The Project Gutenberg EBook of Claridades do sul, by Antnio Gomes Leal

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Title: Claridades do sul

Author: Antnio Gomes Leal

Release Date: March 30, 2007 [EBook #20940]

Language: Portuguese

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CLARIDADES DO SUL




GOMES LEAL


CLARIDADES DO SUL


LISBOA
BRAZ PINHEIRO--EDITOR
Praa d'Alegria 73
1875




PRIMEIRA PARTE

INSPIRAES DO SOL




HYMNO AO SOL

     Vous prtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre
     corps: votre tonsure est le disque du soleil, votre tole est
     son zodiaque, vos chapelets sont l'emblme des astres et des
     plantes.

     VOLNEY (LES RUINES)


Eu te saudo  Sol, bello astro amigo!
(To pontual ha tantos centos d'annos)
Mais reluzente que um broquel antigo,
Mais dourado que sceptros de tyranos;
Av, heroica luz! viva e sonora,
Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas,
As florestas extensas do gemidos,
            E o duro mar se chora!

Eu te saudo,  astro das batalhas!...
Por que atravez das cruas dissenes,
Douras o p que se ergue das mortalhas.
E levantas os nossos coraes!
E por isso, ainda hoje, e eternamente,
Os romanticos te ho de a ti saudar,
--E os tristes sempre iro,  luz poente,
            Ver-te morrer no mar!

Tu s a Voz; a Cr; as _Harmonias_
Accordam com as tuas claridades;
s quem benze as aldeias e as cidades,
E quem fases cantar as cotovias;
s quem inspira extranhas theorias,
s forte, so, consolador e bom!
Tem a lua silencios e elegias;
            --Mas tu a _Cr_ e o _Som_!

Eu te saudo,  astro dos guerreiros!...
Eterno confessr de madrigaes,
Que desgellas os densos nevoeiros,
Que alegras as sonoras capitaes;
Que ds valor nos campos marciaes,
E fora e amor aos aldees trigueiros,
E que incitas os tigres carniceiros
            A beber nos caudaes!

Desde a Chaldea s tristes solides,
Tens tido cultos, templos levantados,
E velhos ritos barbaros sagrados,
E alegres, sensuaes religies!...
Tu foste _Mithras_, nome cabalistico,
_Baal_, _Agni_, _Apollo_ (invocaes)
--E hoje _Christo_--teu nome occulto e mystico--
            Fere inda os coraes!

Quem contar,  luz, tuas bondades?...
E o amor no qual o corao abrasas,
E as tuas funeraes solemnidades
 ideal palpitao das azas?...
Quem nos livra das flexas do pecado?
Quem faz na intima terra o diamante?
Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado,
            E a idea extravagante?

Ave! pois, asto caro dos valentes...
Da Fora, Vida, Gloria, da Paixo,
A flexa d'ouro aos coraes ardentes,
Astro amigo das lutas e da Aco!
Ave! e em dias crs d'expiao
Vae, e beija--nas hervas relusentes--
Os que morrem, vencidos combatentes,
            --A espada inda na mo!




* JANELLA DO OCCIDENTE*

     O mundo oscilla
     (Luthero)


Os deuses ou so mortos ou cados,
Quaes duros aldees dormindo as sestas,
Ou andam pelos astros perseguidos
Chorando os velhos tempos das florestas,

Os reis ressonam nas devassas festas:
J os fructos do Mal esto crescidos:
 Sol, ha muito que tu j nos crestas!
E aos nossos ais o Ceu no tem ouvidos!

Ha muito j que o Olympo est vazio,
E no seio d'um astro immenso e frio
 morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas sobre o mundo eterno e afflicto,
Procura Fausto o _x_ do infinito,
E Satan dorme em cima do Evangelho.




*OS SANTOS*

     Les saints arrachaient leurs auroles.
     (Dubois)


Viam-nos caminhar, exilados da luz,
As grandes povoaes, as rochas, as paisagens.
E os corvos, os fieis amantes das carnagens,
Estos magros heroes, paladins de Jesus.

Andavam rotos, vis, os ps chagados, ns.
Finavam-se a rezar ante as santas imagens,
E ouviam-nos bradar no meio das folhagens:
-- arvores em flor! vs sois esquife e cruz!

Onde estaes hoje vs? nas grutas dos planetas,
Inda hoje rezaes,  pallidos ascetas,
Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?

Na terra no; que ha muito a Materia nos nutre,
E nem no Ceu talvez;--no entanto o negro abutre
Tem saudades de vs nas cristas dos calvarios!




*D. QUICHOTE*

A Luciano Cordeiro


     O que  isto?


Nos tempos medivaes dos campees andantes,
E das balladas como a do bom rei de Thule,
Andava D. Quichote em busca de gigantes,
Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.

Batalhador juiz da Virtude e do Crime,
Defendendo o opprimido, a mulher, o ancio,
Corria o mundo assim, ridiculo e sublime,
Em seu magro corcel, sob arnez de carto.

Cheio de tradies, o velho mundo absorto,
Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel,
E como insectos vis sobre um cavallo morto,
Riam as multides do ultimo fiel.

Ia triste a scismar, com a alma abatida,
Nos caminhos do mal rasgando as illuses,
Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida,
Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrises.

Vinha de batalhar espancado e abatido,
Cheio de contuses e lodos d'atoleiros,
E ao p montando um burro, e o escudo j partido,
Sancho Pana a Materia, e o rei dos escudeiros!

Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue,
Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos,
--Vinham ladrar-lhe os ces, e pressentindo sangue,
Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.

Sancho Pana fiel, vasculhava a escarcella,
E ascultava a borracha emmudecida emfim;
Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella,
Na conquista ideal do escudo de Membrin.

Paravam aldees, lavradores crestados;
Vinham  porta as mes, fiando o linho fino;
E os magros charlates viam passar, pasmados,
Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.

Danavam os trues; as sujas enxurradas
Com a lodosa voz, perguntavam: Que  isto?--
Satan n'um corucheu, dizia s gargalhadas:
-- campeo do Bem!  victima do Christo!




*O PUBLICANO*

     Ils erraient sales et immonds, et avaient des dvotions hypocrites
     (Dubois)


Um gra doutor da Lei dizia ao publicano,
Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea,
Tambem tu vens orar, publicano sereia,
A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?

Jejuas tu agora e resas todo o anno,
Tu que levas o pobre e o orpho  cadeia,
Que tiras  viuvez o po, o leito, e a teia,
Tu que s avaro e vil, pago como um Romano?!

Que no resas como eu, que nunca vi desfeito
Dos compridos jejuns, nem macerar o peito;
E que hospedas Satan, como o antigo Saul!

No vs como estou sempre erguendo ao Ceu os braos?
--O publicano ento, disse, olhando os espaos:
Tambem os poos so voltados para o Azul!




*A LYRA DE NERO*


Nos seus jardins pagos, entre archotes humanos,
Na lyra de marfim sobre as cordas douradas,
Nero vinha cantar s noutes estrelladas,
Elegias d'amor e canticos thebanos.

Essa lyra do Mal que ouviram os romanos,
Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas,
E os lutos, os trues, as ceias depravadas,
Que mysterios no viu, medonhos e profanos!

E, no emtanto, apesar da sua historia triste,
Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe
Do devasso real, do lyrico histrio...

Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto,
E,  Terror!  Terror! eu que amo o Forte e o Justo,
--Ouo-o s vezes tambem, dentro do corao!




*MYSTICISMO HUMANO*

     Sunt lacrimae rerum...
     (Virgilio)


A alma  como a noute escura, immensa e azul,
Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul,
Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar,  noute pelas eiras...
s vezes vem a nevoa  alma satisfeita,
E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita...
E como a folha morta em lagos somnolentos
As nossas illuses vo-se nos desalentos!

Tem um poder immenso as Cousas na tristeza!
Homem! conheces tu o que  a natureza?...
-- tudo o que nos cerca-- o azul, o escuro,
 o cypreste esguio, a planta, o cedro duro,
A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos,
 a floresta espessa esguedelhada aos ventos;
No entra o vicio aqui com beijos dissolutos,
Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!...

--E os que viram passar serenos os seus dias...
E curvados se vo, s longas ventanias,
Cheio o peito de sol, atravez das florestas,
 calma do meio dia... e dormiam as sestas,
Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas...
Vo cansados depois, entre os ramos e as seivas,
Outra vez sob o Sol--a sua eterna crena!--
Em fructos resurgir  natureza immensa,
E, aos beijos do luar, descansarem felizes,
Da bem amada ao p, no meio das raizes!

Morrer  livramento! oh deve saber bem
Sentir-se dilatar na Natureza me!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a arvore que d sombra!
Estremecer na encosta s nocturnas geadas,
E recortar o azul das noutes constelladas!

Oh pelo claro azul d'essas noites serenas,
Que o segador trigueiro enta as cantilenas,
Tristes como a lua e o espinho dos martyrios,
E que atravez do azul parecem cair lyrios!...
Quando a brisa levanta as folhas indiscretas,
Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas...
E a Natureza tem como um sabor de beijos,
Que obriga a soluar a alma de desejos!...

Que segredos diro nas brisas mensageiras,
 doura da lua, a flor das larangeiras,
O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes,
Que foram j, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje'  branca luz dos myrthos sideraes,
Conversam sobre o amor e os gosos ideaes
Do tempo, que a fallar corriam breve as horas,
Que seus olhos leaes tinham a cr d'amoras,
E debaixo do Ceu teciam longas danas,
Ao p da amante meiga e de compridas tranas!...

No lago somnolento a flor do nenuphar
Talvez  um corao que abre para chorar!
O lyrio um seio bom,--e as violetas curvadas
So os olhos talvez das doces bem amadas!...

Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol,  chuva, aos nevoeiros,
E quando  noute finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos,
Cujo olhar como a lua  tranquillo e consola,
E descanta chorando  noute na viola!...

E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus,
Hombro a hombro o abysmo,--abysmo sempre aos ps,
Que dormem  poesia,  lua das mars,
E morrem uma noute,  mar, aos teus emballos,
Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!

Eu por mim no terei um astro bom nos Ceus,
Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscurea a magoa,
Como espelhos d'amor j sejam rasos d'agua!...
Ssinho passarei, e no irei jmais,
Pelas murtas com ella s tardes outomnaes;
De inverno no terei os consollos do lar,
Nem do estio a doura immensa do luar;
Meus filhos no iro jmais colher os ninhos;
Ninguem vir  tarde esperar-me nos caminhos!




*OS MONGES DE ZURBARAN*

(IMITADO DE TH. GAUTIER)


Monges de Zurbaran!  magros solitarios,
Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios,
Correndo eternamente as contas dos rosarios!

Dos remorsos sentis os santos desvarios?
Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura?
Espectros monacaes cavados e sombrios?

Essa materia vil--que  divina esculptura,
E que o Justo vestiu nas santas tradies,
Com que lei e razo  que bradaes--Impura?

 santos! eu entendo as allucinaes!
Os chumbos em fuso, as abrasadas lenhas,
As grelhas, a pol, e as fauces dos lees!...

As rodas infernaes que rasgam as entranhas,
Tudo o que Roma ideou;--mas o que eu no entendo
 o suicidio e a f sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo?
E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas,
Dilacerar at o sangue ver correndo?

No so s as crueis maceraes mofinas,
E o continuo bater nos peitos angulosos,
Que em tuas letras s,  Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus s quer aos grandes ulcerosos!
E que essa morte lenta, esse ar austero e grave,
Vos faa abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave?
--Largae das magras mos, unidas, as caveiras,
Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras;
Mas continuo insultar a Carne com desdem,
 rebaixar-te,  Deus, a charlato de feiras!

E comtudo que fora e que energia teem,
Esses monges de Deus, em vivo amortalhados,
A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

To moos! e, assim j, to velhos e cavados!
Por horisonte um claustro e um muro,--indifferentes,
Ssinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, so d'estes differentes!
O triste Zurbaran soube exprimir melhor
Os extases do olhar e as cabeas doentes!

E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor
Da Carne, que lhes d aureolas febris,--
E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz
Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos,
E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos!
Como s faces lhes cava a pallidez da terra,
Como se fossem j uns mortos estendidos!

Quando as vizes do Ceu nos extases descerra,
Ao Crucifixo os ps beijando soluantes,
E aoutando-se qual o mar aouta a serra!...

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes,
Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro,
--Sempre,  monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas s--claro livido, e escuro,
S duas posies--a recta e a que inclina,
Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a cr, a luz que nos fascina,
Nada so para vs, magros indifferentes,
Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes...
Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem,
Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

 monges!  fieis! no entendeis o homem!
Talvez a herva cresa, agora, em vossos peitos,
Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos?
Choraes o ter gastado o tempo que nos foge,
Entre essas solides e esses muros estreitos?!...

Monges, o que haveis feito, inda o farieis hoje?!




*A BELLA FLOR AZUL*

     Quem saber signora d'onde ter nascido esse bello lyrio branco?
     (Velha Comedia Italiana)


Eu no sou o fatal e triste Baudelaire;
Mas analyso o Sol e decomponho as rosas,
As rijas e crueis dahlias gloriosas,
--E o lyrio que parece o seio da mulher.--

Tudo que existe ou foi, morre para nascer;
Na campa do-se bem as plantas graciosas,
E, um dia, na floresta harmonica das Cousas,
Quem sabe o que serei quando deixar de ser!

A Morte sae da Vida--a Vida que  um sonho!
A flor da podrido, o Bello do medonho
E a todos cubrir o mystico cypreste!...

E,  minha Sphinge, a flor pallida e azul no meio,
Que hontem tinhas no baile, e que trouxeste ao seio
Levantei-a d'um cho onde passra a Peste.




*HORA DO MEIO DIA*

     J'tois inquiet distrait, rveur; j dsirois un bonheur dont je
     n'avois pas l'ide.
     (Confessions de J.J. Rousseau)


--Sosinho no meu quarto retirado,--
Certas horas do dia calorosas,
Quando as flexas do Sol queimam as rosas,
Eu scismo no seu corpo esbelto e amado!

As curvas do seu collo assetinado,
Mais fino que o das rollas amorosas,
Dar-me-hiam as noutes voluptuosas
De que fallam os doutos do Peccado.

Mas, no emtanto, l fora o sol adusto
Queima as campinas e o aldeo robusto;
Vam abelhas a colher o mel.

E eu cheio de tristeza e d'anciedade,
Continuo a scismar--como um abbade--
Na Virgindade olympica e cruel.




*CANTIGA DO CAMPO*

     Como eu adoro as tuas simplicidades!
     (Heine)


Por que andas tu mal commigo?
 minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vaes cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noutes claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a violla tua,
Que, s vezes, ouo na brisa
Pelos serenos da lua.

E fallam com tristes vozes
Do teu amor singular
quella casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar comtigo,  meu pomo,
Exposto s chuvas e aos soes!
E uma noute morrer como
Se morrem os rouxinoes!

Morrer chorando, n'um choro
Que mais as magoas consolla,
Levando s o thesouro
Da nossa triste violla!

Por que andas tu mal commigo?
 minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!




*A AGUIA*


No tempo em que era a grande deusa viva
Os deuzes, os heroes e as Musas bellas,
Dizia uma aguia velha e pensativa,
Que fizera a viagem das estrellas:

--Vo-se indo as tradies! e ho-de ir com ellas
Apollo, Jove, Vichnou e Siva!
Um astro  gro de luz; o mar saliva
De ti  grande Pan!... S Pan tu vellas!...

Mas quando assim fallava a aguia, eis quando
Se ouviu aquella voz triste bradando
Na Sicilia: _Morreu o grande Pan_!

Epheso estremeceu, carpiu Eleusis;--
Mas a aguia velha gargalhou:-- deuses!
_Qual ser o deus novo de manh_!




*ACCUSAO  CRUZ*

    Ainsi lirat-il les artiques vrits, les tristes vrits, les
    grandes, les terribles vrits.
    (De Quincey)


Ha muito,  lenho triste e consagrado!
Desfeita podrido, velho madeiro!
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pendo de luto levantado.

