The Project Gutenberg EBook of A Illustre Casa de Ramires, by Ea de Queiroz

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Title: A Illustre Casa de Ramires

Author: Ea de Queiroz

Release Date: October 22, 2007 [EBook #23145]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ***




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Ea de Queiroz


A Illustre Casa de Ramires


PORTO

LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmo, editores
1900





Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
da mesma Lei.

       *       *       *       *       *

_Porto_--_Imprensa Moderna_




A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES




Obras do mesmo auctor:


*Revista de Portugal*. 4 grossos volumes      12$000
*As Minas de Salomo*, 1 volume                  600
*Os Maias*. 2 grossos volumes                  2$000
*O Crime do Padre Amaro*. Terceira edio
  inteiramente refundida, recomposta, e
  differente na frma e na aco da edio
  primitiva, 1 grosso volume                   1$200
*O Primo Bazilio*. Terceira edio, 1 grosso
  volume.                                      1$000
*A Reliquia*, 1 grosso volume                  1$000
*O Mandarim*. Quarta edio, 1 volume            500
*Correspondencia de Fradique Mendes*, 1 volume   600

No prelo:

*A Cidade e as Serras.*




A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES




I


Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de Junho,
o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho envergada
sobre a camisa de chita cr de rosa, trabalhava. Gonalo Mendes Ramires
(que n'aquella sua velha alda de Santa Ireneia, e na villa visinha, a
aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos
conheciam pelo Fidalgo da Torre) trabalhava n'uma Novella Historica,
_A Torre de D. Ramires_, destinada ao primeiro numero dos *Annaes de
Litteratura e de Historia*, Revista nova, fundada por Jos Lucio
Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenaculo
Patriotico, em casa das Severinas.

A livraria, clara e larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de
pau preto onde repousavam, no p e na gravidade das lombadas de
carneira, grossos folios de convento e de fro, respirava para o pomar
por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra almofadados de
velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela
madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa varanda, na
claridade forte, pousava a mesa--mesa immensa de ps torneados, coberta
com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada n'essa tarde
pelos rijos volumes da _Historia Genealogica_, todo o _Vocabulario_ de
Bluteau, tomos soltos do _Panorama_, e ao canto, em pilha, as obras de
Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarellos. E d'ahi, da
sua cadeira de couro, Gonalo Mendes Ramires, pensativo deante das tiras
de papel almao, roando pela testa a rama da penna de pato, avistava
sempre a inspiradora da sua Novella,--a Torre, a antiquissima Torre,
quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com
uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de
ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no azul de Junho, robusta
sobrevivencia do Pao acastellado, da fallada Honra de Santa Ireneia,
solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.

Gonalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o
morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e antigo fidalgo de
Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam traar a sua
ascendencia, por linha varonil e sempre pura, at aos vagos Senhores que
entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada quando os bares
francos desceram, com pendo e caldeira, na hoste do Borguinho. E os
Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha pura e sempre
varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquelle agigantado Ordonho
Mendes, senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, que casou em 967 com Dona
Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo o _Gottoso_, Rei de Leo.

Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como
elle, crescera e se afamra o Solar de Santa Ireneia--resistente como
elle s fortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da Historia
de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo
heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um dos mais esforados
da linhagem, Loureno, por alcunha o _Cortador_, collao de Affonso
Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de
cavalleiro, vellra as armas na S de Zamora), apparece logo na batalha
d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo sobre finas nuvens d'ouro,
pregado n'uma cruz de dez covados. No cerco de Tavira, Martim Ramires,
freire de San-Thiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraa,
rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mos, e surde na
quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar sangue,
bradando alegremente ao Mestre:--D. Payo Peres, Tavira  nossa! Real,
Real por Portugal! O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a
levadia erguida, as barbacans erriadas de frecheiros, nega acolhida a
El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que corriam o Norte em folgares e
caadas--para que a presena da _adultera_ no macule a pureza extreme
do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o _Trovador_ desbarata um
troo de bsteiros, mata o Adiantado-mr de Galliza, e por elle, no por
outro, cahe derribado o pendo real de Castella, em que ao fim da lide
seu irmo d'armas, D. Anto d'Almada, se embrulhou para o levar,
danando e cantando, ao Mestre d'Aviz. Sob os muros d'Arzilla combatem
magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu neto Ferno, e deante
do cadaver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pateo
da Alcaova ao lado do corpo do Conde de Marialva--Affonso V arma
juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Ferno Ramires, murmurando
entre lagrimas: Deus vos queira to bons como esses que ahi jazem!...
Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras so ento as armadas e os
combates de Oriente em que se no esforce um Ramires--ficando na lenda
tragico-maritima aquelle nobre capito do Golpho Persico, Balthazar
Ramires, que, no naufragio da _Santa Barbara_, reveste a sua pesada
armadura, e no castello de pra, hirto, se afunda em silencio com a nu
que se afunda, encostado  sua grande espada. Em Alcacer-Kebir, onde
dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram morte soberba, o mais
novo, Paulo Ramires, pagem do Guio, nem lezo nem ferido, mas no
querendo mais vida pois que El-Rei no vivia, colhe um ginete solto,
apanha uma acha d'armas, e gritando:--Vai-te, alma, que j tardas,
servir a de teu senhor!--entra na chusma mourisca e para sempre
desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e caam nas
suas terras. Reapparecendo com os Braganas, um Ramires, Vicente,
Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D. Joo IV, mette a
Castella, destroa os Hespanhoes do Conde, de Venavente, e toma
Fuente-Guial, a cujo furioso saque preside da varanda d'um Convento de
Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. J,
porm, como a nao, degenera a nobre raa... Alvaro Ramires, valido de
D. Pedro II, brigo faanhudo, atorda Lisboa com arruaas, furta a
mulher d'um Vdor da Fazenda que mandra matar a pauladas por pretos,
incendeia em Sevilha depois de perder cem dobres uma casa de tavolagem,
e termina por commandar uma urca de piratas na frota de Murad o
_Maltrapilho_. No reinado do Sr. D. Joo V Nuno Ramires brilha na Crte,
ferra as suas mulas de prata, e arruina a casa celebrando sumptuosas
festes de Egreja, em que canta no cro vestido com o habito de Irmo
Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires, Christovam, Presidente da Mesa
de Consciencia e Ordem, alcovita os amores d'el-rei D. Jos I com a
filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-mr das
Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua
chalaa, as suas proezas de gluto no Pao da Bemposta com o arcebispo
de Thessalonica. Ignacio Ramires acompanha D. Joo VI ao Brazil como
Reposteiro-Mr, negoceia em negros, volta com um bah carregado de peas
d'ouro que lhe rouba um administrador, antigo frade capuchinho, e morre
no seu solar da cornada de um boi. O av de Gonalo, Damio, doutor
liberal dado s Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello, compe as
empoladas proclamaes do Partido, funda um jornal, o _Anti-Frade_, e
depois das Guerras Civis arrasta uma existencia rheumatica em Santa
Ireneia, embrulhado no seu capoto de briche, traduzindo para vernaculo,
com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de Valerius Flaccus. O
pae de Gonalo, ora Regenerador, ora Historico, vivia em Lisboa no Hotel
Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco Hypothecario e
pelo lagedo da Arcada, at que um Ministro do Reino, cuja concubina,
corista de S. Carlos, elle fascinra, o nomeou, (para o afastar da
Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonalo, esse, era bacharel
formado com um R no terceiro anno.

E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonalo Mendes Ramires.
Um seu companheiro de casa, Jos Lucio Castanheiro, algarvio muito
magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem Simo Craveiro
chamava o Castanheiro Patriotinheiro, fundra um Semanario, a
*Patria*--com o alevantado intento (affirmava sonoramente o Prospecto)
de despertar, no s na mocidade Academica, mas em todo o paiz, do cabo
Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor to arrefecido das bellezas, das
grandezas e das glorias de Portugal! Devorado por essa ida, a sua
Ida, sentindo n'ella uma carreira, quasi uma misso, Castanheiro
incessantemente, com ardor teimoso de Apostolo, clamava pelos botequins
da Sophia, pelos claustros da Universidade, pelos quartos dos amigos
entre a fumaa dos cigarros,--a necessidade, caramba, de reatar a
tradio! de desatulhar, caramba, Portugal da alluvio do
estrangeirismo!--Como o Semanario appareceu regularmente durante tres
Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de griphos e citaes
sobre as _Capellas da Batalha_, a _Tomada d'Ormuz_, a _Embaixada de
Tristo da Cunha_, comeou logo a ser considerado uma aurora, ainda
pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E alguns bons espiritos da
Academia, sobretudo os companheiros de casa do Castanheiro, os tres que
se occupavam das cousas do saber e da intelligencia (porque dos tres
restantes um era homem de cacete e foras, o outro guitarrista, e o
outro premiado), passaram, aquecidos por aquella chamma patriotica, a
esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos nunca d'antes visitados
de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara, proezas e lendas--s
portuguezas, s nossas (como supplicava o Castanheiro), que refizessem 
nao abatida uma consciencia da sua heroicidade! Assim crescia o
Cenaculo Patriotico da casa das Severinas. E foi ento que Gonalo
Mendes Ramires, moo muito affavel, esvelto e loiro, d'uma brancura s
de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que facilmente se
enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos
sapatos--apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do almoo, onze
tiras de papel intituladas _D. Guiomar_. N'ellas se contava a velhissima
historia da castell, que, emquanto longe nas guerras do Ultra-mar o
castello barbudo e cingido de ferro atira a acha-d'armas s portas de
Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os braos ns, por noite de
Maio e de lua, o pagem de annellados cabellos... Depois ruge o inverno,
o castello volta, mais barbudo, com um bordo de romeiro. Pelo villico
do Castello, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a traio,
a macula no seu nome to puro, honrado em todas as Hespanhas! E ai do
pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. J no patim da
Alcaova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado ao machado,
entre dous cepos cobertos de pannos de d... E no final choroso da _D.
Guiomar_, como em todas essas historias do Romanceiro d'Amor, tambem
brotavam rente s duas sepulturas, escavadas no rmo, duas roseiras
brancas a que o vento enlaava os aromas e as rosas. De sorte que (como
notou Jos Lucio Castanheiro, coando pensativamente o queixo) no
resaltava n'esta _D. Guiomar_ nada que fosse s portuguez, s nosso,
abrolhando do slo e da raa! Mas esses amores lamentosos passavam n'um
solar de Riba-Ca: os nomes dos cavalleiros, Remarigues, Ordonho,
Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada tira
resoavam bravamente os genuinos: _Bof!... Mentes pela gorja!...
Pagem, o meu murzello!_...: e atravs de toda esta vernaculidade
circulava uma sufficiente turba de cavallarios com saios alvadios,
beguinos sumidos na sombra das cugulas, ovenaes sopezando fartas bolsas
de couro, uches espostejando nedios lombos de crdo... A Novella
portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento nacional.

--E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do Gonalinho
surde com um estylo terso, masculo, de boa cr archaica... D'optima cr
archaica! Lembra at o _Bobo_, o _Monge de Cister_!... A Guiomar,
realmente,  uma castell vaga, da Bretanha ou da Aquitania. Mas no
villico, mesmo no castello, j transparecem portuguezes, bons
portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e Cavado... Sim senhor!
Quando o Gonalinho se enfronhar dentro do nosso passado, das nossas
chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o torro,
sente bem a raa!

_D. Guiomar_ encheu tres paginas da *Patria*. N'esse Domingo, para
celebrar a sua entrada na Litteratura, Gonalo Mendes Ramires pagou aos
camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma ceia--onde foi acclamado,
logo depois do frango com ervilhas, quando os moos do Camolino,
esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como o nosso Walter
Scott! Elle, de resto, annuncira j com simplicidade um Romance em
dois volumes, fundado nos annaes da sua Casa, n'um rude feito de sublime
orgulho de Tructesindo Mendes Ramires, o amigo e Alferes-mr de D.
Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes e
alfaias que revelra na _D. Guiomar_, at pela antiguidade da sua
linhagem, Gonalinho parecia gloriosamente votado a restaurar em
Portugal o Romance Historico. Possuia uma misso--e comeou logo a
passear pela Calada, pensativo, com o gorro sobre os olhos, como quem
anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R.

Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno j no refervia na rua da
Mathematica o Cenaculo ardente dos Patriotas. O Castanheiro, formado,
vegetava em Villa Real de Santo Antonio: com elle desapparecera a
*Patria*: e os moos zelosos que na Bibliotheca esquadrinhavam as
Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados por aquelle
Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de Georges Ohnet e
retomaram  noite o taco nos bilhares da Sophia. Gonalo voltava tambem
mudado, de luto pelo pae que morrera em Agosto, com a barba crescida,
sempre affavel e suave, porm mais grave, averso a ceias e a noites
errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de gravata
branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:--e os seus
companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam
para a Politica, folheavam attentamente o _Diario das Camaras_,
conheciam alguns enredos da Crte, proclamavam a necessidade d'uma
Orientao positiva e d'um largo fomento rural, consideravam como
leviandade reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e,
mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam
com ardor sobre os dous Chefes de Partido--o Braz Victorino, o homem
novo dos Regeneradores, e o velho Baro de S. Fulgencio, chefe classico
dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que a Regenerao
lhe representava tradicionalmente idas de conservantismo, de elegancia
culta e de generosidade, Gonalo frequentou ento o Centro Regenerador
da Couraa, onde aconselhava  noite, tomando ch preto, o
fortalecimento da auctoridade da Cora, e uma forte expanso
colonial! Depois, logo na Primavera, desmanchou alegremente esta
gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em
bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas no alludio
mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou recura ou se esquecera
da sua misso d'Arte Historica. Realmente s na Paschoa do Quinto-Anno
retomou a penna--para lanar, na *Gazeta do Porto*, contra um seu
patricio, o Dr. Andr Cavalleiro, que o Ministerio do S. Fulgencio
nomera Governador civil de Oliveira, duas correspondencias muito
acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear a feroz
bigodeira negra de S. Ex.^a). Assignara Juvenal, como outr'ora o pae,
quando publicava communicados politicos d'Oliveira n'essa mesma *Gazeta
do Porto*, jornal amigo, onde um Villar Mendes, seu remoto parente,
redigia a _Revista Estrangeira_. Mas lra aos amigos no Centro--os dous
botes decisivos que atirariam o Sr. Cavalleiro abaixo do seu Cavallo! E
um d'esses moos serios, sobrinho do Bispo de Oliveira, no disfarou o
seu assombro:

--Oh Gonalo, eu sempre pensei que voc e o Cavalleiro eram intimos! Se
bem me lembro quando voc chegou a Coimbra, para os Preparatorios, viveu
na casa do Cavalleiro, na rua de S. Joo... Pois no ha uma amizade
tradicional, quasi historica, entre Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco
conheo Oliveira, nunca andei para os vossos sitios; mas at creio que
Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com Santa Ireneia!

E Gonalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar
seccamente que Corinde no pegava com Santa Ireneia: que entre as duas
terras corria muito justificadamente a ribeira do _Coice_: e que o Sr.
Andr Cavalleiro, e sobre tudo Cavallo, era um animal detestavel que
pastava na outra margem!--O sobrinho do Bispo saudou e exclamou:

--Sim senhor, boa piada!

Um anno depois da Formatura, Gonalo foi a Lisboa por causa da hypotheca
da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo fro annual de dez
ris e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga, andava empecendo
terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;--e tambem para
conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar
lealdade e submisso partidaria, colher algum fino conselho de conducta
Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marqueza de
Louredo, a tia Louredo, que morava a Santa Clara, esbarrou no Rocio
com Jos Lucio Castanheiro; ento empregado no Ministerio da Fazenda, na
repartio dos Proprios Nacionaes. Mais defecado, mais macilento, com
uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, como
em Coimbra, na chamma da sua Ida--a resurreio do sentimento
portuguez! E agora, alargando a propores condignas da Capital o plano
da *Patria*, labutava devoradoramente na creao d'uma Revista quinzenal
de setenta paginas, com capa azul, os *Annaes de Litteratura e de
Historia*. Era uma noite de Maio, macia e quente. E, passeando ambos em
torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que sobraava um rolo de
papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de recordar as
cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a falta de
intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio--voltou soffregamente 
sua Ida, e supplicou a Gonalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os
*Annaes* esse Romance que elle annuncira em Coimbra, sobre o seu
avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mr de Sancho I.

Gonalo, rindo, confessou que ainda no comera essa grande obra!

--Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre
elle, duros e desconsolados. Ento voc no persistio?... No permaneceu
fiel  Ida?...

Encolheu os hombros, resignadamente, j acostumado, atravez da sua
misso, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem consentio que
Gonalo, humilhado perante aquella F que se mantivera to pura e
servidra--alludisse, como desculpa, ao inventario laborioso da Casa,
depois da morte do pap...

--Bem, bem! Acabou! _Proscratinare luzitanum est_. Trabalha agora no
vero... Para Portuguezes, menino, o vero  o tempo das bellas fortunas
e dos rijos feitos. No vero nasce Nun'Alvares no Bomjardim! No vero se
vence em Aljubarrota! No vero chega o Gama  India!... E no vero vae o
nosso Gonalo escrever uma novellasinha sublime!... De resto os *Annaes*
s apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de Dezembro. E
voc em tres mezes resuscita um mundo. Serio, Gonalo Mendes!...  um
dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos *Annaes*.
Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional! Ns estamos
immundamente morrendo do mal de no ser Portuguezes!

Parou--ondeou o brao magro, como a correia d'um latego, n'um gesto que
aoutava o Rocio, a Cidade, toda a Nao. Sabia o amigo Gonalinho o
segredo d'esta borracheira sinistra?  que, dos Portuguezes, os peores
despresavam a Patria--e os melhores ignoravam a Patria. O remedio?...
Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com
estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheam--ao menos
como se conhece o Xarope Peitoral de James, hein? E que todos o
adoptem--ao menos como se adoptou o sabo do Congo, hein? E conhecido,
adoptado, que todos o amem emfim, nos seus heres, nos seus feitos,
mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padres, e at nas veras
pedrinhas das suas caladas! Para esse fim, o maior a emprehender n'este
apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os *Annaes*. Para berrar!
Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com a noticia
inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que outr'ora fizeram
o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso de o refazer...
Como? Reatando a tradio, caramba!

--Assim, vocs! Por essa historia de Portugal fra, vocs so uma
enfiada de Ramires de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu
n'uma ceia de Natal dois leites!...  apenas uma barriga. Mas que
barriga! Ha n'ella uma pujana heroica que prova raa, a raa mais forte
_do que promette a fora humana_, como diz Cames. Dois leites,
caramba! At enternece!... E os outros Ramires, o de Silves, o de
Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de quem
voc talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem, resuscitar
estes vares, e mostrar n'elles a alma faanhuda, o querer sublime que
nada verga,  uma soberba lio aos novos... Tonifica, caramba! Pela
consciencia que renova de termos sido to grandes sacode este chocho
consentimento nosso em permanecermos pequenos!  o que eu chamo reatar a
tradio... E depois feito por voc proprio, Ramires, que _chic_!
Caramba, que _chic_!  um fidalgo, o maior fidalgo de Portugal, que,
para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente, sem sahir do
seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil annos.  de
rachar!... E voc no precisa fazer um grosso romance... Nem um romance
muito desenvolvido est na indole militante da Revista. Basta um conto,
de vinte ou trinta paginas... Est claro, os *Annaes* por ora no podem
pagar. Tambem, voc no precisa! E que diabo! no se trata de pecunia,
mas d'uma grande renovao social... E depois, menino, a litteratura
leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gonalo em Coimbra, ultimamente,
frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim em folhetim,
se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada outr'ora, edifica
reinos... Pense voc n'isto! E adeus! que ainda hoje tenho de copiar,
para lettra christ, este estudo do Henriques sobre Ceylo... Voc no
conhece o Henriques?... No conhece. Ninguem conhece. Pois quando na
Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida sobre a
Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para c, para o Henriques!

Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo--e Gonalo ainda o avistou,
na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o brao esguio
d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco, que
recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso
charuto e da doce noite de Maio.

O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragana, impressionado, ruminando a
ida do Patriota. Tudo n'ella o seduzia--e lhe convinha: a sua
collaborao n'uma Revista consideravel, de setenta paginas, em
companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros,
at Conselheiros d'Estado: a antiguidade da sua raa, mais antiga que o
Reino, popularisada por uma historia d'heroica belleza, em que com tanto
fulgor resaltavam a bravura e a soberba d'alma dos Ramires; e emfim a
seriedade academica do seu espirito, o seu nobre gosto pelas
investigaes eruditas, apparecendo no momento em que tentava a carreira
do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a composio moral dos
vetustos Ramires, a resurreio archeologica do viver Affonsino, as cem
tiras de almao a atulhar de prosa forte--no o assustavam... No!
porque felizmente j possuia a sua obra--e cortada em bom panno,
alinhavada com linha habil. Seu tio Duarte, irmo de sua me (uma
senhora de Guimares, da casa das Balsas), nos seus annos de ociosidade
e imaginao, de 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu
Alvar de Delegado, fra poeta--e publicra no *Bardo*, semanario de
Guimares, um Poemeto em verso solto, o _Castello de Santa Ireneia_, que
assignra com duas iniciaes D.B. esse castello era o seu, o Pao
antiquissimo de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E
o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance de altivez feudal em
que se sublimra Tructesindo Ramires, Alferes-mr de Sancho I, durante
as contendas de Affonso II e das senhoras Infantas. Esse volume do
*Bardo*, encadernado em marroquim, com o brazo dos Ramires, o aor
negro em campo escarlate, ficra no Archivo da Casa como um trecho da
Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno Gonalo
recitra, ensinados pela mam, os primeiros versos do Poema, de to
harmoniosa melancolia:

    Na pallidez da tarde, entre a folhagem
    Que o outomno amarellece...

Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonalo Mendes
Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da *Patria* e das ceias
o acclamavam o nosso Walter Scott, compr um Romance moderno, d'um
realismo pico, em dous robustos volumes, formando um estudo ricamente
colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e com deliciosa
facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta paginas, que
convinha aos *Annaes*.

No seu quarto do Bragana abrio a varanda. E debruado, acabando o
charuto, na dormente suavidade da noite de Maio, ante a magestade
silenciosa do rio e da lua, pensava regaladamente que nem teria a
canceira d'esmiuar as chronicas e os folios massudos... Com effeito!
toda a reconstrucco Historica a realisra, e solidamente, com um saber
destro, o tio Duarte. O Pao acastellado de Santa Ireneia, com as fundas
carcovas, a torre albarran, a alcaova, a masmorra, o pharol e o balso:
o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de cabellos e barbas
ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os servos mouriscos, de
surres de couro, cavando os regueiros da horta; os oblatos resmungando
 lareira as _Vidas dos Santos_; os pagens jogando no campo do
tavolado--tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio Duarte!
Ainda recordava mesmo certos lances: o truo aoutado; o festim e os
uches que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada de Violante Ramires
para o Mosteiro de Lorvo...

    Junto  fonte mourisca, entre os ulmeiros,
    A cavalgada pra...

O enrdo todo com a sua paixo de grandeza barbara, os recontros bravios
em que se saciam a punhal os rancores de raa, o heroico fallar
despedido de labios de ferro--l estavam nos versos do titi, sonoros e
bem balanados...

    Monge, escuta! O solar de D. Ramires
    Por si, e pedra a pedra se aluira,
    Se jmais um bastardo lhe pisasse,
    Com sapato aviltado, as lages puras!

Na realidade s lhe restava transpr as formas fluidas do Romantismo de
1846 para a sua prosa tersa e mascula (como confessava o Castanheiro),
de optima cr archaica, lembrando o _Bobo_. E era um plagio? No! A
quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires, pertencia a
memoria dos Ramires historicos? A resurreio do velho Portugal, to
bella no _Castello de Santa Ireneia_, no era obra individual do tio
Duarte--mas dos Herculanos, dos Rebellos, das Academias, da erudio
esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o
*Bardo*, delgado semanario que perpassra, durante cinco mezes, ha
cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! No hesitou mais,
seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um copo
d'agua com bicarbonato de soda, j martellava a primeira linha do conto,
 maneira lapidaria da _Salammb_:--Era nos Paos de Santa Ireneia, por
uma noite d'inverno, na sala alta da Alcaova...

Ao outro dia, procurou Jos Lucio Castanheiro na repartio dos Proprios
Nacionaes,  pressa,--por que, depois d'uma conferencia no Banco
Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma
Exposio de Bordados na livraria Gomes. E annunciou ao Patriota que,
positivamente, lhe assegurava para o primeiro numero dos *Annaes* a
Novella, a que j decidira o titulo--a _Torre de D. Ramires_:

--Que lhe parece?

Deslumbrado, Jos Castanheiro atirou os magrissimos braos, resguardados
pelas mangas d'alpaca, at  abobada do esguio corredor em que o
recebera:

--Sublime!... _A Torre de D. Ramires_!... O grande feito de Tructesindo
Mendes Ramires contado por Gonalo Mendes Ramires!... E tudo na mesma
Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos
depois, na mesma Torre, o nosso Gonalo conta o feito! Caramba, menino,
carambissima! isso  que  reatar a tradio!

       *       *       *       *       *

Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonalo mandou um creado
da quinta, com uma carroa, a Oliveira, a casa de seu cunhado Jos
Barrlo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer da rica livraria
classica que o Barrlo herdra do tio Deo da S todos os volumes da
_Historia Genealogica_--e (accrescentava n'uma carta) todos os
cartapacios que por l encontrares com o titulo de Chronicas do Rei
Fulano... Depois, do p das suas estantes, desenterrou as obras de
Walter Scott, volumes desirmanados do _Panorama_, a _Historia_ de
Herculano, o _Bobo_, o _Monge de Cistr_. E assim abastecido, com uma
farta rsma de tiras d'almao sobre a banca, comeou a repassar o
Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpr para a aspereza d'uma
manh de Dezembro, como mais congenere com a rudeza feudal dos seus
avs, aquella lusida cavalgada de donas, monges e homens d'armas que o
tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia outomnal, pelas
veigas do Mondgo...

    Na pallidez da tarde, entre a folhagem
    Que o outomno amarellece...

Mas, como era ento Junho e a lua crescia, Gonalo determinou por fim
aproveitar as sensaes de calor, luar e arvoredos, que lhe fornecia a
aldeia--para levantar, logo  entrada da sua Novella, o negro e immenso
Pao de Santa Ireneia, no silencio d'uma noite d'Agosto, sob o
resplendor da lua cheia.

E j enchera desembaraadamente, ajudado pelo *Bardo*, duas tiras,
quando uma desavena com o seu caseiro, o Manoel Relho, que amanhava a
quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na fresca e
novia inspirao do seu trabalho, o Fidalgo da Torre. Desde o Natal o
Relho, que durante annos de compostura e ordem se emborrachava sempre
aos domingos com alegria e com pachorra, comera a tomar, tres e quatro
vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava
a mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada,
esguedelhado, de varapu, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite
em que Gonalo,  banca, depois do ch, laboriosamente escavava os
fossos do Pao de Santa Ireneia--de repente a Rosa cozinheira rompeu a
gritar Aqui d'El-rei contra o Relho! E, atravez dos seus brados e dos
latidos dos ces, uma pedra, depois outra, bateram na varanda veneravel
da livraria! Enfiado, Gonalo Mendes Ramires pensou no revlver... Mas
justamente n'essa tarde o creado, o Bento, descra aquella sua velha e
unica arma  cozinha para a desenferrujar e arear! Ento, atarantado,
correu ao quarto, que fechou  chave, empurrando contra a porta a
commoda com to desesperada anciedade que frascos de crystal, um cofre
de tartaruga, at um crucifixo, tombaram e se partiram. Depois gritos e
latidos findaram no pateo--mas Gonalo no se arredou n'essa noite
d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros, ruminando um furor
sentimental contra o Relho, a quem tanto perdora, sempre to
affavelmente tratra, e que apedrejava as vidraas da Torre! Cdo, de
manh convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no brao as
marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo arrendamento findava em
Outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca e o catre.
Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o Jos Casco,
respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e fora espantosa,
propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonalo Mendes Ramires porm, j
desde a morte do pae, decidira elevar a renda a novecentos e cincoenta
mil ris:--e o Casco desceu as escadas, de cabea descahida. Voltou logo
ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarellou a terra
entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras e
as cpas: e n'um esforo, em que lhe arfaram todas as costellas,
offereceu novecentos e dez mil ris! Gonalo no cedia, certo da sua
equidade. O Jos Casco voltou ainda com a mulher; depois, n'um domingo,
com a mulher e um compadre,--e era um coar lento do queixo rapado, umas
voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas
dentro da tulha, que tornavam aquella manh de Junho intoleravelmente
longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do jardim, debaixo d'uma
mimosa, com a *Gazeta do Porto*. Quando o Casco, pallido, lhe veio
offerecer novecentos e trinta mil ris--Gonalo Mendes Ramires
arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua conta, amanhar a
propriedade, mostrar o que era um torro rico, tratado pelo saber
moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes, ento,
arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis.
 maneira antiga o Fidalgo apertou a mo ao lavrador--que entrou na
cozinha a enxugar um largo copo de vinho, esponjando na testa, nas
cordoveias rijas do pescoo, o suor anciado que o alagava.

Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gonalo
estancou--no foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando n'essa tarde
se accomodou  banca, para contar a sala d'armas do Pao de Santa
Ireneia por uma noite de lua--s conseguiu converter servilmente n'uma
prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relvo que os
modernisasse, dsse magestade senhorial ou bellesa saudosa quelles
macissos muros onde o luar, deslisando atravez das rexas, salpicava
scentelhas pelas pontas das lanas altas, e pela cimeira dos morries...
E desde as quatro horas, no calor e silencio do domingo de Junho,
labutava, empurrando a penna como lento arado em cho pedregoso,
riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante e molle, ora
n'um rebolio, a sacudir e reenfiar sob a mesa os chinellos de
marroquim, ora immovel e abandonado  esterilidade que o travava, com os
olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre, negra entre os
limoeiros e o azul, toda envolta no piar e esvoaar das andorinhas.

Por fim, descoroado, arrojou a penna que to desastrosamente emperrra.
E fechando na gavta, com uma pancada, o volume precioso do *Bardo*:

--Irra! Estou perfeitamente entupido!  este calor! E depois aquelle
animal do Casco, toda a manh!...

Ainda releu, coando sombriamente a nuca, a derradeira linha rabiscada e
suja:

--...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos raios da
lua... Larga, largos!... E os pallidos raios, os eternos _pallidos
raios_!... Tambem este maldito castello, to complicado!... E este D.
Tructesindo, que eu no apanho, to antigo!... Emfim, um horror!

Atirou, n'um repello, a cadeira de couro; cravou, com furor, um charuto
nos dentes;--e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta,
n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles confusos e enredados Paos de
Santa Ireneia, e dos seus avs, enormes, resoantes, chapeados de ferro,
e mais vagos que fumos.




II


Bocejando, apertando os cordes das largas pantalonas de seda que lhe
escorregavam da cinta, Gonalo, que durante todo o dia preguira,
estirado no divan de damasco azul, com uma vaga dr nos rins, atravessou
languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo relogio de
charo. Cinco horas e meia!... Para desannuviar, pensou n'uma caminhada
pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita (devida j desde a
Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas
Eleies Geraes de Abril, pelo circulo de Villa Clara. Mas a jornada 
_Feitosa_,  quinta do Sanches Lucena, demandava uma hora a cavallo,
desagradavel com aquella teimosa dr nos rins que o filra na vespera 
noite, depois do ch, na Assembleia da Villa. E, indeciso, arrastava os
passos no corredor, para gritar ao Bento ou  Rosa que lhe subissem uma
limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um vozeiro de
grosso metal, que gracejando mais se engrossava, rolava pelo pateo,
n'uma cadencia cava de malho malhando:

--Oh s Gonalo! Oh s Gonalo! Oh s Gonalissimo Mendes Ramires!...

Reconheceu logo o _Tit_, o Antonio Villalobos, seu vago parente, e seu
companheiro de Villa Clara, onde aquelle homenzarro excellente, de
velha raa Alemtejana, se estabelecera sem motivo, s por affeio
bucolica  villa. E havia onze annos que a atulhava com os seus
possantes membros, o lento rebombo do seu vozeiro, e a sua ociosidade
espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das lojas, pelos
balces das tabernas, pelas sachristias a caturrar com os padres, at
pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era um irmo do velho
morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe estabelecra uma mesada
de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe--e do seu sujo
serralho de moas do campo, e da obra tenebrosa a que agora se
atrellra, a _Veridica Inquirio_, uma Inquirio sobre as bastardias,
crimes e titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E
Gonalo, desde estudante, amra sempre aquelle Hercules bonacheiro, que
o seduzia pela prodigiosa fora, a incomparavel potencia em beber todo
um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela independencia, uma
suprema independencia, que, apoiada ao bengalo terrifico e com as suas
oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava nem da Terra
nem do Co.--Logo debruado na varanda, gritou:

--Oh Tit, sbe!... Sbe emquanto eu me visto. Tomas um calice de
genebra... Vamos depois passear at aos Bravaes...

Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo,
erguendo para o casaro a sua franca e larga face requeimada, cheia de
barba ruiva, o Tit movia lentamente como um leque um velho chapo de
palha:

--No posso... Ouve l! Tu queres hoje  noite cear no Gago, commigo e
com o Joo Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o violo. Temos uma tainha
assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei esta manh a uma mulher da
Costa por cinco tostes. Assada pelo Gago!... Entendido, hein? O Gago
abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu conheo o vinho. 
d'aqui, da ponta fina.

E Tit, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle da orelha.
Mas Gonalo, repuxando as pantalonas, hesitava:

--Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem  noite uma
dr nos rins, ou no figado, ou no bao, no sei bem, n'uma d'essas
entranhas!... At hoje, para o jantar, s caldo de gallinha e gallinha
cosida... Emfim! v! Mas,  cautela, recommenda ao Gago que me prepare
para mim um franguinho assado... Onde nos encontramos? Na Assembla?

O Tit despegra logo do tanque, pousando na nuca o chapo de palha:

--Hoje no me gasto pela Assembla. Tenho senhora. Das dez para as dez e
meia, no Chafariz... Vae tambem o Videirinha com a viola. Viva!... Das
dez para as dez e meia! Entendido... E franguinho assado para S. Ex.^a,
que se queixa do rim!

E atravessou o pateo, com lentido bovina, parando a colher n'uma
roseira, junto ao porto, uma rosa com que florio a quinzena de
velludilho cr d'azeitona.

Immediatamente Gonalo decidira no jantar, certo dos beneficios
d'aquelle jejum at s dez horas, depois de um passeio pelos Bravaes e
pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir,
empurrou a porta envidraada sobre a escura escada da cozinha, gritou
pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem tambem
berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em que jaziam, como
abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de grande abobada
que restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da
sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D. Jos I. Ento
Gonalo desceu dous degros da gasta escadaria de pedra e atirou outro
dos longos brados com que atroava a Torre--desde que as campainhas
andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a cozinha quando a
Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha da Crispola! no
sentira o Snr. Doutor!...

--Pois estou a berrar ha uma hora! E nem voc nem Bento!...  por que
no janto. Vou cear a Villa Clara com os amigos.

A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr.
Doutor ficava assim em jejum at horas da noite?--Filha d'um antigo
hortelo da Torre, crescida na Torre, j cozinheira da Torre quando
Gonalo nascra, sempre o tratra por menino, e mesmo por seu
riquinho at que elle partio para Coimbra e comeou a ser, para ella e
para o Bento, o Sr. Doutor.--E o Sr. Doutor, ao menos, devia tomar o
caldinho de gallinha, que apurra desde o meio dia, cheirava que nem
feito no co!

Gonalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentio--e j
subia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Crispola, uma
desgraada viuva que, com um rancho faminto de crianas, adoecera pela
Paschoa de febres perniciosas.

--A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. J se levanta. Diz a pequena que j
se levanta... Mas muito derreadinha...

Gonalo desceu logo outro degro, debruado na escada, para mergulhar
mais confidencialmente n'aquellas tristezas:

--Olhe, oh Rosa, ento se a pequena ahi est, coitada, que leve para
casa  me a gallinha que eu tinha para jantar. E o caldo... Que leve a
panella! Eu tomo uma chavena de ch com biscoitos. E olhe! Mande tambem
dez tostes  Crispola... Mande dois mil ris. Escute! Mas no lhe mande
a gallinha e o dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras,
e que l passarei por casa para saber. E esse animal do Bento que me
suba agua quente!

No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho
rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia
saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a amarellido de bilis
solta. E terminou por se contemplar na sua feio nova, agora que rapra
a barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e
uma msca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina,
sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabello, bem
ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas,
necessitando j risca mais elevada, quasi ao meio da testa clara.

-- infernal! Aos trinta annos estou calvo...

E todavia no se despegava do espelho, n'uma contemplao agradada,
recordando mesmo a recommendao da tia Louredo, em Lisboa:--Oh
sobrinho! o menino, assim galante e esperto, no se enterre na
provincia! Lisboa est sem rapazes. Precisamos c um bom Ramires!--No!
no se enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira
melancolica das cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante
em Lisboa, entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o
conto e oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas
do pap? E depois realmente vida em Lisboa s a desejava com uma posio
politica,--cadeira em S. Bento, influencia intellectual no seu Partido,
lentas e seguras avanadas para o Poder. E essa, to docemente sonhada
em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do Hotel Mondego,--muito remota a
entrevia! Quasi inconquistavel, para alm de um muro alto e aspero, sem
porta e sem fenda!... Deputado--como? Agora, com o horrendo S. Fulgencio
e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos, no voltariam
Eleies Geraes. E mesmo n'alguma Eleio Supplementar que possibilidade
lograria elle, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma
elegancia de tradies, se manifestra sempre Regenerador, no Centro
da Couraa, nas correspondencias para a *Gazeta do Porto*, nas verrinas
ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro detestavel?... Agora
s lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistencia
social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu immenso nome
historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e estendendo a malha
preciosa das amizades partidarias desde Santa Ireneia at ao Terreiro do
Pao... Sim! eis a theoria explendida:--mas consistencia, nomeada,
affeies politicas, como se conquistam? Advogue, escreva nos jornaes!
fra o conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz Victorino.
Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? No podia, com aquelle seu horror
ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense. Fundar um
jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de Coimbra no
Hotel Mondego? Era faanha facil para o neto adorado da Snr.^a D.
Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de vinho nos barraces de
Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas semanas de Capital, sempre
pelo Banco Hypothecario, sempre com as primas, nem formra relaes
duraveis e uteis nos dous grandes Diarios Regeneradores, a _Manh_ e a
_Verdade_... De sorte que, realmente, n'esse muro que o separava da
fortuna s descobria um buraquinho, bem apertado mas servial--os
*Annaes de Litteratura e d'Historia*, com a sua collaborao de
Professores, de Politicos, at d'um Ministro, at de um Almirante, o
Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria pois nos *Annaes*
com a sua _Torre_, revelando imaginao e um saber rico. Depois,
trepando da Inveno para o terreno mais respeitavel da Erudio, daria
um estudo (que at lhe lembrra no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre
as Origens Visigothicas do Direito Publico em Portugal... Oh, nada
conhecia,  certo, d'essas Origens, d'esses Visigodos. Mas, com a bella
historia da _Administrao Publica em Portugal_ que lhe emprestra o
Castanheiro, comporia corrediamente um resumo elegante... Depois,
saltando da Erudio s Sciencias Sociaes e Pedagogicas--por que no
amassaria uma boa Reforma do Ensino Juridico em Portugal em dous
artigos massudos, de Homem d'Estado?... Assim avanava, bem chegado aos
Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal litterario, at
que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro se escancarasse
a desejada porta triumphal.--E no meio do quarto, em ceroulas, com as
mos nas ilhargas, Gonalo Mendes Ramires concluio pela necessidade de
apressar a sua Novella.

--Mas, quando acabarei eu essa _Torre_? assim emperrado, sem veia, com o
figado combalido?...

O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo
encarapinhado, muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga,
entrra vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.

--Oh Bento, ouve l! Tu no encontraste na mala que eu trouxe de Lisboa,
ou no caixote, um frasco de vidro com um p branco?  um remedio inglez
que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um rotulo em inglez, com um nome
inglez, no sei qu, _fruit salt_... Quer dizer sal de fructas...

O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no
quarto de lavar, em cima do bah vermelho, ficra um frasco com p,
embrulhado num pergaminho antigo como os do Archivo.

-- esse! declarou Gonalo. Eu precisava em Lisboa uns documentos por
causa d'aquelle malvado fro de Praga. E por engano, na balburdia, levo
do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae buscar o rolo... Mas
tem cuidado com o frasco!

O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botes d'agatha nos
punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para elle
vestir, a quinzena, as calas bem vincadas, de cheviote leve. E Gonalo,
retomado pela ida de artigos para os *Annaes*, folheava, rente 
janella, a _Historia da Administrao Publica em Portugal_, quando Bento
voltou com um rolo de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um
sello de chumbo.

--Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da
janella.  esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se no quebrar.
Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr. Dr. Mattos aconselhou que
o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece que ferve. E limpa o sangue,
desannuvia a cabea... Pois eu muito necessitado ando de desannuviar a
cabea!... Toma tu tambem, Bento. E dize  Rosa que tome. Todos tomam
agora, at o Papa!

Com cuidado, o Bento desenrolra o frasco, estendendo sobre o marmore da
commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se encarquilhava
amarella e morta. E Gonalo, abotoando o colarinho:

--Ora ahi est o que eu levo preciosamente para deslindar o fro de
Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebastio... E s percebo mesmo a
data, mil quatrocentos... No, mil quinhentos e setenta e sete. Nas
vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar o frasco.

O Bento, que escolhera no gaveto um collete branco, relanceou de lado o
pergaminho veneravel:

--Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastio escreveu a algum
avosinho do Sr. Doutor...

--Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante do espelho. E para lhe dar
alguma cousa boa, alguma cousa gorda... Antigamente ter rei era ter
renda. Agora... No apertes tanto essa fivella, homem! Trago ha dias o
estomago inchado... Agora, com effeito, esta instituio de Rei anda
muito safada, Bento!

--Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o _Seculo_
affiana que os Reis esto a acabar, e por dias. Ainda hontem
affianava. E o _Seculo_  jornal bem informado... No de hoje, no sei
se o Sr. Doutor leu, l vem a grande festa dos annos do Sr. Sanches
Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na _Feitosa_...

Enterrado no divan de damasco, Gonalo estendera os ps ao Bento que lhe
laava as botas brancas:

--Esse Sanches Lucena  um idiota! Ora que arranjo far a esse homem,
aos sessenta annos, ser deputado, passar mezes em Lisboa no Francfort,
abandonar as propriedades, deixar aquella linda quinta... E para qu?
Para rosnar de vez em quando apoiado! Antes elle me cedesse a cadeira,
a mim, que sou mais esperto, no possuo grandes terras, e gosto do Hotel
Bragana. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanh que me tenha a egoa
prompta, a esta hora, para eu ir  _Feitosa_ visitar esse animal... E
ponho ento o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas
altas... Ha mais de dois annos que no vejo a D. Anna Lucena.  uma
linda mulher!

--Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na
caleche. At pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a
mostrar  senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta,
com um grande cabo, e um grande grilho, tudo d'oiro...

--Bravo!... Encharca bem esse leno com agoa de Colonia, que tenho a
cabea to pesada!... Essa D. Anna era uma jornaleira, uma moa do
campo, de Corinde?

Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:

--No senhor! A Snr.^a D. Anna Lucena  de gente muito baixa! Filha d'um
carniceiro d'Ovar... E o irmo andou a monte por ter morto o ferrador
d'Ilhavo.

--Emfim, resumiu Gonalo, filha de carniceiro, irmo a monte, bella
mulher, luneta d'oiro... Merece fato novo!

       *       *       *       *       *

Em Villa-Clara, s dez horas, sentado n'um dos bancos de pedra do
Chafariz, sob as olaias, o Tit esperava com o amigo Joo Gouveia--que
era o Administrador do Concelho da Villa. Ambos se abanavam com os
chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua lenta na
sombra. E a meia batia no relogio da Camara, quando Gonalo, que se
retardra na Assembla n'um voltarete enremissado, appareceu annunciando
uma fome terrivel, a fome historica dos Ramires, e apressando a marcha
para o Gago--sem mesmo consentir que o Tit descesse  tabacaria do
Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de canna da Madeira, velha e
da ponta fina...

--No ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Seno devoro um de Vocs, com esta
furiosa fome Ramirica!

Mas, logo ao subirem a Caladinha, parou elle cruzando os braos,
interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do Concelho pelo
estupendo feito do _seu_ Governo... Ento o _seu_ Governo, os _seus_
amigos Historicos, o _seu_ honradissimo S. Fulgencio--nomeavam, para
Governador Civil de Monforte, o Antonio Moreno! O Antonio Moreno, to
justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena! No, realmente, era a
derradeira degradao a que podia rolar um paiz! Depois d'esta, para
harmonia perfeita dos servios, s outra nomeao, e urgente--a da
Joanna Salgadeira, Procuradora Geral da Cora!

E o Joo Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito secco, de bigode
mais duro que piassaba, esticado n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu
de coco atirado para a orelha, no discordava. Empregado imparcial,
servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre acolhia com
imparcial ironia as nomeaes de bachareis novos, Historicos ou
Regeneradores, para os gordos logares Administrativos. Mas, n'este caso,
sinceramente, quasi vomitra, rapazes! Governador Civil, e de Monforte,
o Antonio Moreno, que elle tantas vezes encontrra no quarto, em
Coimbra, vestido de mulher, de roupo aberto, e a carinha bonita coberta
de p de arroz!...--E, travando do brao do Fidalgo, recordava a noite
em que o Jos Gorjo, muito bebedo, de cartola e com um revlver, exigia
furiosamente que o padre Justino, tambem bebedo, o casasse com o
Antoninho deante d'um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Tit, que
esperava, floreando o bengalo, declarou quelles senhores que se o
tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Politica e
d'indecencias--ento voltava elle ao Brito, buscar a aguardentesinha...
Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalho, sacudiu o brao do
Administrador, e galgou pela Caladinha, aos corcovos, com as mos
fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo um cavallo que se
desboca.

E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da
taberna, a um canto da comprida mesa allumiada por dois candieiros de
petroleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonalo, que se
declarava miraculosamente curado pelo passeio at aos Bravaes e pelas
emoes do voltarete em que ganhra desenove tostes ao Manoel
Duarte--comeou por uma pratada d'ovos com chourio, devorou metade da
tainha, devastou o seu frango de doente, clareou o prato da salada de
pepino, findou por um monto de ladrilhos de marmellada: e atravez
d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se
afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralho, porque logo ao
primeiro trago, e com desgosto do Tit, amaldiora o vinho novo do
Abbade.  sobremesa appareceu o Videirinha, o Videirinha do violo,
tocador afamado de Villa Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com
versos de amor e de patriotismo j impressos no *Independente
d'Oliveira*. Jantra n'essa tarde, com o violo, em casa do commendador
Barros, que celebrava o anniversario da sua commenda: e s acceitou um
copo d'Alvaralho, em que esmagou um ladrilho de marmellada para
adocicar a goella. Depois,  meia noite, Gonalo obrigou o Gago a
espertar o lume, ferver um caf muito forte, um caf terrivel, Gago
amigo! um caf capaz de abrir talento no Sr. Commendador Barros! Era
essa a hora divina do violo e do fadinho. E j o Videirinha recura
para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordes, pousado com
melancolia  borda d'um banco alto.

--A _Soledad_, Videirinha! pediu o bom Tit, pensativo, enrolando um
grosso cigarro.

Videirinha gemeu deliciosamente a _Soledad_:

    Quando fres ao cemiterio
    Ai Soledad, Soledad!...

Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as cravelhas,
o Fidalgo da Torre e Joo Gouveia, com os cotovellos na mesa, os
charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Loureno Marques aos
Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam, arripiados de
horror, os jornaes da Opposio) pelo Governo do S. Fulgencio. E Gonalo
tambem se arripiava! No com a alienao da Colonia--mas com a
impudencia do S. Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego
d'um frade que depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a
libras, para se manter mais dois annos no Poder, um pedao de Portugal,
torro augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Athaydes, os
Castros, os seus proprios avs--era para elle uma abominao que
justificava todas as violencias, mesmo uma revolta, e a casa de Bragana
enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas, Joo
Gouveia observou:

--Sejamos justos, Gonalo Mendes! Olhe que os Regeneradores...

O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem essa
grandiosa operao--bem! Esses, primeiramente, nunca commetteriam a
indecencia de vender a Inglezes terra de Portuguezes! Negociariam com
Francezes, com Italianos, povos latinos, raas fraternas... E depois os
bons milhes soantes seriam applicados ao fomento do Paiz, com saber,
com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do S.
Fulgencio!...--E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por que
realmente aquelle cognac do Gago era uma peonha torpe!

O Tit encolheu os hombros, resignado:

--No me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora aguenta... E a
genebra  ainda mais peonhenta. Nem para os negros d'esse Loureno
Marques que tu queres vender... Portuguezes indecentes, a vender
Portugal! At o Sr. Administrador do Concelho devia prohibir estas
conversas...

Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e
rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia Loureno
Marques, e Moambique, e toda a Costa Oriental! E s talhadas! Em
leilo! Alli, toda a Africa, posta em praa, apregoada no Terreiro do
Pao! E sabiam os amigos porqu? Pelo so principio de forte
administrao--(estendia o brao, meio alado do banco, como n'um
Parlamento)... Pelo so principio de que todo o proprietario de terras
distantes, que no pde valorisar por falta de dinheiro ou gente, as
deve vender para concertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o
seu curral, fomentar todo o bom torro que pisa com os ps... Ora a
Portugal restava toda uma riquissima provincia a amanhar, a regar, a
lavrar, a semear--o Alemtejo!

O Tit lanou o vozeiro, desdenhando o Alemtjo como uma pellicula de
terra de m qualidade, que, fra umas legoas de campos em torno de Beja
e de Serpa, por um gro s dava dois, e, apenas esgaravetada, logo
mostrava o granito...

--O mano Joo tem l uma herdade immensa, immensissima, que rende
trezentos mil ris!

O Administrador, que advogra em Mertola, protestou, encristado. O
Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde
seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquissima, fertilissima!

--Pois ento os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o Freitas Galvo
me contava...

Mas Gonalo Mendes, que cuspira tambem a genebra com uma carantonha,
acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo como uma
desgraada illuso!

Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:

--Voc j esteve no Alemtejo?

--Tambem nunca estive na China, e...

--Ento no falle! S a vinha espantosa que plantou o Joo Maria...

--Qu! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios, legoas e legoas
sem...

--Um celleiro!

--Uma charneca!

E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor,
levado na torrente d'ais do fado da Ariosa, soluava contra uns olhos
negros, donos do seu corao:

    Ai! que dos teus negros olhos
    Me vem hoje a perdio...

O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina de chita,
com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas
Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador,
que detestava noitadas, nocivas  sua garganta (de amygdalas loucamente
inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente reabotoado na
sobrecasa, de chapo cco mais tombado  banda, apressou o lento Tit,
por que ambos moravam no alto da Villa--elle defronte do Correio, o
outro na viella das Therezas, n'uma casa onde outr'ora habitra e
apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.

O Tit porm no se aviava. Com o bengalo debaixo do brao, ainda
chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o
embrulhado negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda
Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do tabellio Guedes d'Oliveira.
E, quando desceu a escadaria, encontrou  porta da taberna, no estendido
luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o Joo Gouveia
bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil
de Oliveira--o Andr Cavalleiro!

Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonalo clamando que
no alludissem deante d'elle, pelas cinco chagas de Christo, a esse
bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, mando burlesco que
desorganizava o Districto! E Joo Gouveia muito teso, muito secco, com o
cco mais cahido na orelha, assegurando a inteligencia superior do amigo
Cavalleiro, que estabelecera limpeza e ordem, como Hercules, nas
cavallarias d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violo
resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos que recolhessem 
taberna, para no alvorotar a rua...

--Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio est desde
hontem com a pontada!

--Pois ento, berrou Gonalo, no venham com disparates que revoltam!
Dizer voc, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador Civil como o
Cavalleiro!... No  por meu pae! O pap j l vae ha trez annos,
infelizmente. E concordo que no fosse boa auctoridade. Era frouxo,
andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o
Bernardino. Voc serviu com elles. Eram dois homens!... Mas este cavallo
d'este Cavalleiro! A primeira condio para a auctoridade superior d'um
Districto  no ser burlesca. E o Cavalleiro  d'entremez! Aquella
guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho
languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o _p-p-poh_! 
d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe comea nas
patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem
contar que  malandro.

Teso na sombra do immenso Tit, como uma estaca junto d'uma torre, o
Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma
serenidade cortante:

--Voc acabou?... Pois, Gonalinho, agora escute! Em todo o districto
d'Oliveira, note bem, em todo elle! no ha ninguem, absolutamente
ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavalleiro em
intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura politica!

O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o brao, n'um
desabrido, arrogante desprezo:

--Isso so as opinies d'um subalterno!

--E isso so as expresses d'um malcreado! uivou o outro, crescendo
todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.

Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avanou o
brao do Tit, estendendo uma sombra na calada:

--Ol! Oh rapazes! Que desconchavo  este? Vocs esto borrachos?...
Pois tu, Gonalo...

Mas j Gonalo, n'um d'esses seus impulsos generosos e amoraveis que to
finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade,
sensibilisado:

--Perdoe voc, Joo Gouveia! Sei perfeitamente que voc defende o
Cavalleiro por amizade, no por dependencia... Mas que quer, homem?
Quando me fallam n'esse Cavallo... No sei,  por contagio da besta,
orneio, atiro coice!

O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente
o Fidalgo da Torre), deu um puxo forte  sobrecasaca e apenas observou
que o Gonalinho era uma flr, mas picava... Depois, aproveitando a
emoo submissa de Gonalo, recomeou a glorificao do Cavalleiro, mais
sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito, aquelle modo
impertigado... Mas que corao!--E o Gonalinho devia considerar...

O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mos:

--Escute voc, oh Joo Gouveia! Por que  que voc l em cima,  ceia,
no comeu a salada de pepino? Estava divina, at o Videirinha a
appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Por que voc tem
horror physiologico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o
pepino so incompativeis. No ha raciocinios, no ha subtilezas, que o
persuadam a admittir l dentro o pepino. Voc no duvida que elle seja
excellente, desde que tanta gente de bem o adora: mas voc no pde...
Pois eu estou para o Cavalleiro como voc para o pepino. No posso! No
ha molhos, nem razes, que m'o disfarcem. Para mim  ascoroso. No vae!
Vomito!... E agora oua...

Ento Tit, que bocejava, interveio, j farto:

--Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dse de Cavalleiro, e valente!
Somos todos muito boas pessoas e s nos resta debandar. Eu tive senhora,
tive tainha... Estou derreado. E no tarda a madrugada, que vergonha!

O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, s nove horas da manh, com
commisso de recenseamento!... Para esmagar bem o amo, cingiu Gonalo
n'um rijo abrao. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o
Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o acompanhava
sempre pela estrada at ao porto da Torre), Joo Gouveia ainda se
voltou, pendurado do brao do Tit no meio da Caladinha, para lhe
lembrar um preceito moral de no sei que philosopho:

--No vale a pena estragar boa ceia por causa de m politica... Creio
que  d'Aristoteles!

E at Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um
solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados
harpejos:

--No vale a pena, Sr. Doutor... Realmente no vale a pena, por que em
Politica hoje  branco, manh  negro, e depois, zs, tudo  nada!

       *       *       *       *       *

O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na
Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira--quando injuriava o Sr.
Andr Cavalleiro, de Corinde! No! o que detestava era o homem--o falso
homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses fundos
aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o
outro, em dura arrancada de lanas, dois bandos senhoriaes...--E pela
estrada, com a lua no alto dos oiteiros de Valverde, em quanto no violo
do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonalo Mendes
recordava, aos pedaos, aquella historia que tanto enchera a sua alma
desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma com a
velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino--a outra com quinta
bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de dezoito annos,
enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu, Andr Cavalleiro,
ento estudante do Terceiro-Anno, j o tratava como um amigo serio.
Durante as frias, como a me lhe dera um cavallo, apparecia todas as
tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando
pelos arredores de Bravaes e Valverde, lhe confiava, como a um espirito
maduro, as suas ambies politicas, as suas idas de vida que desejava
grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flr dos
seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a flr da Torre.
Ainda ento vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa Miss
Rhodes--que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo Andr
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a
doura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar
Victor Hugo e Joo de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amollecia a
alma e os principios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas
conversas de Andr com Maria da Graa sob as olaias do Mirante e mesmo
cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Me d'Agua.
Todos os domingos o Cavalleiro jantava na Torre:--e o velho procurador
Rebello j preparra, com esforo e resmungando, um conto de reis para o
enxoval da menina. O pae de Gonalo, Governador Civil de Oliveira,
sempre atarefado, enredado em Politica e em dividas, amanhecendo s na
Torre aos Domingos, approvava esta collocao de Gracinha, que, meiga e
romanesca, sem me que a velasse, creava na sua vida, j difficil, um
tropeo e um cuidado. Sem representar como elle uma familia de immensa
Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, Andr
Cavalleiro era um moo bem nascido, filho de general, neto de
desembargador, com braso legitimo na sua casa apalaada de Corinde, e
terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hypothecas...
Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos Chefes Historicos, j filiado no
Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a sua carreira
andava marcada com segurana e brilho na Politica e na Administrao. E
emfim Maria da Graa amava enlevadamente aquelles reluzentes bigodes, os
hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que lhe
encouraava o peitilho e que impressionava. Ella, em contraste, era
pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados que o sorriso
humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de porcellana fina, e
cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a cauda d'um corcel de
guerra, que lhe rolavam at aos ps, em que se podia embrulhar toda,
assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as alamedas da quinta,
miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura Grega em Manchester,
rechera de Mithologia) pensava sempre em Marte cheio de fora amando
Psych cheia de graa. E mesmo os criados da Torre se maravilhavam do
lindo par! S a Snr.^a D. Joaquina Cavalleiro, a me de Andr, senhora
obesa e rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na
Torre, sem motivo pesado, s por desconfiar da pinta da menina e
desejar nra mais comesinha... Felizmente, quando Andr Cavalleiro se
matriculava no Quinto Anno, a desagradavel matrona morreu d'uma
anasarca. O pae de Gonalo recebeu a chave do caixo: Gracinha tomou
luto: e Gonalo, companheiro de casa do Cavalleiro na rua de S. Joo, em
Coimbra, enrolou um fumo na manga da batina. Logo em Santa Ireneia se
pensou que o explendido Andr, libertado da pca opposio da mam,
pediria a Flr da Torre depois do Acto de Formatura. Mas, findo esse
desejado Acto, Cavalleiro abalou para Lisboa--por que se preparavam
Eleies em Outubro, e elle recebera do tio Reis Gomes, ento Ministro
da Justia, a promessa de ser deputado por Bragana.

E todo esse vero o passou na Capital; depois em Cintra, onde o negro
langor dos seus olhos humidos amollecia coraes; depois n'uma jornada
quasi triumphal a Bragana com foguetes e vivas ao sobrinho do Sr.
conselheiro Reis Gomes! Em Outubro Bragana confiou ao dr. Andr
Cavalleiro (como escreveu o _Echo de Traz-os-Montes_) o direito de a
representar em Crtes com os seus brilhantes conhecimentos litterarios e
a sua formosissima presena de orador... Recolheu ento a Corinde; mas
nas suas visitas  Torre, onde o pae de Gonalo convalescia d'uma febre
gastrica que exacerbra a sua antiga diabetes, Andr j no arrastava
sofregamente Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da
quinta, permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre
Politica com Vicente Ramires, que se no movia da poltrona, embrulhado
n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a Gonalo, j se
carpia de no correrem to doces nem to intimas as visitas do Andr 
Torre, occupado, como andava sempre agora, a estudar para deputado...
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das
Crtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma linda egua que
comprra em Villa Clara ao Manoel Duarte, e dous caixotes de livros. E a
boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um here, s
reclamaria Psych depois d'um nobre feito, uma estreia nas Camaras,
n'um discurso lindo, todo flres... Quando Gonalo, nas frias de
Paschoa, appareeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e descorada. As
cartas do seu Andr, que se estrera e n'um discurso lindo, todo
flres..., eram cada semana mais curtas, mais calmas. E a ultima (que
ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara, contava em tres linhas
mal rabiscadas que tivera muito que trabalhar em commisses, que o
tempo se pozera lindo, que n'essa noite era o baile dos condes de
Villaverde, e que elle continuava com muitas saudades o seu fiel
Andr... Gonalo Mendes Ramires, logo n'essa tarde, desabafou com o
pae, que definhava na sua poltrona:

--Eu acho que o Andr se est portando muito mal com a Gracinha... O
pap no lhe parece?

Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a mo
descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel d'armas.

Por fim em Maio a sesso das Camaras terminou--essa sesso que tanto
interessra Gracinha, anciosa que elles accabassem de discutir e
tivessem frias. E quasi immediatamente ella em Santa Ireneia, Gonalo
em Coimbra, souberam pelos jornaes que o talentoso deputado Andr
Cavalleiro partira para Italia e Frana n'uma longa viagem de recreio e
d'estudo. E nem uma carta  sua escolhida, quasi sua noiva!... Era um
ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo XII, lanaria todos
os Ramires, com homens de cavallo e peonagem, sobre o solar dos
Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela chamma, cada servo
pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado e
mortal, murmurou simplesmente: Que traste! Elle em Coimbra, rugindo,
jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar,
desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa Ireneia de magoados
harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha, durante semanas, to
desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob as olaias do
Mirante.

E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrana das lagrimas da irm, um
rancor invadiu Gonalo, to redivivo que atirou para o lado, para sobre
as sebes da valla, uma bengallada, como se fossem s costas do
Cavalleiro!--Caminhavam ento junto  ponte da Portella, onde os campos
se alargam, e da estrada se avista Villa-Clara, que a lua branqueava
toda, desde o convento de Santa Thereza, rente ao Chafariz, at ao muro
novo do cemiterio, no alto, com os seus finos cyprestes. Para o fundo do
valle, clara tambem no luar, era a egrejinha de Craqude, Santa Maria de
Craqude, resto do antigo Mosteiro em que ainda jaziam, nos seus rudes
tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Affonsinos. Sob o
arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava
na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio e suavidade
saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordes:

    Baldadas so tuas queixas,
    Escusados so teus ais,
    Que  como se eu morto fra.
    E no me vers nunca mais!...

E Gonalo retomra as suas recordaes, repassava tristezas que depois
cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto, sem
soffrimento, estendido na sua poltrona  varanda, com os olhos cravados
na velha Torre, murmurando para o padre Soeiro:--Quantos Ramires ver
ella ainda, n'esta casa, e  sua sombra?... Todas essas ferias as
consumiu Gonalo no escuro cartorio, desajudado (por que o procurador, o
bom Rebello, tambem Deus o chamra), revolvendo papeis, apurando o
estado da casa--reduzida aos dois contos e trezentos mil reis que
rendiam os foros de Craqude, a herdade de Praga, e as duas quintas
historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a Coimbra deixou
Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda Nunes Viegas,
senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no Terreiro da Loua
um immenso casaro cheio de retratos d'avoengos e de arvores de costado,
onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um camap de damasco,
entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de Cavallaria,
o _Amadis_, _Leandro o Bello_, _Tristo e Brancaflr_, as _Chronicas do
Imperador Clarimundo_... Foi ahi que Jos Barrlo (senhor d'uma das mais
ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha Ramires, e a amou com uma
paixo profunda, quasi religiosa--estranha n'aquelle moo indolente,
gorducho, de bochechas coradas como uma ma, e to escasso d'espirito
que os amigos lhe chamavam o Jos Bacco. O bom Barrolo residira
sempre em Amarante com a me, no conhecia o trahido romance da Flr da
Torre--que nunca se espalhra para alm dos cerrados arvoredos da
quinta. E, sob o enternecido e romanesco patrocinio de D. Arminda,
noivado e casamento docemente se apressaram, em tres mezes, depois d'uma
carta de Barrlo a Gonalo Mendes Ramires jurando--que a affeio pura
que sentia pela prima Graa, pelas suas virtudes e outras qualidades
respeitaveis, era to grande que nem achava no Diccionario termos para a
explicar... Houve uma bda luxuosa: e os noivos (por desejo de
Gracinha, para se no affastar da querida Torre), depois d'uma jornada
filial a Amarante, armaram o seu ninho em Oliveira,  esquina do largo
d'El-Rei e da rua das Tecedeiras, n'um palacete que o Bacco herdra,
com largas terras, do seu tio Melchior, Deo da S. Dois annos correram,
mansos e sem historia. E Gonalo Mendes Ramires passava justamente em
Oliveira as suas ultimas frias de Paschoa quando Andr Cavalleiro,
nomeado Governador Civil do Districto, tomou posse, estrondosamente, com
foguetes, philarmonicas, o Governo civil e o Pao do Bispo illuminados,
as armas dos Cavalleiros em transparentes no caf da Arcada e na
Recebedoria!... Barrlo conhecia o Cavalleiro quasi intimamente,
admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho Politico. Mas
Gonalo Mendes Ramires, que dominava soberanamente o bom Bacco, logo o
intimou a no visitar o Sr. Governador Civil, a no o saudar sequer na
rua, e a partilhar, por dever d'alliana, os rancores que existiam entre
Cavalleiros e Ramires! Jos Barrlo cedeu, submisso, espantado, sem
comprehender. Depois uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou
a Gracinha a exquisitice de Gonalo:

--E sem motivo, sem offensa, s por causa da Politica!... Ora, v tu! Um
bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer um ranchinho to
agradavel!...

Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se
demorra para a festa dos annos de Barrlo, eis que Gonalo suspeita,
fareja, descobre uma incomparavel infamia! O impertigado homem da
bigodeira negra, o Sr. Andr Cavalleiro, recomera com soberba
impudencia a cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em
olhadellas fundas, carregadas de saudade e langor, procurando agora
apanhar como amante aquella grande fidalga, aquella Ramires, que
desdenhra como esposa!

       *       *       *       *       *

To levado ia Gonalo pela branca estrada, no rolo amargo d'estes
pensamentos, que no reparou no porto da Torre, nem na portinha verde,
 esquina da casa, sobre tres degros. E seguia, rente do muro da horta,
quando Videirinha, que estacra com os dedos mudos nos bordes do
violo, o avisou, rindo:

--Oh, Sr. Doutor, ento larga assim, a estas horas de corrida para os
Bravaes?

Gonalo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre o
dinheiro solto, a chavinha do trinco:

--Nem reparava... Que lindamente voc tem tocado, Videirinha! Com lua,
depois de ceia, no ha companheiro mais poetico... Realmente voc  o
derradeiro trovador portuguez!

Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a
familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a mo na
botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante das Auctoridades,
constituia uma gloria, quasi uma coroao, e sempre nova, sempre
deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os bordes rijamente:

--Ento, para acabar, l vae a grande trova, Sr. Doutor!

