantes, os ouros claros e
foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso
humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e
risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias so um pouco materiaes, breve a tarde trar a poro
de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o co se apagou a
refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se no deixa fitar e quasi
repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doura, uma
pacificao que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dce, e cria
esse momento raro em que co e alma fraternisam e se entendem. Os
arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplao, que 
intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e
consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, canada
e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a
cruz  mais preguioso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se
est murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de
matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo  to calmo e simples e
terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente,
fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e to em
harmonia com ella, que no ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do
mundo, pensamento que no podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe,
para alm dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:--e
estamos ento realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem
abbade, feito s da religiosidade natural que nos envolve, to propria 
orao que no tem palavras, e que  por isso a mais bem comprehendida
por Deus.

Depois escurece, j ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla
no alto. A sala, em cima, est cheia de livros, dos livros fechados no
tempo dos Cruzios--porque s desde que no pertence a uma ordem
espiritual  que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda
com uma lenta e quieta palestra sobre idas e letras, emquanto na
guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e
em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde,
como a escutar, por detraz dos negros montes.

_Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae_... Mau
latim--grata verdade.

Seu grato e mau afilhado--Fradique.




XIII


A CLARA...

(_Trad._)


                                                      Paris, novembro.


_Meu amor._--Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que
tanto gastei n'um _fiacre_ desolador desde a nossa _Torre de Marfim_) eu
sentia o rumor do teu corao junto do meu, sem que nada os separasse
seno uma pouca de argilla mortal, em ti to bella, em mim to rude--e
j estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel
inerte, esse ineffavel _estar comtigo_ que  hoje todo o fim da minha
vida, a minha suprema e unica vida.  que, longe da tua presena, cesso
de viver, as coisas para mim cessam de ser--e fico como um morto jazendo
no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto
momento de vida que me ds, s com pousar junto de mim e murmurar o meu
nome--recomeo a aspirar desesperadamente para ti como para uma
resurreio!

Antes de te amar, antes de receber das mos de meu Deus a minha Eva--que
era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste,
dce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que
eu bradasse tambem triumphalmente o meu--_amo, logo existo!_ E no foi
s a minha realidade que me desvendaste--mas ainda a realidade de todo
este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento monto
de apparencias. Quando ha dias, no terrao de Savran, ao anoitecer, te
queixavas que eu contemplasse as estrellas estando to perto dos teus
olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus
hombros--no sabias, nem eu te soube ento explicar, que essa
contemplao era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente
estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas
derramas por uma emanao que te  propria, e que, antes de viver a teu
lado, nunca eu lhes percebera, como se no percebe a vermelhido das
rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha
bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha
Iniciao. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso
affirmar:--Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flr
que no era verdadeira, diante de muito altar que no era divino; mas a
Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei--e vi e senti a verdade!...

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu s to
sumptuosamente bella e to ethereamente bella, d'uma belleza feita de
Co e de Terra, belleza completa e s tua, que eu j concebera--que
nunca julgra realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e
toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa
podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e
mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, s talhados
para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma
prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos
Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o
seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando
ao esplendor da Harmonia a graa da Fragilidade; se ella fosse do nosso
tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se
tornasse Senhora da Dr--ento no estaria collocada n'um museu, mas
consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a
alliana sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto
a teriam acclamado _in eternum_ como a definitiva Divindade. Mas qu! A
pobre Venus s offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe
faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel
do meu scismar, a Venus Espiritual, Cythera e Dolorosa, no existia,
nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu
te comprehendo! Eras a encarnao do meu sonho, ou antes d'um sonho que
deve ser universal--mas s eu te descobri, ou, to feliz fui, que s por
mim quizeste ser descoberta!