Se o que foi nos teus braos cravejado
Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
Elle est mais ferido que um guerreiro
Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito j que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences  Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
Queremos Vida e Aco--Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!




*LUTHERO*

     Ah, s tu diabo?...
     (Lenda mouacal)


Luthero, o frade austero e macilento,
Encontrou a Satan dormindo um dia,
N'uma rua d'Erfurt,  ventania,
Envelhecido, calvo e vinolento.

Dorme! gritou-lhe o frade... a teu contento,
Guloso Pae da Indigisto, da Orgia!
Renunciaste as lies de theologia,
 velho corvo mau do Firmamento?!

O mundo como tu  calvo e velho;
A Egreja  o lupanar do Evangelho;
E tu  brio, guloto, descanas!?...

Satan, olhando o azul, disse:--As estrellas
Vo pelo Ceu to baas, amarellas,
Deus j deixou enferrujar as lanas!




*A TERRA*

     Fecundars a terra com o suor do teu rosto.


Cavae, eternamente, a velha terra!
Soffrei, suae, gemei na dura enxada,
Fecundae-a na paz ou pela guerra,
Quer seja pelo arado ou pella Espada,

 Homem! trabalhar  tua herana
At que a Morte, emfim, grite--descana!

 a Arvore a tua companheira
O lar, a tenda, a sombra de teus passos,
Da tua amante a perfumada esteira,
Como benos t'estende os longos braos!

E ou seja em teu inverno, ou teu estio,
E teu bero, teu leito, e teu navio!

 preciso que as lagrimas que correm
Faam crescer dos cardos os trigaes,
E por cima dos corpos dos que morrem
Se ergam verdes loureiros triumphaes!

 preciso que em paz ou pela Guerra,
Com pranto, ou sangue se fecunde a Terra!

 preciso caval-a!--nos teus braos
Luza a enxada ou o gladio de destroos!
A vida  curta--e breves nossos passos,
E as flores vivem, crescem sobre os ossos!

E o bero no  mais,  creatura!
Que a linha d'unio  sepultura!

 preciso que a Morte, a dr e os lutos
Se transformem em vinhas ostentosas,
Nossos prantos convertam-se nos fructos,
Do sangue dos heroes tinjam-se as rosas!

Soffrei, lutae, morrei,  infelizes!
--O vosso sangue  util s raizes!




*O OURO*

A Theophilo Braga


Dizia o ouro  pedra;--Ente mesquinho!
Que profundo scismar sempre te prga
 beira d'uma estrada, ou d'um caminho,
Pasmada, mas sem ver, eterna cega?!

Em vo o orvalho a ti te lava e rega!
Em ti no cresce nunca po, nem vinho,
Dura e inutil--o lodo  teu visinho,
E o homem s, por te pisar, t'emprega!

Em ti s medra e cresce o cardo os lixos!
Tu serves s d'abrigo ao lodo e aos bixos,
E ensanguentas os ps descalos, nus!

 pedra! quanto a mim, sou a Riqueza!
--A cega disse, ento, com singeleza:
--Eu, tambem, guardo no meu seio a Luz!




*O BUDA*

(De Catullo Mends)


O Budha scisma, as mos sobre os artelhos.

Aquelle ento que ouvira os seus conselhos
Diz:--Mestre! os que no foram resgatados
Do Mal, so como uns ceus anuviados!
Aos povos que d'aqui moram distantes,
Para que a Lei no errem, ignorantes,
Consente que affrontando os soes e os frios,
Montes, rochas, passando a nado os rios,
Teu grande dogma,  Mestre, eu v prgando!...

--Mas se elles, corta o Budha venerando,
Te insultarem, eleito! que dirs?

--Direi s:--estas gentes no so ms,
Pois vindo-lhes prgar de terra alheia,
No me atiram aos olhos com areia,
Nem me espancam e ferem com pedradas!

--Mas se as gentes, acaso, allucinadas
Te espancarem, causando graves damnos?

--Estes povos, direi, so muito humanos,
E ha doura n'aquelles coraes;
Pois quando erguiam pedras e bastes
Contra uma creatura to mesquinha,
No tiraram a espada da bainha.

--Se o ferro te ferir?

      --So bons, de sorte
Que me ferem, sem querer-me dar a Morte!

--Se morreres?

      --A morte  grande esmolla!

--Vae pois, o Budha diz, salva e consolla!




*NO CALVARIO*


Maria com seus olhos magoados,
Ceus espirituaes, lavava em pranto
As largas chagas de Jesus, emquanto
Ria ao p um dos tres crucificados.

Semblantes de mulher mortificados
Escondiam a dr no casto manto;
Uma mulher d'Hennon chorava a um canto,
Jogavam sobre a tunica os soldados.

Martha, os pingos de sangue, alva aucena,
Dir-se-hia no bom seio recolhel-os;
Alguns riam brutaes d'aquella pena!...

Salom tinha um mar nos olhos bellos;
Joo fitava a Cruz... Mas Magdalena,
Limpava a Christo os ps com seus cabellos!




*HLI! HLI!*


Quando elle, emfim, morrendo, elle o cordeiro,
Pomba mansa no ar pesado e immundo,
Pendeu-se como um lyrio moribundo,
Sobre a haste do tragico madeiro.

E lanando o espirito prufundo
Ao reino bello, grande, e verdadeiro,
Finou-se, emfim, chagado e justiceiro,
Ainda, ainda, perdoando ao mundo.

Um soldado romano vendo-o exposto,
E j morto na Cruz, com um desgosto,
Com a lana enristada o trespassou...

Saiu d'aquella chaga sangue e agoa...
--Ah sangue que no deu a tanta mgoa!
--Lagrimas, sim, talvez que no chorou!




*AS ALDEIAS*


Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas--
Mais frescas que as manhs finas d'Abril.

Levanta a alma s cousas _visionarias_
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras--como eu gosto
Sentir a sua vida activa e s!
Vel-as na luz dolente do sol posto,
E nas suaves tintas da manh!

As creanas do campo, ao amoroso
Calor do dia, folgam seminuas;
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solido das suas ruas!

Alegram as paysagens as creanas,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos s cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos ces distantes
Com o canto metallico dos gallos...




*BENEFICIOS E PHILOSOPHIA DO SOL*


Tem sido at agora--o scintillante
E antigo Sol, amigo da Harmonia,
Que me tem ensinado, cada dia,
A desprezar a Morte escura e errante!

As densas nuvens do porvir distante
Desdenha-as a sua epica alegria,
E a sua heroica e s philosophia
Nada, at hoje, eguala e  semelhante.

Decerto,  grato ao soffrimento insano
Dos tristes, quando surge o _rosto humano_
_Da lua_, abrandecer o Ceu com ais;

Mas, quando  que jmais dobrou  Sorte,
A alma do _fakir_, paciente e forte,
Mais sereno que as plantas e os metaes?!




*DISPUTA*


Voltaire dando com o p n'uma caveira, ria
Com certo riso mau, sinistro e mofador;
--A velha companheira, ento, da Theologia
Dos santos e da Cruz bradou ao pensador:

--s tu impio Voltaire,  verme roedor
Das folhas do Evangelho!  Satan da ironia!
Cujos risos crueis fazem chorar Maria,
E despregam do lenho a ensanguentada flor!?

Tu tens lanado o cuspo aos astros lancinantes;
Abalado da Cruz os cravos vacillantes;
E ladrado de Deus que julgas a dormir!...

Mas olha em cima  o Ceu, dos astros sementeira!...
--Voltaire disse-lhe ento: Pois se assim , caveira,
Por que te encontram, sempre, ao p da cruz a rir?




*AS CATHEDRAES*


Como vos amo ver  cathedraes sosinhas,
A recortar o azul das noutes constelladas!
Erguidos corucheus, mysticas andorinhas,
-- grandes cathedraes do sol ensanguentadas!

Como vos amo ver, pombas alvoroadas!
Ogivas ideaes, anjos de puras linhas,
E  criptas sem luz, aonde embalsamadas
Dormem de mos em cruz as santas e as rainhas!

Em vo olhaes o Ceu sagradas epopeias!
Flores de renda e luz, d'incenso e aromas cheias,
Aves celestiaes banhadas da manh!

Em vo santos e reis,  monges dos desertos!
Em vo, em vo resais, sobre os livros abertos,
--O Ceu por que chorais  uma fico christ!




*LYCANTHROPIA*

     L'auteur  remarqu que que la mort de ceux qui nous sont chers, et
     gneralment la contemplation de la mort, affecte biem plus notre
     me pendaut l't que dans les autres saisons de l'anine.
     (Paradis artificiels)


Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Para mim no valeis seu riso ameno,
E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... eu bem sei que nunca mais...
Ouvir-lhe-hei seus ais no ar calado,
Junto  janella  tarde no bordado,
E entre as murtas do outono... Nunca mais!

..........................................

Quando  tarde, no occaso, os penetrantes
Cheiros das plantas nadam pelos ares,
E que as vermelhas nuvens singulares
Tomam formas de sonhos fluctuantes,

Quando ha no azul a mystica elegia
Que nos lana nas lugubres chimeras,
Eu scismo ento-- rutilas espheras!
N'aquella que j come a terra fria!

E ento n'aquella vaga somnolencia--
Somnolencia em que a terra desparece!
Mais immortal seu vulto me parece;
Mais cruel e sem fim _aquella auzencia_!

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas _lindas_, languidas olheiras.

Quando  que,  grande e santa Natureza!
Me poders um dia consollar
--D'aquella que j mais eu pude amar!--
Inacreditavel, lugubre crueza!

D'aquella que talvez, alegre e louca,
Eu de certo amaria;--amara,  certo!--
Mas que era pobre e s, e cuja boca
Tinha a vermelha cr d'um cravo aberto!

Cuja voz era doce como um favo,
Voz que tocava as cordas mais secretas!
Que nos fazia o corao escravo,
Cujos olhos... leaes tulipas pretas!...

Nuvens d'Agosto, azul fundo e, sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... Ah! mas no; Vir um dia,
--Dia livre de vis _conveniencias_!--
Que a ella me una em fim na terra fria,
E te ache  paz! nas santas florescencias!




*O PECCADO*

     Nunca cessamos de peccar
     (Imitao de Christo)


I

*Ubique doemon*


Bem sei... e mais que o sei, claro luar!
Que segundo a severa theologia,
Pelas noutes sonoras de poesia
O aroma dos lyrios faz peccar!

Quem vos dira!... madresilvas, mar,
Lilazes, claros rios, cotovia!
Que ao dizer da tirannica theoria,
Vs farieis a Carne triumphar!

Ah! Natureza, pois, se s criminosa,
E nos levam ao mal urnas da rosa,
Bom corao de Christo imaculado!...

Quantos no vs morrer, do ceu prufundo,
Cheios de sangue, como heroes no mundo,
--Exhautos dos mil golpes do Peccado!?--


II

*O Peccado*


Elle  antigo, tragico e venal,
Amando a Carne, o Crime e os assassinos,
E como a folha acerba d'um punhal,
-- quem golpeia os seios femeninos!--

 complicado, mystico, mortal,
Com sombrios escrupulos divinos,
E  quem faz estorcer os braos finos,
E escorregar a lagrima final.

No entanto, grato e funebre Peccado!
Atrahente, gostoso e desejado,
Negro nome de vicio e perdio!...

A Egreja v em tudo as tuas chagas;
E ha muito tempo j que o mundo esmagas,
E te embriaga o sangue da Paixo!


III

*A Cidade*


Em vo busco na velha e hostil Cidade,
Beata amante, de gangrenas cheia,
As dispersas raizes da Verdade,
--Como uma flor n'um pateo de cadeia.

Quando, alta noute, D. _Juan_ passeia,
Ella pe-lhe em leilo a mocidade,
Tratada com a mystica anciedade
Com que um sabio cultiva a flor da Idea.

Mas, comtudo ninguem receia tanto
O aspero Deus, e o lenho sacrosanto
Da dorida tragedia do Calvario!

E,  _D. Juan_, s luzes das estrellas,
Tu bem sabes se encontras nas viellas
Mais de uma vez, perdido algum rosario!...


IV

*O Inimigo*

      genoux! Je suis Pan!
     (Victor Hugo)


Ha muito que  chamado o Aborrecido,
O rebelde, o leproso, o descontente,
E eterno tentador sempre vencido,
Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.

Elle  a hydra, a Carne, o incontinente,
O orgulho nos abysmos submergido,
O que anda sempre em _ns_, o co batido,
O espirito da Duvida, a Serpente,

Mas, mau grado,  Egreja, a tua ira,
Elle no  nem Vicio, nem Mentira,
Nem synonimo de Mal e de Impureza!...

E eu bem sei, negro symbolo apupado,
Velho satyro, vil, calumniado,
Diabo! que te chamas Natureza!


V

*Em toda a parte*


_Elles_ tem dito e escripto que o Peccado
Anda disperso e roe o mundo inteiro,
Que habita o duro corao guerreiro,
E o peito femenino e delicado.

Que anda no ar, em ns, da flor no cheiro,
Das pugnas no ruido desolado,
No vinho, na paz doce do mosteiro,
--No corpo da mulher perfeito e amado!--

 portanto, homem timido e sujeito,
Quer te encostes, ou no, ao vo Direito,
O teu funebre gozo e teu tormento!

Habitua-te a tel-o na Desgraa,
No ar, no cho, na flor, no som que passa,
--E at, serpente vil, no Pensamento!


VI

* Janella*


Altas horas da noute, quando a rua
 deserta da onda crapulosa,
No seu caminho em meio, vagarosa,
--Abro a minha janella a ver a lua.

Como uma branca divindade nua
Ella avana celeste, e,  luz ditosa,
Qual copo de cristal que enche uma rosa,
O goivo do Peccado em luz fluctua.

Fluctua, e  nestas horas recolhidas
Que me ergo ento s cupulas subidas
D'onde se avista o mystico ideal...

E rio, e admiro o vulgo obsecado
Que cuida ver, nas beiras d'um telhado,
Abrir-se n'um _craveiro_ a flor do Mal!


VII

*Ella*


Quando _ella_ emfim morrer, vero os vivos
Cortando o ar uns ais de sentimento,
Como os lugubres cros dos captivos
N'um triumpho, ou n'um grande samento.

Ouvir-se-ho soluos pelo vento,
Elogios, ais fundos, fugitivos,
Que diro:--L se vo meus lenitivos!
Morreu a Espada, a Lei, Guia e Sustento!

O seu tumulo ter goivos e rosas,
E vs estatuas lividas, chorosas,
E epitaphios em lugubre latim.

Ter palmas mais verdes que a Esperana;
--Mas a alma, em cima, escrever:--Descana!
Serpente, irm de Judas e Cain!




*SONETO D'UM POETA MORTO*

Achado nos seus papeis


Bem sei que hei de morrer cedo e cansado,
Alguma cousa triste em mim o diz,
E vagarei no mundo desterrado,
Como Dante chorando a Beatriz.

Pelos reinos, irei talvez curvado,
Como um proscripto princepe infeliz,
Ou como o indio pallido e exilado
Chorando o vivo azul do seu payz.

Mas no entanto, ah! ninguem ao Sol divino
Abrasou mais as azas, derretidas
Ante as duras, ferozes multides!

E ninguem teve a torre d'ouro fino,
Aonde, quaes princezas perseguidas,
Morreram minhas doudas illuses!




*A UMA JUDIA*

(SAUDAO)


     Av Regina!
     (Hymno Catolico)

     Podem apagar o Sol e as estrelas, bastam-me os olhos da minha
     amada!
     (Idyllio persa)

     Le second soleil! Le second soleil.
     (Phan taisies scientifiques de Sam)


 filha d'Israel,  vestal impolluta!
--Serena como a cr diaphana do azul--
O rebelde da Luz vencra Deus na lucta
Se armara contra os ceus teus cabellos do Sul.

