Project Gutenberg's Miniaturas Romanticas, by Sebastio de Magalhes Lima

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Miniaturas Romanticas

Author: Sebastio de Magalhes Lima

Release Date: May 22, 2007 [EBook #21567]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MINIATURAS ROMANTICAS ***




Produced by Pedro Saborano. Para comentrios  transcrio
visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (produzido a partir
das imagens de obras em domnio pblico, disponibilizadas
pela BibRIA - Biblioteca digital dos municipios da ria)







MAGALHES LIMA

     *     *     *     *     *

*MINIATURAS ROMANTICAS*


Martyrio d'um Anjo.--Amour et Champagne.--Um drama intimo.--A Fatalidade e
o destino.--Cambiantes da comedia humana.--Estrellas e Nuvens--
Beira-Mar.--Um dia de noivado.


COIMBRA
Imprensa da Universidade
1871

MINIATURAS ROMANTICAS


*MINIATURAS ROMANTICAS*

POR

MAGALHES LIMA


    Ce livre............................
    Tremble et palpite abrit sous vos pieds.

        VICTOR HUGO.


COIMBRA

Imprensa da Universidade

1871


A

MEU PAE




DUAS PALAVRAS


*Miniaturas romanticas*-- um livrinho modesto e despretencioso. O seu
auctor no aspira aos louros d'uma gloria certa e immorredoura. Tem
desejos; estuda para isso; e tanto lhe basta.

_O auctor._




*MARTYRIO D'UM ANJO*




MARTYRIO D'UM ANJO


Despontara risonho o dia 23 de maio de 1856. Era profundo o anil do cu.
Nem uma nuvem sequer toldava o puro azul do firmamento, nem um spro de
desgosto vinha embaciar o prisma da felicidade humana.

Tudo era bulicio, vida, amor!...

A natureza, revestida das magnificentes pompas da primavera,
desentranhava-se em flores e fructos, revelando mais e mais a grandeza e
omnipotencia do Creador, que avulta tanto no mais humilde insecto, como no
mais esplendido organismo.

Folgava a toutinegra no raminho frondente, dizendo-se ternos amores com o
emplumado rouxinol, cujo canto mavioso repercutia em echos longinquos o
idyllio melancolico da creao.

Impellida doudejava a mariposa de flor em flor, e a brisa, tepida, ciciava
de mansinho ao perpassar por sobre a solitaria florinha.

Em delirantes extasis, suspirava a pudibunda donzella, sorvendo grata a
vida num casto e puro anceio.

O amante, sem desfitar os olhos da fugitiva lympha, mudo contemplava,
gentil, o retrato da sua amada.

E ao pobre faminto, para quem a ventura fra metero fugaz, no horisonte
medonho da humana desdita, sorriu a furto um raio de esperana no seu
espirito angustiado por cruciante dr.

Sublime era o quadro, beatifica a viso!

E qual seria o ente, cuja alma fosse aleitada por uma centelha divina, que
no sentisse arrobar-se-lhe a existencia ao contemplar to sublime
maravilha, to rara formosura!!...

Que Raphael seria capaz de reproduzir na tela esta estrophe melodiosa e
suavissima do Senhor, a que os homens deram o nome de--primavera!!...

     *     *     *     *     *

Mollemente reclinada em flacida alfombra, Leonor, parecera, comtudo,
indifferente s douras d'este panorama, e ao brilho da sua divina poesia.
Em que scismava aquelle anjo de pudor?... Que fatal magnetismo a arrastara
ali?

Ninguem o poder dizer. Ao certo s sabemos que a sua alma, cheia de
sublime poesia, procurara instinctivamente aquella solido, como que
agrilhoada pela necessidade innata de fugir ao mundo e aos seus encantos.

Leonor chegara do Brasil havia poucos mezes. Cecilia, sua me, vendo-se
viuva, com este unico thesouro das suas entranhas, para logo tractara de
alugar casa em Bemfica, no s por ser esse o logar da sua naturalidade,
seno tambem pelo desejo de satisfazer s reiteradas instancias de sua
filha, que desde muito aborrecia a cidade. Ali viviam aquelles dois anjos
uma vida beatifica, alentados pela mutua esperana, e identificados pelos
poderosos laos do amor.

Leonor, no dia em que a encontrmos, completara vinte annos: tinha,
portanto, attingido essa idade sublime e mysteriosa, mrmente para a
mulher, que, elegiaca por condio, sente o vacuo da sua existencia,
arrojando-se loucamente s ondas do amor, talvez, pela natural fragilidade
da sua natureza.

Quem sabe, se n'isto divagaria a nossa poetiza, no momento em que a
encontrmos no seu pittoresco jardim?

Uns vislumbres de saudade, de tristeza e melancolia animavam seu rosto
naturalmente pallido.--Aquelles olhos pretos e rasgados, enturvecidos por
uma nevoa de languidez, provavam bem quantos e quo perigosos seriam os
pensamentos que se lhe agitavam na mente.

Sua me viera p ante p, curiosa, sem duvida, por penetrar no recondito
d'aquelle corao. Leonor presentiu-a, e sorriu-se. Cecilia pousou seus
castos labios na angelica fronte da filha, e nella depositou, com maternal
carinho, o nectar que dimanava de seu extremoso peito. Depois, tomando
entre as suas as mos d'aquella pomba, disse:

--Ento que tens tu, minha querida filha? To triste e solitaria no dia de
teus annos! Ora anda: falla francamente a tua me.

--Oh! minha querida me, quanto lhe sou devedora! Como havia de eu estar
triste, tendo-a aqui ao meu lado? No v que sou to sua amiguinha, e como
j estou to alegre?

--Por quem s, Leonor, nada me queiras occultar. Poupa-me a um sacrificio
doloroso, dispensando-me a sinceridade que mereo. Comprehendo a tua dr,
como se minha j fosse. Tu amas, bem o sei. Tenho presenciado tudo. Nada me
 extranho.

Leonor crou de involuntario receio, ao ouvir as ternas expresses de sua
me, e por alguns minutos permaneceu em scismador enleio, como que
subitamente preoccupada por estranho pensamento. Recobrando, porm, a
serenidade, que momentaneamente houvera perdido, prorompeu nos termos
seguintes:

-- verdade, minha me, nada lhe desejo nem posso occultar. Eu amo meu
primo Mauricio. Amo-o com toda a pureza da minha alma, e em todo o fervor
da minha existencia. Uma circumstancia poderosa veio, comtudo, cavar um
abysmo entre ns, e forar-me  dura colliso, em que, mu grado meu, me
tenho conservado. Foi esse o motivo por que ha mais tempo lh'o no
declarei, intimamente convencida de que a minha bondosa me perdoaria mais
uma vez esta falta  sua filhinha, que tanta felicidade lhe deseja.

--Julgas, talvez, que te culpo por isso; antes, pelo contrario, no podia
achar mais acertada a tua escolha. Mauricio  um rapaz serio, capaz de te
retribuir o teu affecto, e de desempenhar no futuro a misso d'um marido
exemplar.

--Sem duvida, tambem assim o creio. Mas no lhe tenho j declarado por
vezes que s me unirei eternamente a um homem de muita instruco e de
grande saber?

--Isso  uma fraqueza da tua parte, que se vir a dissipar com o tempo;
sendo que muitas vezes os homens mais celebres so exactamente aquelles que
menos se coadunam com a indole do viver domestico. Alm d'isso, teu primo
tem o desinvolvimento sufficiente para te saber estimar; e eu morreria
tranquilla se um dia tivesse a dita de te ver enlaada pelo affecto quelle
que j posso appellidar--meu segundo filho.

--Oxal assim succeda, replicou Leonor, com um disfarce feliz. O futuro s
a Deus pertence. Amar a mediocridade, isso s pode ser o apanagio das
mulheres vulgares. Por hoje no fallemos mais n'isso. Vamos antes esperar
as pessoas da nossa intimidade, que decerto no perdero esta noite, para
nos prestarem agradavel companhia.

Dirigiram-se depois para casa, e assim correu o resto da tarde sem maior
incidente.

s nove horas da noite j se cruzavam nas salas algumas familias, que
expressamente tinham vindo festejar o anniversario natalicio de Leonor, com
brindes de toda a especie. Esta no sabia como agradecer tantos e to
prolongados obsequios, que a cada passo lhe prodigalisavam os convivas
recemchegados. No entretanto todos se retiravam sobejamente remunerados,
com o galardo do seu peregrino talento e natural candura.

Mauricio, como era de esperar, abrilhantou esta festa com a sua presena.
Logo, porm, notou em sua prima um ardente desejo de o evitar. Na primeira
quadrilha viu em Leonor hesitao, e que s forada condescendencia a
obrigava a danar com elle.

No sabendo a que attribuir to rapida transformao, recorreu a sua tia.
Cecilia, que a principio vacillara em relatar o acontecido a seu sobrinho,
no pde de modo algum abafar o grito imperioso do seu corao,
patenteando-lhe tanto ao vivo o pensamento de sua filha, que Mauricio a
custo reteve uma lagrima de saudade por aquella que j ha muito dourava o
horisonte de sua existencia.

E quantas vezes um sorriso nos labios occulta uma grande dr!...

Mauricio, como se nada com elle houvera passado, voltou  sala, e danou
at ver a reunio completamente terminada.

Seriam duas horas da noite. Despediu-se de sua tia, e sahiu. Mas, ai do
malfortunado mancebo!...

Longe de se dirigir para casa, divagou triste e pensativo pelas ruas da
capital at ao alvorecer do dia, sendo a cada passo assaltado por dolorosas
recordaes, que lhe dilaceravam as fibras do seu apaixonado corao.

No dia immediato Mauricio havia desapparecido de
Lisboa!...

     *     *     *     *     *

Deixemos agora esvoaar quatro annos nas azas do passado, e voltemos a
Bemfica.

Ali reconheceremos Leonor, proxima de sua me, trabalhando diligentemente.
Aquella flor, que ha cinco annos se ostentava to altiva e lou, vde-a,
presentemente, como vai estiolando e fenecendo, e ai d'ella!... se o cu,
na sua infinita misericordia, lhe no enviar o orvalho que lhe restitua o
vio e frescor!

Estavamos, ento, em maio de 1860, cujo mez fra assignalado pela rapida
ausencia de Mauricio. E n'isto fallava a virtuosa me a sua filha,
enxugando de quando a quando uma lagrima, que espontanea lhe rolava pelas
faces. No era tanto o desapparecimento de seu sobrinho que a affligia,
como ella julgar-se a principal causa d'esse fatal evento.

Leonor vivificava o pezar de sua pobre me com gostosas consolaes, que,
puras e castas, brotavam de seu virginal seio.

Seriam talvez cinco horas da tarde do dia 30 de maio, quando sentiram bater
 porta. Sensao particular, por aquelle inesperado toque, fez estremecer
me e filha. Mysterios ha na vida humana que se no explicam. Este era um
d'elles.

A porta da sala abriu-se, e o criado annunciou uma visita, que no queria
dar o nome, mas que muito desejaria fallar com a senhora.

Mandaram-na entrar.

Ora imagine o benevolo leitor qual no seria a profunda commoo, sentida
simultaneamente por aquella familia, vendo junto de si o sobrinho que que
ha muito julgava perdido.

Mauricio tinha chegado naquelle dia de Paris, onde, a grandes e penosos
sacrificios, fra buscar uma solida instruco com o unico intuito de
realisar a sua felicidade futura, unindo-se a sua prima pelos laos
matrimoniaes. Cursava, ento, o terceiro anno de engenharia, e viera passar
as ferias a Lisboa.

Leonor, ao ouvir dos saudosos labios de seu primo a narrao
circumstanciada dos motivos, que o levaram a executar to heroico projecto,
sentiu augmentar-lhe gradualmente aquella paixo latente, que ha muito
ardia em seu peito. Elle, attento ao benevolo acolhimento e fraternal
regosijo, que ento lhe dispensaram, no duvidou em declarar-se a sua
candida prima, que o attendeu com meiguice e amor.

Rapido se passou o tempo de ferias. De dia para dia se iam identificando
aquelles dois coraes, que tinham nascido para muito se amarem. E,
similhante a um grande rio, j no haveria dique capaz de lhe vedar o seu
correr impetuoso.

O amor verdadeiro e puro  uma irradiao do sublime, e como tal uma
aspirao constante para as regies do absoluto.

Os esponsaes ficaram tractados, e por elles Mauricio voltaria dentro em
dois annos formado, e sobejamente instruido para melhor poder satisfazer as
nobres e santas aspiraes de sua prima.

O leitor melhor poder imaginar qual no seria a violenta agitao dos dois
amantes ao dizerem-se o adeus da despedida. Um drama intimo, impossivel de
descrever-se, e que s poder ser bem apreciado por aquelle que, no decurso
da sua vida, se encontrar algum dia em identicas circumstancias.

Porm o bom senso de Mauricio, e sobretudo a necessidade, que nelle fallava
mais alto do que a voz de seu apaixonado corao, estimulou-o a prosseguir
na vereda to briosamente encetada, ainda atravs dos maiores obstaculos.

Partiu, levando a saudade gravada no intimo do peito, e a esperana a
refulgir-lhe por entre as perspectivas d'um risonho porvir.

     *     *     *     *     *

Ao entrar nesta parte da veridica narrativa, que intentamos esboar,
julgamos mais conveniente satisfazer a curiosidade da amavel leitora,
transcrevendo para aqui fielmente a limitada correspondencia que se trocou
entre Mauricio e sua prima.

 o que vamos fazer.


CARTA 1.^a

(De Mauricio a Leonor)

Paris, 1860.

Nem eu sei como relatar-te a minha viagem. Feliz teria ella sido, por
certo, se te tivesse visto sempre a meu lado. Mas... no digo bem... a tua
terna imagem acompanhou-me sempre. Na onda, que preguiosa ia beijar a
fulva areia; na estrella, que  noite scintillava nos cus; no espao, que
infinito se me antolhava; por toda a parte, emfim, meu anjo, a tua
melancolica figura vinha sempre afagar a minha tetrica existencia, e
contornar uns doces effluvios de amor no meu angustiado espirito.

Oh!... e quem me dera poder hoje abraar-te, e depois n'um extasi
delirante, dizer-te:--Leonor, benefica luz dos meus olhos; amo-te,
adoro-te, sou teu. Mas um dia vir em que te poderei dizer
desafogadamente:--agora, por toda a vida, meu amor, jmais me vers longe
de ti!

Louco, que eu sou, na verdade! Insensato!... a dispr do futuro, como se
meu j fora. Embora! Deus  bom! No sejamos incredulos! Elle, que na sua
infinita bondade no esquece o desgraado agonisante no leito da dr, por
certo no consentir que uma negra nuvem venha toldar o puro azul do nosso
cu.

Leonor, por quem s, envia-me o balsamo para as saudades que me opprimem o
corao.--_Mauricio._


CARTA 2.^a

(Resposta de Leonor)

Bemfica, 1860.

A tua carta veio encontrar-me agonisando nas vascas d'uma paixo
febricitante.

Um dia sorriu-me o oasis mimoso no deserto da vida, acerquei-me d'elle
extenuada de fadiga, e com o meu pobre corao dilacerado por uma lucta
gigante, que me fra impossivel evitar. Julgava ser aquelle o alento para
proseguir na minha espinhosa tarefa!... Illuso!... Sinto-me fraca, e no
sei se terei foras para resistir s agitaes febris que hoje me dominam.

Pede a Deus, meu bom amigo, me prolongue os dias da existencia, para poder
abraar-te mais uma vez ao menos, e morrer depois com a consolao
derradeira do moribundo, que v junto do seu leito o vulto venerando do
presbytero, amenisando-lhe a algidez do sepulchro com a unco da sua
divina prece.

Lembra-te sempre da tua amiga, que, ao longe, vela por ti dia e
noite.--_Leonor._


CARTA 3.^a

(De Mauricio a Leonor)

Paris, 1860.

No sei como communicar-te o temor violento, que se apoderou da minha
debilitada existencia ao ler e reler a tua carta. Aquellas linhas, dictadas
pela fatalidade poderosa do amor, e escriptas por tua angelica mo, que
tantas vezes beijei com o anceio de largas esperanas no futuro,
compungiram-me profundamente.

Justamente, quando o meu espirito allucinado procurava o calix da ventura
para docemente o libar, veiu a desdita sentar-se ao lado, e involver-me no
luto de medonha desesperana.

Meu Deus! meu Deus! Quanto a vida  cruel, sem uma esperana fagueira que
nos alimente os sonhos radiosos do porvir! Quo duro  de tragar o absintho
d'esta existencia ephemera!

Porque ser que o espirito do homem  to possante librando-se nos vos
d'uma phantasia ardente; e cahe depois prostrado pela vertigem das paixes
no mais temeroso de todos os precipicios?

Insondaveis so os arcanos do Creador!

A esperana vivifica; o amor martyrisa!

Podesse ao menos o holocausto do meu doloroso soffrer resgatar os dias
sanctificados de Leonor, e eu satisfeito deporia a minha cruz, orvalhada
pelas lagrimas de eterna saudade.

A ventura  um anceio febril em espiritos privilegiados. Mas a ventura 
uma vaidade, uma chimera, entrecortada, apenas, pelas alternativas
radiantes de melhores horisontes!

Feliz o homem que tem f; porque a f, para almas bem formadas,  a agua
redemptora do seu baptismo.

Porm o homem, que sente o glo da descrena no seu corao; o homem, que
no pode evitar a peonha corrosiva do cynismo e da perversidade; esse
homem  um desgraado, um miseravel, como muitos, que a sociedade escolhe
para instrumento da sua implacavel vingana, e opprobrio da humanidade!!

E quem me permitte ajuizar da minha virtude?...

S Deus o sabe, meu anjo, quanto  leal e verdadeiro o pranto acerbo, que
derramei ao saber da tua sentida doena.

Possa, emfim, o Senhor ouvir a sinceridade da minha supplica, e fazer
descer sobre ti o anjo da felicidade e do amor.--_Mauricio._


CARTA ULTIMA

(De Leonor a Mauricio)

Bemfica, 1860.

Apezar da expressa prohibio dos medicos de me evitarem tudo o que possa
prejudicar o meu estado melindroso de saude: no pude, ainda assim,
furtar-me a um desejo imperioso de me associar ao teu pezar, mitigando-o,
no caminho espinhoso do meu Golgotha.

 uma expiao, que a mim propria imponho, sem outro galardo, que no seja
a retribuio do teu entranhado affecto.

As lagrimas tm um condo mysterioso. Adoam a adversidade terrestre, com a
consolao extrema d'um futuro incerto. Assim eu podesse encontrar n'ellas
o topico provavel para a medonha enfermidade moral que hoje me devora.

Tudo creio impossivel.

S a tua presena me poderia ser, talvez, refrigerio momentaneo para o meu
aturado martyrio, e doloroso esquecimento.

Regressa, portanto,  patria, meu bom amigo. Vem engrinaldar a fronte da
esposa com as flores amarellecidas do sepulchro, e prestar um derradeiro
tributo quella que te amou na terra com o fervor da virgem e pureza dos
anjos.

S Deus poder abenoar o nosso amor!...

No posso mais,... Mauricio... Sinto-me desfallecer sensivelmente.

Adeus... adeus, e talvez... para sempre.--_Leonor._

Inutil se tornaria aqui dizer, que Mauricio obedeceu peremptoriamente s
ordens de sua saudosa noiva, tomando bilhete para o primeiro vapor com
escala por Lisboa.

Fra, porm, intempestiva a sua viagem.

Quando chegou a Bemfica, encontrou a nudez e a solido enthronisadas no
solio, onde deveria ter existido o jubilo e a gloria de dois amantes
ditosos.

Leonor havia desapparecido para sempre d'este mundo!...

O anjo da morte, extendendo suas negras azas sobre aquelle corao de
pomba, arrebatou-o para sempre  humanidade.

Eclipsou-se no cu uma estrella, e da terra voou um anjo  manso dos
justos!

Mauricio libou at s fezes o calix do infortunio.

Aquelle amigo verdadeiro e fiel; aquella intelligencia robustecida  luz da
profunda meditao; aquelle corao de poeta; aquella imagem continuamente
aoutada pelo tumultuar de sentimentos encontrados, onde meigamente vinha
transparecer a morbidez e o desalento d'uma paixo precoce,--nunca mais
transpoz o limiar da casa de Bemfica, que outr'ora pisava, sentindo a vida
a rejuvenecer-lhe a cada passo.

Ainda houve quem o visse, um mez depois, com as faces pallidas, os olhos
cadavericos e um semblante sepulchral.