V, pois, se jmais te deixarei escapar dos meus braos! Por isso mesmo
que s a minha Divindade,--para sempre e irremediavelmente ests presa
dentro da minha adorao. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam s
lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals.
Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te
construi, s Divindade minha, sempre no teu altar,--e eu sempre diante
d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitao,
abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento
se descontinue essa fuso ineffavel, que  para ti um acto de
Misericordia e para mim de Salvao. O que eu desejaria na verdade  que
fosses invisivel para todos e como no existente--que perpetuamente um
estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua
intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia
incomprehendida. E s para mim, de dentro do involucro escuro, se
revelaria a tua perfeio rutilante. V quanto te amo--que te queria
entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar qudo,
inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vr
resplandecer entre a multido maravilhada aquella que em segredo nos
ama. Todos murmurariam compassivamente--_Pobre creatura!_ E s eu
saberia da pobre creatura, o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto,
no estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio,
coberto de musgo,  beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo
e por mim e por _ti_! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma
virtude:--e foram decerto os modos to puros da tua alma que fixaram as
linhas to formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante
desespero de no te saber amar condignamente--ou antes (pois desceste de
um co superior) de no saber tratar, como ella merece, a hospeda divina
do meu corao. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade
immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a
Bemaventurana--e assim deslisarmos enlaados atravs do silencio e da
luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida 
mesma hora e indo continuar no _alm_ o mesmo sonho estatico. E outras
vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa,
fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos
sublimemente, e de ns s restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem
nome! Possuo uma velha gravura que  um Satanaz, ainda em toda a
refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braos para o Abysmo
uma freira, uma Santa, cujos derradeiros vos de penitencia se vo
esgaando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, atravs do
horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e
paixo, to intensas--que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa
roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, to fraco ou inhabil 
o meu corao, de modo que por o meu amor no ser perfeito, tenho de me
contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade.
Ainda hontem me perguntavas:--No calendario do seu corao, quantos
dias dura a eternidade? Mas considera que eu era um morto--e que tu me
resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo
que em mim sente e comprehende, so o meu amor por ti--e se elle me
fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu
sepulchro. S posso deixar de te amar--quando deixar de ser. E a vida
comtigo, e por ti,  to inexprimivelmente bella!  a vida de um Deus.
Melhor talvez:--e se eu fosse esse pago que tu affirmas que sou, mas um
pago do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a
cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te
elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim no
receio:--toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno
de ns como um Paraiso para ns creado, e durmo seguro sobre o teu peito
na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha
graa.

No penses que estou compondo canticos em teu louvor.  em plena
simplicidade que deixo escapar o que me est borbulhando na alma... Ao
contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na
sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio,
como posso, a minha infinita orao. E n'esta desoladora insufficiencia
do Verbo humano  como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho
ante ti, e levanto as mos, e te asseguro a unica verdade, melhor que
todas as verdades--que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...
Fradique.




XIV


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)


                                                        Lisboa, junho.


_Minha querida madrinha._--N'aquella casa de hospedes da travessa da
Palha, onde vive, atrellado  lavra angustiosa da Verdade, meu primo o
Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o
padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa
paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente
divertido.

O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros,
que padre Salgueiro no se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou
Alma entre os vagos padres da sua Diocese;--e que resume mesmo, com uma
fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da
classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fra, na casca, padre
Salgueiro  o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba,
desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentao das
auctoridades e das Secretarias, por ligaes de confisso e missa com
fidalgas que tm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa,
n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e
politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja;
as mos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e
doura das hostias; o caro cr de couro curtido, com um sobre-tom azul
nos queixos escanhoados; a cora livida entre o cabello mais negro e
grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos--tudo
n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda
hoje em Portugal fornece  Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se
alliar e de se apoiar  unica grande instituio humana que realmente
comprehende e de que no desconfia. Por dentro, porm, como miolo, padre
Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca
e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano s entrevira
exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um
velho leno de rap posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz
alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...

O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto
palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de
conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata
como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) no constitue de modo
algum uma funco espiritual--mas unicamente e terminantemente uma
funco civil. Nunca, desde que foi collado  sua parochia, padre
Salgueiro se considerou seno como um funccionario do Estado, um
Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da
alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhs
n'uma repartio do Terreiro do Pao para escrevinhar ou archivar
officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartio, onde,
em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar
sacramentos. As suas relaes portanto no so, nunca foram, com o co
(do co s lhe importa saber se est chuvoso ou claro)--mas com a
Secretaria da Justia e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o
collocou na sua Parochia, no para continuar a obra do Senhor guiando
docemente os homens pela estrada limpa da Salvao (misses de que no
curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar
certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem
social--baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.