Filha de Cham e Loth, tu s o ideal vivo!
( ouro, incenso e myrra,  licor nunca visto!)
Quando nos queima a luz do teu olhar esquivo,
Teus olhos ferem mais do que os cravos do Christo!

So dous cravos de luz, dous limpidos espelhos,
--A luminosa cruz onde me ensanguentei!--
N'elles soletro claro os grandes Evangelhos,
E n'elles leio mais que nas taboas da Lei!

Quando passas por mim, toda a minha alma anceia!
E os meus olhares vo cobrindo-te de beijos,
--E tu passas--archanjo em corpo de Phrynea,
E biblia encadernada em lubricos desejos.

Ah! teus olhos crueis, limpidos, negros, baixos,
Se um dia o sol morrendo, enoutecesse os ceus,
Ser-me-hiam, mulher! como dois grandes fachos,
 luz dos quaes iria a ver se achava Deus!




*A VISITA*


Hontem dormia  noute--e, eis que desperto
Sacudido d'um vento agudo e forte,
Como um homem tocado pela Morte,
Ou varrido d'um vento do deserto.

Accordei--era Deus, que de mim perto,
Me dizia: Alma sceptica e sem norte!
 preciso que creias e te importe
Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!

 preciso que a f cresa em tua alma
Como no inutil saibro a verde palma,
Verme! filho da Duvida--Eis-me aqui!

Eu sou a Espada o Antigo, o Omnipotente!
Cr barro vil!--Mas eu, descortezmente,
Voltei-me do outro lado e adormeci.




*PALACIOS ANTIGOS*

A Anthero do Quental.


Bons castellos leaes nas rochas construidos,
s contores do vento,  chuva ennegrecidos,
Que vamos admirar na angustia dos poentes;
Grandes sallas feudaes com tellas de parentes,
O que fazeis de p, como entre os nevoeiros,
Os antigos heroes e as sombras dos guerreiros?!

Uma grande tristeza enorme vos habita!
No entanto a alma antiga ainda em vs palpita,
Evocando a emoo das chronicas guerreiras;
E mau grado o destroo, a herva, e as trepadeiras,
--Como um desejo bom nas almas devastadas--
Cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas!

A parasita hera avassalou os muros!
Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros,
Tudo dorme na paz das cousas silenciosas;
E nos velhos jardins aonde no ha rosas,
--S resistindo ainda aos seculos injustos--
Uma Venus de pedra espera entre os arbustos!

Paira em tudo o silencio e o lugubre abandono
Das cousas que j esto dormindo o grande somno,
Evocando ainda em ns os velhos cavalleiros,
--E s lufadas do vento, os grandes reposteiros,
Entre as nossas vises das epocas sublimes,
Agitam-se ao luar vermelhos como crimes.

Mas no entanto o poeta entende aquellas dores,
E as mudas solides, os largos corredres,
As boas castells as gothicas janellas,
Abertas toda a noute a olhar para as estrellas;
S elle sabe os ais e os gemidos das portas,
--E inveja s vezes ser o p das cousas mortas!




*CAIN*


Cain no mundo errante, desterrado,
Fugindo  sua dr cruenta e dura,
Morria sobre um valle, abandonado,
No sollo primitivo da Escriptura.--

O remorso--esse mal que no tem cura--
No abatia o peito allucinado
Do que nasceu no seio do Peccado
Que herdou depois a grao futura.

Do Ceu sem mendigar luz nem consollo
Conservava inda erguido e altivo o collo;--
Mas nessa hora fatal que a todos vem...

Cain velho rebelde,--e atheu primeiro--
Nosso pae, nosso irmo, como um guerreiro.
Bradou, caindo-- Terra!  Minha Me!




*A PRIMAVERA*

     De Julio Forni


Hode dizer-me--Insensatos!
Que tenha novos amores,
Que brilham j outros soes,
De novo se abrem as flores
E  o tempo dos rouxinoes.

E diro inda depois:
Que a primavera comea,
E andam aromas no ar,
Que nos sobem  cabea,
Como um vinho singular.

E eu dir-lhes-hei: Que m'importa!
Faz frio, fechem-me a porta!
--Ella, o meu bem, meu abrigo,
Levou, desde que est morta,
A Primavera comsigo!




SEGUNDA PARTE

REALIDADES




*ACCUSAO A CHRISTO*

(A Theophilo Braga)


Bradava um dia ao Christo, ao Redemptor,
Satan, canado d'insultar os astros:
--Eis-te pendido ahi qual velha flor,
Propheta escarnecido nos teus rastros!...

V como a Egreja vae! baixel sem mastros!
Navio roto em mares do Equador!
E os seus padres tem ouros e alabastros,
E folga, Messalina sem pudor!

Tem lanado teu corpo aos ces e aos corvos!
Falsificado a Lei, cheia d'estorvos,
E fogueiras erguido,  Christo!  Cruz!...

Satan dizia mais... mas lenta e lenta,
Uma lagrima viu sanguinolenta
Escorregar na face de Jesus!




*DE NOUTE*

A Joo de Deus


Elle vinha da neve, dos trabalhos
Violentos, custosos, da enxada;
Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada,
Cosia junto  luz. O rijo vento
Batia contra a porta mal fechada.

Ao p havia um Christo, um ramo bento,
E uma estampa da Virgem, colorida,
Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida,
Vacillante nos ps, um candieiro;
Companheiros d'aquella negra vida.

O homem alto, pallido, trigueiro,
Entrou; tinha as feies queimadas, duras
Dos que andam com a enxada o dia inteiro.

A mulher abraou-o. As linhas puras
Do seu rosto contavam j tristezas
De grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
D'aquella vida assim! Talvez sonhado
Um dia, com palacios e riquezas!

Elle deitou-se a um canto; fatigado
D'erguer-se alta manh, todos os dias,
Mal voavam as pombas no telhado.

L fora, nuvens grossas e sombrias
No pesado horisonte; elle assim esteve;
--As noites eram asperas e frias.--

Ella cobriu-o d'uma manta leve
Esburacada, velha;--no telhado
Ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ella, ento, meditou no seu passado;
No seu primeiro beijo; nas lembranas
Talvez, do seu vestido de noivado.

E nas tardes das eiras; e das danas
s estrellas, e aquella vez primeira
Que a rosa lhe furtou das longas tranas!

E aquella tarde junto da amoreira,
Que trocaram as mos; e na janella;
E quando olhavam, juntos, a ribeira.

E quando era timida e singella...
..........................................
L fra, dava o vento nos caixilhos;
No brilhava no ceu nem uma estrella.

E, quella hora da noite, por que trilhos
Andariam no mundo--ella scismava--
Nas miserias, talvez, sem rumo, os filhos!

Elle na manta velha resonava.




*AQUELLE SABIO*


N'aquellas altas janellas
Que deitam para o telhado;
Eu vejo-o sempre encostado,
A namorar as estrellas.

Tem assim ares d'empyrico
Mui lido em philosophstros;
 um pobre poeta lyrico,
Que escreve cartas aos astros.

Traz luto nos seus vestidos
Por uma Ophelia de menos,
Tem uns cabellos compridos,
E uns olhos tristes, serenos.

Parece um Jove proscripto,
E j descrente das Ledas,
Conhece o hebraico, o sanscrito
E os livros santos dos Vedas.

Espelha na luz do olhar
No sei que vises amenas;
Anda sempre a imaginar
Idylios s aucenas.

E aquella mulher vaidosa
--Que elle chama a sua Egeria--
Ri d'aquella alma anciosa,
E aquella triste miseria...

..........................................
..........................................
..........................................

Mais de tres dias ou quatro
Que lhe falta o necessario;
Estava hontem no theatro
Com luvas cr de canario.




*NA TABERNA*

A Joo de Deus


       Vejo apontar o hynverno...
    os crepitantes frios
    Me aoutam as vidraas...
    (Francisco Manoel)


Alguns dormem nas mezas, debruados,
Junto aos restos de um vinho j bebido;
--Outros contam seus casos desgraados.--

Um d'elles alto, magro, mal vestido,
Conta historias d'amor, lanando fumo
D'um cachimbo de gesso ennegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os hombros, e um calvo, e j vermelho
Faz das suas miserias um resumo.

Depois conta que o pae ethico e velho
Lhe est para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa  escura, velha, ennegrecida
Do fumo. Noute velha, ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquellas frontes,
E em muitos esmagado o pensamento.

N'alguns extinguido, mesmo, as fontes
Da justia e do bem; e feito errar
No mundo, como os lobos pelos montes.

E o egoismo dos filhos e do Lar
Banido o d das lastimas estranhas;
E tornado-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas,
Outros o rio tem por seu visinho;
E com a Fome travam ms campanhas.

E--todos--tem o ar triste e mesquinho,
Dos que vo sem prazer, habituados,
Como a um somno que tira maus cuidados,

Beber as suas lagrimas com vinho.




*OS LOBOS*

     La neige batait les vitres...
     (Gustavo Droz)


Cae lentamente a neve em cima dos telhados.

Tres longos dias crus, terriveis so passados,
Que o rude lavrador anda por fra ao vento,
 neve, ao frio, ao sol, em busca de alimento,
E ainda no voltou. Um dos tres filhos chora;
Rija e sonoramente, a chuva cae l fra.

Quem sabe se vir? J tem corrido os dias:
Ella pobre mulher, viuva d'alegrias,
Magra, branca, doente, aspecto macerado,
Ha muito que presente um caso desgraado,
O assassinio talvez!... Ha horas malfadadas,
A miseria  sinistra e extensas as estradas!

Talvez pelo caminho, entre atalhos perdidos,
Na dura escurido matassem-n'o os bandidos;
A fome magra e escura a tudo obriga e atreve!
Talvez de sangue esteja, ainda, tinta a neve!

Elle era bom;--talvez um pouco rude e duro!
Mas  que a vida  triste e o seu trabalho escuro
 chuva, ao frio, aos soes, e entre o luar gelado
Faziam-o cruel; e s noutes embriagado
Talvez para esquecer, tinha--sinistro o vinho;
Mas, no entanto era o sol d'aquelle estreito ninho,
A Alegria, a Fora; e a fome macerada
Tinha-a espancado sempre a sua forte enxada!

Ento cheia de dr, pallida de receio,
Quiz il-o procurar, pegou n'um filho ao seio,
O mais novo, e accendeu tremendo uma lanterna.
Vinha, s vezes, no vento uns risos de taberna;
A noute era cruel, a chuva rija e fria;
Riam-se os pinheiraes, a solido gemia;
Corriam tradies de mortes e de roubos;
E ouvia-se, na neve, uivar de fome os lobos.

Se saisse talvez no encontrasse abrigo!

Os filhos, a chorar, pediam ir comsigo.
Um esfregava o rosto em prantos e cabellos,
Perto d'um gato esguio envolto entre novellos,
E outro roto e magro edefinhado, em pranto,
Soluava e tossia ao mesmo tempo a um canto.

Ambos elles sem cr, doentes, encovados,
Dormiam pelo cho, nos asperos sobrados,
Magros, cheios de febre, em farrapos, sombrios,
Sordidos, semi-ns e lividos dos frios,
E a manta esburacada e cheia de rasges;
De vez emquando, ao longe, ouviam-se os troves,
Caia fina a neve, a chuva terminra,
E como um grande alvor o meigo azul limpra!--
Ella saiu ento; na capa esburacada
Embrulhou bem o filho e foi-se pela estrada;
Mas, elles, a chorar, quizeram ir com ella,
E como o escuro azul tinha uma clara estrella
Deixou-os ir tambem--que um d'elles se o levava
Era por ser aquelle a quem o pae beijava,
E affagava, sorrindo, e enchendo de carinhos,
Quando o ia, aguardar  noute, nos caminhos!

A miseria  fatal! dorida fara escura
Que termina o christo latim da sepultura!

E assim pensava s, vestida de tristeza
A nervosa mulher, n'aquella natureza
Sombria, dura, m; por entre aquelles gelos,
E aquelle vento cru rasgando-lhe os cabellos:

Ella nascera s para a dr!--da Desgraa
Ha muito havia j que lhe amargra a taa!
No conhecera nunca os risos e agasalhos;
--Os miseraveis Deus s faz para os trabalhos!

E, quella hora, talvez, felizes e contentes,
Cheios do bom calor os ricos indolentes
Comeriam,  luz das vlas perfumadas,
Nas mesas sensuaes; e em quanto nas estradas
Pelos atalhos mus e as veredas sombrias,
Ella ia a tiritar por entre as nevoas fras.
Sem po, sem luz, sem Deus--alegres satisfeitos,
Elles riam, talvez, da chuva nos seus leitos!

O sol d'elles  bom!--Nos duros ceus serenos
Parece que no ha um Deus para os pequenos!

E continuava a errar por campos, por florestas;
Era o inverno cruel, tinham-se ido as giestas;
Iam sangrando os ps nos asperos espinhos;
A neve amortalhava os lividos caminhos.

Ah como os ricos so serenos e felizes!
--Elles sordidos, vis, podem comer raizes,
No ter lume nem po, andarem macilentos
s nevoas e aos soes e aos gelos dos relentos;
So os parias, os Jobs, os vis--e rejeitados
Como os mortos que traz o mar esverdeados!

E as mes se no sero leaes, boas, contentes!
Sempre os filhos com po, os filhos sempre quentes,
Cheios d'amor e sol, vestidos de cuidados
De beijos, d'affeies, d'arminhos, de bordados,
Amados seraphins, olympicos amores,
E quella hora talvez em leitos como em flores;
--Em quanto os seus, da fome encovados, immundos,
Tremendo d'ella ao p sublimes e profundos,
Sem po, talvez sem pae, sem leito brando e leve,
Choravam semi-ns, descalos pela neve!

Em toda a parte a neve amortalhava o sollo!

Por fim cada vez mais chorava o filho ao collo;
No rompia o luar, no tremia uma estrella;
Nem mesmo o proprio ceu se amerciava d'ella;
Lembrou-lhe as lendas ms de mortos e de roubos;
E ouviu-se j mais perto uivar de fome os lobos.

Cada vez, cada vez, se approximavam mais;

Ella poz-se a correr por selvas, por pinhaes;
Mas caiu-lhe a lanterna,--os filhos aturdidos
Aoutavam o ar de choros, de gemidos,
J tinha em sangue os ps dos rijos matagaes;
Os lobos cada vez se aproximavam mais!

Na sombra, ento, ouviu-se um grito lacerante,
Tinham levado um!...

                  Terrivel, n'este instante,
Voltou-se para traz, como hyena ferida,
Desvairada, feroz, tragica, enfebrecida,
Desejando rasgar, rugir, lutar tambem;
Mas logo na sua dr, lembrou-se que era me,
E que ia a expr os mais aos dentes aguados
Dos animaes crueis.--Elles, os desgraados,
Eram filhos tambem!--tambem seu corao!
--Fraca e vencida emfim poz-se a chorar ento.

Ella vivra sempre entregue  dura sorte,
To avara, cruel, que era mais doce a morte;
Sempre a escrava fiel da Familia, do Lar,
Das duras afflices; sabia s chorar;--
No invejra nunca as pompas nem os brilhos;
E at nem mesmo o Ceu lhe concedia os filhos!

Dir-se-hia a noute eterna, a noute desolada;
Comeou a correr nos campos desvairada;
Depois voltou atraz... ouviu-se um ai profundo;
Uivavam outra vez--Levaram-lhe o segundo.

Ento o medo escuro apederou-se d'ella!...
No se via no ceu tremer nem uma estrella,
A solido profunda, a nevoa fria, intensa,
E em toda a parte s chovendo a neve immensa.

Proseguiu a correr, louca, feroz, sem tino,
Quasi o filho a esmagar d'encontro ao seio fino,
Na dura escurido, chamando em altos brados
Os nomes immortaes, os symbolos sagrados;
Pedindo compaixo, miseravel, vencida,
Fraca, chorando j aquella negra vida,
Convulsa de terror;--mas, longe, lentamente,
Comearam a uivar os lobos, novamente.