Era a sua famosa cantiga, o _Fado dos Ramires_, rosario de heroicas
Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre--que elle desde mezes
apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre
Soeiro, capello e archivista da Torre.

Gonalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma lamparina
mortia, j sem azeite, junto ao castial de prata. E Videirinha,
recuando ao meio da estrada, com um dlindlon ardente, fitra a Torre,
que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias, o negro
miradoiro, no luminoso silencio do ceu de vero. Depois para ella e para
a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia d'um fado de
Coimbra, rico em _ais_:

    Quem te v'r sem que estremea,
    Torre de Santa Ireneia,
    Assim to negra e callada,
    Por noites de lua cheia...
      Ai! Assim callada, to negra,
      Torre de Santa Ireneia!

Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e
enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante,
ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos,
pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonalo desapparecia--com folgazs
desculpas ao Trovador por cerrar a portinha do Castello...

    Ai! ahi ests, forte e soberba,
    Com uma historia em cada ameia,
    Torre mais velha que o reino,
    Torre de Santa Ireneia!...

E comera a quadra a Muncio Ramires, _Dente de Lobo_, quando em cima
uma sala, aberta  frescura da noite, se allumiou--e o Fidalgo da Torre,
com o charuto acceso, se debruou da varanda para receber a serenada.
Mais ardente, quasi soluante, vibrou o cantar do Videirinha. Agora era
a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das
Oliveiras,  porta da sua tenda, deante dos Bares que o acclamavam com
as espadas nuas, recusando o Ducado de Galila e o senhorio das Terras
d'Alm-Jordo.--Que no podia, em verdade, acceitar terra, mesmo Santa,
mesmo de Galila...

    Quem j tinha em Portugal
    Terras de Santa Ireneia!

--Boa piada! murmurou Gonalo.

Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa
semana--a do sahimento de Aldona Ramires, Santa Aldona, trazida do
mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que
morrera, aos hombros de quatro Reis!

--Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa  famosa, oh
Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!

Enlevado, empinando o brao do violo, o ajudante da Pharmacia lanou
outra, j antiga--a d'aquelle terrivel Lopo Ramires que, morto, se
erguera da sua campa no Mosteiro de Craqude, montra um ginete morto, e
toda a noite galopra atravez da Hespanha para se bater nas Navas de
Tolosa! Pigarreou--e, mais chorosamente, atacou a do _Descabeado_:

    L passa a negra figura...

Mas Gonalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa figura degolada,
errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabea nas
mos--despegou da varanda, deteve a Chronica immensa:

--Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas,  um horror.
Olhe! O Tit e o Gouveia jantam c na Torre, no Domingo. Apparea
tambem, com o violo e cantiga nova: mas menos sinistra... _Bona sera_!
Que linda noite!

Atirou o charuto, fechou a vidraa da sala--a sala velha, toda
revestida d'esses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que elle
desde pequeno chamava as _carantonhas dos vovs_. E, atravessando o
corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos campos cobertos
de luar, faanhas rimadas dos seus:

    Ai! l na grande batalha...
    El-Rei Dom Sebastio...
    O mais moo dos Ramires
    Que era pagem do guio...

Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras, comeou
para elle uma noite revlta e pavorosa. Andr Cavalleiro e Joo Gouveia
romperam pela parede, revestidos de ctas de malha, montados em
horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mo,
arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de lana, que o
faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na
Caladinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a
ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II, arreganhando afiados
dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas.
Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo
Tit! Mas D. Affonso to rijo murro lhe despedia aos rins, com o guante
de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago at  Serra
Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendes e d'armas. E
immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava,
debruado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabellos, entre
a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia
Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro Reis!...--Por fim,
moido, sem socgo, j com a madrugada clareando nas fendas das janellas
e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou
um derradeiro repello aos lenoes, saltou ao soalho, abrio a vidraa--e
respirou deliciosamente o silencio, a frescura, a verdura, o repouso da
quinta. Mas que sde! uma sde desesperada que lhe encortiava os
labios! Recordou ento o famoso _fruit salt_ que lhe recommendra o Dr.
Mattos,--arrebatou o frasco, correu  sala de jantar, em camisa. E, a
arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua da Bica-Velha,
que esvasiou d'um trago, na fervura picante.

--Ah! que consolo, que rico consolo!...

Voltou derreadamente  cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as
relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de coqueiros susurrantes,
entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam atravez de
pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao
meio dia, inquieto com aquelle tardar do Sr. Doutor.

-- que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas,
esqueletos... Foram os malditos ovos com chourio; e o pepino...
Sobretudo o pepino! Uma ida d'aquelle animal do Tit... Depois, de
madrugada, tomei o tal _fruit salt_, e estou optimo, homem!... Estou
optimissimo! At me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma
chavena de ch verde, muito forte... Leva tambem torradas.

E momentos depois, na livraria, com um roupo de flanella sobre a camisa
de dormir, sorvendo lentos goles de ch, Gonalo relia junto da varanda
essa derradeira linha da Novella, to rabiscada e molle, em que os
largos raios da lua se estiravam pela larga sala d'armas... De repente,
n'uma rasgada impresso de claridade, entreviu detalhes expressivos para
aquella noite de Castello e de vero--as pontas das lanas dos esculcas
faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha, e o coaxar triste
das rans nas bordas lodosas dos fossos...

--Bons traos!

Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do *Bardo* o
Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres
surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou esse lance
do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala d'armas de
Santa Ireneia, conversava com seu filho Loureno e seu primo D. Garcia
Viegas, o _Sabedor_, de aprestos de guerra... Guerra! Porque? Acaso
pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o arvoredo, almogavares
mouros? No! Mas desgraadamente, n'aquella terra j remida e christ,
em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanas portuguezas!...

Louvado Deus! a penna desemperrra! E, attento s paginas marcadas n'um
tomo da _Historia_ d'Herculano, esboou com segurana a Epocha da sua
Novella--que abria entre as discordias de Affonso II e de seus irmos
por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho I. N'esse comeo do
Capitulo j os Infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam por
Frana e Leo. J com elles abandonra o Reino o forte primo dos
Ramires, Gonalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa dos Souzas. E
agora, encerradas nos castellos de Monte-Mr e de Esgueira, as senhoras
Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o senhorio real
sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que to copiosamente
lhes dora El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer no Alcaar de Coimbra, o
senhor D. Sancho supplicra a Tructesindo Mendes Ramires, seu collao e
Alferes-Mr, por elle armado cavalleiro em Lorvo, que sempre lhe
servisse e defendesse a filha amada entre todas, a infanta D. Sancha,
senhora de Aveyras. Assim o jurra o leal Rico-Homem junto do leito
onde, nos braos do Bispo de Coimbra e do Prior do Hospital sustentando
a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o vencedor de
Silves... Mas eis que rompe a fra contenda entre Affonso II,
asperamente cioso da sua auctoridade de Rei--e as Infantas, orgulhosas,
impellidas  resistencia pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem
D. Sancho legra to vastos pedaos do Reino! Immediatamente Alemquer e
os arredores d'outros castellos so devastados pela hoste real que
recolhia das Navas de Tolosa. Ento D. Sancha e D. Thereza appellam para
El-rei de Leo, que entra com seu filho D. Fernando por terras de
Portugal a soccorrer as Donas opprimidas.--E n'este lance o tio
Duarte, no seu _Castello de Santa Ireneia_, interpellava com soberbo
garbo o Alferes-Mr de Sancho I:

    Que fars tu, mais velho dos Ramires?
    Se ao pendo leonez juntas o teu
    Trahes o preito que deves ao rei vivo!
    Mas se as Infantas deixas indefezas
    Trahes a jura que dstes ao rei morto!...

Esta duvida, porm, no angustira a alma d'esse Tructesindo rude e leal
que o Fidalgo da Torre rijamente modelava. N'essa noite, apenas recebera
pelo irmo do Alcaide d'Aveyras, disfarado em beguino, um afflicto
recado da senhora D. Sancha--ordenava a seu filho Loureno que, ao
primeiro arrebl, com quinze lanas, cincoenta homens de p da sua merc
e quarenta besteiros, corresse sobre Monte-mr. Elle no emtanto daria
alarido--e em dous dias entraria a campo com os parentes de solar, um
troo mais rijo de cavalleiros acontiados e de frecheiros, para se
juntar a seu primo, o _Souzo_, que na vanguarda dos leonezes descia
d'Alva-do-Douro.

Depois logo de madrugada o pendo dos Ramires, o Aor negro em campo
escarlate, se plantra deante das barreiras gateadas: e ao lado, no
cho, amarrado  haste por uma tira de couro, reluzia o velho emblema
senhorial, o sonoro e fundo caldeiro polido. Por todo o Castello se
apressavam os serviaes, despendurando as cervilheiras, arrastando com
fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro. Nos pateos os
armeiros aguavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes com
camadas d'estopa. J o adail, na ucharia, arrolra as raes de vianda
para os dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de
Santa Ireneia, na doura da tarde, os atambores mouriscos, abafados no
arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cabeos, ratatam! ratatam!
convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da mesnada dos Ramires.

No emtanto o irmo do Alcaide, sempre disfarado em beguino, de volta ao
castello d'Aveyras com a boa nova de prestes soccorros, transpunha
ligeiramente a levadia da carcova... E aqui, para alegrar to sombrias
vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastra uma sorte
galante:

     moa, que na fonte enchia a bilha,
    O frade rouba um beijo e diz _Amen_!

Mas Gonalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a pompa
d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a rama da
penna--quando a porta da livraria rangeu.

--O correio...

Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma,
lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrlo--repellindo a outra em
que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E
immediatamente, com uma palmada na mesa:

--Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?

O Bento esperava com a mo no fecho da porta.

-- que no tardam os annos da mana Graa! De todo esqueci, esqueo
sempre. E sem ter um presentinho engraado... Que secca, hein?

Mas na vspera o Manoel Duarte, na Assembla,  mesa do voltarete,
annuncira uma fuga a Lisboa por tres dias, para tratar do emprego do
sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir ao snr.
Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho de
sda branca com rendas...

--O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E ento o Joaquim que
no selle a egoa; j no vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando
pagarei eu esta infame visita? Ha tres mezes!... Emfim, por dous dias
mais a bella D. Anna no envelhece; e o velho Lucena tambem no morre.

E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazo, retomou a
penna, arredondou o seu final com elegante harmonia:

A moa, furiosa, gritou: _Fu! Fu! villo!_ E o beguino, assobiando,
aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias, emquanto
que por todo o fresco valle, at Santa Maria de Craqude, os atambores
mouriscos, tararam! ratamtam! convocavam  mesnada dos Ramires, na
doura da tarde...




III


Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou
com afferro e proveito. E n'essa manh, depois de repicar a sineta no
corredor, duas vezes o Bento empurrra a porta da livraria, avisando o
snr. Doutor que o almocinho, assim  espera, certamente se estragava.
Mas de sobre a tira d'almao Gonalo rosnava j vou!--sem despegar a
penna, que corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de
terminar, antes do almoo, o seu Capitulo I.

Ah! e que canceira lhe custra, durante esses dias, esse copioso
Capitulo, to difficil, com o immenso Castello de Santa Ireneia a
erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a condensar em
contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que
faltasse uma rao nos alforges, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o
dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera, j movera para fra do
Castello o troo de Loureno Ramires, em soccorro de Monte-mr, com um
vistoso coriscar de capellos e lanas em torno ao pendo tendido.

E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenra luzira na Torre albarran, e Tructesindo Ramires
descera  sala terrea da Alcaova para ceiar--quando fra, deante da
carcova, com tres toques fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina
apressada soou. E, sem que o villico tomasse permisso do Senhor, o
alapo da levadia rangeu nas correntes de ferro, rebombou cavamente
nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Paes,
amigo de Affonso II e mordomo da sua Curia, casado com a filha mais
velha de Tructesindo, D. Theresa--aquella que, pelo ondeante e alvo
pescoo, pelo pisar mais leve que um vo, os Ramires chamavam a _Gara
Real_. O Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para acolher, n'um
abrao, o genro amado--membrudo cavalleiro, com os cabellos ruivos, a
alvissima pelle da raa germanica dos visigodos... E, de mos
enlaadas, ambos penetraram n'essa sala de abobada, allumiada por tochas
que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados aos muros.

Ao meio pousava a massia meza de carvalho, rodeada de escanhos at ao
topo, onde se erguia, deante d'um aspero mantel de linho coberto de
pratos de estanho e de picheis luzidios, a cadeira senhorial com o Aor
grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas suspensa, pelo
cinturo tauxeado de prata, a espada de Tructesindo. Por traz negrejava
a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a
prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de sanguesugas, sob dois
molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o
_d'Ultramar_. Rente a um esteio da chamin, um falco, ainda emplumado,
dormitava na sua alcondora: e ao lado, sobre as lages, n'uma camada de
juncos, dois ales enormes dormiam tambem, com o focinho nas patas, as
orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de
vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face
sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia,  claridade do
candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gonalo
adornra a soturna sala Affonsina com alfaias tiradas do Tio Duarte, de
Walter Scott, de narrativas do _Panorama_. Mas que esforo!... E mesmo,
depois de collocar sobre os joelhos do monge um folio impresso em
Moguncia por Ulrick Zell, desmanchra toda essa linha to erudita, ao
recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se no inventra em
tempos de seu av Tructesindo, e que ao monge lettrado apenas competia
um pergaminho de amarellada escripta...

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira at ao arco da porta
cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba
espalhada sobre os braos cruzados, escutava Mendo Paes, que, na
confiana de parente e amigo, jornadera sem homens da sua merc,
cingindo apenas por cima do brial de l cinzenta uma espada curta e um
punhal sarraceno. Aodado e coberto de p correra Mendo Paes desde
Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos preitos jurados,
que se no bandeasse com os de Leo e com as senhoras Infantas. E j
desenrolra ante o velho todos os fundamentos invocados contra ellas
pelos doutos Notarios da Curia--as resolues do Concilio de Toledo! a
bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho fro dos Visigodos!... De
resto, que injuria fizera s senhoras Infantas seu real irmo para assim
chamarem hostes Leonezas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem regedoria
nem renda dos castellos e villas da doao de D. Sancho lhes negava o
senhor D. Affonso. O Rei de Portugal s queria que nenhum palmo de cho
portuguez, baldio ou murado, jazesse fra de seu senhorio real. Escasso
e avido El-Rei D. Affonso?... Mas no entregra elle  senhora D. Sancha
oito mil morabitinos d'oiro? E a gratido da irm fra o Leonez passando
a raia e logo cahidos os castellos formosos d'Ulgoso, de Contrasta,
d'Urros e de Lanhosello! O mais velho da casa dos Souzas, Gonalo
Mendes, no se encontrra ao lado dos cavalleiros da Cruz na jornada das
Navas, mas l andava em recado das Infantas, como moiro, talando terra
portugueza desde Aguiar at Miranda! E j pelos cerros d'Alm-Douro
apparecera o pendo renegado das treze arruellas--e por traz, farejando,
a alcateia dos Castros! Carregada ameaa, e de armas christs,
opprimindo o Reino--quando ainda Moabitas e Agarenos corriam  redea
solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Ireneia, que
to rijamente ajudra a fazer o Reino, no o deveria decerto desfazer
arrancando d'elle os pedaos melhores para monges e para donas
rebeldes!--Assim, com arremessados passos, exclamra Mendo Paes, to
acalorado do esforo e da emoo, que duas vezes encheu de vinho uma
conca de pau e d'um trago a despejou. Depois, limpando a bocca s costas
da mo tremula:

--Ide por certo a Monte-mr, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado
de paz e boa avena, persuadir vossa senhora D. Sancha e as senhoras
Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pae e seu
Rei!

O enorme senhor de Santa Ireneia parra, pousando no genro os olhos
duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como saras em
manh de geada:

--Irei a Monte-mr, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o dos meus para
que justia logre quem justia tem.

Ento Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:

--Maior d, maior d! Ser bom sangue de Ricos-homens vertido por ms
desfrras... Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos
espera Lopo de Baio, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem
lanas!

Tructesindo ergueu a vasta face--com um riso to soberbo e claro que os
ales rosnaram torvamente, e, acordando, o falco esticou a aza lenta:

--Boa nova e de boa esperana! E, dizei, senhor Mordomo-mr da Curia,
to de feio e certa assim m'a trazeis para me intimidar?

--Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos intimidaria
descendo do co com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o
sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E j que
n'esta lide no sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejaes
bem avisado.

O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:

--Bem, bem, a cear, pois!  ceia, Frei Munio!... E vs, Mendo Paes,
deixai receios.

--Se deixo! No vos pde vir damno que me anceie de cem lanas, de
duzentas, que vos surjam a caminho.

E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da
mesa--Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o
cinturo da espada:

--S um cuidado me pesa. E  que, n'esta jornada, senhor meu sogro, ides
ficar de mal com o Reino e com o Rei.

--Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com
a honra e commigo!

Este grito de fidelidade, to altivo, no resoava no poemeto do tio
Duarte. E quando o achou, com inesperada inspirao, o Fidalgo da Torre,
atirando a penna, esfregou as mos, exclamou, enlevado:

--Caramba! Aqui ha talento!

Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado,  banca do trabalho desde as
nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magnificas
dos seus fortes avs! Numerou as tiras--fechou na gaveta  chave o
volume do *Bardo*. Depois  janella, com o collete desabotoado, ainda
lanou o brado genial n'um grave e rouco tom, como o lanaria
Tructesindo:--...de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra
e commigo!... E sentia n'elle realmente toda a alma de um Ramires, como
elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais presos  sua palavra
que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter,
bens, contentamento e vida!

O Bento, que espalhra outro repique desesperado, escancarou a porta da
livraria:

-- o Pereira... Est l em baixo no pateo o Pereira que quer fallar ao
Sr. Doutor.

Gonalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim repuxado
d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua raa:

--Que massada!... O Pereira... Que Pereira?

--O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.

Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado _Brazileiro_ por ter
herdado vinte contos de um tio, regato no Par. Comprra ento terras,
trazia arrendada a _Cortiga_, a fallada propriedade dos condes de
Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de panno fino, e
dispunha de sessenta votos na Freguezia.

--Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto almo... E pe
outro talher.

A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas envidraadas para
uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do av Damio, (o
traductor de Valerius Flaccus) dous formosos pannos d'Arraz
representando a _Expedio dos Argonautas_. Louas da India e do Japo,
desirmanadas e preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E
sobre o marmore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das
pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com
amor. Mas Gonalo, sobretudo de vero, sempre almoava e jantava na
varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida at meio-muro por
finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto, para as
preguias do charuto, um profundo canap de palhinha com almofadas de
damasco.

Quando l entrou, com os jornaes da manh que no abrira, o Pereira
esperava, encostado a um grosso guarda-sol de panninho escarlate,
considerando pensativamente a quinta que, d'alli, se abrangia at aos
lamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um
velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um caro moreno, de olhos
miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, j branca, entre dous enormes
collarinhos presos por botes de ouro. Homem de propriedade, acostumado
 Cidade e ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a mo ao
Fidalgo da Torre, e acceitou, sem embarao, a cadeira que elle lhe
empurrra para a mesa--onde dominavam, com os seus ricos lavores duas
altas enfusas de crystal antigo, uma cheia d'aucenas e a outra de vinho
verde.

--Ento, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? No o vejo
desde Abril!

-- verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a grande
trovoada, na vespera da eleio! confirmou o Pereira affagando o cabo do
guarda-sol que conservra entre os joelhos.

Gonalo, n'uma esfaimada pressa do almoo, repicou a campainha de prata.
Depois rindo:

--E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, l foram para o
eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios vo para o mar!

O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os mos
dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena!
Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, servial... E ento,
quando lhe calhava como em Abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor
Jesus Christo que voltasse  terra e se propuzesse por Villa-Clara
desalojava o patro da _Feitosa_!

O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental
resplandecente, entrava com um prato d'ovos estrellados, quando o
Fidalgo, que desdobrra o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:

--Este guardanapo j serviu! Eu estou farto de gritar. No me importa
guardanapo rto, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho,
fresquinho cada manh, a cheirar a alfazema!

E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:

--O qu! Voc no almoa, Pereira?...

No, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as sopas com o
genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.

--Bravo! Parabens, Pereira amigo! D l um beijo meu ao netinho... Mas
ento ao menos um copo de vinho verde.

--Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.

Gonalo farejra, arredra os ovos. E reclamou o jantar da familia,
sempre muito farto e saboroso na Torre, e comeando por essas pesadas
sopas de po, presunto e legumes, que elle desde creana adorava e
chamava as _palanganas_. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:

--Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena no faz honra ao
circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel, obsequiador... Mas
mudo, Pereira! Inteiramente mudo!

O lavrador roou vagarosamente pelas ventas cabelludas o leno vermelho,
enrolado em bla:

--Sabe as cousas, pensa com acrto...

--Sim! mas pensamento e acrto no lhe sahem de dentro do craneo! Depois
est muito velho, Pereira! Que edade ter elle? Sessenta?

--Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O av durou
at aos cem annos. E ainda o conheci na loja...

--Como, na loja?

Ento o Pereira, enrolando mais o leno, estranhou que o Fidalgo no
soubesse a historia do Sanches Lucena. Pois o av, o Manoel Sanches, era
um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem com uma moa
muito vistosa, muito farfalhuda...

--Bem! atalhou o Fidalgo. Isso  honroso para o Sanches Lucena. Gente
que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o circulo deve
mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha n'elle terra,
raizes, interesses, nome... Mas  preciso que seja tambem homem com
talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questes, nas crises,
se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo, em Politica
quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a
lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S.
Bento, j o Pereira trazia por l os seus carros a chiar.

O Pereira abanou a cabea, com tristeza:

--Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre
faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!

Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma
caoila nova, com raminhos de hortel. E ento o Pereira, acercando mais
a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mos, que meio seculo de
trabalho na terra tornra negras e duras como raizes--e declarou que se
atrevera a incommodar o Fidalgo, quellas horas do almocinho, porque
n'essa semana comeava um crte de madeiras para os lados de Sandim, e
desejava, antes que surdissem outros arranjos, conversar com S. Ex.^a
sobre o arrendamento da Torre...

Gonalo reteve a colhr, num pasmo risonho:

--Voc queria arrendar a Torre, Pereira?

--Queria conversar com V. Ex.^a. Como o Relho est despedido...

--Mas eu j tratei com o Casco, o Jos Casco dos Bravaes! Ficamos meio
apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.

O Pereira coou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande
pena... Elle s no sabbado s'inteirra da desavena com o Relho. E, se o
Fidalgo no resalvava o segredo, por quanto ficra o arrendamento?

--No resalvo, no, homem! Novecentos e cincoenta mil ris.

O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu
detidamente uma pitada, com o caro pendido para a esteira. Pois maior
pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra trocada... Mas era
pena, porque elle gostava da propriedade; j pelo S. Joo pensra em
abeirar o Fidalgo; e, apezar dos tempos correrem escassos, no andaria
longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo um conto cento e
cincoenta!

Gonalo esqueceu a sopa, n'uma emoo que lhe afogueou a face fina, ante
um tal accrescimo de renda--e a excellencia de tal rendeiro, homem
abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas
as cercanias!

--Isso  srio, oh Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rap sobre a toalha, com deciso:

--Meu Fidalgo, eu no era homem que entrasse na Torre para caoar com V.
Ex.^a! Proposta a valer, escriptura a fazer... Mas se o arrendamento
est tratado...

Recolheu a caixa, apoiava a mo larga na meza para se erguer, quando
Gonalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

--Escute, homem!... Eu, no contei por miudo o caso do Casco. Voc
comprehende, sabe como essas cousas passam... O Casco veiu, conversamos;
eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e porco pelo Natal.
Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que no...
Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado,
e o co! Depois s. Andou ahi pela quinta, a medir, a cheirar a terra;
acho at que a provou. Aquellas rabulices do Casco!... Por fim, uma
tarde, l gemeu, l acceitou os novecentos e cincoenta mil reis, sem
porco. Cedi do porco. Aperto de mo, copo de vinho. Ficou de apparecer
para combinar, tratar da escriptura. No o avistei mais, ha quasi duas
semanas! Naturalmente j virou, j se arrependeu... Para resumir, no
tenho com o Casco contracto firme. Foi uma conversa em que apenas
estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cincoenta. E eu, que
detesto cousas vagas, j andava pensando em encontrar melhor homem!

Mas o Pereira coava o queixo, desconfiado. Elle, em negocios, gostava
de lisura. Sempre se entendra bem com o Casco. Nem por um condado se
atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo
que desejava as cousas claras, para no surdir desgosto rijo. No se
lavrra escriptura, bem! Mas ficra, ou no, palavra dada entre o
Fidalgo e o Casco?

Gonalo Mendes Ramires, que findra apressadamente a sopa e enchia um
copo de vinho verde para se calmar, fitou o lavrador, quasi severamente:

--Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco
decisivamente a palavra de Gonalo Ramires, estava agora aqui a tratar,
ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?

O Pereira baixou a cabea. Tambem era verdade!... Pois, n'esse caso,
elle abria a sua teno, claramente. E, como conhecia a propriedade, e
apurra o seu calculo--offerecia ao Fidalgo um conto cento e cincoenta
mil ris, sem porco. Mas no dava para a familia nem leite, nem
hortalia, nem fructa. O Fidalgo, homem s, pouco se aproveitava. A
Torre, porm, casa antiga, enxameava de gentes e d'adherentes. Todos
apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu principio. E de
resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados, bastava o pomar e a
horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais geitoso:
mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por l passaria e tudo
luziria... Emquanto s outras condies, acceitava as do antigo
arrendamento. E escriptura assignada para a outra semana, no sabbado...
Estava feito?

Gonalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente,
estendeu a mo aberta ao Pereira:

--Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!

--E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no
immenso guarda-sol para se erguer. Ento no sabbado, em Oliveira, para a
escriptura... Assigna V. Ex.^a ou o Sr. padre Soeiro?

Mas o fidalgo calculava:

--No, homem, no pde ser! No sabbado, com effeito, estou em Oliveira,
mas so os annos da mana Maria da Graa...

O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:

--Ah! e como vae a snr.^a D. Maria da Graa? Ha que edades a no vejo!
Desde o anno passado, na procisso de Passos, em Oliveira... Muito boa
senhora! Muito dada! E o Sr. Jos Barrlo? Pessoa excellente tambem, a
valer, o Sr. Jos Barrlo... E que terra a d'elle, a _Ribeirinha_! A
melhor propriedade d'estas vinte leguas em redor. Linda propriedade! A
do Andr Cavalleiro que lhe est pegada, a _Biscaia_, no se lhe
compra-- como cardo ao p de couve.

O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:

--Do Andr Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem alma!

O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o
Cavalleiro continuavam chegados e amigos... No em Politica! Mas
particularmente, como cavalheiros...

--O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que
elle nem  cavalheiro nem politico.  apenas cavallo, e resabiado.

O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:

--Ento est entendido, no sabbado, na cidade. E, se no faz transtorno
ao Fidalgo, passamos pelo tabellio Guedes, e fica o feito arrumado. O
Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua mana...

--Sempre. Apparea voc s trez horas. L conversamos com o padre
Soeiro.

--Tambem ha que edades no encontro o Sr. padre Soeiro!

--Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em
Oliveira, com a mana Graa, que  a menina dos seus encantos... Ento
nem um calice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, at sabbado. No
esquea o beijinho para o neto.

--C me vae no corao, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que
V. Ex.^a se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela
cozinha para debicar com a tia Rosa. J desde o tempo do paesinho de V.
Ex.^a, que Deus haja, conheo bem a Torre!... E sempre m'esperancei de
trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!

Durante o caf, esquecido dos jornaes, Gonalo gozou a excellencia
d'aquelle negocio. Duzentos mil ris mais de renda. E a Torre tratada
pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra que
transformra o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha de sera, vinha e
horta!... Alm d'isso, homem abastado, capaz de um adeantamento. E eis
ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse affinco do Pereira em a
arrendar, elle to apertado, to seguro... Quasi se arrependia de lhe
no ter arrancado um conto e duzentos. Emfim, a manh fra fecunda! E,
realmente, nenhum accordo firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas
s'esbora uma conversa, sobre um arrendamento possivel da Torre, a
debater depois miudamente, n'uma base nova de novecentos e cincoenta mil
reis... E que insensatez se elle, por escrupuloso respeito d'essa
conversa esboada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de
rotina--dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada anno
deperecendo, mais canada e chupada!...

--Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco
para as cinco e meia. Sempre vou  _Feitosa_... Hoje  o dia!

Accendeu um charuto, voltou  livraria. E, immediatamente releu o final
magnifico: De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e
commigo!--Ah! como alli gritava a alma inteira do velho portuguez, no
seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira d'almasso entre
os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas
frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde
agora adejava um bando de pombas... Quantas manhs, s frescas horas
d'alva, o velho Tructesindo se encostra quellas ameias, ento novas e
brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao
poderoso Rico-Homem. E o Pereira, n'esse tempo colono ou servo, s
abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas no lhe pagava um conto
cento e cincoenta mil ris de sonora moeda do Reino. Tambem, que diabo,
o vv Tructesindo no precisava... Quando os saccos rareavam nas arcas,
e os acostados rosnavam por tardana de soldo, o leal Rico-Homem, para
se prover, tinha as tulhas e as adgas dos Concelhos mal defendidos--ou
ento, n'uma volta de estrada, o ovenal voltando de recolher as rendas
reaes, o bufarinheiro genovez com os machos ajoujados de trouxas. Por
baixo da Torre (como lhe contra o pap) ainda negrejava a masmorra
feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos
pilares, e na abobada a argola d'onde pendia a pol, e no lagedo os
buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida cova,
ovenal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de fro uivavam sob o
aoite ou no torniquete, at largarem agonizando o derradeiro
morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada to meigamente ao luar pelo
Videirinha, quantos tormentos abafra!...

E de repente, com um berro, Gonalo agarrou de sobre a mesa um volume de
Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra o tronco de
uma faia.  que descortinra o gato da Rosa cozinheira, trepado, d'unhas
fincadas n'um ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de
melros.

       *       *       *       *       *

Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de
montar, polainas de couro polido, luvas de camura branca, parou a egua
ao porto da _Feitosa_--um velho todo esfarrapado, com longos cabellos
cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo peito,
immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas de
chourio, bebendo d'uma cabaa, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e
a Sr.^a D. Anna andavam por fra, de carruagem. Gonalo pediu ao velho
que puchasse o ferro da sineta. E entregando um carto ao moo, que
entreabrira a rica grade dourada, com um _S_ e um _L_ entrelaados, sob
uma cora de conde:

--O Sr. Sanches Lucena, bem?

O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...

--O que? Esteve doente?

--Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito
agoniado...

--Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!

Chamou o velho que repicra a sineta para o recompensar com um tosto.
E, interessado por aquellas barbaas e melenas de mendigo de Melodrama:

--Vocemec pede esmola por estes sitios?

O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do
sol, mas risonhos, quasi contentes:

--Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graas a Deus, l me fazem
muito bem.

--Ento quando l voltar diga ao Bento... Voc conhece o Bento?

Se conhecia! E a Snr.^a Rosa...

--Pois diga ao Bento que lhe d umas calas, homem! Voc assim, com
essas calas, no anda decente.

O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando com gosto os sordidos
farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que
galhos de inverno:

--Rtinhas, rtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que me ficam assim bem.
O Sr. dr. Julio, quando l passo, sempre me tira o retrato na machina.
Ainda na semana passada... At com uns pedaos de grilhes dependurados
do pulso, e uma espada erguida na mo... Parece que para mostrar ao
Governo.

Gonalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por Valverde:
depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o Gouva a partilhar na
Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle na
vespera, na Assembla, convidra o Manoel Duarte e o Tit. Mas ao
atravessar a Cruz das Almas, onde a estrada de Corinde, to linda, com
as suas filas d'alamos, crusa a ladeira de Valverde, parou--notando ao
fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro d'uma carrada de
lenha, e uma carriola d'aougue, e uma mulher de leno escarlate
bracejando sobre a albarda d'um burro, e dous lavradores de enxada s
costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou--a mulher trotando no
seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a carriola
solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro avanando para a Cruz
das Almas a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma ch
atravez das leiras de feno... Na estrada s restou, como desamparado, um
homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava penosamente, coxeando.
Gonalo trotou, com curiosidade:

--Que foi?... Vocemec que tem?

O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonalo uma face
arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:

--Nosso Senhor lhe d muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o que hade
ser? Desgraas d'esta vida!

E, gemendo, contou a sua historia.--Desde mezes padecia d'uma chaga n'um
tornozello, que no seccra, nem com emplastos, nem com p de murtinhos,
nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. dr.
Julio, a concertar um socalco, para ajudar um compadre tambem doente com
maleitas--e, zs, desaba um pedregulho, que tpa na ferida, leva a
carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... At rasgra a fralda
para ensopar o sangue e amarrar por cima o leno.

--Mas assim no pde andar, homem! D'onde  vocemec?

--De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Slha, do logar da Finta. At l,
sempre me hei-de arrastar.

--E ento, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, ninguem o poude
ajudar?... Uma carriola, dous latages...

Uma rija guinada, no teimoso esforo de firmar a perna, arrancou um
grito ao Slha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um,
n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga do burro promettra
passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes apparecesse
na estrada com uma eguasita que elle comprra pela Paschoa--e que, por
desgraa, tambem mancava!...

Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:

--Bem! Ento, egua por egua, j vocemec tem aqui esta...

O Slha embasbacou para Gonalo:

--Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V.
Ex.^a a p?

Gonalo ria:

--Homem, com essas discusses de eu a p e voc a cavallo, e faz
favr e no senhor,  que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja
quieto, e trote para a Finta!

O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a cabea,
esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:

--Isso  que no, meu senhor, isso  que no! Antes eu acabasse aqui 
mingoa, com a chaga em bolor!

Gonalo bateu o p, com auctoridade:

--Monte, que mando eu! Vocemec  um lavrador de enxada, eu sou um
Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!

E o Slha, logo submisso ante aquella fora deslumbrante do Saber
superior, agarrou em silencio a crina da egua, enfiou respeitosamente o
estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe
amparava o p entrapado e manchado de sangue.

Depois, quando elle repousou no sellim com um _ah!_ consolado:

--Ento que tal?

O homem s murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratido e no assombro
d'aquella caridade:

--Mas isto  a volta do mundo... Eu aqui, na egua do Fidalgo! E o
Fidalgo, o Sr. Gonalo Ramires, da Torre, a p pela estrada!

Gonalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do
Dr. Julio, que agora se arrojra a obras e plantaes de vinha. Depois,
como o Manoel Slha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensra em
arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram sobre esse esperto homem,
sobre as grandezas da _Cortiga_. J sem embarao, direito no sellim, no
gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o Slha esquecia a
chaga, a dr que adormentra. E  estribeira do Slha, attento e
sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.

Assim se avizinhavam da _Bica-Santa_, um dos sitios decantados
d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na encosta d'um
monte, alarga e frma um arejado terrao, d'onde se abrange todo o valle
de Corinde, to rico em casaes, em arvoredos, em seras, em aguas. No
pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, brta a
fonte nomeada, que j em tempos d'El-Rei D. Joo V curava males
d'entranhas--e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda
Carneiro, mandou encanar desde o alto at a um tanque de marmore, onde
agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e
patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam
dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras
tolda de sombra e frescura.  um suave retiro onde se apanham violetas,
se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas
tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e
verdejante largueza do valle.

Antes porm de desembocar na _Bica-Santa_, e perto do logar do Serdal, a
estrada de Corinde quebra n'uma volta:--e, ahi, de repente, a egua
pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da
pericia do Slha, a deitar a mo  caimba do freio. Fra o encontro
inesperado d'uma carruagem--uma caleche forrada d'azul, com a parelha
coberta de rdes brancas contra a msca, e na almofada, tzo, um
cocheiro de bigode, farda de golla escarlate e chapo de tpe amarello.
E Gonalo mantinha ainda a egua pelo freio, como arrieiro servial em
trilho perigoso--quando avistou, sentado n'um dos bancos de pedra, junto
da Bica, com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches
Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, esfregava com um mlho d'herva
a botina que a bella D. Anna lhe estendia, apanhando o vestido de linho
cr, apoiando a outra mo, sem luva, na cinta vergada e fina.

A desconcertada appario do Fidalgo da Torre, puxando pela rdea a sua
egua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa,
alvorotou aquelle repousado e dormente recanto da _Bica_. Sanches Lucena
esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um arremesso de
curiosidade que o levantra, com o pescoo esticado, o chale-manta
escorregado para a relva. D. Anna recolheu bruscamente a botina, logo
empertigada, na gravidade condigna da senhora da _Feitosa_, retomando
como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa por um cordo
d'ouro. E at o trintanario ria pasmadamente para o Slha.

Mas j, com o seu desembarao elegante, Gonalo, n'um relance, saudra
D. Anna, apertava com fervor a mo espantada do Sanches Lucena, e,
alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! Pois vinha
justamente da _Feitosa_! E ahi soubera com desgosto, por um moo da
quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas ultimas semanas
andra doente... E, ento como estava? como estava?--Oh! a physionomia
era excellente!

--Pois no  verdade, Sr.^a D. Anna? O aspecto  excellente!

Com um leve requebro da cabea, um fofo ondear do mlho de plumas
brancas sobre o chapo de palha vermelha, ella volveu n'uma voz rolada,
lenta e gorda, que arripiou Gonalo:

--O Sanches agora, graas a Deus, desfructa melhor saude...

--Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.^a, Sr.
Gonalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para
os joelhos o chale-manta.

E, com os oculos a luzir, cravados em Gonalo, na curiosidade que o
abrazava, quasi lhe rosra a face afilada, mais amarella que um cirio:

--Mas, com perdo de V. Ex.^a! como  que V. Ex.^a anda por aqui, pela
estrada de Corinde, n'este estado, a p, trazendo  rdea um lavrador de
enxada?...

Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma
funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados,
Gonalo contou o desastre do bom homem, que encontrra no caminho
gemendo, arrastando a perna escalavrada...

--De sorte que lhe offereci a minha egua... E at, se V. Ex.^a me
permitte, minha senhora,  necessario que eu combine com elle o resto da
jornada...

Rapidamente, voltou ao Slha, que, de novo acanhado ante os senhores da
_Feitosa_, com o chapeu na mo, encolhido sobre o sellim, como
attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas j
Gonalo lhe ordenava que trotasse para a Finta--e lhe mandasse a egua
por um dos seus rapazes, alli  Bica-Santa, onde elle se demorava com o
Snr. Conselheiro. E quando o Slha largou, saudando desabaladamente,
torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos risonhos com que o
Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recomeou:

--Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonalo
Mendes Ramires a trazer  rdea, pela estrada de Corinde, um cavador
d'enxada!  a repetio do Bom Samaritano... Mas para melhor!

Gonalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena.--Oh! o Bom
Samaritano no merecera uma pagina to amavel no Evangelho smente por
offerecer o burro a um Levita doente: decerto mostrra virtudes mais
bellas...--E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de Sanches
Lucena, espalhava a luneta, com lentido magestosa, pelas arvores e pela
Fonte que to bem conhecia:

--Ha dous annos, minha senhora, que eu no tenho a honra...

Mas Sanches Lucena despediu um grito:

--Oh! Sr. Gonalo Ramires! V. Ex.^a traz sangue na mo!

O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camura branca resaltavam
duas manchas arroxeadas:

--No  sangue meu! foi naturalmente quando o Slha montou, e eu lhe
segurei o p escalavrado...

Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do banco
de pedra. E continuando o sorriso:

--Com effeito, no tenho a honra de encontrar a V. Ex.^a, minha senhora,
desde o baile do baro das Marges, em Oliveira, o famoso baile de
Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me recordo
que V. Ex.^a estava vestida esplendidamente de Catharina da Russia...

E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos,
pensava:--Formosa creatura! mas ordinaria! e que voz!... D. Anna
tambem se recordava do baile dos Marges:

--O cavalheiro, porm, est equivocado. Eu no fui de Russa, fui de
Imperatriz...

--Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto!
com um luxo!

Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonalo os oculos d'ouro,
apontou um dedo alongado e livido:

--Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.^a D.
Graa, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissima
festa; nem admira; o nosso Marges  sempre primoroso... E desde essa
noite no tornei a encontrar a mana de V. Ex.^a em intimidade. Apenas de
longe, na missa...

De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa
montada, creadagem e cocheira--porque, ou culpa do ar ou culpa da agua,
no se dava bem na Cidade.

Gonalo acalorou mais o seu interesse:

--Mas ento, realmente, V. Ex.^a o que tem tido?

Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, no se
entendiam. Uns attribuiam ao estomago--outros attribuiam ao corao.
Portanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E soffria crises--ms
crises... Emfim, com a graa de Deus, e regimen, e leite, e descano,
ainda esperava arrastar uns annos.

--Oh! com certeza! exclamou Gonalo alegremente. E V. Ex.^a no pensa
que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a Politica, a terrivel Politica,
o fatiguem, o agitem?...

No, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa.
Melhor mesmo que na _Feitosa_! Depois, gostava d'aquella distraco das
Camaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma
roda fina...

--Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.^a decerto conhece. Elle 
parente de V. Ex.^a... O D. Joo da Pedrosa.

Gonalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:

--Sim, o D. Joo, decerto...

E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mo magrissima, quasi
transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de saphira:

--E no smente o D. Joo... Outro dos nossos amigos  egualmente
parente de V. Ex.^a, e chegado. Muitas vezes temos fallado de V. Ex.^a,
e da sua casa. Que elle pertence tambem  primeira nobreza...  o
Arronches Manrique.

--Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma
convico que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a fora
viosa e a perfeio.

A Gonalo tambem nunca chegra esse nome sonro. Mas no hesitou:

--Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes
em Lisboa, e vou to pouco a Lisboa!... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna...

Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de
parentescos fidalgos:

--V. Ex.^a, naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentella historica.
Assim eu creio que V. Ex.^a  primo do Duque de Lourenal... O Duarte
Lourenal! Elle no usa o titulo, por Miguelismo, ou antes por habito:
mas emfim  o legitimo Duque de Lourenal.  quem representa a casa de
Lourenal.

Gonalo, sorrindo attentamente, desabotora o fraque, procurava a sua
velha charuteira de couro.

--Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos primos.
E eu acredito. Entendo to pouco d'arvores de costado!... De facto as
casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, no s
pelo lado d'Ado, mas pelos Godos... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna, prefere
a estada em Lisboa?

Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o trincra:

--Oh! perdo minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Ex.^a...

Ella saudou, descendo as longas pestanas:

--O cavalheiro pde fumar; o Sanches no fuma, mas eu at aprecio o
cheiro.

Gonalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, aquelles
horrendos _cavalheiro, o cavalheiro_!... Mas pensava:--que linda
pelle! que bella creatura!... E Sanches Lucena, inexoravel, estendera o
dedo agudo:

--Pois eu conheo muito, no o Sr. D. Duarte Lourenal, no tenho essa
subida honra por ora, mas seu irmo, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro
estimabilissimo, como V. Ex.^a decerto sabe... E depois, que talento...
Que talento, no cornetim!

--Ah!

--O qu! V. Ex.^a no ouviu seu primo, o Sr. D. Philippe Lourenal,
tocar cornetim?

E at a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos beios
cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos
dentes pequeninos:

--Oh! tca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu tambem... Mas,
como V. Ex.^a comprehende, qui na alda, com a falta de recursos...

Gonalo, arremessando o phosphoro, exclamra logo, n'um sincero
interesse:

--Ento, queria que V. Ex.^a ouvisse um amigo meu, que  verdadeiramente
sublime no violo, o Videirinha!...

Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo,
singelamente:

-- um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O Jos Videira, ajudante
da Pharmacia...

Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:

--Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonalo Mendes Ramires!

Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. At o Videirinha passava as
ferias na Torre, com a me, antiga costureira da casa. To bom rapaz,
to simples... E na realidade, no violo, um genio!

--Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o _Fado dos Ramires_.
A musica  com effeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os
versos so d'elle, umas quadras engraadas sobre cousas da minha Casa,
lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo
e com o Tit...

E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro
reparo:

--O Tit?

O Fidalgo ria:

-- uma velha alcunha d'amizade que ns damos ao Antonio Villalobos.

Ento Sanches Lucena atirou ambos os braos, como se alguem muito
querido apparecesse na estrada:

--O Antonio Villalobos! Mas esse  um dos nossos fieis e bons amigos!
Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz o favor de
apparecer pela _Feitosa_...

E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o
Tit alludira, quando no Gago, na Torre, na Assembla, se berrava,
politicando, o nome do Sanches Lucena!

--Ah V. Ex.^a conhece...

Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, debruada, recolhia
a luva e a sombrinha--lembrou ao marido o estriar lento da tarde, a
neblina subindo sempre quella hora do valle aquecido:

--Sabes que nunca te faz bem... E tambem no faz bem  parelha, assim
parada, ha tanto tempo.

Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxra da algibeira um espesso
leno de sda branca para abafar o pescoo. E, receioso tambem pela
parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno
canado ao trintanario para apanhar o chale, avisar o cocheiro. Mas
ainda atravessou, vergado e arrimado  bengala, para o parapeito que
resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o
valle. E confessava a Gonalo que aquelle era, nos arredores da
_Feitosa_, o seu passeio preferido. No s pela belleza do sitio, j
cantado pelo nosso mavioso Cunha Torres;--mas porque do terrao da
Bica, sem esforo, sentado no banco, avistava n'uma largueza terras
suas:

--Olhe V. Ex.^a... Para alm d'aquelle souto, at  ch e ao comoro onde
est a casota amarella e por traz o pinhal, tudo  meu... O pinhal ainda
 meu... Acol, do renque d'lamos para deante, depois do lameiro, 
tambem meu... Alli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas,
mais para l, passado o azinhal, pelo monte acima,  tudo meu!

O livido dedo, o brao escanifrado na manga de casimira preta, cresciam
por sobre o valle.--Alm os pastos... Adeante os centeios... Depois o
bravio...--Tudo d'elle! E, por traz da magra figura alquebrada, de
chapo enterrado na nuca, o abafo de seda subido at s pallidas orelhas
quasi despegadas, D. Anna, esvelta, clara e s como um marmore, com um
sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito mais cheio,
acompanhava a enumerao copiosa, affincava a luneta sobre os pastos, e
os pinhaes, e os centeios, sentindo j--tudo d'ella!

--E agora acol, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito,
 sitio seu, Sr. Gonalo Mendes Ramires...

--Meu?...

--De V. Ex.^a, quero dizer, ligado  casa de V. Ex.^a. Pois no
reconhece?... Alm, por traz do moinho, passa a estrada de Santa Maria
de Craqude. So os tumulos dos seus antepassados... Passeio que eu
tambem s vezes fao, e com gosto. Ainda ha um mez visitamos detidamente
as ruinas. E acredite que fiquei impressionado! Aquelle bocado de
claustro to antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada 
abobada por cima do tumulo do meio...  de commover! E achei muito
bonito, muito filial, da parte de V. Ex.^a, o ter sempre aquela lampada
de bronze accsa de noite e de dia...

Gonalo engrolou um murmurio risonho--porque no se recordava da espada,
nunca recommendra a lampada. Mas Sanches Lucena, agora, supplicava um
precioso favor ao snr. Gonalo Mendes Ramires. E era que S. Ex.^a lhe
concedesse a honra de o conduzir na carruagem  Torre... Alvoroadamente
Gonalo recusou. Nem podia! combinra com o homem da perna dorida
esperar alli, na Bica, pela sua egoa.

--Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.^a  Torre.

--No, no, se V. Ex.^a me permitte, eu espero... Depois metto pelo
atalho da Crassa, porque tenho s oito horas na Torre,  minha espera
para jantar, o Tit.

D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a
ameaa renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches
Lucena ainda emperrou para affirmar a Gonalo, com a descarnada mo
sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe ficava celebre...

--Porque vi uma cousa que poucas vezes se ter visto: o maior fidalgo de
Portugal, a p pela estrada de Corinde, levando  rdea no seu proprio
cavallo um cavador de enxada!

Ajudado por Gonalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. Anna j se
enterrra nas almofadas, alando entre as mos, como uma insignia, o
cabo rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario tambem se entezou,
cruzou os braos: e a caleche apparatosa, com as manchas brancas das
rdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob
a espalhada ramaria das faias.

Que massada! exclamou Gonalo. E no se consolava de tarde to linda
assim desperdiada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com o Snr. D.
Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de rda fina, e tudo d'elle
por collina e valle! A mulher, explendida pa de carne, como filha de
carniceiro,--mas sem migalha de graa ou alma. E que voz, Jesus, que
voz! Gente pedante e sabuja...--E agora s desejava recuperar a sua
egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o Tit, familiar da
_Feitosa_! o seu sco por toda aquella Sancharia.

A egoa no tardou, a trte largo, montada pelo filho do Slha, que, ao
avistar o Fidalgo, saltou  estrada, de chapeu na mo, encouchado e
encarnado, balbuciando que o pae chegra bem, pedia a Nosso Senhor lhe
pagasse a caridade...

--Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. L mandarei
saber.

N'um pulo montra--galopava pelo facil atalho da Crassa. Mas, deante do
porto da Torre, encontrou um moo do Gago, com um bilhete do Tit,
annunciando que no podia jantar na Torre porque partia n'essa semana
para Oliveira!

--Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! At
combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D.
Antonio?

O rapaz coou pensativamente a cabea:

--O Snr. D. Antonio passou l por casa para eu trazer o bilhete ao
Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio
Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...

Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma
immensa inveja:

--E onde  a festa, sabes?

--Eu no sei, meu Fidalgo... Mas parece que  cousa rija, porque o Snr.
Joo Gouva encommendou l ao patro dous grandes pratos de bolos de
bacalhau.

Bolos de bacalhau! Gonalo sentio como a amargura de uma traio:

--Oh! que animaes!

E de repente ideou uma vingana alegre:

--Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. Joo Gouva no te
esqueas de lhes dizer que sinto muito... Que eu tambem c tinha  noite
na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Snr.^a D. Anna Lucena...
No te esqueas, hein?

Gonalo galgou as escadas rindo da sua inveno. Mas, n'essa noite, s
nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte,
entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo lampeo
dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente,
atravez da janella aberta, reparou n'um homem que, em baixo, rente da
sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais attento, imaginou
reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do Tit. Mas no, com
certesa! o homem trasia jaqueta e carapuo de l. Curioso, abafando os
passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porm descera da estrada,
logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o Casal do Miranda,
e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras casas de
Villa-Clara.




IV


O palacete dos Barrlos em Oliveira (conhecido desde o comeo do seculo
pela Casa dos _Cunhaes_) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas
no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella que conduz ao Quartel e a
rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, opprimida pelo
comprido terrao do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das
Monicas. E n'essa manh, justamente quando Gonalo, na caleche da Torre
puxada pela parelha do Torto, desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela
Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas
clinas, que feria as lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o
Andr Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um relance, do
fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando os
pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou,
com um murro no joelho, rugindo surdamente--que biltre! Ao apear no
porto (um porto baixo, como esmagado pelo immenso escudo de armas dos
Ss) to suffocada indignao o impellia que no reparou nas effuses do
porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os
presentes para Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de
flores da Torre coberto de papel de sda. Depois em cima, na sala
d'espera, onde Jos Barrlo correra, ao sentir nas lages do Largo
silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente,
atirando o guarda p para uma cadeira de couro:

--Oh senhores! Que eu no possa vir  cidade sem encontrar de cara este
animal do Cavalleiro! E sempre no Largo, defronte da casa!  sorte!...
Esse bigodeira no achar outro logar para onde v caracolar com a
pileca?

Jos Barrlo, um moo gordo, de cabello ruivo e crespo, com um buo
claro n'uma face mais redonda e crada que uma bella ma, accudiu,
ingenuamente:

--Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo,
que comprou ao Marges!

--Pois bem!  um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que fiquem
ambos na cavallaria. Ou que vo ambos pastar para as Devezas!

O Barrlo escancarou a bca larga e fresca, de soberbos dentes, n'um
lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta,
rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe inchava as veias:

--Essa  d'arromba! No, essa  para contar no Club... Um burro feio em
cima d'um cavallo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico,
menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na herva, o
Governador civil e o cavallo...  d'arromba!

Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E
Gonalo, adoado por aquella ovao que celebrava a sua facecia:

--Bem. D c esses ossos, ou antes esses untos. E como vae a familia? A
Gracinha?... Oh! viva a linda flr!

Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos cabellos
soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroada para o irmo,
que a envolveu n'um abrao e em dous beijos sonoros. E immediatamente,
recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:

--Positivamente ests mais gorda, at mais alta...  sobrinho?... No?
nada, por ora?

Gracinha crou, com aquelle seu languido sorriso que mais lhe humedecia
e lhe enternecia a doura dos olhos esverdeados.

--Se ella no quer, ella no quer! gritava o Jos Barrlo, gingando, com
as mos enterradas nos bolsos do jaqueto que lhe desenhava as ancas
rolias. A culpa no  c do patro... Mas ella no se decide!

O fidalgo da Torre reprehendeu a irm:

--Pois  necessrio um menino. Eu por mim no caso, no tenho geito: e
l se vo d'esta feita Barrlos e Ramires! A extinco dos Barrlos 
uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Snr.^a
D. Graa Ramires, depressa, em nome da nao, um morgado! Um morgado
muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!

Barrlo protestou, aterrado:

--O que? Turtesinho? No! para tal sorte no o fabrco eu!

Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da
Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos paves...
Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da
India, de pesados cadeires dourados de damasco azul, com tres varandas
sobre o Largo d'El-Rei. Barrlo enrolou um cigarro, reclamou a historia
do Relho, da grande desordem. Tambem elle arranjra uma pega com o
rendeiro da _Ribeirinha_, por causa d'um crte de pinhal. Essa do Relho
porm fra tremenda...

E Gonalo, enterrado ao canto do fundo camap azul, desabotoando
preguiosamente o jaqueto de chaviote claro:

--No! foi muito simples. J ha mezes esse Relho andava bebedo, sem
despegar... Uma noite berrou, ameaou a Rosa, agarrou n'uma espingarda.
Eu desci, e n'um instante a Torre ficou desembaraada de Relhos e de
barulhos.

--Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrlo.

Gonalo saccudiu os hombros, impaciente:

--Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! J o homem abalra,
corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da
Riosa...

Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao almoo, entre
dous copos de vinho verde. Barrlo admirou a renda--gabou o rendeiro.
Assim Gonalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo,
terra to generosa, to mal amanhada!

 borda do camap, coberta pelos bellos cabellos que lavra n'essa manh
e que cheiravam a alecrim, Gracinha comtemplava o irmo com ternura:

--E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Tit?

--Oh! esse animal! exclamou Gonalo. Ha dias prometteu jantar na Torre,
at a Rosa assou um cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a
Oliveira... E  verdade! vocs sabiam da intimidade do Tit com o
Sanches Lucena?

Historiou ento, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror
que lhe causra a bella D. Anna, a descoberta inesperada d'essa
familiaridade do Tit na _Feitosa_.

Barrlo recordou que uma tarde, antes do S. Joo, avistra o Tit,
deante do porto da _Feitosa_, a passear pela trela um cosinho branco
de regao...

--Mas o que eu no comprehendo, menino,  esse teu horror pela D.
Anna... Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olhes, um
peitoril...

--Calle essa bca impura, devasso! gritou Gonalo. Pois aqui ao lado da
sua mulher, que  a flr das Graas, ousa louvar semelhante pea de
carne!

Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia a admirao do Jos.
Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...

--Sim, concedeu Gonalo, bella como uma bella egoa... Mas aquella voz
gorda, papuda... E a luneta, os modos... E o cavalheiro pde fumar, o
cavalheiro est enganado... Oh! senhores, pavorosa!

Barrlo gingava, deante do soph, com as mos nos bolsos da rabona:

--Uvas verdes, Snr. D. Gonalo, uvas verdes!

O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:

--Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos
contos do Sanches n'uma salva d'ouro!

Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um oh escandalisado, Gracinha
bateu no hombro de Gonalo--que puxou por ella, galhofeiramente:

--Venha l essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com effeito,
s pensar na D. Anna arrasta a gente s imagens brutaes... Dizias ento
do estomago... Sim, filha, combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal
cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens c
agua de Vidago?... Ento, Barrlinho, s angelico. Manda trazer j uma
garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um aafate e uma
caixa de papelo que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E
no desembrulhes, que  surpreza... Escuta! Que me levem agua bem
quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse
caminho!

E quando o Barrlo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonalo, esfregando
as mos:

--Pois vocs ambos esto explendidos! E na harmonia que convem. Tu
positivamente mais frte, mais cheia. At pensei que fosse sobrinho. E o
Barrlo mais delgado, mais leve...

--Oh, agora o Jos passeia, monta a cavallo, j no adormece tanto
depois de jantar...

--E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendona? Bem?... Padre
Sueiro, que  feito d'esse santo?

--Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no
Pao do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a fazer um livro
sobre os Bispos.

--Bem sei, a Historia da S d'Oliveira... Pois eu tambem tenho
trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.

--Ah!

--Um Romance pequeno, uma Novella, para os _Annaes de Litteratura e de
Historia_, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... 
sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um av nosso, muito
antigo, Tructesindo.

--Tem graa, que fez elle?

--Horrores. Mas  pittoresco... E depois o Pao de Santa Ireneia, no
sculo XII, em todo o seu explendor! Emfim uma bella reconstruco do
velho Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Has-de gostar... No ha
amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas
antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu
chic, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo tentar a Politica,
preciso primeiramente apparecer, espalhar o meu nome...

Gracinha sorria docemente para o irmo, no costumado enlevo:

--E agora tens alguma ida? A tia Arminda l continua sempre com a teima
que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha dias... Ai, o Gonalinho,
assim galante, e com aquelle nome, s n'uma grande embaixada!

Gonalo despegra lentamente do vasto camap, reabotoando o jaqueto
claro:

--Com effeito ando com uma ida, ha dias... Talvez me viesse d'um
romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as
antigas Minas de Ophir, _King Salomon's Mines_... Ando com idas de ir
para a Africa.

--Oh Gonalo, credo! Para a Africa?

O escudeiro entrra com duas garrafas de agua de Vidago, ambas
desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o
piquesinho, Gonalo encheu um copo enorme de crystal lavrado. Ah! que
delicia d'agua!--E como o Barrlo voltava, annunciando que cumprira as
ordens de S. Ex.^a:

--Bem! ento logo conversamos ao almoo, Gracinha! Agora lavar, mudar de
roupa, que no paro com estas infames comiches...

Barrlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaosos e alegres
do Palacete, forrado de cretones cr de canario com uma varanda para o
jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os
velhos arvoredos do convento das Monicas. Gonalo impaciente despiu logo
o casaco, saccudiu para longe o collete:

--Pois tu ests explendido, Barrlo! Deves ter perdido tres ou quatro
kilos. So naturalmente os kilos que Gracinha ganhou... Vocs, se assim
se equilibram, ficam perfeitos.

Deante do espelho Barrlo acariciava a cinta, com um risinho deleitado:

--Realmente, parece que adelgacei... At sinto nas calas...

Gonalo abrira o gaveto da rica commoda de ferragens douradas, onde
conservava sempre roupa (at duas casacas), para evitar o transporte de
malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrlo a
adelgaar sem descano, para belleza da futura raa Barrolica--quando
em baixo, na silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de
luxo feriram as lages em cadencia lenta.

Logo desconfiado, Gonalo correu  janella, ainda com a camisa que
desdobrava. E era _elle_! Era o Andr Cavalleiro, que descia ladeando,
sopeando a rdea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal
empedrada. Gonalo virou para o Barrlo a face chammejante de furr:

--Isto  uma provocao! Se este descarado d'este Cavalleiro passa outra
vez na maldita pileca, por debaixo das janellas, apanha com um balde
d'agua suja!...

Barrlo, inquieto, espreitou:

--Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo das
Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E  para as Louzadas.

--Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, no ha outro caminho
para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem
uma chapada d'agua de sabo, pela grenha e pela bigodeira, to certo
como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!

Barrlo beliscava a pelle do pescoo, constrangido ante aquelles
rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. J, por imposio de
Gonalo, rompera desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora antevia
sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos do
Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as douras da Arcada, lhe tornaria
Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da _Ribeirinha_ ou da
_Murtosa_, solides detestadas. No se conteve, arriscou o costumado
reparo:

-- Gonalinho, olha que tambem todo esse espalhafato s por causa da
Politica...

Gonalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou sobre o marmore
do lavatorio:

--Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica no se atira agua
suja aos Governadores Civis. Que elle no  Politico,  s malandro!
Alm d'isso...

Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre bacco
de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do Cavalleiro pelos
Cunhaes, s notava o lindo cavallo ou o caminho mais curto para as
Louzadas!...

--Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me
encarrego eu.

--Ento, at logo... Mas se elle passar nada d'asneiras, hein?

--S justia, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrlo, que, pelo
corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do Gonalinho, as
coleras desproporcionadas em que o lanava a Politica.

Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa
irada, Gonalo ruminou aquelle intoleravel escandalo. Fatalmente, apenas
se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha,
caracolando por sob as janellas do palacete, na pileca de grandes
clinas! E o que o desolava era perceber no corao de Gracinha, pobre
corao meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo
Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de reflorir... E nenhum
outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella ociosidade
d'Oliveira--nem superioridade do marido, nem encanto d'um filho no seu
bero. S a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de
Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua
salvao seria o abandono da cidade, o encerrado retiro n'uma das
quintas do Barrlo, a _Ribeirinha_, sobretudo a _Murtosa_, com a linda
matta, os musgosos muros de convento, a alda em redor para ella se
occupar como castell benefica. Mas qu! Nunca o Barrlo, consentiria em
perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria Elegante,
e as chalaas do Major Ribas!

Afogueado pelo calor, pela emoo, Gonalo abriu a varanda. Em baixo, no
curto terrao ladrilhado, orlado de vasos de loua, precedendo o jardim,
Gracinha, ainda soltos os cabellos por cima do penteador, conversava com
outra senhora, muito alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de
papoulas, que segurava entre os braos um repolhudo mlho de rosas.

Era a prima Maria Mendona, mulher de Jos Mendona, condiscipulo do
Barrlo em Amarante, agora capito do Regimento de Cavallaria
estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor (hoje
Visconde) dos Paos de Severim, devorada pela preoccupao de
parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre surrateiramente
o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal--sobre tudo,
mais gulosamente,  grande casa de Ramires: e, desde que o regimento se
aquartellra em Oliveira, tratra logo Gracinha por tu e Gonalo por
primo, com a intimidade especial, que convem a sangues superiores.
Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas com brazileiras ricas
d'Oliveira--at com a viuva Pinho, dona da loja de pannos, que (segundo
se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos de cales e de
jalecas. Tambem convivia intimamente, j na cidade, j na _Feitosa_, com
D. Anna Lucena. Gonalo gostava da sua graa, da sua agudeza, da
vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda crepitao de galho,
ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janella perra, ella levantou
os olhos lusidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:

--Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...

--E para mim, primo Gonalo, que o no via desde a sua volta de
Lisboa!... Pois est mais lindo, assim de bigode...

--Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! At aconselho
 prima Maria que se no approxime muito de mim, para se no incendiar.

Ella deixou pender desoladamente nos braos o seu pesado molho de rosas:

--Ai Jesus, ento estou perdida, que ainda agora prometti  prima Graa
jantar c esta tarde!... Oh Gracinha, por quem s, pe um biombo entre
os dois!

Gonalo gritou, pendurado da varanda, j deliciado com os chistes da
prima Maria:

--No! enfio eu um _abat-jour_ pela cabea para attenuar o meu
brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre rancho?

--Vivendo, com algum po e muita graa de Deus... Ento at logo, primo
Gonalo! E seja misericordioso!

E ainda elle ria, encantado--j a prima Maria depois de cochichar e
d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desapparecra pela
porta envidraada da sala com a sua elegancia esgalgada. Gracinha,
lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da varanda,
Gonalo ainda avistou atravez da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o
penteador branco, os fartos cabellos cabidos, relusindo no sol como uma
cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.

Mas Gonalo no se arredou d'entre as janellas, limando vagamente as
unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma desconfiana, quasi n'um terror
que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca--agora que Gracinha se
embrenhra para os lados d'esse commodo Mirante, construco do seculo
XVIII, imitando um Templosinho do Amor, que rematava o longo terrao do
jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calada permanecia
silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do
Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem--certo
que a irm no se mostraria ao Cavalleiro na varandinha do Mirante,
assim com os cabellos em desalinho, por cima d'um penteador.

E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braos do Padre
Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.

--Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonalo, batendo
ternamente nas gordas costas do Capello. Ento que feia aco foi esta?
Mais de um mez sem apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro j
no ha Gonalinho, ha s Gracinha...

Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar nos mansos olhos miudos, que
mais negrejavam entre a frescura rozea da face rolia e a cabecinha
branca como algodo--Padre Sueiro sorria, fechando as mos sobre o peito
da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um leno de quadrados
vermelhos. E no lhe escassera certamente o desejo d'ir  Torre. Mas
aquelle trabalhinho na Bibliotheca do Pao do Bispo... Depois o seu
rheumatismosito... Emfim a Sr.^a D. Graa sempre esperando S. Ex.^a, um
dia, outro dia...

--Bem, bem! acudiu alegremente Gonalo, comtanto que o corao no se
esquecesse da Torre...

--Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.

E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das
batalhas de Napoleo, Gonalo resumiu as novidades da Torre:

--Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E
ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha
dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto
cento e cincoenta mil ris...

O capello suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de prata dourada,
pasmado para o Fidalgo:

--Ora ahi est como as cousas se inventam! Pois por c constou que V.
Ex.^a tratra com o Jos Casco, o Jos Casco dos Bravaes. At no
Domingo, ao almoo, a Sr.^a D. Graa...

--Sim, interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cr na face fina.
Effectivamente o Casco veio  Torre, conversmos. Primeiramente quiz,
depois no quiz. Aquellas cousas do Casco! Einfim, uma massada... No
ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bella manh, me appareceu
com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com que
alvoroo!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira como
rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...

--Homem entendido, concordou o Capello coando embaraadamente o
queixo. No ha duvida. E homem de bem... Depois no havendo palavra dada
ao Cas...

---Pois o Pereira para a semana vem  cidade, atalhou apressadamente
Gonalo. O Padre Sueiro previne o tabellio Guedes, e assignamos essa
bella escriptura. So as condies costumadas. Creio que ha uma reserva
a respeito da hortalia e do porco... Emfim o Padre Sueiro deve receber
carta do Pereira.

E immediatamente, descendo a escada, passando o leno perfumado pelo
bigode, gracejou com o capello sobre o famoso _Fado dos Ramires_ em que
elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro fornecera lendas
sublimes! Mas aquella de Santa Aldona, realmente, fra ataviada com
exagerao... Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!

--So Reis de mais, Padre Sueiro!