Os sacramentos so, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras
ceremonias civis, indispensaveis para a regularisao do estado
civil,--e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina,
na Graa que communicam s almas, e na fora com que ligam a vida
transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario,
padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia
Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu
Liguori--mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso,
ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu
ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as
_Sebentas_ de Direito natural e de Direito romano para fazerem o
curso, receber na cabea a borla de doutor, e depois o aconchego de um
emprego facil. S o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A
sciencia  a formalidade penosa que l conduz--verdadeira provao, que,
depois de atravessada, no deixa ao espirito desejos de regressar  sua
disciplina,  sua aridez,  sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, j
esqueceu regaladamente a significao theologica e espiritual do
casamento:--mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com
boa fiscalisao civil, esmiuando escrupulosamente as certides, pondo
na beno toda a unco prescripta, perfeito em unir as mos com a
estola, cabal na ejaculao dos latins, porque  subsidiado pelo Estado
para casar bem os cidados, e, funccionario zeloso, no quer cumprir com
defeitos funces que lhe so pagas sem atrazo.

A sua ignorancia  deliciosa. Alm de raros actos da vida activa de
Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os pes multiplicados nas bodas
de Can, o azorrague cahindo sobre os vendilhes do Templo, certas
expulses de Demonios, nada sabe do Evangelho--que considera todavia
_muito bonito_.  doutrina de Jesus  to alheio como  philosophia de
Hegel. Da Biblia tambem s conhece episodios soltos, que aprendeu
certamente em oleographias--a Arca de No, Samso arrancando as portas
de Gaza, Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas
noites amigas em que conversamos na travessa da Palha,  o seu
desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da
Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de
repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus
Christo:--e desde essa festiva hora tudo para elle se esbate n'uma treva
incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiras de papas, at
Pio IX. No admira, porm, na obra pontifical de Pio IX, nem a
Infallibilidade, nem o Syllabus:--porque se prza de liberal, deseja
mais progresso, bemdiz os beneficios da instruco, assigna o _Primeiro
de Janeiro_.

Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco,  cavaqueando cerca dos
deveres que lhe incumbem como pastor de almas--os deveres para com as
almas. Que elle, por continuao de uma obra divina, esteja obrigado a
consolar dres, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a
cultura da bondade, adoar a dureza dos egoismos,  para o benemerito
padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! No que
desconhea a belleza moral d'essa misso, que considera mesmo _cheia de
poesia_. Mas no admitte que, formosa e honrosa como , lhe pertena a
elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da
alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo
emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinio de padre
Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigaes
sobrenaturaes que lhes so delegadas e pagas pelo Co. Muito differentes
se apresentam as obrigaes de um parocho! Funccionario ecclesiastico,
elle s tem a cumprir funces rituaes em nome da Egreja, e portanto do
Estado que a subsidia. Ha ahi uma criana para baptisar? Padre Salgueiro
toma a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre
Salgueiro toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil
reis (alm da esmola)--e o seu bispo reconhece o seu zelo.

A ida que padre Salgueiro tem da sua misso determina, com louvavel
logica, a sua conducta. Levanta-se s dez horas, hora classicamente
adoptada pelos empregados do Estado. Nunca abre o breviario--a no ser
em presena dos seus superiores ecclesiasticos, e ento por deferencia
gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila,
pousa a mo na espada. Emquanto a oraes, meditaes, mortificaes,
exames d'alma, todos esses pacientes methodos de aperfeioamento e
santificao propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou
favoraveis. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que,
sendo um funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omisses, o
decoro que tornar as suas funces respeitadas do mundo. Veste, por
isso, sempre de preto. No fuma. Todos os dias de jejum come um peixe
austero. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. Durante o
inverno s uma noite vai a um theatro, a S. Carlos, quando se canta o
_Polliuto_, uma opera sacra, de purissima lio. Deceparia a lingua, com
furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E  casto. No condemna e
repelle a mulher com colera, como os Santos Padres:--at a venra, se
ella  economica e virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a
mulher: elle  um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto no
entra nas suas funces.  rigidamente casto. No conheo maior
respeitabilidade do que a de padre Salgueiro.