De novo retomou a barbara carreira
Desalentada j; at que quasi  beira
D'um fosso aberto ali n'uma vereda escura,
Como um cadaver cae em uma sepultura,
Por fim, quebrada, hostil, olhando os negros ceus
Caiu cheia de dr, injuriando Deus.

No ceu surgia a lua--e j se ouvia agora,
Mais perto, elles uivar na solido sonora;--
Ali, ella aguardou que fossem devoral-a.
..........................................
Serena ergueu-se a lua, a lua cr d'opala!...




*MISERIA OCCULTA*


Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noute escura;
E o pobre astro que ali mra,
No abandona a costura!

Para uns a vida  d'abrolhos!
Para outros mouta de lyrios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martyrios!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem  que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!...

Ninguem seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquellas formas to puras,
E aquellas mos elegantes!

Sempre  costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer  rua
Aquella loura encantada!

Aquelle lyrio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!--no tem calado!
E  muito usado o vestido!

Por isso no tem porvir
Morrer virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouo tossir!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem  que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
To nova e ainda em boto!
Como teve estreita a vida,
Ter estreito o caixo!




*LISBOA*

     Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle este batie en
     marbre...
     (Baudelaire)


De certo, capital alguma n'este mundo
Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo,
Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas,
Mais tristes procisses, mais pallidas creanas,
Mais graves cathedraes--e ruas, onde a esteira
Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade  formosa e esbelta de manh!--
 mais alegre ento, mais limpida, mais s;
Com certo ar virginal ostenta suas graas,
Ha vida, confuso, murmurios pelas praas;
--E, s vezes, em roupo, uma violeta bella
Vem regar o _craveiro_ e assoma na janella.

A Cidade  beata--e, s lucidas estrellas,
O Vicio  noute sae s ruas e s viellas,
Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros;
E  triste e dubia luz dos baos candieiros,
--Em bairos sepulchraes, onde se do facadas--
Corre s vezes o sangue e o vinho nas caladas!

As mulheres so vs; mas altas e morenas,
D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas,
Ebrias de devoes, relendo as suas _Horas_;
--Outras fortes, crueis, os olhos cr d'amoras,
Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos...
--E s vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burguezes banaes so gordos, chos, contentes,
Amantes de Cupido, avaros, indolentes,
Graves nas procisses, nas festas e nos lutos,
Bastante sensuaes, bastante dissolutos;
Mas humildes crhistos!--e, em lugubres momentos,
Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

E assim ella se apraz n'um somno vegetal,
Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal!--
--Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura,
Como Nero tambem d concertos  lua,
E, em noutes de vero quando o luar consolla,
Pe ao peito a guitarra e a lyrica violla.

No entanto a sua vida  quasi intermitente,
Afunda-se na inao, feliz, gorda, contente;
Adora inda as aces dos seus navegadores
Velhos heroes do mar; detesta os pensadores;
Faz guerra a Vida,  Aco, ao Ideal--e ao cabo
 talvez a melhor amiga do Diabo!




*A SESTA DO SENHOR GLORIA*


 no fim do jantar. Deram tres horas
No bom relogio antigo dos avs,
E o senhor Gloria pega n'uma noz
Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada
E o estuque cheio d'aves, de paysagens,
De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens,
Tem uma forma antiga e recatada.

D'involta com seus goles de Madeira
A senhora digere o seu caf;
E ao lado, um filho rubido de p
Parece um pregador sobre a cadeira.

No collo da matrona dorme um gato
No melhor somno commodo do mundo,
Em quanto em baixo um co grave e profundo,
Contempla uns restos que inda esto n'um prato.

O senhor Gloria falla, chocarreiro,
Do seu cunhado Aleixo de Miranda;
L fra, um papagaio n'um poleiro
Diz cousas aos burguezes, da varanda.

Com um ar meio comico e boal
Um sisudo creado atraz, de p,
De vez em quando falla menos mal;
--O senhor Gloria aspira o seu caf

Muito tempo assim ficam n'esse estado
De santa somnolencia e beatitude,
Mais que asss conhecido da Virtude
Quando tem digerido e bem jantado.

No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes,
Contempla na parede os bons pastores,
Confidentes fieis dos seus amores,
--Que outrora ho j sorrido aos seus parentes

Duas pastoras fallam com poesia
N'uma vereda d'alamos annosos,--
E isto accorda-lhe os tempos virtuosos
Que a hora do jantar era ao meio dia!

Bellos tempos--pensa elle--de virtude!
De gloria, amor, coragem, f ardente,
De longas procisses, e de saude,
De singelesa e paz--vida contente!

E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro
Deita a cabea, de pensar prostrado;
--O papagaio ri no seu poleiro,
--E a senhora sorri para o criado.




*FARA TRISTE*

     Je suis son pre.
     (Flaubert)


Ninguem diria ao certo a edade que teria!
Era um velho devasso e histrio--bom guia
Para mostrar de noute, aos baos candieiros,
As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.

Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente;
Era alto, magro, hostil, e dava-se  aguardente--

Tinha um certo tremor em todo o corpo--o vinho
Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho
E dubio que nos faz arrepiar mau grado;--
Fra mendigo e actor, ladro, bobo e soldado.

Tinha os habitos vis e as _faras_ de caserna,
Ninguem sabia mais os casos de taberna;
Como era magro, esguio, e alto como um cypreste
Dobrava para o cho; o sopro do nordeste
Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos,
E uns oculos azues e linho nos ouvidos.

No entanto segue o Mal varios e negros trilhos!
O livido truo tinha mulher e filhos
Esfomeados, nus, amados com paixo;
Por elles fra tudo:--actor, bobo e ladro.

Quando voltava  noute, as lividas creanas
Rotas, velhas da fome, _ella_ soltas as tranas,
Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente,
Faziam-o chorar a vida e a aguardente.

Injuriava Deus. Elle  sublime e augusto,
Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo,
E habita so, feliz, de soes agasalhado,
Em quanto os _mais_ tem fome, e que elle acabrunhado

Era velho e ladro! Tinha accessos, delirios,
E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios,
Abraava a mulher e os filhos, e de novo
Saia;--d'esta vez, voltava com um roubo!

Quando voltava ento, os prantos da alegria
Tornavam-os boaes,--e o po era uma orgia!

A mulher tinha um rir alegre e natural,
E elle magro e faminto, exhausto, machinal,
Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno,
A misera, a desgraa; era boal e terno;
Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos
Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos
Sabiam comer bem! Eram emfim felizes!
No rojavam na terra a devorar raizes!
Comiam-lhe o seu po! Custara-lhe trabalho!
Coitados! sempre assim, sem po nem agasalho!
Era uma vida atroz, ingrata vil, escura!
No tinham de comer, no tinham cobertura!
Tossiam tanto  noute!--Ah! Deus era um ingrato!

E os prantos em roldo caham-lhe no prato.




*MADRIGAL DA RUA*


 irm das aucenas!
Meu corao  um horto,
Semeado de mais penas
Que as chagas d'um Christo morto.

Tanto  ver-te o meu desejo!
Tanto em mim poder conservas!
Que eu creio se no te vejo
J ser debaixo das hervas!

..........................................

Debaixo d'essas janellas
Sempre crueis e fechadas,
Hontem  noute, s estrellas,
Deram-me quatro facadas!

Mas nenhuma fez no peito
O mal,--que por minha cruz!
Os teus olhos me tem feito
Dando facadas de luz!




TERCEIRA PARTE

CARTEIRA DE UM PHANTHASISTA




*ANTES DE ABRIR A CARTEIRA*


Aqui leitor socegado!
Velho burguez d'outras eras!
Depe o livro de lado;
--No leias estas chimeras!

No corras esta carteira
Meu velho amigo sem dentes!
Em quanto geme a chaleira
Sonha em teus mortos parentes!

Mas vs amigos dos sonhos
Doces mysticas violetas,
Castos selvagens tristonhos,
E solitarios poetas!...

Que amais as tristes paysaygens
E as cousas mysteriosas,
A longa chuva, as viagens,
E as melodias nervosas.

Nas longas noutes d'outono
Que o vento varre a poeira,
E a chuva bate--sem somno!--
Folheae esta carteira!




*A NOUTE DO NOIVADO*


O primeiro conviva, em punho a taa,
Ergueu-se lentamente, e com voz rouca,
Bradou: Amigos! consenti que faa
Uma saude  Morte--a velha louca!

A minha historia  triste e muito pouca!
Eu como vs, sou filho da desgraa,
Amei uma s vez. Que mimo e graa!
Oh que p andaluz! que olhar, que boca!

Na noute do noivado--ouvi, devassos!
Beijei-a doudamente entre meus braos,
E atirei-a no mar, tremula e nua!

Ninguem no mais a gosar um dia!
Repousa ali a minha noiva fria,
Guardada pelo olhar frio da lua!




*A TORTURA DAS CHIMERAS*

     Les difices eloquentes...
     Balzac


Quantas vezes, nas noutes pluviosas,
Ou nas limpidas noutes estrelladas,
Como espectros de espinhos e de rosas--
Erguem-se em ns as cousas apagadas!

Que vezes, n'esta vida positiva,
--N'esta comedia lugubre moderna--
Se eleva a outra esphera nobre e viva
Nossa alma mais poetica, mais terna!

Os contornos das cousas despresadas,
Um fundo triste, um muro, umas ruinas
Um mosteiro, um luar--nas almas finas
So como umas celestes madrugadas.

Quem no ter jamais sentido um dia
As gostosas torturas do _mysterio_
Surgindo, ao fundo, a mystica elegia
D'um nevado luar n'um cemiterio!

Sim, nestes climas lucidos do Sul,
To propenso s vises sentimentaes
E s chimeras--quem no ter jmais
Tido a cruel _melancholia_ azul?

Sim, quantas vezes n'uma tarde bella,
 dorida eloquencia d'um castello,
D'um muro, no pensei nos Ceus, _n'aquella_
Que eu podia partir como um cabello!

Nuvens distantes, rubras, singulares,
Formas vagas... neblinas pardacentas,
Velhos musgos... azul... _cousas_ nevoentas
Sois causas de phantasticos pesares!

Quem no ter scismado em suas magoas
E amado as cousas mysticas, celestes,
Por um luar calado sobre as aguas
E um choroso sol posto entre os cyprestes!

No entanto sonhos vos que nos prendeis
Qual prendem velho muro as verdes heras...
-- tempo brancas pombas que deixeis
Os laranjaes e as ruas das chimeras!

E  tempo que as torturas assassinas
Que nos rasgam melhor do que um punhal,
--Bem o sabeis mos brancas, pequeninas!
Vos no junteis _miserias_ do Ideal!




*TARDE DE VERO*


Trepam-lhe pelas janellas
Jasmins, cheirosas serpentes,
E soltam-se as bambinellas
Em pregas indifferentes.

Os lyrios que so uns ais
Suspiram melancholias;
Riem quadros sensuaes
Nas largas tapearias.

Satyro ri nas florestas
Niobe solua magoas,
E escuta-se entre as giestas
A voz rythmica das agoas.

E  luz dubia dos occasos
Ensanguentados do Sul
As camelias dos seus vasos
Olham voltadas o azul.

L dentro das gelosias
Volteiam como desejos,
Perfumes, melancholias,
Como saudades de beijos.

Jaz ao p do seu bordado
Um cofre de filigrana,
E um mandarim espantado
Com olhos de procelana.

Uma violeta esfolhada
Chora um amor n'um jardim.
Uma vareta quebrada
Ri n'um leque de marfim.

Nadam no quarto perfumes
D'oleos, pomadas cheirosas,
Um collar mostra os seus lumes;
Voam aves gloriosas

N'um album perto olvidado
Ha uns idyllios d'amores,
E ao p d'um Christo chagado
Morrem nas jarras flores.

Mas, pasmada alheia a tudo
Junto d'um missal j velho,
Uma masc'ra de velludo
Olha idiota no espelho.

Olhos vasios d'espanto,
Olha, olha, nada v,
Ri-se uma Venus a um canto,
E um cravo murcha-lhe ao p.

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

Assim eu sou moo velho,
E em minha alma,  minha amada!
Como a masc'ra no espelho
Eu olho e no vejo... nada!




*NA CABECEIRA D'UM LEITO*


Quando as tuas mos inermes
Forem em cruz sobre o peito,
E que te roam os vermes
 corpo branco e perfeito!

E sejas cheia de terra
Boca cheia de risadas,
Chora este amor que me aterra...
Pelas noutes estrelladas!...




*MADRIGAL EXCENTRICO*


Tu que no temes a Morte,
Nem a sombra dos cyprestes,
Escuta, Lyrio do Norte,
Os meus canticos agrestes:

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

Tu ignoras os desgostos
D'um corao torturado,
Mais tristes do que os soes postos,
Ou de que um bobo espancado!

Eu bem sei,  Musa louca
Que no conheces a magoa...
E tens um riso na boca
Como um cravo aberto n'agua...

Eu bem sei... bem sei que ris
Dos meus madrigaes modernos.
Sem cuidar,  flor de liz!
Que ho de chegar-te os invernos!

Que nos corre a Mocidade,
Qual folha verde do val,
E ha de vir-te a tempestade,
 branco lyrio real!

Que has de ser como a aucena
Varrida pelo nordeste...
E os prantos da minha pena
Que ho de regar teu cypreste!

Que ha de a terra agreste e dura
Servir-te de ultimo leito...
E a pedra da sepultura
Quebrar teu corpo perfeito!

E has de, emfim, ser devorada
Na fria noute, entre os bichos...
 tu que andas adorada,
Como as santas sobre os nichos!...

--Eu bem sei que te no does
Do meu corao ralado,
E fazes aos rouxinoes
Parodias sobre o teclado.

Que amas ver--como n'um drama,
O meu corao ferido,
Como um gladiador de fama,
Sobre um theatro vencido.

--Ah! mas eu que j estou velho...
Carcomido como a Cruz...
Digo adeus ao ceu vermelho...
E s boas tardes de luz!

..........................................
..........................................

Adeus, adeus,  Amor!
Sinistra fara divina,
Mais sonoro que o tambor
De bohemia bailarina!

Adeus, adeus,  outomno!
Vo-se as folhas amarellas!...
Sinto-me cair de somno,
Olhando para as estrellas!

Sigam todos os meus rastros!...
Andei errado o caminho!
E sinto-me ebrio dos astros
Como um bebado de vinho!

Adeus, adeus rola amada!
No chores a minha viagem...
Vou hospedar-me no Nada,
Como na boa estalagem!

Adeus, adeus, Mocidade!
J chega o inverno do Mal!...
Vae despir-te a Tempestade
Nevado lyrio real!

Chegou a noite fechada!
Adeus tardes das janellas!
--Pintai-me agora no Nada
Sobre as tristes aquarellas!




*AQUELLA ORGIA*


Ns eramos uns dez ou onze convidados,
--Todos buscando o gozo e achando o abatimento,
E todos afinal vencidos e quebrados
No combate da Vida inutil e incruento.

Tocava o termo a ceia--e ia surgindo o alvor
Da madrugada vaga, etherea e crystallina,
A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor,
Branca como uma flor de prata florentina.

Todos riam sem causa.--A estolida batalha
Da Materia e da Luz travara-se afinal,
E eram j cr de vinho os risos e a toalha,
--E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.

Crusavam-se no ar ditos como facadas;
Escandalos de amor, historias sensuaes...
--Rolavam nos divans caindo, s gargalhadas,
Sujos como trues, torpes como animaes.

Um agitando o ar com risos desmanchados,
Recitava canes, faras, Hamlet e Ophelia;
--Outro perdido o olhar, e os braos encruzados,
De bruos, n'um divan, roia uma camelia!

Outros fingindo a dr, fallavam dos ausentes,
Das amantes, dos paes, com gritos d'afflico,
--Um brandia um punhal, com ditos incoherentes;
--Outro sobre um soph ladrava como um co.