O bom capello protestou, logo interessado e serio, no amor d'aquella
obra que glorificava a Casa:

--Ora essa! Com perdo de V. Ex.^a... Perfeitissimamente exacto. L o
conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas _Damas da Crte do Ceu_, livro
precioso, livro rarissimo, que o Sr. Jos Barrlo tem na Livraria. No
especifica os Reis, mas diz quatro... Aos hombros de quatro Reis e com
acompanhamento de muitos Condes. Mas o nosso Jos Videira declarou que
no podia metter os Condes por causa da rima.

O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu de
palha com que descra:

--Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado est lindo. Eu trago
uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra cousa, Padre
Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse Sr. Andr
Cavalleiro?...

O capello encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto
leno de quadrados vermelhos:

--Eu, como V. Ex.^a sabe, no entendo de Politica. Depois tambem no
frequento os cafs, os sitios onde se questiona Politica... Mas parece
que gostam.

No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suissas ruivas, que Gonalo
no conhecia, badalou a sineta do almoo. Gonalo reparou, avisou o
homem que a Snr.^a D. Maria da Graa andava para o fundo do jardim...

--Entrou agora, Snr. D. Gonalo! accudiu o escudeiro. E at manda
perguntar se V. Ex.^a deseja para o almoo vinho verde de Amarante, de
_Vidainhos_.

Sim, com certeza, vinho de _Vidainhos_. Depois sorrindo:

--Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu no tenho _Dom_.
Sou simplesmente Gonalo, graas a Deus!

O capello murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia,
appareciam Ramires com _Dom_. E, como Gonalo parara deante do
reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas
escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.

--Ento, Padre Sueiro, por quem !

Mas elle, com apegado respeito:

--Depois de V. Ex.^a, meu senhor...

Gonalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capello:

--Padre Sueiro, j nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu
que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!

--V. Ex.^a manda, e sempre com que graa!

Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, Gonalo,
recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita  Bibliotheca do Pao do Bispo,
sentiu logo da antecamara o vozeiro do Tit, que rolava na sala azul em
trovo lento. Franziu vivamente o reposteiro--e sacudiu o punho para o
immenso homem que enchia um dos cadeires dourados, estirando por sobre
as flres do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:

--Oh infame!... Ento n'outro dia assim me larga, sem escrupulo, depois
de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um espeto de
cerejeira? E para qu?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau
e bichinhas de rabear!

Tit no desmanchou a sua conchegada beatitude:

--Impossibilissimo. De tarde encontrei o Joo Gouveia no Chafariz. E s
ento nos lembrmos de que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!

Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas pandegas com violo,
impressionavam sempre Barrlo, que as appetecia. E com o olho aguado,
do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro
de uma terrina do Japo:

--Quem  a D. Casimira? Vocs em Villa-Clara descobrem uns typos...
Conta l!

--Um monstro! declarou Gonalo. Uma matronaa bojuda como uma pipa, com
um pllo nojento no queixo. Vive ao p do Cemiterio, n'um cacifro que
tresanda a petroleo, onde este senhor e as auctoridades vo jogar o
quino, e derriar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de
farripas... Nem se pde decentemente contar deante do Snr. Padre Sueiro!

O capello, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, entre os
franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, moveu os
hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades
do Peccado. E, com pachorra, o Tit emendava o esboo burlesco do
Fidalgo:

--A D. Casimira  gorda, mas muito aceada. At me pediu para eu lhe
comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A casa no cheira a
petroleo e fica por traz do convento de Santa Theresa. As serigaitas so
simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de
troar... E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...

--Bem, bem! atalhou Gonalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira,
que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos  outra infamia do
Sr. Antonio Villalobos!

Mas Barrlo insistia, curioso:

--No, no, conta l, Tit... Noite d'annos, patuscada rija, hein?

--Ceia pacata, contou o Tit com a seriedade que lhe merecia a festa das
suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O
Joo Gouveia trouxe do Gago uma travessa de blos de bacalhau que
calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as
pequenas cantaram... No se passou mal.

Gonalo esperava--irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:

--Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Ento o Snr.
Antonio Villalobos  intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as
semanas a _Feitosa_, toma ch e torradas com a bella D. Anna, e esconde
tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios gloriosos?...

--Sem contar, gritou o Barrlo deliciosamente divertido, que lhe passeia
 trela os cesinhos felpudos!

--Sem contar que lhe passeia  trela os cesinhos felpudos! echoou
cavamente Gonalo. Responda, meu illustre amigo!

O Tit remecheu o vasto corpo dentro do cadeiro, recolheu as botas de
tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhido
aquecra. E depois de encarar Gonalo, intensamente, com um esforo de
sagacidade que mais o afogueou:

--Tu j alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o
Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...

O Fidalgo protestou. No! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na
Torre, elles berravam, em questes de Politica, o nome do Sanches
Lucena! Nada mais natural, at mais prudente, do que alludir o Snr. Tit
 sua intimidade illustre! Ao menos para evitar que elle, ou os amigos,
deante do Snr. Tit que comia as torradas da _Feitosa_, tratassem o
Sanches Lucena como um trapo!

O Tit despegou do cadeiro. E afundando as mos nos bolsos da quinzena
d'alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:

--Cada um tem sobre o Sanches a sua opinio... Eu apenas o conheo ha
quatro ou cinco mezes, mas acho que  serio, que sabe as cousas...
Agora, l nas Camaras...

Gonalo, indignado, bradava que se no discutiam os meritos do Snr.
Sanches Lucena--mas os segredos do Snr. Tit Villalobos! E o escudeiro
novo, avanando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, annunciou
que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava Suas Ex.^{as}...

Barrlo largou logo a terrina de tabaco:

--O Snr. Joo Gouveia! Que entre! Bravo! temos c toda a rapaziada de
Villa-Clara!

E Tit, da janella onde se refugiara, lanou o vozeiro, mais troante,
abafando a importuna conversa do Sanches e da _Feitosa_:

--Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... At se nos
desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. No se perdeu
tempo, que ha agora l um vinhinho branco que  d'aqui da ponta fina!...

Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrlo e Gonalo a
passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.

--At aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiava uma caneca valente, apesar do
Peccado!

Mas Joo Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na
testa, do chapeu e do calor--e abotoado na sobrecasaca preta, de calas
pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala
as mos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camap, implorando ao
amigo Barrlo a caridade d'uma bebidinha fresca!

--Estive para entrar no caf Monaco. Mas reflecti que n'esta grandiosa
casa dos Barrlos as bebidas so de mais confiana.

--Ainda bem! Voc que quer? Orchata? Sangria? Limonada?

--Sangria.

E, limpando o pescoo e a testa, amaldioou o indecente calor
d'Oliveira:

--Mas ha gente que gosta! L o meu chefe, o Snr. Governador Civil,
escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda hoje... Na
repartio at ao meio dia; depois, cavallo  porta; e larga at 
estrada de Ramilde, que  uma Africa... No sei como lhe no fervem os
miolos!

--Oh! acudiu Gonalo,  muito simples. Se elle os no tem!

O administrador saudou gravemente:

--J c faltava com a sua ferroadasinha o Snr. Gonalo Mendes Ramires!
No comecemos, no comecemos... Este seu cunhado, Barrlo,  bicho
indomesticavel! Sempre reponta!

O bom Barrlo gaguejou, constrangido, que Gonalinho em Politica no
dispensava a piada...

--Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gonalo.
Esse Snr. Andr Cavalleiro, que no tem miolos, ainda esta manh na
Repartio gabou com immensa sympathia os miolos do Snr. Gonalo Mendes
Ramires!...

E Gonalo, muito serio:

--Tambem no faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser
perfeitamente absurdo s lhe restava que me considerasse um asno!

--Perdo! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a
sobrecasaca, para commodidade da contenda.

Barrlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia--para o
socegar e o repr no camap:

--No, meninos, no! Politica, no! E ento essa massada do
Cavalleiro... Vamos ao que importa. Voc janta comnosco, Joo Gouveia?

--No, obrigado. J prometti jantar com o Cavalleiro. Temos l o Ignacio
Vilhena. Vae lr um artigo que escreveu para o _Boletim de Guimares_
sobre umas frmas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras
do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.^a D. Graa,
bem? Quem eu no avistava havia mezes era o Snr. Padre Sueiro. Nunca
apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre vioso. Oh, Snr.
Padre Sueiro, qual  o seu segredo para toda essa meninice?

Do seu canto, o capello sorriu timidamente. O segredo? Poupar a
Vida--no a consumindo nem com ambies nem com decepes. Ora para
elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E
fra o seu rheumatismo...

Depois, crando d'acanhamento, atravez das sentenas evangelicas que lhe
escapavam:

--Mas mesmo o rheumatismo no  mal perdido. Deus, que o manda, sabe
porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que ns soffremos nos
leva a pensar no que os outros soffrem...

--Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando
tenho os meus ataques de garganta, no penso na garganta dos outros!
Penso s na minha que me d bastante cuidado. E agora a vou regalar
n'aquella bella sangria...

O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos
de sangria onde boiavam rodellinhas de limo. E todos se tentaram, todos
beberam, at Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. Antonio Villalobos que
no desdenhava o vinho, dadiva amavel de Deus--pois como ensina Tibulo
com verdade, apezar de gentilico, _vinus facit dites animos, mollia
corda dat_, enrija a alma e adoa o corao.

Joo Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo
que esvasira d'um trago e interpellou Gonalo:

--Vamos a saber! Ento n'outro dia que historia phantastica foi essa
d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... Eu no
acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado.
Depois...

Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, Tit
novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:

--Oh s Gonalo! E o que me contou ha pouco o Barrlo?... Que andavas
com idas de abalar para a Africa?

Ao espanto de Joo Gouveia quasi se misturou terror. Para a Africa?... O
qu? Com um emprego para a Africa?...

--No! plantar ccos! plantar cacau! plantar caf! exclamava o Barrlo,
com divertidas palmadas na cxa.

Pois Tit approvava a ida! Tambem elle, se arranjasse um capital, dez
ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E tambem
se fsse mais pequeno, mais secco. Que homens do seu corpanzil,
necessitando muita comezaina e muita vinhaa, no aguentam a Africa,
rebentam!

--O Gonalo sim!  chupado,  rijo; no carrega na agua-ardente; est na
conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente
que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar
na Arcada, para bajular Conselheiros.

Barrlo concordou, com alarido. Tambem no comprehendia a teima de
Gonalo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as
desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.

--Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma
gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!

Gonalo escutra, n'um silencio risonho e superior, enrolando
laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrlo:

--Vocs no comprehendem... Vocs no conhecem a organisao de
Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal  uma fazenda, uma bella
fazenda, possuida por uma parceria. Como vocs sabem ha parcerias
commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa  uma _parceria
politica_, que governa a herdade chamada Portugal... Ns os Portuguezes
pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhes que trabalham
na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o Barrlo, e que pagam; e uns
trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a _parceria_, que recebem
e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de
familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na _parceria
politica_, o cidado portuguez precisa uma habilitao--ser deputado.
Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma
habilitao--ser bacharel. Por isso procuro comear como deputado para
acabar como parceiro e governar... No  verdade, Joo Gouveia?

O Administrador voltra  bandeja das sangrias, de que saboreava outro
copo, agora lentamente, aos goles:

--Sim, com effeito, essa  a carreira... Candidato, Deputado, Politico,
Conselheiro, Ministro, Mandarim.  a carreira... E melhor que a
d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha mais
sombra!

Barrlo no emtanto abrara o hombro possante do Tit, com quem
mergulhou no vo da janella, n'uma confraternidade d'ideias, gracejando:

--Pois eu, sem ser dos taes _parceiros_, tambem mando nos bocados de
Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria
vr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou l os politicos do
Terreiro do Pao, se mettessem a dispr nas minhas terras, na
_Ribeirinha_ ou na _Murtosa_... Era a tiro!

Encostado  vidraa, Tit coava a barba, impressionado:

--Pois sim, Barrlo! Mas voc na _Ribeirinha_ e na _Murtosa_ tem de
pagar as contribuies que elles mandarem. E n'esses concelhos tem
d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E goza para l d'estradas
se elles lh'as fizerem. E vende o carro de po e a pipa de vinho com
mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... E assim
tudo. O Gonalo no deixa de acertar.  o diabo! Quem manda  quem
lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S.
Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem
quer, por que mataram l o carrasco, que ainda l apparece... E o
Cavalleiro, esse, como _parceiro_, vive de graa n'este bello palacio de
S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...

Barrlo atirou um _chut_, de mo espalmada, abafando o vozeiro do Tit,
com medo que as regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as
furias de Gonalo. Mas o Fidalgo no percebera, attento ao Joo Gouveia,
que, enterrado no camap depois da sangria, novamente contava o seu
assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do Gago
com o recado da grande festa na Torre:

--E cheguei a desconfiar que realmente voc dsse festa, quando bateram
as nove, depois as nove e meia, e o Tit sem chegar para a ceia da D.
Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou para a Torre!
Por fim, apenas elle appareceu, de carapuo e de jaqueta, percebi que
fra troa do Snr. D. Gonalo...

Ento o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:

--De carapuo e jaqueta? O Tit andava n'essa noite de carapuo e de
jaqueta?...

Mas bruscamente Barrlo, da funda janella, lanou para dentro, para a
sala, um brado de pavor:

--Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!

Joo Gouveia saltou do camap, como n'um perigo, reabotoando
arrebatadamente a sobrecasaca; Gonalo, atarantado, esbarrou com o Tit
e o Barrlo que recuavam, no terror de serem apercebidos atravez dos
vidros largos; at Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde
corria os oculos pela _Gazeta do Porto_. E todos, d'entre a fenda das
cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, espreitavam o Largo,
que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da
Cordoaria. Do lado da rua das Pgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas,
muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos,
ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, avanavam, estirando pelo
largo empedrado duas sombras agudas.

As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde
longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as
vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de todas
as intrigas. E na desditosa Cidade no existia nodoa, pcha, bule
rachado, corao dorido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira
a um canto, vulto a uma esquina, chapeu estreado na missa, bolo
encommendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes
d'azeviche sujo no descortinassem--e que a sua solta lingoa, entre os
dentes ralos, no commentasse com malicia estridente! D'ellas surdiam
todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas
consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas
galravam, abanando os braos escanifrados: e sempre por onde ellas
passassem ficava latejando um sulco de desconfiana e receio. Mas quem
ousaria rechaar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e
venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na
poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois d'uma
castidade to rigida, to antiga e to resequida, e por ellas to
espaventosamente alardeada--que o Marcolino do Independente as alcunhra
de _Duas Mil Virgens_.

--No veem para c! trovejou o Tit, com immenso allivio.

Com effeito no meio do Largo, rente  grade que circumda o antigo
Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando
e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lanra um repique de
baptisado.

--Oh, c'os diabos, que  para c!

As Louzadas, decididas, investiam contra o porto dos Cunhaes! Ento foi
um panico! As gordas pernas do Barrlo, fugindo, abalaram, quasi
derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. Gonalo
bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava
com desespero o seu chapeu cco. S o Tit, que as abominava e a quem
ellas chamavam o _Polyphemo_, retirou com serenidade, abrigando o Padre
Sueiro sob o seu brao forte. E j o bando espavorido se arremessra
sobre o reposteiro--quando Gracinha appareceu, com um fresco vestido de
sedinha cr de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:

--Que foi? Que foi?...

Um clamor abafado envolveu a dce senhora ameaada:

--As Louzadas!

--Oh!

Fugidiamente o Tit e Joo Gouveia apertaram a mo que ella lhes
abandonou, esmorecida. A sineta do porto tilintra, temerosa! E a fila
acavallada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria
que o Barrlo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspirao:

--Esconde as sangrias!

Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou
ella para uma banqueta do corredor, n'um esforo desesperado, a pesada
salva--com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a
cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, uma historia pavorosa de
vinhaa e bebedeira. Depois, offegando, relanceou no espelho o
penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e risonha
dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.

       *       *       *       *       *

No outro domingo, depois do almoo, Gonalo acompanhou a irm a casa da
tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os
sabbados) o seu banho aos ps, se escaldra e recolhera  cama,
apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgies d'Oliveira. Depois
acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Loua, pensando na sua
Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do
Capitulo II que o tentava e que o assustava--o encontro de Loureno
Ramires com Lopo de Bayo, _o Bastardo_, no valle fatal de Cantapedra. E
recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barrlo uma trotada a
cavallo, at ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doura do domingo
ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabellio Guedes, que
sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis.
Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua--emquanto o Guedes, da
borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos
gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva,
emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a
alcunha de Guedes Ppa:

--Por quem , meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como est? Sempre fro e
moo. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa,
por fim, s vem  cidade na quarta feira...

Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passra pelo cartorio, para avisar--e elle
apresentava os parabens a S. Ex.^a pelo seu novo rendeiro...

--Homem muito competente, o Pereira! J ha vinte annos que o conheo...
E olhe V. Ex.^a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro
d'ella, um chavascal; hoje que primor! S a vinha que elle tem plantado!
Homem muito competente... E V. Ex.^a com demora?

--Dois ou tres dias... No se atura este calor de Oliveira. Hoje,
felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo
Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?

Subitamente o Tabellio, com o seu embrulho de doces conchegado ao
collete de seda preta, agitou o brao gordo e curto, n'uma indignao
que lhe esbraseou de sangue o pescoo, as orelhas cabelludas, a face
rapada, toda a testa at s abas do chapeu branco orlado de fumo negro:

--E quem o no ha-de ser, Snr. Gonalo Mendes Ramires? Quem o no ha-de
ser?... Pois este ultimo escandalo!

Os risonhos olhos de Gonalo logo se alargaram, serios:

--Que escandalo?

O Tabellio recuou. Pois S. Ex.^a no sabia da ultima prepotencia do
Governador Civil, do Snr. Andr Cavalleiro?

--O qu, caro amigo?...

O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e
inchou, para exclamar:

--A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgraado Noronha!

Mas uma senhora, tambem obesa, de buo carregado, toda a estalar em
ricas e rugidoras sdas de missa, arrastando severamente pela mo um
menino que rabujava, parou, fitou o Guedes--porque o digno homem com o
seu ventre, o seu embrulho, a sua indignao, atravancava a entrada das
Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho
da porta envidraada. Depois, n'um alvoroo:

--O amigo Guedes naturalmente vae para casa.  o meu caminho. Andamos e
conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?

--O Ricardo Noronha... V. Ex.^a conhece. O pagador das Obras-Publicas!

--Ah! sim, sim... Ento transferido? Transferido arbitrariamente?

Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solido das lojas
cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:

--Infamemente, Snr. Gonalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para
Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos,
sem distraces, sem familias!...

Parra, com os doces contra o corao, os olhinhos esbugalhados para o
Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo!
E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos
Regeneradores. S da familia, das tres irms que sustentava, tres
flres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento
immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonalo Ramires no sabia? Pois
compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reunies, para
annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representaes de
curiosos...

--Porque, como ensaiador, creia V. Ex.^a que no ha outro, mesmo na
capital... No ha outro! E, zs, de repente, para Almodovar, para o
Inferno, com as irms, com os tarecos! S o piano!... Veja V. Ex.^a s o
transporte do piano!

Gonalo resplandecia:

-- um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu
caro Guedes!... E no se sabe o motivo?

De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabellio
encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre
n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Servio...

--Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o
verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!

--Ento?

Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando,
segurando uma bilha. E o tabellio segredou cavamente, junto  face
deslumbrada do fidalgo.-- que o Snr. Andr Cavalleiro, esse infame, se
encantra com a mais velha das irms Noronhas, a D. Adelina,
formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repellido
(porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a inteno
villissima) em quem se vinga, por despeito, o Snr. Governador Civil? No
pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador
quem pagava!

-- uma bella maroteira! murmurou Gonalo, banhado de gosto e riso.

--E note V. Ex.^a! exclamava o Guedes, com a mo gorda a tremer por cima
do chapeu. Note V. Ex.^a que o pobre Noronha, na sua innocencia, to bom
homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, ainda ha semanas
dedicra ao Cavalleiro uma valsa linda!... A _Mariposa_, uma valsa
linda!

Gonalo no se conteve, esfregou as mos n'um triumpho:

--Mas que preciosa maroteira!... E no se tem fallado? Esse jornal
d'opposio, o _Clarim d'Oliveira_, nem uma denuncia, nem uma
alluso?...

O Guedes pendeu a cabea, descoroado. O Snr. Gonalo Ramires conhecia
bem essa gente do _Clarim_... Estylo--e estylo brincado, opulento... Mas
para assoalhar, assim n'um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade
bem nua--pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor
principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O
Snr. Gonalo Mendes Ramires no se inteirra? Pois esse torpissimo
Biscainho bolinava. De certo o Cavalleiro lhe acenra com posta... Alm
d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, cousas de familia. No se
podia apresentar a declarao da D. Adelina, menina virtuosissima--e com
uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da _Aurora de
Oliveira_!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em
letra grada: Alerta! que a Auctoridade superior do Districto tentou
levar a deshonra ao seio da familia Noronha!...

--Esse era um homem! Coitado, l est no cemiterio de S. Miguel... E
agora, Snr. Gonalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!

Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a
esquina das Brocas para a bella rua, novamente calada, da Princeza D.
Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco,
o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.^a para descanar.

--No, no, obrigado, meu caro amigo. Tive immenso, immenso prazer, em o
encontrar... Essa historia do Noronha  tremenda!... Mas nada me espanta
do Snr. Governador Civil. S me espanta que o no tenham corrido
d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a
gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... At manh, meu Guedes. E
obrigado!

Da rua da Princeza D. Amelia at o Largo de El-Rei, Gonalo correu com o
deslumbramento de quem descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da
capa! E ahi levava com effeito o escandalo, o rico escandalo, que
tanto farejra, por que tanto almejra, para desmantelar o Snr.
Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos
de buxo! E, por uma merc de Deus, o rico escandalo demoliria tambem o
homem no corao de Gracinha, onde, apezar do antigo ultraje, elle
permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estragando... E no
duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se revoltaria contra a
Authoridade femieira, que opprime, desterra um funccionario
admiravel--por que a irm do pobre senhor se recusou  baba dos seus
beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha quelle desengano--o seu
antigo Andr abrazado pela menina Noronha e por ella repellido com njo
e com mfa? Oh! o escandalo era soberbo! S restava que estalasse, bem
ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e sobre o peito de Gracinha como
trovo benefico que limpa ares corrompidos. E d'esse trovo, rolando por
todo o Norte, se encarregava elle com delicia. Libertava a cidade d'um
Governador detestavel, Gracinha d'um sonho errado. E assim, com uma
certeira pennada, trabalhava _pro patria et pro domo_!

Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrlo, que se vestia trauteando o
_Fado dos Ramires_, e gritou atravez da porta com uma deciso
flammejante:

--No te posso acompanhar  Estevinha. Tenho que escrever urgentemente.
E no subas, no me perturbes. Necessito socego!

Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrlo accudira ao
corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir
rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua de
Colonia, abancou  mesa--onde Gracinha collocava sempre entre flores,
para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao
tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos
de Prosa que brotam da paixo, improvisou uma Correspondencia rancorosa
para a *Gazeta do Porto* contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo
fulminava--_Monstruoso attentado_! Sem desvendar o nome da familia
Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por elle testemunhado,
a tentativa villa e baixa da primeira Auctoridade do Districto contra
a pudicicia, a paz de corao, a honra de uma doce rapariga de dezeseis
primaveras! Depois era a resistencia desdenhosa--que a nobre creana
oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos bellos bigodes so o espanto
dos povos! Por fim vinha--a desforra torpe e sem nome que S. Ex.^a
tomra sobre o zeloso empresado (que  tambem um talentoso artista),
obtendo d'este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado,
cruelmente exilado, com a familia de tres delicadas senhoras, para os
confins do Reino, para a mais arida e escassa das nossas Provincias, por
o no poder empacotar para a Africa no poro sordido d'uma fragata!
Lanava ainda alguns rugidos sobre a agonia politica de Portugal. Com
pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a innocencia
soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Principe sendo a
expresso unica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria
este seu agente--este grotesco Nero, que como outr'ora o outro, o
grande, em Roma, tentava levar a seduco ao seio das familias melhores,
e commettia esses abusos de poder, motivados por lascivias de
temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e todas as
civilisaes, a execrao do justo!--E assignava _Juvenal_.

Eram quasi seis horas quando desceu  sala, ligeiro e resplandecente.
Gracinha martellava o piano, estudando o _Fado dos Ramires_. E Barrlo
(que no se arriscra a um passeio solitario) folheava, estendido no
camap, uma famosa _Historia dos Crimes da Inquizio_ que comera
ainda em solteiro.

--Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gonalo,
escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz
obra de Justia... D'esta vez o Snr. Andr Cavalleiro vae abaixo do seu
cavallo!

Barrlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas almofadas,
inquieto:

--Houve alguma coisa?

E Gonalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um risinho
feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:

--Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso
Governador Civil infamias so bagatellas.

Sob os dedos de Gracinha o _Fado dos Ramires_ esmoreceu, apenas roado,
n'um murmurio incerto.

O Barrlo esperava, esgaseado:

--Desembucha!

E Gonalo desabafou, com estrondo:

--Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha,
perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para
o Algarve!

--O Noronha pagador?

--O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!

E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. Andr
Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela irm mais velha do
Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos
cada manh por deante da janella, a ladear na pileca! At lhe soltra,
ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um
anjo cheio de dignidade, impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria.
Era uma troa em casa das Noronhas, ao ch, com a leitura da versalhada
ardente em que elle a tratava de Nympha, d'estrella da tarde... Emfim
uma sordidez funambulesca!

O pobre _Fado dos Ramires_ debandou pelo teclado, n'um tumulto de
gemidos desconcertados e asperos.

--E eu no ter ouvido nada! murmurava o Barrlo, assombrado. Nem no
Club, nem na Arcada...

--Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre
Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio,
coalhado de pantanos.  a morte...  uma condemnao  morte!

A esta apparico da Morte, surdindo dos pantanos, Barrlo atirou uma
palmada ao joelho, desconfiado:

--Mas quem diabo te contou tudo isso?

O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:

--Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastio morreu em
Alcacer-Kebir?... So os factos.  a Historia. Toda Oliveira sabe. Por
acaso ainda esta manh o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu j
sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! No ha crime em se estar
apaixonado como o pobre Andr. Louco, perdido! At a chorar na
Repartio, deante do Secretario Geral. E a rapariga s gargalhadas!...
Agora onde ha crime, e horrendo,  na perseguio ao irmo, ao pagador,
empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de
bem, que prese a dignidade da Administrao e a dignidade dos costumes,
 denunciar a infamia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E
com certo brilho, louvado Deus!

--Que fizeste?

--Enterrei na ilharga do Snr. Governador Civil a minha ba penna de
Toledo, at  rama!

O Barrlo, impressionado, beliscava a pelle do pescoo. O piano
emmudecera: mas Gracinha no se movia do mcho, com os dedos
entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga folha onde se
enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras triumphaes dos
Ramires. E subitamente Gonalo sentiu n'aquella immobilidade suffocada o
despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, lhe poupar
algum soluo escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com
carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:

--Tu no ds conta d'esse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te
cantarolo uma quadra,  ba moda do Videirinha... Mas primeiramente s
um anjo... Grita ahi no corredor que me tragam um copo d'agua bem fresca
do Poo Velho.

Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esforo esganiado:

    Ora na grande batalha,
    Quatro Ramires valentes...

Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Ento o
bom Barrlo, que deante da sua terrina da India enrolava um cigarro com
pensativo cuidado, correu, desafogou, debruado sobre Gonalo, da
certeza que lentamente o invadira:

--Pois, menino, sempre te digo... Essa irm do Noronha  um mulhero
soberbo! Mas o que eu no acredito  que ella se fizesse arisca. Com o
Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?... No acredito. O
Cavalleiro saboreou!

E com as bochechas lusidias d'admirao:

--Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres no ha outro, em
Oliveira!




V


A *Gazeta do Porto*, com a Correspondencia vingadora, devia desabar
sobre Oliveira na quarta-feira de manh, dia dos annos da prima Maria
Mendona. Mas Gonalo, ainda que no temesse (resalvado pelo seu
pseudonymo de _Juvenal_) uma briga grosseira com o Cavalleiro nas ruas
da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidarios servis e faanhudos
como o Marcolino do *Independente*--recolheu discretamente a Santa
Ireneia na tera-feira, a cavallo, acompanhado pelo Barrlo at 
Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Tit.
Depois, para recordar os logares memoraveis em que na sua Novella se
encontravam, com desastrado choque d'armas, Loureno Ramires e o
Bastardo de Bayo--tomou o caminho que, atravessando os pomares da
espalhada alda de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravaes.

N'um trote folgado passra  Fabrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre
coberto pelas pombas que esvoaam do pombal da Fabrica. E entrava no
logar de Nacejas--quando,  janella d'uma casinha muito limpa, rodeada
de parreiras, appareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqu de
panno azul e leno de cambraieta bordada sobre fartos bands ondeados.
Gonalo, sopeando a egua, saudou, sorriu suavemente:

--Perdo, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?

--Vae, sim senhor. Em baixo,  ponte, mette para a direita, para os
alamos. E  sempre a seguir...

Gonalo suspirou, gracejando:

--Antes desejava ficar!

A moa corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gosar a fina
face morena, entre os dous craveiros da janellinha, na casa to bem
caiada.

N'esse momento, ao lado, d'uma quelha enramada, desembocava um caador
do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas
costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latago airoso, que todo
elle, no bater dos sapates brancos, no menear da cinta enfaixada em
seda, no levantar da face clara de suissas louras, transbordava de
presumpo e pimponice. N'um relance surprehendeu o sorriso, a atteno
galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre elle, com lenta
arrogancia, os bellos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente,
sem se arredar da egua na ladeira estreita, quasi raspando pela perna do
Fidalgo o cano da caadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela
secca e de chasco--com um bater mais petulante dos taces.

Gonalo picou a egoa, colhido logo por aquelle desgraado temor, aquelle
desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer
ameaa, o forava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Em
baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote,
espreitou para traz, para a branca casa florida. O moceto parra,
encostado  espingarda, sob a janella onde a rapariga morena se
debruava entre os dous vasos de cravos. E assim encostado, depois de
rir para a moa, acenou ao Fidalgo, n'um desafio largo, com a cabea
alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flammante.

Gonalo Mendes Ramires metteu a galope pelo copado caminho d'alamos que
acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar
(como tencionava para proveito da sua Novella) o valle, a ribeira
espraiada, as ruinas do Mosteiro de Recades sobre a collina, e no
cabeo fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da
antiga e to fallada Honra d'Avellans. De resto o ceu, cinzento e
abafado desde manh, entenebrecia para os lados de Craquede e de
Villa-Clara. Um bafo mrno remexeu a folhagem sedenta. E j gotas
pesadas se esmagavam na poeira--quando elle, sempre galopando, entrou na
estrada dos Bravaes.

Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por saber
se essa _Torre de D. Ramires_ se erguia emfim para honra das letras,
como a outra, a genuina, se erguera outr'ora, em seculos mais ditosos,
para orgulho das armas... E accrescentava n'um
_Post-Scriptum_--Planeio immensos cartazes, pregados a cada esquina de
cada cidade de Portugal, annunciando em letras de covado a appario
salvadora dos *Annaes*! E, como tenciono prometter n'elles aos povos a
sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo Gonalo me informe se ella
tem,  moda de 1830, um saboroso sub-titulo, como _Episodios do seculo
XII_, ou _Chronica do Reinado de Affonso II_, ou _Scenas da Meia-Idade
Portugueza_... Eu voto pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um edificio, o
sub-titulo n'um livro alteia e d solidez.  obra, pois, meu Ramires,
com essa sua imaginao feracissima!...

Esta inveno de immensos cartazes, com o seu nome e o titulo da sua
Novella em letras de cres estridentes, enchendo cada esquina de
Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo n'essa noite, ao rumor da chuva
densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscripto,
parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap. II...

Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada, Loureno Mendes Ramires,
com o troo de cavalleiros e peonagem da sua merc, corria sobre
Monte-Mr em soccorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no valle
de Canta-Pedra, eis que o esforado filho de Tructesindo avista a
mesnada do Bastardo de Bayo, esperando desde alva (como annuncira
Mendo Paes) para tolher a passagem.--E ento, n'esta sombria Novella de
sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda d'um
bastio, um lance de amor, que o tio Duarte cantra no *Bardo* com
dolente elegancia.

Lopo de Bayo, cuja belleza loura de fidalgo godo era to celebrada por
toda a terra d'Entre Minho-e-Douro que lhe chamavam o _Claro-Sol_, amra
arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires.
Em dia de S. Joo, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de
toiros e jogos de tavolagem, conhecera elle a donzella explendida, que o
tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:

    Que liquido fulgor dos negros olhos!
    Que fartas tranas de lustroso ebano!

E ella, certamente, rendera tambem o corao quelle moo resplandecente
e cr d'ouro, que, n'essa tarde de festa, arremessando o rojo contra os
toiros, ganhra duas fachas bordadas pela nobre Dona de Lanhoso--e 
noite, no sarau, se requebrra com to repicado garbo na dana dos
Marchatins... Mas Lopo era bastardo, d'essa raa de Bayo, inimiga dos
Ramires por velhissimas brigas de terras e precedencias desde o conde D.
Henrique--ainda assanhadas depois, durante as contendas de D. Tareja e
de Affonso Henriques, quando na curia dos Bares, em Guimares, Mendo de
Bayo, bandeado com o Conde de Trava, e Ramires o _Cortador_, collao do
moo Infante, se arrojaram s faces os guantes ferrados. E, fiel ao odio
secular, Tructesindo Ramires recusra com spera arrogancia a mo de
Violante ao mais velho dos de Bayo, um dos valentes de Silves, que pelo
Natal, na Alcaova de S.^{ta} Ireneia, lh'a pedira para Lopo, seu
sobrinho, o _Claro-Sol_, offerecendo avenas quasi submissas d'alliana
e doce paz. Este ultraje revoltra o solar de Bayo--que se honrava em
Lopo, apezar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e graa galante. E
ento Lopo ferido doridamente no seu corao, mais furiosamente no seu
orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos
Ramires--tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as
veigas do Mondego j verdes. A donosa senhora, entre alguns escudeiros
da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvo, onde
sua tia D. Branca era abbadea... Languidamente, no *Bardo*, descantra
o tio Duarte o romantico lance:

    Junto  fonte mourisca, entre os ulmeiros,
    A cavalgadura pra...

E junto aos ulmeiros da fonte surgira o _Claro-Sol_--que, com os seus,
espreitava d'um cabeo! Mas, logo no comeo da curta briga, um primo de
D. Violante, o agigantado Senhor dos Paos d'Avellim, o desarmou, o
manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com
vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos
solarengos que o acompanhavam n'esta affouta arremettida. Desde ento
mais fero ardera o rancor entre os de Bayo e os Ramires. E eis agora,
n'esse comeo da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no
valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanas e mais
de cem besteiros da Hoste Real. Loureno Mendes Ramires com quinze
cavalleiros e noventa homens de p do seu pendo.

Agosto findava: e o demorado estio amarellecera toda a relva, as
pastagens famosas do valle, at a folhagem de amieiros e freixos pela
beira do riacho das Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em
fios escassos, com dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de
Ramilde, avultava, entre possantes ruinas erriadas de saras, a
denegrida _Torre Redonda_, resto da velha Honra de Avellans, incendiada
durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de Landim, e agora habitada
pela alma gemente de Guiomar de Landim, a _Mal-casada_. No cabeo
fronteiro e mais alto, dominando o valle, o mosteiro de Recades
estendia as suas cantarias novas, com o forte torreo, asseteado como o
d'uma fortaleza--d'onde os monges se debruavam, espreitando, inquietos
com aquelle coriscar d'armas que desde alva enchia o valle. E o mesmo
temor acossra as aldeias chegadas--porque, sobre a crista das collinas,
se apressavam para o santo e murado refugio do convento gentes com
trouxas, carros toldados, magras filas de gados.

Ao avistar to rijo troo de cavalleiros e pees, espalhado at  beira
do riacho por entre a sombra dos freixos, Loureno Ramires soffreou,
susteve a leva, junto d'um monto de pedras onde apodrecia, encravada,
uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largra redeas soltas,
estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada--logo voltou,
sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:

--So homens de Bayo e da Hoste Real!

Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado
Ramires no duvidou avanar, travar peleja. Ssinho que assomasse ao
valle, com uma quebradia lana de monte, arremetteria contra todo o
arraial do Bastardo...--No emtanto j o adail de Bayo se adeantra,
curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do
morrio que pennas de gara emplumavam. E pregoava, atroava o valle com
o rouco prego:

--Deter, deter! que no ha passagem! E o nobre senhor de Bayo, em
recado d'El-Rey e por merc de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se
volverdes costas sem rumor e tardana!

Loureno Ramires gritou:

--A elle, besteiros!

Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavalleiros de Santa-Ireneia
tropeou para dentro do valle, de lanas ristadas. E o filho de
Tructesindo, erguido nos estribes de ferro, debaixo do panno solto do
seu pendo que apressadamente o alferes saccra da funda, descerrou a
vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lanou ao
Bastardo injurias de furioso orgulho:

--Chama outros tantos dos villes que te seguem que, por sobre elles e
por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mr!

E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rde de malha cobria, toda
acairelada d'ouro, atirava a mo calada de ferro, clamava:

--Para traz, d'onde vieste, voltars, bulro traidor, se eu por merc
mandar a teu pae o teu corpo n'umas andas!

Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no
Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforar, Gonalo Mendes Ramires,
(sentindo a alma enfunada pelo heroismo da sua raa como por um vento
que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dous bandos
valorosos. Grande briga, grande grita...

--Ala! Ala!

--Rompe! Rompe!

--Cerra por Bayo!

--Casca pelos Ramires!

Atravs da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruches, as rudes
balas de barro despedidas das fundas. Almogavres de Santa-Ireneia,
almogavres da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com
baralhado arremesso d'ascumas que se partem, de dardos que se cravam: e
ambas logo refogem, refluem--em quanto, no cho revolto, algum
mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob
o abrigo do arvoredo, a fresquido do riacho. Ao meio, no embate mais
nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando ao peso
das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam,
retinem, embebidas nas chapas dos broqueis:--e j, dos altos ares de
couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de
ferragens sobre a terra molle. Cavalleiros e infanes, porm, como n'um
torneio, apenas teram lanas para se derribarem, abolados os arnezes,
com clamores de excitada ufania: e sobre a villanagem contraria, em quem
cevam o furor da matana, se abatem os seus espades, se despenham as
suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de grda.

Por entre a pionagem de Bayo e da Hoste Real Loureno Ramires avana
mais levemente que ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque
do seu rijo murzello, alagado d'espuma, que sacode furiosamente a
testeira rostrada--sempre, entre pragas ou gritos por _Jesus!_ um peito
verga trespassado, braos se retorcem em agonia. Todo o seu afan era
chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, to arremessado e affrontador em
combate, no se arredra n'essa manh da lomba do outeiro onde uma fila
de lanas o guardava, como uma estacada: e com brados, no com golpes,
aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Loureno
gastava as foras, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros
ultrajes de _churdo!_ e _marrano!_ J d'entre a trama falseada do
camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos de sangue.
Um lano de viroto, que lhe partira as charneiras da greva esquerda,
fendera a perna d'onde mais sangue brotava, ensopando o forro d'estopa.
Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu,
rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos
loros com um salto, Loureno Ramires encontrou em roda uma sebe erriada
de espadas e chuos, que o cerraram--em quanto do outeiro, debruado na
sella, o Bastardo bramava:

--Tende! tende! para que o colhaes s mos!

Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de
ferro, o valente moo arremette, a golpes arquejados, contra as pontas
luzentes que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram os gritos de
Lopo de Bayo:

--Vivo, vivo! tomadel-o vivo!

--No, se me restar alma, villo! rugia Loureno.

E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no
brao--que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda
ao punho pelo grilho, mas sem mais servir que uma roca. N'um relance
ficou agarrado por pees que lhe filavam a gorja, emquanto outros com
varadas de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim
direito como um madeiro;--e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu
hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os
cabellos presos n'uma pasta de poeira e de sangue.

Eis pois captivo Loureno Ramires! E, deante das andas feitas de ramos e
franas de faias em que o estenderam, depois de o borrifarem  pressa
com a agua fresca do riacho,--o Bastardo, limpando s costas da mo o
suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas,
murmurava, commovido:

--Ah! Loureno, Loureno, grande dr, que bem poderamos ser irmos e
amigos!

Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do
_Panorama_, compozera Gonalo a mal-venturada lide de Canta-Pedra. E com
este desabafo de Lopo, onde perpassava a magua do amor vedado, fechou o
Cap. II, sobre que labutra tres dias--to embrenhadamente que em torno
o Mundo como que se calra e se fundira em penumbra.

       *       *       *       *       *

Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravaes,
onde no Domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias.
Depois da chuva d'aquelles tres dias, uma frescura descia do ceu
amaciado e lavado sobre os campos mais verdes. E como ainda restava meia
hora farta antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapeu, e mesmo na sua
velha quinzena de trabalho, com uma bengalinha de canna, desceu 
estrada, tomou pelo caminho que s'estreita entre o muro da Torre e as
terras de centeio onde assentavam no seculo XII as barbacans da Honra de
Santa Ireneia.

Pela silenciosa vereda, ainda humida, Gonalo pensava nos seus avs
formidaveis. Como elles resurgiam, na sua Novella, solidos e resoantes!
E realmente uma comprehenso to segura d'aquellas almas Affonsinas
mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e sahira do mesmo
rico bloco d'ouro. Porque um corao molle, ou degenerado, no saberia
narrar coraes to fortes, d'eras to fortes:--e nunca o bom Manoel
Duarte ou o Barrlo excellente entenderiam, bastante para lhes
reconstruir os altos espiritos, Martim de Freitas ou Affonso de
Albuquerque... N'esta fina verdade desejaria elle que os Criticos
insistissem ao estudar depois a _Torre de D. Ramires_--pois que o
Castanheiro lhe assegurra artigos consideraveis nas *Novidades* e na
*Manh*. Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e elle o lembraria
ao Castanheiro!)--que os Ricos Homens de Santa-Ireneia reviviam no seu
neto, seno pela continuao heroica das mesmas faanhas, pela mesma
alevantada comprehenso do heroismo... Que diabo! sob o reinado do
horrendo S. Fulgencio elle no podia desmantelar o solar de Bayo,
desmantelado ha seiscentos annos por seu av Lionel Ramires--nem retomar
aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho Moreno era o languido
Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o prestimo historico d'esse
arrojo que outr'ora impellia os seus a arrasar Solares rivaes, a escalar
Villas mouriscas: resuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava para a
vida ambiente, esses vares temerosos, com os seus coraes, os seus
trajes, as suas immensas cutiladas, as suas bravatas sublimes: dentro do
espirito e das expresses do seu Seculo era pois um bom Ramires--um
Ramires de nobres energias, no faanhudas, mas intellectuaes, como
competia n'uma Edade d'intellectual descano. E os jornaes, que tanto
motejam a decadencia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em justia
affirmar (e elle o lembraria ao Castanheiro!):--Eis ahi um, e o maior,
que, com as frmas e os modos do seu tempo, continua e honra a sua
raa!

Atravs d'estes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre
cho to calcado pelos seus--o Fidalgo da Torre chegra  esquina do
muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do
pinheiral e da matta. Do porto nobre, que outr'ora se erguera n'esse
recanto com lavores e brazo d'armas, restam apenas os dois humbraes de
granito, amarellados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancella
de taboas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos annos. E n'esse
momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado
de matto, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.

--Nosso Senhor lhe d muito boas tardes!

--Boas tardes, flrzinha!

O carro lento passou. E logo atraz surdio um homem, esgrouviado e
escuro, trazendo ao hombro o cajado, d'onde pendia um mlho de cordas.

O Fidalgo da Torre reconheceu o Jos Casco dos Bravaes. E seguia, como
desattento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a
bengalinha as silvas floridas do vallado. O outro porm estugou o passo
esgalgado, lanou duramente, no silencio do arvoredo e da tarde, o nome
do Fidalgo. Ento, com um pulo do corao, Gonalo Mendes Ramires parou,
forando um sorriso affavel:

--Ol!  voss, Jos! Ento que temos?

O Casco engasgra, com as costellas a arfar sob a encardida camisa de
trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmelleiro que cravou no
cho pela choupa:

--Temos que eu fallei sempre claro com o Fidalgo, e no era para que
depois me faltasse  palavra!

Gonalo Ramires levantou a cabea com uma dignidade lenta e
custosa--como se levantasse uma massa de ferro:

--Que est voss a dizer, Casco? Faltar  palavra! em que lhe faltei eu
 palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa  nova! Ento
houve por acaso escriptura assignada entre ns? Voc no voltou, no
appareceu...

O Casco emmudecera, assombrado. Depois, com uma colera em que lhe
tremiam os beios brancos, lhe tremiam as seccas mos cabelludas,
fincadas ao cabo do varapau:

--Se houvesse papel assignado o Fidalgo no podia recuar!... Mas era
como se houvesse, para gente de bem!... At V. S.^a disse, quando eu
acceitei: viva! est tratado!... O fidalgo deu a sua palavra!

Gonalo, enfiado, apparentou a paciencia d'um senhor benevolo:

--Escute, Jos Casco. Aqui no  logar, na estrada. Se quer conversar
commigo apparea na Torre. Eu l estou sempre, como voss sabe, de
manh... V manh, no me encommda.

E endireitava para o pinhal, com as pernas molles, um suor arripiado na
espinha--quando o Casco, n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se
lhe plantou diante, atravessando o cajado:

--O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A
mim no se me fazem d'essas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonalo relanceou esgaseadamente em redor, na ancia d'um soccorro. S o
cercava solido, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto
de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas
dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos j
se adensava sombra e nevoa. Ento, estarrecido, Gonalo tentou um
refgio na ideia de Justia e de Lei, que aterra os homens do campo. E
como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beios resequidos e
tremulos:

--Escute, Casco, escute, homem! As coisas no se arranjam assim, a
gritar. Pde haver desgosto, apparecer o regedor. Depois  o tribunal, 
a cadeia. E voc tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu
motivo para se queixar, v  Torre, conversamos. Pacatamente tudo se
esclarece, homem... Com berros, no! Vem o cabo, vem a enxovia...

Ento de repente o Casco cresceu todo, no solitario caminho, negro e
alto como um pinheiro, n'um furor que lhe esbugalhava os olhos
esbraseados, quasi sangrentos:

--Pois o Fidalgo ainda me ameaa com a justia!... Pois ainda por cima
de me fazer a maroteira me ameaa com a cadeia!... Ento, com os diabos!
primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...

Erguera o cajado...--Mas, n'um lampejo de razo e respeito, ainda
gritou, com a cabea a tremer para traz, atravez dos dentes cerrados:

--Fuja, fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!

Gonalo Mendes Ramires correu  cancella entalada nos velhos humbraes de
granito, pulou por sobre as taboas mal pregadas, enfiou pela latada que
orla o muro, n'uma carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha,
junto aos milheiraes, uma figueira brava, densa em folha, alastrra
dentro d'um espigueiro de granito destelhado e desusado. N'esse
esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O
crepusculo descera sobre os campos--e com elle uma serenidade em que
adormeciam frondes e relvas. Affoutado pelo silencio, pelo socego,
Gonalo abandonou o cerrado abrigo, recomeou a correr, n'um correr
manso, na ponta das botas brancas, sobre o cho molle das chuvadas, at
ao muro da Me d'Agua. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever,
longe,  orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas
de camisa, atirou um berro ancioso:--Oh! Ricardo! Oh! Manoel! Eh l!
alguem! Vai ahi alguem?...--A mancha indecisa fundira na indecisa
folhagem. Uma r pinchou n'um regueiro. Estremecendo, Gonalo retomou a
carreira at ao canto do pomar--onde encontrou fechada uma porta, velha
porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou
contra ella os hombros que o terror enrijra como trancas. Duas taboas
cederam, elle furou atravez, esgaando a quinzena n'um prgo.--E
respirou emfim no agazalho do pomar murado, deante das varandas da casa
abertas  frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e de
mil annos, mais negra e como mais carregada d'annos contra a macia
claridade da lua-nova que subia.

Com o chapeu na mo, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o
feijoal. E agora subitamente sentia uma colera amarga pelo desamparo em
que se encontrra, n'uma quinta to povoada, exameando de gentes e
dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando elle gritra, to
afflicto, da borda da Me d'Agua! De cinco creados nenhum acudira,--e
elle perdido, alli, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois
homens corressem com paus ou enxadas--e ainda colhiam o Casco na
estrada, o malhavam como uma espiga.

Ao p do gallinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o
pateo para a porta alumiada da cosinha. Dois moos da horta, a filha da
Crispola, a Rosa, tagarellavam, regaladamente sentados n'um banco de
pedra, sob a fresca escurido da latada. Dentro o lume estrallejava--e a
panella do caldo, fervendo, rescendia. Toda a colera do Fidalgo rompeu:

--Ento, que sarau  este? Vocs no me ouviram chamar?... Pois
encontrei l em baixo, ao p do pinheiral, um bebedo, que me no
conheceu, veiu para mim _com uma foice_!... Felizmente levava a bengala.
E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que
desaforo! Outra vez que succeda, todos para a rua... E quem resmungar, a
cacete!

A sua face chammejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se
escapulira, encolhida, para o recanto da cosinha, para traz da maceira.
Os dois moos, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento.
E emquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentaes sobre
desgraas que assim s'armam!--Gonalo, deleitado pela submisso dos
dois homens, ambos to rijos, com to grossos varapaus encostados 
parede, amansava:

--Realmente! sois todos surdos, n'esta pobre casa!... Alm d'isso a
porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurro. Ficou em
pedaos.

Ento um dos moos, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavallo,
pensando que o Fidalgo censurava a frouxido da porta pouco cuidada,
coou a cabea, n'uma desculpa:

--Pois, com perdo do fidalgo!... Mas j depois da sada do Relho se lhe
pz uma travessa e fechadura nova... E valente!

--Qual fechadura! gritou, o Fidalgo soberbamente. Despedacei a
fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!

O outro moo, mais desembaraado e esperto, riu, para agradar:

--Santo nome de Deus!... Ento,  que o fidalgo lhe atirou com fora!

E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:

--Mas que fora! a matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, j
depois do Relho!

A certeza da sua fora, louvada por aquelles fortes, reconfortou
inteiramente o fidalgo da Torre, j brando, quasi paternal:

--Graas a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, no me falta
fora. O que eu no podia, por decencia, era arrastar ahi por essas
estradas um bebedo com uma foice at casa do Regedor... Foi para isso
que chamei, que gritei. Para que vosss o agarrassem, o levassem ao
Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, d a estes rapazes, para a ceia, mais
uma caneca de vinho... A vr se para outra vez se affoutam, se
apparecem...

Era agora como um antigo senhor, um Ramires d'outros seculos, justo e
avisado, que reprehende uma fraqueza dos seus solarengos--e logo perda
por conta e amor das faanhas proximas. Depois com a bengala ao hombro,
como uma lana, subio pela lobrega escada da cozinha. E em cima no
quarto, apenas o Bento entrra para o vestir, recomeou a sua epopeia,
mais carregada, mais terrifica--assombrando o sensivel homem, estacado
rente da commoda, sem mesmo pousar a enfusa d'agoa quente, as botas
envernisadas, a braada de toalhas que o ajoujavam... O Casco! O Jos
Casco dos Bravaes, bebedo, rompendo para elle, sem o conhecer, com uma
foice enorme, a berrar--Morra, que  marro!... E elle na estrada,
deante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiada resvala
sobre um tronco de pinheiro... Ento arremette desabaladamente,
brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manoel como se ambos o
escoltassem--e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a
cambalear, a grunhir...

--Hein, que te parece? Se no  a minha audacia, o homem positivamente
me ferra um _tiro de espingarda_!

O Bento, que quasi se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete,
pestanejou, confuso, mais attonito:

--Mas o Snr. Dr. disse que era uma foice!

Gonalo bateu o p, impaciente:

--Correu para mim com uma foice. Mas vinha atraz do carro... E no carro
trazia uma espingarda. O Casco  caador, anda sempre d'espingarda...
Emfim estou aqui vivo, na Torre, por merc de Deus. E tambem porque
felizmente, n'estes casos, no me falta deciso!

E apressou o Bento--porque com o abalo, o esforo, positivamente lhe
tremiam as pernas de canasso e de fome... Alm da sde!

--Sobretudo sde! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde e do
Alvaralho, para misturar.

O Bento, com um tremulo suspiro da emoo atravessada, enchera a bacia,
estendia as toalhas. Depois, gravemente:

--Pois, Snr. Dr., temos esse andao nos sitios! Foi o mesmo que succedeu
ao Snr. Sanches Lucena, na _Feitosa_...

--Como, ao Snr. Sanches Lucena?

O Bento desenrolou ento uma tremenda historia trazida  Torre, durante
a estada do Snr. Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Crispola, o Ruy
carpinteiro, que trabalhava nas obras da _Feitosa_. O Snr. Sanches
Lucena descra uma tarde, ao lusco fusco,  porta do Mirante, quando
passam na estrada dous jornaleiros, bebedos ou facinoras, que implicam
com o excellente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Snr. Sanches,
com paciencia, aconselhou os homens que seguissem, no se desmandassem.
De repente um d'elles, um rapazola, sacode a jaqueta do hombro, ergue o
cajado! Felizmente o companheiro, que se affirmra, ainda gritou:--Ai!
rapaz, que elle  o nosso deputado! O rapazola abalou, espavorido. O
outro at se atirou de joelhos deante do Snr. Sanches Lucena... Mas o
pobre senhor, com o abalo, recolheu  cama!

Gonalo acompanhra a historia, seccando vagarosamente as mos  toalha,
impressionado:

--Quando foi isso?

--Pois disse ao Snr. Dr.... Quando o Snr. Dr. estava em Oliveira. Um dia
antes ou um dia depois dos annos da Snr.^a D. Graa.

O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois
com um risinho incerto e leve:

--Emfim, sempre serviu d'alguma coisa ao Sanches Lucena ser deputado por
Villa-Clara...

E j vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a noite
na Villa, a desabafar com o Gouveia)--de novo se voltou para Bento, que
arrumava a roupa:

--Ento o bebedo, quando o outro lhe gritou Ai, que  o nosso
deputado, cahiu em si, fugiu, hein?... Ora v tu! Ainda vale ser
deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pelo menos inspira mais
respeito que descender dos reis de Leo!... Paciencia, toca a jantar.

       *       *       *       *       *

Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o Alvaralho,
Gonalo no cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela vez primeira, na
historia de Santa Ireneia, um lavrador d'aquellas aldas, crescidas 
sombra da Casa illustre, por tantos seculos senhora em monte e valle,
ultrajava um Ramires! E brutamente, alando o cajado, deante dos muros
da quinta historica!... Contava seu pae que, em vida do bisav Ignacio,
ainda desde Ramilde at Corinde os homens dobravam o joelho nos caminhos
quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E
porque? Por que elle no se desfalcra submissamente das suas rendas em
proveito d'um faanhudo!--Em tempos do av Tructesindo, villo de tal
attentado assaria, como porco montez, n'uma ruidosa fogueira, deante das
barbacans da Honra. Ainda em dias do bisav Ignacio apodreceria n'uma
masmorra. E o Casco no podia escapar sem castigo. A impunidade s lhe
incharia a audacia: e assomado, rancoroso, n'outro encontro, sem mais
fallas, desfechava a caadeira. Oh! no lhe desejava um mal duravel,
coitado, com dois filhos pequeninos--um que mamava. Mas que o
arrastassem  Administrao, algemado, entre dois cabos de policia--e
que na triste saleta, d'onde se avistam as grades da cadeia, apanhasse
uma reprehenso tremenda do Gouveia, do Gouveia muito secco, muito
esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios
tortuosos--pois que no era deputado, e que, com o seu talento, o seu
nome, essa espantosa linhagem d'avs que edificra o Reino, carecia o
prestigio d'um Sanches Lucena, o precioso prestigio que suspende no ar
os varapus atrevidos!

Apenas findou o caf, mandou pelo Bento avisar os dous moos da horta, o
Ricardo e o outro de queixo de cavallo, que o esperassem no pateo,
armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma Sala d'armas--cacifro
tenebroso, junto ao Archivo, onde se amontoavam peas aboladas
d'armaduras, um lorigo de malha, um broquel mourisco, alabardas,
espades, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta poeirenta
ferralhagem negra tres espingardas limpas com que os moos da quinta, na
romaria de S. Gonalo, atiravam descargas em louvor do Santo.

Depois, elle, encafuou o revlver na algibeira, desenterrou do armario
do corredor um velho bengalo de cabo de chumbo entranado, agarrou um
apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo Alvaralho, com os
dous creados de caadeira ao hombro, importantes e tesos, partiu para
Villa-Clara, procurar o Snr. Administrador do Concelho. A noite envolvia
os campos em socego e frescura. A lua nova, que alimpra o tempo, roava
a crista dos outeiros de Valverde como a roda lustrosa d'um carro de
ouro. No silencio os rijos sapates pregueados dos dous jornaleiros
resoavam em cadencia. E Gonalo adiante, de charuto flammante, gosava
aquella marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa
Ireneia com homens da sua merc e solarengos armados.

Ao comeo da villa, porm, recolheu discretamente a escolta na taverna
da Serena: e elle cortou para o Mercado da Herva, para a Tabacaria do
Simes, onde o Gouveia, quella hora, antes da partida da Assembla,
costumava pousar, comprar uma caixa de phosphoros, considerar
pensativamente na vidraa as cautelas da Loteria. Mas n'essa noite o
Snr. Administrador faltra ao Simes costumado. Largou ento para a
Assembla: e logo em baixo, no bilhar, um sujeito calvo, que contemplava
as carambolas solitarias do marcador, espapado na bancada, de collete
desabotoado, mascando um palito--informou o Fidalgo da doena do amigo
Gouveia:

--Cousa leve, inflammao de garganta... V. Ex.^a de certo o encontra em
casa. No arreda do quarto desde Domingo.

Outro cavalheiro porm, que remexia o seu caf  esquina d'uma mesa
atulhada de garrafas de licr, affianou que o Snr. Administrador j
espairecera n'essa tarde. Ainda pelas cinco horas elle o encontrra na
Amoreira, com o pescoo atabafado n'uma manta de l.

Gonalo, impaciente, abalou para a Caladinha. E atravessava o Largo do
Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia,  porta muito alumiada
da loja de pannos do Ramos, conversando com um homemzarro de forte
barba retinta e de guarda-p alvadio.

E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para Gonalo:

--Ento, j sabe?

--O qu?

--Pois no sabe, homem?... O Sanches Lucena!

--O qu?

--Morreu!

O fidalgo embasbacou para o Administrador, depois para o outro
cavalheiro, que repuxava na mo enorme, com um esforo inchado, uma luva
preta apertada e curta.

--Santo Deus!... Quando?

--Esta madrugada. De repente. Angina pectoris, no sei qu no
corao... De repente, na cama.

E ambos se consideraram, em silencio, no espanto renovado d'aquella
morte que impressionava Villa-Clara. Por fim Gonalo:

--E eu ainda ha bocado, na Torre, a fallar d'elle! E, coitado, como
sempre, com pouca admirao...

--E eu! exclamou o Gouveia. Eu, que ainda hontem lhe escrevi!... E uma
carta comprida, por causa d'um empenho do Manoel Duarte... Foi o cadaver
que recebeu a carta.

--Boa piada! rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra
a luva. O cadaver recebeu a carta... Boa piada!

O Fidalgo torcia o bigode, pensativo:

--Ora, ora... E que edade tinha elle?

O Gouveia sempre o imaginra um completo velho, de setenta invernos.
Pois no! apenas sessenta, em Dezembro. Mas consumido, arrasado. Casra
tarde, com fmea forte...

--E ahi temos a bella D. Anna, viuva aos vinte e oito annos, sem filhos,
naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos... Talvez
mais!

--Boa maquia! roncou de novo o oupado homem que enfira a luva, e agora
gemia, com as veias tumidas, para lhe apertar o colchete.

Aquelle cavalheiro constrangia o Fidalgo--ancioso por desafogar com o
Gouveia sobre a vacatura politica, assim inesperadamente aberta, no
circulo de Villa-Clara, pela brusca desappario do Chefe tradicional. E
no se conteve, puchou o Administrador pelo boto da sobrecasaca para a
sombra favoravel da parede:

--Oh! Gouveia! ento agora, hein?... Temos eleio supplementar... Quem
vir pelo circulo?

E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do homemzarro
de guarda-p, que, emfim enluvado, accendera o charuto, se acercava com
familiaridade--deduziu os factos:

--Agora, meu amigo, com o tio do Cavalleiro ministro da Justia e o Jos
Ernesto ministro do Reino, vae deputado pelo circulo quem o Andr
Cavalleiro mandar.  claro... O Sanches Lucena manteve sempre o seu
logar em S. Bento por uma indicao natural do partido. Era aqui o
primeiro homem, o grande homem dos Historicos... Bem! Hoje, para decidir
o Governo, como falta a indicao natural do partido, que resta? O
desejo pessoal do Cavalleiro. Voc sabe como o Cavalleiro 
regionalista. Pelo circulo pois, logicamente, sahe quem se apresente ao
Cavalleiro como um bom continuador do Lucena, pela influencia e pela
estabilidade territorial... N'outro circulo ainda se podia encaixar 
pressa um deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui no! O
deputado tem de ser local e Cavalleirista. E o proprio Cavalleiro,
acredite voc, est a esta hora embaraado.

O gordalhufo murmurou com importancia, atravez do immenso charuto que
mamava:

--Amanh j estou com elle, j sei...

Mas o Administrador emmudecera, coava o queixo, cravando em Gonalo os
olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa ida, quasi uma
inspirao, o illuminasse. E de repente, para o outro, que cofiava a
barba retinta:

--Pois, meu caro senhor, at alm d'manha. Ficamos entendidos. Eu
remetto o cestinho dos queijos directamente ao Snr. Conselheiro.

Tomou o brao de Gonalo, que apertou com impaciencia. E sem attender
mais ao homemzarro, que saudava rasgadamente, arrastou o Fidalgo para a
Caladinha silenciosa:

--Oh, Gonalo, oua l... Voss agora tinha uma occasio soberba! Voc,
se quizesse, dentro de poucos dias, estava deputado por Villa-Clara!

O Fidalgo da Torre estacra--como se uma estrella de repente se
despenhasse na rua mal allumiada.

--Ora escute! exclamou o Administrador, largando o brao de Gonalo,
para desenrolar mais livremente a sua ida. Voc no tem compromissos
serios com os Regeneradores. Voc deixou Coimbra ha um anno, tenta agora
a vida publica, nunca fez acto definitivo de partidario. L uma ou outra
correspondencia para os jornaes, historias!...

--Mas...

--Escute, homem! Voc quer entrar na Politica? Quer. Ento, pelos
Historicos ou pelos Regeneradores, pouco importa. Ambos so
constitucionaes, ambos so christos... A questo  entrar,  furar. Ora
voc, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O que o pde
embaraar? As suas inimisades particulares com o Cavalleiro? Tolices!

Atirou um gesto, largo e secco, como se varresse essas puerilidades:

--Tolices! Entre vocs no ha morte d'homem. Nem vocs, no fundo, so
inimigos. O Cavalleiro  rapaz de talento, rapaz de gosto... No vejo
outro, aqui no districto, com quem voc tenha mais conformidade de
espirito, de educao, de maneiras, de tradies... N'uma terra pequena,
mais dia menos dia, fatalmente, se impunha a reconciliao. Ento seja
agora, quando a reconciliao o leva s Camaras!... E repito. Pelo
circulo de Villa-Clara sahe deputado quem o Cavalleiro mandar!

O Fidalgo da Torre respirou, com esforo, na emoo que o suffocava. E
depois d'um silencio em que tirra o chapo, abanra com elle,
pensativamente, a face descahida:

--Mas o Cavalleiro, como voc disse,  todo local todo regional... No
querer impr seno um homem como o Lucena, com fortuna, com
influencia...

O outro parou, alargou os braos:

--E ento, voc?... Que diabo! Voc tem aqui propriedade. Tem a Torre,
tem Treixedo. Sua irm hoje  rica, mais rica que o Lucena. E depois o
nome, a familia... Vocs, os Ramires, esto estabelecidos, com solar em
Santa Ireneia, ha mais de duzentos annos.

O fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabea:

--Duzentos?... Ha mil, ha quasi mil!

--Ora ahi tem! Ha mil annos. Uma casa anterior  monarchia. Pelo menos
coeva! Voc  portanto mais fidalgo que o Rei! E ento, isso no  uma
situao muito superior  do Lucena? Sem contar a intelligencia... Oh!
diabo!

--Que foi?

--A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda no estou consolidado.

E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo prohibira as
noitadas festivas. Mas Gonalo acompanhava at  porta o amigo Gouveia.
E, conchegando o abafo de l, o Administrador resumiu a sua ida:

--Pelo circulo de Villa-Clara, Gonalinho, sahe quem o Cavalleiro
mandar. Ora o Cavalleiro, creia voc, tem immenso empenho de o eleger,
de o lanar na Politica. Se voc portanto estender a mo ao Cavaleiro, o
circulo  seu. O Cavalleiro tem o maior, o maiorissimo empenho,
Gonalinho!

--Isso  que eu no sei, Joo Gouveia...

--Sei eu!

E em confidencia, na solido da Caladinha, Joo Gouveia revelou ao
Fidalgo que o Cavalleiro anciava pela occasio de reatar a velha
fraternidade com o seu velho Gonalo! Ainda na semana passada o
Cavalleiro lhe affirmra (palavras textuaes):--Entre os rapazes d'esta
gerao nenhum com mais seguro e mais largo futuro na Politica que o
Gonalo. Tem tudo! grande nome, grande talento, a seduco, a
eloquencia... Tem tudo! E eu, que conservo pelo Gonalo todo o carinho
antigo, gostava ardentemente, ardentissimamente, de o levar s Camaras.

--Palavras textuaes, meu amigo!... Ainda ha seis ou sete dias, em
Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos caf no quintal.

A face de Gonalo ardia na sombra, devorando as revelaes do
Administrador. Depois, com lentido, como descobrindo candidamente todos
os recantos da sua alma:

--Eu, na realidade, tambem conservo a antiga sympathia pelo Cavalleiro.
E certas questes intimas adeus!... Envelheceram, caducaram, to
obsoletas hoje como os aggravos dos Horacios e dos Curiacios... Como
voc lembrou ha pouco, com razo, nunca se ergueu entre ns morte de
homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavalleiro, eramos como irmos...
E acredite voc, Gouveia! Sempre que o vejo, sinto um appetite doido,
mas doido, de correr para elle, de lhe gritar: Oh! Andr! nuvens
passadas no voltam, atira para c esses ossos! Creia voc, no o fao
por timidez...  timidez... Oh! no, l por mim, estou prompto 
reconciliao, todo o corao m'a pede! Mas elle?... Porque, emfim,
Gouveia, eu, nas minhas Correspondencias para a _Gazeta do Porto_, tenho
sido feroz com o Cavalleiro!