No era passado muito tempo, quando Cecilia recebeu uma carta de seu
sobrinho, concebida nos seguintes termos:

--Minha excellente tia.--Ao deixal-a em contristante e dolorosa desolao,
tendo-se associado  dr e orphandade do espirito, como unicas
companheiras, que lhe restavam no areal sombrio da vida, era mais do que
dever d'um filho allivial-a, quanto em si coubesse, dos transes medonhos e
caprichos da sorte, por que acaba de passar o seu bondoso corao.

Porm, minha tia, se neste mundo pode haver perdo para um desgraado,
conceda-lh'o.

J a meus ps se abre o abysmo incommensuravel do cynismo e da descrena,
que dentro em pouco me ha de absorver.

Haver muito quem me censure, chamando-me--louco!

Louco!... porque no soube abafar a palpitao febril d'um sentimento
elevado e nobre!

Louco!... porque no tive a resignao, para oppr ao marulhar tremendo das
vagas da desventura!

Louco!... porque cri na sanctidade do amor; ajoelhei perante um archanjo
celeste, e senti o fogo da inspirao a enroscar-se-me voluptuosamente
pelos membros!

Louco, emfim, porque soube desprezar a imbecillidade dos homens pelo gozo
ineffavel d'uma ventura celeste!

O suicidio  a suprema aspirao d'uma imaginao sublimemente grandiosa,
que, no podendo suster o vo audacioso a que se arrojara, se despenha
fatalmente no oceano do nada.

E a resignao o que ?...

A immobilidade physica e moral, uma profunda negao do ser humano, e uma
violao flagrante dos verdadeiros sentimentos.

O homem, que v o seu nome malbaratado, a sua honra vilipendiada; sem ter
uma mo caritativa, que lhe sirva de luz por entre as fragas estereis da
vida; sem mesmo um refrigerio para as chagas do seu pobre corao; sem uma
esperana, ao menos, que lhe acalente os sonhos radiosos do existir durante
o correr tempestuoso, que vai do bero  sepultura: esse homem, digo,
descr da Providencia; torna-se cynico; e vai buscar na ponta d'um punhal
aquillo que no pde encontrar no meio d'essa sociedade estulta e devassa.

E, ainda haver quem condemne o suicidio?!...

Condemna-o, sim, a mediocridade, porque o no comprehende; porque lhe 
mesmo impossivel conceber a lucta gigante que se trava a cada passo nos
espiritos altaneiros entre a razo e a vontade,--duas faculdades de que
depende toda a nossa vida e bem-estar terrestre.

Por isso, minha bondosa me, e deixe-me chamar-lhe assim nos ultimos
instantes do meu passamento neste mundo, abene pela derradeira vez o seu
desgraado filho, que sem saudade abandona este theatro maldito, para ir
tributar perante o throno do Altissimo o sanctuario das puras affeies e
leal obediencia.

Adeus, minha desvelada me, e adeus para sempre. No descreia do seu filho,
e lembre-se que s no cu se poder encontrar a remunerao condigna s
virtudes mundanas.--_Mauricio._

Cecilia ficou como que petrificada, ao receber o golpe inesperado, que lhe
causara a carta de Mauricio. Desvairada pelo infortunio, assaltada por uma
viso sinistra e cruel, aquella extremosa me vendeu a sua casa em Bemfica,
que lhe era recordar amargo d'uma felicidade radiante e fallaz, e
recolheu-se a um convento, onde vive ainda hoje, acompanhada pela
resignao, e alimentada pela virtude esperanosa de que um dia se ir
reunir no seio do Creador quelles dois martyres bemaventurados, a quem o
vulco das paixes sorveu para sempre na sua cratera de fogo.




*AMOUR ET CHAMPAGNE*





AMOUR ET CHAMPAGNE


_Vive l'amour! Vive le champagne!..._

O amor  o nosso here, mas um here _comme il faut_; o champagne o seu
condigno satellite.

A scena passa-se n'um baile, se bem me recordo.

O protogonista da aco  um mancebo de vinte annos, pouco mais ou menos;
alto, magro, de cabello e bigode alourado, testa rasgada e ampla, olhos
pequeninos e vivos, e com todos os signaes visiveis d'uma imaginao
eminentemente fogosa, mas, em parte, j obscurecida pelo contnuo perpassar
de medonhas orgias e pelo roar de perigosas paixes.

Agora, com estes preludios, leitor amigo, acompanhemos o nosso personagem,
e perscrutemos, sem escrupulo, alguns episodios da sua tragica vida.

Silencio, pois!

Eil-o ali, quelle cantinho! L caminha passo lento e medido! Os sons da
orchestra attrem-n'o irresistivelmente ao salo! Aquelle esplendor,
aquella voluptuosidade oriental, que se respira n'aquelle recinto ideal e
angelico, despertam em sua alma febril o enlevo de mais venturosos dias,
evocando  sua phantasia amortecida esses phantasmas crueis e fagueiros,
que outr'ora lhe alimentavam os doces sonhos do porvir.

Alvaro, dirigido para ali automaticamente, foi sentar-se na primeira
cadeira, que, ao acaso, encontrou.

A dana tornara-se delirante, e a sua alma, j de muito saturada com a
triste realidade do mundo, palpitava-lhe no seio com a violencia de
prolongadas e suaves sensaes.

Seno quando, o som desconhecido d'uma voz argentina e doce lhe attrau a
atteno desvairada por longinquas paragens.

Despertou do lethargo, o nosso galan. Acercou-se d'aquelle vulto gracioso e
nobre, e, convidando-o a danar, entrou n'uma quadrilha.

Alvaro encarou tres vezes o seu mimoso par. No sabia devras, como encetar
a conversao. Dirigir-lhe alguns requebros frivolos e banaes, em que tanto
abundam estes bailes da nossa moderna sociedade, isso no. No se coadunava
com a sua indole, em extremo sensivel, o compendiar meia duzia de palavras
semsabores, para entreter uma dama, cuja belleza elle, alis, admirava.

Era dura a colliso, mas tinha de acabar, e acabou com effeito, explosiva,
mas real.

E seno, ouamos o resto do dialogo, se nos apraz. Esqueamos, por um
momento, os outros pares danantes, e concentremos a nossa curiosidade
sobre os heroes d'esta pequena scena, que intentamos esboar.

--Nem v. ex.^a  capaz de avaliar quanto foi poderoso e salutar o
feiticeiro sorriso de seus labios sobre o meu pobre corao, minha senhora.
J esquecido, ha muito, d'este mundo hypocrita e ridiculo, estava longe de
me reputar feliz um momento sequer, quando divisei, na orla do meu
horisonte, a terna imagem de v. ex.^a E, com effeito, no houve
resistir-lhe. Cedi a um impulso intimo; compenetrei-me da gravidade do
caso, e agora aqui me tem completamente escravisado e rendido aos ps de v.
ex.^a

Emilia, e porque no? Seja-nos licito revelar aqui o seu nome, Emilia nada
respondeu; baixou sua loura cabea em scismador enleio, e teve a loucura de
o acreditar, a desgraada.

Horas depois, Alvaro, ao vr os sales de todo desertos, sau, como sempre,
tetrico e pavoroso.

Entrou no primeiro caf, que se lhe deparou; mandou vir champagne e cognac;
e bebeu, bebeu at  embriaguez! O ultimo calix voou pelos ares, em pedaos
ao clamor estridulo e rouquenho de--_Vive l'amour! Vive le champagne! Vive
l'ivresse! Vive la folie!_...

A prostrao, comtudo, no o tornou em completa demencia, nem to pouco as
foras physicas se lhe esgotaram.

Passeou a vista pelas mezas da casa, e apenas avistou dois meliantes ainda
profundamente encarniados no delirio do jogo.

Levantou-se, e foi direito a elles. Apontou a uma carta, e perdeu; apontou
a outra, e tornou a perder;  terceira, entisicando-se-lhe a bola, soltou
um derradeiro e sentido suspiro!

J no havia mais recursos: sau, pois, do botequim.

A aurora comeava, ento, a roxear o oriente com o claro da sua divina
poesia. Ao longe, a cotovia annunciava um dia ameno e bello. A brisa mrna
do crepusculo bafejava de mansinho, ao brando contacto de solitaria
violeta, que se espreguiava indolentemente, qual indiana lasciva na sua
rede de pennas!

Alvaro nem sequer se commoveu com aquelle espectaculo.

Pobre desgraado! como seria elle capaz de poder comprehender essa epopeia
gigante, que to evidentemente nos revela a existencia d'um Deus
omnipotente e justo, n'aquelle estado deploravel e asphyxiante?!

Passou, como se tudo lhe fra indifferente.

Subiu, depois, uma longa e sinuosa escada, que conduzia a uma agua furtada,
cuja era a sua residencia. Veio abrir-lhe a porta uma joven mulher pallida
e alta, de feies distinctas e ainda delicadas, mas j quasi extinctas
pelo marulhar tenebroso do glo da desventura!

Uma luz baa allumiava o humilde aposento. Pela fresta da janella apenas se
coava um tenue raio de luz, que contrastava singularmente com a pobreza e
nudez d'aquelle exiguo e acanhado recinto.

Mas quem era aquella mulher? Que vida era a sua? Que fazia ella ali?

Aquella mulher era uma d'essas creaturas, como muitas, que Deus arrojou ao
mundo, para justa punio do homem, e opprobrio eterno da humanidade.

Filha de paes abastados, aquella mulher, teria sido rica, outr'ora,
nimiamente formosa e sublimemente ditosa, se a fatalidade do destino, peior
que a fatalidade das paixes, no tivesse vindo macular para sempre a sua
reputao ephemera.

Paulina amara Alvaro ardentemente; mas o traidor, longe de sanctificar
aquelle amor com uma unio licita, prostituiu torpemente a victima indefesa
de seus nefastos designios, sempre indifferente s suas agonias e s suas
dres.

Paulina aproximou-se do seu amante, com o intuito de o beijar docemente,
segundo o seu costume, quando elle a arremessou brutalmente ao meio da
casa:

--Afasta-te, mulher vil! Para sempre! No me tornes a beijar! No queiras,
ainda mais, manchar a minha fronte com o teu osculo impudico e pestilente.
Julgara-te uma mulher, e no passas d'uma desgraada! Reputei-te um anjo, e
s um demonio! Cri, por algum tempo, na sanctidade do teu amor, e
illudi-me, illudi-me sim, vibora dolosa e maldicta!

Triste verdade!...

Ah! Ah! Ah!

Neste ponto, Alvaro soltou uma d'essas gargalhadas estridentes e medonhas,
que causam horror at ao maior here d'este mundo. Depois cau sobre um
canap esfarrapado e sedio, que elle herdara de seus paes, em tempos mais
ditosos, e ao lado do qual existia uma mezinha tosca e ligeira, onde se
accommodava invariavelmente uma botija de genebra, que elle collou aos
labios, tractando de a sorver diligentemente.

Paulina, embrulhada n'um roupo rto e velho, com as suas longas madeixas
em completo desalinho, foi-se arrastando insensivelmente no p da sua
ignominia, at chegar ao p de Alvaro, cuja mo ainda tentou beijar mais
uma vez.

Elle, quasi adormecido, soffreou aquelle golpe como lh'o permittiam as suas
debeis foras.

Paulina ajoelhou perante o seu algoz. Mal comeara, porm, a introduzir
suas pequeninas e niveas mos por entre os avelludados cabellos de seu
amante, prodigalizando-lhe toda a especie de blandicias e carinho, de que
s uma mulher  capaz,--Alvaro, como que tomado de subito desespero,
levantou-se, e, tomando do brao d'aquella pobre mulher, exclamou:

--Paulina,  preciso que tu me entendas, d'uma vez para sempre. Eu no te
amo, nunca te amei, nem te poderei jmais amar. Has de ser desgraada toda
a tua vida, porque nunca me soubeste comprehender,--porque nunca foste
capaz de imaginar que, em logar d'um amante, s tinhas diante de ti um
leproso vil, a quem a sociedade contaminou com o seu halito corrompido,
para depois o deixar triste e solitario neste theatro ignobil da humana
corrupo. Tu, que foste boa e meiga para comigo, procura outro mais digno
de ti. No faltaro homens, que te saibam estimar. Vae, vae correr mundo; e
deixa-me, deixa-me por uma vez!...

Neste instante, desabotoou-se, por acaso, o casaco de Alvaro, e de seu seio
cau um leque, que lhe havia sido dado poucas horas antes por aquella joven
e espirituosa Emilia, de quem j nos occupmos no principio d'esta
narrativa.

Paulina empallideceu terrivelmente, e ia para apanhar aquelle objecto, to
caro e saudoso, de seu amante, quando elle se interpoz  sua vontade,
collocando-se de modo a impedir a realisao, bramindo rancoroso e medonho.
Os olhos chispavam-lhe sangue, e a bocca espumava-lhe de satanica raiva.

Tambem no articulou nem mais uma palavra. Apanhou o leque com soffreguido
inaudita; abriu-o, e comeou a reparar n'uma borboleta que alli se achava
gravada. Depois sorriu-se, e, sempre com os olhos fitos no mesmo ponto,
exclamou:

--Qual te via sempre, mariposa gentil, adejando mimosa por sobre os meus
sonhos radiantes, appareceste-me hoje, mais bella e sublime como nunca te
havia imaginado. A tua imagem despertou ao longe os echos da minha alma;
consolou-me o fulgor da tua benefica luz, na esperana d'um ditoso porvir!

S grande, minha Emilia, d-me a crena e a vida outra vez! Suavisa o meu
penoso soffrer, com o teu balsamo salutar, e, com o orvalho de teu doce
corao, refrigera as chagas da minha imaginao enferma!...

Alvaro sau, ento, com tenes de nunca mais voltar quella casa.

Paulina, essa jazeu por muito tempo n'um abatimento deploravel, at que, ao
fim de alguns dias, se resolveu a ir mendigar de porta em porta o po zimo
da desventura e do arrependimento.

Enganara-se, porm, aquella pobre mulher, quando julgara ter perdido para
sempre o seu amante, que, ainda no opprobrio da sua existencia, no podera
olvidar.

Um dia Alvaro regressou a casa, completamente regenerado d'aquelles vicios
hediondos, que ns lhe conhecemos na sua mocidade estouvada, e
perfeitamente arrependido das passadas loucuras.

Emilia fra o seu anjo da guarda. Quando soube da mulher vilipendiada,
d'aquella boa e angelica Paulina, longe de a rivalisar, pelo contrario,
tractou de lhe promover o seu maior bem. E foi tanta a longanimidade do seu
corao, que um mez depois Alvaro era legitimo esposo de Paulina e um dos
mais honrados e bemquistos cavalheiros da invicta cidade do Porto.

Deixal-os ser felizes. Que a beno do Senhor se compadea dos seus
peccados, e faa descer sobre elles o anjo da felicidade e do amor.

O mundo  assim!




*UM DRAMA INTIMO*




UM DRAMA INTIMO

Ao meu amigo Agostinho F. Velho


        La vie en effet n'est qu'une ide sans valeur, une page blanche,
        qu'otan n'y a pas crit ces mots:--J'ai souffert, c'est  dire,
        j'ai vcu.

        BARON DE FEUCHTERSLEBEN.


I

Como Amelia era formosa! que bondade a sua! que terna expresso a do seu
rosto angelico; e, que sentimento! que grandeza d'alma!...

Como no eram radiosos aquelles sonhos da loura criana, que  noite ia
segredar  brisa os seus amores sentidos, em infantil rubor!...

Oh!... e que meiguice no era a sua, espalhando to docemente o aroma de
seus argenteos cabellos  virao perfumada da tarde, e despertando, ao
longe, os echos da solido com o brando dedilhar da sua harpa
portentosa!...

Phantasma cruel, que, por tanto tempo, me alimentaste o porvir grandioso
das minhas aspiraes ephemeras! Sombra implacavel d'um destino fallaz!
Effigie derradeira d'uma chimera inutil! Espectro medonho da medonha
existencia! Mulher! anjo! demonio! tudo emfim!...

Porm, no!... renasa uma crena, ao menos! reviva a f, em nossos
coraes! dissipem-se as negruras da vida, e surja a aurora boreal d'um
futuro certo, e de uma verdade eterna!...

Nestes termos apaixonados fallava o venerando presbytero, Francisco de
Castro, ao seu affectuoso amigo, Alberto de Carvalhal, quando um raio
furtivo do sol, penetrando de soslaio por entre a coma dos pinheiraes, que
se erguiam altivos l no cume das montanhas, os veio despertar do
inebriante gozo e suavissimo prazer, em que, desde longas horas, se haviam
esquecido dois amigos desditosos, profundamente adormecidos nos braos
d'uma saudade infinda.

O pescador deixara a choupana, que lhe era consolao extrema nas horas de
afflictivos transes e doloroso penar, para ir estender a rede na praia mais
proxima!

Ao longe ouvia-se a voz rouquenha e estridula do gondoleiro, accordando aos
echos da sua alma o doce nome da amante ditosa, que, em terra, por elle
velava, dia e noite.

O astro do dia, erguendo-se phantasticamente das salsas, escumosas ondas em
que parecera mergulhado, havia desfeito as obscuras brumas, que lhe
empanavam o brilho, espargindo sua luz etherea pelo espao infinito.

Tudo rejuvenescia, ao seu halito bemfazejo!

A planta, modesta e grata, elevava para o cu a corolla de feiticeiro
encanto, gottejando compassadamente a ambrosia celeste de suas elegantes
petalas, matizadas d'ouro e prata.

Rejubilava o passarinho no ramo frondente, pipitando a medo um eterno canto
de amor e saudade.

A abelha, com a cabea esmaltada de pedras e diamantes, as azas variegadas
como o iris, encetava sua laboriosa tarefa, sorvendo diligentemente o succo
da nectaria, que junto lhe acenava.

Neste comenos, Francisco de Castro enlaou seu brao direito pelo corpo do
idolatrado amigo, convidando-o fraternalmente a retirar-se para casa.

--Vamos, meu bom amigo,--dizia elle,--recolhamo-nos ao meu humilde
presbyterio, e l lhe contarei ento, mais desafogadamente, os lances da
minha existencia, se a tibieza do meu espirito tanto m'o permittir, e,
antes d'isso, no afrouxar.


II

Francisco de Castro era natural de Aveiro. Filho de paes indigentes, e de
baixa condio, a sua juventude deslisara, naturalmente, por entre o
vegetar montono d'aquella cidade, sem outro incentivo que no fosse a
salutar influencia de algum parente mais proximo, ou o conselho leal e
franco de algum amigo intimo.

Chegado, porm, que foi  edade da razo, os seus sentimentos
abriram-se-lhe em sensaes suaves n'um porvir radiante, e despertaram
n'elle um prurido irresistivel de ir em cata de melhores horisontes por
esse mundo alm.

Com este intuito, pois, deixou o nosso provinciano a terra da infancia,
antecipadamente recommendado, e sobejamente abonado por um commendador, seu
padrinho, com destino para os portos do Brasil.

Que saudades se lhe no avivaram na mente, ao ver-se longe da patria e dos
seus! que pavor no affrontou com o rugir da procella, e horrores do
naufragio no alto mar! elle, que jmais havia ultrapassado os estreitos
limites da sua terra natal! mas tambem, com que deleite, com que profunda
emoo, no mirava elle, por noites calmosas, o manto do firmamento azul,
magestosamente recamado de estrellas, que se lhe desenhavam por cima da sua
fronte! e o sereno marulhar das vagas, quebrando-se de mansinho no dorso da
fragil embarcao! e aquelle continuo acastellar de nuvens, debuxando to
ridentes e phantasticas figuras por sobre a vastido dos mares!...

Como elle sonhava, ento!... Como se deixava arrastar to docemente pelos
mundos ethereos de ignota phantasia, julgando ter j encontrado o almejado
thesouro que ao longe lhe sorria! regressando rico e feliz ao solo
natalicio, e vendo j os seus, agrupados em torno de si, beijando-o
alegremente! E, comtudo, como foi diversa a realidade!...

Francisco de Castro desembarcra no Rio de Janeiro a 30 de maro de 1849.
Procurando saber immediatamente onde era a rua Direita, ahi se dirigiu, sem
mais delonga, aos srs. Costa Pereira & C.^a, ricos proprietarios d'uma casa
commercial, e correspondentes de seu padrinho n'aquella cidade.

Tanto que foram entregues as cartas, que devidamente o recommendavam,
appareceu um caixeiro convidando-o a entrar, e, apertando-lhe
fraternalmente a mo, como signal evidente de futura e benevola
camaradagem.

D'aqui foi o nosso provinciano levado  presena d'um dos donos do
estabelecimento, que o interrogou minuciosamente cerca da sua vida
passada, animando-o amigavelmente a entrar no escabroso labutar d'aquelle
labyrintho commercial, e acolhendo-o para logo em sua casa, consoante a
praxe de ha muito estabelecida n'aquelle paiz.