As suas occupaes, segundo observei, consistem muito logicamente, como
empregado (alm das horas dadas aos deveres liturgicos), em procurar
melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido politico:--e em
Lisboa, tres noites por semana, toma ch em casa do seu chefe, levando
rebuados s senhoras. Maneja habilmente eleies. Faz servios e
recados, complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da
Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo  incansavel:--e
ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa de duas
incumbencias de. S. Exc.^a uma relativa a queijadas de Cintra, outra a
uma colleco do _Diario do Governo_.

No fallei da sua intelligencia.  pratica e methodica--como verifiquei,
assistindo a um sermo que elle prgou pela festa de S. Venancio. Por
esse sermo, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis--e deu,
por esse preo, um sermo succulento, documentado, encerrando tudo o que
convinha  glorificao de S. Venancio. Estabeleceu a filiao do Santo;
desenrolou todos os seus milagres (que so poucos) com exactido,
exarando as datas, citando as auctoridades; narrou com rigor agiologico
o seu martyrio; enumerou as egrejas que lhe so consagradas, com as
pocas da fundao. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos
Negocios Ecclesiasticos. No esqueceu a Familia Real, a quem rendeu
preito constitucional. Foi, em summa, um excellente relatorio sobre S.
Venancio.

Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle
murmurou, modesto e simples:

--S. Venancio infelizmente no se presta. No foi bispo, nunca exerceu
cargo publico!... Em todo o caso, creio que cumpri.

Ouo que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece. Jesus no
possue melhor amanuense. E nunca realmente comprehendi por que razo
outro amigo meu, um frade do Varatojo, que, pelo extasi da sua f, a
profuso da sua caridade, o seu devorador cuidado na pacificao das
almas, me faz lembrar os velhos homens evangelicos, chama sempre a este
sacerdote to zeloso, to pontual, to proficiente, to respeitavel--o
horrendo padre Salgueiro!

Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos so
necessarios para que uma montanha se desfaa e se abata at ao
tamanhinho d'um outeiro que um cabrito galga brincando. E menos de dois
mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres
das Sete Egrejas da Asia at ao divertido padre Salgueiro, que no  de
sete Egrejas, nem mesmo d'uma, mas smente, e muito devotamente, da
Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este baque provaria a
fragilidade do Divino--se no fosse que realmente o Divino abrange as
religies e as montanhas, a Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos
folgando, tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz, e at este seu
afilhado, que  todavia humanissimo.--Fradique.




XV


A BENTO DE S.


                                                       Paris, outubro.


_Meu caro Bento._--A tua ida de fundar um jornal  damninha e
execravel. Lanando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma
outra d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhs, como diz
to assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para
que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se
exacerbe mais a Vaidade, e se endurea mais a Intolerancia. Juizos
ligeiros, Vaidade, Intolerancia--eis tres negros peccados sociaes que,
moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os
atiar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. J
decerto o Diabo est atirando mais braza para debaixo da caldeira de
pez, em que, depois do Julgamento, recozers e ganirs, meu Bento e meu
reprobo!

No penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. Joo
Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa,
que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo
affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito
dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram
estouvadamente opinies: o grego era inconsiderado e garrulo; j Moyss,
no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas
nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisao impudente se
tornou a operao natural do entendimento. Com excepo de alguns
philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo
Escrupulo, todos ns hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraamos
alegremente, do penoso trabalho de verificar.  com impresses fluidas
que formamos as nossas massias concluses. Para julgar em Politica o
facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal
escutado a uma esquina, n'uma manh de vento. Para apreciar em
Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idas novas, que o amor
de extensos annos fortemente encadeou--apenas nos basta folhear aqui e
alm uma pagina, atravs do fumo escurecedor do charuto. Principalmente
para condemnar, a nossa ligeireza  fulminante. Com que soberana
facilidade declaramos--Este  uma besta! Aquelle  um maroto! Para
proclamar-- um genio! ou  um santo! offerecemos uma resistencia
mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digesto ou a macia
luz d'um co de maio nos inclinam  benevolencia, tambem concedemos
bizarramente, e s com lanar um olhar distrahido sobre o eleito, a
cora ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um magano
enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito
dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. No
ha aco individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre
que no estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinio bojuda.
E a opinio tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do
facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos
olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por
um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei
pela Asia, varo douto, collaborador de _Revistas_, socio de Academias,
considerava os francezes todos, desde os senadores at aos varredores,
como porcos e ladres... Porqu, meu Bento? Porque em casa de seu
sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que no mudava
de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra
magistralmente a formao escandalosa das nossas generalisaes.