Joo Gouveia parou, de bengala ao hombro, considerando o fidalgo com um
sorriso divertido:

--Nas Correspondencias? Que lhe tem voc dito nas Correspondencias? Que
o Snr. Governador Civil  um despota, e um D. Juan?... Meu caro amigo,
todo o homem gosta que, por opposio politica, lhe chamem despota e D.
Juan. Voc imagina que elle se affligiu? Ficou simplesmente babdo!

O fidalgo murmurou, inquieto:

--Sim! Mas as alluses  bigodeira,  guedelha...

--Oh! Gonalinho! Bellos cabellos annellados, bellos bigodes torcidos,
no so defeitos de que um macho se envergonhe... Pelo contrario! Todas
as mulheres admiram. Voc pensa que ridicularisou o Cavalleiro? No!
annunciou simplesmente s madamas e meninas, que lem a _Gazeta do
Porto_, a existencia d'um moceto esplendido que  Governador Civil
d'Oliveira.

E parando de novo (por que defronte, na esquina, luziam as duas janellas
abertas da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um
conselho supremo:

--Gonalo Mendes Ramires, voc manh manda buscar a parelha do Torto,
salta para a sua caleche, corre  cidade, entra pelo Governo Civil de
braos abertos, e grita sem outro prologo:--Andr, o que l vae, l
vae, venham essas costellas! E como o circulo est vago, venha tambem
esse circulo!--E voc, dentro de cinco ou seis semanas,  o Snr.
Deputado por Villa-Clara, com todos os sinos a repicar... Quer tomar
ch?

--No, obrigado.

--Bem, ento viva! Tipoia manh e Governo Civil. Est claro, 
necessario arranjar um pretexto...

O fidalgo acudiu, com alvoroo:

--Eu tenho um pretexto! No!... Quero dizer, tenho necessidade real,
absoluta, de fallar com o Cavalleiro ou com o Secretario Geral.  uma
questo de caseiro... At por causa d'essa infeliz trapalhada o
procurava eu hoje a voc, Gouveia!

E aldravou a aventura do Casco, com traos mais pesados que a
ennegreciam. Durante semanas, afferradamente, esse fatal Casco o
torturra para lhe arrendar a Torre. Mas elle tratra com o Pereira, o
Pereira Brazileiro, por uma renda explendidamente superior  que o Casco
offerecia a gemer. Desde ento o Casco rugia, ameaava, por todas as
tabernas da Freguezia. E, n'essa tarde, surde d'uma azinhaga, rompe para
elle, de varapau erguido! Merc de Deus, l se defendera, l sacudira o
bruto, com a bengala. Mas agora, sobre o seu socego, sobre a sua vida,
pairava a affronta d'aquelle cajado. E, se o assalto se renovasse, elle
varava o Casco com uma bala, como um bicho montez... Urgia pois que o
amigo Gouveia chamasse o homem, o reprehendesse rijamente, o entaipasse
mesmo por algumas horas na cadeia...

O Administrador, que escutra palpando a garganta, atalhou logo, com a
mo espalmada:

--Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de priso
preventiva pertencem ao Governo Civil. Reprehenso no basta, com tal
fra!... S cadeia, um dia de cadeia, a meia rao... O Governo Civil
que me mande um officio ou telegramma. Voc realmente corre perigo. Nem
um instante a perder!... Amanh tipoia e Governo Civil. Mesmo por amor
da Ordem Publica!

E Gonalo, compenetrado, com os hombros vergados, cedeu ante esta
soberana razo da Ordem Publica:

--Bem, Joo Gouveia, bem!... Com effeito  uma questo de Ordem Publica.
Vou manh ao Governo Civil.

--Perfeitamente, concluiu o Administrador puxando o cordo da campainha.
D recados meus ao Cavalleiro. E s lhe digo que havemos de arranjar uma
votao tremenda, e foguetorio, e vivas, e ceia magna no Gago... Voc
no quer tomar ch, no? Ento, boas noites... E olhe! D'aqui a dous
annos, quando voc fr ministro, Gonalo Mendes Ramires, recorde esta
nossa conversa,  noite, na Caladinha de Villa-Clara!

Gonalo seguiu pensativamente por defronte do Correio; torneou a branca
escadaria da Egreja de S. Bento; metteu, alheado e sem reparar, pela
estrada plantada de acacias que conduz ao Cemiterio. E, n'aquelle alto
da Villa, d'onde, ao desembocar da Caladinha, se abrange a largueza
rica dos campos desde Valverde a Craqude--sentiu que tambem na sua
vida, apertada e solitaria como a Caladinha, se alargra um arejado
espao cheio d'interessante bulicio e de abundancia. Era o muro, em que
sempre se imaginra irreparavelmente cerrado, que de repente rachava.
Eis a fenda facilitadora! Para alm reluziam todas as bellas realidades
que desde Coimbra appetecera! Mas...--Mas no atravessar da fenda fragosa
de certo se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho. Que
fazer?...

Sim! seguramente! Estendendo os braos ao animal do Cavalleiro
conquistava a sua Eleio. O circulo, infeudado aos Historicos, elegeria
submissamente o Deputado que o chefe Historico ordenasse com indolente
aceno. Mas essa reconciliao importava a entrada triumphal do
Cavalleiro na quieta casa do Barrlo... Elle vendia pois o socego da
irm por uma cadeira em S. Bento! No! no podia por amor de
Gracinha!--E Gonalo suspirou, com ruidoso suspiro, no luminoso silencio
da estrada.

Agora porm, durante tres, quatro annos, os Regeneradores no trepavam
ao Governo. E elle, alli, atravez d'esses annos, no buraco rural,
jogando voltaretes somnolentos na Assembla da Villa, fumando cigarros
calaceiros nas varandas dos Cunhaes, sem carreira, parado e mudo na
vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inutil Torre! Caramba! era
faltar cobardemente a deveres muito santos para comsigo e para com o seu
nome!... Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos
Empregos, nas ricas Companhias; muitos nas Camaras por vacaturas
abenoadas como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz ou servil,
no Ministerio. S elle, com talentos superiores, um tal brilho
historico, jazeria esquecido e resmungando como um cxo n'uma estrada
quando passa a romaria. E por qu? Pelo receio pueril de pr a bigodeira
atrevida do Cavalleiro muito perto dos fracos labios de Gracinha... E
por fim esse receio constituia uma injuria, uma nojenta injuria, 
seriedade da irm. Porque Portugal no se honrava com mulher mais
rigidamente seria, de mais grave e puro pensar! Aquelle corpinho
ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heroica. O Cavalleiro?...
Podia sua exc.^a sacudir a guedelha com graa fatal, jorrar dos olhos
pestanudos a languidez s ondas--que Gracinha permaneceria to
inaccessivel e solida na sua virtude como se fosse insexual e de
marmore. Oh, realmente, por Gracinha, elle abriria ao Cavalleiro todas
as portas dos Cunhaes--mesmo a porta do quarto d'ella, e bem larga, com
uma solido bem preparada!... E depois no se cuidava de uma donzella,
nem d'uma viuva. Na casa do Largo d'El-Rei governava, merc de Deus,
marido brioso, marido rijo. A esse, s a esse, competia escolher as
intimidades do seu lar--e n'elle manter quietao e recato. No! esse
receio de uma imaginavel fragilidade de Gracinha, da sua honrada, altiva
Gracinha--esse receio, perverso e louco, certamente o devia varrer, com
o corao desafogado e sorrindo.--E, na clara solido da estrada,
Gonalo Mendes Ramires atirou um gesto decidido e terminante que varria.

Restava porm a sua propria humilhao. Desde annos, ruidosamente,
conversando e escrevendo, em Coimbra, em Villa-Clara, em Oliveira, na
*Gazeta do Porto*--elle demolira o Cavalleiro! E subiria agora, de
espinhao vergado, as escadarias do Governo Civil, murmurando o
seu--_peccavi, mea culpa, mea maxima culpa_?... Que escandalo na
cidade!--O Fidalgo da Torre l precisou e l veio... Era o
transbordante triumpho do Cavalleiro. O unico homem que no Districto se
conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades--desarmava,
emmudecia, e encolhidamente se enfileirava no sequito louvaminheiro de
Sua Exc.^a! Bem duro!... Mas, que diabo, havia superiormente o interesse
do paiz!--E, to admiravel lhe appareceu esta razo, que a bradou com
ardr na mudez da estrada:--Ha o paiz!...

Sim, o paiz! Quantas reformas a proclamar, a realisar! Em Coimbra, no
quinto anno, j se occupra da Instruco Publica--d'uma remodelao do
Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas
bellas-lettras, creando um povo formigueiro de Productores e
d'Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, quando
repartiam os Ministerios, concordavam sempre:--O Gonalo para a
Instruco Publica! Por essas ideas poderosas, pelo saber accumulado,
todo elle se devia  Nao--como outr'ora, pela fora, os grandes
Ramires armados. E pela Nao cumpria que o seu orgulho de homem cedesse
ante a sua tarefa de cidado...

Depois, quem sabe? Entre o Cavalleiro e elle afogadamente se enroscava
todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido--que talvez revivesse
n'esse encontro, os enlaasse logo n'um abrao penetrante, onde os
antigos aggravos se sumiriam como um p sacudido... Mas para que
imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, inilludivel--a de
comparecer logo de manh em Oliveira, no Governo Civil, requerendo a
suppresso do Casco. D'essa pressa dependia o seu socego de vida e
d'intelligencia. Nunca elle lograria trabalhar na Novella, trilhar
folgadamente a estrada de Villa-Clara, sabendo que em torno o outro,
pelas qulhas e sombras, rondava com a espingarda. E para no regressar
aos costumes bravios dos seus avs, circulando atravez do Concelho entre
as carabinas dos creados, necessitava o Casco domado, immobilisado. Era
pois inadiavel correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois,
quando elle se encontrasse no gabinete do Cavalleiro, deante da mesa do
Cavalleiro--a Providencia decidiria...--A Providencia decidir!

E ancorado n'esta resoluo, o Fidalgo da Torre parou, olhou. Levado
pela quente rajada de pensamentos, chegra  grade do cemiterio da Villa
que o luar branqueava como um lenol estendido. Ao fundo da alameda que
o divide, clara na claridade triste, o escarnado Christo chagado e
livido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e livido no
silencio e na solido, com uma tristissima lampada aos ps esmorecendo.
Em torno eram cyprestes, sombras de cyprestes, brancuras de lapides, as
cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os
mortos: e no alto a lua amarella e parada. Ento o Fidalgo sentiu um
arripiado mdo do Christo, das lousas, dos defuntos, da lua, da solido.
E despedio n'uma carreira at avistar as casas da Caladinha, por onde
descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no Largo do Chafariz,
um mcho piava na torre da Camara, melancolisando o repouso de
Villa-Clara apagada e adormecida. Mais impressionado, Gonalo correu 
taberna da Serena, recolheu os creados que esperavam jogando a bisca
lambida. E com elles atravessou de novo a Villa at  cocheira do
Torto--para recommendar que lhe mandassem  Torre, s nove horas da
manh, a parelha russa.

Atravez do postigo, que se abrira com cautella no porto chapeado, a
mulher do Torto gemeu, indecisa:

--Ai, meu Deus, no sei se poder... Elle s nove tem um servio... Pois
no faria mais conta ao Fidalgo ahi pela volta das onze?

--s nove! berrou Gonalo.

Desejava apear cdo ao porto do Governo Civil para evitar a curiosidade
d'aquelles cavalheiros de Oliveira--que, depois do meio dia, se juntavam
na Praa, vadiando por debaixo da Arcada.

       *       *       *       *       *

Mas s nove e meia Gonalo, que at ao luzir da madrugada se agitra
pelo quarto n'um tumulto d'esperanas e receios--ainda se barbeava, em
camisa, deante do vasto espelho de coluninas douradas. Depois aproveitou
a caleche para deixar na _Feitosa_ os seus bilhetes de pezames  bella
viuva,  D. Anna. Ao meio dia, esfaimado, almoou na Vendinha emquanto a
parelha resfolgava. E batia a meia depois das duas quando emfim se apeou
em Oliveira deante do porto do antigo convento de S. Domingos, ao fundo
da Praa, onde seu pae, quando Chefe do Districto, installra
faustosamente as reparties do Governo Civil.

quella hora, j na frescura e sombra da Arcada que orla um lado da
Praa (outr'ora _Praa da Prataria_, hoje _Praa da Liberdade_) os
cavalheiros d'Oliveira mais desoccupados, os rapazes, preguiavam, em
cadeiras de verga,  porta da Tabacaria Elegante e da loja do Leo.
Gonalo, cautelosamente, baixra as cortinas verdes da caleche. Mas no
pateo do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentaes do tempo
dos frades, esbarrou com o primo Jos Mendona, que descia a escadaria,
fardado. Foi um assombro para o alegre capito, moo esvelto, de bigode
curto, picado levemente de bexigas.

--Tu por aqui, Gonalinho! E de chapeu alto! Caramba, deve ser coisa
gorda!

O Fidalgo da Torre confessou, corajosamente. Chegava n'esse instante de
Santa Ireneia para fallar ao Andr Cavalleiro...

--Est elle c, esse illustre senhor?

O outro recuou, quasi aterrado:

--Ao Cavalleiro?!  ao Cavalleiro que vens fallar?!... Santissima
Virgem! Ento desabou Troia!

Gonalo gracejou, corando. No! no se passra desgraa epica como a de
Troia... De resto podia revelar ao amigo Mendona o caso que o arrastava
 presena augusta de Sua Exc.^a o Snr. Governador Civil. Era um homem
dos Bravaes, um Casco, que, furioso por no conseguir o arrendamento da
Torre, o ameara, rondava agora a estrada de Villa-Clara de noite, 
espreita, com uma espingarda. E elle, no ousando fazer alta e boa
justia pelas mos dos seus creados, como os Ramires feudaes--reclamava
modestamente da Auctoridade Superior uma ordem para que o Gouveia
mantivesse dentro da legalidade e dos Mandamentos de Deus o faanhudo
dos Bravaes...

--S isto, uma pequenina questo de paz publica... E ento o grande
homem est l em cima? Bem, at logo, Zzinho... A prima, de saude? Eu
naturalmente janto nos Cunhaes. Apparece!

Mas o capito no despegava do degrau de pedra, abrindo pachorrentamente
a cigarreira de couro:

--E que me dizes tu  novidade? O pobre Sanches Lucena?...

Sim, Gonalo soubera na Assembleia. Um ataque, hein?--Mendona accendeu,
chupou o cigarro:

--De repente, com um aneurisma, a ler o _Noticias_!... Pois ainda ha
tres dias a Maricas e eu jantamos na _Feitosa_. At eu toquei a duas
mos, com a D. Anna, o quarteto do Rigoleto. E elle bem, conversando,
tomando a sua aguardentesinha de canna...

Gonalo esboou um gesto de piedade e tristeza:

--Coitado... Tambem ha semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom homem, bem
educado... E ahi temos agora a bella D. Anna vaga.

--E o circulo!

--Oh, o circulo! murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdem. A mim
antes me convinha a viuva.  Venus com duzentos contos! Infelizmente tem
uma voz medonha...

O primo Mendona accudiu, com interesse, uma convico dedicada:

--No! no! na intimidade, perde aquelle tom empapado... No imaginas!
at um timbre natural, agradavel... E depois, menino, que corpo! que
pelle!

--Deve ficar explendida agora com o luto! concluiu Gonalo. Bem,
adeusinho! Apparece nos Cunhaes... Eu corro ao Cavalleiro para que Sua
Exc.^a me salve com o seu brao forte!

Sacudiu a mo do Mendona, galgou a escadaria de pedra.

Mas o capito, que mettera para a travessa de S. Domingos, desconfiou
d'aquella historia d'ameaas, d'espingardas... Qual! Aqui anda
Politica! E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na Praa e
avistou a caleche da Torre ainda encalhada  porta do Governo
Civil--correu  Arcada, desabafou logo com os dois Villa-Velhas, ambos
pensativamente encostados aos dois humbraes da Tabacaria Elegante:

--Vocs sabem quem est no Governo Civil?... O Gonalo Ramires!... Com o
Cavalleiro!

Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de
verga--onde os estendera somnolentamente o silencio e a ociosidade da
arrastada tarde de vero. E o Mendona, excitado, contou que desde as
duas horas e meia Gonalo Mendes Ramires, em carne e osso, se
conservava fechado com o Cavalleiro, no Governo Civil, n'uma conferencia
magna! O espanto e a curiosidade foram to ardentes que todos se
ergueram, se arremessaram para fra dos Arcos, a espiar a bojuda varanda
do convento, sobre o porto--que era a do gabinete de Sua Excellencia.

Precisamente, n'esse momento, Jos Barrlo, a cavallo, de cala branca,
de rosa branca na quinzena d'alpaca, dobrava a esquina da rua das
Vendas. E o interesse todo d'aquelles cavalheiros se precipitou para
elle, na esperana d'uma revelao:

--Oh Barrlo!

--Oh Barrolinho, chega c!

--Depressa, homem, que  caso rijo!

Barrlo, ladeando, abeirou da Arcada: e os amigos immediatamente lhe
atiraram a nova formidavel, apertados em volta da egoa. O Gonalo e o
Cavalleiro cochichando secretamente toda a manh! A caleche da Torre 
espera, com a parelha adormecida! E j comeavam a repicar os sinos da
S!

Barrlo, n'um pulo, desmontou. E emquanto um garoto lhe passeava a
egoa--estacou entre os amigos, com o chicote detraz das costas, pasmando
tambem para a varanda de pedra do Governo Civil.

--Pois eu no sei nada! O Gonalo a mim no me disse nada! affirmava
elle, assombrado. Tambem j ha dias no vem  cidade... Mas no me disse
nada! E da ultima vez que c esteve, nos annos da Graa, ainda
destemperou contra o Cavalleiro!

A todos o caso parecia d'estrondo! E subitamente um silencio esmagou a
Arcada, trespassada d'emoo. Na varanda, entre as vidraas abertas
vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fidalgo da Torre,
conversando, risonhos, de charutos accesos. Os largos olhos do
Cavalleiro pousaram logo, com malicia, sobre os rapazes apinhados em
pasmo  borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de viso. S. Ex.^a
remergulhra no gabinete--o Fidalgo tambem, depois de se debruar da
varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:

--Viva! Reconciliao!

--Acabou a guerra das Rosas!

--E as correspondencias da _Gazeta do Porto_?...

-- que houve peripecia tremenda!

--Temos o Gonalinho administrador d'Oliveira!

--Upa, Ex.^{mo} Snr., upa!

Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fidalgo reappareciam, n'uma
enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidencia
da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro, com uma familiaridade
carinhosa, bateu nas costas do Gonalo--como se publicasse a sua
reconciliao diante da Praa maravilhada. E outra vez se sumiram,
n'esse passear conversado e intimo, que os trazia da sombra do gabinete
para a claridade da janella, roando as mangas, misturando o fumo leve
dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais excitado. Passra o Mello
Alboim, o Baro das Marges, o Dr. Delegado: e, chamados com ancia, cada
um correra, devorra esgazeadamente a novidade, embasbacra para o velho
balco de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do relogio do
Governo Civil j se acercavam das quatro horas. Os dous Villa-Velhas,
outros rapazes, estafados, retrocederam s cadeiras de verga da
Tabacaria. O Dr. Delegado, que jantava s quatro e soffria do estomago,
despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando ao Pestana seu visinho
que apparecesse ao caf, para contar o resto... Mello Alboim, esse,
enfira para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do Largo: e da
janella, disfarado por traz da mulher e da cunhada, ambas de chambres
brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Ex.^a com um binoculo.
Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Ento o Baro
das Marges, na sua impaciencia borbulhante, decidiu subir ao Governo
Civil, para farejar!...

Mas n'esse momento Andr Cavalleiro assomava de novo  varanda--szinho,
com as mos enterradas no jaqueto de flanella azul. E quasi
immediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil,
atravessou a Praa, com os stores verdes meio corridos, descobrindo
apenas, quelles cavalheiros avidos, as calas claras do Fidalgo.

--Vae para os Cunhaes!

L o apanhava pois o Barrlo! E todos apressaram o bom Barrlo a que
montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances
d'aquella paz historica! O Baro das Marges at lhe segurou o estribo.
Barrlo, alvoroadamente, trotou para o Largo d'El-Rei.

Mas Gonalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhaes, seguia para a
Vendinha, onde decidira jantar, dando um descano  parelha esfalfada. E
logo depois das ultimas casas da cidade subiu as stores, respirou
deliciosamente, com o chapeo sobre os joelhos, a luminosa frescura da
tarde--mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as
tardes da sua vida... Voltava d'Oliveira vencedor! Furra emfim atravez
da fenda, atravez do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se
esgaassem nas asperezas estreitas da fenda!... Abenoado Gouveia,
esperto Gouveia! E abenoada a esperta conversa, na vespera, pela
caladinha de Villa-Clara!...

Sim, de certo, fra custoso aquelle mudo momento em que se sentra
seccamente, hirtamente,  borda da poltrona, junto da pesada meza
administrativa de S. Ex.^a. Mas mantivera muita dignidade e muita
simplicidade...--Sou forado (dissera) a dirigir-me ao Governador
Civil,  Auctoridade, por um motivo de ordem publica... E a primeira
avena partira logo do Cavalleiro, que torcia a bigodeira, pallido:--
Sinto profundamente que no seja ao homem, ao velho amigo, que Gonalo
Mendes Ramires se dirija... Elle ainda se conservra retrahido,
resistente, murmurando com uma frieza triste:--As culpas no so
decerto minhas... E ento o Cavalleiro, depois de um silencio em que
lhe tremera o beio:--Ao cabo de tantos annos, Gonalo, seria mais
caridoso no alludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que,
pelo menos em mim, se conservou a mesma, leal e sria. A esta
sensibilisada invocao, elle volvera, com doura, com indulgencia:--Se
o meu antigo amigo Andr recorda a nossa antiga amizade, eu no posso
negar que em mim tambem ella nunca inteiramente se apagou... Ambos
balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desaccordos da vida.
E quasi insensivelmente se trataram por _tu_! Elle contou ao Cavalleiro
a torpe ousadia do Casco. E o Cavalleiro, indignado como amigo, mais
como Auctoridade, telegraphra logo ao Gouveia um mandado forte para
inutilisar o valento dos Bravaes... Depois conversaram da morte do
Sanches Lucena, que impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza
da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro recordou a manh, na
_Feitosa_, em que entrando pela porta pequena do jardim, a
surprehendera, dentro d'um caramancho de rosas, a apertar a liga. Uma
perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Anna, apezar
dos duzentos contos e da divina perna...--J entre elles se
restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era tu Gonalo, tu
Andr, oh menino, oh filho!

E fra Andr, naturalmente, que alludira  desappario do Deputado do
Governo,  surpreza do circulo vago... Elle ento, com indifferena,
estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa, murmurra:

--Sim, com effeito... Vocs agora devem estar embaraados, assim de
repente...

Mais nada! apenas estas indolentes palavras, murmuradas atravs do rufo.
E o Cavalleiro, logo, sem preparao, apressadamente, empenhadamente,
lhe offerecera o Circulo!--Pousra os olhos n'elle com lentido, como
para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:

--Se tu quizesses, Gonalo, no estavamos embaraados...

Elle ainda exclamra, com surpreza e riso:

--Como, se eu quizesse?

E o Andr, sempre com os olhos n'elle cravados, os largos olhos
lustrosos, to persuasivos:

--Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado por Villa-Clara, j no
estavamos embaraados, Gonalo!

_Se tu quisesses_... E perante esta insistencia que rogava, to sincera
e commovida, em nome do Paiz, elle consentira, vergra os hombros:

--Se te posso ser util, e ao Paiz, estou s vossas ordens.

E eis a fenda transposta, a aspera fenda, sem rasgo no seu orgulho ou
na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo
gabinete, desde a estante carregada de papeis at  varanda--que Andr
abrira, por causa d'um cheiro persistente de petroleo entornado na
vespera. Andr tencionava partir n'essa noite para Lisboa--para
conferenciar com o Governo, depois d'aquella inesperada desappario do
Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonalo como o unico
Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial--pelo nome,
pelo talento, pela influencia, pela lealdade. E eis a eleio
consummada! De resto (declarra o Cavalleiro, rindo) aquelle Circulo de
Villa-Clara constituia uma propriedade sua--to sua como Corinde.
Livremente, poderia eleger o servente da Repartio que era gago e
bebado. Prestava pois um servio esplendido ao Governo,  Nao,
apresentando um mo de to alta origem e de to fina intelligencia...
Depois accrescentra:

--No tens a pensar mais na eleio. Vaes para a Torre. No contas a
ninguem, a no ser ao Gouveia. Esperas l, muito quietinho, telegramma
meu de Lisboa. E, recebido elle, ests Deputado por Villa-Clara,
annuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens almoar
comigo a Corinde, s onze.

Ento ambos se apertaram n'um abrao que fundiu de novo, e para sempre,
as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o
acompanhra, Andr, repenetrando timidamente no Passado, murmurou com um
riso pensativo:--Que tens tu feito ultimamente, n'essa querida Torre?
E, ao saber da Novella para os *Annaes*, suspirou com saudade dos tempos
de Imaginao e d'Arte em Coimbra, quando elle amorosamente lapidava o
primeiro canto d'um poema heroico, o _Fronteiro de Ceuta_. Emfim outro
abrao--e alli voltava deputado por Villa-Clara.

Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da
caleche, era elle que os representava em Crtes, elle, Gonalo Mendes
Ramires... E superiormente os representaria, merc de Deus! Porque j as
idas o invadiam, viosas e ferteis. Na Vendinha, emquanto esperava que
lhe frigissem um chourio com ovos e duas postas de savel, meditou, para
a Resposta ao Discurso da Cora, um esboo sombrio e spero da nossa
Administrao na Africa. E lanaria ento um brado  Nao, que a
despertasse, lhe arrastasse as energias para essa Africa portentosa,
onde cumpria, como gloria suprema e suprema riqueza, edificar de costa a
costa um Portugal maior!... A noite cerrra, ainda outras idas o
revolviam, vastas e vagas--quando o trote esfalfado da parelha estacou
no porto da Torre.

Ao outro dia (tera feira) s dez horas, o Bento entrou no quarto do
Fidalgo com um telegramma, que chegara  Villa de madrugada. Gonalo
pensou com um deslumbrado pulo do corao:-- do Governo!--Era do
Pinheiro, gritando pela Novella. Gonalo amarrotou o telegramma. A
Novella! Como poderia labutar na Novella, agora, todo na impaciencia e
no esforo da sua Eleio?... Nem almoou socegadamente--retendo,
atravez dos pratos que arredava, um desejo desesperado de contar ao
Bento. E, sorvido o caf n'um sorvo impaciente, atirou para
Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia. O pobre administrador jazia de
novo no camap de palhinha, com papas na garganta. E toda a tarde, na
estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonalo exaltou os talentos
do Andr, homem de governo e de idas, Gouveia!--celebrou o Ministerio
Historico, o unico capaz de salvar esta choldra, Gouveia!---desenrolou
vistosos Projectos de Lei que meditava sobre a Africa, a nossa
esperana magnifica, Gouveia!--Emquanto o Gouveia, estirado, s rompia
a mudez e a immobilidade, para murmurar chchamente, apalpando o calor
das papas:

--E a quem deve voss tudo isso, Gonalinho?... C ao meco!

Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensamento saltou logo
soffregamente para o Andr Cavalleiro, que a essa hora, em Lisboa,
almoava no Hotel Central (sempre, desde rapaz, Andr se conservra fiel
ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente
atravez do silencio da casa e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus
giros de Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos
Ministerios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da
Justia. Outro convidado certamente seria o Jos Ernesto, Ministro do
Reino, condiscipulo do Cavalleiro, seu confidente politico... N'essa
noite, pois, tudo se decidia!

--manh, pelas dez horas, tenho c telegramma do Andr.

Nenhuma noticia chegou  Torre:--e o Fidalgo passou a lenta quinta feira
 janella, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o moo do
telegrapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonn d'oleado e pela
perna manca.  noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou um moo a
Villa-Clara. Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pela mesa
d'aquella besta do Nunes do Telegrapho! No havia telegramma para o
Fidalgo. Ento ficou certo de surgirem em Lisboa difficuldades! E toda a
noite, sem socego, n'uma indignao que rolava e crescia, imaginou o
Cavalleiro cedendo mollemente a outras exigencias do
Ministro--acceitando com servilismo para Villa-Clara a candidatura
d'algum imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do Partido!

Pela manh injuriou o Bento por lhe trazer to tarde os jornaes e o ch:

--E no ha telegramma, nem carta?

--No ha nada.

Bem, fra trahido! Pois nunca, nunca, aquelle infame Cavalleiro
transporia a porta dos Cunhaes! De resto, que lhe importava a burlesca
Eleio? Merc de Deus que lhe sobravam outros meios de provar
soberbamente o seu valor--e bem superiores a uma ensebada cadeira em S.
Bento! Que miseria, na verdade, curvar o seu espirito e o seu nome ao
rasteiro servio do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca! E resolveu
logo regressar aos cimos puros da Arte, occupar altivamente todo o dia
no nobre e elegante trabalho da sua Novella.

Depois de almoo ainda abancou, com esforo, remexeu nervosamente as
tiras de papel. E de repente agarrou o chapo, abalou para Villa-Clara,
para o telegrapho. O Nunes no recebera nada para sua exc.^a!--Correu,
coberto de suor e p,  Administrao do Concelho. O snr. Aministrador
partira para Oliveira!... Positivamente vencera outra combinao--eis a
sua confiana burlada! E recolheu  Torre, decidido a tomar um desforo
tremendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada sobre o seu nome,
sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada Sexta-feira a consumio
amargamente meditando esta vingana, que queria bem publica e bem
sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do
infame com chicotadas, na escadaria da S, um domingo,  sahida da
missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal debicra, n'aquelle
despeito e humilhao que o pungiam, envergou o casaco para voltar a
Villa-Clara. No entraria no Telegrapho--j com vergonha do Nunes. Mas
gastaria a noite na Assembla, jogando o bilhar, tomando um alegre ch,
lendo risonhamente os Jornaes Regeneradores, para que todos recordassem
a sua indifferena--se por acaso, mais tarde, conhecessem a trama em que
resvalra.

Desceu ao pteo, onde as arvores adensavam a sombra do crepusculo
carregado de fuscas nuvens. E abria o porto, quando esbarrou com um
rapaz que s'esbaforia sobre a perna manca e gritava:-- um telegramma!
Com que voracidade lh'o arrancou das mos! Correu  cozinha, ralhou
desabridamente  Rosa pela falta da luz tardia! E, com um phosphoro a
arder nos dedos, devorou, n'um lampejo, as linhas bemditas:--_Ministro
acceita, tudo arranjado_... O resto era o Cavalleiro lembrando que no
domingo o esperava em Corinde, s onze, para almoarem e conversarem...

Gonalo Mendes Ramires deu cinco tostes ao moo do telegrapho--galgou
as escadas. Na livraria,  claridade mais segura do candieiro, releu o
telegramma delicioso. _Ministro acceita, tudo arranjado!_... Na sua
transbordante gratido pelo Cavalleiro, ideou logo um jantar soberbo,
offerecido nos Cunhaes pelo Barrlo, cimentando para sempre a
reconciliao das duas Casas. E recommendaria a Gracinha que, para mais
honrar a doce festa, se decotasse, pozesse o seu collar magnifico de
brilhantes, a derradeira joia historica dos Ramires.

--Aquelle Andr! que flr, que rapaz!

       *       *       *       *       *

O relogio de charo, no corredor, rouquejou as nove horas. E s ento
Gonalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que elle,
embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de
imaginaes, no sentira o rumor sobre a pedra da varanda, nem sobre a
folhagem dos limoeiros.

Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na
Novella. E realmente agora convinha que terminasse essa _Torre de D.
Ramires_ antes do afan da Eleio--para que em Janeiro, ao abrir das
Crtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado pela
Erudio e pela Arte. Envergou o roupo de flanella. E  banca, com o
costumado bule de ch inspirador, repassou lentamente o comeo do
Capitulo II--que o no contentava.

Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que
Loureno Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido e captivo do
Bastardo de Bayo. Pelo Almocadem dos pees, que, com o brao varado por
uma chuada, voltra em desesperada carreira ao Castello, j Tructezindo
Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.--E n'este lance o tio
Duarte, no seu poemeto do Bardo, com um lyrismo molle, mostrava o enorme
Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade
d'esse filho, flr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado, amarrado
n'umas andas,  merc da gente de Bayo...

    Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
    Arfa o arnez c'o soluar ardente!...

Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas
primeiras do Capitulo, esbora o velho abatido sobre um escanho, com
lagrimas relusentes sobre as barbas brancas, as duras mos descahidas
como as de languida Dona--em quanto que nas lages, batendo a cauda, os
seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana.
Mas, agora, este choroso desalento no lhe parecia coherente com a alma
to indomavelmente violenta do av Tructezindo. O tio Duarte, da casa
das Balsas, no era um Ramires, no sentia hereditariamente a fortaleza
da raa:--e, romantico plangente de 1848, inundra logo de prantos
romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro
de Sancho I! Elle porm devia restabelecer os espiritos do Senhor de
Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse descorado
e falso comeo de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo
todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua
lealdade sublime e simples Tructezindo no cuida do filho--adia a
desforra do amargo ultraje. E o seu esforo todo se commette a apressar
os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar s
Senhoras Infantas os soccorros de que as privra a embuscada de
Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na
sala-d'armas, regia a ordem da arrancada--eis que os esculcas, abrigados
do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para alm do
arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada subindo para
Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando
aos eirados da torre albarr--e reconhece o pendo de Lopo de Bayo, o
seu toque de trompas  mourisca, arrastado e triste no silencio dos
campos. Ento arqueia as cabelludas mos na bca, atira o alarido:

--Armas, armas! que  gente de Bayo!... Besteiros, s quadrellas!
Homens em chusma s lavadias da carcova!

E Gonalo, coando a testa com a rama da penna, rebuscava ainda outros
veridicos brados, de bravo som Affonsino--quando a porta da livraria
abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o
desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:

--O Snr. Dr. no poderia descer c baixo  cozinha?

Gonalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem comprehender:

-- cozinha?...

-- que est l a mulher do Casco a levantar uma celeuma. Parece que lhe
prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os
pequenos, at um de mama. Quer por fora fallar com o Snr. Dr. E no se
calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que  mesmo uma
Ignez de Castro!

Gonalo murmurou--que massada! E que contrariedade! A mulher, n'uma
agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes at ao porto da
Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleio, apparecendo a todas as
freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...--Atirou a penna
furiosamente:

--Que massada! Dize  creatura que me deixe, que se no afflija... O
Snr. Aministrador manh manda soltar o Casco. Eu mesmo vou a
Villa-Clara, antes d'almoo, para pedir. Que se no afflija, que no
aterre os pequenos... Corre, dize, homem!

Mas o Bento no despegava da porta:

--Pois a Rosa e eu j lhe dissemos... Mas a mulherzinha no acredita,
quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. At um dos pequenitos
est bem doentinho, ainda no fez seno tremer...

Ento Gonalo, sensibilisado, atirou  meza um murro que tresmalhou as
tiras da Novella:

--Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E
agora, por cima,  sobre mim que desabam as lagrimas, e as scenas, e a
creana doente! No se pode viver n'esta terra! Um dia vendo casa e
quinta, emigro para Moambique, para o Transvaal, para onde no haja
massadas... Bem, dize  mulher que j deso.

O Bento approvou, com effuso:

--Pois se o Snr. Dr. lhe no custa... E como  para dar uma boa nova...
Sempre consola a pobre mulherzinha!...

--L vou, homem, l vou! No me masses tambem... Impossivel trabalhar
n'esta casa! Outra noite perdida!

Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas--com a ideia de
metter na algibeira do roupo duas notas de dez tostes que consolariam
os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade,
compensar com dinheiro creancinhas--a quem elle arrancra o pae,
algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma
boceta de alperces seccos--dos famosos alperces do Convento de
Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandra Gracinha. E,
cerrando lentamente o quarto, j se arrependia da sua severidade, to
estouvada, que assim desmanchava a quietao de um casal. Depois no
corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas
lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da
pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos
encharcados, modos, contra a tormenta solta. E ao penetrar no corredor
da cozinha--tremia como um culpado.

Atravez da porta envidraada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando a
mulher, com palradora confiana, quasi risonhos. Mas os ais d'ella, os
ruidosos lamentos pelo seu rico homem, resoavam, mais agudos, como a
rebater e a abafar toda a consolao. E apenas Gonalo empurrou
timidamente a porta--quasi acuou no espanto e medo d'aquella afflico
estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De
rojos nas lages, torcendo as magras mos sobre a cabea, toda de negro,
parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhido do lenol estendido
que seccava ao lume forte da lareira--a creatura estalra n'um tumulto
de supplicas e gritos:

--Ai, meu rico Senhor, tenha compaixo! Ai, que me prenderam o meu
homem, que m'o vo mandar para a Africa degredado! Jesus, meus filhinhos
da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e por
toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi
perdio que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas creancinhas! Ai, o meu
pobre homem que est a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem !

Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta
d'alperces, Gonalo balbuciava, atravez da emoo que o estrangulra:

--Oh mulher, socegue, j o vo soltar! Socegue! J dei ordem! J o vo
soltar!

E d'um lado a Rosa, debruada sobre a escura creatura que gemia,
recomeava docemente:--Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria! Logo
pela manh, o vo soltar!--E do outro o Bento, batendo na coxa, com
impaciencia:--Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o Snr. Dr.
prometteu! Logo pela manh o vo soltar!

Mas ella no se calmava, com o leno da cabea desmanchado, uma trana
desprendida, soluando e clamando atravez dos soluos:

--Ai que eu morro, se o no vejo solto! Ai perdo, meu rico Senhor da
minha alma!...

Ento Gonalo, que aquelle infindavel e obtuso queixume torturava, como
um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:

--Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de p, de p!... E olhe bem, olhe
direita!

Hirtamente erguida, atirando as mos para as costas como a escapar
d'algemas que tambem a ameaassem--ella arregalou para o Fidalgo os
olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que
lhe enchiam a face rechupada e morena.

--Bem, perfeitamente! exclamava Gonalo. E agora diga! Acha que tenho
bojo de lhe mentir, quando vocemec est n'essa afflico? Pois ento
socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra, manh cedo, o seu
homem est solto!

E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:

--Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus? Se o Snr. Dr. tinha
promettido... manh l tem o homem!

Lentamente ella limpava as lagrimas, j silenciosas,  ponta do avental
negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais arregalados,
devorando Gonalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem, cedinho, de
madrugada?...--Foi o Bento que a convenceu, com violencia:

--Oh mulher, voss at parece atrevida! Ora essa! Pois duvida da palavra
do Snr. Dr.?

Ella soltou o avental, baixou a cabea, suspirou simplesmente:

--Ai, ento muito obrigada, seja pela felicidade de todos...

E agora a curiosidade de Gonalo procurava os pequenos que ella
acarretra desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A pequenina de
mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a
aconchegra entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete annos,
encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lenol que seccava,
seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia
despedaadamente, n'um cabecear de somno e canasso, a arquejar, a gemer
contra a tosse que o esfalfava. Gonalo pousou a boceta de alperces na
arca, palpou a mo com que elle, sem cessar, raspava pela abertura da
camisa encardida o peito ainda mais encardido.

--Mas esta creanca tem febre!... E voss, com uma noite d'estas, traz o
pequeno assim desde os Bravaes, mulher?

Da cadeirinha baixa, onde se sentra prostrada, ella murmurou, sem
erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:

--Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae,
coitadinhos!

--Vocemec  doida, mulher! E pretende talvez voltar para os Bravaes,
debaixo d'agoa, com as creanas?

Ella suspirou:

--Ai! volto, volto... No posso deixar szinha a me do meu homem, que
tem oitenta annos e est entrevada.

Ento o Fidalgo cruzou descoroadamente os braos--no embarao d'aquella
aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas
creanas. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama, no soffreria
com a caminhada, bem achegadinha ao collo da me, debaixo de uma manta
grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...

--Esse fica c! exclamou logo Gonalo, decidido. Como se chama elle?
Manoel... Bem! O Manoel fica c. E v descanada, que a Sr.^a Rosa toma
cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes dias
l lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo... V socegada!

De novo a mulher suspirou, no canasso immenso que a invadira, a
amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de submisso:

--Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, est muito bem...

O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma aberta, o
negrume a levantar. Gonalo immediatamente apressou a volta aos Bravaes:

--E no tenha medo, mulher. Vae um moo da quinta com uma lanterna, e um
guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemec at podia levar
uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de
borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...

E quando o Bento trouxe o impermeavel de longa romeira, o lanou por
sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu
ruge-ruge de seda--foi na cozinha uma divertida risada. O pranto
passra, como a chuva. Agora era uma visita amoravel, findando n'um
arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mos, banhada de gosto:

--Assim  que vocemec fica uma bonita Madama, hein!... Se fosse de dia,
olhe que se juntava gente!

A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:

--Ai! nem sei que pareo... Que avantesma!

Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente, Gonalo
acompanhou o rancho at  porta do pomar, gritando ainda--Agasalhem bem
a pequena!--quando j a lanterna do moo se fundia na humida espessura
da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas
dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera
n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.

--Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o
cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle
precisava tambem era esfregado a cco... Que porcaria de gente! Emfim
fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima
alguma cousa para eu cear, cousa solida, que no jantei, e o sarau foi
tremendo!

Na livraria, depois de mudar os chinellos, descanar, Gonalo escreveu
ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do
Casco. E accrescentava:-- o primeiro pedido que lhe faz o deputado por
Villa-Clara (comprimente!), porque acabo de receber telegramma do nosso
Andr, annunciando que _tudo feito, ministro concorda, etc._ De sorte
que precisamos communicar! Queira pois vossa merc vir jantar manh a
esta sua Torre,  sombra do Tit e com acompanhamento de Videirinha.
Estes dous benemeritos so indispensaveis para que haja appetite e
harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar
a remessa de circulares eloquentes...

Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E,
trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval,
para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada
do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o rijo
sol d'Agosto...

Mas a sua imaginao, desde a carta escripta ao Gouveia pelo Deputado
de Villa-Clara escapava desassocegadamente da velha Honra de Santa
Ireneia--esvoaava teimosamente para os lados de Lisboa, da Lisboa do S.
Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava
esbaforido--incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre
elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel Bragana
com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou
para a ceia. E  mesa espalhou livremente a imaginao por Lisboa, pelos
corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos
antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na Graa, atravez
das salas mais modernas de cultos e alegres amigos--parando s vezes
deante de vises que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria
aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sesses de
S. Bento sempre luvas cr de perola, uma flor no peito. Por commodidade
levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...

O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao
Joaquim da Horta com a recommendao de correr logo s seis horas a casa
do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia at
soltarem o Casco.

--E j deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que tenho
o somno leve, se elle berrar... Mas j dorme regaladamente.

--Est socegado, hein? acudiu Gonalo, sorvendo  pressa o calice de
cognac. Vamos vr esse cavalheiro!

E tomou um castial, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo,
abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria,
n'um desbotado camap de damasco verde, a Rosa dobrra carinhosamente a
roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaado, as calas enormes, s
com um boto. Dentro o leito de pau preto, vasto leito de ceremonia,
atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens
verdes. Ao lado dos dous postes torneados,  cabeceira, pendiam dous
paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um folio,
um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado  espada, com
um laarote de rendas sobre a couraa polida. E nos altos colches o
Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos
cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.

Gonalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra do
lenol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou que no
entrasse traioeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento buscar uma
lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz
d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo quarto,
para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E
sahiu, sempre na ponta dos ps, sorrindo, deixando o filho do Casco
velado pelos dous nobres Ramires--o Bispo com o seu Tratado, o
Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.

Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passra a calma,
depois do almoo, na frescura do arvoredo, entre susurros de agoas
correntes, a folhear um volume do _Panorama_--Gonalo encontrou sobre a
mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o
surprehendeu, enorme, em papel almao, fechada por uma obreia. E dentro
a assignatura, desenhada a tinta azul, era um corao chammejante.

N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda,
arredondada com esmero:--Caro e Ex.^{mo} Snr. Gonalo Ramires. O
galante Governador civil do Districto, o nosso atiradio Andr
Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes,
olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazo dos
Barrlos. Como no era natural que andasse a estudar a architetura do
Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno
Chefe do Districto esperava que V. Ex.^a apparecesse a alguma das
janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou
sobretudo _no mirante do Jardim_, para reatar com V. Ex.^a a antiga e
quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.^a em
correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconciliao, e abrir
os braos generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira
Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso
n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos
Barrlos. Enviamos portanto a V. Ex.^a os nossos sinceros parabens por
esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso Cavalleiro
e redondar em beneficio dos servios publicos!

Revirando o papel nas mos, Gonalo pensou:

-- das Louzadas!

Ainda estudou a lettra, as expresses, descortinando que _redundar_ fora
escripto com um O, _architectura_ sem C. E rasgou furiosamente a grossa
folha, rosnando no silencio da livraria:

--Aquellas bebadas!

Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o
aterrava--porque maledicencia, lanada por to ardentes espalhadoras de
maledicencias, j certamente penetrra em todas as casas d'Oliveira,
mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo
o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do Andr pelos Cunhaes
com essa sua visita ao Governo Civil que assombrra a Arcada. Na ideia
pois d'Oliveira, e sob a inspirao das Louzadas--fra elle, elle,
Gonalo Mendes Ramires, que arrancra o Cavalleiro  sua Repartio, o
conduzira servialmente ao Largo d'El-Rei, lhe escancarra as portas do
Palacete at ahi rondadas e miradas sem proveito, e com sereno descaro
alcovitra os amores da irm! Se taes desavergonhadas no mereciam que
lhes arregaassem as sujas saias no meio da Praa, em manh de Missa, e
lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, at que o sangue
ensopasse as lages!...

E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle,
traidoramente! Essa insistencia de Andr, cocando Gracinha, estrondeando
a calada em torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente
agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua appario  janella do
Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que
inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes, nem
mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua reconciliao com Andr a um
crco amoroso que no comera, ou no andava to murmurado. Tres ou
quatro mezes depois, Andr, sem esperana ante o Palacete inaccessivel,
certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas no!
infelizmente quando esse Andr, com maior estrepito, ronda a porta
almejada-- que elle acode, e abraa o rondador, e lhe facilita a porta!
E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na
cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia
como Verdade Publica! Infames Louzadas!

Mas agora? O que? manter rigidamente as suas relaes com o Cavalleiro
dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem
logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como
poderia? Desde que elle se reconciliava com Andr, logo e to
naturalmente como a sombra segue a inclinao do ramo, se reconciliava
tambem o Barrlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como impr ao Barrlo
que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse
unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?--Eu sou outra
vez o velho amigo do Andr, tu, Barrlo, tambem--mas nunca o convides
para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!--Imposio desconcertada,
de dura impertinencia--e que, na pequena Oliveira, logo os faceis
encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrlo, quebrariam como um
barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do
porto do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala de fogo na
mo, para sustar a intruso de Satanaz, Chefe do Districto! Mas tambem
que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha
embrulhado ao nome de Andr, com o nome d'elle, Gonalo, emmaranhado
atravez como o fio favoravel que os atra--era horrivel.

E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas to asperas, que tanto o
feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:

--Irra, que massada! So tudo massadas, n'estas terras pequenas e
coscovilheiras...

Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um
certo Largo--e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr.
Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante,
como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos
a cocar. Era Gonalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil annos de
nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas
Louzadas. E no s pelo nome, louvado Deus, mas pelo espirito... O Andr
era seu amigo, entrava em casa de sua irm--e Oliveira que estoirasse!

E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta
manh de trabalho para que se preparra desde o almoo, relendo trechos
do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do _Panorama_ sobre as
guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforo d'atteno erudita
abancou, mergulhou a penna no tinteiro de lato que servira a trez
geraes de Ramires. E emquanto repassava as tiras trabalhadas, nunca o
Castello de Santa Ireneia lhe parecera to heroico, de to soberana
estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino, que em
torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo esforo dos
seus castelles!

Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia, n'essa
Affonsina manh d'Agosto e rijo sol, em que o pendo do Bastardo
surgira, entre fulgidos d'armas, para alm dos arvoredos da Ribeira! J
por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as
bstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas
cubas, para despejar sobre os homens de Bayo que tentassem a escalada.
O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traas de defeza,
revistando os feixes de virotes, os pedregulhos d'arremesso. E no
immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos
solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com
terror, puchavam pelo saio d'algum apressado homem de rolda, para
saberem da hoste que avanava. No emtanto a cavalgada passra a Ribeira
sobre a rude ponte de pau--j, por entre os alamos, serenamente se
acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra
por Gonalo Ramires, o _Cortador_. E, no socego da manh abrazada, mais
fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e triste
 mourisca...

Mas quando Gonalo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com termos
bem sonoros, avidamente rebuscados no _Diccionario de Synonimos_, o toar
arrastado das buzinas de Bayo--sentiu realmente, do lado da Torre, um
gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a
penna--e eis que o _Fado dos Ramires_ s'eleva offertadamente da horta,
em serenada, para a varanda florida de madresilva:

    Ora, quem te v solitaria,
    Torre de Santa Ireneia...

O Videirinha!--Correu alvoroadamente  janella. Um chapeu cco tremulou
entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:

--Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado Gonalo
Ramires!

No violo rompera triumphalmente o Hymno da Carta. Videirinha, alado na
biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava--Viva a illustre casa
de Ramires! E por baixo do chapeu cco, sacudido com delirio, Joo
Gouveia, sem poupar a garganta, urrava--Viva o illustre deputado por
Villa-Clara! Viva!

Magestosamente, Gonalo, alagado de riso, estendeu da varanda o brao
eloquente:

--Obrigado, meus queridos concidados! Obrigado!... A honra que me
fazeis, vindo assim, n'esse formoso grupo, o chefe glorioso da
Administrao, o inspirado Pharmaceutico, o...

Mas reparou... E o Tit?

--O Tit no veio?... Oh Joo Gouveia, voc no avisou o Tit?

Repondo sobre a orelha o chapeu cco, o Administrador, que arvorra uma
gravata de setim escarlate, declarou o Tit um animal:

--Estava combinado virmos todos trez. At elle devia trazer uma duzia de
foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunio era ao p da
Ponte... Mas o animal no appareceu. Em todo o caso ficou avisado,
avisadissimo... E se no vier,  traidor.

--Bem, subam vocs! gritou Gonalo. Eu n'um instante me visto. E, para
aguar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta pela quinta
at ao pinhal!...

Immediatamente Videirinha, tso, empinando o violo, metteu pela rua
larga da horta, recoberta de parreira; e atraz Joo Gouveia atirava os
passos em cadencia nobre, alando o guarda-sol como um pendo. Quando
Gonalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa quente--o _Fado
dos Ramires_ soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal, por sob a
janella aberta onde seccava o lenol do banho. E eram as quadras
preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande av Ruy Ramires,
sulcando os mares de Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus
inglezas, e, do alto do seu castello de pra, vestido de gran-vermelha,
com a mo no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras, soberbamente as
intima a que se rendam...

    Todo alegre, e a mo no cinto.
    Junto da Signa Real,
    Gritando s naus--Amainae
    Por El-Rei de Portugal!...

Gonalo abotoava  pressa os suspensorios, retomra o canto
glorificador--_Todo alegre, a mo no cinto_... _Junto da Signa
Real_...--E, atravez do esforo esganiado, pensava que com tal linha
d'avs, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas horrendas. Mas o
trovo lento de Tit retumbou no corredor:

--Ento esse deputado de Villa-Clara?... J est a vestir a farda?

Gonalo correu  porta do quarto, radiante:

--Entra, Tit! Os deputados j no usam farda, homem! Mas se a tivesse,
c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar
hospedes to illustres!

O outro avanra vagarosamente, com as mos nas algibeiras da rabona de
velludo cr d'azeitona, o vasto chapeu braguez atirado para a nuca,
desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:

--Eu, por farda, queria dizer libr... Libr de lacaio.

--Ora essa!?

E o outro mais retumbante:

--Pois o que vaes tu ser, homem, seno um sujeito s ordens do S.
Fulgencio, _do horrendo careca_? No lhe serves o ch, quando elle te
mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho, s
ordens! Oh Ramires, vote l! E Ramires, zs, vota...  de escudeiro,
homem,  de escudeiro de libr...

Gonalo sacudiu os hombros, impaciente:

--Tu s uma creatura das selvas, lacustre, quasi prehistorica... No
entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade no ha principios
absolutos!...

Mas o Tit, imperturbavel:

--E esse Cavalleiro? Tambem j  rapaz de talento? Tambem j governa bem
o Districto?

Ento Gonalo protestou, picado, com uma roseta forte na face. E quando
negra elle ao Andr talento ou geito de governar? Nunca! S rira,
gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o servio
do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os
mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!

--E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito
terrivel, um Cato com quem se no pode jantar!... Ora foi sempre o
costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde
triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!

Tit, serenamente, virou as costas magestosas.

--Onde vaes,  Tit?

--Para a cosinha!

E, como Gonalo ria, Tit, junto da porta, girando como uma torre que
gira, encarou o seu amigo:

--Srio, srio, Gonalo! Eleio, reconciliao, submisso, e tu em
Lisboa s cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de brao dado com o
Andr, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa hoje se
apurou, no alludamos mais a cousas tristes!

E Gonalo bracejava, de novo protestava--quando o violo resoou no
corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o _Fado_ recomeou,
mais meigo, mais glorificador:

    --Velha casa de Ramires,
    Honra e flor de Portugal!




VI


A casa do Cavalleiro em Corinde era uma edificao dos fins do seculo
XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com
quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta ch, toda de
terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada
nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os
jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os tornra
famosos--e lhes merecera em tempos do av de Andr, o Desembargador
Martinho, uma visita da Snr.^a D. Maria II. E dentro todas as salas
reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma
parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.^a D. Jesuina Rollim.

Quando Gonalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a ante-sala,
ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de galies,
que elle uma tarde rasgra jogando o espado com Andr. Sob esse painel,
 borda do canap de palhinha, esperava melancolicamente um amanuense do
Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta
remota, ao fundo do corredor, Andr, avisado pelo creado, o fiel
Matheus, gritou alegremente:

--Oh Gonalo, entra para c, para o quarto! Sahi da tina... Ainda estou
em ceroulas!

E em ceroulas o abraou, n'um generoso abrao de parabens. Depois, em
quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das
malas--gravatas, peugas de sda, garrafas de perfumes--conversaram do
calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...

--Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar 
lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de calia,
de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis,
Lisboa!... Mas emfim, l combatemos bravamente o bom combate!

Gonalo sorria, do canto do divan onde se accommodra, entre uma pilha
de camisas de cr e outra de ceroulas com monogramma flammante:

--E ento, Andrsinho, tudo arranjado, hein?

O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas
grossas do bigode. E s depois de o ensopar em brilhantina, d'acamar as
ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a
Gonalo, j inquieto, que a eleio ficra solida...

--Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino,
encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande
homem da _Verdade_...

O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:

--E ento?...

E ento elle mostrra muito asperamente ao Jos Ernesto a inconveniencia
de dispr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a elle,
Governador Civil--e dono do circulo... E como o Jos Ernesto se
arrebitava, alludia  conveniencia superior do Governo, elle logo,
estendendo o dedo firme:--Pois Zsinho, flr, ou trago o Ramires por
Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!... Espantos, escarceus,
berreiros--mas o Jos Ernesto cedra, e tudo findou jantando ambos em
Algs com o tio Reis Gomes, onde  noite, ao bluff, as senhoras lhe
arrancaram quatorze mil reis.

--Em resumo, Gonalinho, precisamos conservar os olhos attentos. O Jos
Ernesto  rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o meu genio...
Mas ha os compromissos, as presses... E agora a novidade pittoresca.
Sabes quem se prope contra ti, pelos Regeneradores?... Adivinha... O
Julinho!

--Que Julinho?... O Julio das photographias?

--O Julio das photographias.

--Diabo!

O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:

--Arranja dez votos  porta da quinta, tira o retrato a todos os
taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o
Julinho... No! s Lisboa me inquieta, a canalha politica de Lisboa!

Gonalo torcia o bigode, desconsolado:

--Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas
intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda l no vou!

O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque--que experimentra abotoado,
depois repuxadamente aberto sobre o collete de fusto cr de azeitona
onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida
por uma saphira. Por fim, encharcando o leno com essencia de fno:

--Ns estamos bem alliados, bem consagrados, no  verdade? Ento, meu
caro Gonalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio que este
fraque do nosso Amieiro assenta com certa graa, hein?

--Magnifico! affirmou Gonalo.

--Bem. Ento agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos poisos
e te florires com uma rosa de Corinde.

E logo no corredor, ornado de jarres da India, de arcas de charo,
enlaando o brao de Gonalo, do seu recuperado Gonalo:

--Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de
Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma
cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.

Gonalo accudiu ingenuamente:

--Oh! a Torre est muito mudada... Muito mudada!

E um embaraado silencio pesou--como se entre elles surgisse a imagem
entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperanas,
quando Andr e Gracinha procuravam as ultimas violetas d'Abril, sob o
sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da Me d'Agoa.
Ainda em silencio desceram a escada de caracol--por onde ambos outr'ora
se despenhavam cavalgando o corrimo. E em baixo, n'uma sala abobadada,
rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas,
Andr quedou deante da porta envidraada do jardim, ondeou um gesto
desconsolado e languido:

--Eu tambem, agora, pouco appareo em Corinde. E, comprehendes bem que
no me reteem em Oliveira os cuidados da Administrao... Mas este
casaro arrefeceu, alargou, desde a morte da mam. Ando aqui como
perdido. E acredita, quando c me demoro, so uns passeios tristonhos
por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua Grande?...
Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonalo!

Gonalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:

--Eu tambem m'aborreo na Torre...

--Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.

Correu, com um esforo, o fecho perro da porta envidraada. E limpando
os dedos ao leno perfumado:

--Eu creio que Corinde, agora, s me encantava com grandes cerros
escalvados, grandes rochedos agrestes... s vezes, c dentro d'alma,
necessito o ermo de S. Bruno...

Gonalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com preciosidade,
atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E
no terrao, junto  balaustrada de pedra enramada d'hera, galhofou,
louvando o areado alinho, o relusente vio do jardim:

--Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este
asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre
anda um chavascal.

--A prima Jesuina gosta de flres. Tu no conheces a prima Jesuina? Uma
velha parenta da mam, que governa agora a casa. Coitada! e com um
escrupulo, com um amor... Se no fosse a santa creatura, os porcos
fossavam nos canteiros... Meu filho, onde no ha saia, no ha ordem!

Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de loua azul que
trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India. Gonalo recordou
a vespera de S. Joo em que rolra por aquelles degraus, n'um trambulho
tremendo, com os braos carregados de foguetes. E lentamente, atravez do
jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. L se conservava o
trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religio heroica da
fora, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob a magnolia,
lera uma tarde Andr o primeiro canto do seu Poema, o _Fronteiro
d'Arzilla_. E o alvo? O alvo onde se exerciam  pistola, para os futuros
duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho
Syndicato Constitucional?...--Oh! toda essa parte do muro, que pegava
com o lavadoiro, fra derrubada depois da morte da mam, para alargar a
estufa...

--De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por
esse tempo entrei tambem no Syndicato... E agora entras tu, pela porta
que eu te abro!

Ento Gonalo, que colhra e esmagava entre os dedos, para lhe sorver o
perfume, folhas de lucia-lima--acudiu com uma franqueza, que aquelle
desenterrar de recordaes tornava mais penetrante e sentida:

--E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afianas a
eleio, com segurana? No surgir difficuldade, Andrsinho?... Esse
Pitta  um habil!

O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:

--Da habilidade dos Pittas se ri a fora dos Cavalleiros...

Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de
arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o to
celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que
deleitra uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta confirmava a
segurana da Eleio. Gonalo, caminhando respeitosamente como n'um
Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:

--Uma belleza, Andr, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes...
Aquellas repolhudas, alm, que luxo! E estas amarellas? deliciosas!...
Olha este encanto! o ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas
brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!

O Cavalleiro cruzra os braos, com gracejadora melancolia:

--Pois v tu! Tal  a minha solido social e sentimental que, com todas
estas rosas abertas, no tenho a quem mandar um ramo!... Estou reduzido
a florir as Louzadas!

Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do
Fidalgo:

--As Louzadas! Oh que desavergonhadas!

Andr atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto reparo de
curiosidade:

--Por qu?... Desavergonhadas, por qu?

--Por qu? Por que o so! Pela sua natureza, e pela vontade de Deus!...
So desavergonhadas como estas rosas so vermelhas.

E o Cavalleiro, tranquillisado:

--Ah, genericamente... Com effeito tm immensa peonha. Por isso eu as
cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com
ellas um ch respeitoso!

--Pois no as amansas, rosnou o Fidalgo.

Mas o Matheus apparecra nos degraus de tijolo com o guardanapo na mo,
a calva rebrilhando ao sol. Era o almoo. O Cavalleiro colheu para
Gonalo uma rosa triumphal--e para si um boto innocente... E,
enflorados, subiam para o terrao entre o brilho e o perfume de outras
roseiras--quando o Cavalleiro parou com uma ideia:

--A que horas vaes tu para Oliveira, Gonalinho?

O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... No tencionava apparecer em
Oliveira, toda essa semana...

--Por qu?  urgente que v a Oliveira?

--Pois certamente, filho! manh mesmo precisamos conversar com o
Barrlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu querido
Gonalo, no podemos adormecer. No  pelo Julio,  pelo Pitta!

--Bem! bem! acudio logo Gonalo, assustado. Parto para Oliveira.

--Por que ento, continuava Andr, vamos ambos logo, a cavallo.  um
bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de mandar
 Torre, por causa de roupa...

No! Gonalo, para evitar a importunidade de malas, conservava nos
Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella at  casaca. E entrava em
Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas--com uma simples bengala e
paciencia infinita...

--Delicioso! declarou Andr. Fazemos ento logo a nossa entrada official
em Oliveira.  o comeo da campanha.

O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos
das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada to apparatosamente
fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse
apromptar o _Rossilho_ e a egoa do Fidalgo para as quatro horas e meia,
Gonalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem s
sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira
desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas Andr protestou:

--No,  uma secca, chegamos  noite. Precisamos entrar com solemnidade,
 hora da musica no Terreiro... s cinco, hein?

E Gonalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:

--Pois sim, s cinco.

Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de flres e fructas
sobre um papel vermelho imitando damasco, Andr occupou a veneranda
cadeira de braos do av Martinho. O brilho das pratas, a frescura das
rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima
Jesuina--que, com dr d'entranhas n'essa manh, no se vestira, almoava
no quarto... Gonalo louvou aquella elegante ordem, to rara n'uma casa
de solteiro, lamentando a falta de uma prima Jesuina na Torre... E
Andr sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com a esperana
que Gonalo contasse aos Barrlos o confortavel luxo de Corinde. Depois,
picando com o garfo uma azeitona:

--Pois  verdade, meu querido Gonalo, l estive n'essa grande Capital,
depois um dia em Cintra...

O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.^a o amanuense do
Governo Civil, que esperava.

--Pois que espere! gritou S. Ex.^a.

Gonalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome...

--Pois que almoce! gritou S. Ex.^a.

Aquelle secco desprezo de Andr pelo pobre empregado, esquecido no banco
d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos--constrangia o Fidalgo. E
espetando tambem uma azeitona:

--Dizias ento, Cintra...

--Semsabor, resumiu Andr. Poeirada horrenda, femeao mediocre... E j
me esquecia. Sabes quem l encontrei, na estrada de Collares? O
Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos _Annaes_, de chapo alto. Ergueu
logo os braos ao co, desolado:--E ento esse Gonalo Mendes Ramires
no me manda o romance? Parece que o primeiro numero da Revista sae em
Dezembro, e elle precisa o original em comeos d'Outubro... L me
supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E
tu devias acabar a Novella... At convem que, antes d'entrares na
Camara, apparea um trabalho teu, um trabalho serio, d'erudio forte,
bem portuguez...

--Pois convem! concordou vivamente Gonalo. E  Novella s falta o
Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais preparao, mais
pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza
d'esta infernal eleio... No  o animal do Julio que me inquieta. Mas
a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?

Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:

--Que me parece, Gonalinho? Que ests como uma creana pequena,
afflicta, com medo que te no chegue o prato de arroz doce. Socega,
menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o Jos
Ernesto muito teimoso. J existiam compromissos antigos com o Pitta. _A
Verdade_ tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta, agora quando
souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me 
soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta no me
tiram o appetite... Mas o Jos Ernesto admira o Pitta, necessita do
Pitta, est empenhado em pagar ao Pitta com um circulo... Ainda no
ultimo dia me disse na Secretaria, at lhe achei graa:--Eu vejo que os
deputados por Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu
Ramires morrer em breve, ento entra o Pitta.

Gonalo recuou a cadeira:

--Se eu morrer!... Que animal!

--Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por
exemplo, se nos zangassemos, se manh entre ns surgisse uma
dissidencia... Emfim o impossivel!

O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.

--A elle! exclamou Andr. E no se falle mais de Circulos, nem de
Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o
enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D. Joo V?...
Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa,
Portugal sob os Philippes...

       *       *       *       *       *

Os tres quartos, depois das seis, batiam no relogio sempre adeantado da
Egreja de S. Christovo, em Oliveira, quando Andr Cavalleiro e Gonalo,
descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Loua (agora _Largo do
Conselheiro Costa Barroso_).

Todos os Domingos, tocando n'um coreto que o Conselheiro, quando
Presidente da Camara, mandra construir sobre o velho Pelourinho
demolido, a charanga do Regimento ou a philarmonica _Lealdade_ tornavam
aquelle Largo o centro mais sociavel da quieta e caseira cidade. N'essa
tarde, porm, como comera no Convento de Santa Brigida o bazar
patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas
cadeiras do Asylo espalhadas por sob as acacias. As Louzadas faltavam no
seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o
Terreiro, as casas que o cerram do lado de S. Christovo e do lado das
Trinas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca da limonada, e at
outro retiro pudicamente disfarado por uma canniada de heras. E o
unico rancho conhecido, D. Maria Mendona, a Baroneza das Marges, as
duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade
de ferro que o limita sobre a antiga muralha--d'onde se dominam campos,
a crca do Seminario Novo, todo o pinhal da Estevinha e as voltas
lustrosas da ribeira de Crde.

Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a ala do Largo
denominada o Picadeiro, gosando a _Marcha do Propheta_, o espanto
reviveu (apezar de todos conhecerem a reconciliao famosa do Governo
Civil) quando os dous amigos appareceram, ambos de chapos de palha,
ambos de polainas altas, ao passo solemne das duas egoas--a de Gonalo
airosa e baia de cauda curta  ingleza, a do Cavalleiro pesada e preta,
de pescoo arqueado, a cauda farta rojando as lages. Mello Alboim, o
Baro das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma fila pasmada, a que se
juntou um dos Villa-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo
major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre
aquella amigao... O tabellio Guedes, o Guedes _ppa_, derrubou a
cadeira no alvoroo com que se ergueu, indignado mas respeitoso,
descobrindo a calva n'uma cortesia immensa em que o chapeu branco lhe
tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sahia do retiro encanniado
d'hera e se abotoava, embasbacou, com os oculos na ponta do nariz
alado, os dedos esquecidos nos botes das calas.