Eis aqui, pois, como Francisco de Castro se iniciou na vida activa do
commercio, desejoso, sem duvida, de trabalhar, quanto o comportassem as
suas foras, e esforando-se o mais possivel por grangear, dentro de pouco,
os meios de subsistencia necessarios para prover decentemente s
necessidades de sua familia, que tanto o havia mister.

A fortuna foi-lhe, porm, adversa. Cahiu, quando menos o julgava, e cahiu,
para nunca mais se levantar.

Repugnava lhe  sua indole, em extremo ardente, o vr-se um dia inteiro
acorrentado a um balco, no mirando a outro horisonte, que no fosse o
sedio positivismo do--_Deve_--e _Ha de haver_.

Canado j d'aquelle pandemonio tumultuoso de gelo e de cifras, intentava
uma ou outra vez espairecer os olhos lassos de fadiga e semsaboria,
levantando um olhar modesto e casto para uma casa fronteira, em cuja
janella voejava brandamente uma andorinha gentil.

Foi isto mais que sufficiente para elle ser despedido, ao cabo de alguns
mezes, da residencia, onde to familiarmente havia sido acolhido, logo aps
a sua chegada.

Assim vagueou incerto, por alguns mezes, bemquisto por uns, odiado por
outros, sustentando, a cada passo, uma lucta ingente e dolorosa comsigo
proprio; e regressando, mais tarde,  patria com o vivo remorso de nada
haver contribuido para o bem estar de seus paes, e de ter ido, alm d'isso,
semear a desordem e a confuso no seio d'uma familia extranha.

Por isso, mingoado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de
Castro, no contando mais de trinta annos de edade, resolveu-se a tomar
ordens, expiando, com o sacrificio de seus derradeiros dias, uma mocidade,
no parecer de muitos, estouvada e febril, que jmais podera olvidar.

Estava elle, um dia, meditando deliciosamente,  sombra de annoso cedro,
recolhendo, na sua debilitada imaginao, as sombras longinquas d'esta
tragedia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando
um desconhecido, eventualmente, se acercou d'aquelles sitios!

Era Alberto de Carvalhal!

Movido pela profunda tristeza, que subitamente accommettera Francisco de
Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos d'aquella
alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e
n'aquelle seu vulto insinuante e nobre, j curvado ao peso d'uma paixo
prematura, e d'um destino atroz, que lhe seccra a seiva da vida, e lhe
emmurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se
do logar, onde o presbytero se sentra, e prorompeu nos termos seguintes:

--No sei se, da minha parte, haveria indiscrio, em vir quebrar-lhe este
momento de goso ineffavel e placida meditao, accordando-o  triste
realidade da vida?! Confio, porm, no perdo da sua generosidade.

--Bem pelo contrario, meu caro. Um amigo  sempre bemvindo, e, se uma ou
outra vez nos apraz a solido,  certo que a sua continuao nos causaria
insupportavel tedio. Precisamos d'uma urna depositaria dos nossos segredos;
do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer.
Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os
espectaculos que s a natureza nos sabe prodigalisar, e que a maioria dos
homens, no meio de seu estupido orgulho, olham indifferentes.

Travada, assim, a intimidade entre estes dois coraes, que  primeira
vista pareciam entender-se bem; facil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que
Francisco de Castro lhe narrasse circumstanciadamente os tristes episodios
de alguns dos seus dias passados.

Com este alvitre pois, enlaados pela mutua sympathia, aquelles dois amigos
encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almoado jubilosamente,
Francisco de Castro, coadjuvado pelo attencioso ardor do seu companheiro,
encetou o drama da sua vida com as palavras, que vo ler-se no seguinte
capitulo.


III

Foi por uma tarde serena de abril. Eu, criana ainda, dos meus 13 annos,
divagava, triste e solitario pela margem graciosa do meu limpido Vouga,
contemplando aquelle espectaculo de mystico enlevo, aquella hora de
profundos arrbos e de gostosa melancholia, em que o Creador mais parece
fallar directamente ao corao do homem,--quando, inopinadamente, me
pareceu ouvir, a poucos passos do logar onde me encontrara, o estalido
rapido e secco d'um instrumento metallico. Em poucos minutos galguei um
comoro, que me separava d'aquelle sitio desastroso, encontrando-me face a
face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o
silencio d'aquella hora para ali virem bater-se n'um duello de morte. Quiz
dissuadil-os de similhante proposito: nada consegui.

Travou-se uma lucta feroz, e, dentro de pouco tempo, um dos adversarios
jazia por terra, coberto de p, e revolvendo-se cruelmente no sangue de
suas proprias feridas. Ainda experimentei, uma e muitas vezes, levantar o
moribundo, e conduzil-o  primeira guarida, que se me deparasse
opportunamente. Tudo foi baldado, porm.

O outro adversario, apenas viu o contendor prostrado, e sem foras,
abandonou o campo, e fugiu. Que fazer, em tal conjunctura? Eu, s, ali, sem
uma pessoa unica, que podesse velar por elle. nem sequer uma gotta d'agua
para o refrigerar momentaneamente!!

Felizmente, meia hora no era passada, quando, ao clamor da minha voz,
accorreu quelle logar um trabalhador, que, casualmente, se recolhia a
casa. Em poucas palavras, contei-lhe o succedido, convidando-o a que
velasse pelo ferido, emquanto eu, aodado, correria  cidade a dar parte do
acontecido.

E assim foi com effeito. Dei-me pressa em correr  visinha povoao. Em
vinte minutos estava de volta com dois valentes companheiros para logo o
conduzirmos a um logar seguro, como a urgencia do caso nol-o ordenava.

Sem saber, porm, o nome do individuo, nem to pouco a sua procedencia,
julguei prudente entregal-o ao cuidado d'um desgraado, mas honrado
agricultor, que, de bom grado, o acolheu no seio de sua familia,
dispensando-lhe todo o desvelo e sollicitude, que se sempre encontrar-se
no tugurio do pobre.

O ferimento no fra mortal. O cirurgio assistente, apenas decorrido o
primeiro mez, para logo o declarara livre de perigo, concedendo-lhe
egualmente a liberdade de dar alguns passeios pelos campos e devezas mais
proximas, com o intuito de tornar mais rapida a sua convalescena.

Pouco tempo depois, instaurou-se um processo para proceder a uma
averiguao rigorosa sobre aquelle facto lamentavel. No dia aprazado para
esse fim fui obrigado a comparecer na audiencia, como testemunha ocular,
que, infelizmente, houvera sido.

E fui pontual, n'esse dia, apparecendo, sem difficuldade no tribunal, onde
pouco depois teria de julgar-se um crime de ha muito reprovado pela moral,
e pelo direito. Estava impolluta a minha consciencia, no me arguindo de
cousa alguma, a no ser o ter eu envidado todos os meus esforos, posto que
inuteis, para salvar um desgraado.

Por isso, quando me chegou a vez de fallar, contei singela e lealmente o
que me fra licito vr e presenciar. O juiz figurra-se-me satisfeito com o
meu depoimento. A minha m sina, porm, j ento me comeava a perseguir.

Aps alguns momentos de silencio, e geral expectao, o ru comeou a
narrar circumstanciadamente tudo o que lhe houvera succedido; vindo eu,
finalmente, ao conhecimento de que elle era um mancebo natural de Lisboa,
descendente de preclara stirpe, a quem uma paixo violenta, e uma
rivalidade sem limites haviam arruinado physica e moralmente.

Estavam as cousas neste ponto, quando seus olhos, por acaso, se fixaram na
minha humilde pessoa. Parecera-me encontrar n'aquelle olhar o quer que era
de satanico e sinistro, que me horrorisou at  medulla dos ossos. E, de
feito, no me illudi.

Alguns instantes depois, aquelle individuo, para quem eu fra o anjo
custodio n'um momento de suprema desventura, apontava-me ao publico como um
dos principaes cumplices n'aquelle crime; e asseverando at abertamente ter
sido o meu desejo immediato o assassinal-o para lhe roubar o pouco que
comsigo trouxera, se, por ventura, um transeunte no tivesse ido em seu
auxilio, arrancando-o s minhas mos.

D'esta vez a minha indignao tocou o seu zenith. Os olhos chispavam-me
fogo; o corao, afogueado em cholera, batia-me apressado e violento. Quiz
fallar, mas no pude. A voz prendera-se-me na garganta. Alcei os olhos para
o cu, e ca, subitamente accommettido por dolorosa syncope. O que depois
d'isto se passou, nem eu o sei, meu amigo.

Quando, no dia immediato, descerrei as palpebras amortecidas ao astro do
dia, encontrei-me isolado, n'uma alcova escura e humida, com uma estreita
gelosia apenas, no vo da parede, por onde se coava, a custo, um tenue raio
de luz.

Por informaes colhidas posteriormente, conclu ser aquelle o carcere,
que, logo aps o julgamento, me fra predestinado para justa expiao do
meu delicto. Appellei para a aco da divina Providencia, e soffri
resignado o peso da minha cruz.

Lembrei-me, ento, de minha pobre e santa me, ralada de desgosto, de meu
excellente pae, de meus pequeninos e innocentes irmos, emfim, de tudo o
que me era caro neste mundo, e chorei... chorei... muito...

Neste ponto, o venerando apostolo de Christo, no pde, por mais tempo,
suffocar a sinceridade de seu corao. Levantou-se do escabello, em que se
havia sentado, com dois fios de grossas lagrimas a deslisarem-lhe
brandamente pelas faces macillentas; e, de subito, alou a adufa da
janella, como se pso enorme lhe affrontasse a vista. Alberto acompanhou-o
n'aquelle movimento convulsivo, auxiliando-o de boa mente a volver as
negras paginas do livro fatal da sua vida. Depois, sentaram-se novamente, e
Francisco de Castro, fortificado pelas ternas consolaes d'um amigo
sincero e bom, continuou, mais alentado, a sua historia at ali encetada.


IV

O desgraado havia ensandecido. Por isso, reconhecida a verdade do facto,
me concederam a liberdade, e me restituiram ao seio da familia. Ainda
assim, no havia furtar-me aos olhares perscrutadores e cubiosos d'aquella
gente hypocrita e ridicula da terra.

Foi, pois, com este intento que meu padrinho, Francisco Marques, homem
solteiro e de grandes haveres, se resolveu a persuadir minha me, a fim de
me deixar embarcar para o Brazil, pretextando ser aquelle o unico meio, no
s de me subtrahir s linguas viperinas, que, a cada passo, intentavam
empeonhar o sanctuario da minha reputao, at ali intacta, seno tambem o
caminho mais seguro para alcanar no futuro uma posio certa e definida.

D'ahi a dois mezes j eu estava no Rio de Janeiro como caixeiro d'uma casa
commercial.

A ingenua hospitalidade, e natural lhaneza, com que ali me tractaram,
deixara-me de todo captivo d'aquella sancta e boa gente. Fra-me, porm,
impossivel contrariar a minha natureza, j de si sobejamente expansiva e
juvenil, escravisando-a a to arduo e difficil mister.

Todavia, a despeito das mil e quasi insuperaveis contrariedades, que ento
se me antolharam no horisonte da minha vida social, estava intimamente
convencido, ainda assim, que a fouce do tempo, roando ao de leve por sobre
os sonhos e illuses da minha mocidade, faria de mim um _bom negociante_, e
um verdadeiro automato das minhas necessidades, sempre crescentes de dia
para dia, se um motivo inopinado no viesse, por uma vez, cercear o n
fatal de todas as minhas aspiraes no porvir.

E foi o caso:

Na rua Direita, onde eu residia, havia dois annos, habitava quasi
_vis--vis_ de nossa casa, um diplomata de grande nomeada n'aquelle tempo,
muito affeioado a meus patres, com quem nutria tambem algumas relaes
commerciaes.

Descendente de illustres avoengos, este personagem, pelos seus ademanes e
aces, affigurara-se-me, desde a primeira vez que o vi, um senhor feudal
da edade-media, no entranhavel rancor e odio feroz, com que olhara sempre
os que lhe eram inferiores em categoria e nascimento; ou, por outra, esse
bando de _mecanicos_, que por ahi tropea a cada canto, especie de bestas
de carga,--segundo elle--uteis, apenas, para ludibrio dos grandes e
descredito da sociedade.

J v, pois, o meu amigo, quo longe estaria eu de sympathisar com aquelle
homem, sinceramente estulto e fatuo, que receiava macular as insignias do
seu brazo hereditario, apertando a mo impolluta d'um pobre, mas honrado
plebeu. E, no entretanto, a minha m estrella parecia caprichar em me ter
escolhido, um monstro d'aquella casta, para meu implacavel algoz.

Do seu primeiro matrimonio, que elle concebera apenas obtida a elevada
posio de embaixador extrangeiro junto  crte brazileira, houve elle to
smente uma filha, em quem debalde procurou imprimir o cunho dos seus
depravados sentimentos. Amelia era o seu nome.

Inebriado pela seduco de seu olhar magnetico, e lisongeado pela magia de
celestial encanto que me sorria ao longe por entre o anil da minha
primavera; eu, atomo insignificante, ousei, um dia, alar a minha fronte
obscura para aquelle astro de divina poesia. Contemplei-o, por longas
horas, n'um extasi de ineffavel ventura, e reconheci, alfim, a grandeza e
immensidade d'aquelle corao, para quem no fra indifferente o meu olhar
receioso e temerario.

Porm, entre mim e aquella mulher existia um abysmo incommensuravel; um
inferno medonho nos separava. Ella era rica, e nobre; eu era pobre, e
plebeu.

Era, sem duvida, uma attitude dolorosa, aquella, em que inesperadamente
nos collocara um caso fortuito, e meramente instinctivo. Todavia, no
desanimei, e cedi machinalmente aos impulsos poderosos do meu destino,
alentado apenas por uma esperana vaga e indecisa, que me adejava furtiva e
longinqua por sobre a orla do meu horisonte.

Ao tempo em que primeiramente a conheci, Amelia no contava mais de 18
annos de edade, ostentando ento toda a formosura e transparencia de seu
elevado espirito, n'um rosto profundamente sereno e angelico, onde
scintillavam, como esmeraldas, dois olhos verde-negros e seductores, que me
deixaram devras captivo e enleiado.

Quando, pela primeira vez, fitei a gentileza d'aquella imagem radiante,
d'aquelle corpo donairoso e alabastrino, d'aquella mosinha to delicada e
quasi impalpavel, d'aquelle psinho de sylphide, d'aquelles cabellos,
pretos como azeviche, ondulando naturalmente por sobre os seus hombros de
cysne,  merc da branda e tepida virao do crepusculo; senti-me enlevado
em mysticas harmonias; convulso, no pude suster o vo da minha phantasia.
Crra-me at arrastado no mimo da flor, e na melodia do rouxinol, a um novo
mundo; julgara entrever um paraizo, n'essa exuberancia de seiva
imaginativa, que produziu em mim um mixto de sentimentos indiziveis e
mysteriosos.

Dir-se-ia uma viso oceanica!

Amelia, para quem a minha presena fra de todo indifferente, no
principio, comeou por me corresponder, dahi a um mez, com um amor
apaixonado, e to verdadeiro como era o meu. E, em verdade, tudo nos corria
auspicioso e promettedor. Quasi nos haviamos esquecido d'este mundo, com as
suas paixes e odios ruins, para nos extasiarmos perante o desabrochar
d'aquella ventura celestial, cujo ambiente nos envolvia n'um deleite
imperceptivel.

Porm, tudo tinha de acabar irremediavelmente; e foi exactamente, quando
menos o esperavamos, que o sopro terrivel da realidade nos veio dissipar,
n'um momento, todas as doces illuses d'aquelle immenso amor, que nos
absorvia, desfolhando-nos, impassivel, todos os sonhos que nos alimentavam
o ideal da nossa juventude esperanosa e meiga.

O diplomata, tendo sido competentemente avisado d'esta nossa mutua
affeio, no s me ameaou logo com toda a casta de doestos e convicios,
como tambem o participou immediatamente aos meus patres, que me
despediram, n'esse mesmo dia, com uma desculpa ridicula e alvar.

Amelia, essa, coitada! teve de luctar, e luctar muito, para arcar com os
instinctos ferinos de seu pae, a quem prestes occorreu a ida nefasta de
sacrificar aquella victima innocente a um interesse sordido e vil. Aquelle
miseravel concebera a satanica inspirao de _vender_ sua filha a um
millionario devasso, que, anteriormente, lhe havia manifestado o desejo de
casar um unico filho que possuia com o doce objecto dos meus sonhos sobre a
terra,

Por maiores que fossem as imprecaes d'aquelle anjo celeste, allegando a
impossibilidade d'uma tal unio com um homem, que mal conhecia, e cuja
desventura seria infallivel no futuro, no houve, comtudo, resistir-lhe. A
resoluo, uma vez tomada, tinha de seguir o seu curso violento, ainda
atravs dos mais insuperaveis obstaculos.

E, de feito, assim succedeu!

Um mez depois, Amelia, aos olhos do mundo, era legitima esposa do tal
millionario. Seu pae havia attingido o auge de gloria e contentamento,
julgando ter encontrado a maxima felicidade para sua filha. Era, porm,
grande a illuso. E muito callejado, por certo, deveria de estar aquelle
homem no vicio, para no resistir ao remorso da sua consciencia, e no
conhecer toda a vastido da sua perfidia e do seu crime.

Mas esqueamos esse homem hypocrita e embusteiro, se tanto nos for
possivel, de que anda to colmada esta nossa sociedade, e voltemos a
rematar a nossa historia com os ultimos episodios de meus desgraados dias.


V

Apenas sahi d'aquella primeira e ultima casa, em que me fra licito entrar
no Rio de Janeiro, nunca mais consegui empregar-me em parte alguma. A minha
reputao estava de todo perdida e manchada. Como valer-lhe? d'onde haver
recursos, para voltar  patria? Em tal caso, o unico refugio seria, talvez,
mendigar de porta em porta um mesquinho ceitil, com que podesse matar a
fome que me devorava as entranhas; mas, como o havia de fazer, eu, um homem
robusto e apto para trabalhar? quem ousaria acreditar-me, n'aquellas
circumstancias? e qual seria o meu denodo para arcar peito a peito com a
indignao da sociedade, arrojando-me s faces os meus erros, e passadas
loucuras?!...

Todas estas interrogaes dirigia a mim proprio, apertando, por vezes,
entre as mos convulsas, as minhas faces afogueadas em colera e subito
desalento. Procurei repousar o meu corpo abrazado, e no pude. Experimentei
distrahir-me, e tudo cri impossivel. Que fazer, pois? Appellar para a aco
da divina Providencia; isso seria, alm de demasiada temeridade, um puro
_lazzaronismo_. Emfim, nem sei como possa descrever-lhe aquelle momento de
suprema angustia, e fatal desesperana?! S lhe direi que em poucas horas
me senti envelhecer, como se j tivesse cincoenta annos de edade.

Oxal Deus me tivesse chamado a si n'aquelle intervallo de pungente dr e
lucta tenaz!...

No entretanto, a incredulidade a-se apossando do meu debilitado espirito,
e o cynismo no tardaria, de certo, a vir fazer-lhe companhia; quando senti
um claro de luz banhar-me a furto a minha existencia fallaz.

N'esse instante, tinha eu recebido um bilhete, concebido nos seguintes
termos:

--Meu caro Francisco.--Espero-te hoje, sem falta, s 11 horas da noite,
junto de minha casa. Sempre a mesma--Amelia.

Esperei, pois, por essa hora, caminhando, lentamente, para o logar
aprazado. Incitava-me uma curiosidade espantosa, e um desejo violento de
poder dizer um derradeiro adeus quella perola da minha alma.

Apenas soaram 11 horas nos relogios da cidade, de subito Amelia, surgiu a
uma das janellas da casa, acenando-me cautelosamente para que me
aproximasse sem receio. Acerquei-me, portanto, d'aquelle logar; porm, oh!
meu Deus!... o que vi eu?!... nem quero que tal cousa me lembre! Amelia,
to formosa outr'ora, como estava mudada!... As rosas das faces
tinham-se-lhe seccado profundamente; os olhos encovados, e sem brilho; as
palpebras apenas se volviam morbidas, e sem significao. Tudo denunciava
terrivel cataclysmo, ruina inevitavel!