E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O
jornal--o jornal, que offerece cada manh, desde a chronica at aos
annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na
vespera,  meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaas,
por excellentes rapazes que rompem pela redaco, agarram uma tira de
papel, e, sem tirar mesmo o chapo, decidem com dois rabiscos da penna
sobre todas as coisas da Terra e do Co. Que se trate d'uma revoluo do
Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o
rabisco da penna, com um trao, esparrinha e julga. Nenhum estudo,
nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um
alto jornal de Paris, commentando a situao economica, e politica de
Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que em Lisboa os filhos
das mais illustres familias da aristocracia se empregam como
_carregadores da alfandega_, e ao fim de cada mez mandam receber as
soldadas _plos seus lacaios_! Que dizes tu aos herdeiros das casas
historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega,
e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas
pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma
deliciosa e chimerica alfandega que  menos das _Mil e Uma Noites_, que
das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel,
rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de
Telephones, de Telegraphos, com uma redaco muito erudita, pinguemente
remunerada, que conhece a Europa, pertence  Academia das Sciencias
Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal,
fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna
sacudida lanar sobre a Frana e sobre a China, e sobre o desventuroso
Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos to solidos e
comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente
cerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...

Este  o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro.
Pelo jornal, e pela reportagem que ser a sua funco e a sua fora, tu
desenvolvers, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A
reportagem, bem sei,  uma util abastecedora da Historia. Decerto
importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do
feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a
Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora
bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis,
e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuir o seculo
XX para reconstruir com segurana a personalidade do auctor das _Origens
do Christianismo_, e, atravs d'ella, comprehender a obra. Mas, como a
reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do
Mundo ou nas direces do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre
toda a sorte e condies de gente van, desde os jockeys at aos
assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a
documentao da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente,
para a propagao das vaidades!

O jornal  com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana,
lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos  ella, a vaidade
do homem! J sobre ella gemeu o gemebundo Salomo, e por ella se perdeu
Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porm, meu
Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor
offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisao,
ruidosos e cos, tudo deriva da vaidade, tudo tende  vaidade. E a frma
nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome
impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal! _Vir no
jornal!_ eis hoje a impaciente aspirao e a recompensa suprema! Nos
regimens aristocraticos o esforo era obter, seno j o favor, ao menos
o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos
mortaes  alcanar em sete linhas o louvor do jornal. Para se
conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as
aces--mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O nosso generoso amigo
Z... s manda os cem mil reis  Creche, para que a gazeta exalte os cem
mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem  mesmo necessario que as
sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome
em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho  mais appetecido que
o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E no ha classe que no
ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella  to roedora nos
sres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que s pareciam
amar na vida, como a sua frma melhor, a quietao e o silencio...
Entrmos na quaresma ( entre as cinzas, e com cinzas, que te estou
moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades
dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prgar nos pulpitos de
Paris. E porqu esses sermes sensacionaes, d'uma arte profana e
theatral, com exhibices de psychologia amorosa, com affectaes de
anarchismo evangelico, e to creadores de escandalo que Paris corre mais
gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que 
Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S.
Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a
celebridade dos histries. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas
folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os
iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o
Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas
que o levem  gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E  por essa
gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os
Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na
extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e
de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos
charlates... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas  a
verdade, meu Bento! V quantos preferem ser injuriados a serem
ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio
mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para
apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. At o velho
instincto da conservao cede ao novo instincto da notoriedade: e existe
tal magano, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia
das coras, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beios,
pensativo, e deseja ser o morto.