No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas
que o palacete de D. Arminda Villegas domina, com o pesado brazo dos
Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas
por cortinas de damasco amarello. Na varanda d'esquina, o Barrlo e Jos
Mendona fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sentir as patas
lentas das egoas, ao avistar to inesperadamente o cunhado--o bom
Barrlo quasi se despenhou da varanda:

--Oh Gonalo! Oh Gonalo!... Vaes l para casa?

E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:

--Ns j vamos! Jantmos c esta tarde... A Gracinha est l em cima,
com a tia Arminda. Vamos j tambem!  um momento!

O Cavalleiro acenou risonhamente ao capito Mendona. J Barrlo
mergulhra com enthusiasmo para dentro dos damascos amarellos. E os dois
amigos, deixando pelo Terreiro aquelle sulco de espanto, penetraram na
rua das Vellas onde um Policia se perfilou com a mo no bonet--o que foi
agradavel ao Fidalgo da Torre.

O Cavalleiro acompanhou Gonalo ao Largo d'El-Rei. Deante do Palacete um
homem de boina vermelha remoa no seu realejo o cro nupcial da _Lucia_,
espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta correu do pateo a
segurar a egoa do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera a
boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre--Gonalo hesitou,
murmurou emfim, com embarao e corando:

--No queres entrar e descanar, Andr?...

--No, obrigado... Ento manh s duas, no Governo Civil, com o
Barrlo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa... Adeus, minha
flr! Dmos um bello passeio e espantamos os povos!

E S. Ex.^a, envolvendo o Palacete n'um demorado olhar, desceu pela rua
das Tecedeiras.

No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonalo acabava de se
lavar, de se escovar, quando Barrlo se precipitou pelo corredor,
esbofado, soffrego--e atraz d'elle Gracinha, offegante tambem,
desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapeu. Desde a tarde
em que Barrlo presencera com os olhos bem acordados! a palestra de
Gonalo e de Andr na varanda do Governo Civil--fervera n'elle e em
Gracinha uma impaciencia desesperada por penetrar os motivos, a
encoberta historia d'aquella reconciliao surprehendente. Depois a fuga
de Gonalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhaes; a repentina
jornada do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle caso se
abatera mais pesado que uma tampa de ferro--quasi os aterrou. Gracinha 
noite, no Oratorio, murmurava atravez das resas distrahidas:--Oh, minha
rica Nossa Senhora, que ser?--Barrlo no ousra correr  Torre; mas
at sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe apparecia enorme,
crescendo, atravancando Oliveira, roando j as janellas dos Cunhaes
d'onde elle a repellia com o cabo d'uma vassoura... E eis agora Gonalo
e Andr que entram na cidade a cavallo, muito serenamente, ambos de
chapeus de palha, como companheiros constantes recolhendo d'um passeio!

Logo  porta do quarto, Barrlo atirou os braos, rompeu aos brados:

--Ento que tem sido tudo isto?... No se falla n'outra coisa!... Tu com
o Andr!

Gracinha, arfando, to vermelha como as fitas do chapeu, s balbuciava:

--E nem vens, nem escreves... Ns com tanto cuidado...

E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o
Mysterio, com a toalha ainda nas mos:

--Uma cousa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena
morreu, como vocs sabem. Ficou vago o circulo de Villa-Clara.  um
circulo por onde s pde sahir um homem da terra, com propriedade, com
influencia. O governo immediatamente me mandou perguntar, pelo
telegrapho, se eu me desejava propr... Ora eu, no fundo, estou de bem
com os Historicos, sou amigo do Jos Ernesto... Estimava entrar na
Camara... Acceitei.

O Barrlo esmagou a coxa com uma palmada triumphal:

--Ento era certo, caramba!

O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mos:

--Acceitei, est claro, com condies; e muito fortes. Mas acceitei...
N'este caso, como vocs sabem, convem que o candidato se entenda com o
Governador Civil. Eu, ao principio, no queria renovar relaes. Instado
porm, muito instado de Lisboa, e por consideraes superiores de
Politica, consenti n'esse sacrificio. Nas difficuldades em que se
encontra o paiz todos devem fazer sacrificios. Eu fiz esse... O Andr,
de resto, foi muito amavel, muito affectuoso. De sorte que estamos outra
vez amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei
hoje com elle em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde
linda!... Emfim renasceu a antiga harmonia. E a eleio est segura.

--Venham de l esses ossos! berrou o Barrlo, transportado.

Gracinha terminra por se sentar  borda do leito, com o chapeu no
regao, enlevada para o irmo, n'um silencioso enternecimento em que os
seus doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do
abrao do Barrlo, dobrava a toalha com um vagar distrahido:

--A eleio est segura, mas precisamos trabalhar. Tu, Barrlo, tens de
conversar tambem com o Cavalleiro. J combinei. manh no Governo Civil,
s duas horas.  necessario que vocs se entendam por causa dos votos da
Murtosa...

--Prompto, menino! o que vocs quizerem! Votos, dinheiro...

E Gonalo, borrifando vagamente o jaqueto com agua de Colonia que
pingava no soalho:

--Desde o momento em que eu me reconciliei com o Andr, tudo acabou. Tu,
Barrlo, immediatamente te reconcilias tambem...

Barrlo quasi pulou, no seu deslumbramento:

--Pois est claro! E ainda bem, que eu gosto immensamente do Cavalleiro!
At sempre teimava com Gracinha... Oh senhores, esta tolice, por causa
da Politica!...

--Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos separou, a Politica nos
reune...  o que se chama a inconstancia dos Tempos e dos Imperios.

E agarrou Gracinha pelos hombros, com um beijo brincalho, estalado em
cada face:

--A tia Arminda? Boa, da escaldadella? J voltou s faanhas de _Leandro
o Bello_?

Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se no desfizera, a
envolvia toda em claridade e doura:

--A tia Arminda est melhor, j anda. Perguntou por ti... Mas, oh
Gonalo, tu de certo queres jantar!

--No, almocei tremendamente em Corinde... Vocs, como jantaram  hora
antiga da tia Arminda, ceiam, hein? Ento logo ceio... Agora apenas uma
chavena de ch, muito forte!

Gracinha correu, no alvoroo de servir o heroe querido. E pela escada,
descendo com Barrlo que o contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou os
seus sacrificios:

-- verdade, menino,  uma massada... Mas que diabo! todos devemos
concorrer para tirar o paiz do atoleiro!

Barrlo, maravilhado, murmurava:

--E sem dizeres nada... Assim  capucha! Assim  capucha!...

--E agora outra cousa, Barrlo. manh, no Governo Civil, deves convidar
o Andr a jantar...

--Com certeza! gritou o Barrlo. Jantar d'estrondo?

---No, homem! Jantar muito quieto, muito intimo. Unicamente o Andr e o
Joo Gouveia. Telegraphas ao Joo Gouveia. Tambem pdes convidar os
Mendonas... Mas jantar muito discreto, s para conversarmos, para
firmar a reconciliao d'um modo mais sociavel, mais elegante.

Ao outro dia, no Governo Civil, Barrlo e o Cavalleiro apertaram as mos
com tanta singelleza, como se ambos, ainda na vespera, andassem jogando
o bilhar e caturrando no club da rua das Pgas. De resto conversaram
summariamente sobre a Eleio. Apenas o Cavalleiro alludira com
indolencia aos votos de Murtosa--o bom Barrlo quasi se engasgou, na
ancia de os offerecer:

--E o que vocs quizerem... Votos, dinheiro, o que vocs quizerem!...
Vocs digam! Eu vou para a Murtosa, e  comezaina, e pipa de vinho
aberta, e a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio...

O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faustoso:

--No, meu caro Barrlo, no! Ns preparamos uma eleio muito sobria,
muito socegada. Villa Clara elege Gonalo Mendes Ramires deputado,
naturalmente, como o seu melhor homem. No ha combate, o Julinho  uma
sombra. Portanto...

O Barrlo persistia, radiante, gingando:

--Perdo, Andr, perdo! L isso vinhaa, e vivorio, e foguetorio, e
festana magna...

Mas Gonalo, embaraado, ancioso por suster a garrulice do Barrlo, as
palmadas carinhosas com que elle se atufava na intimidade do Cavalleiro,
apontou para a mesa de S. Ex.^a:

--Tu tens que fazer, Andr. Vejo ahi uma papelada pavorosa... No
roubemos mais tempo ao chefe illustre do Districto! Ao trabalho!

    Trabalhar, meu irmo, que o trabalho
     Andr,  virtude,  valor!...

Agarrra o chapeu, acenando ao cunhado. Ento Barrlo, com as bochechas
a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a reconciliao
d'um modo sociavel e elegante:

--Cavalleiro, para conversarmos melhor, se voc nos quizer dar o gosto
de vir jantar... Quinta feira, s seis e meia... Ns, quando c est o
Gonalo, jantmos sempre mais tarde.

O Cavalleiro, que corra, agradeceu com discreta ceremonia:

-- para mim um immenso prazer, uma immensa honra...

E  porta da antesala onde os acompanhra, segurando o pesado reposteiro
de baeta escarlate com as Armas Reaes bordadas--supplicou ao Barrlo que
pozesse os seus respeitos aos ps da snr.^a D. Graa...

Barrlo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a testa, o
pescoo, humedecidos pela emoo. E no pteo desabafou:

--Muito sympathico este Andr! Rapaz franco, de quem sempre gostei...
Realmente estava morto que acabassem estas historias... E mesmo l para
os Cunhaes, para a companhia, para o cavaco, que bella acquisio!

Quinta feira de manh depois do almoo, no terrao do jardim onde
tomavam caf, Gonalo recommendou ao Barrlo que para accentuar mais
completamente a intimidade simples do jantar no pozesse casaca...

--E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre...

Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um _Almanach de
Lembranas_ estendida n'uma cadeira de verga, com um gatinho branco no
regao.

Depois do alvoroo e pasmo de Domingo, ella apparentava agora um
desinteresse silencioso pela reconciliao que ainda abalava Oliveira,
pela Eleio, pelo jantar. Mas n'esses dias no socegra--to impaciente
e sensivel que o bom Barrlo incessantemente lhe aconselhava o grande
remedio da Mam contra os nervos, flres d'alecrim, cosidas em vinho
branco.

Gonalo percebia claramente a perturbao em que a lanava aquella
entrada triumphal de Andr, do antigo Andr, na sua casa de casada, nos
Cunhaes. E para se tranquillisar evocava (como na estrada do cemiterio
em Villa-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rigido e puro pensar, a
altivez da sua almasinha heroica. N'essa manh mesmo, todo no fresco e
soffrego cuidado da sua Eleio, s receava que Gracinha, por embarao
ou cautella, acolhesse seccamente o Cavalleiro, o esfriasse no seu
renovado fervor pela casa de Ramires, no seu patrocinato Politico. E
insistiu, gracejando:

--Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria
aos hospedes...

Ella murmurou, mergulhada no seu _Almanach_:

--Sim, realmente, com este calor...

Mas Barrlo bateu uma palmada na cxa. Que pena! que pena no ter em
Oliveira, para o brinde de reconciliao, um famoso vinho do Porto, da
garrafeira da Mam, preciosissimo, velhissimo, do tempo de D. Joo II...

--D. Joo II? rosnou Gonalo. Est estragado!

Barrlo hesitou:

--D. Joo II ou D. Joo VI... Um d'esses Reis. Emfim um vinho unico, do
seculo passado! S restam  mam oito ou dez garrafas... E hoje, era dia
para uma, hein?

O Fidalgo deu um sorvo lento ao caf:

--O Andr, antigamente, tambem gostava muito d'ovos queimados...

Bruscamente Gracinha fechou o _Almanach_--e, com uma fuga e um silencio
que emmudeceram Gonalo, sacudiu do collo o gato dorminhoco, atravessou
o terrao, desappareceu entre os teixos altos do jardim.

Mas  tarde, quando o Fidalgo occupou o seu logar na mesa oval, junto da
prima Maria Mendona--logo notou, entre duas compoteiras, uma travessa
d'ovos queimados. Apesar de jantar to intimo serviam, com a loua da
China, os famosos talheres dourados da baixella do tio Melchior. E duas
jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarellos, cres
heraldicas dos Ramires.

D. Maria, que no encontrra o querido primo desde os annos de Gracinha,
murmurou com um sorriso, uma grave cortezia, n'aquelle cerimonioso
silencio em que se desdobravam os guardanapos:

--Ainda lhe no dei os parabens, primo Gonalo...

Elle acudiu, mechendo nervosamente nos copos:

--Chut! prima, chut! Hoje aqui, j est decidido, no se allude sequer a
Politica... Est muito calor para Politica.

Ella suspirou de leve, como desfallecida: Ai, o calor... Que horrivel
calor! Desde que entrra nos Cunhaes com aquelle vestido preto que era
o seu pallio rico--ainda no cessra de invejar a frescura do vestido
branco de Gracinha...

--Que bem que lhe fica! Est hoje linda!

Era um vestido liso de crepon branco, que aclarava, remoava a sua graa
quasi virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina,
com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma ondulao
mais lustrosa nos pesados cabellos, um macio rubor transparente, todo um
fresco brilho de flr regada, de flr revivida, apesar do acanhamento
que lhe immobilisava os dedos ao erguer a colhr de prata dourada. E ao
lado, superiormente robusto e largo, com o peitilho arqueado como uma
couraa e cravejado de duas saphiras, uma rosa branca desabrochada na
lapella, Andr Cavalleiro, que recusra a sopa (oh, no vero nunca comia
sopa!) dominava a mesa, levemente commovido tambem, passando sobre o
reluzente bigode um leno to perfumado que afogava o perfume dos
cravos. Mas foi elle que encadeou a animao com risonhos queixumes
sobre o calor--o escandaloso calor d'Oliveira... Ah! que Purgatorio
abrasado--depois dos seus dois dias de Paraiso, na frescura deliciosa de
Cintra!

D. Maria Mendona adoou os espertos olhos para o Snr. Governador
Civil.--E ento Cintra? Animada? Muitos ranchos  tarde, em Setiaes?
Encontrra a Condessa de Chellas--a prima Chellas?...

Sim, na Pena, na sua visita  Rainha, Cavalleiro conversra durante um
momento com a Snr.^a Condessa de Chellas...

--Ah! e a Rainha?...

--Oh, sempre encantadora...

A Snr.^a Condessa de Chellas, essa, um pouco magra. Mas to amavel, to
intelligente, to verdadeiramente _grande dame_--no  verdade? E, como
se inclinra para Gracinha, com uma doura infinita no simples mover da
cabea--ella, perturbada, mais vermelha, balbuciou que no conhecia a
Condessa de Chellas...--D. Maria Mendona accusou logo a inercia dos
primos Barrlos, sempre encafurnados nos Cunhaes, sem nunca se
aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para conhecer os
parentes...

--E a culpa  do primo Jos, que detesta Lisboa...

Oh no! Barrlo no detestava Lisboa! Se podesse acarretar para Lisboa
as suas commodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa agua do pomar,
a rica varanda sobre o jardim--at se regalava!

--Mas entalado n'aquelles quartinhos do Bragana... E depois a m
comida, o barulho... A Gracinha em Lisboa nunca dorme... E a massada das
manhs?... No ha nada que fazer em Lisboa, de manh!

O Cavalleiro sorria para o Barrlo, como enlevado na sua graa e razo.
Depois confessou que elle, apesar de habitar tambem (merc do Estado!)
um palacete confortavel, e gozar tambem uma agua excellente, a finissima
agua do Poo de S. Domingos, lamentava que os deveres de Politica, a
disciplina de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua esperana
era a queda do Ministerio, para se libertar, passar tres mezes divinos
em Italia...

Do outro lado de Gracinha, Joo Gouveia (sempre acanhado e mudo deante
de senhoras) exclamou, n'um impulso d'amisade, de convico:

--Pois, Andrsinho, vae perdendo a esperana! O S. Fulgencio no arreia!
Ainda c te apanhamos uns tres ou quatro annos!

E insistiu, debruado sobre Gracinha, n'um esforo d'amabilidade que o
esbraseava:

--O S. Fulgencio no arreia. Ainda c temos o nosso Andr mais tres ou
quatro annos.

Andr protestava, com um requebro, as espessas pestanas quasi cerradas:

--Oh meu Joo! no me queiras mal, no me queiras mal!...

E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que
importa em hoste poderosa uma lana ferrugenta?) esses mezes d'Italia no
inverno j os sonhra, j os preparava...--E a Snr.^a D. Graa no
permittia que elle a servisse d'um pouco de vinho branco?

Barrlo estendeu o brao, com effuso:

--Oh Cavalleiro! eu tenho empenho em que voc prove esse vinho com
cuidado...  da minha propriedade do Corvello... Fao muito gosto
n'elle. Mas prove com atteno!

S. Ex.^a provou com devoo, como se commungasse. E com uma cortezia
compenetrada para Barrlo que reluzia de gosto:

--Uma delicia! uma verdadeira delicia!

--Hein? No  verdade? Eu, para mim, prefiro este vinho do Corvello a
todos os vinhos francezes, os mais finos... At alli o nosso amigo Padre
Sueiro, que  um Santo, o aprecia!

Silencioso, esbatido por traz d'uma das altas jarras de cravos, Padre
Sueiro corou, sorriu:

--Com muita agua, infelizmente, Snr. Jos Barrlo... O gosto pede, mas o
rheumatismo no consente.

Pois Jos Mendona, que no temia rheumatismos, atacava sempre
bravamente aquelle bemdito Corvello...

--Que lhe parece a voc, Joo Gouveia?

Oh! Joo Gouveia j o conhecia, louvado Deus! E certamente nunca
encontrra em Portugal, como vinho branco, nenhum comparavel pela
frescura, pelo aroma, pela seiva...

--E c lhe vou atiando com fervor, Barrlo amigo! Esta bella garrafa de
crystal vae de vencida!

Barrlo exultava. O seu desgosto era que Gonalo nunca honrasse aquelle
nectar.--No! Gonalo no tolerava vinhos brancos...

--E ento hoje estou com uma d'estas sdes que s me satisfaz vinho
verde, assim um pouco espumante, e com gelo... Que este de Vidainhos
tambem  do Barrlo. Oh, eu no desprezo os vinhos da familia... Este
Vidainhos sinceramente o considero sublime.

Ento Cavalleiro desejou provar esse sublime vinho verde da quinta de
Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno enthusiasmado do
Barrlo, apresentou a Sua Ex.^a um copo esguio, especial para aquelle
vinho que espumava. Mas o Cavalleiro, acariciando o fresco copo sem o
erguer, repisou a ida de ferias, de viagens, como accentuando o seu
canasso e fastio d'Oliveira.--E sabia a Snr.^a D. Graa para onde elle
seguiria, depois da Italia, n'esse Inverno, se por caridade de Deus o
Ministerio cahisse?... Para a Asia Menor.

--E era uma viagem para que eu, com certesa, tentava o nosso Gonalo...
To facil, agora, com os caminhos de ferro!... De Veneza a
Constantinopla um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Smyrna, um
dia, dous dias, n'um vapor excellente. E d'ahi n'uma ba caravana, por
Tripoli, pela antiga Sidonia, penetravamos em Galila... Galila! Hein
Gonalo? Que belleza!

Padre Sueiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente--que em Galila o
Snr. Gonalo Ramires pisaria terra que outr'ora, por pouco, pertencera 
sua Casa:

--Um dos antepassados de V. Ex.^a, Gutierres Ramires, companheiro de
Tancredo na primeira Cruzada, recuzou o ducado de Galila e de
Alm-Jordo...

--Fez pessimamente! gritou Gonalo, rindo. Oh, esse av Gutierres andou
pessimamente! Por que no existia agora, n'este mundo, disparate mais
divertido do que eu Duque de Galila! O Snr. Gonalo Mendes Ramires,
Duque de Galila e d'Alm-Jordo!... Era simplesmente de rebentar!

Cavalleiro protestou, com sympathia:

--Ora essa! Por que?

--No acredite! acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria Mendona. O
primo Gonalo, com todas estas graas, no fundo,  muitissimo
aristocrata... Mas terrivelmente aristocrata!

O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois d'um trago
saboreado e fundo:

--Aristocrata... Est claro que sou aristocrata. Sentiria com effeito
certo desgosto em ter nascido, como uma herva, d'outras hervas vagas.
Gsto de saber que nasci de meu pae Vicente, que nasceu de seu pae
Damio, que nasceu de seu pae Ignacio, e assim sempre at no sei que
Rei Suevo...

--Recesvinto! informou respeitosamente Padre Sueiro.

--Pois at esse Recesvinto. O peor  que o sangue de todos esses paes
no differe realmente do sangue dos paes do Joaquim da Porta. E que
depois do Recesvinto, para traz, at Ado, no tenho mais paes!

E, emquanto todos riam, D. Maria Mendona, debruada para elle, por traz
do leque largamente aberto, murmurou:

--O Primo est com esses deprezos... Pois eu sei d'uma senhora que tem a
maior admirao pela casa de Ramires e pelo seu representante.

Gonalo enchia de novo o copo, com amor, attento  espuma:

--Bravo! Mas convm distinguir, como diz o Manoel Duarte. Por quem tem
ella a verdadeira admirao, por mim ou pelo Suevo, pelo Recesvinto?

--Por ambos.

--Diabo!

Depois, pousando a garrafa, mais srio:

--Quem ?

Oh! ella no podia confessar. No era ainda bastante velha para andar
com recadinhos de sentimento. Mas Gonalo dispensava o nome--s desejava
as qualidades... Nova? Bonita?

--Bonita? exclamou D. Maria.  uma das mulheres mais formosas de
Portugal!

Espantado, Gonalo lanou o nome:

--A D. Anna Lucena!

--Por qu?

--Por que mulher assim to formosa, e vivendo n'estes sitios, e to
conhecida da prima que lhe faz confidencias, s a D. Anna.

D. Maria, ageitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de sda
preta, sorria:

--Talvez seja, talvez seja...

--Pois estou immensamente lisongeado. Mas ainda distingo, como o Manoel
Duarte. Se, da parte d'ella, essa sympathia toda  para o bom fim, no!
No, santo Deus, no!... Mas se  para o mau fim, ento, prima,
cumprirei honradamente o meu dever dentro das minhas foras...

D. Maria escondeu a face no leque, escandalisada. Depois, espreitando,
com os agudos olhos a faiscar:

--Oh primo, mas o bom fim  que convinha, por que a cousa  a mesma e
so duzentos contos a mais!

Gonalo gritou d'admirao:

--Oh! esta prima Maria! No ha em toda a Europa ninguem mais esperto!

Todos curiosamente anciaram por saber a nova graa da Snr.^a D. Maria.
Mas Gonalo deteve as curiosidades:

--No se pde contar.  casamento.

Ento Jos Mendona recordou a novidade picante que desde a vespera
remexia Oliveira:

--Por casamento!... Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?

Barrlo, depois o Gouveia, at Gracinha, todos o proclamaram um
horror. Aquella perfeita rapariga, de pelle to cr de rosa, de cabello
to cr d'ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes, um patriarcha
carregado de netos... Que desastre!

Pois ao Cavalleiro o casamento no parecia assim desastrado. O
Teixeira de Carredes, alm de muito fino, de muito intelligente, era um
velho verdejante, quasi sem rugas--at bonito com aquelle contraste do
bigode escuro e da grenha riada e branca. E na Snr.^a D. Rosa, com
todas as rosas da sua pelle e todo o ouro dos seus cabellos, dominava
um no sei qu de amollentado e de sorvado... Depois pouco esperta. E
pouco cuidadosa--sempre mal penteada, sempre mal pregada...

--Emfim, V. Ex.^{as} perdoem... Mas quem faz um casamento muito
desenxabido  o pobre Teixeira de Carredes.

D. Maria Mendona considerava o Governador Civil com um espanto amavel:

--Pois se o Snr. Cavalleiro no admira a Rosinha Alcoforado, no sei
ento que rapariga admire dentro do seu Districto...

Elle, logo, com galante rasgo:

--Mas, alm de V. Ex.^{as}, no admiro ninguem! Realmente eu governo, em
Portugal, o Districto mais daprovido de belleza...

Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a
Mellosinho Alboim, com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro no
consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pelle sem
frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e
modos, sempre pela carencia das bellezas e graas que ornavam
Gracinha--lanando assim disfaradamente, aos ps de Gracinha, um rlo
de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ella percebera a subtil adulao,
os seus olhos allumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a
afogueava. Desejou repartir incenso to accumulado--lembrou timidamente
outra belleza de que se orgulhava o Districto:

--A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso...  linda!

O Cavalleiro triumphou com facilidade:

--Mas tem doze annos, minha senhora! Nem  rosinha,  botosinho de
rosa!...

Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza Moreira, filha d'um
lojista, muito admirada aos domingos na missa da S e no Terreiro da
Loua:

-- uma bella rapariga... Sobretudo a figura...

Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada segurana:

--Sim, mas os dentes tortos, Snr.^a D. Graa! Os dentes acavallados! V.
Ex.^a nunca reparou... Oh! uma bca muito desagradavel! E, alm dos
dentes, o irmo, o Evaristo, com aquella cara mais chata que a alma, e a
caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... No ha mulher bonita com irmo
to feio!

Mendona estendera o brao, com outra curiosidade que occupava Oliveira:

--E por Evaristo!... Elle sempre funda o novo jornal republicano, o
_Rebate_?

O Snr. Governador Civil encolheu os hombros com uma ignorancia superior
e risonha. Mas Joo Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa de
Corvello e da sua garrafa de Douro, affianou que o _Rebate_ apparecia
em Novembro. At elle conhecia o patriota que esportulava a massa. E a
campanha do _Rebate_ comeava com cinco artigos esmagadores sobre a
Tomada da Bastilha.

O espanto de Gonalo era como o Republicanismo alastrra em
Portugal--at na velhota, na devota Oliveira...

--Quando eu andava em preparatorios existiam simplesmente dois
republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Rhetorica, e eu.
Agora ha partido, ha comit, ha dous jornaes... E ha mesmo o Baro das
Marges com a _Voz Publica_ na mo, debaixo da Arcada...

Mendona no receava a Republica, gracejava:

--Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos d tempo de comermos estes
bellos ovos queimados.

--Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.

--Sim, concordou Gonalo, ainda temos tempo para os ovos... Mas que
rebente uma revoluo em Hespanha, ou que morra o Reisinho na sua
menoridade, que naturalmente morre...

--Credo! Coitadinho! Pobre me! murmurou Gracinha sensibilisada.

Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou. Porqu, morrer o Reisinho
d'Hespanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males da
excellente creana. Mas elle conhecia a realidade--assegurava  Snr.^a
D. Graa que, felizmente para a Hespanha, ainda reinaria um Affonso XIII
e mesmo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republicanos, esses... Meu
Deus! mera questo de guarda municipal! Portugal, nas suas massas
profundas, permanecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na
burguezia e nas escolas, fluctuava uma escuma ligeira, e bastante suja,
que se limpava facilmente com um sabre...

--V. Ex.^a, Snr.^a D. Graa, que  uma dona de casa perfeita, conhece
esta operao que se faz  panella do caldo... Escumar a panella.  com
uma colher. Aqui  com um sabre. Pois assim, com toda a simplicidade, se
clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a
El-rei.

Altera a cabea--o seu peitilho resplandecia, mais largo, como couraa
bastante rija para defender toda a Monarchia. E, no compenetrado
silencio que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram, por traz do
biombo, na copa.

Apenas o escudeiro, apressado, enchra as taas--o Fidalgo da Torre com
uma gravidade que o sorriso adoava:

--Andr,  tua saude. No  ao Governador Civil,  ao amigo!

Todos os copos se ergueram n'um susuro acariciador. Joo Gouveia agitou
o seu, com especial effuso, gritando:--Andrsinho, meu velho! S.
Ex.^a apenas tocou de leve no calice de Gracinha. Padre Sueiro murmurou
as graas. E Barrlo, atirando o guardanapo:

--Caf aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.

Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos, o lustre rebrilhava
solitariamente; pelas tres janellas abertas penetrava a serenidade da
noite quente, o recolhido silencio d'Oliveira; e em baixo, no Largo,
alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de l branca pela cabea,
pasmavam para aquella claridade de festa que jorrava dos Cunhaes. O
Cavalleiro e Gonalo accenderam os charutos na varanda, respirando a
frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:

--Pois sempre te digo, Gonalinho, que se janta sublimemente em casa de
teu cunhado!...

Gonalo desejou que, no domingo, elle jantasse na Torre. Ainda restavam
umas garrafas de Madeira do tempo do av Damio--a que se daria, com
soccorro do Gouveia e do Tit, um assalto heroico.

O Cavalleiro prometteu, j deliciado--tomando da pesada bandeja de
prata, que derreava o escudeiro, a sua chavena de caf, sem assucar.

--E tu, com effeito, Gonalo, agora no deves arredar da Torre. O teu
papel  todo de presena na localidade. O Fidalgo da Torre est no meio
das suas terras, por onde vae ser eleito para as Crtes.  o teu
papel...

O Barrlo com um riso enlevado, surdiu entre os dous amigos que enlaou
ternamente pela cinta:

--E ns c ficamos, ambos a trabalhar, o Cavalleiro e eu!...

Mas D. Maria, do canap onde se enterrra, reclamou o primo Gonalo
para negocios. Junto d'uma console, Joo Gouveia e Padre Sueiro,
remexendo o seu caf, concordavam na necessidade d'um Governo forte. E
Gracinha, com o primo Mendona, revolvia as musicas sobre a tampa do
piano, procurando o _Fado dos Ramires_. Mendona tocava com corredio
brilho, composera valsas, um hymno ao Coronel Trancoso, o heroe de
Machumba--e mesmo o primeiro acto d'uma opera, _A Pegureira_. E como no
descortinavam o _Fado_ com as quadras do Videirinha--foi justamente uma
das suas valsas, a _Perola_, d'uma cadencia amorosa e canada lembrando
a valsa do Fausto, que elle atacou, sem largar o charuto.

Ento Andr Cavalleiro, que repenetrra vagarosamente na sala, repuxou o
collete, afagou o bigode, e avanando para Gracinha, com um modo meio
grave, meio folgazo:

--Se V. Ex.^a me quer dar a grande honra?...

Offerecia, abria os braos. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada
logo nos largos passos deslisados que o Cavalleiro lanou sobre o
tapete. Barrlo e Joo Gouveia correram a afastar as poltronas,
clareando um espao, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco
do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ella se perdia, como se
fundia, na fora mascula do Cavalleiro, que a arrebatava em giros
lentos, com a face pendida, respirando os seus cabellos magnificos.

Da borda do canap, com os finos olhos a fusilar, D. Maria Mendona
pasmava:

--Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Snr. Governador Civil!...

Ao lado Gonalo torcia nervosamente o bigode, na surpreza d'aquella
familiaridade, assim renovada pelo Cavalleiro com to serena confiana,
por Gracinha com tanto abandono... Elles torneavam, enlaados. Dos
labios do Cavalleiro escorregava um sorriso, um murmurio. Gracinha
arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava
nas calas do Cavalleiro. E Barrlo, em extasi, quando elles o roavam,
atirava palmas carinhosas, bradava:

--Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravissimo!




VII


Gonalo recolhia para o almoo depois d'um passeio no pomar percorrendo
a _Gazeta do Porto_, quando avistou no banco de pedra, rente  porta da
cosinha, onde a Rosa mudava o paino na gaiola do seu canario, o Casco,
o Jos Casco dos Bravaes, que esperava, pensativo e abatido, com o
chapeu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no
jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra
da latada, avanava na claridade faiscante do pateo, hesitando, como
assustada... E, animado pela visinhana da Rosa, parou, forando um
sorriso--em quanto o Casco enrolava nas mos tremulas a aba dura do
chapeu, balbuciava:

--Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...

--Ah!  voss, Casco! Homem, no o conheci... E ento?

Dobrou o jornal, tranquillisado--gozando mesmo a submisso d'aquelle
valente que tanto o apavorra, erguido e negro como um pinheiro, na
solido do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava, esticava o
pescoo de dentro dos grossos collarinhos bordados--at que atirou toda
a alma n'uma supplica soluada, retendo as lagrimas que marejavam:

--Ai, meu Fidalgo, perde por quem ! Perde, que eu nem lhe sei pedir
perdo!...

Gonalo atalhou o homem, com generosidade e doura. Elle bem o avisra!
Nada se emenda, a gritar, com o pau alado...

--E olhe, Casco! Quando voss me sahiu ao pinhal eu levava um revlver
na algibeira... Trago sempre um revlver. Desde que uma noite em
Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre  cautella
com o revlver... Pense voc agora que desgraa se tiro o revlver, se
desfecho!... Que desgraa, hein?... Felizmente, n'um relance, pensei que
me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para no
desfechar o revlver... Emfim tudo passou. E eu no sou homem de
rancores, j esqueci. Comtanto que voss, agora socegado e no seu juizo,
esquea tambem.

O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabea derrubada. E sem a
erguer, sem ousar, rouco dos soluos que o entalavam:

--Pois agora  que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora  que me ralo por
aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo
pequeno!...

Gonalo sorriu, encolheu os hombros:

--Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite
d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle, o
Manelsinho?

O Casco murmurou do fundo da sua humildade:

--Louvado seja Deus, meu senhor, muito sosinho, muito rijinho.

--Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!... Voss
no tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga c um dia o pequeno. Eu
gostei do pequeno.  espertinho.

Mas o Casco no se arredava, pregado s lages. Por fim, n'um soluo que
rebentou:

-- que eu no sei como hei-de dizer, meu Fidalgo... L o dia de cadeia,
acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco
paguei, graas ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando soube que a
mulher viera de noite  Torre, e que o Fidalgo at a embrulhra n'uma
capa, e que no deixra sahir o pequeno...

Estacou, afogado pela emoo. E como Gonalo, tambem commovido, lhe
batia risonhamente no hombro, para acabar, no se fallar mais n'essas
bagatellas...--o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e quebrada:

--Mas  que o Fidalgo no sabe o que  para mim aquelle pequeno!...
Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixo c por dentro que at
parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa no
dormi... E Deus me perde, no pensei na mulher, nem na pobre da velha,
nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se foi
a gemer:--ai o meu querido filhinho! ai o meu querido filhinho!...
Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo ficra
com elle na Torre, e o deitra na melhor cama, e mandra recado ao
medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite
subia a vr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a roupa,
coitadinho...

E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:--Ai meu Fidalgo! meu
Fidalgo!...--o Casco agarrou as mos de Gonalo, que beijava,
rebeijava, alagava de grossas lagrimas.

--Ento, Casco! Que tolice!... Deixe homem!

Pallido, Gonalo saccudia aquella gratido furiosa--at que ambos se
encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador dos
Bravaes soluando, n'uma confuso. E foi elle por fim que, recalcando um
derradeiro soluo, se recobrou, desafogou da ida que o trouxera, que de
certo fundamente o trabalhra, e que agora lhe enrijava a face e o gesto
n'uma determinao que nunca vergaria:

--Meu Fidalgo, eu no sei fallar, no sei dizer... Mas se d'hoje em
deante, seja para que fr, o Fidalgo necessitar da vida d'um homem, tem
aqui a minha!

Gonalo estendeu a mo ao lavrador, muito simplesmente--como um Ramires
d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:

--Obrigado, Jos Casco.

--Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o abene!

Gonalo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda--emquanto o Casco
atravessava o pteo vagarosamente, com a cabea bem erguida, como homem
que devra e que pagra.

E em cima, na livraria, Gonalo pensava com espanto:--Ahi est como
n'este mundo sentimental se ganham dedicaes gratuitamente!... Por que
emfim! quem no impediria que uma criancinha com febre affrontasse de
noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a no deitaria,
no lhe adoaria um grog, no lhe entalaria os cobertores para a
conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama--corre o pae,
tremendo e chorando, a offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser
Rei--e ser Rei popular!

E esta certeza mais o animava a obedecer s recommendaces do
Cavalleiro--a comear immediatamente as suas visitas aos Influentes
eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam  Eleio uma
unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoo, mesmo sobre a toalha,
arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates--por um rascunho
annotado que lhe fornecera o Joo Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o
velho Gramilde, de Ramilde; o Padre Jos Vicente, da Finta; outros
menores:--e o Gouveia marcra com uma cruz, como o mais poderoso e mais
difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de
Canta-Pedra. Gonalo conhecia esses senhores, homens de propriedade e de
dinheiro (com todos outr'ora o pap andra endividado)--mas nunca
encontrra o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro, dono da quinta
da _Varandinha_, onde vivia solitariamente com uma neta de onze annos,
essa linda Rosinha que chamavam o boto de Rosa, a herdeira mais rica
de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao
Joo Gouveia uma carta d'apresentao para o Rio-Manso:

O Administrador hesitou:

--Voss no precisa carta... Que diabo! Voss  o Fidalgo da Torre!
Chega, entra, conversa... Alm d'isso na Eleio passada o Rio-Manso
ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sccos. O
Rio-Manso  um casmurro... Mas com effeito, Gonalinho, convem comear
essa caa  popularidade!

N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a caa 
popularidade, acceitou um convite do Commendador Romo Barros (do
massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle
celebrava, na sua quinta da _Roqueira_, a festa de S. Romo. E essa
semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando
eleitores--a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do
Ramos, de encommendar um sacco de caf na mercearia do Tello, de
offerecer o brao no largo do Chafariz  nojenta mulher do bebedissimo
Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da rua
das Pretas. Joo Gouveia no approvava estes excessos--aconselhando
antes boas visitas, com todo o _chic_, aos influentes srios. Mas
Gonalo bocejava, adiava, na insuperavel preguia de affrontar a
maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do Dr.
Alexandrino.

Agosto findava:--e por vezes, na livraria, Gonalo, coando
desconsoladamente a cabea, considerava as brancas tiras d'almao, o
Capitulo III da _Torre de D. Ramires_ encalhado... Mas qu! no podia,
com aquelle calor, com o afan da Eleio, remergulhar nas eras
Affonsinas!

Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas
freguezias, no se descuidando das recommendaes do
Cavalleiro--enchendo sempre o bolso de rebuados d'avenca para atirar s
creanas. Mas, n'uma carta ao querido Andr, j confessra que a sua
popularidade no crescia, no enfunava...--No! positivamente, velho
amigo, no tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente com os
homens, comprimentar pelo seu nome as velhas s soleiras das portas,
gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota
dar cinco tostes  boeirinha para uma saiasita nova... Ora todas estas
cousas to naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me
conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa querida
Authoridade m'empurre com o seu brao possante e destro...

Todavia j uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de
Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando s _Ave-Marias_ na Bica-Santa
o Adrio Pinto do logar da Levada, ambos lavradores considerados e
remexedores d'eleies--lhes pedira os votos, desprendidamente e rindo.
E quasi se assombrra da promptido, do fervor, com que ambos se
offereceram.--Para o Fidalgo? Pois isso est entendido! Ainda que se
votasse contra o Governo, que  pae!--E em Villa-Clara, com o Gouveia,
Gonalo deduzia d'estas offertas to acaloradas a intelligencia
politica da gente do campo:

--Est claro que no  pelos meus lindos olhos! Mas sabem que eu sou
homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches
Lucena no passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo! Esta gente
quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que
sou uma intelligencia.

E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:

--Homem! quem sabe? Voss nunca experimentou, Gonalo Mendes Ramires.
Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!

       *       *       *       *       *

N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda alto,
Gonalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao
fim dos casebres que se apertam  orla da estrada alveja, muito caiada,
n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde
os caramanches do quintal e a nomeada do coelho guizado attrahem vasto
povo nos dias da feira da Velleda. N'essa manh o Tit, depois d'uma
madrugada s perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para almoar,
urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira--a Rosa preparra uma pescada com
tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonalo, toda a tarde
torturado com sde, mais resequido pela poeira da estrada, parou
avidamente deante do porto da venda, gritou pelo Pintainho.

--Oh meu Fidalgo!...

--Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca,
que morro...

O Pintainho, velhote rolio de cabello amarello, no tardou com o copo
appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella
de limo. E Gonalo saboreava a sangria com ineffavel delicia--quando da
janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como os
dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos. Gonalo deteve o
copo, varado.  janella assomra um latago airoso, de face clara e
suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a cabea
levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava
atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle caador que
j uma tarde, no logar de Nacejas, ao p da Fabrica de vidros, o mirra
com arrogancia, lhe raspra a espingarda pela perna, e ainda depois,
parado sob a varanda d'uma rapariga de jaqu azul, lhe acenra
chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se no
percebesse o ultraje--Gonalo bebeu apressadamente a sangria, atirou uma
placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas ento da
janella rolou uma risadinha, cacarejada e troante, que o colheu pelas
costas como o estalo d'uma vergasta. Gonalo soltou a galope. E adiante,
sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda
tremulo:--Quem ser o desavergonhado?... E que lhe fiz eu, Santo Deus?
que lhe fiz eu?... Ao mesmo tempo todo o seu ser se desesperava contra
aquelle desgraado _mdo_, encolhimento da carne, arrepio da pelle, que
sempre, ante um perigo, uma ameaa, um vulto surdindo d'uma sombra, o
estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que  sua
alma, Deus louvado, no faltava arrojo! Mas era o corpo, o traioeiro
corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a
alma--emquanto dentro a alma bravejava!

Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus moos da
quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas
louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma
enxovia!--Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos,
apparecendo com uma carta que trouxera um moo da _Feitosa_...

--Da _Feitosa_?

--Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que
vinha de mandado das senhoras...

--Das senhoras!... Que senhoras?

Sem tarja de luto, a carta no era da bella D. Anna... Mas era de D.
Maria Mendona, que assignava--prima muito amiga, Maria Severim. N'um
relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda
do Pintainho e da affronta:--Meu querido Primo. Estou ha tres dias aqui
com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella j
pde sahir (e at precisa porque tem andado fraca) eu aproveito a
occasio para percorrer estes arredores que dizem to bonitos, e pouco
conheo. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de Craqude, onde
esto os tumulos dos antigos tios Ramires. Que impresso me vae
fazer!... Mas, ao que parece, alm dos tumulos do claustro, ha outros,
ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que
ficam n'um subterraneo, onde se no pde entrar sem licena e sem que
tragam a chave. Peo pois, querido Primo, que d as suas ordens para que
no Domingo possamos descer ao subterraneo, que todos affianam muito
interessante, por que ainda l restam ossos e armas. Se na Torre
houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas
no se pde visitar um solteiro to perigoso. Case depressa!...
D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.

Gonalo encarou o Bento--que esperava, interessado com aquelle assombro
do Snr. Doutor:

--Tu sabes se em Santa Maria de Craqude ha outros tumulos, n'um
subterraneo?

O assombro ento saltou para o Bento:

--N'um subterraneo?... Tumulos?

--Sim, homem! Alm dos que esto no claustro parece que ha outros, mais
antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, no me lembro. Tambem ha que
annos no entro em Santa Maria de Craqude! Desde pequeno!... Tu no
sabes?

O Bento encolheu os hombros.

--E a Rosa no saber?

O Bento abanou a cabea, duvidando.

--Tambem vosss nunca sabem nada! Bem! Amanh cdo corre a Santa Maria
de Craqude e pergunta na Egreja, ao sachristo, se existe esse
subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras, 
snr.^a D. Anna Lucena, e  snr.^a D. Maria Mendona, minha prima
Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!

Mas, repassando a carta, reparou n'um _Post-Scriptum_ em lettra mais
miudinha, ao canto da folha:--No Domingo, no se esquea, a visita ser
_entre as cinco e cinco e meia da tarde_!

Gonalo pensou:--Ser uma entrevista? E na livraria, atirando para uma
cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem
clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo--e Maria
Mendona, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como natural
motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, s cinco e
meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa
Maria de Craqude. Mas ento a prima Maria no gracejra, em Oliveira?
Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma emoo, uma
curiosidade voluptuosa atravessaram Gonalo  ida de que to formosa
mulher o desejava.--Ah! mas certamente o desejava para marido, por que
se o appetecesse para amante no se soccorria dos servios da D. Maria
Mendona--nem a prima Maria, apesar de to sabuja com as amigas ricas,
os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E
caramba! casar com a D. Anna--no!

E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturra ella tantos
annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na _Feitosa_,
na solido dos grandes muros da _Feitosa_--por que nunca sobre ella
esvoara um rumor, em terriolas to gulosas de rumores malignos. Mas em
Lisboa?... Esses amigos estimabilissimos de que se ufanava o pobre
Sanches, o D. Joo no sei qu, o pomposo Arronches Manrique, o Philippe
Lourenal com o seu cornetim?... Algum de certo a attacra--talvez o D.
Joo, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o informaria sobre
a historia sentimental da D. Anna?

Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irm do Gouveia,
casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado
na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios
intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara,
que se demoravam em Lisboa--e que interessavam o mano ou por Politica,
ou por mexeriquice. E de certo, pela irm Cerqueira, o querido Gouveia
conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de
Lisboa, nas delicias da sua roda fina.

N'essa noite, porm, o Administrador no apparecera na Assembleia. E
Gonalo, desconsolado, recolhia  Torre--quando no Largo do Chafariz o
encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias
escuras.

--Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos mesmo a marchar para
minha casa, tomar ch. Quer voss, tambem?... Voss costuma gostar das
minhas torradinhas.

O Fidalgo acceitou--apezar de canado. E logo pela Caladinha, enlaando
o brao do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa, d'um
amigo, com uma nova estupenda... O que?--O casamento da D. Anna Lucena.

O Gouveia parou, assombrado, atirando o cco para a nuca:

--Com quem?!

Gonalo que inventra a carta--inventou o noivo:

--Com um vago parente meu, ao que parece, um D. Joo Pedroso ou da
Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam
muito em Lisboa...

Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:

--No pde ser!... Que disparate! A D. Anna no ajustava casamento sete
semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no
meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar  sepultura!

--Sim, com effeito! murmurou Gonalo.

E sorria, sob uma doce baforada de vaidade--pensando que, sete semanas
depois de viuva, ella, sem resistir, calcando decencia e luto, lhe
offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craqude.

A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitra--porque, depois
de subirem  saleta verde do Administrador, o espanto recomeou.
Videirinha esfregava as mos, divertido:

--Oh snr. Dr., olhe que tinha graa!... Se a snr.^a D. Anna, depois
d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, zs, se
engancha com um rapazote novo...

No, no!... Gonalo agora, reparando, tambem considerava despropositada
a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda mrno...

--Naturalmente entre ella e esse D. Joo havia namorico, olhadella...
Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o tal
D. Joo se atirava valentemente, como cumpre a um D. Joo, e que ella...

--Mentira! atalhou o Administrador, debruado sobre a chamin do
candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por
excellente canal... Em fim, sei por minha irm! Nunca, em Lisboa, a D.
Anna deu azo a que se rosnasse. Muito sria, muitissimo sria. Est
claro, no faltou por l magano que lhe arrastasse a aza languida...
Talvez esse D. Joo, ou outro amigo do marido, segundo a boa lei
natural. Mas ella, nada! Nem lho de lado! Esposa romana, meu amigo, e
dos bons tempos romanos!

Gonalo, enterrado no camap, torcia lentamente o bigode, regalado,
recolhendo as revelaes. E o Gouveia, no meio da sala, com um gesto
convencido e superior:

--Nem admira! Estas mulheres muito formosas so insensiveis. Bellos
marmores, mas frios marmores... No, Gonalinho, l para o sentimento, e
para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas,
magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes mulheres brancos,
do genero Venus, s para vista, s para museo.

Videirinha arriscou uma duvida:

--Uma senhora to bonita como a snr.^a D. Anna, e com aquelle sangue,
assim casada com um velhote...

--Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem
sentimentos velhotes!--declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa
auctoridade e immensa philosophia.

Mas a curiosidade de Gonalo no se contentava. E na _Feitosa_? Nunca se
rosnra d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. Julio...

De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a mentira:

--Nem na _Feitosa_, nem em Oliveira, nem em Lisboa... De resto,  o que
lhe digo, Gonalo Mendes. Mulher de marmore!

Depois, saudando, em submissa admirao:

--Mas, como marmore... Vosss, meninos, no imaginam a belleza d'aquella
mulher decotada!

Gonalo pasmou:

--E onde a viu voss decotada?

--Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Pao... At foi
justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Pao. L me
espanejei, de calo... Uma semsaboria. E mesmo uma vergonha, toda
aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar
furiosamente pedaos de per...

--Mas ento, a D. Anna?

--Pois a D. Anna uma belleza! Vosss no imaginam!... Santo nome de
Deus! que hombros! que braos! que peito! E a brancura, a perfeio...
De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para
um canto, acanhadota, no fez sensao. Mas depois l a descobriram. E
eram correrias, magotes embasbacados... E quem ser? E que encanto!
Todo o mundo perdidinho, at o Rei!

E um momento os tres homens emmudeceram na impresso do formoso corpo
evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o
explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim
Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a sua
informao:

--Pois, por mim, o que posso affirmar  que a snr.^a D. Anna  uma
mulher muito aceada, muito lavada...

E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza to
intima--Videirinha contou que todas as semanas apparecia um moo da
_Feitosa_, na botica do Pires, a comprar tres e quatro garrafas de agua
de Colonia portugueza, da receita do Pires.

--At o Pires dizia sempre, a esfregar as mos, que na Feitosa regavam
as terras com agua de Colonia. Depois  que soubemos pela creada... A
snr.^a D. Anna toma todos os dias um grande banho, que no  s para
lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. At l o jornal
dentro da tina. E em cada banho, zs, meia garrafa d'agua de Colonia...
J  luxo!

Ento Gonalo sentiu como um aborrecimento de todas aquellas revelaes
do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as
lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires
seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:

--Bem! E passando a cantiga mais sria... Oh Gouveia, voss que tem
sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleio?

A creada entrra com a bandeja do ch. E em torno da mesa, trincando as
torradas famosas, conversaram sobre a Eleio, sobre os informes dos
Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso--e sobre o Dr. Julio, que
Videirinha encontrra nos Bravaes pedinchando votos pelas portas,
acompanhado por um mo com a machina photographica s costas.

Depois do ch Gonalo, canado e j provido de revelaes, accendeu o
charuto para recolher  Torre.

--Voss no acompanha, Videirinha?

--Hoje, Snr. Dr., no posso. Parto de madrugada para Oliveira, na
diligencia.

--Que diabo vae voss fazer a Oliveira?

--Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho l da minha
patra, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos Emilios, levar as
medidas.

Gonalo ergueu os braos, desolado:

--Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar
para Oliveira com os sapatos de banho da patra Pires!... Oh Gouveia!
quando eu fr deputado precisamos arranjar um bom logar para o
Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle
no esquecer o violo!

Videirinha crou de gsto e de esperana--correndo a despendurar do
cabide o chapo do Fidalgo.

Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonalo esvoaaram logo, com
irresistida tentao, para D. Anna--para os seus decotes, para os
languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que
diabo!... Essa D. Anna assim to honesta, to perfumada, to
explendidamente bella, s apresentava, mesmo como esposa, um feio
_seno_--o pap carniceiro. E a voz tambem--a voz que tanto o arripira
na Bica-Santa... Mas o Mendona assegurava que aquelle timbre rolante e
gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de
convivencia habituam s vozes mais desagradaveis--e elle mesmo, agora,
nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! No! mancha teimosa,
realmente, s o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade nascida toda d'um
s homem, quem, entre os seus milhares d'avs at Ado, no tem algum
av carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde Dynastias
irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o Ramires
carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira gerao, n'um
talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos
seculos, entre os trigesimos avs--l estava, com a faca, e o cepo, e as
postas de carne, e as nodoas de sangue no brao suado!...

E este pensamento no o abandonou at  Torre--nem ainda depois, 
janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos. J
mesmo se deitra, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os
seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado
da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o
carniceiro... Era j para alm dos confins do Imperio Visigodo, onde
reinava com um globo d'ouro na mo o seu barbudo av Recesvinto.
Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de homens
cultos--penetrra nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a
humida espessura j crusra vagos Ramires, que carregavam, grunhindo,
rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas,
arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava.
Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegra a uma laga
ennevoada. E  beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um homem
monstruoso, pelludo como uma fra, agachado no lodo, partia a rijos
golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires.
No ceu cinzento voava o Aor negro. E logo, d'entre a neblina da laga,
elle acenava para Santa Maria de Craqude, para a formosa e perfumada D.
Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:--Achei o meu av
carniceiro!

       *       *       *       *       *

No Domingo, Gonalo acordou com uma esperta ideia! No correria a
Santa Maria de Craqude com uma pontualidade sofrega, s cinco horas (as
cinco horas marcadas no _Post-Scriptum_ da prima Maria)--mostrando o seu
alvoroo em encontrar a to bella e to rica D. Anna Lucena! Mas s seis
horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria
elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas
cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima
Maria.

Logo s quatro horas porm se comeou a vestir com tantos esmeros, que o
Bento, canado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e arremessava
amarfanhadas para o divan, no se conteve:

--Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica
melhor! E refresca mais, com este calor.

Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as cres
heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao
porto, apenas montra na egoa, temeu que as senhoras (no o encontrando
no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da
Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou
n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.

S retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do Caminho de
Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da
cancella, que se fechra para a lenta passagem d'um trem carregado de
pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo--o
vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade
das suas barbaas de Deus fluvial. Erguendo gravemente o chapo de
vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.

--Ento hoje a ganhar a rica vida por Craqude?...

--C me arrasto s vezes para a passagem do comboio d'Oliveira, meu
Fidalgo. Os passageiros gostam de me vr de p no talude, correm sempre
s janellas...

Gonalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle ancio precedia sempre
um encontro seu com a bella D. Anna.--Quem sabe? pensou.  talvez o
Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e longas
guedelhas, e o alforge s costas contendo as sortes humanas...--E com
effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol
docemente douravam--avistou a caleche da _Feitosa_, parada sob uma
carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A
estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de
Craqude, queimado pelo fogo do co, n'aquella irada tempestade que
chamam _de S. Sebastio_, e que aterrou Portugal em 1616. Uma herva
agora alfombra o cho, crescida e verde, entre os poderosos troncos dos
castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo
da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera
veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro--sobe, enche ainda
magnificamente o co lustroso, a fachada da Egreja do vetusto Mosteiro,
suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso portal
sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos
d'enterramento onde outr'ora se estiraavam as imagens dos fundadores,
Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha
a _Queixa-perra_. Duas casas terreas povoam o lado fronteiro do
adro--uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul
estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um
quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio
envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes
serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem
adelgara em fio lento, e mal enchia o seu tanque de pedra, toldado
pela pallida e rala folhagem d'um choro muito alto.

O trintanario da _Feitosa_, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente
da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E Gonalo,
que desde pequeno no penetrava nas ruinas de Craqude, seguia por um
carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella
romantica solido de lenda e verso, quando, sob o arco do portal,
appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria
Mendona, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de
xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente
nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na
claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta frma negra, de l negra
e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o vo
negro, a brancura explendida da sua face sensual e sria.

Gonalo correra, erguendo o chapo de palha, balbuciando o seu prazer
por aquelle encontro... Mas j D. Maria o reprehendia, sem lhe
consentir a fabula do encontro:

--O primo no  nada amavel, nada amavel...

--Oh prima!...

--Pois sabia que vinhamos, pela minha carta! E nem est  hora aprazada,
para fazer as honras, como devia...

Elle, rindo, com o seu desembarao airoso, negou esse dever! Aquella
casa no era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia fazer as
honras--acolher to doces romeiras com algum milagre amavel...

--E ento, gostaram? V. Ex.^a, Snr.^a D. Anna, gostou das ruinas?...
Muito interessantes, no  verdade?

Atravs do vo, com uma lentido que a espessa renda negra tornava mais
grave, ella murmurou:

--Eu j conhecia... Vim c uma tarde, com o pobre Sanches que Deus haja.

--Ah...

quella evocao do pobre morto, Gonalo sumira todo o sorriso, com
polida tristeza. Mas D. Maria Mendona acudio, atirando um dos seus
magros gestos, como para arredar a sombra importuna:

--Ai! no imagina o que gostei, primo!  d'appetite todo o claustro...
Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo... No ha
nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar que
esto alli antepassados nossos!

O sorriso de Gonalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre
que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de
Ramires. E gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados
de cinsa v!--Pois no era verdade, Snr.^a D. Anna?... Realmente! quem
conceberia que a prima Maria, to viva, to sociavel, to engraada,
descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra?
No! no se podia ligar tanto _ser_ a tanto _no-ser_...--E como D. Anna
sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mos fortes e muito
apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle
atalhou com interesse:

--V. Ex.^a est talvez canada, Snr.^a D. Anna?

--No, no estou canada... Ainda vamos mesmo entrar na capella, um
bocadinho... Eu nunca me cano.

E pareceu a Gonalo que a voz da formosa creatura no rolava do papo,
to grossa e gorda--mas que se afinra, adoada e velada pelo luto
d'escomilha e l, como esses grossos e rolantes rumores que a noite e o
arvoredo adelgaam. Mas D. Maria confessou o seu immenso canasso! Nada
a esfalfava como visitar curiosidades... E alm d'isso a emoo, a ideia
de heroes to antigos!

--Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein?  muito cedo para
recolhermos, no  verdade, Annica? E est to agradavel n'este socego,
n'esta frescura...

Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em
torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros
malmequeres e botes d'ouro que o sol d'Agosto poupra. Um aromasinho
fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a serena
tarde. E na rama d'um alamo, defronte do porto da Capella, duas vezes
um melro cantra. Gonalo sacudiu todo o banco cuidadosamente, com o
leno. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem a frescura,
o recolhimento d'aquelle cantinho de Craqude... E elle que nunca se
aproveitra de refugio to santo, e quasi seu, nem mesmo para um almoo
bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver
ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhana dos vovs
mortos... Depois, com uma curiosidade:

-- verdade, prima! E o subterraneo?

Oh! no existia subterraneo!... Sim, existia--mas entulhado, sem
sepulturas, sem antiguidades. E o sachristo logo lhes affianra que
no valia a pena sujarem as saias...

-- verdade, oh Annica, dste alguma cousa ao sachristo?

--Oh filha, dei cinco tostes... No sei se foi bastante.

Gonalo assegurou que se pagra sumptuosamente ao sachristo. E, se
prevesse tamanha generosidade da Snr.^a D. Anna, agarrava elle um mlho
de chaves, at enfiava uma opa preta, para mostrar--e para embolsar...

--Pois  o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um corisco nos
espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostes! Porque sempre
sera mais instructivo que o homemsinho, que mascava, no sabia nada!...
Semelhante morco! E eu com tanta curiosidade por aquelle tumulo aberto,
com a tampa rachada... O mno s soube resmungar que eram historias
muito antigas l do Fidalgo da Torre...

Gonalo ria:

--Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo _Fado
dos Ramires_, o fado do Videirinha...

D. Maria Mendona levantou as compridas mos aos cos, revoltada com
aquella indifferena pelas tradies heroicas da Casa. Conhecer smente
os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo
Gonalo no se envergonhava?

--Mas por qu, prima, porqu? O fado do Videirinha est fundado em
documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio
historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha s poz as rimas.
Alm d'isso antigamente, prima, a Historia era perpetuada em verso e
cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto,
segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas s para a Snr.^a
D. Anna, que no soffre d'esses escrupulos...

--No! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade historica
ento conte tambem para mim, que sou da Casa!

Gonalo, por gracejo, tossio, passou o leno pelos beios:

--Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos
meus avs... No me lembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio que
Gutierres... Emfim, l jazia quando foi da batalha das Navas de
Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis
mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha no contam os
versos do Videirinha. Mas, apenas l dentro lhe cheirou a carnificina,
arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o
seu cavallo que fra enterrado no adro onde agora crescem estes
carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo
morto, larga a galope atravs da Hespanha, chega s Navas, arranca a
espada, e destroa os mouros... Que lhe parece, Snr.^a D. Anna?

Dedicra a historia a D. Anna, procurando nos seus bellos olhos a
atteno e o interesse. E ella, que a furto, atravs do decro
melancolico a que se esforava, adora o sorriso, attrahida e levada,
murmurou apenas:--Tem graa!--D. Maria, porm, quasi esvoaou sobre o
banco de pedra, n'um extasis:--Lindo! Lindo! Que poesia!... Oh! uma
lenda de todo o appetite!--E, para que Gonalo desenrolasse ainda a
graa do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:

--Conte, primo, conte... E voltou para Craqude esse tio Ramires?

--Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou
livre da massada da sepultura no appareceu mais em Santa Maria de
Craqude. O tumulo vasio, como est, e elle por Hespanha n'uma pandega
heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,
d'aquella postura eterna, to apertada, to esticada!...

Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no
seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...--D. Anna
baixra a face, mais sumida no vo, esfuracando a herva com a ponta da
sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que
de novo os rora, rompeu n'outra curiosidade, que ainda se encadeava na
nobreza dos Ramires:

-- verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem
muitos parentes em Frana... Talvez tambem no saiba?

Sim! Gonalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus parentes de
Frana--apezar de que o Videirinha os no cantra no Fado!

--Ento conte! Mas que seja historia alegre!

Oh, no era prodigiosamente divertida! Um av Ramires, Garcia Ramires,
acompanhra nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho
d'El-Rei D. Joo I... A Prima Maria sabia--o Infante D. Pedro, o que
correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus
fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres,
com o Duque de Borgonha. At se celebraram ento festas maravilhosas,
com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da
Historia de Frana. Onde ha danas ha amores. A av Ramires sobejava
imaginao e arrojo... Fra elle que deante de Jerusalem, no Valle de
Josaphat, lembrra que se erguesse um _signal_ para que o Infante e os
seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo.
Depois, naturalmente, bello moceto, de barba negra e cerrada 
Portugueza... Emfim casra com uma irm do Duque de Clves, uma tremenda
Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde, atravs
d'essas ligaes, uma av Ramires, j viuva, casou tambem em Frana com
o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de Frana,
possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...

D. Maria bateu as palmas, rindo:

--Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Ento o primo que se gaba de no
saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miudo a historia
d'esses grandes casamentos! Hein, Annica?...  uma Chronica viva!

Gonalo vergou os hombros, confessou que se occupra de toda essa
heraldica historia por um motivo bem rasteiro--por miseria!...

--Por miseria?

--Sim, prima Maria, por penria de moeda, de cobres...

--Conte! conte! Olhe, a Annica est anciosa...

--Quer saber, Snr.^a D. Anna?... Pois foi em Coimbra, no meu segundo
anno de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a no juntar entre todos
um vintem. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrasco
e as tres azeitonas do dever... Um d'elles ento, rapaz muito engraado,
de Melgao, surdiu com a ida estupenda de que eu escrevesse aos meus
parentes de Frana, a esses Clves, a esses Tancarvilles, senhores de
certo immensamente ricos, e sollicitasse, com desembarao, um
emprestimosinho de trezentos francos.

D. Anna no conteve um riso, sinceramente divertido:

--Ai! tem muita graa!

--Mas no teve resultado, minha senhora... J no existem Clves, nem
Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se fundiram
n'outras casas, at na Casa de Frana. E o meu padre Sueiro, apezar de
todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as
representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente
pobre de Portugal, esses trezentos francos.

Aquella penuria de Gonalo, de tamanho fidalgo, quasi enternecera D.
Anna:

--Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem graa! Essas
historias de Coimbra teem sempre muita graa. O D. Joo de Pedrosa, em
Lisboa, tambem contava muitas...

D. Maria Mendona, porm, atravs d'essa facecia d'estudantes,
descortinra outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E
immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:

--Ora vejam!... Todas essas grandes casas de Frana, to ricas, to
poderosas, acabaram, desappareceram. E c no nosso Portugalsinho ainda
dura a casa de Ramires!

Gonalo acudiu:

--Acaba agora, prima!... No olhe para mim assim espantada. Acaba
agora... Pois se eu no caso!

Ento D. Maria recuou o magro peito--como se esse casamento do primo
dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem
chegadamente, sem Marias Mendonas de permeio no estreito banco com
grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria,
quasi languidamente:

--Ora no casa... Mas por qu, primo, por qu?

--Por que no tenho geito, prima. O casamento  uma arte muito delicada
que necessita vocao, genio especial. As Fadas no me concederam esse
genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a
estragava.

D. Anna, como se outra ida a occupasse, puxra lentamente do cinto o
relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os
motivos do Fidalgo:

--So tolices. O primo que gosta tanto de creanas...

--Gosto, gosto muito de creancas, at de creancinhas de mama. As
creanas so os unicos seres divinos que a nossa pobre humanidade
conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois
de santos, ficam na Bemaventurana a preguiar, ninguem mais os enxerga.
E, para concebermos uma ideia das cousas do co, s temos realmente as
creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de creanas. Mas
tambem gosto de flres, e no sou jardineiro, nem tenho geito para a
jardinagem.

E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:

--Socegue, que ainda vem a aprender!

Depois, para D. Anna que se esquecera na contemplao do relogio:

--Achas que vo sendo horas? Ento, se queres, entramos na Capella... Oh
primo, veja se est aberta.

Gonalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois acompanhou as duas
senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos
de uma cal aspera e crua--que recamava tambem as paredes lisas, apenas
guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de
caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam--a prima
Maria enterrando a face nas mos juntas como n'um vaso de Piedade.
Gonalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.

Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a
relva, considerava quanto a viuvez melhorra D. Anna. Sob o negrume do
luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia das
cousas, todos os seus defeitos se fundiam--os defeitos que tanto o
horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito
empinado, a ostentao de burgueza ricassa pinguemente repimpada na
vida. At j nem dizia--o cavalheiro! E alli, no adro melancolico de
Craqude, certamente parecia interessante e desejavel.

As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro esvoaou na
ramagem dos alamos. E Gonalo encontrou o lampejo dos olhos serios de D.
Anna que o procuravam.

--Peo perdo de no lhes ter offerecido agua benta  sahida, mas a
concha est secca...

--Jesus, primo, que Egreja to feia!

D. Anna arriscou, com timidez:

--Depois das ruinas e dos tumulos, at parece pouco religiosa.

A observao impressionou Gonalo, como muito fina. E junto d'ella,
demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus movimentos,
pelo roar do vestido, um aroma tambem fino, que no era o da horrenda
agua de Colonia da botica do Pires. Em silencio, sob a ramagem das
carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se aprumra, bem
estilado, tirando o chapeu. Gonalo notou que elle rapra o bigode. E a
parelha reluzia, atrelada com esmero.

--E ento, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sitios?

--Sim, primo, mais uns quinze dias... A Annica  to amavel, quiz que eu
trouxesse os pequenos. O que elles se tm divertido na quinta, no
imagina!

D. Anna murmurou, sempre sria:

--So muito engraados, fazem muita companhia... Eu tambem gosto muito
de creanas.