--Mandei-te chamar, Francisco, porque me custava desprender d'este mundo,
sem me despedir do unico amigo que ainda possuo na terra. Perante o
despotismo da fora foi cega a minha humilhao, como sabes. Obedecendo a
meu pae, julguei cumprir um dever filial, e nada mais. Ao menos ninguem
ousar taxar-me de ingrata, nem de insubordinada, creio eu. Agora,
consumou-se tudo. A vingana est prestes. Deus, de certo, no me poder
recusar a bemaventurana d'uma outra vida. Os anjos esperam-me no cu, meu
amigo, e s l ento poderei encontrar a verdadeira felicidade. Lembra-te
sempre da tua Amelia, meu caro, e no percas jmais a esperana da nossa
unio ante o throno do Altissimo. Tambem imagino bem quantas privaes
ters passado, meu bom amigo. No julgues, por acaso, que tenha esquecido a
tua dedicao e infortunio, no meio do fausto e esplendor em que vivo. No;
pelo contrario. Desculpa, se antes te no mandei chamar; mas s hoje me foi
possivel levantar as algemas de meus pulsos. Agora... adeus... sinto...
passos... preciso retirar-me... Lembra-te sempre de mim... No me
esqueas.... por quem s... Toma l... recebe, agora, a ultima lembrana...
da tua querida... E adeus... adeus...

Amelia retirou-se logo, para dentro, cerrando vagarosamente a janella,
como para evitar que alguem a podesse vr e ouvir. Eu, afastei-me
immediatamente d'aquelle logar, suffocado, sem poder articular nem mais uma
palavra. Por pouco se me no esvaram os sentidos.

Apanhei o pacote que Amelia me pedira para acceitar, como um penhor de
reminiscencia das nossas horas venturosas. Abri-o, e encontrei um masso de
notas do Banco, que subiam a um valor nada vulgar. Emmudeci, e ajoelhei
automaticamente, levantando as mos aos cus, n'um acto de piedosa
contrio. Volvi, depois, a casa, ancioso por dar largas  sinceridade das
minhas lagrimas, longo tempo represadas, e ao brado da minha consciencia
generosa.

D'ahi a um mez estava eu no alto mar, em regresso para Portugal.

Alguns dias, porm, antes de partir, tinha, por acaso, encontrado Amelia,
pelo brao de seu _respeitavel_ marido, que me lanou um olhar torvo e
sinistro. Foi tambem a primeira vez que o vi, e, valha a verdade, poucas ou
nenhumas impresses me deixou. Apenas me recrdo ser elle um homem de
estatura elevada, muito magro, tendo um espesso e elegante bigode a
cobrir-lhe os labios, naturalmente grossos e rudes. De nada mais me
recordo. Hoje, se o visse, estou intimamente convencido, que me seria
impossivel conhecel-o.

Mas, como lhe dizia, desembarquei no Porto a 2 de julho de 1852. Ahi mesmo
consegui a minha entrada no seminario episcopal da cidade, d'onde sa,
cinco annos mais tarde, j com ordens sacras.

A despeito de todos os despotismos e ameaas, Amelia continuou a
escrever-me todos os paquetes, at que chegou um dia em que deixei de
receber noticias suas. Foi isto, cinco mezes depois da minha chegada a este
paiz. Soube, finalmente, por carta d'um caixeiro da casa commercial, onde
eu estivera, que ella havia succumbido a uma phthisica pulmonar,
acompanhada de doloroso soffrimento e pranto acerbo.

O diplomata, ainda hoje me consagra um odio feroz, attribuindo  minha
pessoa toda a origem dos seus males e desgraas. Emquanto a seu genro, nem
sei o que lhe ter succedido. Disse-me alguem, ha poucos dias, que elle
viera fixar a sua residencia em Portugal. De certeza, porm, nada posso
affirmar-lhe.

Em concluso, o que bem lhe posso asseverar  que, apezar da grande
averso com que aquelle homem ainda hoje me olha, talvez, eu, pelo
contrario, nunca lhe desejei seno o seu bem e completa felicidade. Pois,
em verdade, bastava ver n'elle o marido de Amelia, para no poder resistir
a um profundo respeito e sincera venerao.

--E que faria hoje a esse homem se, por acaso, o encontrasse?--interrompeu
finalmente Alberto de Carvalhal.

--Perdoar-lhe-ia, como expressamente m'o ordenam os preceitos de Christo.

--Ora at que emfim! sou feliz, meu amigo. Deus seja louvado!--exclamou
Alberto, cahindo aos ps do padre Francisco de Castro, que debalde procurou
sustel-o em seus braos.

Quem era pois Alberto de Carvalhal, j o leitor, de sobejo, o ter
imaginado. E a razo por que elle sempre se conservara silencioso, no
decurso da triste narrativa do padre Francisco de Castro, facil nos ser
suppor tambem, por isso mesmo que elle no fazia mais do que ouvir, em
parte, a sua propria historia, e chorar nos seus proprios infortunios.


EPILOGO

Dois annos depois Alberto era monge benedictino. Ao cilicio do penitente
junctara elle as lagrimas d'um peccador contricto.

O padre Francisco de Castro, ao receber esta nova, que lhe era de tanto
prazer e consolao, deu-se pressa em ir abraar o seu amigo, e, por longo
tempo esquecidos, permaneceram nos braos um do outro, extasiados da mutua
ventura e jubiloso alvoroo.

A felicidade os acompanhe! Que a gloria do Eterno lhes alente o espirito
por entre as lagrimas e abrolhos d'este mundo, e que a certeza d'um
beatifico porvir os inicie na practica das grandes virtudes!...




*A FATALIDADE E O DESTINO*





A FATALIDADE E O DESTINO


    Blood will have blood

        SHAKESP.--_Macbeth._

    O sangue pede sangue.

Era por uma d'essas noites tempestuosas e frias do mez de dezembro de 18...
O vento soprava rijo e medonho. L fra ouvia-se o rugir da procella. O
ribombo do trovo echoava tremendo e severo, como um castigo de Deus. As
nuvens, prenhes de electricidade, revolviam os ares, de cada vez mais
espessas e rapidas. A natureza parecra amesquinhar-se, perante o pavoroso
espectaculo, que, em breve, teria de representar-se por sobre a superficie
da terra.

Tudo cedia, sem remedio,  violencia de to possante e irresistivel
inimigo.

O roble altivo dobrava sua fronte magestosa ao impeto do vendaval raivoso.
O cedro rojava-se humilhado ante a sua impotencia e fragil embarao. No cu
mal se destacava o refulgir das estrellas, d'entre a densidade das brumas e
trevas espessas. A humanidade, em silencio, parecera adormecida n'um leito
de funeral tristeza, e o prazer profundamente engolphado n'um abysmo de
terrivel melancholia.

Dir-se-a a hora de eterna vingana, o dia de suprema verdade!

Em Lisboa, nessa cidade luxuosa e rica, era prolongado o silencio. Apenas o
vozear confuso e indistincto d'um ou outro pregoeiro poderia tomar-se,
talvez, como um signal de vida e movimento ephemeros, por entre o tumultuar
d'aquelle estranho labyrintho.

N'uma pequena e exotica habitao da rua dos Douradores agitava-se violento
e apressurado, d'um para outro lado da casa, um vulto alto e nobre, de tez
morena, barba preta, longa at ao peito, e com a fronte sulcada de
profundas e salientes rugas.

De quando em quando, Loureno Viegas corria pressuroso pela sala, abria a
vidraa da janella, com impeto no vulgar, e observava impaciente aquelle
estado de cousas, que refervia, l por fra, nas ondas da procella. Depois
voltava para dentro, e continuava a passear agitado e trmulo.

N'um dos intervallos, porm, Loureno cau quasi automaticamente sobre uma
velha cadeira de espaldar, ali existente, unico movel que guarnecia aquelle
triste e humilde recinto, e que tivera a dita de escapar  sua espantosa
prodigalidade. Aps alguns momentos, como se pensamento estranho, de
subito, lhe houvesse subjugado a fronte entumecida pelo continuo
redemoinhar de idas, quasi sempre oppostas, puxou por um punhal, que nunca
esquecia ao seu lado esquerdo, e colerico arremessou-o para longe de si,
sem outro instincto que no fosse o da propria salvao. A lamina de ao
fusilou um instante, e foi cravar-se n'uma porta fronteira onde bruxuleava
ainda o claro quasi extincto d'uma candeia, ali cravada. Ao contacto de
to perigoso aggressor a porta estremeceu, e a luz, mal segura, cau.

Nesse momento estrugiu os ares o latir agudo de enorme rafeiro, inseparavel
companheiro d'este nosso _Othello_ em miniatura. Loureno apenas levantara
a cabea, para tornar a car n'aquelle mesmo estado de medonha lethargia.

No entretanto a tempestade havia serenado algum tanto. As brumas comeavam
a dissipar-se no horisonte, e a estrella d'alva rompia bonanosa e feliz.

Loureno levantou-se ento, allumiado ainda pelo continuo e rapido fusilar
dos relampagos, e foi arrancar o punhal do logar em que, momentos antes, se
tinha cravado. Olhou para elle com a firmeza d'um here, e introduziu-o no
bolso.

Tu me salvars!...--dizia elle, empurrando cautelosamente a portinhola
d'aquelle cubiculo, que nem j chave possuia. Acompanhava-o o
seu--_Terra-Nova_.

Mas que iria elle fazer a deshoras da madrugada? Que designio era o seu?
Vel-o-hemos mais tarde. Por agora, limitar-nos-hemos a seguir-lhe seus
passos incertos, se tal nos aprouver.

Da rua dos Douradores, Loureno Viegas caminhou at o Caes do Sodr, onde
parou junto do _Grand Hotel-Central_.

-- preciso partirmos j, sem mais demora. Remos ao mar, e nada de
hesitaes. Vamos a isso. O teu premio est nas minhas mos.

Isto dizia Loureno Viegas, dirigindo-se a um desconhecido, que ha muito o
esperava n'aquelle mesmo logar.

--Receio muito pelo mar, meu amo. Mas, emfim, uma vez que  da sua vontade,
v l. A Virgem Nossa Senhora nos acompanhe.

Assim fallava o arraes, saltando, prestes e desempedido, para dentro d'um
pequeno escaler, que se vergava submisso sobre as ondas enfurecidas.

Depois de varias e perigosas peripecias, de todo inuteis  curiosidade do
leitor, o escaler abicou finalmente  praia de Cacilhas. D'um pulo estava
Loureno em cima do caes, tendo exposto d'antemo ao arraes todo o plano de
seus futuros designios.

Vejamos, pois, o que succedeu.

Loureno subiu apressado a longa e difficultosa encosta, que conduz  villa
de Almada, e parou no cimo, l, onde alveja uma casinha graciosa, rodeada
de espesso arvoredo, e fragrancias sem conto.

A um signal convencionado, abriu-se uma das janellas d'aquella airosa e
solitaria vivenda, e logo aps assomou a ella uma figura de mulher, que mal
se destacava ainda por entre as sombras quasi desvanecidas da madrugada.

--Es tu, Loureno?--perguntou Beatriz n'um tom receioso e baixo.

--Sim, meu anjo,  o teu amante, que te espera. Convm no demorar, de modo
algum, a nossa partida. A claridade comea a romper, e os nossos esforos
sero frustrados, se no fugirmos antes do dia.

--Ento j, meu amigo. Fujamos, emquanto  tempo. Meu pae dorme
profundamente, e creio at que ninguem mais vla nesta casa.

Neste comenos, Beatriz atou um lenol  beira da janella, procurando ter
nelle um esteio seguro para a sua rapida fuga. Desceu, em seguida, at uma
certa altura, em que Loureno a pde suster em seus possantes braos, no
consentindo, por este modo, que seu psinho aristocrata tocasse sequer esta
terra ingrata e rebelde, que s pisam humildes mortaes.

Momentos depois as pedras da calada iscavam fogo ao rapido perpassar d'um
brioso alazo, que tomara o caminho do caes com celeridade inaudita.

Quem era o cavalleiro, ou antes, quem eram os cavalleiros, j o leitor, de
certeza, o ter imaginado. E como Loureno pde haver  mo aquelle meio de
transporte, facil nos ser tambem conjecturar, mormente se nos lembrarmos
de que elle havia transmittido, muito antes, as suas ordens ao arraes Joo.

Apearam-se no caes. Beatriz, quasi desmaiada, dando apenas accrdo de si,
foi conduzida ao escaler nos braos de Loureno, que a envolveu
sollicitamente no seu _chale-manta_, para evitar que sua melindrosa saude,
d'algum modo, se alterasse com os rigores do tempo e intemperies da
estao.

O escaler, depois, remou ao largo, e foi atracar a um brigue, que estava
ancorado, defronte da torre de Belem, para onde Beatriz foi levada, a
custo, com o salutar auxilio de Loureno Viegas. D'ahi a duas horas j o
navio se fazia de vla, com destino para New-York.

Mas, emfim,  tempo de sabermos quem so estes dois
personagens,--dir-nos-ha a amavel leitora, j um tanto agrilhoada por
desesperadora curiosidade.

Pois tem v. ex.^a muita razo, minha senhora. E para o que vou procurar,
desde j, sanar este inconveniente, apresentando, o mais ligeiramente
possivel, a photographia dos nossos viajantes.

Loureno Viegas era bacharel formado em direito pela universidade de
Coimbra, e exercia, ha dois annos, um logar de professorado em Lisboa.
Procurando debalde obter a mo de sua adorada Beatriz, filha unica do
abastado lavrador--Jos de Brites Lencastre Serro,--Loureno resolveu-se,
por fim, a sacrificar toda a sua vida e paz de espirito, intentando o rapto
d'aquella angelica _sabina_, em que se estreou evidentemente feliz, como
acabmos de vr.

Beatriz, que, a principio, vacillara em acceitar a temeraria e audaz
proposta do eximio professor. no pde abafar, mais tarde, o grito
espontaneo do seu apaixonado corao, consentindo, de boa mente, nos
sinistros desejos de to aleivoso amante.

Eis aqui, pois, como, por uma natural coincidencia, nos foi licito assistir
quelle espectaculo, devras commovente e fatal para ambos, que, ainda ha
pouco, vimos ser representado dentro dos muros da villa de Almada.

Chegado que foi  America, Loureno procurou logo empregar-se; e conseguiu
effectivamente uma posio modesta e decente, sobejamente capaz para
antecipar toda e qualquer eventualidade, que, inopinadamente, lhe podesse
sobrevir pelo decorrer dos annos.

A saude, porm, no lhe fra de todo favoravel, sob a influencia d'aquelle
clima. Por isso, ao cabo de alguns mezes, jazia elle enfermo, no leito da
desgraa e da miseria.

Beatriz bem lhe quiz valer com o seu trabalho,  verdade. Mas, coitada!...
como o poderia ella fazer, se todo o tempo lhe era pouco para velar pelo
moribundo e saudoso amante?

Portanto, quando Loureno obteve algumas melhoras, os seus recursos estavam
completamente esgotados. Era dolorosa a posio d'aquelle desventurado! As
suas foras mal lhe consentiam ainda qualquer genero de trabalho, por menos
violento que elle fosse.

Um dia, Beatriz, depois de ter vendido e sacrificado tudo o que possuia de
seu, lembrou-se de appellar para a aco da caridade publica, como unico e
verdadeiro recurso no extremo d'aquella aterradora indigencia. Loureno,
porm, apenas soube a fatal nova de que os alimentos, que ella lhe
ministrava diariamente, com tanta bondade e doura, eram colhidos de porta
em porta, mediante as suas lagrimas e contristante humilhao, no ousou
supportal-os por mais tempo.

D'ahi em diante, tudo o que ella podia trazer-lhe para alentar o seu vigor
physico e robustez intellectual era arremessado  rua irremessivelmente.
Nunca o seu orgulho e independencia poderiam conceder tal baixeza e
opprobrio na mulher que elle desejara por esposa. Desde ento o tdio
comeou a apossar-se violentamente de seu angustiado espirito, e Beatriz, a
seus olhos, tornara-se um ente desprezivel e vil.

Assim pois, neste estado atrophiante e sensibilisador, pensou elle muitas e
longas horas. A loucura parecia dominal-o fortemente. E j no havia
valer-lhe, talvez, se, por acaso, uma circumstancia imprevista, o no
obrigasse subitamente a abandonar aquella immobilidade e desoladora
situao, em que, mau grado seu, o haviam encerrado suas foras e
abominavel desesperana.

Por um acaso inexplicavel de manifesta loucura, Loureno Viegas no pde
mais prolongar a febre vertiginosa, que lhe abrazava a mente enlouquecida:
levantou-se de salto, como se o desespero, de subito, lhe houvesse alentado
o corpo, enervado pela doena, e aproximou-se de Beatriz, cujos cabellos
beijou soffregamente:

--Ao menos, morrers com o meu amor, anjo bemdito do Senhor!--exclamava
elle, afagando-lhe com delirio sua fronte mimosa.

J no havia remedio, que lhe podesse abrandar o seu feroz instincto. Que
valeriam as supplicas da pobre mulher, em face da hediondez d'aquelle tigre
asqueroso e repellente,... se, minutos depois, ella tinha de jazer a seus
ps, victima expiatoria d'um pensamento infernal?!...

Consummou-se o sacrificio!...

Loureno, cgo de raiva, sem atinar mesmo com a enormidade do crime, que
praticara, deu-se pressa em fugir para longes terras, passando sempre
incolume s mos da policia vigilante d'aquelle paiz.

Decorridos alguns annos, voltava elle a Portugal, em demazia opulento, para
poder grangear quaesquer d'esses titulos ou commendas, que to malbaratados
andam por este nosso malfadado paiz. Onde elle conseguira to rapida
transformao, isso ainda hoje passa como mysterio insondavel para todos os
que o conheceram outr'ora pobre e sem meios de vida. Diziam alguns que elle
se associara a uma quadrilha de bandidos na America do Sul; outros
affirmavam ter sido roubada aquella fortuna a um abastado proprietario, ao
servio do qual elle se conservara por muito tempo.

Em concluso, o que se sabe ao certo  que, estando elle um dia, muito
descanado, pacificamente encostado ao portal de sua casa, respirando
docemente as exhalaes fragrantes das mil florinhas, que, ento, apenas
comeavam a vegetar, de subito parou junto d'elle um vulto desconhecido,
sopeando galhardamente um brioso e folgaso ginete.

-- o sr. Loureno Viegas a quem tenho a honra de fallar?--dizia o
cavalleiro, dirigindo-se para elle com delicadeza e urbanidade.

--Um seu humilde servo,--replicou Loureno, admirado.

--Pois, sr., saiba que aproveito esta occasio para vir pagar-lhe uma
divida antiga, que at hoje no tenho podido satisfazer.

--Uma divida?!... A mim?! Isso ha de ser engano, forosamente. Creio que v.
s.^a nada me deve.

--Pois ento saiba mais que me chamo Jos de Brites Lencastre Serro, e que
tinha uma unica filha chamada Beatriz, a quem um infame assassinou e roubou
para sempre aos meus carinhos e affeies.

Palavras no eram ditas, e j Loureno Viegas caa moribundo no cho com um
tiro de bacamarte, que lhe varara o peito de lado a lado.

Loureno cahiu exclamando:--Mataram-me!... Fez-se a justia de Deus!...

Quando, algumas horas depois, accorreu a gente da terra quelle sitio, j
elle havia exhalado o ultimo suspiro.

No dia immediato alguns dos seus poucos amigos conseguiram, a grandes
rogos, que o parocho da freguezia desse o seu consentimento para elle ser
sepultado no adro da igreja.

Hoje a sua lousa jaz quasi ignorada. Algumas florinhas solitarias, que
derramam aromas nas horas do crepusculo, ou quando muito um cypreste
erguendo-se melancolico e severo, com as cres sombrias e esverdeadas da
sua eterna primavera, e uma cruz silenciosa e triste indicando que ali
repousam os ossos d'um desgraado!...




*CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA.*




CAMBIANTES DA COMEDIA HUMANA

Ao Dr. Antonino Jos Rodrigues Vidal


CAPITULO I

        Henrique IV, perguntando a Gabriella d'Estres por onde se
        entrava para o seu quarto, esta respondeu-lhe:--pela porta da
        egreja. Pela sociedade moderna pode dizer-se que a entrada para
        o matrimonio  muitas vezes a porta d'um salo onde se dana.

        LOPES DE MENDONA.--_Scenas e Phantasias._

Um baile!...

Delirio da mocidade! gloria d'um amante! receio das mes! enojo da
velhice!...

Um baile!...

Quantas vezes sonhamos, ainda crianas, com aquelle novo mundo ideal e
angelico, com aquella viso dulcissima, enlevo de amantes, com aquelle
rodopio vertiginoso e inebriante!...

Um baile!...

Mixto de ideas e sentimentos oppostos! Sorrisos e prantos! suspiros e
lagrimas! amor e saudade! lyrios e goivos!...

Um baile!...

Desgraa de muitas familias! orphandade de muitos coraes! inveja de
muitas creaturas!...

Um baile  a photographia da humanidade, assim como o theatro  o espelho
da sociedade.

Tem-se dicto muito sobre bailes. Todos lhe reconhecem os perigos, e,
todavia, ninguem os evita.