N'este vero, uma manh, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre
a comprar phosphoros. Rente ao balco de zinco, diante de dois copos de
vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e
pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um
sobrevivente das hordas d'Alarico,--gritava triumphalmente para outro
vadio imberbe e livido, a quem arremessra um jornal:

-- verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna,
logo em cima, onde diz:--_Hontem um infame e ignobil bandido_... Sou eu!
O nome todo!

E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como
agora se diz to alambicadamente, um estado d'alma! Tu, Bento, vaes
crear d'estes estados.


Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu
novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu
partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada:
dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado
lemma de _imparcialidade_, _desinteresse_, etc., s haver, segundo
Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo;
para alm d'esse muro, segundo o jornal de Bento, s haver
necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia!  a
disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu
sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que
te impe fatalmente esta divertida separao das virtudes e dos vicios.
Desde que penetras na batalha, nunca poders admittir que a Razo ou a
Justia ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem
descargas pela manh a tua metralha silvante de adjectivos e
verbos--porque ento a decencia, se no j a consciencia, te forariam a
saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles
so maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo
com que os trespassas. Das solas dos ps at aos teus raros cabellos,
meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a ida que se
eleve, para alm do muro, a condemnars como funesta, sem exame, s
porque appareceu dez braas adiante, do lado dos outros, que so os
Reprobos, e no do lado dos teus, que so os Eleitos. Realisam esses
outros uma obra? Bento no poupar prosa nem musculo para que ella
perea: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrev
n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua
demolio, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma
coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos--e vivesse. Nos
homens que vagam para alm do teu muro, tu s vers peccadores; e quando
entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres
os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta
santidade te no amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:--L anda
aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!

Assim tu sers no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o
adoptam lentamente e moralmente se fazem  tua imagem. Todo o jornal
distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manh a
multido se envenena aos goles com esse veneno capcioso.  pela aco do
jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo--e que as
almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes  indulgencia. A
sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias
humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam:
e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente
sociavel, tenderia a uma suprema pacificao--se cada manh o jornal no
avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raas, e, com os seus
gritos, os acirrasse como se acirram mastins at que se enfuream e
mordam. O jornal exerce hoje todas as funces malignas do defuncto
Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e  no s o Pae da Mentira, mas o
Pae da Discordia.  elle que por um lado inflamma as exigencias mais
vorazes--e por outro fornece pedra e cal s resistencias mais iniquas.
V tu quando se alastra uma grve, ou quando entre duas naes
bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois
credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens,
que o abuso da Civilisao material tem amollecido e desmarcialisado, 
murmurar _paz! juizo!_ e estenderem as mos uns para os outros,
n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o
jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na
alma a intransigencia, e os empurra  batalha, e enche o ar de tumulto e
de p.

O jornal matou na terra a paz. E no s atia as questes j dormentes
como borralhos de lareira, at que d'ellas salte novamente uma chamma
furiosa--mas inventa dissenses novas, como esse anti-semitismo
nascente, que repetir, antes que o seculo finde, as anachronicas e
brutas perseguies medievaes. Depois  o jornal...

Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras esto danando, no meu velho
relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta j vai, como a de Tiberio,
muito tremenda e verbosa, _verbosa et tremenda epistola_; e eu tenho
pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoo, lr os meus jornaes,
com delicia.--Teu Fradique.




XVI


A CLARA

(_Trad._)


                                                       Paris, outubro.