Era um delirio atroz de risos pelos ares!
--Ah! mas eu, que s quero a paz dos vegetaes,
Feliz! ento feliz! matava os meus pesares
N'aquelle ocio imbecil da pedra e dos metaes!

Havia extinto em mim as ultimas scentelhas;--
Julgava achar-me s n'aquelle phrenesim,
No sentia pungir as minhas magoas velhas,
Feliz! muito feliz!--ah! descansava emfim!

Repousava a final da pallida batalha,
Espalhava-se em mim o grande esquecimento;
Cuidava achar-me emfim cingido da mortalha,
Ou minhas cinzas j dispersas pelo vento.

Quando um d'elles ento--n'uma ironia rude,
E erguendo-se de p, na vasta confuso,
Com um rir bestial ergueu uma saude
--_quella_ que tornou-me em cinza o corao!...

..........................................

--Ah! seu nome cruel, de subito lembrado,
De novo reabriu todas as minhas magoas!
E desfeito, de p, senti-me transmudado,
Como um morto trazido  praia pelas aguas!

E como o morto errante s luas silenciosas,
Ao vento, aos temporaes, s algas das mars,
Trazendo inda a viso das noutes tempestuosas,
--Todos calou o horror da minha pallidez.

E em lagrimas bradei, ento:-- Infelizes!
Imbecis! histries! heroes do Soffrimento!
Como haveis de fechar as vossas cicatrizes,
--Se nem aqui deixaes matar o pensamento?!




*O VISIONARIO ou Som e Cr*

(A Ea De Queiroz)


     Eu tenho ouvido as simphonias das plantas.


Eu sou um visionario, um sabio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer chymeras,
Em quanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus em cima faz as verdes primaveras.

Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem d'outras eras,
Talvez por um contacto ironico lavrado
Que fiz e j no sei talvez, n'outras espheras.

A espada da Theoria, o austero Pensamento,
No matou ainda em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os canticos do dia...

E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a musica das cres,
--E nas tintas da flr achei a Melodia!


II

       J'ai vu les Esprces et les Formes,
    j'ai vu l'Esprit des Choses.
    (Balzac Seraphita)


Bem sei que a planta engana e a Natureza mente,
E que a flexa do Sol nos pode assassinar,
Que a Peste torna o azul sereno e resplendente,
E que a prola sae das infeces do Mar!

Tudo  Materia e Fora e lei omnipotente!
E em quanto o lyrio incensa e azula-se o luar,
Impassivel talvez, em baixo, surdamente,
A terra cria a flr que me hade envenenar.

Bem sei! mas, na floresta immensa das Theorias,
Eu amo divagar ouvindo as melodias
Que as plantas musicaes do aos astros e aos Ceus.

Ah! eu vejo Jesus no corao das rosas!
S eu, ouo as leaes flores melodiosas!
E o lyrio  para mim a hostia onde est Deus!


III

     O vermelho deve ser como o som d'uma trombeta....
     (Um cego)


Allucina-me a Cr! A Rosa  como a Lyra,
A Lyra pelo tempo ha muito engrinaldada,
E  j velha a unio, a nupcia sagrada,
Entre a cr que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, s vezes, brota a flr que no inspira,
A trivial camelia, a branca enfastiada,
Muitas vezes no ar perpassa a nota alada
Como a perdida cr d'alguma flor que expira!

Ha plantas ideaes d'um cantico divino
Irmas do obo, gemeas do violino;
Ha gemidos no azul, gritos no carmezim!

A magnolia  uma harpa etherea e perfumada!...
E o cacto a larga flor, vermelha e ensanguentada,
Tem notas marciaes, sa como um clarim!


IV


Mas aquella que adoro, a hieratica duqueza,
Nobre como as reaes senhoras de Brabante,
Como a hei de pintar egual e semelhante,
Se no ha Som nem Cr em toda a Natureza!

Seu collo tem do lyrio a rigida firmeza,
Seu amor  um ceu catholico e distante;
Mas a luz do olhar sonoro e radiante
Eleva como a Cr, sa como a Belleza!

Nunca lhe ousei fallar, nem sei, se amor lhe inspiro;
Mas quando emfim morrer, ento como um suspiro
Meu seio florir, em vez do meu amor...

N'uma flor que por talvez sobre a janella--
Uma flor rubra e negra, em forma d'uma estrella,
--Como uma symphonia obscura de terror!




*MADRIGAL FUNEBRE*

     Na mortalha alheia no temos mais que fazer
     Bernardim Ribeiro.

     To die to sleep.
     (Shakspeare)


A ti que os meus ais resumes
Estas quadras dolorosas,
Corpo inundado em perfumes,
E de pomadas cheirosas:

..........................................
..........................................

A mim custa-me a morrer,
--No por que esta vida valha;
Mas porque sei que heide ter
Teu corao por mortalha.

E, depois d'estes abrolhos,
Hei de ter a valla escura
Do teu peito, e esses teus olhos
Coveiros da sepultura.

No terei pompas de pasmos,
Nem a estatua que lastma;
E ho de mandar pr-me em cima
Uma cruz dos teus sarcasmos!

E para que a morte atteste
Epitaphio de bocejos,
--E ao p erguido um cypreste,
Nascido dos meus dezejos.

E ao ouvires as enxadas
No que morreu sem confortos,
Sero tuas gargalhadas
As ladainhas dos mortos.

E ento ali que me ra
O verme dos teus olvidos,
E no tenha uma cora
E os teus cabellos fingidos.

..........................................
..........................................
..........................................

 filha v de Magdala!
Quanto cadaver desfeito
No tens lanado na valla
Voraz e fria do peito!?

Quantas crenas enterradas!
E que mortos, sem capellas,
Sem pombas, nas madrugadas,
Nem os prantos das estrellas!




*DEBAIXO D'UMA JANELLA*

A Batalha Reis

FAUSTO E MEPHISTOPHELES


FAUSTO

Nas noutes brancas de lua
 que se abrem as janellas!
Vem vr meus olhos escuros
A sementeira d'estrellas!

Quem me dera a mim que fosse
Para te poder fallar,
O teu peito uma janella
E o meu amor o luar!


Uma voz (_cantando dentro_)

As estrellas mais brilhantes,
Entre as outras as primeiras,
So os prantos de Maria
E o suor das Oliveiras.


MEPHISTOPHELES (_cantando n'uma guitarra_)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz,
Uma vez em casa de...
So cousas que o povo diz.


FAUSTO

Eu era um rei poderoso,
Sem legies, nem castellos,
Tendo a cora de teus braos,
E o manto de teus cabellos!

Meu amor, so os teus olhos,
Mais negros que a noute escura,
Dous trigueiros assassinos
Cavando-me a sepultura!


A voz (_cantando_)

Os rubins so umas pedras
Feitas de pingos de luz,
Foram as gotas de sangue
Dos roxos ps de Jesus.


MEPHISTOPHELES

Escrevi o meu amor
No muro do corao,
N'uma noute de relento,
Com teus olhos de carvo!


FAUSTO

Por que estaes, soes, encobertos,
 tristes olhos amenos!
Receias  minha esquiva!
No te crestem os serenos?


A voz (_cantando j ao longe_)

Quando subiu ao Ceu Christo
Depois da paixo da Cruz,
Subiu por vs,  estrellas!
Que sois escadas de luz!


MEPHISTOPHELES

Eu deixarei,  trigueira,
D'amar tuas tranas negras,
Quando mandarem os sapos
Sonetos s toutinegras.


FAUSTO

Fecharam-se as violetas
E dormem as andorinhas;
A mim ha muito que o somno
Desertou das noutes minhas!

 bem amada das almas,
To avara de carinhos!
Acaso nos teus canteiros
Smente crescem espinhos!

(_affastam-se e vo de brao dado_,)


MEPHISTOPHELES (_ao longe_)

O nosso bom arcebispo
Perdeu a sobrepeliz
Uma vez em casa de...
So cousas que o povo diz!




*A SELVAGEM*


s vezes, como os grandes _phantasistas_,
Sinto o desejo intenso das viagens...
E ir sosinho habitar entre os selvagens,
Como n'um ermo os asperos trapistas.

As grandes, vastas, limpidas paysagens,
Que sabem vr os immortaes artistas...
Teriam novos tons, novas imagens,
Longe do mondo avaro e as suas vistas!

Com uma virgem--flor d'essas montanhas--
Entre os mil sons das arvores extranhas,
Dos coqueiros, bambus... fra feliz!...

Dormiria em seus braos nus, lustrosos;--
E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,
Tintinar-lhe as argollas do nariz!




*A LANTERNA*


O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas,
Com a lanterna accesa, errante,  luz do dia,
Buscando o varo forte e justo da Utopia,
Privado de paixes e d'emoes terrenas.

Eu tambem que aborreo as cousas vs, pequenas
E que mais alto puz a s Philosophia,
Ha muito busco em vo--ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concepes serenas.

Tenho buscado em balde, e em vo por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a dr!...

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim s, n'um tedio indignado,
E apaguei a lanterna-- s um sonho o Amor!




*ULTIMA PHASE DA VIDA DE D. JUAN*

(AMOR DE COSINHA)


     Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigesto.
     (Palavras d'um grande realista)


Canado de vos fogos de Bengalla,
Como Pansa odeei o Pensamento,
E abandonei os ideaes de salla
--Pelo amor da cosinha succulento!

E os meus fortes desejos sensuaes,
--Desejos que ho de dar na morte escura!--
Soluam s-- deuses immortaes!
S pela ama d'um flordo cura.

Ella  o forte e esplendido ideal!
Seu cabello  mais fino do que o ouro,
E a sua voz mais bella que o metal,
E os cantos catholicos do cro.

Os seus labios vermelhos e discretos
Lembram roms das cercas clericaes,
E os seus olhos sombrios so mais pretos
Do que o latim escuro dos missaes!

Se, acaso, o mundo nota-lhe alguns erros,
Compensa-os para mim com bons presuntos;
Os olhos d'ella fazem mais defuntos,
Dos que o padre acompanha nos enterros!

Fugiu de mim a v melancholia!...
Ella  franca e alegre como a vinha...
E em quanto o padre est na sachristia
Eu devoro-lhe as aves na cosinha.

--Mas, hontem, que gosando o seu amor
Dormia, santamente, entre seus braos,
Bateu, tragicamente, o bom prior,
E a escada rangeu sob os seus passos...

O corao pulsou-me acelerado;
Ella estacou trmula e suspensa....
Mas levou-me a um sitio agasalhado,
--E dormi toda a noute na dispensa.




*A ULTIMA CEIA DE FALSTAFF*


Nunca mais me permitte a sorte crua
Que ande s portas batendo tresnoutado,
Vae morrer em beco, abandonado,
O maior bebedor que olhou a lua!

Dos braos da creada seminua
Nunca mais rolarei sobre o telhado;
E, ao relento, encherei, com passo errado,
De lettras cabalisticas a rua.

Vae morrer, morrer sim, por seus castigos,
O estomago que foi mais forte e cheio,
Que na Paschoa ceiou com Satanaz...

Cae o rival dos bebados antigos!
 toneis immortaes abri-lhe o seio!
--So-me fataes as ceias de _goraz_!--




*FALSTAFF MODERNO*

     In vino veritas


Quando eu morrer, ninguem ler no craneo
      Se eu fui mouro ou judeu,
Se presava o _cognac_ ou o _Madeira_,
      Que soffrer foi o meu!

Ninguem dir se era trigueiro ou louro,
      Se eu fui Pope ou Cames,
E os sabios no diro, coando a calva,
      A cr dos meus cales.

No sabero dizer se foi a pipa
      O hotel em que vivi,
E se fazia sol ou aguaceiros
      No dia em que nasci.

Se, apoz a douda orgia, o meu enterro
      Pela manh, sair,
Tu virs  janella bocejando,
      E em coifa de dormir.

E no conseguirs verter um pranto
      Do terno teu setim,
Em quanto os gordos padres iro lentos,
      Ressonando em latim!

Os annos jogaro com os mais craneos
      E o meu magro esqueleto
Uma especie de jogo das caveiras
      Dos coveiros d'Hamleto!

Ninguem, mulher, dir que _funda magoa_
      Minou meu corao!
E eu mandarei pr, por epitaphio!
      --Maldita indigesto!--

Mas que ideas to negras! O que importa
      Ra a terra mais um!
Depois da morte! o nada.  minhas lagrimas
      No me estragueis o _rhum_!




*NA RUA*


Veijo-a sempre passar sria, constante,
--s vezes, inclinada na janella,--
Tranquilla, fria, e pallido o semblante,
Como uma santa triste de capella.

Seu riso sem callor como o brilhante
No nosso labio o proprio riso gella,
E ella nasceu para chorar diante
D'um Christo n'uma estreita e escura cella.

Seu olhar virginal como as crianas
Jamais disse do amor as cousas mansas;
Jamais vergou da Fora ao choque rude.

Abrasa-a um fogo divinal secreto!--
eu sinto, mal a avisto, ao seu aspecto,
O brio intenso e negro da Virtude.




*PHANTASIAS DA LUA*

     Terret, lustrat, agit proserpiua, Luna, Diana, Ima, supernas,
     feras, sceptro, fulgore, sagitta.
     (Distico de Hieronim)


Hontem fui atravez dos arvoredos,
--Os bons carvalhos picos rugosos!--
Com _ella_, como dous novos esposos,
--E a lua ento contou-nos mil segredos!--

Ella vinha estreitada contra mim--
E atravez das veredas seculares,
Dava a lua umas sombras singulares
 sua alva botinha de setim!...

No haviam estatuas nas veredas,
--As estatuas crueis entre as ramagens!--
E ouvia-se o ranger das suas sedas
Sobre as folhas,--segindo-a como uns pagens.

Tremia todo unido contra o meu,
Como uma ave, seu brao palpitante;
E era vago, qual musica distante,
O azul nocturno mistico do Ceu.

De vez em quando unia contra a minha
A sua mo mais branca que um cyrio,
E como um casto amante uma rainha
Seguia atraz do seu vestido um lyrio.

As fontes tinham agoas de brilhantes;
E em quanto a sua voz vibrava em mim,
Eu fitava seus olhos avidos, amantes,
Na sua alva botinha de setim.

Ella  fragil e timida. Ama as rosas,
Cr nos sonhos, _vises_, nos malmequeres,--
E chora com as musicas nervosas
Como as debeis e mysticas mulheres.

No entanto mais ninguem do que eu receia
Seus pobres, frageis nervos delicados!
Ninguem mais me seduz do que a sereia,
Correndo a mo fransina nos teclados!

Iamos assim fallando d'escudeiros,
Paladins, lendas, dramas, toda a escura
Edade media, em quanto na espessura,
Os rouxinoes cantavam nos loureiros.

Mas eis que pra... e diz-me de repente,
Cravando-me o olhar tragico sublime,
--Mata-me um dia!--E eu li, perfeitamente,
--Em seus olhos _azues_ o _amor_ do Crime!--

Mata-me tu! cruel! disse-lhe eu rindo,
E em quanto o seu olhar errava em mim,--
E enterra-me depois n'um sitio lindo,
--N'um loureiro que cresce em teu jardim!

Minha alma ali ser perto da tua,
Como as almas irms, branca sereia,
E tremerei nas folhas, pela lua,
Ao sentir teus psinhos sobre a areia!

Manda pr o meu corpo em sitio lindo,
Debaixo d'um loureiro, em teu jardim;
Meu bem! Mata-me tu! disse-lhe rindo:--
Ensanguenta as botinhas de setim!

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................

E eis aqui como em noutes amorosas
Nestes bons climas callidos do Sul,
Produz sonhos, _chymeras_ monstruosas,
A triforme immortal--a lua azul!




*O SELVAGEM*

A Silva Qinto


Eu no amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
--Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo s commigo, amortalhado
N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regies dos crueis indifferentes,
Meu peito  um covil, onde, s escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E no vejo ninguem. Saio smente
Depois de pr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os ces ladram  lua...