--Ai, a Annica adora creanas! accudiu D. Maria com fervor. O que ella
atura os pequenos! At joga com elles o mafarrico.

Perto da caleche, Gonalo pensou que outra volta pelo adro, mais lenta,
com a D. Anna e o seu fino aroma, seria doce, n'aquelle socego da tarde
que findava, tingida de to lindas cres de rosa sobre os pinheiraes
escurecidos. Mas j o trintanario se acercava segurando a sua egoa. E D.
Maria, depois de admirar e acariciar a egoa, chamou o primo
discretamente--para saber a distancia da _Feitosa_ a Treixedo, a outra
quinta historica dos Ramires.

--A Treixedo, prima?... Cinco legoas fartas, com maus caminhos.

E immediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:

--Mas na estrada ultimamente andaram obras. E  muito bonito sitio, n'um
alto, com um resto de muralhas... Treixedo era um castello enorme... Na
quinta ha uma laga entre arvoredo antigo... Oh! sitio delicioso para um
pic-nic!

D. Maria hesitou:

-- um pouco longe, veremos, talvez.

E como D. Anna esperava em silencio--Gonalo abriu a portinhola, tomou
ao trintanario as rdeas da egoa. D. Maria Mendona, no seu
contentamento por to proveitosa tarde, sacudiu ardentemente a mo do
primo jurando que ia apaixonada por Craqude! D. Anna mal roou os
dedos de Gonalo, acanhada e crando.

Szinho, com a rdea da egoa enfiada no brao, Gonalo sorria. Na
verdade, n'essa tarde, D. Anna no lhe desagradra. Outros modos, outra
singeleza grave, outra doura na sua possante belleza de Venus rural...
E aquella observao sobre a Capella, pouco religiosa depois das
ruinas seculares do claustro, era uma observao fina. Quem sabe? Talvez
sob carne to sensual se escondesse uma natureza delicada. Talvez a
influencia d'outro homem, que no o estupidissimo Sanches, desenvolvesse
na filha explendida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh,
evidentemente, a observao sobre os tumulos e a sua religiosidade
emanando da Lenda e da Historia--era fina.

E ento tambem o tomou a curiosidade de visitar esse claustro onde no
entrra desde pequeno--quando ainda a Torre conservava as suas
carruagens montadas e a romantica Miss Rhodes escolhia sempre o passeio
de Craqude para as tardes pensativas d'outomno. Puxou a egoa, transpoz
o portal, atravessou o espao descoberto que fra a nave--atulhado de
calia, de cacos, de pedras despegadas da abobada e afogadas nas hervas
bravas. E pela brecha d'um muro a que ainda se amparava um pedao
d'altar--penetrou na silenciosa crasta Affonsina. S d'ella restam duas
arcadas em angulo, atarracadas sobre rudes pilares, lageadas de
poderosas lages poidas que n'essa manh o sachristo cuidadosamente
varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros arcos,
avultam os sete immensos tumulos dos antiquissimos Ramires, denegridos,
lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente
encravados no lagedo, outros pousando sobre bolas que os seculos
lascaram. Gonalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos,
recordando quando elle outr'ora e Gracinha pulavam ruidosamente por
sobre essas campas, em quanto no pateo do claustro, entre as pilastras
tombadas e a verdura das ruinas, a boa Miss Rhodes agachada procurava
florinhas silvestres. Na abobada, sobre o mais vasto tumulo, l
negrejava chumbada a espada, a famosa espada, com a sua corrente de
ferro pendendo do punho, a folha roida pela ferrugem das longas idades.
Sobre outro l ardia a lampada, a estranha lampada mourisca, que no se
apagra desde a tarde remota em que algum monge, com uma tocha de
sahimento, silenciosamente a accendera... Quando se accendera ella, a
eterna lampada? Que Ramires jazeriam n'esses cofres de granito, a que o
tempo raspra as inscripes e as datas, para que n'ellas toda a
Historia se sumisse, e mais escuramente se volvessem em leve p sem nome
aquelles homens de orgulho e de fora?... Depois na ponta do claustro
era o tumulo aberto, e ao lado, derrubada em dous pedaos, a tampa que o
esqueleto de Lopo Ramires arrombra para correr s Navas de Tolosa e
bater os cinco Reis mouros. Gonalo espreitou para dentro, curiosamente.
A um canto da funda arca alvejava um monto d'ossos, limpos e bem
arrumados! Esquecera o velho Lopo, na sua pressa heroica, esses poucos
ossos, j despegados do seu esqueleto?... O crepusculo cerrra, e com
elle uma melancolica sombra que se adensava sob as abobadas da crasta,
cobria de tristeza morta aquella jazida de mortos. Ento Gonalo sentiu
a desolada solido que o envolvia, o separava da vida, alli desgarrado,
e sem soccorro entre a poeira e a alma errante dos seus avs temerosos!
E de repente estremeceu, no arripiado mdo de que outra tampa estalasse
com fragor e atravez da fenda surdissem lividos dedos sem carne! Repuxou
desesperadamente a egoa pelo muro desmantelado, nas ruinas da nave pulou
para o selim, e varou n'um trote o portal, galgou o adro com ancia--s
socegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancella do Caminho de Ferro
aberta, e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado
d'herva.




VIII


Ao fim da semana Gonalo, que desde a visita a Santa Maria de Craqude
arrastava o remorso incommodo da sua preguia, do to longo abandono da
Novella--recebeu de manh, ao sahir do banho, uma carta do Castanheiro.
Era curta:--e declarava ao amigo Gonalo que, se em meado de Outubro no
chegassem a Lisboa tres Capitulos do original, elle, com pezar seu e da
Arte, publicaria no primeiro numero dos Annaes, em vez da _Torre de D.
Ramires_, um drama do Nuno Carreira n'um acto, intitulado _Em Casa do
Temerario_... Apezar de drama e de phantasia (accrescentava) convem 
indole erudita dos Annaes por que este _Temerario_  Carlos o Temerario,
e a aco toda, fortemente tecida, se passa no Castello de Peronne, onde
se encontram nada menos que Luiz XI de Frana, e o nosso pobre Affonso
V, e Pero da Covilhan que o acompanhava, e outros figures de rija
estatura historica. Imagine!... Est claro, o _chic_ supremo seria
_Tructezindo Mendes Ramires_ contado pelo nosso Gonalo Mendes Ramires!
Mas, pelo que vejo, esse _chic_ supremo est impedido por uma indolencia
suprema. _Sunt Lacrymae Revistarum_!

Gonalo atirou a carta, gritou pelo Bento:

--Leva para a livraria ch verde, forte, com torradas. Hoje s almoo
tarde, s duas... Talvez nem almoce!

E, enfiando o roupo de trabalho, decidiu amarrar  banca, como um
captivo ao remo, at que rematasse esse difficil Capitulo III, onde
resaltava o barbaro e sublime rasgo do av Tructezindo. No, que diabo!
no lhe convinha perder a appario da Novella em to proveitoso
momento, nas vesperas da sua chegada a Lisboa, quando para a influencia
Politica e para o prestigio social necessitava d'esse brilho que,
segundo o velho Vigny, uma penna de ao accrescenta a um elmo dourado
de Fidalgo... Felizmente, n'essa luminosa manh em que as agoas da
horta fartamente cantavam, elle sentia tambem a veia borbulhando,
contente em se soltar e correr. Depois da visita  crasta de Craqude a
sua imaginao concebia menos ennevoadamente os seus avs Affonsinos:--e
como que os palpava emfim no seu viver e pensar desde que contemplra os
grandes tumulos onde se desfaziam as suas grandes ossadas.

Na Livraria retomou com appetite, depois de lhes sacudir a poeira, as
tiras da Novella sobre que emperrra, n'aquelle atarantado lance de
susto e alarme--quando o Villico, o velho Ordonho, reconhecia o pendo
do Bastardo surgindo  borda da Ribeira do Coice entre o coriscar de
lanas empinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um momento
sumido na verdura dos alamos, de novo avanando, alto e tendido, at ao
rude Cruzeiro de pedra de Gonalo Ramires o _Cortador_... O gordo
Ordonho ento, atirando o brado de--Prestes, prestes! que  gente de
Bayo!--descambava pelo escalo da muralha como um fardo que rola.

No emtanto Tructezindo Ramires, no empenho d'aprestar a sua mesnada e
abalar sobre Montemr, regera j com o Adail a ordem da arrancada,
mandando que as buzinas soassem mal o sol batesse na margella do Poo
grande. E agora, na sala alta da Alcaova, conversava com o seu primo de
Riba-Cavado e costumado camarada d'armas, D. Garcia Viegas--ambos
sentados nos poiaes de pedra d'uma funda janella, onde uma bilha d'agoa
com o seu pucaro refrescava entre vasos de manjarico. D. Garcia Viegas
era um velho esgalgado e agil, d'escuro caro rapado, com uns miudos
olhos coruscantes--que merecra a alcunha de _Sabedor_ pela viveza e
succulencia do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra, e a prenda
de fallar latim mais doutamente que um Clerigo da Curia. Convocado por
Tructezindo, como os outros parentes de solar, para engrossar a mesnada
dos Ramires em servio das infantas, corrra logo a Santa Ireneia
fielmente com o seu pequeno poder de dez lanas--comeando por saquear
no caminho a herdade de Palha-C, dos de Severosa, que andavam com
pendo alto na Hoste Real contra as Donas opprimidas. To rijamente se
apressra que, desde a madrugada, apenas comra sobre a sella, em
Palha-C, duas rodelas dos chourios roubados. E com a sde da afogueada
correria, ainda na emoo de to amarga nova, a derrota de Loureno
Ramires seu afilhado, novamente enchia d'agoa o pucaro de barro--quando
pela porta da sala de armas, que tres cabeas de javali dominavam,
rompeu o velho Ordonho esbaforido:

--Snr. Tructezindo! Snr. Tructezindo Ramires! o Bastardo de Bayo passou
a Ribeira, vem sobre ns com grande troo de lanas!

O velho Rico-Homem saltou do poial. E arremessando a mo cabelluda,
cerrada com sanha, como se j pela gorja empolgasse o Bastardo:

--Pelo Sangue de Christo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hein,
Garcia Viegas? A cavallo e sobre elle...?

Mas, rente aos tropegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de
Besteiros, que gritou dos humbraes, saccudindo o capello de couro:

--Senhor! Senhor! A gente de Bayo parou ao Cruzeiro! E um cavalleiro
moo, com um ramo verde, est deante das barbacans, como trazendo
mensagem...

Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lages, indignado com tal
embaixada mandada por tal villo...--Mas Garcia Viegas, que d'um sorvo
enxugra o pucaro, recordou serenamente e lealmente os preceitos:

--Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei d'aquem e d'alm
serras, sempre mensageiro com ramo se deve escutar...

--Seja pois! bradou Tructesindo. Ide vs fra s barreiras com duas
lanas, Ordonho, e sabei do recado!

O Villico rebolou pela denegrida escada de caracol at ao patim da
Alcaova. Dous accostados, de lana ao hombro, recolhendo d'alguma
rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintra de amarello e
escarlate cabos d'ascumas novas e as enfileirava contra o muro para
seccarem.

--Por ordem do Senhor! gritou Ordonho. Lana direita, e commigo s
barbacans, a receber mensagem!...

Ladeado pelos dous homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e
pelo postigo da barbacan, que uma quadrilha de besteiros guardava, sahiu
ao terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou arvore,
onde se erguiam ainda as traves carcomidas d'uma antiga forca, e se
amontoavam agora, para os concertos da Alcaova, ripas de madeira, e
grossas cantarias lavradas. Depois, sem arredar do humbral, empinando o
ventre entre os dous accostados, bradou ao moo Cavalleiro, que esperava
sob o rijo sol, sacudindo os moscardos com o seu ramo d'amoreira:

--Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que credencia trazeis!...

E como arquera logo a mo inquieta sobre a orelha--o Cavalleiro,
serenamente, entalando o ramo entre o coxote e o aro, arqueou tambem
os dous guantes relusentes d'escamas na abertura do casco, bradou:

--Cavalleiro do solar de Bayo!... Credencia no trago que no trago
embaixada... Mas o Snr. D. Lopo ficou alm ao Cruzeiro, e deseja que o
nobre senhor da Honra, o Snr. Tructezindo Ramires, o escute do eirado da
barbacan...

O Villico saudou--recolheu pela poterna abobadada da torre albarran,
murmurando para os dous accostados:

--O Bastardo vem a tratar o resgate do Snr. Loureno Ramires...

Ambos rosnaram:

--Feio feito.

Mas, quando Ordonho offegante se apressava para a Alcaova, encontrou no
pateo Tructezindo Ramires--que, na irada impaciencia d'aquellas delongas
do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial de l
verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas
rebrilhavam, mais brancas, atadas n'um grosso n como a cauda d'um
corcel. Do cinturo tauxeado de prata pendia a um lado o punhal recurvo,
a bozina de marfim--ao outro uma espada gda, de folha larga, com alto
punho dourado onde scintillava uma pedra rara trazida outr'ora da
Palestina por Gutierres Ramires, o _d'Ultramar_. Um sergente conduzia
sobre uma almofada de couro os seus guantes, o seu capello redondo, de
vizeira gradada, como usra El-Rei D. Sancho: outro carregava o immenso
broquel, da frma d'um corao, revestido de couro escarlate, com o Ar
negro rudemente pintado, esgalhando as garras furiosas. E o Alferes,
Affonso Gomes, seguia com o guio enrolado na funda de lona.

Com o velho Rico-Homem descra D. Garcia Viegas, e os outros parentes do
Solar--o decrepito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santarem,
torcido pelos rheumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os
passos tremulos, no a um basto, mas a um chusso; o formoso Leonel, o
mais moo dos Samoras de Cendufe, o que matra os dois ursos nos brejos
de Cachamz e que to bem trovava; Mendo de Briteiros, o das barbas
vermelhas, grande queimador de bruxas, ldo arranjador de folgares e
danas; e o agigantado Senhor dos Paos de Avellim, todo coberto, como
um peixe fabuloso, de escamas que reluziam. Como o sol se acercava da
margella do Poo grande, marcando a hora da arrancada sobre
Monte-mr--j, dos fundos alpendres que escondiam os campos do tavolado,
os cavallarios puxavam os ginetes de guerra, com as suas altas sellas
pregueadas de prata, as ancas e os peitos resguardados por coberturas de
couro franjado que rojavam nas lagens. Por todo o Castello se espalhra
que o Bastardo, depois da lide fatal aos Ramires, correra de
Canta-Pedra, ameaava a Honra:--e debruados dos passadios que ligavam
a muralha aos contrafortes da Alcaova, ou mettidos por entre os
engenhos d'arremesso que atulhavam as corredoiras, os moos da ucharia,
os servos das hortas, os villes acolhidos para dentro das barbacans,
espreitavam o Senhor de Santa Ireneia e aquelles Cavalleiros fortes, com
anciedade, tremendo do assalto dos de Bayo e d'essas horrendas bolas de
ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Christs arrojavam to
destramente como as hordas Sarracenas.--No emtanto com a sua gorra
esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo o
recado do Bastardo:

-- cavalleiro moo, no traz credencia... O Snr. Bastardo espera ao
Cruzeiro... E pede que o attendaes da quadrella das barbacans...

--Que se acerque pois! gritou o velho. E com quantos queira dos villes
que o seguem!

Mas Garcia Viegas, o _Sabedor_, sempre avisado, com a sua esperta
mansido:

--Tende, primo e amigo, tende! No subaes vs  tranqueira antes que eu
me assegure se Bayo nos vem com arteirice ou falsura.

E entregando a sua pesada lana de faia a um donzel, enfiou pela escada
soturna da Torre albarran. Em cima no eirado, sussurrando um _chuta!
chuta!_  fila de besteiros que guarnecia as ameias, attenta e com a
bsta encurvada--penetrou no miradouro, espiou pela setteira. O arauto
de Bayo galopra para o Cruzeiro, que uma selva movedia de lanas
rodeava coriscando. E curto recado lanou--porque logo, no seu fouveiro
acobertado por uma rde de malha acairellada d'ouro, Lopo de Bayo
despegou do denso troo de cavalleiros, com a viseira erguida, sem lana
ou ascuma de monte, e ociosas sobre o aro da sella mourisca as mos
onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a um toque
arrastado de buzina, avanou para as barbacans da Honra, vagarosamente,
como se acompanhasse um sahimento. No movera o seu pendo amarello e
negro. Apenas seis infanes o escoltavam, tambem sem lana ou broquel,
com sobrevestes de panno rxo sobre os saios de malha. Atraz quatro
alentados besteiros carregavam aos hombros umas andas, toscamente
armadas com troncos de arvores, onde um homem jazia estirado, como
morto, coberto, contra o calor e os moscardos, por leves folhagens de
acacia. E um monge seguia n'uma mula branca, segurando misturadamente
com as rdeas um crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla do seu
capuz e uma ponta de barba negra.

Da setteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a face
do homem estendido nas andas, o _Sabedor_ adivinhou Loureno Ramires, o
doce afilhado que tanto amra, que to bem ensinra a terar lanas e a
treinar falces. E cerrando os punhos, gritando surdamente--Bem
prestos! bsteiros, bem prestos!--desceu a escura escadaria, to
arremessado pela colera e pela magoa que o seu elmo cavamente bateu
contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os Cavalleiros
parentes.

--Senhor primo! bradou. Vosso filho Loureno est deante das barreiras
da Honra deitado sobre umas andas!

Com um rosnar d'espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as lages
sonoras, todos seguiram pela poterna da albarran o Rico Homem--at ao
escado de madeira que se empurrava contra a quadrella das barbacans. E,
quando o enorme velho surdio no eirado, um silencio pesou, to ancioso,
que se sentia para alm do vergel o chiar triste e lento da nora e o
latir dos mastins.

No terreiro, em frente  cancella gateada, o Bastardo esperava, immovel
sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de
_Claro-sol_, onde as barbas anelladas, cahindo nas solhas do arnez,
rebrilhavam como ouro novo. Vergando o capello d'ouropel, saudou
Tructesindo com gravidade e preito. Depois alou a mo, que descalra
do guante. E n'um considerado e sereno fallar:

--Senhor Tructesindo Ramires, n'estas andas vos trago vosso filho
Loureno, que em lide leal, no valle de Canta-Pedra, colhi prisioneiro e
me pertence pelo foro dos Ricos-Homens d'Hespanha. E de Canta-Pedra
caminhei com elle para vos pedir que entre ns findem estes homizios e
estas feias brigas que malbaratam sangue de bons Christos... Senhor
Tructesindo Ramires, como vs venho de Reis. De D. Affonso de Portugal
recebi a pranchada de Cavalleiro. Toda a nobre raa de Bayo se honra em
mim... Consenti em me dar a mo de vossa filha D. Violante, que eu quero
e que me quer, e mandae erguer a levadia para que Loureno ferido entre
no seu solar e eu vos beije a mo de pae.

Das andas, que estremeceram sobre os hombros dos besteiros, um
desesperado brado partio:

--No, meu pae!

E hirto na borda do eirado, sem descrusar os braos, o velho Tructesindo
retomou o brado--que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante
e mais cavo:

--Meu filho, antes de mim, te respondeu, villo!

Como se uma pontoada de lana lhe topasse o peito, o Bastardo vacillou
na alta sella: e, colhido pelo repuxo das rdeas, o seu fouveiro recuou
alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra a
cancella. E Lopo de Bayo erguido sobre os estribos, gritava com ancia,
com furor:

--Snr. Tructesindo Ramires, no me tenteis!...

--Arreda, villo e filho de villa, arreda!--clamou soberbamente o
velho, sem desprender os braos de sobre o levantado peito, na sua rija
immobilidade e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.

Ento o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da barbacan, rugio,
chammejante e rouco:

--Pois pelo sangue de Christo e pela alma de todos os meus te juro, que
se me no ds n'este instante essa mulher que eu quero e que me quer,
sem filho ficas, que por minhas mos, deante de ti e nem que todo o Co
accuda, lhe acabo o resto da vida!

J na mo lhe lampejava um punhal. Mas n'um impeto de sublime orgulho,
um impeto sobrehumano, em que cresceu como outra escura torre entre as
torres da Honra, Tructesindo arrancra a espada:

--Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, no vil como o teu, o
ferro que atravessar o corao de meu filho!

Furiosamente, com as duas possantes mos, arremessou a espada, que
rodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro cho, onde tremia,
ainda faiscava, como se uma colera heroica tambem a animasse. E no mesmo
relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo, debruado do
aro, enterrra o punhal na garganta de Loureno--em golpe to cravado
que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara face, as barbas d'ouro.

Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o cho
as andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos--e atiraram pelo terreiro,
como lebres em clareira, atraz do monge que se agachava agarrado s
crinas da mula. N'uma curta desfilada o Bastardo, os seis cavalleiros,
gritando o alarme, mergulharam no arraial que estacra ao Cruzeiro. Um
tumulto remoinhou em torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a
mesnada desenfreou para a Ribeira, varou a velha ponte, logo ennublada
em p e sumida para alm do arvoredo, n'um fugidio coriscar de
capellinas e de lanas apinhadas.

Uma alta grita, no emtanto, atrora as muralhas de Santa Ireneia!
Virotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo
furioso repente, sobre o bando de Bayo:--mas apenas um dos besteiros
que carregra as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha na ilharga.
Pela cancella das barreiras j Cavalleiros e donzeis d'armas se
empurravam desesperadamente para recolher o corpo de Loureno Ramires. E
Garcia Viegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbacan,
d'onde Tructesindo se no arredra, rigido e mudo, fitando as andas e
seu filho estatelado com ellas sobre o terreiro da sua Honra. Quando, ao
rumor, elle pesadamente se voltou--todos emmudeceram ante a serenidade
da sua face, mais branca que as brancas barbas, d'uma morta brancura de
lapide, com os olhos resequidos e cr de braza, a latejar, a refulgir,
como os dous buracos d'um forno. Com a mesma sinistra serenidade, tocou
no hombro do velho Ramiro, que tremia arrimado ao seu chusso. E n'uma
vagarosa e vasta voz:

--Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por
Deus! lh'a vou eu socegar!...

Afastou aquelles senhores emmudecidos d'assombro e d'emoo--e baixou
pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme Rico-Homem
carregado de ira e dr.

N'esse momento, entre besteiros e serviaes que se atropellavam--o corpo
de Loureno Ramires transpunha o portello das barbacans, segurado pelo
formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos affogueados de lagrimas e
rouquejando ameaas furiosas contra a raa de Bayo. Atraz o tropego
Ordonho gemia, abraado  espada de Tructesindo, que apanhra no cho do
Terreiro e que beijava como para a consolar.  borda do fosso uma
aveleira espalhava a sombra leve n'um bronco taboo pregado sobre
toros--d'onde, aos domingos, com o adanel dos besteiros, Loureno
dirigia os jogos de bsta e frecha, distribuindo fartamente as
recompensas de bolos de mel e de vinho em picheis. Sobre essas taboas o
estiraram--recuando todos depois, em quanto aterradamente se benziam. Um
cavalleiro de Briteiros, temendo por aquella alma desamparada e sem
confisso, correra  capella da Alcaova procurar Frei Muncio. Outros,
rodeando toda a muralha at ao Baluarte-Velho, gritavam, com
desesperados acenos, para o torreo escalavrado, onde, como um mcho,
habitava o Physico. Mas o certeiro punhal do Bastardo acabra o denodado
Loureno, flor e regra de cavalleiros por toda a terra de Riba-Cavado...
E que lastimoso e desfeito--com suja terra na face, a garganta empastada
de sangue negro, as malhas do saio rotas sobre os hombros e embebidas
nas carnes retalhadas, e nua, sem grva, toda inchada e rxa, a perna
ferida em Canta-Pedra, onde mais sangue e lama se empastavam!

Tructesindo descia, lento e rigido. E as seccas brazas dos seus olhos
mais se incendiam, em quanto, atravez do dorido silencio, se acercava do
corpo de seu filho. Deante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida mo
que pendia; e, junto  face manchada de sangue e terra, segredou, de
alma para alma, n'um abafado murmurio, que no era de despedida mas
d'alguma suprema promessa, e que findou n'um beijo demorado sobre a
testa, onde uma restea de sol rebrilhou, dardejada d'entre as folhas da
aveleira. Depois erguido n'um arrebate, atirando o brao como para
n'elle recolher toda a fora da sua raa, gritou:

--E agora, senhores, a cavallo, e vingana brava!

J pelos pteos, em torno da Alcaova, corria um precipitado fragor
d'armas. Aos asperos commandos dos almocadens as filas de besteiros,
d'archeiros, de fundibularios, rolavam dos adarves dos muros para cerrar
as quadrilhas. Rapidamente, os cavallarios da carga amarravam sobre o
dorso das mulas os caixotes do almazem, os alforges da trebalha. Pelas
portas baixas da cosinha, pees e sergentes, antes de largar, bebiam 
pressa uma conca de cerveja. E no campo das barreiras os cavalleiros,
chapeados de ferro, carregadamente se iavam, com a ajuda dos donzeis,
para as altas sellas dos ginetes--logo ladeados pelos seus infanes e
acostados, que aprumavam a lana sobre o coxote assobiando aos lebreus.

Emfim o Alferes, Affonso Gomes, saccou da funda e desfraldou o pendo
n'um embalano largo em que as azas do Aor negrejaram, abertas, como
soltando o vo enfurecido. O grito agudo do Adail resora por toda a
cerca--_ala! ala!_ De cima de um marco de pedra, junto ao postigo do
barbacan, Frei Muncio estendia as magras mos ainda tremulas, abenoava
a hoste. Ento Tructesindo, sobre o seu murzello, recebeu do velho
Ordonho a espada, de que to terrivelmente se apartra. E estendendo a
reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar, bradou:

--Muros de Santa Ireneia, no vos torne eu a vr, se em tres dias, de
sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de Bayo!

E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pendo
solto,--em quanto, na torre d'Almenara, sob o parado explendor da ssta
d'Agosto, o sino grande comeava a tanger a finados.

       *       *       *       *       *

Quando Gonalo  tarde, enterrado na poltrona  varanda, releu este
Capitulo de sangue e furor sobre que se esfalfra durante a semana,
pensou que o lance impressionaria.

Sentiu ento o appetite de recolher sem demora os louvores merecidos--e
de mostrar a Gracinha e ao Padre Sueiro os tres Capitulos completos
antes de remetter o manuscripto para os *Annaes*. E mesmo lhe
convinha--porque a erudio archeologica do Padre Sueiro forneceria
talvez algum trao novo, bem Affonsino, que mais avivasse aquella
resurreio da Honra de Santa-Ireneia e dos seus senhores formidaveis.
Immediatamente resolveu partir de manh para Oliveira com o seu
trabalho--que, depois de esmiuado pelo Padre Sueiro, confiaria ao
procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar n'aquella sua formosa
lettra, to celebrada em todo o Districto, e apenas egualada (nas
maiusculas) pela do Escrivo da Camara Ecclesiastica.

Sacudia j da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar a
Obra amada--quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de
vime que uma toalha de rendas cobria.

--Um presente.

--Um presente... De quem?

--Da _Feitosa_, das senhoras.

--Bravo!

--E com uma carta, que vem pregada na toalha.

Com que curiosidade Gonalo despedaou o sobrescripto! Mas, apezar de
lacrado com um pomposo sello d'Armas, apenas continha linhas a lapis
n'um bilhete de visita da prima Maria Mendona:--Hontem ao jantar
contei quanto o primo Gonalo gosta de pcegos sobretudo aboborados em
vinho, e a Annica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho
de pcegos da _Feitosa_, que como sabe so fallados em todo o
Portugal... Mil saudades.--Gonalo imaginou logo no fundo da cesta,
debaixo dos pcegos, docemente escondida, uma cartinha da D. Anna!

--Bem! So pcegos... Deixa ahi sobre uma cadeira...

--Era melhor que os levasse j para a copa, Snr. Dr., para os arrumar na
prateleira...

--Deixa sobre a cadeira!

Apenas o Bento cerrra a porta, estendeu no cho a toalha, entornou
cuidadosamente por cima os pcegos formosos que perfumavam a livraria.
No fundo da cesta encontrou apenas folhas de parra. Levemente
desconsolado, cheirou um pcego. Depois considerou que os pcegos,
arranjados por ella, com parra que ella apanhra na latada, sob toalha
que ella escolhera no armario, formavam na sua mudez cheirosa um
recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o pcego:--e
recollocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.

Mas, ao outro dia, s duas horas, j com a parelha do Torto engatada 
caleche, j com as luvas caladas para a jornada d'Oliveira, recebeu uma
inesperada visita--a visita do Snr. Visconde de Rio-Manso. Descalando
as luvas o Fidalgo pensava:--O Rio-Manso! Que me querer esse
casmurro?--Na sala, pousado  beira do canap de velludo verde e
esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Villa Clara e
deante do porto da Torre vencera o seu teimoso acanhamento para
apresentar os seus respeitos ao Snr. Gonalo Ramires. E no s para esse
gostoso dever--mas tambem (como soubera que S. Ex.^a se propunha
Deputado pelo Circulo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra o
seu prestimo e os seus votos...

Gonalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraadamente o bigode. E
o Visconde de Rio-Manso no estranhava aquelle pasmo por que de certo o
Snr. Gonalo Ramires o conhecra sempre como ferrenho Regenerador... Mas
ento! Elle pertencia  gerao, agora bem rareada, que antepunha aos
deveres da Politica os deveres da gratido:--e alm da sympathia que lhe
merecia o Snr. Gonalo Ramires (pelo que constava em todo o Districto do
seu talento, da sua affabilidade, da sua caridade) tambem conservava
para com S. Ex.^a uma divida de gratido, ainda aberta, no por
indifferena, mas por timidez...

--V. Ex.^a no adivinha, Snr. Gonalo Mendes Ramires?... No se lembra?

--No, realmente, Snr. Visconde, no me...

Pois uma tarde o Snr. Gonalo Mendes Ramires passava a cavallo pela
quinta da _Varandinha_, quando a sua neta, brincando no terrao (aquelle
terrao gradeado d'onde se curva uma magnolia), deixou escapar uma pla
para a estrada. O Snr. Gonalo Mendes Ramires, rindo, apeou
immediatamente, apanhou a pla, e, para a restituir  menina debruada
da grade, abeirou a egoa do muro depois de montar--e com que ligeiresa e
garbo!...

--V. Ex.^a no se lembrava?

--Sim, sim, agora...

Pois no ladrilho do terrao, rente da grade, pousava um jarro cheio de
cravos. O Snr. Gonalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que,
louvado Deus, no era acanhada!) pediu um cravo, que ella escolheu--e
que lhe deu, toda sria, como uma senhora. E elle, que observra da
janella do seu quarto, pensava:--Ora ahi est! Este Fidalgo da Torre,
um to grande Fidalgo, que amavel!--Oh S. Ex.^a no tinha que rir e
corar... A gentileza fra grande--e a elle, av, parecra immensa! Mas
no ficra smente na pla apanhada...

--O Snr. Gonalo Mendes Ramires no se recorda?...

--Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...

Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonalo Mendes Ramires mandra da Torre
um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este
gracejo:--Em agradecimento d'um cravo, rosas  Snr.^a D. Rosa.

Gonalo quasi pulou na cadeira, divertido:

--Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!.. Agora me recordo!

Pois desde essa tarde elle sempre almejra por uma opportunidade de
mostrar ao Snr. Gonalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua
sympathia. Mas que! era timido, vivia muito retirado... N'essa manh
porm, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia que S. Ex.^a se apresentava
deputado pelo Circulo. Apezar de ser eleio to segura, j pela
influencia do Snr. Ramires, j pela influencia do Governo, logo
pensra--Bem, ahi est a occasio! E, agora offerecia a S. Ex.^a, na
freguezia de Canta-Pedra, o seu prestimo e os seus votos.

Gonalo murmurou, enternecido:

--Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sensibilisar mais do que uma
offerta to espontanea, to...

--Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.^a acceitar. E agora no fallemos
mais n'esse meu pobre prestimo e n'esses meus pobres votos... Pois V.
Ex.^a tem aqui uma veneravel vivenda.

E como o Visconde alludia ao desejo, j n'elle antigo, de admirar de
perto a famosa torre, mais velha que Portugal--ambos desceram ao pomar.
O Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em silencio para a torre;
reconheceu (apezar de liberal) o prestigio que resulta d'uma to alta
linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois,
sabendo que o Pereira da Riosa arrendra a quinta, invejou ao Snr.
Ramires to cuidadoso e honrado rendeiro...--Deante do porto, o
_char--bancs_ do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e
nedias. Gonalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, supplicou ao
Snr. Visconde que beijasse por elle a mosinha da Snr.^a D. Rosa.
Commovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma esperana--e era que S.
Ex.^a um dia,  sua escolha, parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta,
para conhecer mais intimamente a menina da pla e do cravo...

--Mas com immensa honra!... E desde j me proponho a ensinar  Snr.^a D.
Rosa, se ella o no sabe, o jogo da pla  antiga portugueza.

O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mo sobre o
corao.

Gonalo, trepando as escadas, murmurava:--Oh senhores, que sympathico
homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como s
vezes, por uma pequenina atteno, se ganha um amigo! Com certeza, para
a semana vou a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!

E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou na caleche a pasta de
marroquim com o manuscripto, o cesto sentimental dos pcegos da D.
Anna--e accendeu um charuto, e saltou  almofada, e tomou as redeas para
lanar, n'um trote alegre at Oliveira, a parelha branca do Russo.

No largo d'El-Rey, antes d'apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta
noticias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graas a Deus... O
Snr. Jos Barrlo partira de manh a cavallo para a quinta do Snr. Baro
das Marges, s recolhia  noite...

--E o Snr. Padre Sueiro?

--O Snr. Padre Sueiro, creio que est para casa da Snr.^a D. Arminda...

--E a Snr.^a D. Graa?

--A Snr.^a D. Graa desceu ha um bocadinho grande para o Mirante, de
chapeu... Naturalmente ia  Egreja das Monicas.

--Bem. Leva esse cesto de pcegos e dize ao Joaquim da Copa que o ponha
na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao quarto
agoa quente.

O relogio de parede, na sala de espera, gemia preguiosamente as cinco
horas. O palacete repousava n'um claro silencio. E depois da poeira e
dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonalo a frescura do seu
quarto com as quatro janellas abertas sobre o jardim regado e sobre a
cerca das Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma gaveta da commoda
a pasta preciosa de marroquim. Uma creada de olhos repolhudos entrra
com o jarro d'agua quente:--e o Fidalgo, como sempre, chasqueou a moa
sobre os lindos sargentos de Cavallaria, cujo quartel tentador dominava
o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o
dia com paixo. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado,
assobiando vagamente, encostado  varanda sobre a callada rua das
Tecedeiras. O sino das Monicas lanou um lindo repique... E Gonalo,
enfastiado da sua solido, decidiu descer pelo terrao do jardim, e
surprehender Gracinha nas suas devoes, na Egrejinha.

Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da Copa:

--Ento o Snr. Barrlo hoje no janta?

--O Snr. Barrlo foi jantar com o Snr. Baro das Marges, na quinta...
So os annos da menina. Naturalmente s recolhe  noite.

Gonalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo para o
casaco um ramo de flres ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da
porta com que o Barrlo a enriquecera, uma porta envidraada, arqueada
em ferradura, com um monogramma de cres rutilantes: e metteu pela rua
que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e penumbra pela rama
enlaada dos seus altos loureiros. Adiante, circumdado de bancos de
pedra, d'arvores de aroma e flr, cantava dormentemente o fino repuxo
n'um tanque redondo, de borda larga, onde s'espaavam grossos vasos de
loua branca com o brazo ramalhudo dos Ss. Certamente na vspera ou de
manh se lavra o tanque, por que na agoa muito transparente, sobre as
lages muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos
rosados, os peixes que Gonalo assustou mergulhando e agitando a
bengala. E d'aquella borda do tanque j elle avistava ao fundo de outra
rua, debruada de dhalias abertas, o Mirante--uma construco do seculo
XVIII, simulando um Templosinho grego, cr de rosa desbotada, com um
gordo Cupido sobre a cupula, e janellinhas de rocalha entre o meio
relevo das columnas canelladas por onde trepavam jasmineiros.

Gonalo arrancou, como costumava, folhas d'um ramo de lucia-lima, para
esmagar e perfumar as mos: e continuou para o Mirante, vagarosamente,
por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente ensaibrada, os
sapatos finos de verniz que calra pousavam sem rumor no saibro molle.
E assim, n'um silencio de sombra indolente, se acercou do Mirante--e
d'uma das janellinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a
persiana de taboinhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de
pedra, que, do elevado e comprido terrao sobre que se estendia o
jardim, communicava com a encovada rua das Tecedeiras, quasi em frente 
Capella das Monicas. E Gonalo, sem pressa, descia--quando, atravez da
persiana rala, sentiu dentro do Mirante um susurro, um cochichar
perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das creadas da casa se refugira
n'esse Templosinho de Amor com um dos sargentos terriveis de
Cavallaria... Mas, no! impossivel! Pois se, momentos antes, Gracinha
rora aquella janella e pisra aquella escada, no seu caminho para as
Monicas! E ento outra ida o varou como uma espada--e to dolorosa que
recuou com terror da beira do Mirante d'onde ella perversamente o
assaltra. J porm uma desesperada curiosidade a agarrra, o
empurrava--e collou a face  persiana com a cautella d'um espio. O
Mirante recahira em silencio--Gonalo temia que o trahissem as pancadas
do seu corao... Santo Deus! De novo o murmurio recomera, mais
apressado, mais turbado. Alguem supplicava, balbuciava:--No, no, que
loucura!--Alguem urgia, impaciente e ardente:--Sim, meu amor! sim, meu
amor! E a ambos os reconheceu--to claramente como se a persiana se
erguesse e por ella entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era
Gracinha! Era o Cavalleiro!

Colhido por uma immensa vergonha, no atarantado pavor de que o
surprehendessem junto do Mirante e da torpeza escondida--enfiou pela rua
das dhalias, encolhido, com os sapatos leves no saibro molle, costeou o
repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na escurido dos
loureiros, deslisou surrateiramente por traz da estufa--penetrou no
socego do Palacete. Mas o murmurio do Mirante ainda o envolvia, mais
desfallecido, mais rendido--No, no, que loucura!... Sim, sim, meu
amor!...

Abalou atravez das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou
abafadamente pela escadaria de pedra, varou o porto n'uma carreira,
espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No Largo parou, deante da
grade do relogio do sol. Mas o susuro do Mirante errava por todo o Largo
como um vento enroscado, raspando as lages, batendo as barbas dos Santos
sobre o portal da Egreja de S. Matheus, redemoinhando nos telhados
musgosos da Cordoaria...--No, no, que loucura! Sim, sim! meu amor!
Ento Gonalo sentiu a anciedade desesperada d'escapar para longe, para
immensamente longe do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella
vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria
do Maciel, a mais retirada, para alm das ultimas casas, na estrada do
Seminario. E cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, correu,
mandou engatar uma caleche fechada.

Emquanto esperava  porta, n'um banco, passou pela estrada uma lenta
carroa com moveis, panellas de cosinha, um grande colxo onde se
alastrava uma nodoa. Bruscamente Gonalo recordou o divan que guarnecia
o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com mollas
lassas que rangiam. E de repente o murmurio recomeou, cresceu, rolando
com fragor de trovo por sobre os casebres visinhos, por sobre a cerca
do Seminario, por sobre Oliveira espantada:--No, no, que loucura!
Sim, sim, meu amor!

Com um salto, Gonalo gritou para dentro, para a cavallaria escura:

--Ento, que inferno! no acaba, essa carroagem?

--J a largar, meu Fidalgo.

No relogio da Piedade sete horas batiam--quando elle se atirou para a
caleche, e fechou as _stores_ prras, e se enterrou no fundo, bem
sumido, esmagado, com a sensao que o Mundo tremera, e as mais fortes
almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando
dentro um monto ignorado de lixo e de saias sujas.




IX


 porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto j amarrotado, Gonalo
ralhava com a Rosa cosinheira:

--Oh Rosa! pois tanto lhe recommendei que no escrevesse  mana
Graa?... Que teimosa! Ento no arranjavamos a pequena, sem essas
lamurias para Oliveira? Graas a Deus, a Torre  larga bastante para
mais uma creancinha!

 que morrera a Crispola--a desgraada viuva, visinha da Torre, que com
um rancho miudo de dous pequenos, tres raparigas, definhava no catre
desde a Paschoa. E agora Gonalo, que mantivera o casebre em fartura,
andava accommodando as pobres creanas--j por cuidado d'elle muito
aceadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (tambem Crispola),
sempre encafuada na cosinha da Torre, passava regularmente a ajudanta
da Rosa, com soldada. Um dos rapazes, de doze annos, espigado e
esperto, tambem Gonalo o empregava na Torre como andarilho, para os
recados, com fardeta de botes amarellos. O outro, molle e ranhoso, mas
com o geito e o amor de carpinteirar, j Gonalo, sob o patrocinio da
tia Louredo, o collocra em Lisboa, na Officina de S. Jos. D'uma das
outras raparigas se encarregava a me de Manoel Duarte, amoravel senhora
que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava Gonalo de
quem se considerava _vassalla_. Mas para a mais novinha e a mais
fraquinha no se arranjava amparo solido. A Rosa lembrra ento--que
certamente a Snr.^a D. Maria da Graa recolheria a creaturinha...
Gonalo rosnra com seccura:--Oh! por uma cdea mais de po no se
necessita encommodar a _cidade d'Oliveira_! Rosa, porm, enlevada na
obra, desejando para pequerrucha to franzina e loira o agasalho d'uma
senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada lettra do Bento, uma
verbosa carta com o pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e
louvores devotos  caridade do Snr. Doutor. E era a resposta de
Gracinha, demorada mas enternecida, com a recommendao de lhe mandarem
logo a pobre creana--que impacientava o Fidalgo.

Por que, desde a tarde abominavel do Mirante, estranhamente se apoderra
d'elle uma repugnancia quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era
como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes cr de
rosa empestassem o jardim, o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade
d'Oliveira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante essa regio
empestada onde o seu corao e o seu orgulho suffocavam... Logo depois
da sua fuga recebera do bom Barrlo uma carta espantada:--Que tlha foi
essa? Porque no esperaste? Eu, quando voltei  noite da quinta do
Marges, at fiquei com cuidado. E no imaginas como a Gracinha anda
nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. J
hoje comemos os pcegos, mas no comprehendemos!...--Gonalo respondeu
seccamente n'um bilhete:--Negocios. Depois recordou que deixra na
gaveta do seu quarto o manuscripto da Novella: e mandou um moo da
quinta, de madrugada, com um recado quasi secreto ao Padre Sueiro, para
que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos
senhores... Entre a Torre e os Cunhaes s desejava separao e
silencio.

E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a
Villa-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome j andasse rosnada
pelo estanco do Simes ou pelo armazem do Ramos) no cessou de vibrar
n'uma colera espalhada que a todos varava... Colera contra a irm que,
calcando pudor, altivez de raa, receio dos escarneos d'Oliveira, to
facil e estouvadamente como se calcam as flres desbotadas d'um tapete,
correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas elle lhe acenra com o
leno almiscarado! Colera contra o Barrlo, o bochechudo bacco, que
empregava os seus baccos dias celebrando o Cavalleiro, arrastando o
Cavalleiro para o Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais
finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, ageitando as almofadas
de todos os camaps para que o Cavalleiro saboreasse estiradamente o seu
charuto e a graa presente de Gracinha! Emfim colera contra si, que,
pela baixa cubia de uma cadeira em S. Bento, abatera a unica muralha
segura entre a irm e o homem da marrafa lusente--que era a sua
inimizade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, to
rijamente reforada e recaiada!... Ah! todos tres horrendamente
culpados!

Depois uma tarde, enfastiado da solido, ousou um passeio por
Villa-Clara. E reconheceu que na Assembleia, no estanco do Simes, na
loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente to ignorados como
se passassem nas profundidades da Tartaria. Immediatamente a sua alma
doce, agora socegada, se abandonou  doura de tecer desculpas subtis
para todos os culpados d'aquella queda triste... Gracinha, coitada, sem
filhos, com to mollengo e ensosso marido, alheia a todos os interesses
da intelligencia, indolente mesmo para uma costura ou bordado--cedra,
que mulher no cederia?  credula e primitiva paixo que lhe brotra na
alma, n'ella se enraizra, lhe dra as suas unicas alegrias do mundo e
(influencia ainda mais poderosa!) lhe arrancra as suas unicas lagrimas!
O Barrlo, coitado, era o Bacco--e como o pilriteiro da cantiga,
incapaz de mais nobres fructos, s produzia os pilritos da sua
Bacoquice. E elle, coitado d'elle, pobre, ignorado, irresistivelmente se
rendera  fatal Lei d'Accrescentamento, que o levra, como a todos leva
na ancia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual
que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os humbraes... Ah
realmente todos bem pouco culpados deante de Deus que nos creou to
variaveis, to frageis, to dependentes de foras por ns ainda menos
governadas do que o Vento ou do que o Sol!

No, irremissivelmente culpado,--s o outro, o malandro da grenha
ondeada! Esse, em toda a sua conducta com Gracinha, desde estudante,
mostrra sempre um egoismo atrevido, s punivel como puniam os antigos
Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcassa posta aos
corvos. Em quanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um
namoro bocolico sob os arvoredos da Torre--namorra. Quando considerou
que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira--trahira. Logo
que a antiga bem amada pertenceu a outro homem--recomera o cerco
languido para colher, sem os encargos da paternidade, as emoes do
sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta--no se
demora, fende brutamente sobre a preza! Ah como o av Tructesindo
trataria villo de tal villania! Certamente o assava n'uma rugidora
fogueira deante das barbacans--ou, nas masmoras da Alcaova, lhe entupia
as guellas falsas com bom chumbo derretido...

Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o
Cavalleiro nas ruas d'Oliveira, carregar o chapeu sobre a testa e
passar! A menor diminuio n'essa intimidade to desastradamente
reatada--seria como a revelao da torpeza ainda abafada nas paredes do
Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria.--Olha o Fidalgo da Torre!
Mette o Cavalleiro nos Cunhaes com a irm, e logo, passadas semanas,
rompe de novo com o Cavalleiro! Houve escandalo, e gordo!--Que delicia
para as Lousadas! No, ao contrario! agora devia ostentar pelo
Cavalleiro uma fraternidade to larga e to ruidosa--que, pela sua
largueza e o seu ruido, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo
que por traz latejava. Fingimento torturante--e imposto pela honra do
nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do
jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante!--e por fra, ao sol, nas
praas d'Oliveira elle sempre com o brao carinhosamente enlaado no
brao do Cavalleiro!

Os dias rolavam--e no espirito de Gonalo no se estabelecia serenidade.
E sobretudo o amargurava sentir que era forado a essa intimidade
vistosa com o Cavalleiro--tanto pelo cuidado do seu nome, como pela
conveniencia da sua Eleio. Toda a sua altivez por vezes se
revoltava:--Que me importa a Eleio! Que valor tem uma encardida
cadeira em S. Bento?... Mas logo a secca Realidade o emmudecia. A
Eleio era a unica fenda por onde elle lograria escapar do seu buraco
rural; e, se rompesse com o Cavalleiro, esse villo, vezeiro a
villanias, immediatamente, com o appoio da horda intrigante de Lisboa,
improvisaria outro Candidato por Villa-Clara... Desgraadamente elle era
um d'esses seres vergados que _dependem_. E a triste dependencia d'onde
provinha? Da pobreza--d'essa escassa renda de duas quintas, abastana
para um simples, mas pobreza para elle, com a sua educao, os seus
gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito de sociabilidade.

E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro
pensamento-- D. Anna Lucena, aos seus duzentos contos... At que uma
manh encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora:--casar com a
D. Anna!--Por que no? Ella claramente lhe mostrra inclinao, quasi
consentimento... Por que no casaria com a D. Anna?

Sim! o pae carniceiro, o irmo assassino... Mas tambem elle, entre
tantos avs at aos Suevos ferozes, descortinaria algum av carniceiro;
e a occupao dos Ramires, atravez dos seculos heroicos, consistira
realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos
mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. Anna,
pelo casamento, subira da Populaa para a Burguesia. Elle no a
encontrava no talho do pae, nem no velhacouto do irmo--mas na quinta da
_Feitosa_, j Rica-Dona, com procurador, com capello, com lacaios, como
uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a hesitao era pueril--desde
que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro
rural, os trazia com o seu corpo, mulher to formosa e sria. Com esse
puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, no necessitaria para dominar
na Politica a refalsada mo do Cavalleiro... E depois que vida nobre e
completa! A sua velha Torre restituida ao esplendor sobrio d'outras
eras; uma lavoura de luxo no historico torro de Treixedo; as viagens
fecundas s terras que educam!... E a mulher que fornecia estes regalos
no lhes amargava o goso, como em tantos casamentos ricos, com a sua
fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle relentada... No! Depois
do brilho social do dia no o esperava na alcova um mostrengo--mas
Venus.

E assim, lentamente trabalhado por estas tentaes, mandou uma tarde um
bilhete  prima Maria,  _Feitosa_, pedindo--para se encontrarem, ss,
n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter com ella uma
_conversasinha_ sria e intima... Mas tres immensos dias se
arrastaram--e no appareceu a almejada carta da _Feitosa_. Gonalo
concluiu que a prima Maria, to esperta, farejando a natureza da
_conversasinha_ e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se
recusava. Atravessou ento uma desolada semana, remoendo a melancolia
d'uma vida que sentia ca e toda feita d'incertezas. O orgulho, um pudor
complicado, no lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto d'onde
implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cupula do Mirante com
o seu gordo Cupido:--e quasi o arrepiava a ida de beijar a irm na face
que o outro babujra! Sobre a Eleio descera um silencio de abobada--e
outra repugnancia, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavalleiro. Joo
Gouveia gozava as suas frias na Costa, de sapatos brancos, apanhando
conchinhas na praia. E Villa-Clara no se tolerava n'esse meado ardente
de Septembro--com o Tit no Alemtejo onde o levra uma doena do velho
Morgado de Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da me dirigindo as
vindimas, e a Assembleia deserta e adormecida sob o innumeravel susurro
das moscas...

       *       *       *       *       *

Para se occupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto d'Arte,
retomou a sua Novella. Mas sem fervor, sem veia agil. Agora era a
sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavalleiros, correndo sobre
o Bastardo de Bayo. Lance difficultoso--reclamando fragor, um
rebrilhante colorido Medieval. E elle to molle e to apagado!...
Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte rechera esse violento trecho
de bem apinceladas paisagens, d'interessantes rasgos de guerra.

Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a
decrepita ponte, cujos rotos barrotes e taboes carcomidos entulhavam no
fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acautelladamente a
desmantelra para deter a cavalgada vingadora. Ento a pesada hoste de
Santa Ireneia avanou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos
em demanda do vau do Espigal... Mas que tardana! Quando as derradeiras
mulas de carga choutaram na terra d'alm-ribeira j a tarde se adoava,
e nas poas d'agua, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas ainda
d'ouro pallido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom Garcia Viegas,
o _Sabedor_, aconselhou que a mesnada se dividisse:--a peonagem e a
carga avanando para Montemor, esgueirada e callada, para esquivar
recontros; os senhores de lana e os besteiros de cavallo arrancando em
dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do
_Sabedor_: e a cavalgada, aligeirada das filas tardas de archeiros e
fundibularios, largou, soltas as rdeas, atravez de terras ermas, depois
por entre barrocaes, at aos _Tres-Caminhos_, desolada chan onde se
ergue solitariamente aquelle carvalho velhissimo que outr'ora, antes
d'exorcisado por S. Froalengo, abrigava no sabbado mais negro de
Janeiro, ao claro d'archotes enxofrados, a Grande Ronda de todas as
bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada:
e, alado nos estribos, farejava as tres sendas que se trifurcam e se
encovam entre asperos, lobregos cerros de bravio e de tojo. Passra ahi
o Bastardo malvado?... Ah! por certo passra e toda a sua
maldade--porque no respaldo d'uma fraga, junto a tres cabras magras
retouando o matto, jazia, com os braos abertos, um pobre pastorinho
morto, varado por uma frecha! Para que o triste cabreiro no soprasse
novas da gente de Bayo--uma bruta setta lhe atravessra o peito
escarnado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se
embrenhra o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suo que rolava
d'entre-montes, no appareciam pegadas revoltas de tropel fugindo. E, em
tal solido, nem choa ou palhoa d'onde villo ou velha alapada
espreitassem a levada do bando... Ento, ao mando do Alferes Affonso
Gomes, tres almogavres despediram pelos tres caminhos  descoberta--em
quanto os Cavalleiros, sem desmontar, desafivelavam os morries para
limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os ginetes
d'um sumido fio d'agua que  orla da chan se arrastava entre ralo
canial. Tructesindo no se arredou de sob a ramada do carvalho de S.
Froalengo, immovel sobre o murzello immovel, todo cerrado no ferro da
sua negra armadura, as mos juntas sobre a sella e o elmo pesadamente
inclinado como em magua e orao. E ao lado, com as colleiras errissadas
de prgos, as sangrentas linguas penduradas, arquejavam, estirados, os
seus dous mastins.

J no emtanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha--quando o
almogavre que mettera pela senda de Nascente reappareceu n'um rolo de
poeira, atirando logo o alarde de longe, com a ascuma alta. A hora
escassa de carreira avistra num cabeo uma hoste acampada, em arraial
seguro, rodeado d'estaca e valla!...

--Que pendo?

--As treze arruellas.

--Deus louvado! gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando.  D.
Pedro de Castro, _o Castello_, que entrou com os Leonezes e vem pelas
senhoras Infantas!

Por esse caminho pois no se atrevera o Bastardo!... Mas j pela senda
de Poente recolhia outro almogavre contando que entre-cerros, n'um
pinhal, topra um bando de bufarinheiros genovezes, retardados desde
alva, por que um d'elles esmorecera com mal de febres. E
ento?...--Ento, pela borda do pinheiral apenas passra em todo o dia
(no jurar dos genovezes) uma companhia de trues voltando da feira de
Grajelos. S restava pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado
como o leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um brado de
Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas j o crepusculo tristissimo
descia--e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindavel,
entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe,
rasto de rez ou homem. Ao longe, mais ao longe, emfim, enchergaram a
campina arida, coberta de solido e penumbra, dilatada na sua mudez at
a um ceu remoto, onde j se apagava uma derradeira tira de poente cr de
cobre e cr de sangue. Ento Tructesindo deteve a abalada, rente
d'espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suo:

--Por Deus, senhores, que corremos em pressa v e sem esperana!... Que
pensaes, Garcia Viegas?

Todo o bando se apinhra: e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes
sob as coberturas de malha. O _Sabedor_ estendeu o brao:

--Senhores! O Bastardo, antes de ns, galgou d'escapada essa campina
alm, e metteu a Valle-Murtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que
 bem afortalezada e parenta de Bayo...

--E ns, pois, D. Garcia?

--Ns, senhores e amigos, s nos resta tambem pernoitar. Voltemos aos
_Tres-Caminhos_. E de l, em boa avena, ao arraial do Snr. D. Pedro de
Castro, a pedir agasalho... A par de tamanho senhor encontraremos mais
fartamente que nos nossos alforges o que todos, christos e brutos,
vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tres golpes
rijos...

Todos bradaram com alvoroo:--Bem traado! bem traado!...--E de novo,
pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pezadamente para os
_Tres-Caminhos_--onde j dous corvos se encarniavam sobre o corpo do
pastorinho morto.

Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeo alto, alvejaram as
tendas do arraial, ao claro das fogueiras que por todo elle fumegavam.
O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina tres sons lentos annunciando
Filho-d'Algo. Logo de dentro da estacada outras businas soaram, claras e
acolhedoras. Ento o Adail galopou at ao vallado, a annunciar s
atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos d'almenara, a
mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parra no corrego escuro, que o
pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dous
cavalleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do
outeiro--bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor
de Santa Ireneia e muito se prazia para todo seu regalo e servio!
Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel
de amora e Mendo de Briteiros e outros parentes de solar, todos sem
lana ou broquel, descalados os guantes, galgaram o cabeo at 
estacada, cujas cancellas se escancararam, mostrando na claridade
incerta dos fogareus sombrios magotes de pees--onde, por entre os
bassinetes de ferro, surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros
enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou aos barrotes dous
infanes, sacudindo a espada, bradaram:

--Honra! honra! aos Ricos-Homens de Portugal!

As trompas misturavam o clangor rispido aos rufos lassos dos tambores. E
por entre a turba, que calladamente recura em alas lentas, avanou,
precedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes accesos, o velho
D. Pedro de Castro, _o Castello_, o homem das longas guerras e dos
vastos senhorios. Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o seu
peito j curvado, como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e
tamanhas cubias de reinar. Sem elmo, sem armas, appoiava a mo
cabelluda de rijas veias a um basto de marfim. E os olhos encovados
faiscavam, com affavel curiosidade, na requeimada magreza da face, de
nariz mais recurvo que o bico d'um falco, repuxada a um lado por um
fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quasi branca.

Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vagarosamente os braos. E com
um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de
rapina:

--Viva Deus! Grande  a noite que vos traz, primo e amigo! Que no a
esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!...

       *       *       *       *       *

Ao rematar este duro Capitulo, depois de tres manhs de trabalho,
Gonalo arrojou a penna com um suspiro de cansao. Ah! j lhe entrava a
fartura d'essa interminavel Novella, desenrolada como um novello
solto--sem que elle lhe podesse encurtar os fios, to cerradamente os
emmaranhra no seu denso Poema o Tio Duarte que elle seguia gemendo! E
depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses
Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses _Sabedores_, eram
realmente vares Affonsinos, de solida substancia historica?... Talvez
apenas oucos titeres, mal engonados em erradas armaduras, povoando
inveridicos arraiaes e castellos, sem um gesto ou dizer que datassem das
velhas edades!

E ao outro dia no reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquella
sofrega correria dos de Santa Ireneia sobre o bando escapadio de Bayo.
De resto j remettera tres Capitulos da Novella--j calmra as ancias do
Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada
pelos canaps ou por entre os buxos do jardim, fumando e tristemente
sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar accrescia um
aborrecimento de dinheiro--uma lettra de seiscentos mil ris, do
derradeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada, e que
agora o emprestador, um certo Leite, d'Oliveira, reclamava com dureza. O
seu alfaiate de Lisboa tambem o importunava com uma conta pavorosa,
atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solido da Torre.
Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A
Eleio encalhada como uma barca no lodo. A irm de certo com o _outro_
no Mirante. At a prima Maria desattendendo ingratamente o seu timido
pedido d'uma conversasinha. E elle no seu quente casaro, sem energia,
immobilisado n'uma inercia crescente, como se cordas o travassem, cada
dia mais apertadas--e d'homem se volvesse em fardo.

Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o
Bento, acabava de se vestir para montar a cavallo, espairecer n'um
galope pelos caminhos de Valverde--quando o pequeno da Crispola (j
estabelecido na Torre como pagem, de fardeta de botes amarellos) bateu
esbaforidamente  porta.--Era uma senhora que parra ao porto, dentro
d'uma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...

--No disse o nome?

--No, senhor.  uma senhora magra, puxada a dous cavallos, com redes...

A prima Maria! Com que alvoroo correu, agarrando no cabide do corredor
um velho chapeu de palha! E em baixo foi como se contemplasse a Deusa da
Fortuna na sua roda ligeira.

--Oh prima Maria, que surpreza!... Que felicidade!

Debruada da portinhola da carruagem (a caleche azul da _Feitosa_), D.
Maria Mendona, com um chapeu novo enramalhetado de lilazes, desculpou
atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a carta do primo muito
atrasada... Sempre o fatal carteiro, tropego e bebedo... Depois uns dias
muito atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava para o inverno
a casa da rua das Vellas.

--E finalmente, como devia uma visita em Villa-Clara  pobre Venancia
Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar na
Torre... E ento?

Gonalo sorria, embaraado:

--Ento, nada de grave, mas...  que desejava conversar comsigo... Por
que no entra?

Abrira a portinhola. Ella preferia passear na estrada. E ambos
s'encaminharam para o velho banco de pedra que os alamos abrigavam em
frente ao porto da Torre. Gonalo sacudiu com o leno a ponta do banco.

--Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas  difficil, to
difficil!... Talvez o melhor seja atacar a questo brutalmente.

--Ataque.

--Ento l vae!... A prima acha que eu perco o meu tempo se me dedicar 
sua amiga D. Anna?

Pousada de leve  borda do banco, enrolando attentamente a seda preta do
guardasolinho, Maria Mendona tardou, murmurou:

--No, acho que o primo no perde o seu tempo...

--Ah! acha?

Ella considerava Gonalo, gozando a sua perturbao e anciedade.

--Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!

--Mas que quer que lhe diga mais? J lhe declarei em Oliveira. Ainda sou
muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a
Annica  bonita,  rica,  viuva...

Gonalo arrancou do banco, erguendo os braos, em desolao. E, como D.
Maria tambem se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os
alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:

--Ora bonita, viuva, rica... Para conhecer esses grandes segredos no a
incommodava eu, prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A
prima sabe, de certo j ambas conversaram... Seja franca. Ella tem por
mim alguma sympathia?

D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guardasolinho o trilho
amarellado da relva:

--Pois est claro que tem...

--Bravo! Ento, se d'aqui a um tempo, passados estes primeiros mezes de
luto, eu me declarasse, me...

Ella dardejou a Gonalo os espertos olhos:

--Santo Deus, como o primo por ahi vae, a galope... Ento  uma paixo?

Gonalo tirou o seu velho chapeu de palha, passou lentamente os dedos
pelos cabellos. E n'um immenso e triste desabafo:

--Olhe, prima!  sobretudo a necessidade de me accommodar na vida! Pois
no lhe parece?

--Tanto me parece que lhe indiquei o bom poizo... E agora adeus, passa
das cinco horas. No me quero demorar por causa dos creados.

Gonalo protestou, supplicou:

--Mais um bocadinho!...  to cedo! S outra cousa, com franqueza. Ella
 boa rapariga?

D. Maria voltra, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo  caleche:

--Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa
rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo no imagina como anda
a _Feitosa_. A ordem, o acceio, a regularidade, a disciplina... Ella
olha por tudo, at pela adega, at pela cocheira!

Gonalo esfregou radiantemente as mos:

--Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande acontecimento hei de
gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de
Ramires!

--Por isso eu trabalho, para servir o brazo e o nome! exclamou ella,
saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada
aquella clara confisso.

O trintanario trepra  almofada. E em quanto os cavallos folgados
largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:

--Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Tit!

--O Tit?...

--Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu no o trouxe na carruagem
por decencia, para o no comprometter...

E a caleche rolou--entre os risos e os doces acenos com que ambos se
afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma conspirao
sentimental.

Gonalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao encontro do Tit. E
j o alvoroava a ida de colher do Tit, intimo da _Feitosa_,
informaes sobre a D. Anna, o seu genio, os seus modos. A prima Maria,
por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonas!),
idealisava a noiva. Mas o Tit, o homem mais veridico do Reino, amando a
Verdade com a antiga devoo de Epaminondas, apresentaria D. Anna sem um
enfeite nem um desenfeite. E o Tit... Ah! sob o seu vozeiro troante, a
sua indolencia bovina, o Tit possuia um espirito muito attento, muito
penetrante.

Logo  Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de separao to
curta, o abrao foi estrondoso.

--Oh s Gonalo!...

--Oh Titsinho querido! tens feito c uma falta enorme!... E teu irmo?

O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fmea para velho
de sessenta annos. E elle l o avisra:--Mano Joo, mano Joo! olhe que
assim sempre agarrado aos papeis velhos e s cachopas novas, o mano
rebenta!

--E por c? Essa eleio?

--A eleio agora para outubro, nos comeos d'outubro... De resto,
semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu
seccadote, murchote, sem veia, at sem appetite.

--Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.

--Bem sei, j me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre...
Ella est na _Feitosa_ com a D. Anna.

Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na
_Feitosa_, com a tentao de desabafar, logo alli na estrada, sobre o
inesperado romance que desabrochra. Mas no ousou! Era um angustiado
acanhamento, como a vergonha de cubiar assim todos os restos do pobre
Lucena--o Circulo e a viuva.

Ento, conversando do Alemtejo e do mano Joo (que contra muitas
antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da
Portella  Torre, com teno de estirar o passeio at aos Bravaes. Mas,
na Torre, Gonalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas inesperados,
senhores de to poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio
lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo
a Rosa accudio, limpando as mos ao avental. O que! dous convidados!
Mesmo quatro, e mais valentes, que graas a Deus nosso Senhor o
jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprra a uma mulher da Costa um
cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O Tit reclamou
logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos
atravessavam o pateo--quando Gonalo reparou no Bento, escarranchado no
banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um
casto de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha enrolada
como d'uma bainha.

--Que casto  esse, Bento? assim embrulhado?

O Bento lentamente saccou da toalha torcida um chicote, escuro e
comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.

--Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no soto. Agora de tarde andava l a
escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou
com umas esporas de prateleira e com este arrcho...

Gonalo estudou o macisso casto de prata, sacudio a fina vara que
zinia:

--Explendido chicote... Oh Tit, hein?... Afiado como um cutello. E
antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo  feito?
baleia?

--De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano Joo
tem um, mas com casto de metal... Mata um homem!

--Bem, rematou Gonalo. Limpa e pe no meu quarto, Bento! Passa a ser o
meu chicote de guerra!

 porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de
cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira
tomava emfim a lavra da Torre. E Gonalo gracejou, mostrando ao Tit o
lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a
tornar a Torre uma fallada maravilha de cera, vinha e horta! O Pereira
coava a barba rala:

--E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que
um vintem! E o Fidalgo, como patro, merece terra em que os olhos se
esqueam de regalados!...

--Oh, Snr. Pereira! rebombou o Tit. Ento no se esquea de cuidar dos
meles.  uma vergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melo!

--Pois para o anno, assim Deus nos conserve, j V. Ex.^a comer na Torre
um bom melo!

Gonalo abraou ainda o esperto lavrador--e apressou para a estrada,
decidido a desenrolar toda a confidencia ao Tit, na solido favoravel
do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomearam a caminhada, o mesmo
enleio o travou--quasi temendo agora as informaes do Tit, homem to
sevro, de Moral to escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravaes o
findaram sem que Gonalo desafogasse. O crepusculo descera, molle e
quente, quando recolheram--conversando sobre a pesca do savel no
Guadiana.

Defronte do porto da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violo na
penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma aragem,
jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o
guardanapo o Tit, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou que
graas ao Senhor da Saude, a sede era boa! Elle e Gonalo praticaram as
usadas faanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o caf uma
immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz
dos outeiros de Valverde. Gonalo, enterrado n'uma cadeira de vime,
accendeu o charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas
semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente
varrida. E foi sentindo menos a doura da noite, que um sabor melhor 
vida desanuviada, que exclamou:

--Pois, senhores, agora, est uma delicia!...

Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomra o violo. Atravez da
quinta, pedaos de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto, a
agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e a
quietao do arvoredo, da claridade, da noite, penetravam n'alma com
adormecedora caricia. Tit e Gonalo saboreavam o famoso cognac de
Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no
Videirinha--que recura para o fundo da varanda, se envolvera em sombra.
Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspirao mais enternecida.
At os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as collinas, escutavam
os queixumes do _fado_ da Ariosa. E no escuro, sob a varanda, o pigarro
da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga,
o bater das orelhas d'um perdigueiro--eram como a presena d'um povo
suavemente attrahido pelo descante formoso.

Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario fulgor. Tit, pesado
do brodio, adormecra. E como sempre, para findar, Videirinha atacou
ardentemente o _Fado dos Ramires_:

    Quem te ver sem que estremea,
    Torre de Santa Ireneia,
    Assim to negra e callada
    Por noites de lua cheia...

E lanou ento uma quadra nova, que trabalhra n'essa semana com amor
sobre uma erudita nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica de
Paio Ramires, Mestre do Templo--a quem o Papa Innocencio, e a Rainha
Branca de Castella, e todos os Principes da Christandade supplicam que
se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Rei de Frana,
captivo nas terras de Egypto...

    Que s em Paio Ramires
    Pe agora o mundo a esperana...
    Que junte os seus Cavalleiros
    E que salve o Rei de Frana!

E por este av e tal faanha at Gonalo se interessou--acompanhando o
canto, n'um tremulo esganiado, de brao erguido:

    Ai, que junte os seus cavalleiros
    E que salve o Rei de Frana!...

Ao rolar mais forte do cro Tit descerrou as palpebras, arrancou do
canap o corpansil immenso--e declarou que marchava para Villa Clara:

--Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde hontem s quatro
da manh que larguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora, como aquelle
rei grego, um crusado por um burro!

Ento Gonalo, animado pelo cognac, tambem se ergueu com uma resoluo
quasi alegre:

--Oh Tit, antes de sahires anda c dentro que quero fallar comtigo a
respeito d'um caso!

Agarrra um dos candieiros, penetrou na sala de jantar onde errava o
cheiro de magnolias morrendo n'um vaso. E ahi, sem preparao, com os
olhos bem decididos, bem cravados no Tit--que o seguira arrastadamente,
ainda se espreguiava:

--Oh Tit, ouve l e s franco. Tu ias muito  _Feitosa_... Que te
parece aquella D. Anna?

Tit, que despertra como ao rebentar d'um morteiro, considerou Gonalo
com assombro:

--Ora essa! Mas a que proposito?...

Gonalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:

--Olha! Eu para ti no tenho segredos. N'estas ultimas semanas houveram
ahi umas conversas, uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a
tempos eu pensasse em casar com a D. Anna, creio que ella, por seu lado,
no recusava. Tu ias  _Feitosa_. Tu sabes... Que tal rapariga  ella?

Tit crusra os braos violentamente:

--Pois tu vaes casar com a D. Anna?

--Homem, no vou casar. No sigo esta noite para a Egreja. Por ora quero
s informaes... E de quem as posso ter, mais francas e mais seguras,
do que de ti, que s meu amigo e que a conheces?

Tit no descrusra os braos--levantando para o Fidalgo da Torre a face
honesta e sevra:

--Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu, Gonalo Mendes Ramires?...

Gonalo atirou um gesto de impaciencia e fartura:

--Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...

O Tit quasi berrou, na sua indignao:

--Qual fidalguia!  que um homem de bem, como tu, no pensa em casar com
uma creatura como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'alma e de
corao!

Gonalo emmudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se
forra, argumentou, deduzio:

--Bem! tu ento sabes outras cousas... Eu por mim sei que ella  bonita
e rica: sei tambem que  sria, por que nunca sobre ella se rosnou nem
aqui nem em Lisboa: so qualidades para se casar com uma mulher... Tu
agora affianas que se no pode casar com ella. Portanto sabes outras
cousas... Dize.

Foi ento o Tit que emmudeceu, immovel deante do Fidalgo como se o lao
d'uma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um esforo
enorme:

--Tu no me chamaste para eu depr como testemunha... Em principio, sem
explicaes, perguntas se podes casar com essa mulher. E eu, sem
explicaes, em principio, declaro que no... Que diabo queres mais?

Gonalo exclamou, revoltado:

--Que quero? Pelo amor de Deus, Tit!... Suppe tu que estou doidamente
apaixonado pela D. Anna, ou que tenho um interesse immenso em casar com
ella... Que no estou, nem tenho: mas suppe! N'esse caso no se desvia
um amigo d'um acto em que elle est to fundamente empenhado, sem lhe
apresentar uma razo, uma prova...

Assim apertado Tit baixou a cabea, que coou com desespero. Depois
acobardadamente, para escapar, adiou a contenda:

--Olha, Gonalo, eu estou muito estafado. Tu no vaes a esta hora para a
Egreja: e ella menos, que o outro marido ainda no arrefeceu na cova.
Ento manh conversamos.

Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo
Videirinha:

--So que horas, Videira! Toca a abalar, que no dormi desde Cidadelhe.

Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvasiou
atabalhoadamente o copo, recolheu o violo precioso. E Gonalo no os
deteve, esfregando silenciosamente as mos, amuado com aquella recusa do
Tit to desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma sala onde
dormia, esquecida desde os Ramires do seculo XVIII, uma espineta de
charo. No patamar da escada que conduzia  portinha verde, Gonalo,
para os allumiar, erguera um castial. Tit accendeu um cigarro  vela.
A sua mo cabelluda tremia.

--Ento, entendido... Appareo manh, Gonalo.

--Quando quizeres, Tit.

E no secco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito--que Tit
hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.

Videirinha, j na estrada, considerava o ceu, a luminosa serenidade:

--Que linda noite, snr. Doutor!

--Linda, Videirinha... E obrigado. Voss hoje tocou divinamente!

Gonalo entrra na sala dos retratos, pousra apenas o castial--quando,
por baixo da varanda aberta, o vozeiro do Tit retumbou:

--Oh Gonalo, desce c abaixo.

O Fidalgo rolou pelos degraus com soffreguido. Para alm dos alamos, no
luar da estrada, Videirinha afinava o violo. E apenas a face do Fidalgo
surdio na claridade da porta o Tit, que esperava com o chapo para a
nuca, desabafou:

--Oh Gonalo, tu ficaste amuado...  tolice! E entre ns no quero
sombras. Ento l vae! Tu no podes casar com essa mulher por que ella
teve um amante. No sei se antes ou depois d'esse teve outro. No ha
creatura mais manhosa, nem mais disfarada. No me venhas agora com
perguntas. Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu que t'o
affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!

Bruscamente metteu  estrada, com os possantes hombros vergados. Gonalo
no se movera de sobre os degraus de pedra, deante dos mudos alamos,
como elle immoveis. Uma palavra passra, irreparavel, no macio silencio
da noite e da lua--e eis o alto sonho que elle construira sobre a D.
Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo!
Lentamente subio, repenetrou na sala. Por cima da chamma alta da vela,
n'um painel fusco, uma face acordra, uma secca, amarellada face, de
altivos bigodes negros, que se inclinava, attenta como reparando. E
longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingenuos versos
celebrando a gloria tamanha da Casa illustre:

    Que s em Paio Ramires
    Pe agora o mundo esperana...
    Que junte os seus cavalleiros
    E que salve o Rei de Frana!...




X


At noite alta Gonalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza
de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S.
Fiel!), no cessra de padecer humilhaes. E todas lhe resultavam de
intentos muito simples, to seguros para qualquer homem como o vo para
qualquer ave--s para elle constantemente rematados por dr, vergonha ou
perda!  entrada da vida escolhe com enthusiasmo um confidente, um
irmo, que traz para a quieta intimidade da Torre--e logo esse homem se
apodra ligeiramente do corao de Gracinha e ultrajosamente a abandona!
Depois concebe o desejo to corrente de penetrar na Vida Politica--e
logo o Acaso o fra a que se renda e se acolha  influencia d'esse
mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses
annos de despeito to detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo,
agora restabelecido na sua convivencia, a porta dos Cunhaes, confiado na
seriedade, no rigido orgulho da irm--e logo a irm s'abandona ao antigo
enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na
sombra favoravel d'um caramancho! Agora pensa em casar com uma mulher
que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna--e
immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e segreda:--A mulher
que escolheste, Gonalinho,  uma marafona cheia d'amantes! De certo
essa mulher no a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira
accommodar nos formosos braos d'ella, muito confortavelmente, a sua
sorte insegura--e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a
humilhao costumada. Realmente o Destino malhava sobre elle com rancor
desmedido!

--E por qu? murmurava Gonalo, despindo melancolicamente o casaco. Em
vida to curta, tanta decepo... Porqu? Pobre de mim!

Cahio no vasto leito como n'uma sepultura--enterrou a face no
travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por
aquella sua sorte to contrariada, to sem soccorro. E recordava o
presumposo verso do Videirinha, ainda n'essa noite proclamado ao
violo:

    Velha casa de Ramires
    Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchra! Que mesquinha honra! E que contraste o do
derradeiro Gonalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses
grandes avs Ramires cantados pelo Videirinha--todos elles, se Historia
e Lenda no mentiam, de vidas to triumphaes e sonoras! No! nem sequer
d'elles herdra a qualidade por todos herdada atravez dos tempos--a
valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido--que na
fallada desordem da romaria da Riosa avanava com um guardasol contra
tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto
apagado, bem o podia livremente gemer--elle nascera com a _falha_, a
falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que,
irremediavelmente, deante de um perigo, uma ameaa, uma sombra, o
forava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir d'um malandro
de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem
motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa
carne, to espantadia!

E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer tambem,
gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o
abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca
por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoa os espertos
olhos e lhe aconselha por traz do leque que se interesse pela D.
Anna--logo elle, fumegando d'esperana, ergue sobre o dinheiro e a
belleza de D. Anna uma presumposa torre de ventura e luxo. E a Eleio?
essa desgraada Eleio? Quem o empurrra para a Eleio, e para a
reconciliao indecente com o Cavalleiro, e para os desgostos d'ahi
manados? O Gouveia, s com leves argucias, murmuradas por cima do
cache-nez desde a loja do Ramos at  esquina do Correio! Mas que! mesmo
dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe
impunha gostos, dietas, passeios, e opinies e gravatas!--Homem de tal
natureza, por mais bem dotado na Intelligencia,  massa inerte a que o
Mundo constantemente imprime frmas varias e contrarias. O Joo Gouveia
fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle
um beberro immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoo, em
vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E todavia
o Homem s vale pela Vontade--s no exercicio da Vontade reside o goso
da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno
submisso--ento  a delicia do dominio sereno: se encontra em torno
resistencia--ento  a delicia maior da lucta interessante. S no sahe
goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um
silencio e macieza de cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos
vares famosos pelo Querer--no conservaria, escondida algures no seu
Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa
energia hereditaria?... Talvez! nunca porm n'esse pco e encafuado
viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma
intensa e util. No! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da Alma onde
todo o homem realisa a liberdade pura--elle soffreria sempre a oppresso
da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. No
adormecia, a noite findava--j o relogio de charo, no corredor, batera
cavamente as quatro horas. E ento, atravez das palpebras cerradas, no
confuso canasso de tantas tristezas revolvidas, Gonalo percebeu,
atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces
lentas que passavam...

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com
cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de
uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma
gala--todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonalo,
espreitando por sobre a borda do lenol, reconhecia n'essas faces as
veridicas feies de velhos Ramires, ou j assim comtempladas em
denegridos retratos, ou por elle assim concebidas, como concebera as de
Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava
espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem, robustissimos
corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes
d'ao lampejante, embuados em fuscos mantos de revoltas prgas,
cingidos por faustosos gibes de brocado onde scintillavam as pedrarias
de collares e cintos;--e armados todos, com as armas todas da Historia,
desde e clava gda de raiz de roble errissada de puas, at ao espadim de
sarau enlaarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonalo no duvidava da
realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avs Ramires, os seus
formidaveis avs historicos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se
juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular--e formavam
em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia
magestosa da sua raa resurgida. E at mesmo reconhecia alguns dos mais
esforados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte
e o Videirinha gemendo fielmente o seu fado, lhe andavam sempre na
imaginao...

Aquelle alm, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o
peitoral, era certamente Gutierres Ramires o _d'Ultramar_, como quando
corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, to velho e
formoso, que estendia o brao, elle adivinhava Egas Ramires, negando
acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e  adultera Leonor!
Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendo real de
Castella, quem, seno Diogo Ramires, _o Trovador_, ainda na alegria da
radiosa manh d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do espelho
tremiam as ffas plumas escarlates do morrio de Paio Ramires, que
s'armava para salvar S. Luiz Rei de Frana. Levemente balanado, como
pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria s naus
inglezas que ante a pra da sua Capitanea submissamente amainavam por
Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Guio
d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a couraa,
inclinava para elle a sua face de donzel, com a doura grave d'um av
enternecido...

Ento, por aquella ternura attenta do mais poetico dos Ramires, Gonalo
sentio que a sua Ascendencia toda o amava--e da escurido das tumbas
dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um
longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos
seus avs resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua
vida, sem descano, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que
subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado:--Neto,
doce neto, toma a minha lana nunca partida!... E logo o punho d'uma
clara espada lhe roou o peito, com outra grave voz que o
animava:--Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em Ourique!... E
depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com
altiva certeza:--Que no derribar essa acha, que derribou as portas
d'Arzilla?...

Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avs formidaveis
perpassavam--e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e
provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas
arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e
Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno
do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente
gritavam:--Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga!...
Mas Gonalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes,
volveu:--Oh Avs, de que me servem as vossas armas--se me falta a vossa
alma?...

Acordou, muito cedo, com a enredada lembrana d'um pesadello em que
fallra a mortos:--e, sem a preguia, que sempre o amollecia nos
colches, enfiou um roupo, escancarou as vidraas. Que formosa manh!
uma manh dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem
lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol j pousava nos
arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doura outomnal. Mas, apesar
de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonalo permaneceu
toldado de sombras, das sombras da vspera, retardadas no seu espirito
opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um suspiro,
arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cordo da campainha.
O Bento no tardou com a infusa da agoa quente para a barba. E
acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle
silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr.
Doutor passra mal a noite...

--Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovao--que certamente fizera
mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado,
muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarro pesado. Mas o
Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou
ento, meio calice escasso.

Gonalo ergueu a cabea, na surpreza de encontrar logo ao comeo do seu
dia e to flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se
arrogavam--e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!

Eis ahi o Bento mandando--marcando a sua rao de cognac! E justamente o
Bento insistia:

--O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim no convm... Eu
tambem tive culpa em no tirar a garrafa...

Ento, perante despotismo to declarado, o Fidalgo da Torre teve uma
brusca revolta:

--Homem, no ds tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:

--Esta agua est morna! exclamou logo. J me tenho fartado de dizer!
Para a barba, preciso sempre agua a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:

--Pois esta agua est quasi a ferver... Nem para a barba se necessita
agua mais quente.

Gonalo encarou o Bento com furor. O que! mais objeces, mais leis!

--Pois v immediatamente buscar outra agua! Quando eu peo agua quente,
pretendo que venha em cacho. Irra! tanta sentena!... Eu no quero
moral, quero obediencia!

O Bento considerou Gonalo atravez d'um espanto que lhe inchra a face.
Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a
infusa. E j Gonalo se arrependia da sua violencia. Coitado, no era
culpa do Bento se a vida lhe andava a elle to estragada e sacudida!
Depois, em casa to antiga, no destoava a tradio dos antigos aios. E
o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas
ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam--bem os merecia por to
longa, to provada dedicao...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E
Gonalo logo docemente, para o adoar:

--Dia muito bonito, hein, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

--Muito bonito.

Gonalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de reatar com o
Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce,
quasi humilde:

--Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes
d'almoo. Que te parece? Talvez me faa bem aos nervos... Com effeito,
aquelle cognac no me convm... Ento, Bento, faze o favor, grita ahi ao
Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me
acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem quente.
Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem
quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idas... Pois todos os
medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta
graus!

E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente
ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

--Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar,
no era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada,
homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna Oliveira.
Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distraco
grande.

O Bento, j reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr. Doutor
brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distraco, nas Crtes.

--Eu sei l se vou s Crtes, homem! No sei nada, tudo falha... Qual
Lisboa!... O que eu necessito  uma viagem immensa,  Hungria,  Russia,
a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente d'aquella imaginao. E apresentando ao
Fidalgo o jaqueto de velvetina cinzenta:

--Com effeito, na Russia parece que no faltam aventuras. Anda tudo a
chicote, diz o _Seculo_... Mas aventuras, Snr. Doutor, at a gente as
encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.^a, que Deus haja, foi
l em baixo deante do porto que teve a bulha com o Dr. Avelino da
Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no
brao...

Gonalo calava as luvas d'anta, mirando o espelho:

--Pobre pap, coitado, tambem teve pouca sorte... E por chicote, 
Bento, d c aquelle chicote de cavallo marinho que tu hontem areaste.
Parece que  uma boa arma.

       *       *       *       *       *

Ao sahir o porto, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem destino, n'um
passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo,
onde dous pequenos jogavam  bola debaixo das carvalheiras, pensou em
visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a
companhia de to sereno e generoso velho. E, se elle o convidasse a
almoar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada quinta da
_Varandinha_ e cortejando o boto de Rosa.

Gonalo recordava apenas confusamente que o terrao da _Varandinha_
dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da
Cerda e a espalhada alda de Canta-Pedra, E tomou o caminho velho que
desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no valle, entre o cabeo
d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde
Lopo de Bayo derrotra a mesnada de Loureno Ramires... Ora enterrada
entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia
sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as
amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e
graa dos fremitos d'aza que o roavam; e tanto era o radiante azul nos
ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava
n'alma. Gonalo, mais desannuviado, no se apressava: na Egreja dos
Bravaes, quando elle passra ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas:
e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender
pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o
riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria,
sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a
atulhavam. Adiante,  orla d'um hervaal, no abrigo d'uma moita
d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro
d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam
profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos regaos.
Gonalo sorriu do idyllio--depois teve uma surpreza descobrindo, no
cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazo-d'Armas, um Aor
enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora
pertencessem  Casa:--ou algum dos seus avs beneficos construira a
ponte, sobre torrente ento mais funda, para segurana dos homens e dos
gados. Quem sabe se o av Tructesindo, em memoria piedosa de Loureno
Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!

O caminho, para alm da ponte, alteava entre campos ceifados. As mdas
lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, dos
telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no
radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Gonalo
sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam
tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vo d'entre
o restolho. Gonalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo o seu forte
chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.

Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois
cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;--e ao
fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa
terrea, com porta baixa entre duas janellas envidraadas, remendos novos
no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira assombreava.
N'uma esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma
sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada.
Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha
de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonalo a
de Ramilde. Para alm, at a um distante pinheiral, desciam chs e
lameiros.

Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao
muro, um rapaz grosso, de barrete de l verde, acariciava pensativamente
o focinho d'um perdigueiro. Gonalo parou:

--Tem a bondade... Sabe por acaso qual  o bom caminho para a quinta do
Snr. Visconde de Rio-Manso, a _Varandinha_?

O rapasote ergueu a face morena, de buo leve, remechendo vagamente no
carapuo.

--Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada at  pedreira, depois
 esquerda a seguir, sempre rente da varzea...

Mas n'esse instante assomava  porta um latago de suissas louras em
mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonalo, com um
sobresalto, reconheceu logo o caador que o injurira na estrada de
Nacejas, o assobira na venda do Pintainho. O homem relanceou
superiormente o Fidalgo. Depois, com a mo encostada  humbreira,
chasqueou o rapasote:

--Oh Manoel, que ests tu ahi a ensinar o caminho, homem! Este caminho
por aqui no  para asnos!

Gonalo sentiu a pallidez que o cobriu--e todo o sangue no corao, n'um
tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo
homem, sem provocao! Apertou os joelhos no sellim para galopar. E a
tremer, n'um esforo que o engasgava:

--Voss  muito atrevido!  j pela terceira vez! Eu no sou homem para
levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o conheo, e que
no escapa sem lio.

Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou  estrada,
affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:

--Ento c estou! Venha agora a lio... E para diante  que Voss j
no passa, seu Ramires de merd...

Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um
inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e
fora, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina
egoa n'um galo terrivel! E nem comprehendeu! O cajado sarilhra! A egoa
empinava, n'uma cabeada furiosa! E Gonalo entreviu a mo do homem,
escura, immensa, que empolgava a camba do freio.

Ento, erguido nos estribos, por sobre a immensa mo, despediu uma
vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o latago na
face, de lado, n'um golpe to vivo da aresta aguda que a orelha pendeu,
despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou,
cambaleando. Gonalo galgou sobre elle, n'outro arremesso, com outra
fulgurante chicotada, que o apanhou pela bca, lhe rasgou a bca,
decerto lhe espedaou dentes, o atirou, urrando, para o cho. As patas
da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,--e, debruado, Gonalo
ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoo, at que o corpo
jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a
camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gonalo, com um salto no selim, avistou o
rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas j
hesitando aterrado.

--Ah, co!

Lanou a egoa, com o chicote alto:--o rapaz, espavorido, corria
lentamente atravs do terreiro, para saltar o vallado, escapar para as
varzeas ceifadas!

--Ah co, ah co! berrava Gonalo. Estonteado, o rapaz tropera n'uma
viga solta. Mas j se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcanou
com uma cutilada do chicote no pescoo, logo alagado de sangue.
Estendendo as mos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a
aresta d'um pilar, a cabea mais sangue jorrou. Ento Gonalo, a
arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus!
Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre
sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do
quinteiro.

--Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com
a sebe, para a porta da casa. To certeiramente o Fidalgo arremessou a
egoa, para o deter--que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava
coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e
Gonalo alado nos estribos, com a face chammejante, o chicote a
descer--o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou
anciadamente:

--Ai, no me faa mal, meu Fidalgo, por alma de seu pae Ramires.

Gonalo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a tremer, sob o
justiceiro faiscar dos seus olhos:--e gosava soberbamente aquellas
callosas mos que se erguiam para a sua misericordia, invocavam o nome
de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. Depois,
recuando a egoa:

--Esse malandro do rapazola desfechou a caadeira!... Voss tambem no
tem boa cara! Que ia voss correndo para casa? Buscar outra espingarda?

O velho alargou desesperadamente os braos, offerecia o peito, em
testemunho da sua verdade:

--Oh meu Fidalgo, no tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me
ajude e me salve o rapaz!

Mas Gonalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde,
bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caadeira,
desfechar traioeiramente. E ento com a presteza d'espirito que a lucta
afira concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. E at n'um
relance sorrio recordando traas de guerra, de D. Garcia Viegas, o
_Sabedor_.

--Marche l deante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mos nas
coxas, n'uma ancia que o engasgava:

--Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem
acordo?...

--O rapaz est s atordoado, j se mecheu... E o outro malandro
tambem... Marche voss!

E ao irresistivel mando de Gonalo, o velho, depois de sacudir
demoradamente as joalheiras, comeou a avanar pela estrada, vergado
deante da egoa, como um captivo, com os longos braos a bambolear,
rosnando, n'um rouco assombro:--Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de
Deus, que desgraa! A espaos estacava, esgaseando para Gonalo um olhar
torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o
empurrava: Marche!... E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro
em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonalo reconheceu um largo
atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o _Caminho da Moleira_. E
para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria,
pensando que Gonalo o afastava de caminhos trilhados para o matar
commodamente, rompeu a gemer. Ai que isto  o fim da minha vida! Ai
Nossa Senhora, que  o fim da minha vida! E no cessou de gemer,
emmaranhando os passos tropegos, at que desembocaram na estrada alta
entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Ento de repente,
com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mos ao
barrete:

--Oh meu senhor, o Fidalgo no me leva preso?...

--Marche! Corra! Que agora a egoa trota!

A egoa trotou--o velho correu, desengonado, arquejando como um folle de
forja. Uma milha galgada, Gonalo parou, farto do captivo, da lenta
marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse
uma arma, e virasse para o alcanar, se desforrar--entraria elle, n'um
galope solto, o porto da Torre! Ento bradou, com o sobr'olho duro:

--Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle
seu logar?

--A Grainha, meu fidalgo.

--E voss como se chama, e o rapaz?

O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:

--Eu sou Joo, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu Fidalgo.

--Voss naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas louras?

D'um folego, o velho gritou:

--Esse  o Ernesto de Nacejas, o valento de Nacejas, que chamam o
_Caa-abraos_, e que tanto me desencaminhou o rapaz...

--Bem! Pois diga l a esses dous marotos que me atacaram a pau e a tiro,
que no ficam quites smente com a sova, e que agora tm de se entender
com a Justia... Ella l ir! Largue!

Do meio da estrada, Gonalo ainda vigiou o velho que abalra, forando
as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela
conhecida estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando n'uma alegria to fumegante, que o lanava em
sonho e devaneio. Era como a sensao sublime de galopar pelas alturas,
n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, roando as nuvens
lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um
verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres,
dos que mudavam a configurao dos Reinos,--e erguiam esse maravilhado
murmurio que  o sulco dos fortes passando! Com razo! com razo! Que
ainda de manh, ao sahir da Torre, no ousaria marchar para um rapazola
decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solido
d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a
suja injuria--eis um _no sei qu_ que se desprende dentro do seu ser, e
transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada
nervo de fora destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a dr, e lhe
repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli
voltava, como um varo novo, soberbamente virilisado, liberto emfim da
sombra que to dolorosamente assombrera a sua vida, a sombra molle e
torpe do seu mdo! Por que sentia que, agora se todos os valentes de
Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados--esse _no sei qu_,
l dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada
veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga!
Emfim era _um homem_! Quando em Villa Clara o Manuel Duarte, o Tit com
o peito alto, contassem faanhas, j elle no enrolaria encolhidamente o
cigarro--encolhido, mudo no smente pela ausencia desconsoladora das
valentias, mas sobretudo pela humilhante recordao das fraquezas. E
galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para
investidas mais bellas. Para alm dos Bravaes, mais galopou, ao avistar
a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora
_mais sua_, e que uma affinidade nova fundada em gloria e fora, o
tornava mais senhor da sua Torre!

       *       *       *       *       *

Como para acolher Gonalo mais dignamente, o porto grande, sempre
cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes
escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:

--Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh l! um de vosss!

O Joaquim surdiu da cavallaria, de mangas arregaadas, com uma esponja
na mo.

--Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada
de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora l uma grande desordem!
Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poa de sangue! No
digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu,
se esto mortos... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallaria escura. E de cima
d'uma das varandas do corredor, partiram exclamaes assombradas:

--Oh Gonalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a appario do Barrlo,
Gonalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente.
Um malandro que o insultra... Depois outro, que desfechou a
caadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma poa de
sangue...

O Barrlo despegou da varanda--e n'outro relance, investia pelo pateo,
com os curtos braos a boiar, enfiado. Mas ento? mas ento?... E
Gonalo, desmontando, tremulo agora do canasso e da emoo, esmiuou
mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valento que o injuriou! A esse
rasgra a bca, decepra a orelha... Depois o outro, um rapasola,
desfecha uma carabina... Elle corre, to vivamente o colhe com uma
cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...

--Uma cutilada?

--Com este chicote, Barrlo! Arma terrivel!... Bem dizia o Tit!...
Estou perdido se no levo este chicote.

Esgaseado, Barrlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda manchado
de sangue.--Ento Gonalo attentou no chicote, no sangue... Sangue de
gente! sangue fresco, que elle arrancra!... E por entre o seu orgulho,
uma piedade passou que o empallideceu:

--Que desgraa, vejam que desgraa!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue,
que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E
immediatamente anciou por se despir, se lavar,--galgou a escada, com o
Barrlo que enxugava o suor, balbuciava:--Ora uma d'essas! E de
repente! Assim na estrada!... Mas no corredor, subindo n'uma carreira
da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que enterrava
os dedos entre o leno e o cabello n'um pavor mudo.

--Que foi, Gonalo? Jesus, que foi?!

Ento, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse momento
magnifico do seu orgulho, depois de to rijo perigo vencido, Gonalo
esqueceu o Andr, o Mirante, as sombrias humilhaes, e no abrao em que
a colheu, nos fortes beijos que atirou  face querida, todo o seu amuo
se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao corao, suspirou de
leve, como uma creana canada. Depois apertando as duas pobres mos
tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe
humedeciam de confusa emoo, de confusa alegria:

--Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou to pacato!
imagina tu...

E pelo corredor recomeou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa,
estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que
falhra e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um
captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um
desmaio, Gracinha murmurou:

--Ai, Gonalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes malandros
mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo
tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara,
avisar o Gouveia!... Mas largas passadas vidas abalaram o soalho--e foi
o Bento, que se ergueu deante de Gonalo, bracejando n'uma ancia:

--Ento, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...

E  porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente attentos, a
historia recomeou, especialmente para o Bento, que a bebia, n'um lento
riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir,
como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:

--Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote
que eu lhe dei!

Era verdade. E Gonalo, commovido, abraou o velho aio, que n'uma
excitao, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrlo:

--O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!...
Os malvados esto mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei
ao Snr. Doutor!

Mas Gonalo reclamava agua quente para se lavar da poeira, do suor, do
sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas
escadas da cosinha--que fra o chicote! o chicote, que elle dra ao
Snr. Doutor! Gonalo entrra no quarto, acompanhado pelo Barrlo. E
pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso _ah_
consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de to violenta
manh, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho tapete
azul, roando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas
vidraas abertas, onde as ramagens familiares das faias s'empurravam na
aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas
douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonalo novo e to melhorado,
que nos hombros reconhecia mais largueza, e at no bigode um arquear
mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrlo, que subitamente
despertou n'uma curiosidade immensa:

--Mas, oh Barrlo, como  que vos encontro esta manh na Torre?

Resoluo da vespera, ao ch. Gonalo no apparecia, no escrevia...
Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle sumio
depois do cesto dos pcegos. De modo que ao ch, pensando tambem que a
parelha necessitava uma trotada, lembrra a Gracinha:--Vamos ns amanh
 Torre? no phaeton?

--Alm disso precisava fallar comtigo, Gonalo... Tenho andado
aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

--Como aborrecido?... Aborrecido por que?...

Barrlo, com as mos nos bolsos da rabona de flanella, que lhe cingia as
ancas gordas, considerou as flres do tapete, melancolicamente:

-- uma grande secca! A gente no pde confiar em ninguem... Nem ter
familiaridades!...

N'um lampejo Gonalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha mostrando
estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o
sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa
triste do pobre Barrlo, amargurado por suspeitas, talvez por
intimidades que espreitra. Mas a emoo suprema da sua batalha, sumira
para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o opprimiam:
todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente,
n'aquelle frescor da sua coragem nova, to faceis d'abater como os
desafios dos valentes; e no se assustou com as confidencias do
cunhado, bem seguro d'impr quella alma submissa de bacco a confiana
e a quietao. At sorriu, com indolencia:

--Ento, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?

--Recebi uma carta.

--Ah!

Gravemente Barrlo desabotoou o jaqueto, puxou do bolso interior uma
larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi
a carteira que elle mostrou a Gonalo, com satisfao.

--Bonita, hein? Presente do Andr, coitado... Creio que at a mandou vir
de Paris. O monogramma tem muito chic.

Gonalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrlo tirou da carteira uma
carta--j amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma
lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com
segurana:

-- das Louzadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na
almofada: Ex.^{mo} Snr. Jos Barrlo.--V. Ex.^a apesar de todos os seus
amigos o alcunharem de _Z bacco_, mostrou agora muita espertesa,
chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil
Andr Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a esposa de V.
Ex.^a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos tempos andava to murcha e
at desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e
ganhou cres, desde que possue a valiosa companhia da primeira
auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.^a como marido zeloso, e
desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem
parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais
illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!

Gonalo guardou muito socegadamente na algibeira aquella carta que, dias
antes, o lanaria em infinita amargura e furia:

-- das Louzadas... E tu dste importancia a semelhante babuseira?

O Barrlo repontou, com as bochechas abrazadas:

--Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois
essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem BACCO... Grande
infamia, hein? Tu acreditas?... Eu no acredito! mas lana sizania entre
mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacco! Porqu? Por que eu sou
simples, sempre franco, disposto a arranchar... No! se os rapazes no
Club me chamam bacco pelas costas, caramba, mostram ingratido! Mas eu
no acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mos cruzadas
sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde
Gonalo o considerava, com piedade:

--Em quanto ao resto da carta  to estupido, to atrapalhado que ao
principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha
e o Cavalleiro teem namoro...  o que me parece que querem dizer! Ora v
tu que disparate! At a intimidade do Cavalleiro  mentira. O pobre
rapaz, desde que l jantou, s appareceu tres ou quatro vezes,  noite,
para a manilha, com o Mendona... E agora abalou para Lisboa.

Ento o Fidalgo pulou, de surpresa.

--O qu! o Cavalleiro foi para Lisboa?

--Pois partiu ha tres dias!

--Com demora?

--Com demora, com grande demora... S volta no meado d'outubro para a
Eleio.

--Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas
de rendas, ainda n'uma excitao que o azafamava. Deante do espelho,
lentamente Barrlo reabotoava o jaqueto:

--Bem, at logo, Gonalinho. Eu deso  cavallaria, visitar a parelha.
No imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E
nem um pello suado! Tu guardas a carta?

--Guardo, para estudar a lettra.

Apenas Barrlo cerrra a porta--o Fidalgo recomeou com o Bento a
deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos,
simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar
as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente,
em ceroulas:

--Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala roou
pelo chapeu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O Bento, no seu encarecimento
da faanha, achava a copa amolgada--at chamuscada.

--A bala passou de raspo, Snr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:

--No! Nem de raspo!... Quando o malandro desfechou j o brao lhe
tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente no corri
grande perigo!

Depois de vestido, Gonalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim,
certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com to
sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barrlo, no causava
damno--antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para
sarar um damno. O pobre Barrlo apenas se impressionra com a revelao
da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em
galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuao
terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa mal
a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e
candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrlo como
flecha errada--acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no
seu impressional pudor, mostrando  pobre tonta como o seu nome e mesmo
o seu corao, j arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira mexeriquice
das Lousadas!... Certesa to humilhadora no apagaria um sentimento--que
se no apagava com humilhaes mais intimas, tanto mais dolorosas. Mas
estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:--e agora que Andr
se afastra para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, solitariamente,
sem que a presena tentadora lhe desmanchasse a influencia socegadora e
salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso
temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas femeas
para desencadear nos Cunhaes escandalo e dr--talvez restabelecesse, na
ameaada casa, quietao e gravidade.--Gonalo esfregou as mos
pensando--que em to ditosa manh talvez at esse mal redundasse em bem!

--Oh Bento, onde est a Snr.^a D. Graa?

--A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda
se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador
illustre que pertencera  Rainha D. Maria Francisca de Saboya, e o
soph, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordra, n'um
arrastado labor d'annos, o Aor negro dos Ramires. E sempre que voltava
 Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas de solteira,
remexendo as gavetas, folheando velhos romances inglezes na estantesinha
envidraada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta
estendida at aos outeiros de Valverde, a verde quinta, to misturada 
sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era como
um recanto do seu pensamento.

Gonalo subiu--bateu  porta cerrada com o antigo aviso:--Licena para
o mano! Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos
vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E
desabafando logo do pensamento que a enchia:

--Oh Gonalo! mas que felicidade ns virmos  Torre, justamente hoje,
que te succedeu cousa tamanha!

-- verdade, Gracinha, grande sorte! E no me admirei nada de te vr...
Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem
estranhei foi o Barrlo! E no primeiro momento depois de desmontar,
pensava assim, vagamente: mas que diabo faz aqui o Barrlo? como diabo
se acha aqui o Barrlo?... Curioso, hein? Foi talvez que, depois da
desordem, me senti remoado, com um sangue novo, e me julguei no tempo
em que desejavamos uma guerra em Portugal, e ns cercados na Torre, sob
o nosso pendo, o _nosso tero_ atirando bombardas aos hespanhoes...

Ella ria, lembrada dessas imaginaes heroicas. E com o vestido entalado
entre os joelhos recomeou a lenta rega dos seus vasos--em quanto
Gonalo, encostado  varanda, considerando a Torre, retomado pela ideia
d'uma concordancia mais intima, que desde essa manh se estabelecera
entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a
sua fora, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim firmemente  fora
secular da sua raa.

--Oh Gonalo! tu deves estar muito canado! Depois d'essa verdadeira
batalha...

--No, canado no... Mas com fome. Com fome, e com uma sde explendida!

Ella pousou logo o regador, sacudindo as mos alegremente:

--Pois o almoo no tarda!... J andei a trabalhar na cosinha, com a
Rosa, n'uma pescada  hespanhola...  uma receita nova do Baro das
Marges.

--Ento insonsa, como elle.

--No! at picante: foi o Snr. Vigario Geral que lh'a ensinou.

E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava 
pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solido favoravel,
apressou com um esforo, a confidencia que o commovia:

--E em Oliveira? L por Oliveira!

--Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gonalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino
entrelaamento de aucenas e louros, murmurou:

--Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em
plena actividade...

Gracinha negou candidamente:

--As Lousadas? No! Nem teem apparecido.

--Mas teem tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender,
Gonalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardra, que agora
lhe pesava, como uma chapa de ferro:

--Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias
escreveram a teu marido...

N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de
sangue nas faces, apertando as mos n'uma afflico, um desespero, em
que o papel amarfanhou:

--Oh Gonalo! pois...

Gonalo accudio:

--No! o Barrlo no se importou! At se rio! E eu tambem, quando elle
me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma
mexeriquice insensata,  que eu t'o mostro to francamente.

Ella esmagava a carta nas mos juntas e tremulas, pallida agora e
emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E
Gonalo commovido, com gravidade, com ternura:

--Mas tu, Gracinha, sabes o que so terras pequenas. Sobre tudo
Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem
a culpa. Reatei relaes que nunca se deviam reatar... Bem me tenho
arrependido! E acredita! por causa d'essa situao to falsa e to
perigosa, que eu creei, levianamente, por ambio tola, passei aqui na
Torre dias amargurados... At nem m'atrevia voltar a Oliveira. Hoje, no
sei porqu, depois d'esta aventura, parece que tudo se esbateu,
s'afundou para uma grande sombra... Emfim j no me arde to em braza no
corao... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se
desfazia. Com redobrada ternura Gonalo abraou os pobres hombros
vergados que os soluos espedaavam. E foi com ella toda refugiada no
seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

--Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos,
que continue morto. Pelo menos que por fra, em cada gesto teu, parea
bem morto! Sou eu que t'o peo, pelo nosso nome!...

D'entre os braos do irmo, ella gemeu com infinita humildade:

--Mas elle at foi embora!... Nem quiz estar mais em Oliveira!

Gonalo acariciou a acabrunhada cabea que de novo se escondera contra o
seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca
misericordiosa que dentro sentia brotar:

--Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita
reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. No fallemos
mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um _incidente_.
E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illuso. Passou, est
esquecido! Socega, descana. E quando desceres traze os olhos bem
seccos.

Lentamente a desprendera dos braos, onde ella se arraigava como ao
abrigo mais certo e  consolao mais desejada. E sahia, engasgado pela
emoo, recalcando tambem as lagrimas... Um gemido timido, supplicante,
ainda o reteve.

--Gonalo! mas tu pensas...

Elle voltou, de novo a abraou, a beijou na testa lentamente:

--Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar
muita dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente
allumiada por uma claraboia baa, limpava as palpebras, quando esbarrou
com o Barrlo, que procurava Gracinha, para apressar o almoo.

--A Gracinha j desce! atabalhoou o Fidalgo. Est a lavar as mos! J
desce!... Mas antes do almoo vamos  cavallaria. Devemos uma visita 
egoa, a essa querida egoa que me salvou!

-- verdade, caramba! concordou logo Barrlo revirando nos degraus, com
enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas
aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada
d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas!
Tambem, o que eu as lho, o que as trato!

Na cavallaria, ambos affagaram a egoa. Barrlo lembrou que se
mimoseasse com uma rao larga de cenoura. Depois--para que Gracinha,
com vagar se calmasse,--o Fidalgo arrastou o Barrlo ao pomar e 
horta...

--Tu no vens  Torre ha perto de seis mezes, Barrolinho! Precisas vr,
admirar progressos. Anda agora por aqui a mo forte do Pereira da
Riosa...

--Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonalinho!

--Tambem eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida
e em festa--e Gracinha,  beira do divan, percorria pensativamente a
velha _Gazeta do Porto_. Apesar de muito banhados, os seus bellos olhos
conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se
lastimou, crando, d'uma enxaqueca. Eram as emoes, o perigo de
Gonalo...

--Tambem eu tenho dr de cabea! declarou o Barrlo, rondando a mesa.
Mas a minha vem da fome... Oh filhos,  que estou desde as sete da manh
com uma chavena de caf e um ovo quente!

Gonalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraada,
esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o
moo da cavallaria que voltava da Grainha.

Gonalo atirou os braos, soffrego:

--Ento?! ento?!

--Pois l estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o peito a estalar
d'importancia. E vae por l um povoleu, todos j sabem! Uma rapariga dos
Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu,
badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho,
abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem
sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de
Deus, apanhou. L o levaram em braos para casa d'um compadre alli ao
p, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem bocca!...
Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das moas!... E logo l o
carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre no
pode sarar. Um povoleu, e todos do a raso ao Fidalgo. O tal Domingues
era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe
tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que no passra damno mais forte,
que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!

--E ento o povo por l, a fallar, a olhar para o sitio?

--Pois o povo no se arreda! E a mostrar o sangue, no cho, e as pedras
por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora at contam que foi uma
espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no
pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo
escangalhou...

--Eis a lenda que se forma! declarou Gonalo.

O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou
risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o
almoo da familia, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a
mo nas costas da cadeira murmurou gravemente:--Pensemos um momento em
Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!

Barrlo pendeu a cabea, reverente. Gracinha, atravez d'um leve suspiro,
pensou uma leve orao. E desdobravam os guardanapos; Gonalo acclamava
a travessa de pescada  hespanhola--quando o pequeno da Crispola
empurrou ainda a porta envidraada com um telegramma, que viera da
Villa! Uma inquietao deteve os garfos. A manh correra com tantas
agitaes e espantos! Mas j um sorriso de gosto, de triumpho, se
espalhra na fina face de Gonalo:

--No  nada...  do Castanheiro, por causa dos capitulos do Romance que
eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os seus
olhos affagavam:--Capitulos romance recebidos. Leitura feita amigos.
Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abrao!...

Barrlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E Gonalo, sem reparar na
travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de
vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que no se
dissipava:

--Emfim, boa manh... Grande manh!

Gonalo, apesar das insistencias de Gracinha e do Barrlo, no os
acompanhou para Oliveira--no desejo de acabar, durante essa semana, o
derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguioso giro de
visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra
d'Arte e a obra de Politica,--e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse
vero fecundo!

Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella--e na margem larga
lanou a data, uma nota:--_Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma
briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que
castiguei severamente..._ Depois, com facilidade atacou o lance de
tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do
Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento claro dos archotes, no
arraial de D. Pedro de Castro.

Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de
Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, quando
os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornin.
Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de leo e
d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dr represa, a morte de
seu filho Loureno, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado  punhalada
pelo Bastardo de Bayo, deante das muralhas de Santa Ireneia, com o sol
no ceu alto a olhar a traio! Indignado, o velho Castro esmurraou a
mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas peas de xadrez;
jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas
nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mo do senhor de Santa
Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa vingana, a
sua hoste inteira--tresentas e trinta lanas, vasta e rija peonagem.

--Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as
vermelhas barbas a flammejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o _Sabedor_, entendia que para colherem o Bastardo
vivo, como convinha a uma vingana vagarosa e bem gosada, mais utilmente
serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de
p...

--Porqu, D. Garcia?

--Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da
pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher 
fora da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando de lanas,
pernoitra certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para
encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Mirades,
que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo. Ora elle, Garcia
Viegas, conhecia para deante do _Poo da Esquecida_, certo passo, onde
poucos cavalleiros, e alguns bsteiros, bem postados por entre o bravio,
apanhariam Lopo de Bayo como lobo em fojo...

Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da
barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao
Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanas j
aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de
Bayo. Ento Garcia Viegas rogou aos seus primos d'Hespanha e de
Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de
tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos,
 claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou
sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da _sua caada_ para
lhe comprovar a belleza... D'alm castello Landim, largaria com a alva o
Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte
cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as
mesnadas gosassem a lide. Alm, se postariam, alapados no mattagal,
besteiros e pees de frecha. Por traz, d'este lado, para entaipar o
Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com to gostosa ajuda elle
honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acol, para colher pela
gorja o villo, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus mandava fosse
o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um
porco--e como o sangue era vil, a um tiro de bsta encontrariam agua
farta para lavar as mos, a agoa do _pgo das Bichas_!...

--Famosa traa! murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros
d'Hespanha:

--Vida de Christo, que se meu tio-av Gutierres tivera por Coudel aqui o
snr. D. Garcia, no lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei
Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido
pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas--que j nas fogueiras lourejavam os cabritos da
ceia, e os uches acarretavam, d'entre os carros da sarga, os pesados
odres de vinho de Tordesillas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o
corao dos hospedes) Gonalo terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV,
lanando  margem outra nota:--Meia noite... Dia cheio. Batalhei,
trabalhei.--. Depois no seu quarto, em quanto se despia, traou todo o
alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria
captivo,  merc vingadora dos de Santa Ireneia... Mas de manh, antes
d'almoo, ao abancar com gosto para o trabalho--recebeu dous
telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o
Bastardo de Bayo.

Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Baro das Marges, outro do
capito Mendona--ambos com parabens ao Fidalgo por assim escapar de
to terrivel espera, destroando os valentes de Nacejas. O Baro das
Marges accrescentava:--_Bravissimo!  d'heroe!_

Gonalo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A nova da sua
faanha, pois, j se espalhra, impressionra Oliveira,

--Foi o Snr. Jos Barrlo que contou! acudiu o Bento. E o Snr. Dr. ver!
o Snr. Dr. ver... At no Porto se vo assombrar!

Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso Tit,
acompanhado pelo Joo Gouveia que chegra na vespera  tarde da Costa,
soubera da aventura na Assembleia, corria  Torre, como amigo para o
abrao, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto. Ento
Gonalo, ainda nos braos do Gouveia, pediu generosamente, que se no
procedesse contra os bandidos... O Administrador recusou, decidido e
secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento
rijo, para que Portugal no recuasse aos tempos barbaros do Joo Brando
de Mides. Elle e Tit almoaram na torre:--e Tit,  sobremesa, lembrou
galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde,
comparando Gonalo ao elefante, sempre bom, que tanto aguenta, e de
repente, zs, esmaga o mundo!

Depois Joo Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a
representao veridica da desordem, com os pulos, os gritos, para elle
se compenetrar como auctoridade. Ento atravez da varanda, reviveu a
historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou
por esgaar) os golpes que arremessra imitando os tombos meio
desmaiados do valento de Nacejas, quando j o sangue o alagava. O
Administrador e o Tit visitaram na cavallaria a egoa historica; e no
pateo, Gonalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro seccando ao
sol, lavadas do sangue que as salpicra.

Deante do porto Joo Gouveia bateu gravemente no hombro do Fidalgo:

--Gonalo, voss deve apparecer esta noite na Assembleia...

Appareceu--e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No
bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche---e o
Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em
S. Francisco um Te-Deum de graas, de que elle costearia as despezas,
com orgulho, caramba!  sahida, acompanhado pelo Tit, pelo Gouveia,
pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha--que no
pertencia  Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lanar
duas trovas do _Fado_, improvisadas n'essa tarde, em que o exaltava
acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O violo gemeu, com amor. E o cantar do
Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

    Os Ramires d'outras eras
    Venciam com grandes lanas,
    Este vence com um chicote,
    Vde que estranhas mudanas!

     que os Ramires famosos,
    Da passada gerao,
    Tinham a fora nas armas
    E este a tem no corao!

A to requebrado conceito--os amigos romperam em vivas a Gonalo,  Casa
de Ramires. E o Fidalgo recolhendo  Torre, commovido, pensava:

-- curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...

Mas que emoo quando, de manh cedo, o Bento o acordou com um
telegramma de Lisboa! Era do Cavalleiro--que soubera pelos jornaes
attentado, lhe mandava enthusiastico abrao pela felicidade e pela
valentia! Gonalo berrou, sentado na cama:

--Caramba! ento os jornaes em Lisboa j fallam, Bento! o caso anda
celebrado!

Certamente celebrado!--por que durante o delicioso dia, o moo do
Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, no cessou d'empurrar o
porto da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Condessa de
Chellas; de Duarte Lourenal; dos Marquezes de Cja _felicitando_; da
tia Louredo com parabens ao destemido sobrinho; da marqueza
d'Esposende esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!... E
o ultimo do Castanheiro, com exclamaes:--_Magnifico! Digno de
Tructesindo!_--Gonalo, pela livraria, erguia os braos, estonteado:

--Santo nome de Deus! mas que tero dito os jornaes?

E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os
influentes,--o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao
Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de S, que no se espantra do
seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de Ss, sempre
ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um
cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de
Rio-Manso, que agarrado a Gonalo, soluou, no enternecimento quasi
ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando o querido
amigo, o amigo da sua Rosa se encaminhava para a _Varandinha_. Gonalo,
afogueado, banhado de riso, abraava, recontava pacientemente a faanha,
acompanhava at ao porto aquelles cavalheiros, que ao montar as egoas,
ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na
doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o
secular fundamento do seu heroismo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava,
estonteado:

--Que tero dito os jornaes de Lisboa?

Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroo,
rompeu pelo quarto com o correio--Gonalo saltou, arrojou o lenol, como
se abafasse. E logo no _Seculo_, soffregamente percorrido, encontrou o
telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a
immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O
Bento quasi arrebatou o _Seculo_ das mos tremulas do Fidalgo, para
correr  cosinha, bramar  Rosa a noticia gloriosa!

De tarde, Gonalo correu a Villa-Clara,  Assembleia, para devorar os
outros jornaes de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam!
A _Gazeta do Porto_, attribuindo o attentado a Politica, ultrajava
furiosamente o Governo. O _Liberal Portuense_, porm, relacionava com
certas vinganas dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso attentado que
quasi causra a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal e d'Hespanha
e d'um dos mais pujantes talentos da nova gerao! Os jornaes de
Lisboa, glorificavam sobre tudo a coragem explendida do Snr. Gonalo
Ramires. E o mais ardente era a _Manh_, n'um verboso artigo (de certo
escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas tradies da Casa
illustre, esboando as bellezas do Castello de Santa Ireneia e
terminando por affirmar que agora, se esperava com redobrada anciedade
a appario da novella de Gonalo Ramires, fundada sobre um feito de seu
av Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro numero dos
*Annaes de Litteratura e de Historia*, a nova Revista do nosso querido
amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia
heroica de Portugal!--As mos de Gonalo, ao desdobrar os jornaes,
tremiam. E o Joo Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem os artigos,
por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

--Voss, Gonalinho, vae ter uma votao tremenda!

Depois n'essa noute, recolhendo  Torre, Gonalo encontrou uma carta que
o perturbou. Era de Maria de Mendona, n'um papel perfumado, com o mesmo
perfume que to docemente espalhava D. Anna, pelo adro de Santa Maria de
Craqude:--S esta manh soubemos o grande perigo que passou, e ficamos
_ambas_ muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e no s eu) muito
vaidosa da magnifica coragem do primo.  d'um verdadeiro Ramires! Eu no
vou ahi abraal-o (com risco de me comprometter e _fazer invejas_) por
que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente no
 cousa de cuidado... Mas aqui todos, at os pequenos, anciamos por vr
o heroe, e no creio que houvesse nada d'extraordinario, nem _d'um lado_
nem _d'outro_, em que o primo por aqui apparecesse alm d'amanh (quinta
feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e at se
merendava,  boa e velha moda dos nossos avs. Est dito? Muitos
comprimentos, _muitos_, da Annica, e o primo creia-me, etc.--Gonalo
sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a
prima Maria lhe empurrra, to claramente, a D. Anna para os braos... E
como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se
fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de novo
sentia aquelle vozeiro do Tit, nos degraus da portinha verde com a lua
cheia por cima dos olmos negros: Essa creatura teve um amante, e tu
sabes que eu nunca minto?

Ento tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria Mendona:--Querida
prima--Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus
enthusiasmos. No exaggeremos! Eu no fiz mais que correr a chicote uns
valentes que me assaltaram a tiro.  faanha facil para quem tenha,
como eu, um chicote excellente. Emquanto  visita  _Feitosa_, que me
seria to agradavel, no a posso realisar com fundo pezar meu, nem na
quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o
meu livro, a minha Eleio, a minha mudana para Lisboa. A era dos
cuidados srios soou severamente para mim,--cerrando a doce era dos
passeios e dos sonhos. Peo que apresente  Snr.^a D. Anna os meus
profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo
restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu
dedicado e grato primo, etc.

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o
lacre verde, pensava:

--Assim aquelle maroto do Tit me rouba dusentos contos!...

       *       *       *       *       *

Durante toda essa macia semana dos fins de Setembro, Gonalo trabalhou
no Capitulo final da sua Novella.

Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia,
reforados pelas mais nobres lanas da mesnada dos Castros,
surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o
_Sabedor_, o bando de Bayo, na sua aodada corrida sobre Coimbra...
Briga curta e falsa, sem destro e brioso terar d'armas, mais semelhante
a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo.
E assim a desejra Tructesindo, com ruidosa approvao de D. Pedro de
Castro, por que no se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um
matador.

Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalra do castello de Landim, em dura
pressa e com to descuidada segurana, que nem almogavar nem coudel lhe
atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero
trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e
urze, que chamam a _Racha do Moiro_, desde que Mafoma a fendeu para que
escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o _Magno_, o Alcaide
moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatra  garupa. E apenas pela
esguia greta enfira a derradeira lana da fila--eis que da outra
embocadura do valle surde o cerrado troo dos cavalleiros de Santa
Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel,
sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em
caada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz as lanas dos
Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma
levadia. Do recosto dos cerros rla, como reprsa solta, uma rude e
escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca
furiosamente a espada, que redomoinhando o cora de coriscos. Ainda com
um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre
um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de
canave, que o laa pela gargalheira, o arranca n'um brusco saco da sela
mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se
entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de
Bayo aguentam assombradamente o denso cerco de lanas, que os
envolvera--um rlo de pees, em dura grita, como mastins sobre um cerdo,
arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e
adaga, lhe despedaam o brial de l rxa, lhe quebram os fechos do elmo,
para lhe cuspirem na face, nas barbas cr de ouro, to bellas e de tanto
orgulho!

Depois a mesma bruta matula o ia, amarrado, para sobre o dorso d'uma
possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de
virotes, como rez apanhada ao recolher da montaria. E servos da
carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o _Claro-Sol_ que
allumiava a casa de Bayo, agora entaipado entre dois caixotes de pau,
com cordas nos ps, e cordas nas mos, e n'ellas espetado um triste ramo
de cardo--emblema da sua traio.

No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o cho, esmagados sob o
furioso cerco de lanas que os investira--uns hirtos, como adormecidos,
dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes
retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os
escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuo para a boca d'uma
barroca, sem resgate ou merc, como alcateia immunda de roubadores de
gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes.
Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para
reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros
desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as
medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam
como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma
sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro de
Lugilde com quem, pela fogueira de S. Joo, folgra to docemente e
bailra no castello de Unhello,--e vergado sobre a alta sella rezou,
pela pobre alma sem confisso, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas
nuvens, abafavam a manh d'Agosto. E afastados  entrada do valle, sob a
ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia
Viegas, o _Sabedor_, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa,
se daria ao Bastardo, villo de to negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforo de quem empurra
um arado por terra pedreira--gastra Gonalo essa doce semana de
Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda
molhados do banho de chuva, esfregava as mos deante da banca--porque
certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes d'almoo a
sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o
seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esbora, com
esquiva indeciso, como nobre Lyrico que ante uma viso de bruta
ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas mais
doces. E, ao tomar a penna, Gonalo tambem, realmente lamentava que seu
av Tructesindo no matasse outr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com
uma d'essas cutiladas maravilhosas, e to doces de celebrar, que racham
o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na
Historia.

Mas no! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros combinavam com
lentido uma vingana terrifica. Tructesindo desejra logo recolher a
Santa Ireneia, alar uma forca deante das barbacans, no cho em que seu
filho rolra morto, e n'ella enforcar, depois de bem aoitado, como
villo, o villo que o matra. O velho D. Pedro de Castro, porm,
aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por
Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava a
Montemr, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o
Bastardo amarrado sobre uma trave, aos ps de D. Tructesindo, como porco
pelo Natal, e que um cavallario lhe chamuscasse as barbas, e depois
outro, com facalho de ucharia, o sangrasse no pescoo,
pachorrentamente.

--Que vos parece, Snr. D. Garcia?

O _Sabedor_ desafivelra o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a
poeira da lide:

--Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de
cavalgada, logo adiante destes cerros, no _Pego das Bichas_... E nem
torcemos caminho, que de l, por Tordezello e Santa Maria da Varge,
endireitamos a Montemr, to direitos como va o corvo... Confiae em
mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal
morte e to vil, que d'outra egual se no possa contar desde que
Portugal foi condado.

--Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?

--L vereis, senhores e amigos, l vereis!

--Seja! Mandae dar s bozinas.

Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um troo de
besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o
Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D.
Garcia, a curta hoste metteu para o _Pego das Bichas_, em desbando, com
os senhores de lana espalhados, como em marcha de folgana e paz, (?) e
todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da
lide.

A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia entre
os cerros o _Pego das Bichas_. Era um lugar de eterno silencio e de
eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcra o tio Duarte a desolada
asperido:

    Nem trillo d'ave em balanado ramo!
    Nem fresca flr junto de fresco arroio!
    S rocha, mattagal, ribas soturnas,
    E em meio o _Pego_, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o
avistaram, na melancholia da manh nevoenta, emmudeceram da larga
fallada, repucharam os freios, assustados ante to aspero ermo, to
propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do escalavrado
barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira,
aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo
pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a
meio tiro de bsta, negrejava o _Pego_, lagoa estreita, lisa, sem uma
ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina
d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno
subiam os cerros, eriados de matto bravio e alto, sulcados por trilhos
de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no
alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. To pesado era o
silencio, to pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem
de tanta jornada, se espantou:

--Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de ns,
n'ella entrou homem remido pelo baptismo.

--Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o _Sabedor_, j por aqui se
moveu muita lana, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Sueiro, e de
vosso rei D. Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma castellania
famosa! Vde alm!--E mostrava na ponta do pego, fronteira ao barranco,
dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e
vento polira como marmores finos. Um passadio de traves, sobre estacas
limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E
a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No emtanto j o tropel da peonagem se espalhra pela ribanceira. D.
Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos
bsteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho
e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens
descessem o Bastardo da mula, o estirassem no cho, o despissem, todo
n, como sua me barreg o soltra  negra vida...

Tructesindo encarou o _Sabedor_, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

--Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o villo, e sujar
essa agua innocente!...

E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte to
quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam,
lampejavam de triumpho e gosto:

--Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me
consente algumas traas. No! Nem enforcado, nem degolado, nem
afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas
grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

--Vida de Christo! Que ter n'uma hoste o Snr. D. Garcia,  ter
juntamente, para marchas e conselho, enrolados n'um s, Annibal e
Aristoteles!

Um rumor d'admirao correu pela hoste:

--Boa traa, boa traa!

E Tructesindo, radiante, bradava:

--Andar, andar, bsteiros! E vs, senhores, recuae para a lomba do
cerro, como para palanque, que vae ser grande a vista! J seis bsteiros
descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com mlhos
de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rez, toda a rude turma se
abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a
cervilheira, o saio, as grevas, os sapates de ferro, depois a grossa
roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabellos, filado
pelos ps, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os
braos esmagados sob outros grossos braos retsos, o possante Bastardo
ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da
matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido,
branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso
urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um aps outro se erguiam os
bsteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforo.

No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa Ireneia, desmontavam
cravando o couto das lanas entre o tojo e as pedras. Todos os recostos
dos outeiros se cubriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de
justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dous magros espinheiros toldavam
de folha rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o Snr. D. Pedro
de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas s o velho _Castello_ se
accommodou, para uma repousada delonga, desafivelando o seu corselete de
ferro tauxeado d'ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho
da sua alta espada, os olhos fundos vidamente cravados na tenebrosa
laga que, com morte to fera e to suja, vingaria seu filho... E pela
borda do _Pego_, pees, e alguns cavalleiros d'Hespanha, remexiam com
virotes, com os coutos das ascumas, a agua lodosa, na curiosidade das
negras bichas escondidas, que o povoavam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de pees
amontoada em torno ao Bastardo se arredou:--e o forte corpo appareceu,
n e branco, sobre a terra negra, com um denso pello ruivo nos peitos, a
sua virilidade afogada n'outra matta de pello ruivo, e todo ligado por
cordas de canave que o inteiriavam. N'aquella rigidez de fardo, nem as
costellas arfavam--apenas os olhos refulgiam, ensanguentados,
horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns cavalleiros
correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Bayo. O senhor dos
Paos d'Argelim mofou, com estrondo:

--Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de amora raspou o sapato de ferro pelo hombro do malfadado:

--Vde este _Claro-Sol_, to claro, que se apaga agora, em agua to
negra!

O Bastardo cerrava duramente as palpebras,--d'onde duas grossas lagrimas
escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo prego resoou pela
ribanceira:

--Justia! Justia!

Era o Adail de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma lana, atroava
os cerros:

--Justia! justia que manda fazer o Senhor de Treixedo e de Santa
Ireneia, n'um perro matador!... Justia n'um perro, filho de perra, que
matou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...

Trez vezes pregoou por deante da hoste apinhada nos cerros. Depois
quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro,--como a
julgadores no seu Estrado de julgamento.

--Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ireneia.

Immediatamente, a um commando do _Sabedor_, seis bsteiros, com as
pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como
se ergue um morto enrolado no seu lenol, e com elle entraram na agua,
at ao mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas,
correram pelo limoso passadio de traves. Com um alarido d'_aguenta!
endireita! ala!_ n'um desesperado esforo o robusto corpo branco foi
mergulhado n'agua at s virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois
n'elle atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o
suspendia, sem escorregar, to seguro e collado como um rlo de vela que
se amarra ao mastro. Rapidamente os bsteiros fugiram d'agoa,
desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das
bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadio, n'uma fila que se
empurrava. No Pego ficava Lopo de Bayo bem arranjado para a vistosa
morte lenta, com a agoa que j o afogava at s pernas, com cordas que o
enroscavam at ao pescoo como a um escravo no poste; e uma espessa
mecha dos cabellos louros laada na argola de ferro, repuxando a face
clara, para que todos n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do
_Claro-Sol_.

Ento o attento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros,
mais entristeceu o enevoado silencio do ermo. A agoa jazia sem um
arrepio, com as suas manchas, negras como uma lamina d'estanho
enferrujado. Entre as cristas das rochas, archeiros postados pelo
_Sabedor_, atalaiavam, para alm, os descampados. Um alto vo de gralha
atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flamulas das lanas
cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentido das bichas, alguns pees atiravam
pedras  agoa lodosa. J alguns cavalleiros hespanhoes rosnavam
impacientes com a delonga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo
agachados a borda da laga, para mostrar que falladas bichas nunca
acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa negra, as mos descaladas,
que depois sacudiam, rindo, e mofando o _Sabedor_... Mas de repente um
estremeo sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos musculos, no
furioso esforo de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como
cobras que se arqueiam; dos beios arreganhados romperam, em rugidos, em
grunhidos, ultrages e ameaas contra Tructesindo covarde, e contra toda
a raa de Ramires, que elle emprasava, dentro do anno, para as labaredas
do Inferno! Indignado, um Cavalleiro de Santa Ireneia agarrou uma bsta
de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

--Por Deus, amigo! No roubeis s sanguesugas nem uma pinga d'aquelle
sangue fresco!... Vde como veem! vde como veem!

Na agoa espessa, em torno s coxas mergulhadas do Bastardo, um fremito
corria, grossas bolhas empolavam,--e d'ellas, mollemente, uma bicha
surdio, depois outra e outra, lusidias e negras, que ondulavam, se
collavam  branca pelle do ventre, d'onde pendiam, chupando, logo
engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que j escorria. O
Bastardo emmudecera--e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados,
at rudes pees desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porm,
chasqueavam, assuavam as bichas, gritando--_a elle, donzellas! a elle!_
E o gentil amora de Cendufe, clamava rindo contra to ensossa morte!
Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo d'almorreimas. Nem era
sentena de Rico-Homem--mas receita d'herbanista moiro!

--Pois que mais quereis, meu Leonel? acudio alegremente o _Sabedor_,
resplandecendo. Morte  esta para se contar em livros! E no tereis este
inverno sero  lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que
no volte a historia d'este Pego, e d'este feito! Olhae nosso primo
Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenceou de certo em to longo
lidar d'armas!... E como goza! to attento! to maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balso, que o Alferes cravra entre
duas pedras, e como elle to qudo, o velho Ramires no despregava os
olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um fulgor sombrio.
Nunca elle esperra vingana to magnifica! O homem que atra seu filho
com cordas, o arrastra n'umas andas, o retalhra a punhal deante das
barbacans da sua Honra--agora, vilmente n, amarrado tambem como cerdo,
pendurado d'um pilar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por
sanguesugas, deante de duas mesnadas, das melhores d'Hespanha, que
miravam, que mofavam! Aquelle sangue, o sangue da raa detestada, no o
bebia a terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de ferida
honrada, atravez de rija armadura--mas, gota a gota, escuramente e
mollemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas
do lodo e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar o orgulhoso
sangue que as enfartra. N'um charco, onde elle o mergulhra, viscosas
bichas bebiam socegadamente o cavalleiro de Bayo! Onde houvera homizio
de solares fundado em desforra mais dce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexoravel goso, as sanguesugas
subindo, espalhadamente alastrando por aquelle corpo bem amarrado, como
seguro rebanho pela encosta da collina onde pasta. O ventre j
desapparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, relusia na
humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ancia,
d'onde sangue se esfiava, n'uma franja lenta. O denso pello ruivo do
peito, como a espessura d'uma selva, detivera muitas, que ondulavam, com
um rasto de lodo. Um monto ennovelado sangrava um brao. As mais
fartas, j inchadas, mais relusentes, despegavam, tombavam mollemente:
mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue
escorria delgado, represo nas cordas, d'onde pingava como uma chuva
rala. Na escura agoa boiavam gordas postemas de sangue esperdiado. E
assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, atravez
ultrages immundos, ameaas de mortes, de incendios, contra a raa dos
Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quasi estalavam, a
bocca horrendamente escancarada e avida, rompia aos roucos urros,
implorando _agoa, agoa!_ No seu furor as unhas, que uma volta de amarras
lhe collra contra as fortes cxas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na
fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia n'um longo gemer canado--at que parecia
adormecido nos grossos ns das cordas, as barbas relusindo sob o suor
que as alagra como sob um grosso orvalho, e entre ellas a espantada
lividez d'um sorriso delirado.