_Minha muito amada Clara._--Toda em queixumes, quasi rabugenta, e
mentalmente tarjada de luto, me appareceu hoje a tua carta com os
primeiros frios de outubro. E porqu, minha dce descontente? Porque,
mais fro de corao que um Trastamara ou um Borgia, estive cinco dias
(cinco curtos dias de outomno) sem te mandar uma linha, affirmando essa
verdade to patente e de ti conhecida como o disco do sol--que s em ti
penso, e s em ti vivo!... Mas no sabes tu, oh super-amada, que a tua
lembrana-me palpita na alma to natural e perennemente como o sangue no
corao? Que outro principio governa e mantem a minha vida seno o teu
amor? Realmente necessitas ainda, cada manh, um certificado, em letra
bem firme, de que a minha paixo est viva e viosa e te envia os _bons
dias_? Para que? Para socego da tua incerteza? Meu Deus! No ser antes
para regalo do teu orgulho? Sabes que s Deusa, e reclamas
incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. Mas Santa Clara,
tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triumphal
belleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidenta de Gregorio IX,
fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres--e todavia s
 festejada uma vez, cada anno, a 27 de agosto!

Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha f! No! no mandei
essa linha superflua, porque todos os males bruscamente se abateram
sobre mim:--um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros;
um confuso duello, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um
ramo secco d'olaia soffreu, cortado por uma bala; e, emfim, um amigo que
regressou da Abyssinia, cruelmente Abyssinisante, e a quem tive de
escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as
faanhas e os lees!... E ahi est como a minha pobre Clara, solitaria
nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e to
inutil para a segurana do seu corao como as folhas que a cercam, j
murchas decerto e danando no vento.

Porque no sei como se comportam os teus bosques;--mas aqui as folhas do
meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida. Para me consolar
da verdura perdida, accendi o meu lume:--e toda a noite de hontem
mergulhei na muito velha chronica d'um Chronista medieval da minha
terra, que se chama Fernam Lopes. Ahi se conta d'um rei que recebeu o
debil nome de _Formoso_, e que, por causa d'um grande amor, desdenhou
princezas de Castella e de Arago, dissipou thesouros, affrontou
sedies, soffreu a desaffeio dos povos, perdeu a vassallagem de
castellos e terras, e quasi estragou o reino! Eu j conhecia a
chronica--mas s agora comprehendo o rei. E grandemente o invejo, minha
linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu), deve ser um
contentamento esplendido o ter princezas da christandade, e thesouros, e
um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e
languidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que promettem... Na
verdade s se deve amar quando se  rei--porque s ento se pde
comprovar a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. Mas
um mro vassallo como eu (sem hoste ou castello), que possue elle de
rico, ou de nobre, ou de bello para sacrificar? Tempo, fortuna, vida?
Mesquinhos valores.  como offertar na mo aberta um pouco de p. E
depois a bem amada nem sequer fica na historia.

E por historia--muito approvo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a
do divino Budha. Dizes, desconsoladamente, que elle te parece apenas _um
Jesus muito complicado_. Mas, meu amor,  necessario desentulhar esse
pobre Budha da densa alluvio de Lendas e Maravilhas que sobre elle tem
acarretado, durante seculos, a imaginao da Asia. Tal como ella foi,
deprendida da sua mythologia, e na sua nudez historica,--nunca alma
melhor visitou a terra, e nada iguala, como virtude heroica, a _Noite do
Renunciamento_. Jesus foi um proletario, um mendigo sem vinha ou leira,
sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galila,
aconselhando aos homens a que abandonassem como elle os seus lares e
bens, descessem  solido e  mendicidade, para penetrarem um dia n'um
Reino venturoso, abstracto, que est nos Cos. Nada sacrificava em si e
instigava os outros ao sacrificio--chamando todas as grandezas ao nivel
da sua humildade. O Budha, pelo contrario, era um Principe, e como elles
costumam ser na Asia, de illimitado poder, de illimitada riqueza: casra
por um immenso amor, e d'ahi lhe viera um filho, em quem esse amor mais
se sublimra:--e este principe, este esposo, este pae, um dia, por
dedicao aos homens, deixa o seu palacio, o seu reino, a esposada do
seu corao, o filhinho adormecido no bero de nacar, e, sob a rude
estamenha de um mendicante, vai atravs do mundo esmolando e prgando a
renuncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o illimitado
amor pelos sres, o incessante aperfeioamento na caridade, o desdem
forte do ascetismo que se tortura, a cultura perenne da misericordia que
resgata, e a confiana na morte...