A donzella corre ao precipicio, attrahida pelo canto seductor d'esta
implacavel sereia. O mancebo alimenta ali sua phantasia ardente. Os velhos
assistem a elles, como meros espectadores, realando as glorias dos seus
tempos, em menospreso das modernas velleidades civilisadoras e
progressistas.

Emfim, tudo anceia por um baile; todos rejubilam na sua presena; todos
esquecem, por momentos, as ulceras do proprio corpo, para dar largas s
vlas da sua imaginao.

Seja, pois, bemvindo o salo onde teremos de encontrar um dos principaes
personagens da narrativa que vamos encetar!...

Estava eu em Fafe, no mez de agosto de 1860. Ali, fugindo s ardencias do
estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns mezes,  sombra
d'aquellas viosas amoreiras, completamente descuidado do bulicio d'este
mundo, para a ss comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e
beatifico scismar.

Foi tambem n'uma d'essas occasies, creio eu, que me foi licito sondar uma
das almas mais formosas e um dos genios mais modestos que tenho encontrado
em dias de minha vida. Arthur de Campos era realmente um moo affavel e de
uma fina educao; bom at ali. Havia um no sei qu de mysterioso e
sympathico n'aquelle seu vulto insinuante e bello, que me attraa
irresistivelmente para elle.

Para logo, procurei travar relaes com o joven provinciano, e de tal modo
o consegui, que, dentro de pouco tempo, j vivia nas suas proprias
alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre ns a amizade era mais que
fraternal. Quasi todos os dias nos juntavamos de manh, para s nos
separarmos ao recolher para casa.

Oh!... com que saudade me no lembra ainda aquelle tempo!... como os dias
se deslisavam ento brandos e suaves! como era puro o azul do nosso
horisonte, e feliz a nossa existencia, juncada pelas rosas do amor, e
matizada de flores, que nos enfeitiavam a mente enlouquecida pelas larvas
da phantasia!...

s vezes passavamos horas inteiras, um ao p do outro, sem articularmos uma
unica palavra; e, comtudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se
mutuamente n'aquelles meigos e puros anceios de paz e felicidade.

Um dia, lembra-me ainda como se hoje fra, eram talvez duas horas da
madrugada. A lua, aureolada de mystica luz, campeava no seu eterno throno
de magia e formosura. Reinava um silencio sepulchral. Apenas se presentia
ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas
arvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa
da madrugada.

Seno quando veiu ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Arthur, que me
chamava de fra da porta. Corri a elle, curioso por saber o que se teria
passado. Nada me disse. Entrou pensativo. para dentro de casa, e sentou-se
melancolico e triste.

--Sei quem s, meu amigo; falla francamente, que tens tu, que te
aconteceu?...

Elle, comtudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por
mim, julguei prudente no insistir em to pertinaz proposito, e aguardei
melhor ensejo para esse fim, certo de que elle se no recusaria a
revelar-me o seu segredo.

Aps alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma unica
palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal ida de o
acreditar demente. Para me certificar, porm, da verdade do facto, resolvi
seguil-o a todo o transe, commettendo a discrio de me occultar, o mais
cautelosamente possivel, atrs da espessura do arvoredo por onde elle tinha
de passar irremediavelmente.

Similhante a um reptil, l me fui arrastando, como pude, por entre o matto
e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.

Foi ento, que sua tmida voz, de envolta, com o perfume do orvalho
matutino, me veiu estancar no peito um mysterioso receio. Suas palavras
foram tristes, como a solido da sua alma, pavorosas como os milhares de
phantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monlogo:

--A sociedade! sempre a sociedade! Maldicta sejas tu, mil vezes
maldicta!... E o homem ha de respeitar necessariamente os teus decretos
vis, e lisongear a tua hypocrisia infame!

Triste abjeco!...

No sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada
passo, me enluctam o espirito com as trevas deste mundo, sinto-me
enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e
no posso de maneira alguma acreditar na ida d'um Deus infinitamente justo
e bom!...

Muita lagrima, muita miseria e muita vingana: eis devras a realidade das
coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!

Nasce a criana, de envolta com o cilicio do soffrimento, para expirar
depois no meio de agudas dres e medonho agonisar!

Um dia, quando j homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa
mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podrido da sua alma corrompida, o
veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrupo, a vaidade!...

E ainda ha quem sonhe no amor d'uma mulher?!...

Pobre desgraado, quem quer que tu sejas compadeo-me da tua innocencia.
Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e no creias jmais nas
palavras hypocritas d'uma mulher fementida! Afasta-te, em quanto  tempo,
d'essas viboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruina, e a
degradao da tua dignidade!...

No pude ouvil-o por mais tempo. O echo de suas ultimas palavras foi
perder-se a distancia nas azas da branda virao d'uma esplendida madrugada
de outono.

Retirei-me para casa bastante apprehensivo. De todo me fra impossivel
atinar com a origem de similhante mysterio. Appellei, pois, para o tempo,
como melhor mestre e mais efficaz para me elucidar a esse respeito.

Quando me tornei a encontrar com Arthur, d'ahi a algumas horas, j o
reconheci mais sereno e agradavel. Affigurou-se-me ver dissipadas as
sombras, que pouco antes lhe offuscavam o espirito. Ainda assim, evitei
sempre o fallar-lhe sobre coisas, que de algum modo podessem offender o seu
melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os
seus pezares e profundas amarguras, mas vi quasi baldados os meus esforos.

No entretanto, o inverno ameaava ser rigoroso. O mez de novembro
principiara frio e insupportavel.

Tudo se transtornara ali, com a chegada da estao invernosa. Aquelles
prados e veigas, at ento tapetados de verde e flacida alfombra, comeavam
a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitaveis. O
cu iriado da primavera havia desapparecido, deixando em seu logar um
monto de nuvens escuras e temerosas.

Neste comenos, negocios de familia me chamavam a casa, impedindo a
continuao da minha residencia n'aquelle encantado paraizo de amor e
felicidade. Despedi-me, pois, affectuosamente do meu amigo Arthur, e
regressei ao Porto.

Arthur promettera escrever-me d'ahi em diante sem interrupo. Passaram-se,
comtudo, oito mezes sem que eu recebesse uma unica carta sua. Quasi o
julgara doente, se, porventura, no fra um amigo d'aquelles sitios, que me
disse tel-o encontrado, poucos dias antes, de perfeita saude e invejavel
robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quiz saber.

Aconteceu, porm, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do
conselheiro F., por occasio do anniversario natalicio de sua filha
Mathilde. Mal teria entrado no salo, quando, cheio de espanto e receioso
prazer divisei o meu amigo Arthur de Campos, por entre a multido de
cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a proxima quadrilha.

Fiquei estupefacto!

Ora vo l conhecer o mundo,--dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal
acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquelle homem que, ainda ha
pouco, amaldioava a sociedade, no meio d'um horrivel _spleen_, que lhe
atrophiava a dolorosa existencia; aquelle homem, para quem a mulher no
passava d'um espectro hediondo e feroz,--j ento no hesitava em se
degradar d'aquelle modo, vivendo na sociedade, e procurando at o objecto
da sua antiga indignao e odioso desprezo?!...

Pois a isto chama-se--_saber viver_ e nada mais,--diro muitos, e digo eu
tambem. L diz o proverbio:--_Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre._

Passemos, porm, uma esponja por sobre estas miserias e humanas ninharias,
e voltemos ao salo.

Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.

Dizia o primeiro, litterato de grande nomeada na invicta cidade:

--Quem ser aquelle joven _Lovelace_, que traz captivos tantos olhares
modestos e apaixonados?...

--Pois, em verdade, ainda no o conheces, meu caro?--retorquia um adestrado
_Marialva_, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria.--Aquelle
sugeito  um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me
dizem, e que vem agora residir para o Porto.  o que em boa sociedade pode
chamar-se _un homme distingu, un homme  bonnes fortunes_.

--Hum!... l me parecia!...--prorompeu o primeiro. Isso assim  outro
cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro no descura da sua misso.
Olha... que modos aquelles... como ella se quebra toda para lhe agradar...
ah! pois no, coitadinha!... Nem a formosa nympha da mythologia, surgindo
do seio do Oceano, seria mais bella e tentadora!...

--E bem haja. ella, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta
sem dinheiro  o mesmo que um cavallo bonito e manhoso: todos gostam de lhe
admirar a estampa, mas ninguem o quer para si.

Emquanto isto assim se passava, Arthur, de longe, pareceu reconhecer-me, e,
levantando-se de golpe do logar onde se sentara, ao lado de Mathilde, veiu
abraar-me sem demora.

--Como tu ests gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por
aqui, dizia elle, apertando-me fraternalmente em seus braos varonis.

--Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, de certo. Mas conta-me l:
que transformao foi essa to rapida? Tu, o homem piegas e choramingas de
outr'ora, o Heraclito provinciano, a quem nada podia distrair, a no ser
uma ou outra pagina do milagroso _Werther_, appareces-me agora transformado
em Democrito feliz e folgaso, catechisando estes coraes rebeldes ao teu
dominio e absoluto imperio?!...

--Isso  uma longa historia, meu amigo, que para aqui no vem a proposito.
A esse respeito tenho muito que te contar. Apparece manh no _Hotel
Central_, quarto n.^o 9, e l fallaremos.

--Est dicto: manh l me tens, sem falta. Apertmo-nos depois as mos
reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Arthur voltou ao salo; eu
retirei-me socegadamente ao meu quartel.


CAPITULO II

    Amor, s immortal! sorris nas campas!

        GOETHE.

No dia immediato,  hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do
Laranjal, conforme haviamos convencionado na vespera.

Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no _Hotel Central_. Fui assim
percorrendo a longa numerao dos quartos, at que se me deparou o
mencionado n.^o 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a minima
resposta.  terceira pancada, j conseguira mais alguma coisa, por isso que
me sora distinctamente o ranger descompassado d'um leito, e o bocejar
montono d'algum sybarita, que se espreguiava indolente, qual moderno
Sardanapalo. Quasi me julgara illudido no meu humilde proposito, quando
ouvi a voz de Arthur, clamando bem alto:

--Ol! quem est ahi? Entre quem ...

Abri a porta, e entrei. Arthur mal havia despertado ainda do contristante
lethargo que d'aquelle modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.

--Sim, senhor, muito bem, menino Arthur! isto  que se chama viver, o mais
 historia! Olha que l por fra j  dia ha muito tempo.

--Ora deixa-me, nem me falles n'isso. Estou perdido, estou morto! Amo uma
mulher apaixonadamente.

Ai! Mathilde! Mathilde! o teu olhar foi o demonio, que se introduziu na
minha alma. Preciso amar-te. D'ora vante s quero viver para ti,
adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importaro, ento, os
prazeres d'este mundo, quando ns, afastados da sua corrupo e miseria,
vivermos um s para o outro e nos alimentarmos na innocencia e suave
conforto dos nossos coraes privilegiados?!...

Ai! Mathilde! meu amor! custe o que custar, tu has de pertencer-me um dia.
Embora tenha de arrancar-te aos braos de teu pae, tu sers minha e s
minha, doce perola do meu corao!

--Bravo! tudo vai a melhor.  ultima hora appareces-me metamorphoseado n'um
elegante Romeu. Realmente, s um homem singular, um typo _sui generis_!...

--Sou um homem singular, dizes tu. No preciso, nem quero comprehender-te.
Porque me no vs, como vs outros, verme impotente, rastejando impunemente
na podrido das proprias chagas, chamas-me um typo _sui generis_. Embora!
Prouvera a Deus todos assim fossem!...

--L por isso no vale zangar, meu amigo. J vejo que no ests hoje de
muito bom humor. Este tempo chuvoso tambem no deixa de ter sua influencia
sobre o systema nervoso. Mas, emfim, fallemos n'outra coisa. Quando
chegaste de Fafe?

--De Fafe cheguei ha tres dias, e de sobejo tm elles sido para me
persuadir a que no devo voltar para l.

--No deves voltar para l?!... Essa  melhor. Ento por que?

--Porque j agora aborreo aquella vida solitaria da minha aldeia. Tenciono
comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha l,
isto devem ser horas de almoo: que me dizes?

--At de jantar, meu caro: so quasi duas horas da tarde.

--Pois bem, n'esse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almoars comigo,
como espero.

--Eu?! almoar a estas horas?! Ests perfeitamente enganado a meu respeito.
Eram 7 horas da manh, j estava fra de lenoes; s 8 tinha o almoo
digerido; e s 9 estava na rua a tractar dos meus negocios.

_C'est trop fort!..._ Far-me-has companhia, ao menos, estimulando-me o
appetite com dois dedos de succulento cavaco; depois iremos juntos a casa
do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa proteco.

--Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir
j confortando as paredes estomacaes, para o que dr e vier.

-- cautela, tambem t'o aconselho; porque, finalmente sempre  obra que
fica feita.

Almomos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo
Arthur. Dir-se-ia um ente incomprehensivel, na verdade: ora alegre, ora
triste, ora melancolico e sereno, ora folgaso e jovial; emfim, so coisas
d'este mundo!

Depois de termos entrouxado duas boas travessas de appetitosas costellelas
de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de
Xerez,--samos ambos, em direco  rua de Sancta Catharina, onde morava o
nosso amigo conselheiro F.

Apenas haviamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado
pelo conselheiro e sua familia, quando nos soou distinctamente a voz de
Mathilde, altercando furiosa com sua irm Maria. Hesitmos um instante no
nosso proposito, e por alguns momentos ficmos perplexos, sem saber o que
fazer. Por fim parmos juntos  porta da entrada, a cuja fechadura collmos
o ouvido cautelosamente, para assim, invisiveis, melhor podermos assistir
quelle espectaculo de ciumenta fraternidade.

Dizia Malhilde, com as faces inflammadas em colera e subito desespero,
accentuando bem as suas palavras, vibradas do intimo do corao:

--Ora a mana sempre  muito invejosa!... que se importa com a vida do sr.
Arthur? que tem com elle? nunca o ouviu fallar a seu respeito, nem bem, nem
mal, no  assim?... pois ento  melhor calar-se, e nunca mais tornar a
fallar em tal coisa.

--Sim, sim, tudo isso  muito bonito! eu j sei o que a mana quer: imagina
talvez que o sr. Arthur est a distillar de amores pela sua pessoa, e
illude-se perfeitamente. Nem elle tinha mais que fazer. Olhe, sabe que
mais,  melhor tirar d'ahi o sentido. Ainda d'esta vez no pga a labia,
minha senhora...

--Olhe bem a mana, veja l o que diz; depois no se arrependa, porque pode
vir tarde e a ms horas. No estou disposta a aturar as suas creancices por
mais tempo. Parece que ainda cheira a coeiros! Que tal est o fedelho! j
viram coisa igual?...

Neste ponto, Arthur, vendo que a contenda ia a tomar propores um pouco
serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos
resultados, que d'ahi lhe podessem provir. Para isso tocou a campainha, e
logo aps veiu um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a
proxima saleta.

Entrmos n'uma sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta.
Sentmo-nos n'umas cadeiras de braos, ao acaso, e lanmos mo do primeiro
objecto que se nos deparou opportunamente sobre a mesa: era um _album_,
quasi todo manuscripto.

Abrimol-o distradamente,--passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquella
multido de paginas, repletas de centenares de palavas semsabores e sem
sentido--quando vimos, no topo da pagina, a seguinte epigraphe:


      ILLUSES

      (Fragmento d'uma poesia inedita)

       ex.^ma sr.^a D. Mathilde


Isto excitou a curiosidade de Arthur, que continuou a lr em voz alta:

      No cu divinal nascida,
            To querida!...
      Entre os homens s rainha!
      No teu olhar enlevados,
      Pelo encanto avassallados,
      Todos suspiram: s minha!...

      De manh o sol luzente,
            Vem ridente!...
      A natura illuminar;
      Assim tu, com teu fulgr,
      Vens n'um sorriso d'amor
      Minha alma purificar!

      No cu a estrella ondulante,
            To brilhante!...
      A cada passo  toldada!
      Mas tu brilhas sempre pura,
      Qual a rosa com frescura
      Pelo sol illuminada!...

--_C'est assez!..._--exclamou Arthur, contendo um longo abrimento de bocca,
e depondo discretamente o _album_ sobre a mesa.  um optimo narcotico para
quem precisar d'elle: eu, por mim, declaro, estou satisfeito e mais que
satisfeito.

Neste momento entraram na sala as duas filhas do conselheiro, acompanhadas
de sua respeitavel me.

Trocadas as cortezias do estylo, tornmos a tomar novos logares.

Arthur comeou, dizendo que aproveitava aquella occasio para ir agradecer
pessoalmente o benevolo acolhimento e fraternal sympathia com que se tinham
dignado tractal-o na noite antecedente, confessando-se eternamente grato
por todos aquelles obsequios, que to do intimo lhe tinham sabido
prodigalisar, e que elle jmais poderia esquecer em dias de sua vida.

A isto respondeu mui laconicamente a dona da casa, intentando provar-lhe
que no tinha feito mais do que cumprir um dever para com os seus hospedes
e amigos, que tanto folgava em ver reunidos, como em familia, n'aquellas
poucas noites de sancta alegria e jubilosa reminiscencia.

Arthur, por um momento silencioso, continuou logo n'aquelle mesmo estylo
parlamentar, com que havia encetado a sua conversao, manifestando
igualmente o seu profundo sentimento pela ausencia do conselheiro, a quem
desejava fallar urgentemente para tractar d'um negocio importante, cuja
soluo deveria interessar a toda a familia.

Nesta occasio, confesso, tive um horrivel calafrio. _Tractar d'um negocio
importante, cuja soluo deveria interessar a toda a familia?!..._

Nem eu sabia que pensar d'aquellas suas palavras. Pois dar-se-ha o caso, na
realidade, que este homem v pedir a mo de Malhilde, no tendo fallado com
ella seno uma vez, ignorando completamente os seus sentimentos e
qualidades moraes?!...

Veremos!...--dizia eu a mim mesmo, abrangendo em toda a estreiteza d'esta
palavra um raio de esperana no futuro.

Aps alguns momentos, como vissemos que no chegava o dono da casa, samos,
promettendo voltar n'essa mesma noite.

Quando depois nos encontrmos, c fora, ao ar livre, sem haver nenhuma
pessoa que podesse espiar os nossos passos, Arthur encarou-me com um olhar
furtivo, mixto de susto e alegria, perguntando-me disfaradamente:

--Ento que te parece a minha resoluo? No julgavas, talvez, que fosse
to precipitado nos meus planos; no  assim? Pois olha, eu previra tudo
isso, e, todavia, no o pude dissimular. Quiz evitar todos os escolhos, que
me podessem sobrevir, no decurso d'esta minha difficil peregrinao, mas
cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me  Providencia de alma e corao.
O futuro nos dir o que fr.

Estas ultimas palavras foram proferidas n'um tom severo e decisivo, e de
tal modo, que julguei inutil toda e qualquer replica, que a minha amizade,
porventura, podesse suggerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns
reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra
pavorosa, diante da qual elle teria de recuar um dia, se a fatalidade, por
acaso, porfiasse em perseguil-o. Elle, pela sua parte, fingiu nada ouvir do
que eu lhe dissera, e calou-se.

N'essa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tractado, para ter
logar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resoluo do moo
provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvil-a,
acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em acceital-a como
verdadeira.

O que  certo  que d'ahi a dez dias os jornaes da localidade registavam
nas suas columnas o casamento de Arthur, do modo seguinte:

--Hontem, pelas 10 horas da manh, na egreja de Santo Ildefonso,
contrairam os sagrados laos matrimoniaes o ex.^mo sr. Arthur de Campos e a
ex.^ma sr.^a D. Mathilde de Andrade Castello Branco, menina de subidos
sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-ho
brevemente para Lisboa, onde iro passar a lua de mel. D'aqui mesmo lhes
enviamos os nossos parabens, fazendo votos pela sua felicidade futura, e
eterna unio.

O ideal de Arthur realisara-se, pois, neste mundo. N'aquelle dia tudo lhe
sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu corao,
cheia de galas e encantos. A sua imaginao, povoada de tudo quanto ha de
mais bello e sublime, neste valle de lagrimas, nada mais enxergara alm da
existencia presente. O sol da sua felicidade, at ento sepultado nas
trevas de um desditoso porvir, surgiu emfim magestosamente no horisonte da
vida, purpureado de bem vivas cres e rescendentes perfumes.

E, diga-se a verdade, n'aquelle dia, ao menos, Arthur julgou-se feliz, e
muito feliz. Por entre as rosas do amor no distinguiu elle os goivos da
existencia; atravs a pureza do seu horisonte de todo lhe fra impossivel
notar a orla sombria e fatidica. Sentiu-se deslumbrado por um no sei qu
de vago e mysterioso, que o arrastava involuntariamente para um abysmo
tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida
regrada e habitos morigerados.