*O AMOR DO VERMELHO*

(Nevrose d'um Lord.)


A ida de teu corpo branco amado,
Belleza esculptural e triumphante,
Persegue-me, mulher, a todo o instante,
--Como o assassino o sangue derramado!

Quando teu corpo pallido, e brijado,
Abandonas ao leito--palpitante,
Quem jmais comtemplou em noute amante,
Tentao mais cruel, tom mais nevado?!

No emtanto--duro, excentrico desejo!
--Quisera as vezes que a dormir te vejo
Tranquilla, branca, inerme, unida a mim....

Que o teu sangue corresse de repente,
Fascinao da Cr!--e extranhamente,
Te colorisse pallido marfim!




*A UM CORPO PERFEITO*


Nenhum corpo mais lacteo e sem defeito
Mais roseo, esculptural e femenino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Immovel, n, sobre o comprido leito!--

Nada te eguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matal-a, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquelle corpo sem rival, perfeito.

Por isso  muito altiva e apetecida;--
E o goso sensual de a vr vencida
Ha de ser forte, extranho e singular...

Como o das cousas dignas de castigo;
--Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.




*CARTA AO MAR*

      ondas fugitivas!...
     (Cames)


Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Corao sempre lyrico, choroso,
E terno visionario, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vae ter comtigo,
--Nada  mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu,--vasto e humido jazigo!

Nada  mais _triste_, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...
Mas tambem, quem te poude consollar?!

Tu s Fora, Arte, Amor, por excellencia!--
E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;
--A Musica  mais triste inda que o Mar!




*A LENDA DAS ROSAS*


No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

No tinha nuvens este sol na rota,
      Nem tormentas o Sul,
Nem era, como o olhar d'um idiota,
      Impassivel o azul!

No choravam no val escuros casos,
       noute, os tristes ventos!
Nem eram como hoje, nos occasos,
      Os ceus sanguinolentos!

Deus no tinha vibrado ainda o aoute
      A geraes inteiras,
Nem o Christo sura a longa noute
      No Jardim d'Oliveiras.

No andavam os tristes miseraveis
      Torcendo os braos ns!
Nem erravam na treva, inconsolaveis,
      Os expulsos da Luz.

E no haviam sangue ainda chorado
      Os santos nos desertos,
Nem no craneo do morto esverdeado
      Inda lyrios abertos!

No pisava inda um p selvas umbrosas
      E florestas bastas,
Os mares eram mansos!--sempre as rosas
    Eram brancas e castas!

No era cr de sangue assim vestida
      Inda a rosa vermelha,--
Nem o ceu tinha a cr desvanecida
      D'uma tunica velha.

..........................................

Toda uma noute, a Me primeira errante
      E todo um dia andou!
Da noute a branca luz de diamante
      Os passos lhe guiou.

E abandonavam seus pombaes as pombas
      Seguindo-a pela estrada!...
E o mar dizia ao vento: Por que zombas?
      Pobre me desgraada!

E as montanhas choravam;--pois poderam
      Prantos de me fendel-as!
E toda a noute pelo ceu correram
      Mais tristes as estrellas!

E o mar tinha uma voz dorida, como
      Na noute do Salem,
E quando o sol nasceu em rubro assomo
      Arrastava-se a Me!

E perguntava ao vento: Onde est elle?
      --Quem o meu filho viu?
E o vento respondeu:--No sei d'Abel!
      E o mar, ao fim, carpiu!

E arrastava-se assim no fim do dia--
      J quando toda exangue,
--Uma roseira avista que tingia
      A cr rubra do sangue:

Ento dorida estatua,--hirtos os passos,
      Ai de mim! ai de mim!
Gritou, convulsa a Me, torcendo os braos,
      Aqui passou Cain!

No principio eram mais doces os olhares
      Socegados de Deus!
Era mais verde o manto destes mares
      E mais azues os ceus!

E a Rosa era s _branca_, pura, exangue;
      --Pois que como hoje assim
No corrra sobre ella ainda o sangue
      Que derramou Cain!




*NO ENTERRO D'UM CORAO*

(A Betencourt Rodrigues)


Vaes a enterrar nas hervas verde-escuras,
Na fria terra,  santa, que devias
No ter roado estas paixes impuras,
E estas lepras,--irm das cotovias!

Vaes a enterrar sob as folhagens frias,
--Vz alegre, rir cheio de douras!
 lindo corao! que s te abrias
Para a dr das alheias amarguras!...

Vo-te levar  terra,  casto e amado!--
Mas olha!--os vegetaes tem mais cuidado
Dos seios virginaes do que a paixo!...

Adeus, triste!... Adeus peito amante e ardente!
--Quem me dra comtigo, juntamente,
Ir tambem a enterrar,  Corao!




*A JOVEN MISS*

     Tocar que impio se atreve!..
     (Flores do Campo)


Ella  to loura, lyrica, franzina,
To mimosa, quieta, e virginal,
Como uma bella virgem d'um missal
Toda dourada, e preciosa e fina!

No ha graa mais casta e femenina
Do que a d'ella! Seu riso angelical
Cria em ns todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Plato ensina!

Por isso; e pela sua castidade,
Deve ser goso intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em ns seus olhos regios!..

E o goso de a beijar trmula, amante,
Deve ser quasi extranho!--e semelhante
Ao de fazer terriveis sacrilegios.




*O DOENTE ROMANTICO*


Eu sei que morrerei, discreta amante,
Antes do inverno vir; mas, lentamente,
Quero morrer  tua luz radiante,
Como os tisicos  luz do sol poente!

Sou romantico assim! O tempo ardente
Das chimeras vae longe! Vo, constante,
Morrerei crendo em ti... e o azul distante
Olhando como um sabio ou um doente!...

--Mas, eu no preso a tarde ensanguentada...
Nem o rumor do Sol!--quero a calada
Noute brumosa junto do Oceano...

E assim, sem ai nem dr, entre a neblina,
Morrer-me, como morre a balsamina,
--E ouvindo, em sonho, os ais do teu piano.




*QUADRA D'UM DESCONHECIDO*


Eu morrerei,  languida trigueira!
Sem sentir teus cabellos sobre mim,
Coroado dos lumes da poncheira,
Sobre o cho immoral d'um botequim!




*EM VIAGEM*


Ia o vapr singrando velozmente
O verde mar antgo e caprixoso,
 rude voz do capito _Contente_,--
Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira,--a ilha bella,
A patria excelsa e celebre do vinho,
A viagem foi curta; e no caminho
Intentei relaes com _Arabella_.

Arabella era a lyrica ingleza,
Loura, pallida e fragil como um vime,
Que traz sempre a sua alma meiga presa
D'algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d'esses amores,
Era um rubro e excentrico burguez,
Mais amigo do bife que das flores,
--A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traioeiro
Tinha vises de sangue derramado
Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro,
--Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo;--
Vogava s vezes s no tombadilho,
Com um comprido e merencorio filho,
E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, s vezes, no mar o olhar sombrio;
E ao vento, a fita branca do chapeu
Dir-se-hia a vella triste d'um navio
De naufragos, n'um lugubre escarceu!

--Mas comtudo, a ingleza, a triste amante
Com seus longos e louros caracoes,
Fitava s vezes no azul distante,
Seus olhos divinaes como dous soes.

E, mau grado andar languida, doente,
Ser branca, loura, e fragil como um vime...
--Um sabio lra-lhe a attraco ardente
Pelas virs fascinaes do crime.




*NOUTES DE CHUVA*


Eu no sei,  meu bem, cheio de graas!
Se tu amas no Outomno--j sem rosas!--
A longa e lenta chuva nas vidraas,
E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que--visionarios--
Temos chymeras misticas, celestes,
E scismamos nos pobres solitarios
Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,
As chymeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,--
E os mortos coraes sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito
Cae o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas caladas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,
Todas cheias d'aromas outonaes,
Que a tristeza tem formas monstruosas
Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes s em que o sabio acha prazeres,
--To ignorados dos crueis profanos!--
E em que as nervosas, mysticas mulheres,
Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem!  que os poetas
Tem s vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheam suas obras predilectas...
--E evocam rostos... e vises distantes!




*IDYLIO MERIDIONAL*


Sem ti, vejo o meu futuro
Um horto cheio d'abrolhos!--
Ah no me deixem teus olhos
Por este caminho escuro!

No inverno, as candidas aves
Abandonam os pombaes,
Meu bem, teus olhos suaves
No me desterrem jmais!

Quando  tarde o ceu flameja,
Junto de ti encostado,
Que vezes, no tenho inveja
Da agulha do teu bordado!

Eu quizera a toda a hora
Cantar-te,  sol os meus dias!
Como os sonetos que  Aurora
Enviam as cotovias.

 labios que pedem beijos!
 brancas mos delicadas!
Voam a vs meus desejos
Quaes pombas ensanguentadas!..

 rival das aucenas!
Nenhum punhal faz no peito
As chagas que me tem feito
Essas tuas mos pequenas!

E, comtudo o amor s dura
Entre as lagrimas da magoa,
--Como uma violeta escura
Que se morre  mingoa de agoa!

Um horto todo d'abrolhos
Sem ti ser meu futuro!--
Ah! no me larguem teus olhos
Por este caminho escuro!




*DUAS QUADRAS DE DIOGENES NO ALBUM DE LAIS*


Quando no meu o teu olhar se esquece,
A minha alma, mulher!  como um urso
Que dana pelas feiras, e obdece
Ao magro saltimbanco e ao seu discurso.

E os meus velhos desejos violentos
Soluam--hystries esfomeados!--
Como os gatos noturnos, friorentos,
Que miam lamentosos nos telhados.




*A CAMELIA NEGRA*

    Por isso vos espera
    O dia da vingana!
    (Souza Caldas)


Como as urnas das rosas mal fechadas,
Cujos aromas boiam no poente,
Quando passas nossa alma aspira e sente
As sensaes das ilhas ignoradas.

E o teu cabello,  lubrica serpente!
Rescende todo a unguentos e a pomadas,
Como as mumias que habitam no Oriente,
Debaixo das pyramides sagradas.

Mas que te serve e val tanta fadiga,
 p doirado e vo? e o mundo diga:--
Meu leito, meu pomar de sensaes!!

Se o vento que hoje o teu sorrir perfuma
Na tua cruz soluar:--Mais uma
Dos monstros maternaes das graes!




*A ULTIMA SERENADA DO DIABO*


No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortezo,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Milo:

..........................................
..........................................
..........................................

 flores meigas,  Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
--Os alfinetes dourados!

S pelo amor quebro lanas!--
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranas
No brao d'esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!...
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lana que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia,  bem amadas!
Eu tornaria s alturas...
Subindo pelas escadas
Das vossas tranas escuras!

O amor que em meu peito cabe
No conta diques,  bellas!
S minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

 batalhas amorosas!
--Era d'aventuras cheia!
 brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

 flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
 brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

No me deixeis no abandono
 tristes olhos leaes!
Como as pombas, no outomno,
Que abandonam os pombaes!

Que fosse eu crucificado
N'alguma bem alta Cruz!...
--E vos tivesse a meu lado,
Como vos teve Jezus!...

Esses olhos me consomem!...
Mas, Mulher, da lucta ao cabo,
Se perdeste o antigo Homem...
--Tu matars o _Diabo_!




*A MUSA VERDE*[1]


     Il apellait l'absynthe sa muse verte
     (Les derniers bohmes)

     Io vidi gia al cominciar del giorno
     La parte oriental del ciel tutta rosata.
     (Dante. Purg.)


Infelizes!--os sujos, verdes limos,
Que vezes no tem visto os afogados!...
Coraes tantas vezes sobre os cimos
Do Ideal! e que o Vicio tem marcados!

Quem os leva por esses vis atalhos
Do Desespero, Fome e Suicidio,
E ao verde absintho e aos sordidos baralhos!
--Elles que leram Dante, Homero e Ovidio?

Quem os conduz?--A vil fatalidade
 quem os leva s perfidas ciladas?--
E  tal secreta e livida deidade
Quem lhes esmaga os craneos nas caladas?

Quem pois os empurrou, um dia--e disse:
--Aquece o Alcool... mais que o Paraizo!--
E nas cavadas faces da velhice
Gelou-lhes sempre, imbecilmente, o riso?

--Quem foi? Quem  que arrasta, eternamente,
A velha e a nova gerao que perde
O seu calor, seu sangue, febrilmente--
Aos braos infernaes da _Musa Verde_!?

A Miseria--a irm velha do Peccado,
--E o Luxo, o Mal!--to negros conselheiros!
So quem os faz, no asphalto abandonado,
Ver apagar, com dia, os candieiros?...

Ou ser, tambem,--goso triste insano
Da alma escura!--e nova podrido
Do homem de hoje, _blaz_ como um tyrano:
--De se sentir boiar na perdio?!




*IDYLIO D'ALDEIA*

    Oh! que harmonia!
      Cadente s'esvoaa pela fresta
      D'um visinho postigo!
    (Hostia d'ouro)


No sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!...
 mais branca a tua pelle,
Do que o linho de fiar!

 tua boca um boto,
E o teu riso a lua nova;--
Quem me dera ter na cova
Os _ais_ do teu corao!

Mal podes saber o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

Desde esse dia, andorinha!
Desde essa tarde infeliz,
Fiquei preso da _covinha_
Que fazes quando te ris!

No sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!...
 mais branca a tua pelle
Do que o linho de fiar!

A minha alma no descana;--
Morra o sol, ou surja a aurora,
S tu me lembras _creana_
De cabellos cr d'amora!

A tua doce ignorancia
To cheia de _singelesas_...
Faz todas as almas presas
Como as perguntas da infancia!

Tu s como um pomo d'ouro,
E o vivo sol que me alegras;
--Amo mais teu rir sonoro
Do que a voz das toutinegras!...

Quando eu fr a enterrar,
N'algum dia, ao pr do Sol,
Quero levar por lenol
S a luz do teu olhar!

..........................................

--Mas tu s vives cantando!--
E ao vir da fonte com agoa,
Mais sentes que estou penando,
Mais te ris da minha magoa!

Ah! nunca eu tivesse o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!




*CARTA S ESTRELLAS*


Ninguem soletra mais vossos mysterios
Grandes letras da Noute! sem cessar...
 tecidos de luz! rios ethereos,
Olhos _azues_ que amolleceis o Mar!...

O que fazeis dispersas pelo ar?!...
E ha que tempos ha j, fogos siderios,
Que ides assim como uns brandes funereos
Que levaes o Deus Padre a sepultar?!

Ha que tempos, dizei!--Ha muitos annos?...
E, com tudo, astros santos, deshumanos,
A vossa luz  sempre clara e egual!

Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!...
--Mas, tambem...  crueis! sempre distantes...
Como dos nossos braos o Ideal!




*NA FOLHA D'UM LIVRO*


Uma  a forma ideal do triste anjo vencido,
--A outra, a doce luz diaphana da manh!
E entre ellas chora e diz meu corao perdido:
--Em mim vencer Deus, ou ganhar Satan!?




*OS BRILHANTES*


No ha mulher mais pallida e mais fria,
E o seu olhar azul vago e sereno
Faz como o effeito d'um luar ameno
Na sua tez que  morbida e macia.

Como _Levana_... esta mulher sombria
Traz a Morte cruel ao seu aceno,
O Suicidio e a Dr!... Lembra do Rheno
Um conto,  luz crepuscular do dia.

Por isso eu nunca invejo os seus amantes!
--E em quanto hontem, gabavam seus brilhantes,
No theatro, com vistas fascinadas...

Tortura das vises... incomprehensiveis!
Em vez d'elles, cri ver brilhar--horriveis
E verdadeiras lagrimas geladas!




*O ASTROLOGO*

     Quem tem ouvidos que oua.