No emtanto j na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se
embotra a curiosidade bravia d'aquelle supplicio novo. E se acercava a
hora da rao de meridiana. O Adail de Santa Ireneia, depois o Almocadem
Hespanhol, mandaram soar os anafins. Ento todo o spero ermo se animou
com uma faina d'arraial. O almazem das duas mesnadas parra por detraz
dos morros, n'uma curta almargem d'herva, onde um regato claro se
arrastava nos seixos, por entre as raizes de amieiros chores. N'uma
pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os pees corriam para a fila
dos machos de carga, recebiam dos uches e estafeiros a fatia de carne,
a grossa metade d'um po escuro: e, espalhados pela sombra do arvoredo,
comiam com silenciosa lentido, bebendo da agoa do regato pelas concas
de pau. Depois preguiavam, estirados na relva,--ou trepavam em bando
pela outra encosta dos morros, atravs do matto, na esperana
d'atravessar com um virote alguma caa erradia. Na ribanceira, deante da
laga, os cavalleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam tambem, em
roda dos alforges abertos, cortando com os punhaes nacos de gordura nas
grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas
cabaas de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho _Sabedor_ descanava,
partilhando d'uma larga escudella de barro, cheia de _bolo papal_, d'um
bolo de mel e flr de farinha, onde ambos enterravam lentamente os
dedos, que depois limpavam ao forro dos morries. S o velho Tructesindo
no comia, no repousava, hirto e mudo deante do seu pendo, entre os
seus dous mastins, n'aquelle fero dever de acompanhar, sem que lhe
escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo.
Debalde o _Castello_, estendendo para elle um pichel de prata, gabava o
seu vinho de Tordesillas, fresco como nenhum d'Aquilat ou de Provins,
para a sede de to rija arrancada. O velho Rico-Homem nem attendera:--e
D. Pedro de Castro, depois de atirar dous pes aos ales fieis,
recomeou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquelle teimoso amor do
Bastardo por Violante Ramires que arrastra a tantos homizios e furores.

--Ditosos ns, Snr. D. Garcia! Ns a quem a edade e o quebranto e a
fartura j arredam d'essas tentaes... Que a mulher, como m'ensinava
certo Physico quando eu andava com os moiros,  vento que consola e
cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vde como os meus por ellas
penaram! S meu pae, com aquella desvairana de zelos, em que matou a
cutello minha dce madre Estevaninha. E ella to santa, e filha do
Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardencia! At a morrer, como este,
sugado por bichas, deante d'uma hoste que merenda e mofa. E por Deus,
quanto tarda em morrer, Snr. D. Garcia!

--Morrendo est, Snr. D. Pedro de Castro. E j com o demo ao lado para o
levar!

O Bastardo morria. Entre os ns das cordas ensanguentadas todo elle era
uma ascorosa aventesma escarlate e negra com as viscosas pastas de
bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada
ferida escorriam, mais copiosos que os regos d'humidade por um muro
denegrido.

O desesperado arquejar cessra, e a ancia contra as cordas, e todo o
furor. Molle e inerte como um fardo, apenas a espaos esbogalhava
horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado
pavor. Depois a face abatia, livida e flaccida, com o beio pendurado,
escancarando a bocca em cova negra, d'onde se escoava uma baba
ensanguentada. E das palpebras novamente cerradas, entumecidas, um muco
gotejava, tambem como de lagrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no emtanto, voltando da rao, reatulhava a ribanceira,
pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda
sugavam. J os pagens recolhiam manteis e alforges. D. Pedro de Castro
descera do cabeo com o _Sabedor_ at  borda da agoa lodosa, onde quasi
mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o
agonisante de to rara agonia! E alguns senhores, estafados com a
delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam:--Est morto! Est
acabado!

Ento Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Bsteiros:

--Ermigues, ide vr se ainda resta alento n'aquella postema.

O Coudel correu pelo passadio de traves, e arrepiado de nojo palpou a
livida carne, acercou da bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga que
desembainhra.

--Morto! morto!--gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava,
engilhado, chupado, esvasiado. O sangue j no manava, havia coalhado em
postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, relusindo. E
outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra
tapava um olho. O _Claro-Sol_ no era mais que uma immundice que se
decompunha. S a madeixa dos cabellos louros, repuxada, presa na argola,
relusia com um lampejo de chamma, como rastro deixado pela ardente alma
que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avanou para o
Senhor de Santa Ireneia, bradou:

--Justia est feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Ento o velho Rico-Homem atirando o brao, o cabelludo punho, com
possante ameaa, bradou, n'um rouco brado que rolou por penhascos e
cerros:

--Morto est! E assim morra de morte infame quem traidoramente me
affronte a mim e aos da minha raa!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atravez do matto, e
com um largo aceno ao Alferes do Pendo:

--Affonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a cavallo, se vos praz, Snr.
D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O _Castello_ ondeou risonhamente o guante:

--Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vs. A
cavallo pois se vos praz! Que nos promette aqui o Snr. D. Garcia vrmos
ainda, com sol muito alto, os muros de Monte-mr.

J a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzeis d'armas puxavam para a
ribanceira os ginetes folgados que a vasta agua escura assustava. E, com
os dous balses tendidos, o Aor negro, as Treze Arruellas, a fila da
cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, d'onde as pedras soltas
rolavam. No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas sellas para
silenciosamente remirarem o homem de Bayo, que l ficava, amarrado ao
pilar, na solido do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos bsteiros e
fundibularios de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com
chufas, sujas injurias ao perro matador. A meio da escarpa, um
bsteiro, virando, retezou furiosamente a bsta. A comprida garruncha
apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma bala de funda, e uma setta
barbada,--que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novello
de bichas. O Coudel berrou: cerra! anda! A rcua das azemolas de carga
avanava, sob o estralar dos lategos: os moos da carriagem apanhavam
grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros
marcharam, nos seus curtos saios de couro cr, balanando um chuo
curto:--e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou
na face do Bastardo sobre as finas barbas d'ouro.




XI


Quando Gonalo, estafado e j todo o ardor bruxuleando, retocou este
derradeiro trao da affronta--a sineta no corredor repicava para o
almoo. Emfim! Deus louvado! eis finda essa eterna _Torre de Ramires_!
Quatro mezes, quatro penosos mezes desde Junho, trabalhra na sombria
resurreio dos seus avs barbaros. Com uma grossa e carregada lettra,
traou no fundo da tira *Finis*. E datou, com a hora, que era do
meio-dia e quatorze minutos.

Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutra, no sentia o
contentamento esperado. At esse supplicio do Bastardo lhe deixra uma
averso por aquelle remoto mundo Affonsino, to bestial, to deshumano!
Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituira, com luminosa
verdade, o ser moral d'esses avs bravios... Mas que! bem receava que
sob desconcertadas armaduras, de pouca exactido archeologica, apenas
s'esfumassem incertas almas de nenhuma realidade historica!... At
duvidava que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco, o corpo d'um
homem, e o sugassem das cxas s barbas, em quanto uma hoste mastiga a
rao!... Emfim, o Castanheiro louvra os primeiros Capitulos. A
Multido ama, nas Novellas, os grandes furores, o sangue pingando: e em
breve os *Annaes* espalhariam, por todo o Portugal, a fama d'aquella
Casa illustre, que armra mesnadas, arrasra castellos, saquera
comarcas por orgulho de pendo, e affrontra arrogantemente os Reis na
curia e nos campos de lide. O seu vero, pois, fra fecundo. E para o
coroar, eis agora a Eleio, que o libertava das melancolias do seu
buraco rural...

Para no retardar as visitas ainda devidas aos Influentes, e tambem para
espairecer, logo depois d'almoco montou a cavallo--apezar do calor, que
desde a vespera, e n'aquelle meado d'outubro, esmagava a aldeia com o
refulgente peso d'uma canicula d'Agosto. Na volta da estrada, dos
Bravaes um homem gordo, de cala branca enxovalhada, que s'apressava,
bufando, sob o seu guarda-sol de panninho vermelho, deteve o Fidalgo com
uma cortezia immensa. Era o Godinho, amanuense da Administrao. Levava
um officio urgente ao Regedor dos Bravaes, e agora corria  Torre de
mandado do Snr. Administrador...

Gonalo recuou a egoa para a sombra d'uma carvalha:

--Ento que temos, amigo Godinho?

O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.^a que o maroto do Ernesto, o
valento de Nacejas, em tratamento no Hospital d'Oliveira, melhorra
consideravelmente. J lhe repegra a orelha, a bocca soldava... E, como
se procedeu  querella, o patife passava da enfermaria para a cadeia...

Gonalo protestou logo, com uma palmada no selim:

--No senhor! Faa o obsequio de dizer ao Snr. Joo Gouveia que no
quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou uma dse tremenda,
estamos quites.

--Mas Snr. Gonalo Mendes...

--Pelo amor de Deus, amigo Godinho! No quero, e no quero... Explique
bem ao Snr. Joo Gouveia... Detesto vinganas. No esto nos meus
habitos, nem nos habitos da minha familia. Nunca houve um Ramires que se
vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Emfim explique bem ao Snr.
Joo Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembleia... Bem basta ao
homem ficar desfeiado. No consinto que o apoquentem mais!... Detesto
ferocidades.

--Mas...

--Esta  a minha deciso, Godinho.

--L darei o recado de V. Ex.^a

--Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!

--De rachar, Snr. Gonalo Mendes, de rachar!

Gonalo seguiu, revoltado pela ideia de que o pobre valento de Nacejas,
ainda modo, com a orelha mal soldada, baixasse  sordida enxovia de
Villa-Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo em galopar para
Villa-Clara, reter o zelo legal do Joo Gouveia. Mas perto, adeante do
lavadoiro, era a casa d'um Influente, o Joo Firmino, carpinteiro e seu
compadre. E para l trotou, apeando ao portal do quinteiro. O compadre
Firmino largra cedo para a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar
do Snr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cosinha, obesa e
lusidia, com dous pequenos dependurados das saias e mais sujos que
esfreges. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:

--E que rico cheiro a po fresco, oh comadre! Foi a fornada, hein? Pois
ento grande abrao ao Firmino. E que se no esquea! A Eleio vem para
o outro Domingo. L conto com o voto d'elle. E olhe que no  pelo voto,
 pela amisade.

A comadre arreganhava os dentes magnificos n'um regalado e gordo
riso:--Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino j jurra, at ao
Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem no
fosse a amor ia a pau. O Fidalgo apertou a mo da comadre--que do
degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o
gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d'um
Rei benefico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche,
encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. O que!
para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!--Na tasca
do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, j ruidoso, com as
jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles,
galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais
velho, um avejo escuro, sem dentes, e a face mais engilhada que uma
ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o balco:--Isto, rapazes, 
fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta
a egoa, e vae elle ao lado mais d'uma legua a p, como foi com o Slha!
Rapazes! isto  Fidalgo para a gente ter gosto! As _saudes_ atroaram a
venda. E quando Gonalo montou, todos o cercavam como vassallos
ardentes, que a um aceno correriam a votar,--ou a matar!

Em casa do Thomaz Pedra, a av Anna Pedra, uma velha entrevada, muito
velha e tremula, rompeu a choramigar por o seu Thomaz andar para o
Olival quando o Fidalgo o visitava. Que aquillo era como visita de
santo!

--Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!

Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do leno,
pela face toda chupada de gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho
agudo:

--No senhor! no senhor! que quem mostrou aquella caridade pelo filho
do Casco, merece estar em altar!

O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava mos asperas e
rugosas como raizes, accendia o cigarro  braza das lareiras,
conversando, com intimidade, das molestias e dos derrios. Depois, no
calor e p da estrada, pensava:-- curioso! parece haver amisade,
n'esta gente!

s quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher  Torre pela
estrada mais fresca da _Bica Santa_. E passra o logarejo do Cerdal,
quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quasi
esbarrou com o Dr. Julio, tambem a cavallo, tambem no seu giro, de
quinzena d'alpaca, alagado em suor, debaixo d'um guarda-sol de sda
verde. Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavelmente.

--Muito gosto em o vr, Snr. Dr. Julio...

--Egualmente, com muita honra, Snr. Gonalo Ramires...

--Ento tambem na tarefa?...

O Dr. Julio encolheu os hombros:

--Que quer V. Ex.^a? Se me metteram n'esta! E sabe V. Ex.^a como isto
acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro Domingo, votar em V. Ex.^a.

O Fidalgo riu. Ambos se debruaram, para se apertarem as mos com
alegria, com estima.

--Que calor este, Snr. Dr. Julio!

--Horroroso, Snr. Gonalo Ramires... E que massada!

Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores--os
grandes e os miudos. E dois dias antes da Eleio, n'uma sexta-feira 
tarde, com um tempo j macio e fresco, partiu para Oliveira--onde
chegra, na vespera, o Andr Cavalleiro, depois da sua to longa, to
fallada demora em Lisboa.

Nos Cunhaes, apenas saltra da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo
bom Joo da Porta--que as Snr.^{as} Louzadas estavam em cima, de
visita, com a Snr.^a D. Graa...

--Ha muito?

--J l esto pegadas ha meia hora boa, meu senhor.

Gonalo enfiou surrateiramente para o seu quarto, pensando:--Que
desavergonhadas! Chegou o Andr, veem logo cocar! E j se lavra,
mudra o fato cinzento,--quando o Barrlo appareceu, esbaforido,
desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapeu alto, com as bochechas
accesas, alvoroadamente radiantes:

--Eh, seu Barrlo, que janota!

--Parece bruxedo! gritou o Barrlo, depois d'um abrao, que repetiu, com
desacostumado fervor. Estava agora mesmo para te mandar um telegramma,
que viesses...

--Para qu?

O Barrlo gaguejou, com um riso reprimido que o illuminava, o inchava:

--Para qu? P'ra nada... Quero dizer, para a Eleio! Pois a Eleio 
alm d'manh, menino! O Cavalleiro chegou hontem. Agora volto eu do
Governo Civil. Estive no Pao com o Snr. Bispo, depois passei pelo
Governo Civil... Optimo, o Andr! Aparou o bigode, parece mais moo. E
traz novidades... Traz grandes novidades!

E o Barrlo esfregava as mos, n'um to faiscante alvoroo, com tanto
riso escapando dos olhos e da face relusente, que o Fidalgo o encarou
curioso, impressionado:

--Ouve l, Barrolinho! Tu tens alguma cousa boa para me annunciar?

Barrlo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma
porta. Elle? No! No sabia nada! S a Eleio! Na Murtosa votao
tremenda...

--Ah! pensei, murmurou Gonalo. E a Gracinha?

--A Gracinha tambem no!

--Tambem no qu, homem? Como est? Simplesmente como est?

--Ah! est com as Louzadas. Ha mais de meia hora, aquellas bebedas!...
Naturalmente por causa do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos
Bazares... E ouve l, Gonalinho! Tu ficas at Domingo?

--No, volto manh para a Torre.

--Oh!...

--Pois dia d'Eleico, homem! devo estar em casa, no meu centro, no meio
das minhas freguezias...

-- pena, murmurou o Barrlo. Logo se sabia juntamente com a Eleio...
Eu dava um jantar tremendo...

--Logo se sabia, o qu?

O Barrlo emmudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brazas
gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:

--Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande brodio,
grande foguetorio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.

Ento Gonalo risonhamente prendeu o Barrlo pelos hombros:

--Dize l, Barrolinho. Dize l. Tu tens uma cousa boa para contar ao teu
cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Elle
no sabia nada. O Andr no lhe contra nada!

--Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amavel mysterio, que pairava.
Ento descemos. E se essas carraas das Louzadas ainda estiverem l
pegadas, manda dizer pelo escudeiro  sala, bem alto,  Gracinha, que
cheguei, que lhe desejo fallar immediatamente no meu quarto: com esses
monstros no ha consideraes.

O Barrlo balbuciou, hesitando:

--O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amavel commigo, ainda ha pouco, o
Snr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. J se
libertra das Louzadas. Era uma antiga cano patriotica da Vendeia, que
outr'ora na Torre, ella e Gonalo entoavam com emoo, quando os
inflammava o amor fidalgo e romantico dos Bourbons e dos Stuarts:

    Monsieur de Charette a dit  ceux d'Ancenes
      "Mes Amis!...
    Monsieur de Charette a dit...

Gonalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a
estrophe, com o brao erguido como uma bandeira:

      "Mes amis!
    Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"

Gracinha saltou do mocho, n'uma surpresa.

--No te esperavamos! imaginei que passavas a Eleio na Torre... E por
l?

--Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho
immenso. Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.

Barrlo, que no socegava pela sala, rompeu para elles, com o mesmo riso
suffocado:

--Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou,
n'uma curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma
grande nova para lhe contar... Eu no sei nada, a no ser a Eleio!
Pois no  verdade, Gracinha?

Gonalo, muito serio, prendeu o queixo da irm:

--Sabes tu, dize l.

Ella sorriu, crada... No, no sabia nada, s a Eleio.

--Dize l!

--No sei... So tolices do Jos.

Mas ento, ante aquelle sorriso fraco, rendido, que confessava--o
Barrlo no se conteve, desafogou como um morteiro estoira.--Pois bem!
sim! com effeito!--Grande novidade! Mas o Andr, que a trouxera de
Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle, s elle, causar a surpresa a
Gonalo...

--De modo que eu no posso! Jurei ao Andr. A Gracinha sabe, que eu j
lhe contei hontem... Mas tambem no pde, tambem jurou. S o Andr. Elle
vem logo tomar ch, e rebenta a bomba... Que  uma bomba! e grada!

Gonalo, rodo de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo os
hombros:

--Bem, j sei,  uma herana! Tens quinze tostes d'alviaras, Barrlo.

Mas durante o jantar e depois na sala tomando caf, emquanto Gracinha
recomera as velhas canes patrioticas, agora as jacobitas, em louvor
dos Stuarts--Gonalo anciou pela appario do Cavalleiro. Nem receava
que a esse encontro se misturasse amargura, despeito suffocado. Todo o
seu furor contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mirante,
revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipra lentamente
depois da sua tocante conversa com a irm, na manh historica da briga
da Grainha. Gracinha ento, com grandes lagrimas de pureza e de verdade,
jurra reserva, retrahimento. Gonalo, abandonando Oliveira, mostrava
tambem uma resistencia louvavel contra o sentimento ou a vaidade que o
transvira. Demais elle no podia romper novamente com o Cavalleiro,
andando ainda nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella reconciliao
ruidosa que chamra o Cavalleiro  intimidade dos Cunhaes. E por fim de
que valiam furores ou magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annullariam o
mal que se consummra no Mirante--se porventura se consummra. E assim
toda a clera contra o Andr se dissipra n'aquella sua leve e doce
alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais
carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em ceu de
estio...

Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro penetrou na sala,
vagaroso e magnifico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma
gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava,
Gonalo sentiu uma renovada averso por toda aquella petulancia recheada
de falsidade--e apenas poude bater mollemente, desenxabidamente, nas
costas do velho amigo, que o apertava n'um abrao d'apparatosa ternura.
E em quanto Andr, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado na
poltrona que o Barrlo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de
Cascaes, to alegre, e partidas de _bridge_ e da Parada e
d'El-Rei--Gonalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre corao a
bater contra a persiana mal fechada, a bruta supplica murmurada atravez
d'aquelles bigodes atrevidos, e emmudecera, como empedernido,
esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas
Gracinha conservava uma serenidade attenta, sem nenhum dos seus
chammejantes rubores, dos seus desgraados enleios de modo e gesto,
apenas levemente secca, d'uma seccura preparada e posta. Depois Andr
alludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da
Eleio, porque o tio Reis Gomes, o Jos Ernesto, esses crueis amigos,
lhe andavam atirando para os hombros todo o trabalho da Nova Reforma
Administrativa.

Entre elle e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma
funda legua de fosso, onde rolra, se afundra todo aquelle romance do
vero, sem que na face d'ambos restasse um afogueado vestigio do seu
ardor. E Gonalo, insensivelmente contente pela apparencia, terminou por
abandonar a cadeira onde se impedernira, accendeu o charuto na vela do
piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro)
anciavam pela chegada de Gonalo.

--L encontrei tambem o Castanheiro... Enthusiasmado com o teu Romance.
Parece que nem no Herculano, nem no Rebello existe nada to forte, como
reconstruco historica. O Castanheiro prefere mesmo o teu realismo
epico ao do Flaubert, na _Salammb_. Emfim, enthusiasmado! E ns, est
claro, ardendo por que apparea a sublime obra.

O Fidalgo crou profundamente, murmurando--Que tolice! Depois roou
pela poltrona em que se enterrava o Andr, afagou suavemente o largo
hombro do Andr:

--Pois, tens feito c muita falta, meu velho! Ha dias passei em Corinde,
tive saudades...

Ento o Barrlo, que no socegava, vermelho, a estoirar rebolando pela
sala, espiando ora o Cavalleiro, ora o Gonalo, com um riso mudo e
avido, no se conteve mais, gritou:

--Bem, basta de prologos... Vamos l agora  grande surpresa, Andr! Eu
tenho estado toda a tarde a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora
no posso... Vamos l. E tu, Gonalinho, vae preparando os quinze
tostes.

Gonalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria,
desprendidamente:

--Com effeito! Parece que tens uma bella novidade.

O Cavalleiro alargou lentamente os braos, sempre enterrado na vasta
poltrona, sem pressa:

--Oh!  a cousa mais simples, mais natural... A Snr.^a D. Graa j sabe,
no  verdade?... No ha motivo para surpresa... To legitima, to
natural!

Gonalo exclamou, j impaciente:

--Mas emfim, venha l, dize.

O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que s agora se
pensasse em a realisar, cousa to devida, to adequada. Pois no lhe
parecia  Snr.^a D. Graa?

Gonalo, n'uma braza, berrou:

--Mas qu? que diabo?

O Cavalleiro, que se despegra vagarosamente da poltrona, puxou os
punhos, e deante de Gonalo, no silencio attento, alteando o peito,
grave, quasi official, comeou:

--Meu tio Reis Gomes, e o Jos Ernesto, tiveram uma ideia muito natural,
que communicaram a El-Rei, e que El-Rei approvou... Que approvou mesmo
ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella, de desejar que fosse
s sua. E hoje  s d'El-Rei. El-Rei pois pensou, como ns pensamos, que
um dos primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia
ter um titulo que consagrasse bem a antiguidade illustre da Casa, e
consagrasse tambem o merito superior de quem hoje a representa... Por
isso, meu querido Gonalo, j te posso annunciar, e quasi em nome
d'El-Rei, que vaes ser Marquez de Treixedo.

--Bravo! bravo! bramou o Barrlo, com palmas delirantes. Saltem para c
os quinze tostes, Snr. Marquez de Treixedo!

Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonalo. N'um relance sentiu
que o Titulo era um dom do Cavalleiro, no ao chefe da casa de Ramires,
mas ao irmo complacente de Gracinha Ramires... E sobre tudo sentia a
incoherencia de que, ao chefe d'uma Casa dez vezes secular, me de
Dynastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus vares
mortos sob a armadura, se atirasse agora um ouco titulo, atravez do
_Diario do Governo_, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou
eleies. Todavia saudou o Cavalleiro, que esperava a effuso, os
abraos.--Oh! Marquez de Treixedo! certamente muito elegante, muito
amavel... Depois, esfregando as mos, com um sorriso de graa e
d'espanto... Mas, meu caro Andr, com que auctoridade me faz El-Rei
Marquez de Treixedo?

O Cavalleiro levantou vivamente a cabea n'uma offendida surpresa:

--Com que auctoridade? Simplesmente com a auctoridade que tem sobre ns
todos, como Rei de Portugal que ainda , Deus louvado!

E Gonalo, muito simplesmente, sem fumaa ou pompa, com o mesmo sorriso
de suave gracejo:

--Perdo, Andrsinho. Ainda no havia Reis de Portugal, nem sequer
Portugal, e j meus avs Ramires tinham solar em Treixedo! Eu approvo os
grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre aos mais antigos
comearem. El-Rei tem uma quinta ao p de Beja, creio eu, o _Ronco_.
Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fazer, a elle,
Marquez do Ronco.

O Barrlo embasbacra, sem comprehender, com as bochechas descahidas e
murchas. Da beira do canap, Gracinha, toda crada, faiscava de gosto,
por aquelle lindo orgulho que to bem condizia com o seu, mais lhe
fundia a alma com a alma do irmo amado. E Andr Cavalleiro, furioso,
mas vergando os hombros com ironica submisso, apenas murmurou:--Bem,
perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo...

O escudeiro entrava com a bandeja do ch.

       *       *       *       *       *

E no Domingo foi a Eleio.

Ainda com uma desconfiana, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou
atravessar esse dia muito solitariamente, quasi escondido, e no sabbado,
em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os d'Oliveira, o
consideravam estabelecido nos Cunhaes, e em communicao azafamada com o
Governo Civil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surrateiramente
para Santa Ireneia.

Mas o Barrlo (ainda abalado com aquelle despauterio do Gonalo, que
era uma offensa para o Cavalleiro! at para El-Rei!) ficra com a
misso de telegraphar para a Torre as noticias successivas das
assembleias,  maneira que ellas acudissem ao Governo Civil. E, com
ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o
velho Convento de S. Domingos um servio de creados formigando sem
repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Sueiro, copiava
com amor, n'uma lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo
Cavalleiro, que ajuntava a lapis alguma nota amavel--_Tudo
optimamente!_--_Victoria cresce._--_Parabens a V. Ex.^{as}._

Pela estrada de Villa-Clara  Torre, incessantemente, o moo do
Telegrapho se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela
livraria, berrando: outro telegramma, Snr. Doutor. Gonalo, nervoso,
com um immenso bule de ch sobre a banca, a bandeja j alastrada de
cigarros meio fumados, lia o telegramma ao Bento. O Bento, com _vivas_
pelo corredor, corria a bramar o telegramma  Rosa.

E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar--j
conhecia o seu triumpho explendido. E o que o impressionava, relendo os
telegrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles influentes, povos
que elle mal rogava, e que convertiam o acto da Eleio quasi n'um acto
d'Amor. Toda a freguezia dos Bravaes marchra para a Egreja, cerrada
como uma hoste, com o Jos Casco na frente erguendo uma enorme bandeira,
entre dous tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrra no
adro da Egreja de Ramilde na sua victoria, com a neta toda vestida de
branco, seguido por uma vistosa fila de _char--bancs_, onde se
apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes se
esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os rapazes de flr na orelha,
correndo  Eleio do Fidalgo entre o repenicar das violas, como 
romaria d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em face  Egreja,
a gente da Velleda, da Riosa, do Cercal, erguera um arco de buxo, com
distico vermelho, sobre panninho:--Viva o nosso Ramires, flr dos
homens!

Depois, em quanto jantava, um moo da quinta voltou de Villa-Clara,
alvoroado, contando o delirio, as philarmonicas pelas ruas, a
Assembleia toda embandeirada, e na casa da Camara, sobre a porta, um
transparente com o retrato de Gonalo, que uma multido acclamava.

Gonalo apressou o caf. Por timidez, receoso dos vivorios, no ousava
correr a Villa-Clara--a espreitar. Mas accendeu o charuto, passou 
varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava to cheia de
clares e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidraada quasi
recuou, com outro espanto. A Torre illuminra! Das suas fundas frestas,
atravez das negras rexas de ferro, sahia um claro; e muito alta, sobre
as velhas ameias, refulgia uma serena cora de lumes! Era uma surpresa,
preparada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa, pelos moos da
quinta,--que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam
a sua obra, allumiando o ceu sereno. Gonalo percebeu os passos
abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:

--Oh, Bento! Oh, Rosa!... Est ahi alguem?

Um risinho esfusiou. A jaqueta branca do Bento surdio da sombra.

--O Snr. Doutor queria alguma cousa?

--No, homem! Queria agradecer... Foram vocs, hein? Est linda a
illuminaco! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado,
rapazes! De longe deve fazer um effeito soberbo.

Mas o Bento ainda se no contentava com aquellas lamparinas frouxas. A
Torre, para sobresahir, necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. Doutor
nem imaginava a altura, depois em cima, a immensido do eirado.

Ento, de repente, Gonalo sentiu um desejo de subir a esse immenso
eirado da Torre. No entrra na Torre desde estudante--e sempre ella lhe
desagradra por dentro, to escura, de to duro granito, com a sua
nudez, silencio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento terreo os
negros alapes chapeados de ferro que levavam s masmorras. Mas agora
as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella derradeira ossada, Honra
de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda,
lhe parecia interessante respirar aquella rumorosa sympathia esparsa,
que em torno, pelas freguezias rolava, subindo para elle, atravez da
noite, como um incenso. Enfiou um paletot, desceu  cosinha. O Bento, o
Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com elles
atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda
hombreira, comeou a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola
de ferro polira e poira.

J desde seculos se perdera a memoria do logar que occupava aquella
torre nas complicadas fortificaes da Honra e Senhorio de Santa
Ireneia. No era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre torre albarran,
nem a de Alcaova, onde se guardava o thesouro, o cartorio, os sacos to
preciosos das especiarias do Oriente--e talvez, obscura e sem nome,
apenas defendesse algum angulo de muralha, para os lados em que o
Castello enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas,
sobrevivente s outras mais altivas, comprehendida nas construces do
Pao formoso que se erguera d'entre o sombrio Castello Affonsino, e que
dominava Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda por
claras arcarias d'um terrao ao Palacio de gosto italiano, em que
Vicente Ramires converteu o Pao manuelino depois da sua campanha de
Castella: isolada no pomar, mas sobranceando o casaro que lentamente se
edificra depois do incendio do Palacio em tempo d'El-Rei D. Jos, e a
derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do
Tero dos Ramires--ella ligava as edades e como que mantinha, nas suas
pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe chamra
vagamente a Torre de D. Ramires. E Gonalo, ainda sob a impresso dos
avs e dos tempos que resuscitra na sua Novella, admirou com um
respeito novo a sua vastido, a sua fora, os seus empinados escales,
os seus muros to espessos, que as frestas esguias na espessura se
alongavam como corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas
d'azeite, com que o Bento as despertra. Em cada um dos trez sobrados
parou, penetrando curiosamente, quasi com uma intimidade, nas salas nas
e sonoras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com os assentos de
pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o d'um poo e ainda pelas
paredes riscadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros. Depois em
cima, no immenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias,
enchia de claridade, Gonalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais
fina, teve a dilatada sensao de dominar toda a Provincia, e de possuir
sobre ella uma supremacia paternal, s pela soberana altura e velhice da
sua torre, mais que a Provincia e que o Reino. Lentamente caminhou em
roda das ameias, at ao miradouro, a que um candieiro de petroleo, sobre
uma cadeira de palhinha posta em frente  fresta, estragava o entono
feudal. No co macio, mas levemente enevoado, raras estrellas luziam,
sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura
dos arvoredos se fundiam em escurido. Mas na sombra e silencio, por
vezes alm, para o lado dos Bravaes, lampejavam foguetes remotos. Um
claro amarellado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a
Finta, era de certo um rancho com archotes festivos. Na alta Egreja da
Velleda tremeluzia uma illuminao vaga, rala. Outras luzes, incertas
atravs do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria
de Craqude. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de
tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguezias
celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o
preito no eirado da sua torre, envolto em silencio e sombra.

O Bento descera, com o Joaquim, para reforar as lamparinas nas frestas
dos muros, onde ellas esmoreciam na espessura. E Gonalo ssinho,
acabando o charuto, recomeou a rolda, lento, em torno s ameias,
perdido n'um pensamento que j o agitra estranhamente, atravez
d'aquelle sobresaltado Domingo... Era pois popular! Por todas essas
aldeias, estendidas  sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois
popular! E esta certeza no o penetrava d'alegria, nem de
orgulho,--antes o enchia agora, n'aquella serenidade da noite, de
confuso, d'arrependimento! Ah! se adivinhasse--se elle adivinhasse!...
Como caminharia, com a cabea bem levantada, com os braos bem
estendidos, ssinho, em confiana risonha para todas essas sympathias
que o esperavam, to certas, to dadas. Mas no! Sempre se julgra
cercado da indifferena d'aquellas aldeias, onde elle, apesar do
antiquissimo nome, era o costumado moo, que volta de Coimbra e vive
silenciosamente da sua renda, passeando na sua egoa. A essas
indifferenas to naturaes nunca elle imaginra arrancar o punhado de
votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Politica,
onde elle conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam
por herana--fortuna e poder. Por isso se agarrra to avidamente  mo
do Cavalleiro,  mo do Snr. Governador Civil--para que S. Ex.^a, o bom
amigo, o mostrasse, o impozesse como o homem necessario, o querido do
Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguezias deviam offerecer
n'um Domingo o punhado de votos.

E na impaciencia d'esse favor abafra a memoria de amargos aggravos;
deante d'Oliveira pasmada abrara o homem detestado desde annos, que
andava chasqueando e demolindo, por praas e jornaes: facilitra a
resurreio de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e
envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca irmsinha, em
confuso e miseria moral... Torpezas e damnos--e para qu? Para
surripiar um punhado de votos que dez freguezias lhe trariam correndo,
gratuitamente, effusivamente, entre _vivas_ e foguetes, se elle acenasse
e lh'os pedissse...

Ah! eis ahi... Fra a desconfiana, essa encolhida desconfiana de si
mesmo,--que desde o collegio, atravez da vida, lhe estragra a vida. Era
a mesma desgraada desconfiana, que ainda semanas antes, deante de uma
sombra, um pau erguido, uma risada n'uma taberna, o forava a abalar, a
fugir, arripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia,
n'uma volta d'estrada, avana, ergue o chicote--e descobre a sua fora!
E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente  mo poderosa,
por se imaginar impopular--e descobre a sua popularidade immensa. Que
vida enganada, e tanto a sujra--por no saber!

O Bento no apparecia, ainda azafamado em illuminar condignamente as
rexas da Torre. Gonalo atirou a ponta do charuto, e com as mos nas
algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para as
estrellas. A nevoa adelgara quasi sumida,--lumes mais vivos palpitavam
no ceu mais profundo. De lumes e ceus descia essa sensao de
infinidade, d'eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas
desacostumadas da sua contemplao. Na alma de Gonalo passou, muito
fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensidades sob que se agita,
to vaidosa da sua agitao, a rasteira, a sombria poeira humana. Longe,
algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na escurido
serena. As luzinhas sobre a capella de Velleda, sobre o arco de Santa
Maria de Craqude, esmoreciam, j ralas. Todo o remoto rumor de
musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia
de triumpho findava, breve como os luminares e os foguetes.--E Gonalo,
parado, rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse triumpho
por que tanto almejra, porque tanto sabujra. Deputado! Deputado por
Villa-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, to miudo,
to trivial,--todo o seu esforo to desesperado, to sem escrupulos,
lhe parecia ainda menos immoral que risivel. Deputado! Para qu? Para
almoar no Bragana, galgar de tipoia a ladeira de S. Bento, e dentro do
sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu
alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e
distrahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o rebanho do S.
Fulgencio, por ter desertado o rebanho identico do Braz Victorino. Sim,
talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e  senhora
do chefe, e promessas e risos atravez de Redaces, e algum Discurso
esbrazeadamente berrado--lograsse ser Ministro. E ento? Seria ainda a
tipoia pela calada de S. Bento, com o correio atraz na pileca branca, e
a farda mal-feita, nas tardes d'assignatura, e os recurvados sorrisos
d'amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo
sobre elle de cada gazeta d'opposio... Ah! que pca, desinteressante
vida, em comparao d'outras cheias e soberbas vidas, que to
magnificamente palpitavam sob o tremeluzir d'essas mesmas estrellas! Em
quanto elle se encolhia no seu paletot, deputado por Villa-Clara, e no
triumpho d'essa miseria--Pensadores completavam a explicao do
Universo; Artistas realisavam obras de belleza eterna; Reformadores
aperfeioavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas;
Physiologistas diminuiam o velho soffrer humano; Inventores alargavam a
riqueza das raas; Aventureiros magnificos arrancavam mundos de sua
esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que
viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas mos
incanadas frmas sempre mais bellas ou mais justas da humanidade. Quem
fra como elles, que so os sobre-humanos! E tal aco to suprema
requeria o Genio, o dom que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre
um eleito? No! Apenas o claro entendimento das realidades humanas--e
depois o forte querer.

E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da Torre, entre o ceu todo
estrellado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de
Vida superior--at que enlevado, e como se a energia da longa raa, que
pela Torre passra, refluisse ao seu corao, imaginou a sua propria
encaminhada emfim para uma aco vasta e fecunda, em que soberbamente
gozasse o goso de verdadeiro viver, e em torno de si creasse vida, e
accrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas
puras o dourassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que elle
inteiro e n'um esforo pleno bem servira a sua terra...

O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:

--O Snr. Doutor ainda se demora?

--No. A festa acabou, Bento.

       *       *       *       *       *

Nos comeos de Dezembro, com o primeiro numero dos *Annaes*, appareceu a
_Torre de D. Ramires_. E todos os jornaes, mesmo os da opposio,
louvaram esse estudo magistral (como affirmou a _Tarde_) que, revelando
um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e
colorida, a obra de Herculano e de Rebello, a reconstituio moral e
social do velho Portugal heroico. Depois das festas de Natal, que elle
passou alegremente nos Cunhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de
bacalhau por uma receita sublime do padre Jos Vicente, da Finta, os
amigos d'Oliveira, os rapazes do Club e da Arcada offereceram ao
Deputado por Villa-Clara, na sala da Camara, adornada de buxos e
bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-cruz, e em
que o Baro das Marges (que presidia) saudou o prestigioso moo que,
talvez em breve, nas cadeiras do Poder levantasse do marasmo este brioso
paiz, com a pujana, a valentia, que so proprias da sua raa
nobilissima!

       *       *       *       *       *

No meado de Janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonalo partiu para
Lisboa; e atravez do inverno, em Lisboa, andou sempre nos
_Carnet-Mondain_ e _High-Life_ dos jornaes, nas noticias de jantares, do
_raouts_, de tiros aos pombos, de Caadas d'El-Rei, to notado nos
movimentos mais simples da sua elegancia, que os Barrlos assignaram o
_Diario Illustrado_ para saber quando elle passeava na Avenida. Em
Villa-Clara, na Assembleia, o Jos Gouveia j encolhia os hombros,
rosnando:--Desandou em janota!--Mas nos fins d'Abril uma noticia de
repente alvoroou Villa-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do
Club e da Arcada, perturbou to inesperadamente Gracinha, ento em
Amarante com o Barrlo, que n'essa noite ambos abalaram para Lisboa--e
na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cosinha, lavada em
lagrimas, sem comprehender, gemendo:

--Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o no torno mais a vr!

Gonalo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi mysteriosamente,
arranjra a concesso d'um vasto praso de Macheque, na Zambezia,
hypothecra a sua quinta historica de Treixedo, e embarcava em comeos
de Junho no paquete _Portugal_, com o Bento, para a Africa.




XII


Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vos
d'ave.

N'uma doce tarde dos fins de Septembro, Gracinha, que chegra na vespera
de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Sueiro, descansava na varanda da
sala de jantar, estendida sobre o canap de palhinha, ainda com um
grande avental branco, tapando o vestido at ao pescoo, um velho
avental do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casaro, ajudada
pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfra, arrumando e limpando,
com tanto gosto e fervor no trabalho, que ella mesma sacudira o p a
todos os livros da livraria, o seu socegado p de quatro annos. O
Barrlo tambem se occupra, dando sentenas nas obras da cavallaria,
que a valente egoa da briga da Grainha em breve partilharia com uma egoa
ingleza, de meio sangue, comprada em Londres. Tambem Padre Sueiro
remexera, pelo Archivo, zelosamente, com um espanejador. E at o Pereira
da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois moos na final
limpeza da horta, agora muito cuidada, j com meloal, j com morangal, e
duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que a
parra densa j recobria.

Com efeito a Torre, entre a alvoroada alegria de todos, enfeitava a sua
velhice--por que no Domingo, depois dos seus quatro annos d'Africa,
Gonalo regressava  Torre.

E Gracinha, estendida no canap com o seu velho avental branco, sorrindo
pensativamente para a quinta silenciosa, para o ceu todo crado sobre
Valverde, recordava esses quatro annos, desde a manh em que abrara
Gonalo, suffocada e a tremer, no beliche do _Portugal_... Quatro annos!
Assim passados, e nada mudra no mundo, no seu curto mundo d'entre os
Cunhaes e a Torre, e a vida rolra, e to sem historia como rola um rio
lento n'uma solido:--Gonalo na Africa, na vaga Africa, mandando raras
cartas, mas alegres, e com um enthusiasmo de fundador de Imperio; ella
nos Cunhaes, e o seu Barrlo, n'um to quieto e costumado viver, que
eram quasi d'agitao os jantares em que reuniam os Mendonas, os
Marges, o coronel do 7, outros amigos, e  noite na sala se abriam duas
mezas de panno verde para o voltarete e para o boston.

E n'este manso correr de vida se desfizera mansamente, quasi
insensivelmente, a sombria tormenta do seu corao. Nem ella agora
comprehendia como um sentimento, que atravez das suas anciedades ella
justificava, quasi secretamente santificava por o saber _unico_, e o
desejar _eterno_, assim se sumira, insensivelmente, sem dilaceraes,
deixra apenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, tambem
estranheza e confuso, restos de tanto que ardera, formando uma cinza
fina... A successo das cousas rolra, como o vento s lufadas n'um
campo, e ella rolra, levada com a inercia d'uma folha secca.

Logo depois do derradeiro Natal passado com Gonalo, Andr, que ainda os
acompanhra  Missa do Gallo e consora nos Cunhaes, voltou para Lisboa,
para essa Reforma, de que se lastimava... No silencio que entre ambos
ento se alargou, corria j uma frialdade d'abandono... E quando Andr
recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ella para Amarante,
onde a santa me do Barrlo adoecera, com uma vagarosa doena d'anemia e
velhice, que em Maio a levou para o Senhor.

Em Junho fra o commovido embarque de Gonalo para a Africa,--e no
tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com
Andr, que chegara d'Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente do
casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse vero, como o Barrlo
decidira fazer obras consideraveis no velho palacete do Largo d'El-Rei,
o passaram na quinta da _Murtosa_, que ella escolhera por causa da linda
matta, dos altos muros de convento. A essa solido attribuiu logo o
Barrlo a sua melancolia, a sua magreza, aquelle cansado scismar a que
se abandonava, pelos bancos musgosos da matta, com um romance esquecido
no regao. Para que ella se distrahisse, se fortificasse com banhos do
mar, alugou em Setembro, na Costa, o vistoso chalet do commendador
Barros. Ella no tomou banhos, nem apparecia na praia,  fresca hora das
barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas:--e s 
tarde passeava pelo comprido areal rente  vaga, acompanhada por dous
enormes galgos que lhe dera Manoel Duarte. Uma manh, ao almoo, ao
abrir as _Novidades_, Barrlo pulou, com um berro, um espanto. Era a
queda inesperada do Ministerio do S. Fulgencio! Andr Cavalleiro
apresentava logo a sua demisso pelo telegrapho. E ainda pelas
_Novidades_ souberam na Costa que S. Ex.^a partira para uma longa e
pittoresca viagem, a viagem a Constantinopla,  Asia Menor, que elle
annuncira ao jantar nos Cunhaes. Ella abrira um Atlas: com o dedo lento
caminhou desde Oliveira at  Syria, por sobre fronteiras e montes: j
Andr lhe parecia desvanecido, n'esses horisontes mais luminosos; fechou
o Atlas, pensando simplesmente como a gente muda!

Em Novembro voltaram a Oliveira, n'um sabbado de chuva, e ella na
carruagem sentia toda a melancolia e a frialdade do ceu penetrar no seu
corao. Mas no Domingo acordou com um lindo sol nas vidraas. Para a
missa das onze na S, ella estreou um chapo novo; depois, no caminho
para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casaro do Governo
Civil: agora habitava l outro Governador Civil, o Snr. Santos
Maldonado, um moo louro que tocava piano.

Na outra primavera o Barrlo, agora escravisado pela paixo d'obras,
imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com
um repuxo entre palmeiras, que formaria um jardim d'inverno catita.

Os trabalhadores comearam por esvasiar o Mirante da velha mobilia que o
guarnecia desde o tempo do tio Melchior: o immenso divan jazeu dois dias
no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrlo, impaciente,
com aquelle desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas
arrecadaes do soto, mandou que o queimassem com outras cadeiras
partidas, n'uma fogueira de festa, na noute dos annos de Gracinha. E
ella andou em torno da fogueira. O estofo podo flammejou, depois o
mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, at que uma braza ficou
latejando, e a braza escureceu em cinza.

Logo n'essa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma
tarde os Cunhaes--e apenas espetadas no soph, logo lhe contaram, com um
riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escandalo, o Cavalleiro! em
Lisboa! sem rebuo! com a mulher do Conde de S. Romo! um fazendeiro de
Cabo Verde!

N'essa noite, ella escreveu a Gonalo uma carta muito longa que
comeava:--Por c estamos todos bem, e n'este rame-ram costumado... E
com effeito a vida recomera, no seu rame-ram, simples, contnua, e sem
historia, como corre um rio claro n'uma solido.

 porta envidraada da varanda o filho da Crispola espreitou--o filho da
Crispola, que ficra sempre na Torre, como andarilho, mas crescera
muito para fra da sua antiga jaqueta de botes amarellos, usava agora
jaquetes velhos do Snr. Doutor, e j repuxava o buo:

-- que est l em baixo o Snr. Antonio Villalobos, com o Snr. Gouveia e
outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem fallar  senhora...

--O Snr. Villalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a
varanda!

Ao atravessar a sala, onde dous esteireiros d'Oliveira pregavam uma
esteira nova, o vozeiro do Tit j ribombava, notando os preparativos
da festa... E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais
requeimada, rebrilhava com a alegria d'encontrar emfim a Torre
despertando d'aquella modorra, em que tudo dentro parecia tristemente
apagado, at o lume das caarolas:

--Peo desculpa da invaso, prima Graa. Mas passamos, de volta d'um
passeio dos Bravaes, soubemos que a prima viera com o Barrlo...

--Oh! gosto immenso, primo Antonio. Eu  que peo desculpa d'esta
figura, assim despenteada, de grande avental... Mas todo o dia em
arranjos, a preparar a casa... E o Snr. Gouveia, como tem passado? No o
vejo desde a Paschoa.

O administrador, que no mudra n'esses quatro annos, escuro, secco,
como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com
o bigode mais amarellado do cigarro, agradeceu  Snr.^a D. Graa... E
passra menos mal, desde a Paschoa. A no ser a desavergonhada da
garganta...

--E ento o nosso grande homem? quando chega? quando chega?

--No Domingo. Estamos todos em alvoroo... Ento no se senta, Snr.
Videira? Olhe, puxe aquella cadeira de vime. A varanda por ora no est
arranjada.

Videirinha, logo depois da Eleio, recebera de Gonalo o logar
promettido, facil e com vagares, para no esquecer o violo. Era
amanuense na Administrao do Concelho de Villa-Clara. Mas convivia
ainda na intimidade do seu chefe, que o utilisava para todos os
servios, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com uma auctoridade
secca, mesmo ceando ambos no Gago.

Timidamente arrastou a cadeira de vime, que collocou, com respeito,
atraz da cadeira do seu Chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que
agora sempre trazia para realar a sua posio, lembrou que o comboio
chegava ao apeadeiro de Craqude s dez e quarenta, no trazendo atrazo.
Mas talvez o Snr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens...

--Duvido, murmurou Gracinha. Em todo o caso o Jos est com teno de
partir de madrugada, para o encontrar na bifurcao, em Lamello.

--Ns no! acudiu o Tit, que se sentra familiarmente no rebordo da
varanda. C o nosso rancho vae simplesmente a Craqude. J  terra da
familia, e sitio mais socegado para o vivorio... Mas ento esse homem
no se demorou em Lisboa, prima Graa?

--Desde Domingo, primo Antonio. Chegou no Domingo, de Paris, pelo
Sud-Express. E teve uma chegada brilhante... Oh! muito brilhante! Hontem
recebi eu uma carta da Maria Mendona, uma grande carta em que conta...

--O que? A prima Maria Mendona est em Lisboa?

--Sim, desde os fins d'Agosto, n'uma visita a D. Anna Lucena...

Vivamente, Joo Gouveia puxou a cadeira, n'uma curiosidade que de certo
o remoera:

-- verdade, Snr.^a D. Graa!--Ento parece que a D. Anna Lucena comprou
uma casa em Lisboa. anda em arranjos de mobilia?... V. Ex.^a ouviu,
Snr.^a D. Graa?

No, Gracinha no sabia. Mas era natural, agora que tanto se demorava em
Lisboa, pouco se aproveitava da _Feitosa_, to linda quinta...

--Ento casa! exclamou o Gouveia, com immensa convico. Se anda em
arranjos de mobilia, ento casa.  natural, quer posio. Depois, j l
vo quatro annos de viuvez, e...

Gracinha sorriu. Mas o Tit, que coava lentamente a barba, voltou 
carta da prima Maria Mendona, contando a chegada.

--Sim! acudiu Gracinha, conta, esteve na Estao, no Rocio. Parece que o
Gonalo optimo, mais forte... Olhe, primo Antonio, leia a carta. Leia
alto! No tem segredos.  toda sobre o Gonalo...

Tirra do bolso um pesado enveloppe, com sinete d'armas no lacre. Mas a
prima Maria escrevia sempre depressa, n'uma lettra atabalhoada, com as
linhas crusadas. Talvez o primo Antonio no comprehendesse...--E com
effeito, deante das quatro folhas de papel erriadas de negras linhas,
parecendo uma sebe espinhosa, o Tit recuou, aterrado. Mas o Joo
Gouveia immediatamente se offereceu, com a sua pericia em decifrar
officios de regedores... No havendo segredos.

--No, no ha segredos, afianou Gracinha, rindo.  unicamente sobre o
Gonalo, como n'um jornal.

O administrador folheou a immensa carta, passou os dedos sobre o bigode,
com certa solemnidade:

Minha querida Graa... A costureira do Silva diz que o vestido...

--No! acudiu Gracinha.  na outra pagina, no alto. Volte a pagina.

Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! est claro, carta de
senhora, logo os trapos... E a Snr.^a D. Graa a assegurar que era toda
sobre Gonalo. Pois j veriam se pelo meio se no fallava ainda em
vestidos... Ah! estas senhoras, com os trapos!...--Depois recomeou, na
outra pagina, com lentido e gravidade:

...Deves agora estar anciosa por saber da grande chegada do primo
Gonalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recepo de pessoa real.
Eramos mais de trinta amigos. Est claro, appareceu toda a roda da nossa
parentella; e se rebentasse de repente n'essa manh uma revoluo, os
Republicanos apanhavam alli junta, na estao do Rocio, toda a flr da
nobresa de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima Chellas,
a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que apesar do
rheumatismo e da vindima, veiu expressamente da quinta de Torres), e eu.
Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que  secretario d'El-Rei
e o primo Olhalvo, que  o seu Mordomo-Mr, e o Ministro da Marinha e o
Ministro das Obras Publicas, ambos condiscipulos e intimos de Gonalo,
as pessoas na estao deviam imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express
trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um salo, com
toda aquella gente da sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre
to amavel e engraado, e fazendo j convites para um jantar (que depois
deu) ao primo Gonalo. L fui a esse jantar com o meu vestido verde,
novo, que ficou bem...

Gouveia gritou triumphando:

--Hein? que disse eu?! c est vestido. Vestido verde!

--L para deante, homem! bramou o Tit.

E o Administrador, realmente interessado, recomeou, com entono:

...com o meu vestido verde novo, excepto a saia, um pouco pesadota.
Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonalo, na plataforma
do Sud-Express. No imaginas como vem... optimo! At mais bonito, e
sobretudo mais homem. A Africa nem de leve lhe tostou a pelle. Sempre a
mesma brancura. E d'uma elegancia, d'um apuro! Prova de como se adeanta
a civilisao d'Africa! dizia o primo Arega, este  estylo novo de
tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abrao, muita beijoca. A tia
Louredo choramigou. Ah, j esquecia! Estava tambem o Visconde de
Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muito linda ella, com um vestido do
Redfern, fez sensao. Todos me perguntavam quem era, e o conde d'Arega,
est claro, logo com appetite de ser apresentado. O Rio-Manso tambem
choramigou ao abraar o primo Gonalo. E ali viemos todos, em nobre
sequito, pela estao fra, entre o pasmo dos povos. Mas immediatamente
uma scena. De repente, no meio de toda aquella nata de brazes, o primo
Gonalo rompe e cahe nos braos do homemzinho de bonet agaloado que
recebia  porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gonalo! Parece que o
conheceu ao chegar a Loureno Marques, onde o homem tratava de se
estabelecer como photographo. Mas j esquecia o melhor--o Bento! No
imaginas o Bento... Magnifico! Deixou crescer um bocado de suissa.  um
modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de panno claro,
at aos ps, luvas amarelladas, gravidade immensa. Gostou de me vr na
estao--perguntou logo, com o olho humido, pela Snr.^a D. Graa, e pela
Rosa.  noite, o Jos e eu jantamos em familia, com o primo Gonalo, no
Bragana, para conversar da Torre e dos Cunhaes. Elle contou muitas
cousas interessantes d'Africa. Traz notas para um livro, e parece que o
praso prospera. N'estes poucos annos plantou dois mil coqueiros. Tem
tambem muito cacau, muita borracha. Gallinhas so aos milhares. 
verdade que uma gallinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja!
Aqui em Lisboa custa seis tostes, s com ossos--por que tendo tambem
alguma carne no peito, salta para c dez tostes, e agradece! No praso
j se construiu uma grande casa, proximo do rio, com vinte janellas e
pintada de azul. E o primo Gonalo declara que j no vende o praso nem
por oitenta contos. Para felicidade completa at achou um excellente
administrador. Eu todavia duvido que elle volte para a Africa. Tenho
agora c a minha linda ideia sobre o futuro do primo Gonalo. Talvez te
rias. E no adivinhas... com effeito, eu mesma s n'essa noite em que
jantamos no Bragana, recebi de repente a inspirao. O Rio-Manso est
tambem no Bragana. Quando desciamos para o jantar, para um gabinete,
encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a
abraar Gonalo, com uma _ternura de pae_. E a Rosinha to vermelha se
fez, que at Gonalo, apesar de excitado e distrahido, notou e crou de
leve. Parece que j ha entre elles um conhecimento antigo, por causa
d'um cesto de rosas, e que, desde annos, o Destino os anda
surrateiramente chegando. Ella  realmente uma belleza. E to
sympathica, to bem educada!... Differena d'edade, apenas onze annos; e
o dote tremendo. Fallam em quinhentos contos. Ha apenas a questo de
sangue e o d'ella, coitadinha... Emfim, como se diz em heraldica,--_o
Rei faz a pastora Rainha_. E os Ramires, no s vem dos Reis, mas os
Reis vem dos Ramires.--E agora passando a assumpto menos
interessante...

Discretamente Joo Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha,
louvando a Snr.^a D. Maria Mendona como um reporter precioso. Depois,
com um cumprimento:

--E, minha senhora, se as previses d'ella se realisam...

Mas no! Gracinha no acreditava! Ora! imaginaes da Maria Mendona.

--O primo Antonio bem a conhece, sabe como ella  casamenteira...

--Pois se at a mim me quiz casar, ribombou o Tit saltando do rebordo
da varanda. Imagine a prima... At a mim! Com a viuva Pinho, da loja de
pannos.

--Credo!

Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da
vida positiva:

--Olhe, Snr.^a D. Graa, acredite V. Ex.^a, sempre era melhor arranjo
para o Gonalo que a Africa... Eu no acredito n'esses prazos... Nem na
Africa. Tenho horror  Africa. S serve para nos dar desgostos. Boa para
vender, minha senhora! A Africa  como essas quintarolas, meio a monte,
que a gente herda d'uma tia velha, n'uma terra muito bruta, muito
distante, onde no se conhece ninguem, onde no se encontra sequer um
estanco; s habitada por cabreiros, e com sezes todo o anno. Boa para
vender.

Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:

--O qu! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no
mar, tanta perda de vida e fazenda?!

O Administrador protestou logo, com calor, j enristado para a
controversia:

--Quaes trabalhos, minha senhora? Era desembarcar alli na areia, plantar
umas cruzes de pau, atirar uns safanes aos pretos... Essas glorias
d'Africa so balelas. Est claro, V. Ex.^a falla como fidalga, neta de
fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...

O seu dedo agudo ameaava argumentos agudos.

Tit acudiu, salvou Gracinha:

--Oh Gouveia, ns estamos a tirar o tempo  prima Graa, que anda nos
seus arranjos. Essas questes d'Africa so para depois, com o Gonalo, 
sobremeza... E ento, minha querida prima, at Domingo, em Craqude. L
comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!

Mas Gouveia, cofiando o cco com a manga, ainda esperava converter a
Snr.^a D. Graa s ideias ss, sobre Politica Colonial.

--Era vender, minha senhora, era vender! Ella sorria, j
consentia--tomando a mo do Videirinha, que hesitava, com os dedos
espetados:

--E ento, Snr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o _Fado_?

Crando, Videirinha balbuciou que arranjra uma coisita, tambem n'um
fado, para a volta do Snr. Doutor. Gracinha prometteu decorar, para
cantar ao piano.

--Muito agradecido a V. Ex.^a... Creado de V. Ex.^a...

--Ento at Domingo, primo Antonio... Est uma tarde linda.

--At Domingo, em Craqude, prima.

Mas  porta envidraada, Joo Gouveia parou mais teso, bateu na testa:

--J me esquecia, desculpe V. Ex.^a! Recebi uma carta do Andr
Cavalleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao Barrlo. E quer
saber se o Barrlo lhe poderia ceder d'aquelle vinho verde de Vidainhos.
 tambem para um africanista, para o conde de S. Romo... Parece que a
Snr.^a condessa se pla por vinho verde!

E os tres amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o
vozeiro do Tit ainda ribombou, louvando a esteira nova de cres. No
corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas
de pato espetado no velho tinteiro de lato, que esperava, rebrilhando
solitariamente sobre a mesa nua sem papeis nem livros. Depois a Rosa
appareceu  porta do quarto de Gonalo, ajoujada de roupa, com um riso
em cada ruga da sua face redonda e cr de tijolo, que o farto leno de
cambraia, muito branco, circumdava como um nimbo. O Tit affagou
carinhosamente o hombro da boa cosinheira:

--Ento, tia Rosa, agora recomeam essas grandes petisqueiras, hein?

--Louvado seja Deus, Snr. D. Antonio! Que imaginei que no tornava a vr
o meu rico senhor. Tambem j tinha decidido... Se me enterrassem o corpo
aqui em Santa Ireneia, antes de eu vr o menino, a alma com certesa ia 
Africa para lhe fazer uma visita.

Os seus miudos olhos piscaram, lagrimejando de gosto--e seguiu pelo
corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a ma
camoeza. O Gouveia murmurra com uma careta:--Safa! E os tres amigos
desceram ao pateo onde, por curiosidade do Tit, visitaram as obras da
cavallaria.

--Veja voc! exclamou elle para o Gouveia, que accendia o charuto. Voc
a negar!... Mobilias, obras, egoa ingleza... Tudo j dinheiro d'Africa.

O Administrador encolheu os hombros:

--Veremos depois como elle traz o figado...

Deante do porto o Tit ainda parou a colher, na roseira costumada, uma
rosinha para florir o jaqueto de velludilho. E juntamente entrava o
Padre Sueiro, recolhendo d'uma volta pelos Bravaes, com o seu grande
guarda-sol de panninho e o seu breviario. Todos acolheram com carinho o
santo e douto velho, to raro agora na Torre.

--E ento no Domingo, c temos o nosso homem, Padre Sueiro!

O capello achatou sobre o peito a mo gorda, com reverencia, com
gratido...

--Deus ainda me quiz conceder, na minha velhice, mais esse grande
favor... Pois mal o esperava. Terras to asperas, e elle to delicado...

E para conversar de Gonalo, da espera em Craqude, acompanhou aquelles
senhores at  ponte da Portella. Joo Gouveia manquejava, aperreado por
umas infames botas novas que n'essa manh estrera. E descanaram um
momento no bello banco de pedra que o pae de Gonalo mandra collocar,
quando Governador Civil d'Oliveira. Era esse o doce sitio d'onde se
avista Villa-Clara, to aceada, sempre to branca, quella hora toda
rosada, d'esde o vasto convento de Santa Theresa at ao muro novo do
cemiterio no alto, com os seus finos cyprestes.

Para alm dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia,
vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas,
accendendo ainda, em ouro coruscante, as janellas da Villa.

Ao fundo do valle, uma claridade nimbava as altas ruinas de Santa Maria
de Craqude, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria
sem um rumor, j dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda
passaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos alamos que
escondiam o casaro, a velha Torre, mais velha que a Villa e que as
ruinas do Mosteiro, e que todos os casaes espalhados, erguia o seu
esguio miradoiro, envolto no vo escuro dos morcegos, espreitando
silenciosamente a planicie e o sol sobre o mar, como em cada tarde
d'esses mil annos, desde o Conde Ordonho Mendes.

Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vaccas lentas.
Do lado da Villa, o padre Jos Vicente da Finta trotou na sua egoa
branca, saudou o Snr. Administrador, o amigo Sueiro, abenoando tambem a
chegada do Fidalgo para quem j preparra uma bella cesta da sua uva
moscatel. Trez caadores, com uma matilha de coelheiras, atravessaram a
estrada, descendo pelo portello  quelha que contorna o casal do
Miranda.

Um silencio ainda claro, de immenso repouso, to doce como se descesse
do ceu, cobria a largueza povoada dos campos, onde no se movia uma
folha, na macia transparencia do ar de Setembro. Os fumos das lareiras
accesas j se escapavam, lentos e leves, d'entre a telha rala. Na loja
do Joo ferreiro, adeante da Portella, o claro da forja avivou, mais
vermelho. Um _bum-bum_ de tambor bateu festivamente para o lado dos
Bravaes, cresceu apressado, marchando:--n'algum cabeo, depois
lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no valle
mais fundo.

Joo Gouveia, que se recostra no canto do largo assento de pedra, com o
seu cco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravaes:

--Estou a lembrar aquella passagem do romance do Gonalo, quando os
Ramires se preparam para soccorrer as Infantas, andam a reunir a
mesnada.  assim, a estas horas da tarde, com tambores: e por sitios...
Na frescura do valle... No! Pelo valle de Craqude... Tambem no!
Esperem vocs, que eu tenho boa memoria... Ah! E por todo o fresco
valle at Santa Maria de Craqude, os atambores mouriscos abafados no
arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cerros ralatam! ralatam!
convocavam  mesnada dos Ramires, na doura da tarde... E lindo!

Por sobre as costas do Tit que, debruado, riscava pensativamente com o
bengalo a poeira da estrada, Videirinha adeantou para o seu chefe a
face estendida, com um sorriso de finura:

--Oh Snr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando
os Ramires largam a perseguir o Bastardo! C para mim, tem mais poesia.
Quando o velho faz aquella jura com a espada e depois l na Torre, muito
devagar, comea a tocar a finados...  d'appetite!

 borda do assento, encolhido contra o Tit, para que o Snr.
Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Sueiro, com as mos
no cabo do seu guarda-sol, concordou:

--Com certesa! so lances interessantes... Com certesa! N'aquella
novella ha imaginao rica, muito rica: e ha saber, ha verdade.

O Tit, que depois de _Simo de Nantua_, em pequeno, no abrira mais as
folhas d'um livro, e no lra a _Torre de D. Ramires_, murmurou, com um
risco mais largo na poeira:

--Extraordinario, aquelle Gonalo!

O Videirinha no findra o seu enlevado sorriso:

--Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem muito talento.

--Tem muita raa! exclamou o Tit, levantando a cabea. E  o que o
salva dos defeitos... Eu sou um amigo de Gonalo, e dos firmes. Mas no
o escondo, nem a elle... Sobretudo a elle. Muito leviano, muito
incoherente... Mas tem a raa que o salva.

--E a bondade, Snr. Antonio Villalobos! atalhou docemente Padre Sueiro.
A bondade, sobretudo como a do Snr. Gonalo, tambem salva... Olhe, s
vezes ha um homem muito serio, muito puro, muito austero, um Cato que
nunca cumpriu seno o dever e a lei... E todavia ninguem gosta d'elle,
nem o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca perdoou, nunca
acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem
defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que offendeu mesmo
a lei... Mas qu?  amoravel, generoso, dedicado, servial, sempre com
uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o
amam, e no sei mesmo, Deus me perde, se Deus tambem o no prefere...

A curta mo que acenra para o ceu, recahiu sobre o cabo d'osso do
guarda-sol. Depois, e crado com a temeridade de pensamento to
espiritual acudiu cautelosamente:

--Que esta no  propriamente doutrina da Egreja!... Mas anda nas almas;
anda j em muitas almas.

Ento Joo Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na
estrada, com o cco  banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que
estabelecia um resumo:

--Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonalo Mendes. E sabem
vocs, sabe o Snr. Padre Sueiro quem elle me lembra?

--Quem?

--Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhana. Aquelle todo de Gonalo,
a franqueza, a doura, a bondade, a immensa bondade, que notou o Snr.
Padre Sueiro... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam logo em fumo, e
juntamente muita persistencia, muito aferro quando se fila  sua
ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos
negocios, e sentimentos de muita honra, uns escrupulos, quasi pueris,
no  verdade?... A imaginao que o leva sempre a exaggerar at 
mentira, e ao mesmo tempo um espirito pratico, sempre attento 
realidade util. A viveza, a facilidade em comprehender, em apanhar... A
esperana constante n'algum milagre, no velho milagre d'Ourique, que
sanar todas as difficuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de
luzir, e uma simplicidade to grande, que d na rua o brao a um
mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de to palrador, to sociavel.
A desconfiana terrivel de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, at que
um dia se decide, e apparece um heroe, que tudo arrasa... At aquella
antiguidade de raa, aqui pegada  sua velha Torre, ha mil annos... At
agora aquelle arranque para a Africa... Assim todo completo, com o bem,
com o mal, sabem vocs quem elle me lembra?

--Quem?...

--Portugal.

Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-Clara. No ceu branco uma
estrellinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craqude. E Padre Sueiro,
com o seu guarda-sol sob o brao, recolheu  Torre vagarosamente, no
silencio e doura da tarde, resando as suas Av-Marias, e pedindo a paz
de Deus para Gonalo, para todos os homens, para campos e casaes
adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, to cheia de graa
amoravel, que sempre bemdita fosse entre as terras.


FIM

       *       *       *       *       *

A reviso das provas d'este livro, desde paginas 417 at  concluso,
no foi feita pelo Auctor. Entretanto seguiu-se  risca o original.





End of Project Gutenberg's A Illustre Casa de Ramires, by Ea de Queiroz

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES ***

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To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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