Por esta occasio memoravel foi servido um lauto banquete em casa do
conselheiro F.

Opiparos manjares guarneciam as mesas, rodeadas de amigos e parentes.

N'essa mesma noite houve um baile, esplendidamente servido, e que se
prolongou at s 6 horas da manh.

Passados que foram tres dias, Arthur partiu para Lisboa, acompanhado de sua
esposa e sogro. Ali se demorou tres mezes, ao cabo dos quaes regressou 
invicta cidade, mais ditoso ainda do que lhe fra licito imaginar.

A felicidade, porm, como o destino, tem os seus revezes neste mundo. Um
amor excessivo aterra-nos e confunde-nos. Os extremos so sempre anomalias,
mais ou menos perigosas, na vida humana.


CAPITULO III

        Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche
        Judith serait toute la femme explique.

        BALZAC.

Ai! mulheres! mulheres! De todos os mysterios, que Deus ha creado, vs sois
o maior d'elles, talvez!...

E quem poder comprehender-vos, com effeito?!...

A candura do vosso espirito, ao desabrochar das mil chimeras da existencia;
a meiguice de um vosso olhar voluptuoso e luxuriante; o feiticeiro encanto
de um vosso sorriso, profundamente celestial e angelico; todo o complexo de
variegadas cres e mysticas harmonias, que vos envolve e sobrepuja aos
outros seres da creao: emfim, todos esses sons dispersos, indefiniveis e
atrahentes, constituem em vs um Eden de amor, idealisao sublime, perante
a qual todos se julgam impotentes, no sabendo at o meio de resistir-lhe.

Tudo tem o seu contraste, porm!... No ha pomba sem fel, assim como tambem
no ha rosa sem espinhos!

A par de seraphica innocencia existe em vs a ferocidade do tigre; junto 
sublimidade do vosso corao tendes a fealdade da hyena!

Profunda e contristante antinomia!!!

O mundo, em seus juizos iniquos, condemna-vos, a cada passo, sem procurar
mesmo ouvir as vossas queixas. A sociedade ha muito lanou o stygma fatal
sobre a vossa fronte impura. E no meio de tudo isto, todos vos procuram
para vos repellirem mais tarde, quando j eivadas das mil miserias e
humanas torpezas.

Ento ninguem se lembra j que fostes uma me desvelada e terna; que
amamentastes a vossos peitos a loira criancinha--fructo mimoso do
Senhor;--que procurastes imprimir na sua fronte o osculo do amor para o
tornar o homem bom e virtuoso, que todos desejam, e por quem a civilisao
trabalha sem cessar!

Sim! ento, ninguem se recorda que fostes o encantamento do lar domestico,
quando filha;--esse typo seductor, viso etherea, que pela sua natural
candura, meigo aspecto e divina graa, fazia a felicidade dos paes e o
respeito dos extranhos!...

At mesmo a esposa carinhosa e meiga, que outr'ora illuminava, como um sol
de primavera, foi esquecida e amaldioada pelos homens;--eclipsou-a a nuvem
sombria da civilisao. O Minotauro de Balzac devora as mulheres jovens e
bellas, as outras anceiam por serem devoradas por elle.

Ai! mulher!... mulher!... Quanto  sublime a tua misso sobre a terra! Como
 soberbo o teu dominio!... Quantas dres no tens tu mitigado com a
proteco do teu magico affecto!... Para quantos infortunios no tens sido
o anjo mensageiro, enviado pelo Creador  humanidade!... E haver ainda
alguem, to estolidamente egoista, que pretenda negar o teu poder?!...

Homem, quem quer que tu sejas, dize-me--que s tu perante as lagrimas de
uma mulher?... oh!... mesquinha e louca creatura!... quo ephemera  a a
tua natureza!... gro de areia na vastido do oceano!...

Mulher! Eu respeito as tuas dres, bemdigo as tuas
lagrimas!...

Porm, vai longa a digresso. Voltemos ao fio da nossa historia.

Arthur viera, pois, assentar a sua residencia no Porto, definitivamente.
Ali comprou uma linda habitao, ao cimo da rua da Alegria, onde se
conservou durante um anno, approximadamente, n'um remanso de paz e socego
de espirito, que ameaava ser eterno.

No aconteceu, porm, assim. As nuvens iam-se-lhe amontoando gradualmente
por sobre o anil do seu horisonte. A procella estava imminente; era
terrivel o abysmo!

Acompanhemos o drama.

Arthur, apenas estabelecida a sua morada, e dispostas convenientemente as
demais coisas, concernentes a uma boa administrao, comeou a embriagar-se
de tal modo n'aquelles effluvios de amor, que brotavam espontaneos do seio
de sua adorada esposa, que se julgou prestes a succumbir de felicidade e
bem-estar.

A ventura em demasia conduz-nos a maior parte das vezes a uma dolorosa
prostrao e fleugmatica indifferena por tudo o que no fr o objecto das
nossas vistas apaixonadas e infantis.

Foi exactamente o que succedeu ao afortunado(?) mancebo. Mathilde tornara-o
flexivel a ponto de o converter n'um instrumento pueril de todos os seus
caprichos e insaciaveis desejos.

Os bailes multiplicavam-se; os jantares no tinham limites. Emfim, por
aquelle andar, tudo tendia, sem remedio, a uma perdio infernal e
miseravel corrupo. E a par d'isto tudo, como succede a maior parte das
vezes, a reputao de Mathilde corria j empeonhada e perdida...

O joven provinciano parecera no ter primado demasiadamente na escolha dos
seus amigos. Por entre um ou outro corao sincero e bom, d'aquelles que
frequentavam a sua casa, surgiram tambem muitas almas corrompidas e
devassas. Entre estas, notra-se particularmente um _flaneur_ de bom tom, a
quem Arthur dedicra sempre, desde o principio, uma particular predileco.
Chamava-se elle Roberto Guimares, se bem me recordo.

Roberto Guimares era um d'estes elegantes da boa sociedade, a quem de
resto pareciam sobejar dotes de espirito e faculdades inventivas para se
fazer amar por qualquer mulher, egualmente formosa e bella. Trajava pelo
ultimo figurino de Paris: o pescoo, vexado em enorme collarinho, que devia
medir um palmo, aproximadamente; as pernas enfronhadas em apertada cala,
que ameaava desconjuntar-se a cada movimento; o p, encaixado n'uma bota
de lustroso verniz, obrigando-o a andar em passo de dana por causa dos
callos que o molestavam; a luzente cabea, sepultada em fino chapu, cuja
altura no excedia tres pollegadas. Era sua inseparavel uma _badine_, em
que pegava com o primor do fino janota; frequentava o caf _Marrare_, onde
ia discutir a politica do dia.

Com taes predicados, Roberto era acolhido em todos os sales com inaudita
anciedade e frenesi espontaneo; em todos elles figurava sempre na primeira
plana, prodigalisando com perspicacia nada vulgar os preciosos dotes da sua
atilada imaginao e acrisolado saber.

E, digamol-o de passagem, Roberto era uma alma grande e difficil de
encontrar entre os homens. Emquanto tivesse dinheiro, no havia ninguem
pobre ao p de si: todos folgavam com a sua alegria.

Amava do mesmo modo todas as mulheres, sem comtudo ter paixo a nenhuma
d'ellas. Para elle, a mulher no passava de um objecto, como qualquer
outro, que o deleitava simplesmente durante duas ou tres horas por dia, um
incentivo para melhor passar o tempo, e mais se rir com alguns amigos
intimos entre duas botijas de _cognac_ e appetitoso fiambre.

Com o contacto da sociedade tornara-se cynico. A seus olhos a familia, a
religio, a patria, a sociedade no eram mais que meras phantasmagorias--um
espectro vil e hediondo!

No acatava ninguem, nem mesmo as cousas mais sagradas d'este mundo. Era
implacavel nos seus juizos.

O boato circulava j nas ruas mais frequentadas da cidade. Aos olhos da
sociedade Mathilde escorregara subitamente do sanctuario da moralidade no
esterquilinio do vicio e do crime; j no havia valer-lhe.

Choveram, ento, cartas anonymas, sem peso nem medida,--o meio mais torpe e
tacanho de que se servem algumas pessoas, estribadas impunemente numa
amizade insensata e v, para acarretarem o desgosto e a perturbao ao seio
de uma familia, muitas vezes innocente!

Arthur, que a principio no fizera caso de taes bagatellas, intimamente
convencido da innocencia de sua esposa,--concluiu finalmente por encarar a
sua vida pelo lado peior e mais perverso.

D'ahi em diante no perdeu a expectativa, simulando, comtudo, a maior
tranquillidade, e plena confiana em sua mulher.

Um dia levantara-se pelas seis horas da manh, e, arranjada que foi a sua
mala, disse elle a sua mulher que se ausentava por tres dias para fra da
cidade: foi a primeira vez que tal succedeu... Mathilde, algum tanto
assustada com to inesperada resoluo, no pde, todavia, attingir qual o
fim d'esta peripecia, que ella estava longe de conceber.

Roberto, aproveitando-se da ausencia do seu amigo Arthur, fra
immediatamente habitar para casa da sua querida amante, a fim de lhe fazer
companhia, ao menos durante o apartamento de seu esposo...

Uma noite estavam elles inebriados em mutuo abrasamento, quando,
inopinadamente, sentiram abrir-se a porta, de golpe, e entrar por ella o
moo provinciano, d'uma pallidez sepulchral e com a fronte inundada d'um
suor frio, que lhe devorava a triste existencia. Sustinha um _rewolver_ na
mo direita, que lhe fra impossivel desfechar: tal era a sua situao!

Mathilde cara desfallecida e exangue. Roberto, aterrorisado, recuou dois
passos; depois investiu contra o inimigo, a quem tomou por um brao, e
arrancou d'uma especie de torpor em que jazia.

--Medir-nos-hemos no mesmo campo,--vociferou Roberto, como que allucinado e
simulando gestos medonhos.

Arthur interrompeu-o por algum tempo, olhando para elle fitamente e
exprimindo, talvez, a sua profunda compaixo pelo miseravel que via diante
de si.

Em seguida Roberto proseguiu:

--manh, s 4 horas da manh, na praa da Boa-Vista: escolher as armas e
padrinhos, conforme lhe convier: de resto, estou s suas ordens.

Aps esta fatal allocuo, Roberto sau tranquillamente d'aquella casa.

Arthur, apenas recuperados os sentidos, retirou-se egualmente pacifico,
como se tivesse assistido a um magnifico espectaculo.

O certo  que Mathilde, quando voltou a si, j no viu mais ninguem no
quarto, afora uma velha criada, que velava por ella solicitamente.

No dia immediato,  hora convencionada, Roberto apresentou-se
destemidamente na praa da Boa-Vista, aguardando o seu adversario, com quem
esperava bater-se n'um duello de morte.

Arthur, porem, no appareceu ali, como era para desejar. Tambem ninguem
mais soube do desventurado mancebo. Diziam uns que elle tinha embarcado
para Inglaterra, onde se fra reunir a seu irmo, muito amigo, que
negociava em vinhos n'aquelle paiz: outros affirmavam que vivia occulto
n'um logar proximo de Lisboa, afim de nunca mais ser visto, nem to pouco
tornar a fallar com sua esposa depravada e falsa.

Mais adiante veremos o que  feito d'elle.


CAPITULO IV

    Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe;
    Qui sait sous quel fardeau la pauvre me succombe?...

         V. HUGO.

Cau o anjo bom, ficou o anjo mau!

J no havia valer-lhe,  triste victima. A quda foi tanto mais fatal,
quanto mais audacioso tinha sido o vo a que loucamente se arrojara.

Dentro de pouco tempo, Mathilde ganhara o desprezo da sociedade. Seu pae
havia succumbido a to dolorosa crise. Arthur retirara comsigo a sua
proteco e o seu dinheiro.

No meio do esplendor e louanias d'este mundo tudo nos sorri prospero e
seductor. No faltam amigos; multiplicam-se os parentes. Vem depois o
phantasma da tristeza, o espectro da desventura, e a victima, odiada por
todos,  beira do abysmo, ter, apenas, a Providencia por unico e
derradeiro recurso.

Nada mais verdadeiro.  assim a nossa sociedade: ataviada de galas no
exterior, e contaminada de podrido no intimo.

Por algum tempo, Roberto continuou ainda a dispensar os seus disvelos e
favores quella desgraada mulher; preparou-lhe uma pequena habitao, a
alguma distancia da cidade, e l conseguiu encarceral-a, durante algum
tempo.

Commettido o crime, o primeiro cuidado do malfeitor  occultal-o, sem
demora, aos olhos dos seus similhantes. As trevas fogem da luz; o sol odeia
a noite.

Isto, porm, foi de pouca dura: com a saciedade veiu o odio, com o odio o
abandono.

Mathilde ficou s no mundo, ssinha, com as suas lagrimas, com a sua dr,
com a sua miseria! E que poderia ella fazer, coitadinha!... Depois de ter
empenhado e vendido tudo o que possuia de mais valor, vexada de si mesmo,
com a febre do desespero, amaldioou o sol que a aquecia, e foi procurar na
sombra o refrigerio  sua alma attribulada.

A sociedade cavou-lhe o sepulchro, e soltou uma gargalhada estulta e
perfida! O homem covarde esmagou o verme impotente, e tripudiou incolume
sobre todos os sentimentos e qualidades moraes! A materia venceu o
espirito! a fora bruta subjugou o movimento!...

Hontem censurmos em Malhilde a mulher social; hoje podemos e devemos
justifical-a, sem que n'isto sejamos contradictorios.

E, de feito, o que era aquella mulher, seno uma d'essas desgraadas, a
quem a sociedade havia enxovalhado com a lama do desprezo, sujeitando-a a
mercadejar o melhor dote que Deus lhe concedera--a honra?! Era uma d'essas
mulheres estouvadas, no sentir de muitos, que, zombando de tudo, tambem
ousam profanar com mos sacrilegas o sanctuario do pudor e da virgindade,
contribuindo assim para a sua inteira ruina e completa perdio!

E no entretanto, esses so os homens _bons_, que mais tarde fingem no
reconhecer a victima de seus nefastos interesses, lanando o escarro do
desdem na sua passagem. So estes os homens _bons_, que, longe de alliviar
o pobre com uma esmola, filha de um nobre corao, pelo contrario, tropeam
impunemente nas suas chagas, ennodoando-as com a baba asquerosa do seu
orgulho!...

Assim decorreram alguns annos. Mathilde, a mulher perdida, l foi encontrar
n'um prostibulo a expiao severa e ardua d'uma falta injusta, embora
toleravel. O holocausto comeara ento; devia de ser bem negro o seu fim.

A aridez do deserto, depressa a superou, a triste romeira. As difficuldades
foram-se-lhe tornando habituaes de dia para dia. O seu halito _alcoolisado_
captivara a atteno de muita gente.

O corpo, j de si pestilente, transformara-se repentinamente em podrido
nauseante. Ao longe, pairava o corvo, immundo e contente, por sobre as
exhalaes infectas d'aquelle charco putrido, aguardando occasio opportuna
para cevar ali a sua espantosa avidez.

E assim aconteceu, realmente. Um dia, atravessava indifferentemente as ruas
da cidade um camponez, levando um caixo s costas. Dirigia-se para o
_Prado do Repouso_! L o lanaram para uma cova, e com elle os restos
mortaes d'uma mulher desditosa.

A terra occultava uma infeliz no seu seio obscuro; os homens acolhiam no
seu gremio um leproso vil e incuravel!...

Nem uma lagrima! nem um suspiro! nem um ai compassivo!...

Roberto, ao saber do funebre passamento de Mathilde, neste mundo,
limitou-se muito ingenuamente a vomitar uma bafurada de fumo de seu enorme
cachimbo, acompanhada de sinistra gargalhada!

E melhor foi assim, talvez!...

A mulher ludibriada havia desapparecido para sempre de sobre a superficie
da terra! Era tempo de procurar outra victima!...

Rejubilae, satrapas da corrupo e da licena! erguei as cabeas, parasitas
ignobeis!...

Vinte, trinta ou quarenta mortes, que importa tudo isso, uma vez que ns
vivamos contentes e satisfeitos?!...

Arda muito embora o universo! De que vale essa triste ninharia, se as
chammas mesmo de leve nos no tocarem?!...

Neros do egoismo! preparae a vossa argilla immunda! A hora soar uma vez, e
os vossos cadaveres, por seu turno, agitar-se-ho ensanguentados ao longo
das vossas miserias e villanias!...

No entretanto, em quanto as coisas assim se passavam, Arthur regressara
finalmente  patria, aps uma longa viagem, que havia emprehendido 
Inglaterra, com o intuito provavel de recuperar no estrangeiro a ventura,
que lhe fra impossivel encontrar no meio d'aquelles que mais amava e
queria. Quem o visse, depois da sua chegada, passear as ruas do Porto n'uma
perfeita serenidade de espirito e jovialidade quasi espontanea, que to
peculiares se tornavam ao seu caracter indifferente e
generoso--reputal-o-hia,  primeira vista, um homem feliz, sem receio
de errar.

As grandes commoes variam de individuo, segundo a diversidade de
circumstancias que as podem originar. A desgraa de Mathilde convertra-se
n'um manancial de felicidade para Arthur. O homem, aviltado por um amor
insensato, reconheceu, alfim, a sua dignidade, e ergueu a cabea, cheia de
luz e esplendor. O holocausto de sua mulher resgatra-o para a vida e para
o mundo.

Antes assim!

Aps esta grande evoluo do espirito humano, a transformao operra-se
rapida e completa. Apagaram-se odios ruins; deslembraram-se velhos
rancores.

O esquecimento da victima e o cynismo tornavam dois homens ditosos sobre a
terra, em quanto o co acolhia, talvez, no seu seio uma peccadora
arrependida, e regenerada pelo amor e pela virtude!

E de facto, Mathilde, quando se viu assim ludibriada, e afastada da
sociedade, chorou muitas lagrimas de arrependimento sincero, derramou nas
trevas muita perola occulta, tragou at s fezes o absintho d'aquella taa
denegrida e empestada pela sociedade, a que alguns muito erradamente
chamavam vida. Vida! para aquelles que a no conheceram outr'ora opulenta e
a trasbordar de pura seiva vital!... Vida, sim, mil vezes terrivel e
amargurada!...

Antes o inferno, a solido, o abandono, a inercia, do que o sacrificio de
to ignobil vegetao!...

Agora,  tempo de terminarmos a nossa historia. Fica ao arbitrio de cada
um, o ajuizar da bondade ou maldade da nossa heroina. Nem isso nos causar
assombro. Para ns, Mathilde symbolisa uma perfeita imagem da mulher
actual; nem mais nem menos.

Arthur foi, pois, despejadamente abraar o seu amigo Roberto Guimares, que
de muito bom grado o acolheu em sua casa, cheio de gaudio ingente, e
espontaneidade feliz. Congraaram-se as duas velleidades; o veneno
amalgamou-se com a peonha n'um grosseiro deleterio; o piar do mocho
agoureiro contrastou singularmente com a avidez do abutre esfaimado!

Fazia-se mister uma occasio opportuna, a fim de cada um poder expandir
convenientemente os seus sentimentos.

 o que vamos ver.

O moo provinciano, j a este tempo purificado no cadinho d'uma civilisao
depravada e falsa, foi readquirindo as suas antigas relaes. Os seus
sales continuaram a estar patentes a todos os velhos amigos e parentes. O
seu nome tornara-se sobejamente conhecido no paiz. A sua fortuna augmentara
consideravelmente com a ida  Inglaterra. No lhe faltavam paes, que o
desejassem ver bem collocado no seio de suas familias.

E o certo  que as circumstancias se combinaram de tal modo, que, dentro de
pouco tempo, Arthur de Campos fra feito baro de... E era justo, com
effeito; tinha dinheiro: ao menos podia contribuir para a prosperidade do
paiz.

A riqueza rehabilitou o homem covarde, perante as cataractas d'uma
sociedade meia em dissoluo.  assim que vemos muitas vezes a virtude
supplantada, e o egoismo triumphante e victorioso!...

Tudo isto, porm, era pouco ainda, ante o glorioso porvir que lhe estava
reservado. O baronato metamorphoseara o nosso provinciano a ponto de lhe
incutir no animo um acervo de sentimentos depravados e baixos, de uma certa
aristocracia ignara, que por ahi tropea a cada canto.

Feito baro, o seu primeiro cuidado foi escolher uma mulher da alta
sociedade, que lhe lisongeasse devras o paladar, j de si delicado e
corrupto. Para isso procurou elle unir-se em segundas nupcias com a filha
d'um acreditado visconde, que ainda hoje reside em Lisboa.

De resto, nada mais  notorio, a no ser que o sr. baro de... emprehendeu,
ainda ha pouco, uma nova viagem ao estrangeiro, em companhia de sua amavel
esposa, com quem dizem gosar perfeita felicidade e verdadeira unio.