Quem tem ouvidos que oua, e o velho mundo
Que o aprenda de cr, pois que o que digo
 fructo d'um estudo egregio e fundo
Como a sciencia d'um Chaldeu antigo!

A Terra ha muito que  um charco immundo,
Vencida eternamente do Inimigo,
E ha muito lhe prevejo um fim profundo,
E um terrivel e tragico castigo!

Ora, hontem  noute, fui a um monte
Muito alto--e eis que avisto no horisonte
Dez signos, como em longa proscisso...

E esses signos, a mim que sou vidente,
Tinham formas de lettras, claramente,
--E n'essas lettras li DESTRUIO.




QUARTA PARTE

MYSTICISMO




*DEDICATORIA*


Este livro  dos poetas
E mais de vs--pombas minhas!
--Podeis-me ler, violetas!
--Podeis-me ler, andorinhas!




*OS DEUSES MORTOS*

( memoria de J. M. Fernandes)


     Parce diis


Eu nunca os insultei!... Se esto emfim vencidos
Silencio! Cubra luto a natureza inteira!
Nuvens dillacerae os pallidos vestidos!
Verte gotas de sangue,  flor da larangeira!

Onde estaes, onde estaes!--Extactica palmeira,
Viste acaso passar os grandes foragidos?
Onde esto Zeus Jesus?! Velhos cedros erguidos!
Nuvens, ventos e mar, guardae sua poeira!

Deixae-os descansar!--Luzentes mariposas,
Cuidado! no piqueis o corao das rosas!
Lavrador cava a Terra, a Terra, devagar!...

Silencio! Orpheu, Jesus, dormem no seu mysterio!
--A Natureza  toda um vasto cemiterio!
Eu nunca os insultei!--Deixae-os repousar!




*DEBAIXO DAS HERVAS*


Podesse ir eu comtigo que m'encantas
Como um vinho, no p da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braos das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova
Sentir os nossos pallidos abraos,
De noite, quando branca nos espaos,
Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram
Os meus olhos nos teus, adormecidos,
Dizel-as outra vez, j confundidos
Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranas,
Com que tu tantas vezes me vestiste,
Enlaarem-me ainda,  hora triste,
Em que os astros reluzem como lanas.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros
Dos cyprestes, dizer as cousas mil
Que diziamos,  triste! quando abril
Fazia colorir os teus canteiros.

E debruada estavas  janella
Nas horas religiosas do Poente,
Como a me que anciosa e docemente,
Espreita no horisonte a amada vella.

E quando amos depois as nossas magoas
Contarmos, pelo espesso das folhagens,
Cabellos desmanchados nas aragens,
E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes,
Quando ests debruada na costura,
E que inda nunca ouviu a terra dura,
E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste,
--Marco escuro da terra que nos come!
Enlaado tivesse o nosso nome,
Como um leno bordado que me dste!

..........................................
..........................................
..........................................

Podesse ir eu comtigo, que m'encantas
Como um vinho, no p da terra dura,
Dormir ambos na mesma sepultura,
Entre os braos das hervas e das plantas!




*A UMA VOZ CELESTE*

A. C. de Carvalho


Na noute que passou
O Christo no Calvario,
Um rouxinol cantou
Sobre a Cruz, solitario.

Os trigueiros soldados,
E os lyrios de Salem
Perguntavam pasmados
--Que voz canta to bem?

Como sentindo os males
Das suas proprias penas
Vergavam-se nos calix
Chorando as aucenas.

Choravam os caminhos,
Os dados, os cilicios,
A grinalda d'espinhos,
E a esponja dos supplicios.

Choravam os sem luz,
E os rijos peitos bravos,
--Comeavam na cruz
A vacillar os cravos.

Pelo tranquillo espao
Paravam as estrellas,
E o vagaroso passo
As mudas sentinellas.

E os peitos deshumanos
Resentiam mudanas;
--Deixavam os Romanos
Escorregar as lanas.

E a noute ali ficou...
Assim lembrando o Ceu!
--Quando Jesus morreu,
Do lenho emfim voou.

Ora eu mulher! que creio.
Que a Vida sae das lousas,
Eu que nos astros leio
E adoro a alma das rosas!

Que sei que o que hoje existe
Foi nuvem, flor, cypreste...
E escuto essa voz triste
A tua voz celeste!

Eterno visionario,
E adorador do Sol...
Creio que no Calvario
--Cantaste, rouxinol!




* POMBA QUE VOOU*


Foste-te,  luz das solides amenas!
 grandes olhos tristes, ideaes!
--Partiste, casta pomba d'alvas pennas,
Em procura dos lucidos pombaes!

..........................................

Tu ests hoje entre as hervas e as poeiras,
Ou cheia de celestes claridades!
 doce irm das rolas companheiras!
Por ti ouo chorar as larangeiras!
E de luto vestirem as saudades!

Ah! quantas vezes, n'este mar d'escolhos,
Comtemplando o azul duro e sem fim...
E os ps ensanguentados nos abrolhos,
Eu nas estrellas creio vr teus olhos
Que esto chorando lagrimas por mim!

Teu corpo est talvez, dilacerado
Entre as plantas escuras e as raizes!..
E, ah! que vezes talvez, n'um _ai_ cortado
No me ter teu seio immaculado
Entre as hervas bradado--_No me pizes_!

Por isso vou curvado para o cho
Com medo de pizar-vos, tranas bellas!
--E ah! quantos, como eu, tambem iro,
Correndo o mundo atraz d'uma illuso,
Ou soletrando as mysticas estrellas!

..........................................

Foste-te luz das solides amenas!
 grandes olhos trstes divinaes!...
--Partiste, casta pomba d'alvas pennas
Em procura dos lucidos pombaes!




*TRISTISSIMA*


N'um paiz longe, secreto,
Lendaria ilha affastada,
Jaz todo o dia sentada
N'um throno de marmor preto.

No seu palacio esculpido
No entram constellaes;
Os tectos dos seus salles
So todos d'ouro polido!

Nas largas escadarias
Sobem vassallos ao cento,
De noute sulua o vento
N'aquellas tapearias.

E pelas largas janellas
Fechadas, sempre corridas,
Ha flores desconhecidas
Que no olham as estrellas.

Na dextra segura um calix,
--Calix da Dr e da Magoa!
Onde est contida a agoa
E o sangue dos nossos males!

Pelas florestas sosinhas
Escuras, sem rouxinoes,
Erram chorando os Heroes,
E as desgraadas Rainhas.

Seguida,  noute, de servas,
Caminha, em cortejo mudo,
Rojando o negro velludo
De seu cabello nas hervas.

Smente ao vel-a passar
Ficam as almas surprezas;
--Ha todo um mar de tristezas
No abismo do seu olhar!




*IDYLLIO TRISTE*

     (A Lon de La vega)


Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
S minha Margarida!

Deixa que o alegre ria
Alma que me estremeces!
Que ruja fra a orgia
Os prantos, as _kermesses_!

Vamos a colher rosas,
Rola dos meus carinhos!
Pelos brancos caminhos
Nas noutes luminosas!

Sob esta curva azul
Amemos, bem amada!
Na torre levantada
Que gema o rei de Thule!

Que o mundo chore e gema
Em quanto o Tempo dura!
Da nossa noute escura
Faamos um poema!

Deixa na roca os linhos
Pomba dos meus amores!
E aos sabios e aos doutores
Os livros e os cadinhos!

E aos tristes, aos ascetas
As grutas, os cilicios,
E a esponja dos supplicios
Aos labios dos poetas!

Nas noutes estrelladas,
Amemos solitarios!
Deixemos as estradas
Que levam aos Calvarios!

Olha! sinto-me exhausto
Pomba da minha vida!
Eu serei o teu Fausto,
S minha Margarida!




*A UM LYRIO*

(A. A.)


Conta como  que existe
A tua vida  luz,
Lyrio mais casto e triste
Que os olhos de Jesus!

Quando nasceste, flor?
Quem te arrancou do cho?
Grou-te occulto amor
De morto corao?

 lyrio delicado!
 lyrio branco e fino!
Talvez fosses creado
N'um seio femenino!

Escuta  lyrio amado!
A flor confunde os sabios...
Talvez fosses os labios
D'aquella que hei amado!...

Talvez fosses seus dedos!
Seus olhos innocentes...
--Conta-me os gros segredos...
Profundos das sementes!...

O morto que se enterra
Leva as paixes secretas?...
Dize, se sob a terra,
Se amam as violetas!

Ouviste aves chorosas,
E o mar nos seus delirios?
--Quem  que pinta as rosas?
--Quem  que veste os lyrios?

J viste alguma estrella?
Viste uma lua nova!
--Abriste n'uma cella?
--Floriste n'uma cova?

O que  que mais desejas
De tudo quanto existe?
O amor?--O que  que invejas
Bom lyrio branco e triste?!

 vil sorte mesquinha!
E eterno desejar!
--Invejas a andorinha
Que va pelo ar!?




*A UMA ANDORINHA*


Nas brisas da tardinha
Pra teu vo um pouco;
Ouve um poeta, um louco,
--Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos;
Attende as vs loucuras,
--Tambem nas sepulturas
Vam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo
Quaes flexas vo cortando,
--Tambem riem, voando,
No cho do cemiterio!

Lavam os ps rosados
Nas urnas funeraes;
--Tu, mesmo, nos telhados
Moras das cathedraes!

No fujas d'um poeta,
Que ha nuvens mais sombrias!
--Tu j moraste uns dias
No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras
A primavera e o Sul,
Dize-me,--no alto azul,
Quem faz sempre as Auroras!

Quem d tintas vermelhas
Ao Sol poente que arde?
--Quem coze as nuvens velhas,
E accende o astro da tarde?

Os campos do renovos
Tambem, n'outras espheras?
--Quem faz as primaveras?
--Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
--Quem faz a pomba, cr
Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
--Dize, se nos planetas?...
Tambem ha andorinhas...

E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos--
Tens tudo o que desejas...
--Luz, gros, pelos caminhos!

 triste ambicionar!
 santo e vo delirio!
--Talvez,  filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!




*ENTRE OS ARVOREDOS*

     Calma silentia lunae.
     (Virgilio)


Recordas-te essa noute,  bella desgostosa!
Que ns andmos ss e tristes divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clares da lua silenciosa?!...

Callados e atravez da grande sombra escura
Dos cerrados pinhaes e augustos castanheiros,
Como as almas leaes e antigos companheiros,
Unidos a gemer a mesma desventura!

E eu sentia-te,  grande e triste Abandonada!
Em meu seio verter as tuas fundas maguas,
Ao rythmo trivial e nitido das aguas,
E  alva e fina luz da hostia levantada!

E andmos a gemer a nossa dr intensa,
E abrindo os coraes, os langidos segredos,
Aos ais soltos no ar dos grandes arvoredos,
E s vastas afflies da natureza immensa!

Que dr assim ser?--Que dr ser egual!
 quella immensa dr?  pallida vencida!
N'aquella natureza augusta e condoida,
E quella branca luz, mais fria que um punhal!...

..........................................

Ah! nunca mais vir,  branca desgostosa!
Aquella vez que ns andmos divagando,
Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando.
Aos lividos clares da lua silenciosa!...




*CONFISSO A UMA VIOLETA*


Eu confesso-me a ti, doce flor delicada!
Recolhida, modesta, e sol da singeleza,
Das vezes que atravez da verde natureza
Fiz soar com orgulho a bulha do meu nada!

Em vez de amar a vida humilde, ch, callada,
Do sabio estoico e so, exemplo d'inteireza,
Quantas vezes cuspi no Justo e na Belleza;
E cri-me o Fogo e a Luz da grao creada!

Orgulho! orgulho vo! Vaidade e mais vaidade!
Como disse o rei sabio e justo  claridade
Dos astros da Judea e ao gyro dos planetas!...

Feliz de quem como eu ri das Academias!
E estuda as novas leis e as grandes Theorias
Nas folhas femenis e meigas das violetas!




*A SUA CAMARA*[2]


No ar calado e bom da camara fechada,
Como um ninho d'amor, casto e silencioso,
Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso,
N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle;
Algumas flores vo morrer nas jarras finas,
--Elle sereno v, nas rendas das cortinas,
Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao p, s elle altivo  bello,
No seu vaso de jaspe, entre as demais existe,
--Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal,
Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua!
--Mysteriosa flor!--que caprixosa magoa
O vir a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol--a luz vermelha viva?
O sol que vae morrer--o bello agonisante!
Talvez que chore a lua--a lua pensativa!
Que lhe venha lavar a alvura soluante!

Quem foi a branca mo--olympica, divina,
A mo macia, ideal--traidora--que o colheu?
Que o foi roubar  terra, um dia, e que o prendeu
Na fria solido d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, s folhagens,
 bondade da luz--s noutes meigas bellas,
Exilado do sol, e orpho das paisagens,
O cravo virginal--viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa
A ninguem o dir seu calix pensativo,
E a morrer--morrer, calado, firme, altivo,
E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

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..........................................
..........................................

L fora morre o sol, como um desgosto humano,
Voam aromas bons no ar quente e calado;
Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado,
V-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes esto, nas preciosas telas,
Pintados menestreis, pastoras e guitarras,
Debruam-se os jasmins nas grades das janellas,
E os lyrios, como uns _ais_, morrem nas finas jarras.

Tudo agonisa ao p, n'aquella solido!...
--Solido de mulher distincta e perfumada!
Cuja pelle  talvez mais fina que a pomada,
E as farinhas d'Italia e as sedas do Industo!...

..........................................
..........................................

Tudo agonisa ao p,--s elle altivo e bello,
No seu vaso de jaspe entre as demais existe,
Como um rei infeliz n'um ultimo castello,
Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa,
--A _noiva_ a dona d'elle, occulta uma outra magua
No morto corao, mais morto que uma rosa,
E do que elle amanh na sua jarra d'agua!




*HORA MYSTICA*

     Hour of love
     (Byron. Parisina.)


Do pr do Sol quella luz sagrada,
Eu perdia-me...  hora doce e breve!
Meu peito junto ao seu collo de neve,--
--N'uma contemplao vaga e elevada!

Nossas almas s'erguiam, como deve
Erguer-se uma alma  Luz afortunada;
Do mar se ouvia a grande voz chorada;
--Palpitavam as pombas no ar leve!

Eu ento perguntei-lhe, baixo e brando:--
Em que mundos de luz  que caminhas?...
Que torre est tua alma architetando?...

--Ella travando as suas mos das minhas,
Me disse, ingenua, ento:--Estou scismando
No que diro, no ar, as andorinhas?!




*JUNTO DO MAR*


Que vezes viajando no Passado,!
--Nas horas das torturas das Chimeras--
--Meu bem!--scismo nas limpidas espheras,--
Junto do verde mar lento e chorado!

N'esses astros talvez j habitmos,
--N'outros tempos mais santos e felizes!
E,  nuvens! bem sabeis se entre as raizes
Dos mortos, para os soes nos elevmos!

Talvez que ali tambem fomos romeiros
Sedentos do Ideal--sem o encontrar!
--Melhor vs o sabeis, castos luzeiros!
 chorosa e sonora alma do Mar!

Talvez ali tambem--riste, amorosa...
Cantando entre as torturas assassinas!...
Como as rosas que tapam d'uma lousa
As vas escuras inscripes latinas!

Talvez tam bem choraste nos caminhos...
E alegre riste, s viraes contrarias,
Como,  meu bem, ao sol, os passarinhos
Riem dentro das urnas funerarias!

Talvez! qui! Talvez!-- Mar eterno!
Tu que s sonoro e minas os rochedos,
Duro sombrio, esguedelhado e terno...
Como a rabeca cheia de segredos!...

Tu que sabes d'antigas desventuras,
E que sabes chorar!... que s musical!...
Dize se encontras mais amargo sal
Do que os prantos das nossas amarguras!

E comtudo que s tu... mar lastimoso!
Guardando como o avaro um vo thesouro!...
Sempre vago, cruel, mysterioso...
--Seno d'um mundo extinto um longo choro!