Incontestavelmente, a meu vr (tanto quanto estas excelsas coisas se
podem discernir d'uma casa de Paris, no seculo XIX e com defluxo) a vida
do Budha  mais meritoria. E depois considera a differena do ensino dos
dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz:--Eu sou filho de Deus, e insto
com cada um de vs, homens mortaes, em que pratiqueis o bem durante os
poucos annos que passaes na terra, para que eu depois, em premio, vos d
a cada um, individualmente, uma existencia superior, infinita em annos e
infinita em delicias, n'um palacio que est para alm das nuvens e que 
de meu Pae! O Budha, esse, diz simplesmente:--Eu sou um pobre frade
mendicante, e peo-vos que sejaes bons darante a vida, porque de vs, em
recompensa, nascero outros melhores, e d'esses outros ainda mais
perfeitos, e assim, pela pratica crescente da virtude em cada gerao,
se estabelecer pouco a pouco na terra a virtude universal! A justia
do justo, portanto, segundo Jesus, s aproveita egoistamente ao justo. E
a justia do justo, segundo o Budha, aproveita ao sr que o substituir
na existencia, e depois ao outro, que d'esse nascer, sempre durante a
passagem na terra, para lucro eterno da terra. Jesus cria uma
aristocracia de santos, que arrebata para o co onde elle  Rei, e que
constituem a crte do co para deleite da sua divindade;--e no vem
d'ella proveito directo para o Mundo, que continua a soffrer da sua
poro de Mal, sempre indiminuida. O Budha, esse, cria, pela somma das
virtudes individuaes, santamente accumuladas, uma humanidade que em cada
cyclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e
que se estende a toda a terra d'onde o Mal desapparece, e onde o Budha 
sempre,  beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha
flor, sou pelo Budha. Em todo o caso, esses dois Mestres possuiram, para
bem dos homens, a maior poro de Divindade que at hoje tem sido dado 
alma humana conter. De resto, tudo isto  muito complicado; e tu
sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo, e, uma vez que
esses teus bosques so to admiraveis, em te retemperar na sua fora e
nos seus aromas salutares. O Budha pertence  cidade e ao collegio de
Frana: no campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores, como nos
tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas
dos livros. Sobretudo do que eu--que aqui estou pontificando, e fazendo
pedantescamente, ante os teus lindos olhos, to finos e meigos, um curso
escandaloso de Religies Comparadas.

S me restam tres pollegadas de papel,--e ainda te no contei, oh doce
exilada, as novas de Paris, _acta Urbis_. (Bom, agora latim!) So raras,
e pallidas. Chove: continuamos em Republica; Madame de Jouarre, que
chegou da _Rocha_ com menos cabellos brancos, mas mais cruel, convidou
alguns desventurados (dos quaes eu o maior) para escutarem tres
capitulos d'um novo attentado do baro de Fernay sobre a _Grecia_; os
jornaes publicam outro prefacio do snr. Renan, todo cheio do snr. Renan,
e em que elle se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigario de
Nossa Senhora da Razo; e temos, emfim, um casamento de paixo e luxo, o
do nosso esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave,
aquella nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente,
os dois milhes do cervejeiro, e que tem to lindamente engordado e ri
com dentes to lindos. Eis tudo, minha adorada... E  tempo que te
mande, em monto, n'esta linha, as saudades, os desejos e as coisas
ardentes e suaves e sem nome de que meu corao est cheio, sem que se
esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus ps adoraveis, que
beijo com submisso e com f.--Fradique.




Notas:


[1] Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios Historicos, que, pelas
suas propores, no poderiam entrar n'esta colleco. Reunidas as notas
e fragmentos dispersos, devem formar um volume a que o seu compilador
dar, penso eu, o titulo de _Versos e Prosas de Fradique Mendes_.

[2] Muitas das cartas de Fradique Mendes, aqui publicadas, so
naturalmente escriptas em francez. Todas essas vo acompanhadas da
indicao abreviada _trad._ (traduzida).

[3] O velho creado de quarto de Fradique Mendes.





End of the Project Gutenberg EBook of A correspondncia de Fradique Mendes, by 
Jos Maria Ea de Queirs

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