A reparao, embora tardia, no foi intempestiva. Possa, ao menos, a
Providencia prolongar-lhes os dias da sua ventura e do seu amor!...

Presentemente, de toda a familia do conselheiro F. existe apenas Maria,
irm de Mathilde, que ns encontrmos no principio d'esta narrativa. Vive
do seu trabalho e das suas lagrimas, porque, segundo a tradio mais
geralmente seguida, a sua reputao tambem no corre isenta de grandes
manchas.

Emfim,  desculpavel o seu erro: _quando a necessidade entra pela porta, a
virtude sae pela janella._

Consta que Roberto lhe estabelecera uma mesada nada inferior, a fim de lhe
minorar as suas penas, e restabelecer, talvez, a tranquillidade da sua
consciencia!

Emquanto a este mal-intencionado cavalheiro, nada temos a accrescentar,
seno que contina a ser o mesmo homem, e sel-o-ha sempre!...

_Ce qui a t, sera_,--dizia Eugenio Huzar....

Agora, leitor amigo,  occasio de me dirigir a ti. Desculpa o auctor
d'estes _Cambiantes_, e contina sempre a ver n'elles uma imagem fiel da
_comedia humana_!




*ESTRELLAS E NUVENS*




ESTRELLAS E NUVENS


Vou contar um romancinho de amores,--amores singelos, amores de aldeia.

 to simples a nossa historia, como a verdade que encerra; to natural,
como um sorriso de gentil criana; to candida, como a pombinha do deserto.

Ouvi-a, por uma noite de julho, sentado  margem de saudoso regato.

Foi uma hora solemne: um momento augusto e santo!

A brisa, de envolta com o perfume da noite, foi segredal-a s florinhas do
vergel, e estas enviaram-na ao co.

Na terra repercutiu-se o cro dos anjos, lamentando a desditosa sorte de
seus adorados irmos.

Por um momento, eclipsou-se o brilho das estrellas; deixou de reflectir-se
a lua no seu espelho de prata.

As avesinhas no tiveram gorgeios; cessou a virao no seu curso veloz.

Silencio sepulchral! sublime idyllio! magestoso quadro!

Falta-nos o pincel de Corregio; no possuimos os thesouros de Petrarcha,
nem to pouco a eloquencia de Demosthenes.

E  pena, na verdade!...

Cada apostolo tem a sua misso a cumprir sobre a terra.

Sublimar a desventura, prantear a miseria do mundo:--nada mais grandioso, e
to sinceramente edificante!

 uma evangelisao despretenciosa e nobre.

Choremos, coraes ternos; choremos e choremos muito; no tenhamos pejo de
assim fazer.

Levantemos os olhos ao co; e, com a fronte descoberta, ouamos a funebre
narrativa de dois mancebos desventurados!...

     *     *     *     *     *

Quem no conheceu Maria, a flor das lavadeiras?

Quem no repararia n'aquelle formoso cherubim, que, ao sol posto, ia todo
engrinaldado de rosas e lyrios, encher o seu cantarosinho de barro  fonte
da terra?...

Oh!... de certo ninguem poderia esquecer to promptamente a linda morena, o
anjo bemdito?!...

No sabe, leitor amigo, no se lembra j d'aquella casinha terrea,
silenciosamente circumdada de festes e madre-silvas, que existe em Cintra,
l para as bandas do Castello?...

Pois olhe, ahi mesmo nasceu aquella rolinha; l, coitadinha! desferiu aos
echos a innocente lenda de seus amores; e, por fim, l agonisou tambem, sem
que ninguem dsse por ella, nem to pouco imaginasse soccorrel-a.

Pobre desgraada!...

E no saber eu mais cedo a sua historia!...

     *     *     *     *     *

O prazer, como tudo o que  ephemero, tem seus encantos: as lagrimas tambem
os tm.

Maria, mui prasenteira e jovial, vira um dia Gregorio, que a esperava,
junto da fonte, sempre  mesma hora: de subito, annuviou-se aquelle rosto,
profundamente celestial e gentil; contraram-se-lhe os musculos da face.

O amor havia penetrado em sua alma!

Desde esse momento nunca mais se tornou a divisar um raio de esperana e
consolao n'aquelle horisonte, outr'ora to limpido e sereno.

E Gregorio, o pobre lavrador, l se foi triste e pensativo, caminho da
aldeia, sem outra ida que no fosse Maria, sem outro scismar que no fosse
a felicidade.

E tinha razo!...

Era joven! Tinha aspiraes!...

     *     *     *     *     *

Assim decorreram dois annos,--dois annos, cheios de muita esperana, e
entrecortados por afflictivos suspiros!...

Gregorio era to ambicioso!...

O amor  muitas vezes caprichoso e louco!...

E quem o havia de imaginar?!...

Gregorio queria ser rico; queria ver a sua amada, reclinada n'um throno de
esmeraldas!...

Entre as flores queria vel-a rainha! entre os anjos seraphim! entre as
mulheres magestade!

E com esta ida, e com o demonio da ambio, l se foi elle a longes
terras, em cata de grandes haveres!

E a pobre Maria ficou s, ssinha com as suas lagrimas!...

Ao menos... tinha esperana!...

     *     *     *     *     *

Ai! como  triste e pavorosa a ausencia d'aquelles que amamos!...

Pobre Maria!...

Que saudades se lhe no avivaram na mente enlouquecida!...

Gregorio tinha partido, havia dez annos, sem dar noticias suas!...

Teria naufragado o triste Gregorio?...

Porem no, no era possivel!

Maria queria tornal-o a vr junto de si.

Uma Virgem no abandona a supplica d'outra virgem!

Mas, apezar de tudo isso, a rosa a emmurchecendo a olhos vistos.

De dia para dia se desfolhava uma ptala, seccava uma folha, at que, por
fim, cau de todo a haste, vergada apenas pela branda virao do
crepusculo!

O resto... levou-o o vento!...

     *     *     *     *     *

Eram passados tres mezes.

Quem observasse attentamente aquella pousada, onde estivera aninhada, por
tantos annos, a terna andorinha, deveria reconhecel-a desguarnecida, e
quasi em ruinas.

Um vulto, trajado de preto, percorria aquelles restos sem cessar.

Era Gregorio, o pobre lavrador, que havia voltado rico, com o unico fim de
tornar Maria venturosa sobre a terra.

Chegara, porem, tarde o mann do Senhor!...

Um mez, mais tarde, ao lado do tumulo de Maria existia outro, egualmente
modesto e lugubre.

Gregorio, tomado de incuravel loucura, depois de haver arrojado toda a sua
fortuna a um abysmo, por elle cavado, para que ninguem mais a podesse
descobrir e gosar, foi por si mesmo procurar n'aquelle precipicio uma morte
desastrosa e terrivel!

O mais... s Deos o sabe!...




* BEIRA-MAR*





 BEIRA-MAR


Por uma tarde calmosa de estio passeava eu distrahidamente  beira-mar,
sorvendo o doce aroma, que emanava das auras celeres e vaporosas, compondo
milhares de prismas seductores e phantasticos, ao som lgubre das vagas
altisonantes, que se escoavam languidas por sobre a fulva, resplandecente
areia,--quando, inopinadamente, vi surgir do seio do oceano um longo
objecto, informe e opaco. Aproximei-me da superficie do mar, esperando que
este, no seu incessante impeto, o arrojasse  praia. Effectivamente, dentro
de pouco tempo, examinava nas minhas mos uma enorme garrafa, de amplo
bjo, que, a todos os respeitos, me parecera ter sido um echo disperso de
algum naufragio recente. E no me enganei, com effeito. Abri-a, com todo o
cuidado, e l encontrei o curioso manuscripto, que vou hoje reproduzir
textualmente, por o julgar digno d'isso.

 a vida d'um homem audacioso, encerrada no verbo da ambio, e
sanctificada no prestigio da gloria!...

     *     *     *     *     *

 possivel, minha me, que tenha esquecido o seu querido Ernesto? Dar-se-ha
o caso, por ventura, que haja apagado na sua memoria a imagem da loura
criancinha, que a fazia sorrir to docemente n'aquellas horas de profunda
tristeza, quando, cheia de virginal ternura e temeroso receio, pranteava na
solido a morte de meu chorado, bondoso pae?...

Oh!... no, no  possivel, mil vezes no!...

Pois bem, se assim , se ainda vives, meiga viso da minha alma, ouve pela
derradeira vez as palavras de teu desditoso filho, que de certo ter
deixado de existir ao tempo em que receberes estas linhas, e sanctifica a
sua desventura, n'este mundo, com a prece angustiada do teu corao
atribulado.

Nada mais te peo, nem to pouco ambiciono!

Desfolhou-se a ultima, sentida saudade da minha existencia: acolhe-a em teu
seio; aquece-a muitas e repetidas vezes junto de teu peito, e acceita na
pobre florinha emmurchecida o triste Evangelho da minha vida
desventurada!...


I

Ambio!  um sonho, uma phantasia, um enthusiasmo, uma centelha divina!...

Sonho de gloria, phantasia. povoada de innumeras chimeras, enthusiasmo
heroico e magnanimo, centelha do co, que prende os homens s grandes
emprezas, e arrojados commettimentos, arco-ris deslumbrante, no mundo das
idas e dos factos, tudo emfim!...

Ambio e gloria so os dois elos extremos d'essa cadeia indissoluvel
chamada humanidade.

A mocidade  uma ambio sem limites.

Ter ambio  aspirar: um aspirar de continuo para a luz, para a vida, para
o amor, para a virtude!...

Era dominado por estes e outros pensamentos, que eu muitas vezes sentia o
vacuo da minha acanhada existencia; espraiava ento, com avidez
incalculavel, meus olhos inconstantes por sobre uma extensa clareira, que
orlava um vastissimo pinhal, e l, muito ao longe, por entre o verde negro
da sua espessa ramada, descobria o quer que era de vago e reflexivo, que me
seduzia instinctivamente.

Era o meu sonho quotidiano!

E tantas vezes se repetiram estas illuses, tornou-se to frequente este
somnambulismo das minhas faculdades, que prestes reconheci a necessidade de
obedecer-lhe cega e fatalmente.

Cortar o espao e o tempo,--voar, voar e voar muito!--tal era a ida, que
me dominava!

Em meio, porem, d'este magnetismo attrahente, vertiginoso, indizivel,
languido, vaporoso, sentia eu um fio dourado, que me prendia  terra, um
echo longinquo e salutar, que tentava acordar-me  realidade do mundo.

Era a doce voz de Therezinha, que me chamava,--era o anjo do amor, que
estendia sobre mim suas candidas e mirificas azas de velludo.

Indescriptivel colliso! fadado momento!

Sem embargo, a minha aurora resplandecia-me no horisonte do futuro;
acenava-me de longe a estrella do Senhor. Era necessario partir.


II

Eu amava a liberdade; precisava de escolher um paiz livre!

A republica era o meu ideal!

A ave, que se agita nos ares,  livre em face do Creador Omnipotente; o
homem pode e deve ser livre perante a lei,--imagem da justia divina,
lanada ao meio das sociedades actualmente existentes.

A existencia  a liberdade; o tumulo  o despotismo!

Livre  a flor, quando envia aos cos o aroma de suas douradas ptalas; a
brisa  livre, quando beija o lyrio;  livre o passarinho, quando em haste
vergada festeja o doce idyllio do crepusculo;  livre a humanidade, quando
bafejada pelo sopro divinal das grandes idas e sublimes principios!...

Por entre todas as naes do universo, a America sorria-me grandemente
ditosa. Washington era para mim um planeta, aureolado de mystica luz;
Franklin o seu majestoso satellite.

Um dia, quando menos o julgara, estava a milhes de passos da minha terra
natal.

Singrei vastos mares.

E quantas vezes, minha me, veiu o teu doce anhelo contornar uma
consoladora esperana em meu espirito perturbado! Oh! e quantas vezes,
mimosa Therezinha, me veiu a tua imagem afagar o meu scismador enlevo! E
como tu eras bella, ento!...

Queres saber--nas horas da bonana, quando o nosso barco deslisava muito de
mansinho, ao de leve, por sobre o crystal sempre agitado do oceano, em
guisa de quem receia ser ouvido pelos milhares de espectadores, que se nos
antolhavam n'aquelles raros momentos de inebriantes arrobos e mysticas
harmonias,--eu imaginava ver-te entre nuvens, radiante de fulgor ingente,
cingida a fronte alabastrina de rosas purpurinas, lyrios prateados, meigas
violetas, opulentas camelias!

Depois vinha o desfazer das chimeras, e eu, a trasbordar de enthusiasmo,
dizia de mim para mim:--Ao menos, se um dia alcanar o que desejo, verei
para sempre minha pobre me feliz, ao p de mim, e Therezinha ser o meu
anjo custodio!

E vs tu, minha me, todos estes quadros se me desenhavam n'esta imaginao
incendiada, quando ouvi subitamente a maruja no tombadilho levantar um
brado compassivo e clamorosas imprecaes.

Agitei-me violentamente, e corri ao logar do sinistro!


III

 medonho, causa horror uma tempestade sobre o alto mar!

O vento sibilava, agudo e frio, por entre as enxarcias do navio. A
embarcao rangia lugubremente no seu movimento vagoroso e desegual.

Era o mez de dezembro, aspero, severo, rigoroso!

Os membros confrangiam-se-nos, ao encarar to luctuoso espectaculo;
vacillava a imaginao, e a f entibiava-se-nos poderosamente.

--Lastro ao mar!--gritava o capito n'um tom rouquenho e cavernoso.

--Amaina, amaina essa escota!

E todos ns trabalhavamos com phrenesi espontaneo, e celeridade inaudita. A
tripulao, quasi toda nua, era incansavel no seu incessante labutar. No
se ouvia uma queixa, um rudo sequer. Todos denunciavam o mais vigoroso
esforo, a mais acrisolada virtude.

Apenas existia ali uma mulher com dois filhinhos achegados ao peito, que
soltava de quando em quando um estridente e doloroso gemido, at que por
fim cahiu de todo desfallecida. Era tamanho o perigo, que nenhum de ns
ousou soccorrel-a em to espinhosa attitude.

Pobre me! coitadinha!...

O vendaval abysmara-nos n'um precipicio inevitavel!

Todas as nossas diligencias sahiram frustradas; em vo foram as nossas
oraes!

Dois escaleres desceram ao mar; dividiu-se a gente do navio entre elles de
tal modo, que cada um comportasse doze pessoas.

Depressa nos separmos uns dos outros, impellidos pelo vento, pela agua,
pelo mar, pela fora, emfim!...

Depois de muilo remar, muito luctar, muito soffrer, extenuados, exhaustos,
sem vigor, sem alento, abordmos, finalmente, a uma ilha completamente
desconhecida, que existe l para as bandas do norte da America. Para ali
nos rojmos ns sobre a fria areia, onde adormecemos poucos momentos
depois: tal era a nossa debilidade!

No dia immediato, de seis companheiros, que haviamos escapado s garras
d'aquelle inquebrantavel tigre--chamado oceano,--apenas appareci eu, preso
de ps e mos, e rodeado d'um grande numero de selvagens, todos armados de
settas e outras armas de egual quilate.

N'aquelle momento, receei muito pela vida; julgara-me entre gente
anthropophaga!


IV

Como a espuma do mar, impellida de praia em praia, assim se desvaneceram as
minhas illuses ephemeras!

Reivindiquei para mim os direitos de homem livre, e tive a felicidade de
ser bem acolhido no meio d'aquella gente inculta e rudemente educada. Eu
era o monarcha d'aquellas solides; amado, respeitado, e, mais que tudo,
sinceramente incensado pelo thuribulo augusto dos mais atilados engenhos,
que ento nobilitavam aquellas ignotas paragens.

Um lampejo de felicidade, porem,  sempre acompanhado de atro penar e
funesto mal-estar. Em redor d'um planeta faustuoso gravitam myriades de
assoladoras estrellas.

Erin era um portento de formosura indiana: olhar escandecente e fatal,
cinzelado por longa e avelludada pestana; o seu collo de perolas
occultava-se debaixo d'uma farta e sumptuosa madeixa, que a tornava
sobremodo angelica e donairosa; a cintura quasi se eclipsava, estreitada em
esplendente faixa de valioso tecido; o gracioso p, adelgaado por eburneas
sandalias, seria a inveja d'um cherubim. Dir-se-hia toda a opulencia do
oriente ali profusamente derramada. E, alm d'isto, animo varonil,
imaginao de fogo, effervescencia de sangue nas veias; at a vegetao
tropical parecera concentrar-se n'aquelle todo de luz e calor: a vida
borbulhava de continuo n'aquelle pobre corao.

O vime fra to fragil, que no podra ceder  violencia do tufo!

Erin amava-me com ardor. Era inextinguivel o incendio que lhe inundava a
fronte, j de si escaldada pelos impetos d'uma paixo vulcanica.

A minha posio tornara-me sobretudo ridiculo. Nem sequer me occorreu um
leve palliativo para attenuar aquelle manancial perenne de bons sentimentos
e lisongeiro pensar.

Acima de tudo isto, porem, conservava ainda na memoria a imagem de
Therezinha, os meus juramentos contrahidos, os meus protestos no porvir.
Mentir assim  minha consciencia, doestar o meu pundonor, com tamanha
aleivosia e escarneo da minha propria dignidade,--isso seria, alm de tudo,
um sacrilegio inaudito.

Conservei-me inabalavel  sinceridade das suas supplicas, aos seus rogos,
s suas lagrimas: tudo desprezei. No havia demover-me de semelhante
proposito.


V

No entretanto a pyra fumegava j em larga extenso, e a hydra do ciume no
tardaria de certo a levantar as suas cem igneas cabeas, para me esmagar e
opprimir.

Dois annos de negro scismar e indifferente convivencia no foram ainda
sufficientes para cicatrizar as ulceras d'aquelle extenuado corpinho e
abenoado thesouro.

Erin tinha esperana de subjugar de vez o inimigo: melindrosa era a sua
tarefa, e... quem sabe?... talvez inutil.

Aps muitos e infructuosos assaltos, o baluarte conservara-se inexpugnavel.
Tornara-se mister um derradeiro e definitivo recurso.

Um dia estava eu sinceramente absorto na contemplao d'uma agigantada
palmeira, que se erguia altiva junto do meu silencioso casebre, procurando
lr, em cada uma d'aquellas espalmadas, longas folhas, o verbo omnipotente
do Creador, e de seus esplendentes attributos,--quando vi a doce pallidez
de Erin, estranhamente retratada na reverberao que produzia o sol, por
entre as suas ondulaes e constante sombrear. As contraces do rosto, o
seu andar morbido e inconstante, o pestanejar de continuo e violento, a
resoluo impetuosa de seus braos,--tudo prenunciava tremenda catastrophe.

Entrou, rojou-se tragicamente a meus ps, e rompeu nas seguintes dolorosas
imprecaes:

--Falle, diga-me agora aqui, porque me no ama? qual a razo por que me
despreza? Ah! sim, comprehendo: sou pobre de mais, talvez, para saciar a
sua medonha ambio; repugnam-lhe as minhas aces, no  assim? causa-lhe
tedio olhar para mim! Oh! Coitado! Vai cessar o seu tormento; descance,
jmais tentarei embargar-lhe os passos; termina, emfim, o meu aviltamento!
A mulher vilipendiada vai desapparecer para sempre d'este mundo, em face de
seu despotico amante! Derradeira gloria d'uma desgraada!

Neste ponto Erin, n'um acto de inabalavel resoluo, descobriu seu vido
seio com a feroz meno de n'elle cravar um agudo punhal, que conservava
energicamente apertado em sua pequenina mo.

Cresceu de ponto o meu denodo, que at ali havia permanecido impassivel s
suas palavras e lagrimas represas. Consegui arrancar-lhe o punhal das mos
e abrandar-lhe a sanha, que a devorava. Ella, vendo assim frustrados os
seus esforos, cahiu em dolorosa prostrao, sem dar accrdo de si.

VI

A mulher, que, esteiada na propria natureza, no pode captivar, recorre,
por ultimo, ao artificio, como meio mais proprio e decoroso de attingir o
seu fim.

Erin no podera abafar as luctas intimas do espirito. Devia de ser bem
penoso o seu tormento! Ver esphacelar-se uma a uma as fibras mais intimas
do corao; sentir o gottejar acerbo do glo da descrena e da iniquidade;
viver tanto tempo atrelada ao pelourinho da ignominia, sem outro apgo s
cousas d'este mundo, que no fosse um amor honesto, virtuoso, sublime,...
contemplar, por longos annos, a lividez do proprio cadaver, arquejante,
nervosa, moribunda!--que triste e grandioso luctar! que doloroso
soffrimento!...

Como todas as mulheres, quando no vem o seu amor egualmente
correspondido, a joven indiana tocou o auge do desespero, da raiva, do
odio, da vingana!

Estava preparada a victima; restava apenas o sacrificio!

No meio da minha virtuosa indifferena, mal julgara eu a dura sorte, que me
estava reservada no futuro.

Erin aproveitou logo a occasio, que se lhe deparou mais opportuna, a fim
de melhor e mais satisfactoriamente pr em pratica um trama cavillosamente
urdido e astuciosamente antecipado.

Sem dar treguas  sanha, que a dominava, entrou uma noite em minha casa,
offegante, colrica, e nimiamente impaciente. Procurou mais uma vez
convencer-me do seu amor, almejou ferir-me com o punhal da sua tyrannia, e
tudo foi baldado: por ultimo quiz ver se despertava em mim a sensualidade
pelos seus artificios, meneios e donairosos requebros, pela voluptuosidade
do seu olhar ardente e libidinoso, resumindo, em fim, n'uma palavra, por
tudo aquillo, de que uma mulher  capaz para excitar um amante
profundamente amortecido, e glacialmente cynico.

Assim, pois, reconhecida e evidenciada a inutilidade de seus esforos,
tomou ella uma derradeira deliberao, em nada somenos quellas j por si
anteriormente experimentadas. Com os cabellos desgrenhados, as faces
afogueadas em colrico desespero, em andrajos, quasi na, alucinada, doida,
perdida, deu um pulo para fra da porta, e comeou a uivar, como uma fera,
implorando soccorro, declarando-se deshonrada, para d'este modo provocar a
morte d'um innocente, occultando a fealdade do seu crime!


VII

Erin fra evidentemente feliz no seu audacioso plano. Indiciado no crime,
que foi geralmente acreditado, reuniram-se immediatamente os magnates da
terra para deliberarem em commum sobre qual fosse a pena, que me deveria
ser applicada.

Eu, encerrado na minha choupana, apenas sentia o borborinho d'aquella
multido selvagem, j de ha muito conglobada em redor da minha habitao,
com sinistro intento e feroz vozear.

Ao cabo de algumas horas fui manietado e cautelosamente conduzido a um
largo terreiro, onde costumavam suppliciar-se os inimigos, atando-os a um
vetusto tronco, que expressamente ali existia para esse fim, e
lanando-se-lhes depois as chammas aos corpos; as proprias cinzas eram
arremessadas ao rio.

Comprehendi, desde logo, todo o alcance da minha injusta condemnao, e
senti o gelido suor da campa a trespassar-me vagarosamente os membros do
corpo. As lagrimas escaldaram-me as faces crestadas pelo ardr da
indignao; o desalento surgia a meus olhos com toda a hediondez de suas
negras cres.

A Providencia, porem, houve por bem fazer-me a justia de que era
merecedor, enviando-me sagazmente o meu anjo custodio, o libertador das
minhas agonias e soffrimentos.

Poucos dias antes de to estranho successo, acontecera ter ancorado,
defronte d'aquella ilha, por falta de munies, um navio inglez, que se
destinava para os portos da America do Norte. O capito, homem corajoso e
profundamente temerario, sabendo, casualmente, que a minha proxima execuo
ia ter logar, no duvidou assaltar a ilhota, durante a noite, para me
livrar das mos dos meus detestaveis algozes.

Travou-se uma encarniada peleja. Houve muitas mortes, e ferimentos de
parte a parte. O capito alcanou a palma da victoria, no meio d'um
esplendido triumpho, e eu recuperei a minha liberdade, sendo levado para
bordo do navio.

No dia seguinte a embarcao levantou ferro; e ns, propiciados por fresca
virao, seguimos viagem para New-York.


VIII

O acaso, o destino ou a fatalidade, levaram-me, finalmente, ao paiz da
minha predileco. Aps longos annos de pacifico luctar e de evangelica
resignao, foi-me dado livre ingresso nas terras do Colombo. Julgara ter
attingido o zenith da felicidade e do bem-estar. Affigurou-se-me a entrada
no paraizo, com as suas mil venturas, e delicias sem conto. Tal era a
loucura, que me dominava!

As apparencias podem illudir o homem, por algum tempo; e feliz d'aquelle
que as puder conservar. A realidade  negra como a noite. O desfolhar das
illuses, o emmurchecer d'esse pequeno numero de florinhas solitarias, que,
raras vezes, vegetam em redor da nossa alma, marca para a humanidade a
crise mais tempestuosa e violenta,--o tremendo contraste entre a saudade e
a esperana,--o sorrir da mocidade e as convulses da velhice!

Suprema e eterna verdade!

O corao da juventude  um formoso, esplendido ninho, majestosamente
entretecido de mil variegadas cres, onde se acoitam as mais ternas
avesinhas do co. A senectude, por seu turno, apresenta esse ninho
desfiado, solto, disperso, e os passarinhos voando alegremente em cata de
mais inspiradoras paragens. O mancebo, vivificado pelos raios da aurora,
contempla o porvir, cheio de gaudio ingente; o velho, por entre as lagrimas
da sua edade, olha o passado e entristece-se lugubremente... A primavera
sorri-nos no bero infantil; o outomno vem, ainda mais, denegrir a algidez
tumular!

A minha vida agitava-se alternadamente entre estes dois plos distinctos e
independentes. Cheguei a New-York, radiante de bellas aspiraes e
fulgurantes idas. Procurei empregar-me honestamente: tudo consegui, sem
difficuldade. O meu genio voluvel, porem, impellia-me constantemente para
fra d'aquella esphera, onde o trabalho se remunerava tarde e mal.

Dentro de pouco tempo, agrilhoado por uma ambio sem limites, e, mais que
tudo, profundamente vulnerado pelo demonio do egoismo, tinha eu roubado o
meu senhor, fugindo logo, espavorido e temeroso, para uma selva distante,
onde procurei refugio entre uma quadrilha de bandidos, que, desde muito,
ali haviam assentado a sua tenda de pilhagem e de nocturno assassinato.


IX

Por muitos e longos annos durou a minha nefanda peregrinao n'aquelle
terrivel deserto, onde no penetrava sequer um raio do sol. Occultos,
durante o dia pela espessura do arvoredo,--aguardavamos tristemente o
silencio da noite para dar largas  nossa voracidade famelica. Ento, no
passava pessoa alguma, por aquellas solides tenebrosas, em quem no
procurassemos, desde logo, embeber a esponja corrosiva do veneno e da
maldio,--o cutello do algoz e do malvado.

Aviltante e funesta condio a minha! A principio o remorso levantava-se
irado contra tamanhas torpezas e monstruosas infamias. Mais tarde a minha
alma, j de si callejada no erro e no crime, nada mais quiz ouvir;
empallideceu terrivelmente nas trvas, e nunca at hoje tornou a guiar os
passos incertos da minha vida depravada.

Nada mais pungente e superiormente bestial do que locupletar-se um
individuo qualquer com o ouro roubado aos seus semelhantes. O trabalho
honesto nobilita o seu auctor. Procurar illicitamente um interesse, que nos
no pertence, isso, alm de ignominiosamente villo, toca ainda as balizas
da perfidia.--No ha necessidade que s de per si possa abonar
satisfactoriamente semelhante corrupo e baixeza d'animo!

A despeito de tudo isto, porm, no duvidei iniciar os dias da minha vida
social em to rude aprendizagem e degradante profisso. E bem cruel me foi
esse engano!

Dentro em poucos dias, do esterquilinio do vicio e da maldio havia eu
passado, rapida e insensivelmente, para o fundo de medonha enxovia. A
justia humana, no seu incessante vo, no despegara a vista do desgraado
cadaver, que, ainda no recondito de arida floresta, lampejava chispas de
fogo amedrontador.

E tudo foi bem assim!

Ao vr cerrar-se sobre mim a solitaria porta do carcere, que rangia
lugubremente nos seus enormes gonzos de ferro, senti um movimento
involuntario e repulsivo, e tive o pavor de quem v seu peito ferozmente
esmagado pelo duro p do inimigo victorioso!

Ento veiu a sacratissima imagem de minha me dulcificar-me o amargor da
desventura. Lembrei-me de Therezinha. Erin, a bella indiana, de quem nunca
mais tivera noticias, calou-me no espirito no sei que indefinivel
sentimento, que me fazia antever uma felicidade duradoura, se, por acaso,
no houvesse desprezado o seu immenso amor para comigo.


X

Ao penetrar na escurido do ergastulo julgara ter encontrado o meu
epitaphio, assignalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulchral, que
se me antolhava n'aquelle extenso e terrivel horizonte. Illudira-me, porm,
o meu juizo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e
temerarias emprezas.

Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lanado as mos a um varo de
ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se
me tornava facil a sahida para a rua. Recobrei alento, e no foram
frustradas as minhas esperanas.

Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente s
garras da humana justia, e com quem eu continuava ainda a nutrir relaes
de camaradagem,--pde aproveitar o silencio d'uma longa e tempestuosa noite
de inverno para os fins a que me propunha.

Fui feliz no meu arrojado commettimento. s occultas consegui embarcar em
um navio inglez, que se fazia de vla para a Europa.

Assim, no espao de pouco tempo, abandonei o paiz dos meus sonhos
tristemente desfolhados aos ventos do infortunio e de medonhas calamidades.
E o certo  que, se no vinha to rico, como de principio o havia
imaginado, pelo menos trazia meios sufficientes para viver em Portugal,
como capitalista de modesta apparencia.

Tudo isso se desfez, porm, ante a maxima desventura, que, neste instante,
me aguarda terrivelmente.

A nossa embarcao jaz nas alturas da ilha de S. Vicente. O estado do mar 
deveras assolador; no ha meio de resistir-lhe. Naufragio inevitavel! Esto
talhadas as nossas mortalhas. J a morte nos sorri satanicamente por entre
a negra agitao do oceano. Lucta infernal! Que diabolico tufo! Meu Deus!
meu Deus! Angustiadas lagrimas, sentidos suspiros, supplicas sinceras,
fervorosas oraes!... tudo em vo!... No ha duvida: seremos devorados
irremessivelmente pela sanha do mar! Que profundo abysmo nos espera! Como a
esperana nos  ainda meigo amparo nesta hora extrema e funebre! E como
estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor!
Oh! S Deus  infinitamente justo e bom! Emfim, esto lavradas as nossas
sentenas! A redempo do cu, essa, s de ti a poderei supplicar, que
decerto no deixars de interceder na terra pelo descano de teu desditoso
filho. E adeus,... adeus,... para todo o sempre!... Uma sentida saudade
para Therezinha, o anjo immaculado dos meus sonhos!... adeus...
adeus!...

     *     *     *     *     *

Eis o contedo d'este interessante manuscripto, no fim do qual estava
assignado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora
no Porto, aos Clerigos. Aps longas e infructuosas pesquizas, consegui
saber que Maria dos Anjos era fallecida, tendo instituido por universal
herdeira de seus bens a Therezinha, hoje novia no convento de Arouca. Para
l foi remettida esta preciosa reliquia, e com ella a infeliz herana de
seu esperanoso noivado. Por certo no faltariam lagrimas de bem viva
saudade a orvalhar aquelle extremo legado d'um corao diluido nas grandes
luctas d'um amor infindo e de constante tenacidade!

Antes assim!




*UM DIA DE NOIVADO*




UM DIA DE NOIVADO

A F. Simes Margiochi Junior


    Ahi! null'altro che pianto al mondo dura!

        PETRARCHA.

    Ai! neste mundo s as lagrimas no tm termo!

Cantae, ternos passarinhos; voae, mariposas gentis!

 dia de noivado!

Rejubile a natureza; reviva, resplandea a festa!...

Folgam, auras indiscretas, nos choupaes e nos silvedos! Tudo acode, sem
delonga, ao banquete dos bemaventurados! A aldeia exulta de vivaz festejo!
 vivo o rebolio: grinaldas de flores, perolas e diamantes, tudo, 
porfia, deslumbra os convivas!

Que doce aroma! que suave fragrancia!

Alada viso, fiel mensageiro do homem--o amor,--conforta o desgraado e
sorri  opulencia. Expellem-se os cuidados, apavoram-se os temores,
rejuvenesce a humanidade!

Dia de solemne bemaventurana!--eu quero colorir teu quadro ingente, juncar
de variegadas cres teu slo matizado!...

     *     *     *     *     *

A nove kilometros de Aveiro existe a pittoresca villa de Eixo.  uma
deliciosa povoao! O Vouga espraia ali mansamente suas limpidas aguas,
formando como que um vasto lenol, por entre os formosos salgueiraes, que
lhe servem de margem e curiosa graciosidade!

Ha um no sei qu de vago e sympathico nos seus ignotos caminhos, to
cheios de divina poesia e magica formosura, que nos seduz instinctivamente.
Em todos os paizes ha d'estas pequenas povoaes, mais ou menos dilectas do
povo, e que parecem ter sido apontadas adrede para a representao dos
grandes dramas da humanidade. E esta foi realmente uma d'ellas, como abaixo
veremos!

Ha de haver dez annos, Eixo trajava de galas. A solido transformara-se
subitamente em meigo theatro de harmonia e saudade. Os habitantes como que
resuscitavam do seu antigo marasmo. Desvaneciam-se as trevas do sepulchro,
perante o vivo esplendor d'uma aurora deslumbrante!

Era um dia de festa, emfim, dia de noivado, sancto alvoroo, candida
alegria!

Fernando, o moo querido da terra, esposara Luiza, a joven e sympathica
alde. E foi devras uma suprema abnegao aquelle divino enlace! Fernando
possuia a riqueza do espirito e a riqueza do dinheiro.

Era uma joia!

Luiza, essa, coitadinha! limitava seus parcos cabedaes  rara e quasi
esquecida opulencia dos grandes sentimentos e vivas impresses. Amava com
ardente intensidade.

Era uma perola!

Fernando era to amado, to louvado! Ai! Senhor! que thesouro aquelle!...

Na sua frequente passagem pelas ruas da villa, os lavradores descobriam-se
respeitosamente. Depois l se ficavam longos momentos a scismar, at que
por fim! diziam elles de si para si:--Pombinha sem fel!--e seguiam o seu
rumo.

Luiza grangera a piedosa dedicao das suas patricias. Era em extremo
philantropica: e de muitas conseguira ella at a sincera venerao de
santinha, que realmente era.

Quando, por acaso, se fallava em Luiza quella pobre gente d'aldeia, esta
retorquia logo com vivo interesse:--Ai! a Luizinha! a noiva do sr.
Fernandinho! isso  mesmo um anjo, meu senhor! E elle, que bondade, que
ternura!  mesmo ouro sobre azul!...

Imagine-se pois, que mago fulgor no irradiariam aquellas duas ternas
creaturinhas, ao estreitarem seus amorosos coraes pelos vinculos
indissoluveis do matrimonio!...

Que sancta alliana aquella, meu Deus! Que innocente festa no ia pela
villa!...

Tudo folgava, tudo amava, tudo vivia!...

Apenas o mancebo sahira da egreja, levando sua angelica esposa pelo brao,
immediatamente, d'aquelle enorme conjuncto de povo, apinhado em massa pelas
ruas da villa, para assistir ao brilhante cortejo, rompeu a mais solemne
acclamao, o mais enthusiastico viva.

Fernando respondia com lagrimas, que symbolisavam o enthusiasmo e a
gratido. Luiza, pela sua parte, julgara-se guindada a um paraizo de fadas,
onde a vida se assemelha ao grato arroio escoando-se de mansinho por entre
as mil verduras e fragrancias da natureza.

Porm surgra a noite, e suas sombras temerosas, at ali occultas pelo
brilho das luzes, invadiram a mesma rea, que, horas antes, fra povoada
pelos raios diamantinos de mago encantamento e verdadeiro prazer!

No dia immediato ao do seu noivado Fernando despertra triste e pezaroso;
isolra-se voluntariamente de sua esposa, e apparecra envolvido em
profundo meditar. Os stos da sua primitiva alegria haviam-se-lhe
convertido medonhamente n'um oceano de torturas. Os sons melodiosos da
orchestra nupcial eram agora para elle um motivo de pungente agonia e de
atroz supplicio. Silvavam-lhe no cerebro as negras viboras da loucura. Era
foroso afastar de si o vil e glido phantasma, que o perseguia sem cessar.

Assim se passaram muitos e longos dias. Todos indagavam sollicitamente a
causa de to inesperada catastrophe, de to cruel agitao; e, todavia,
ninguem ousava responder, ninguem proferia sequer uma palavra.

Fernando corria todas as tardes os sitios reconditos da villa. Com os
cabellos eriados, a lividez nas faces, o olhar scintillante, as mos
nervosas, os punhos sempre cerrados, l se ia o pobre doido, o desgraado
moo--para quem a fortuna fra um sonho fallaz de alguns momentos apenas--a
conversar com as arvores, que tanta vez lhe ouviram seus queixumes de
amor,--a ralhar com o placido regato, que o atormentava ferozmente,--a
rir-se, emfim, de si mesmo, da descompostura do seu trajo, das suas
palavras!...

E era tremenda e pavorosa a sua gargalhada!...

Luiza conquistra, a par da sciencia do amor, a sciencia da resignao: por
isso vivia, e supportava o agudo espinho, que lhe trespassava o corao.

Um dia, em que intentara approximar-se de seu marido, este repellira
energicamente sua mo, e, sem d nem piedade fugira para longe de suas
caricias e afagos!

Estavam as cousas neste ponto, quando Fernando foi accommettido d'um
delirio mais violento e doloroso. A sua constante monomania, o seu desejo
incessante, era assassinar todas as mulheres, que, por acaso, encontrava.
Tornou-se mister o auxilio de toda aquella gente, para o encerrar
cautelosamente n'um quarto subterraneo, onde lhe era ministrada a comida,
que mal provava.

No auge da loucura, conheceu-se, ento, a causa do seu infortunio, por
alguns poucos monlogos, que elle soltava de quando a quando, taes como
este:

--Ser eu feliz, alegre, bom, docil; amar uma mulher ternamente, com a
intensidade d'um seraphim; e vr-me tristemente illudido por esse demonio
maldito!... Oh!... por Deus! nem pensar n'isso!...

E aquella vibora, aquella Lui... i...--Ai! Senhor! Senhor! seja o seu nome
para sempre esquecido!--a ostentar tamanho pudor, tamanha virgindade e
honestidade, e tudo com o hypocrito fim de me amortalhar covardemente!...

E toda a gente a acreditava piamente; sim! todo o mundo, at eu!...

Eterna maldio sobre o desgraado, que foi procurar na mulher, que
escolhera para esposa, a deshonra da sua propria familia!...

Ha! Ha! Ha!...

E n'isto o desventurado moo soltava uma cynica gargalhada!

Frequentemente repetia elle o nome de sua esposa, uma e muitas vezes; e
logo aps, n'um acto de medonho desespero, chorando desabridamente,
arrancava de si um punhado de cabellos ensanguentados, e rojava-se no
lagedo do carcere.

E eram bem tristes as suas lagrimas, bem acerbo o seu pranto!

Pobre Fernando! Quem no teria pena de ti?!...

Um anno decorrido exactamente desde o dia em que se havia festejado o
noivado de Fernando e Luiza,--pelas ruas da pequena e triste povoao
seguia compassadamente um funebre prestito.

O doido havia cessado de existir n'aquella madrugada!...

Mal julgara aquella gente, que tivera ido brindar to esplendido
noivado--que to cedo havia de acompanhar o cadaver do sympathico Fernando
 sua derradeira morada!

 assim o infortunio d'este mundo!...

A cora de grinaldas, essa desfizera-a o vento desapiedadamente! Hoje s
restam coras de perpetuas, e alguns goivos tristemente derramados sobre a
ignota lousa do desditoso mancebo!

Luiza vive resignada, e l vae lavrando quotidianamente o epitaphio, que ha
de guarnecer a lage sepulchral de seu marido, com as sinceras e ardentes
lagrimas da saudade e do arrependimento! Aguarda pacientemente a hora da
sua partida para ir fruir no co aquillo que lhe foi vedado na terra!

Deus  compassivo, e de certo no olvidar a sua redempo
celeste!...


FIM.




*Obras do mesmo auctor:*

EM VIA DE PUBLICAO

    *A Actualidade*, estudo economico social.

    *A Morte do Poeta*, scena em verso.





End of the Project Gutenberg EBook of Miniaturas Romanticas, by 
Sebastio de Magalhes Lima

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MINIATURAS ROMANTICAS ***

***** This file should be named 21567-8.txt or 21567-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/1/5/6/21567/

Produced by Pedro Saborano. Para comentrios  transcrio
visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (produzido a partir
das imagens de obras em domnio pblico, disponibilizadas
pela BibRIA - Biblioteca digital dos municipios da ria)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