E o que so essas vozes laceradas,
E,  gigante! essas vastas convulses,
Seno... seno... mortaes lamentaes
De cidades e egrejas sepultadas!

Que blasphemas! que choro vem do fundo
Do teu peito to largo e descontente!
--So talvez das gals do Novo Mundo,
Ou dos ricos navios do Oriente!

Quem tem na voz suspiros mais convulsos,
E mais duros e lugubres lamentos
Do que  tormenta, e aos desgrenhados ventos...
--O mar cheio de medos e soluos?!...

E quem como elle assim nos d confortos...
Ou balsamos leaes, desconhecidos,
Alento e amor aos coraes vencidos,
--E quem mais e melhor falla dos _mortos_!

..........................................
..........................................

Por isso eu irei _s_-- Mar eterno!
Triste e _s_, escutar-te entre os rochedos...
Duro, sombrio, esguedelhado e terno,
--Como a Harmonia cheia de segredos!...




*DOENTE*


Podesse eu junto a mim--eternamente!--
Sentir roar, meu bem! o teu vestido
E  ventura! o teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!

Caia do monte o cedro! a grande molle!
Que fenea a _herva prata_ l no val--
Que me importa!--e qual  meu grande mal
Que morra o cedro, e a planta s'estiole!...

Mas tu, meu bem! mais bella que a _herva prata_
Banhada pelo orvalho transparente...
No quero que te vs de mim, ingrata,
--Nem teu olhar, nem teu sorrir doente!

Mais depressa em mim ve ave agoureira...
E que o sepulcro avaro me abra os braos,
No veja herva crescer apoz meus passos,
--E me maldiga a flor da larangeira!

Mais depressa em meu leito morra o somno,
No brilhem mais no ceu constellaes,
Que as folhagens me lancem maldies,
--Nem hajam fructos para mim no outomno!...

Mais depressa que a vinha que conforta
Me negue a sua sombra!--Noute e dia
No luza para mim luz de Alegria,
--E que a Tristeza durma  minha porta!...

Por que tu, se te vaes--no teu lenol
Levars, doce riso dolorido!...
Como uns fios pegados n'um vestido,
Todos os raios d'ouro do meu Sol!

E, em tudo, julgarei vr teu vestido,
No mar, na estrella azul, nos ceus; em tudo;
--E quando, acaso, a fronte erguer do estudo
Faltar-me-ha o teu riso dolorido!

Por que tu tens disperso em meu caminho
O teu sorriso triste... ah! triste, e puro...
--E abrigarei depois... um odio escuro,
Mais rude do que um cardo, ou que um espinho!

E no mais, nada me ha de consolar!...
Nem a Estrella da tarde mensageira,
Nem o Amor, nem a flor da larangeira,
--Nem a sombria musica do Mar!...

..........................................
..........................................

Ah! podesse eu, meu bem! o teu vestido
Sentir roar por mim--eternamente!
E,  ventura! teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!...




*N'UM CEMITERIO*

     Surgite mortui.
     (Apocalypso)

     Invideo quia requiescunt.
     (Palavras de Luthero no cemiterio de Wormo)


Mortos! eu vos invejo!--As frias lagens
Cobrem-vos, hoje, os coraes desfeitos!...
As brancas pombas vam n'esses leitos...
E as meigas aves gemem nas folhagens!

A Natureza enflora os vis defeitos...
Ri nas estatuas, urnas, nas imagens!..
E, ahi emfim, contentes, satisfeitos,
Vs descansais das lugubres viagens!...

Mas comtudo, no inverno,  triste Morte,
Talvez seja mais duro o vento norte!...
E vos gele inda mais os ossos ns!...

Em quanto ns--ingratos! descuidados!--
Vos deixamos chorar, abandonados,
A poeira dos mortos feita luz!




*DESPEDIDA AO SOL*


Adeus, adeus,  Sol! gro moribundo
To amado dos mysticos amantes!
Vae dourando inda os ninhos e os mirantes
E os sinceiraes, o Mar, o velho mundo!

Vae! vae!  astro lyrico! no fundo
Das aguas apagar-te!... Os teus instantes
So curtos, corao largo e profundo!
Mas da minha amargura semelhantes!
E, no entanto, astro de fogo, astro tyrano!
Se a tua chaga  funda, no Oceano
Todo o teu sangue ali podes lavar!...

Mas eu recalco,  Sol! meu mal no seo...
Peja-me o pranto e a magoa!... e at receio
Que os ais da minha dr vibrem no ar!




QUINTA PARTE

HUMORISMO




*ARANHA*


N'um sonoro theatro antigo da Alemanha,
D'um violino aos ais, banhada de luz viva,
Surgia d'um covil uma grotesca aranha,
Dos banquetes do Som habitual conviva.

O ser sombrio e obscuro,  meu amor! no priva
Da adorao do Bello, a adorao extranha!
E assim se embriagava a escura pensativa
Da lyrica emoo que nossa alma banha!

Mataram-a uma vez. No mais a pobre amante
Da Musica, surgiu quella luz brilhante;
Foi-lhe o velho theatro a sua sepultura...

Assim preso tambem pela attraco que choro,
--No te rias cruel!  idolo que imploro!...
Tu s o Violino e eu sou a aranha escura!...




*NOVA BALLADA DO REI DE THULE*


N'um paiz nada visinho...
Em Thule at mui distante,
Houve outr'ora um rei farante,
Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel
Mimosa e cheia de graa,
Morreu, deixou-lhe uma taa
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taa que nada iguala!
--Ficava sempre ao esgotal-a,
El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,
De noute, at horas mortas,
Folgava, as pernas j tortas,
Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amisade cga
Legava a todos dinheiro,
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amisade em prova
A todos dava uma graa,
S aquella enorme taa
Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos bares,
Fez juntar para uma orgia,
N'uma sala, onde dormia
As suas indigestes.

E ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Comeou a vr, aos ventos,
Os seus castellos danar.

Assoma, trocando o p,
De taa em punho,  janella,
Mas n'isto, tropea... e ella
Vae levada da mar...

E afunda-se... mas tal revz
Tomba o rei morto de magoa!
--Era esta a primeira vez
Que a taa se enchia d'agua!




*PHANTAZIA D'UM ABORRECIDO*


Eu vivo s das multides distante,
E tenho um tom solemne grave e emphatico,
Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante,
Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso,
E tenho uns paradoxos meus protervos...
E entre elles conto um livro volumoso...
Em que explico o Remorso pelos nervos.

..........................................
..........................................

s vezes vou pensando,  tranas negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Que has de ainda, entre as plantas verde-negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braos lisos, indolentes,
Ho de os vermes travar a escura guerra,
Ho de infundir pavor, inda, esses dentes,
E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meter assombros
-- tu que fazes rastejar as lyras!
E sero ossos ns teus lisos hombros,
Costumados s leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas,
E eu estou fumando s portas dos cafs,
E que insultas as lepras e as desgraas,
Coberta de velludos e _plaquets_!

E eu penso  corpo esculptural, perfeito!
 corpo de Phryn cheio de graa!
Que has de ainda ser putrido e desfeito,
E tomar-te azotato de potassa!

E no ters ento,  minha impura!
Serenadas debaixo das janellas,
E escondida no p da sepultura
Ters medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos,
Inclinada e indolente sobre o brao,
Comtemplavas com olhos cubiosos,
As contorses e saltos d'um palhao.

E eu suffocando dentro os meus anhelos,
Soluava d'amor,  crua filha,
E exaltava-me o olor dos teus cabellos,
Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me,  tranas negras!
 cansados, mortaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verde negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu boto d'um dia!
Aucena que puz no peito o abrir!
Farei da tua tez fina e macia
Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trana azevichada
Um _cachenez_, por causa dos catarros
E ser no teu craneo,  minha amada!
Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas
Que enganaro as brancas borboletas!
E teus olhos, em jarras preciosas,
Olharo, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque
Porei sempre que saia de passeio...
E mandarei fazer um almanak
Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto
Com tuas longas cartas de namoro...
E ali passearei de illuses farto,
Como o avaro no meio do seu ouro!

E ento tu sers _minha_,  tranas negras!
Quebrados, sensuaes olhos celestes!
Quando fores, nas plantas verdes negras,
Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!




*EL DESDICHADO*


Ninguem pde dizer que soffro ou tenho;
Eu no amo a princeza da Golconda,
Nem da priso livral-a  meu empenho,
Qual paladim da Tavola Redonda.

E sinto-me ir minando; um mal extranho
Que ninguem sabe, e vista alguma sonda,
Me mata lentamente, como um lenho
Que vae levando, mar em fra, a onda.

Todas as tardes fujo ao sol poente;
Recolho cedo a casa, e durmo quente,
E a Medecina j me desengana...

E o meu mal  d'amor, e a minha amada...
Uma Chineza ideal, que vi pintada
N'uma taa de ch de porcelana!




*A VALENTINA DE LUCENA*


Eu tambem j em tempos no distantes,
Fiz versos sensuaes e namorados,
Aos occasos de luz ensanguentados,
E  meiga e boa lua dos amantes.

E escrevi pelos albuns elegantes
Idyllios em papeis assetinados,
E, como a luz dos ponches inflammados,
Fiz odes ideaes e extravagantes.

Mas hoje emfim mudei, e inda ha bem pouco,
A diva por quem choro e vivo louco,
--A flor, a flor ideal das maravilhas...

A minha deusa de cabello preto...
Pediu-me, rindo, a graa d'um soneto,
--E eu mandei-lhe uma caixa de pastilhas!




*PHANTASIAS*


Tenho, s vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lyrio amado!
E levar-te, em um vo arrebatado,
Aos paizes phantasticos, distantes.

 India, China ou o Iran, e os meus instantes
Passal-os a teus ps, grave e encrusado,
N'um tapete chinez, avelludado,
Com flores ideaes e extravagantes.

Nossa vida seria,  pomba minha!
Mais leve do que a aza da andorinha...
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeriamos os dois arroz cosido...
Emballados n'um junco de bambu!




*A BIOGRAPHIA DE SATAN*

Fragmento


Eu vou contar a grande lenda escura
Do fulminado tragico da Luz!
Seu antigo esplendor e sorte dura
Quando andava entre os povos da Escriptura,
E comprava os juizes de Jesus.

Elle  o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado,
E smente Satan  um pseudonymo;
 o auctor do Remorso e do Peccado,
O morcego da Biblia, e o co damnado
Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte,
Fez a guerra dos astros contra Deus;
Tem-lhe sido incostante e varia a sorte!
--Andava roto e pobre por Francfort
Nos bairos tortuosos dos Judeus.

 anjo expulso, triste e escarnecido,
Que foste mais fulgente do que o dia!
Deus adorado em Delphos e em Gnido!
Ah quem mais do que tu ter soffrido,
E teve essa ideal melancolia!

J Vier contra ti perdendo o tino,
Fez dos seus crs pamphletos um aoute;
Fez-te sonetos, lubricos o Aretino,
E S. Thomaz contou o teu destino,
E as aventuras clebres da noute.

Quem dir os espinhos que cingiste!
Quem pesar teu calix de agonias!
E quantos longos seculos carpiste
Aquella luz que cae maguada e triste,
 gro crucificado d'ironias!

Eu sei que hoje ests morto ou retirado,
 corvo escuro e mau do firmamento!
E que andavas no mundo envergonhado,
J doentio e calvo, e desdentado,
E que era o teu catarrho a voz do vento!

Tu foste sabio, confessor e medico
Nos tempos, legendarios, medivaes...
Tu eras visionario, vo, prophetico...
E o mocho que adejava escuro e ttrico
Nos conventos, egrejas, cathedraes...

Eu sei que foste tu que, um dia, impuro,
Tentaste a castidade de Rachel!
Em Delphos desvendavas o futuro...
E cheio d'um pavor tragico e escuro,
Deixaste envenenar-te Daniel.

Em Sodoma, na noute derradeira,
Tentas as filhas sensuaes de Loth!
Fazes de Roma toda uma fogueira!...
E s tu mesmo que escolhes a figueira
A Judas, natural d'Iscarioth.

Foi _elle_ que abrasou na carne, um dia,
A tribu sensual de Benjamin!
Prgou na cathedral d'Alexandria;
Era pae d'um senhor de Normandia...
Foi amigo de Nero e de Cain.

Ia tentar o asceta  sua cella
Nos claustros escuros do Occidente;--
Aos Magos escondeu nos cus a Estrella...
E andava disfarado em sentinella
Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.

Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos...
E era elle, o que andava entre as pelejas!...
Corrompeu os conselhos areopgicos;
E fazia roubar pelos seus magicos
As hostias consagradas nas egrejas.

Fazia distrair a S. Clemente
Com a bulha invisivel de corceis;
E era elle, nas horas do poente,
Quem apagava as luzes, de repente,
Quando oravam nos templos os fieis.

Tomava, s vezes ordens e a tonsura...
E benzia as prostradas povoaes;--
Fazia a voz ento austera e dura,
Explicava os segredos da Escriptura,
E cantava entre as lentas procisses...

Dava n'um tom dogmatico uma ida,
E vinha discutir com S. Thomaz;
Iniciava os sbios da Chalda,
E nos biblicos tempos da Judea
Andava a intrigar Christo com Caiphaz.

Tem no rosto o descor d'um fulminado;
--Era mulher nas lendas monacaes;
Outras vezes gigante e corcovado,
E vagava no mundo disfarado,
Como os deuses nas formas d'animaes.

Nas regies serenas, luminosas,
Encontram-se inda os seus lucidos rastros?...
 constellaes felizes, piedosas...
Inda, s noites, choraes silenciosas
A grande lucta biblica dos astros?...

Nasceu nas doces, puras regies?...
--Ah quem onde dir nasceu Satan?!...
--Nasceu entre as demais constellaes?
--Commandava as flammantes legies?...
E seria seu pae Leviathan?...

N'esse tempo do exilio as penas mestas
Jupiter no soffrera inda proscrito;
Apis no inventra suas festas...
No errava inda Pan pelas florestas,
E no ladrava Anubis no Egypto.

Pra aqui, n'este ponto, a humana vista!...
--Quem sabe se do velho Cahos nasceu?...
S quando contra Deus a lana enrista,
 que segundo, o eleito, o Evangelista...
No se acha mais o seu lugar no Ceu?...




*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*

(A Fernandes Costa)


Eu moro altivo  s n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia  soalheira...
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanas limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castells nos seus balces,
E gothicas varandas recostadas...
--Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procisses!...

Professo o culto s do _far niente_
Deitado, todo o dia, num colcho...
Na posio immovel d'um vidente...
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sulto.

 filhas do _spleen_ malfadadas
Vs poesias sem razo nem senso!
_ sebentas_ do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o gro senhor no deita o leno!...

E vs teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!...
 Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus,  astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu _fiat lux_!?

Sois vs que me escondeis, qual caracol,
E servs de cortina e bambinellas...
Quando eu declamo involto n'um lenol,
E as visinhas que esto tomando o Sol
A espreitar-me se pe entre as janellas!...

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia...
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casaco diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes esto phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvo:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofeto!

Mais ao p, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim...
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro...
Tendo n'um grande p chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortia...
E d'um truo a loura cabelleira...
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda  missa!

Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo...
E gosa da unio d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario...
Que canta a manh toda e a tarde inteira...
E tem deixado c para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como  que eu passo!...
Imita o som dos sinos indescretos...
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhao!

E assim eu vivo s n'uma trapeira...
Onde as pennas das pombas deixam rastros...
Exposta todo o dia  soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanas limpidas dos astros!




*BILHETE D'UM ESTUDANTE*


D'aquelle esguio telhado
--Onde tu sabes que eu moro,
Eu acho os astros d'um ouro
J bastante mareado!

Nenhum d'elles val a trana
Dos teus cabellos compridos!
Por isso meu peito lana
Ao teu telhado gemidos!

Se eu fosse Deus, minha amada!
--Dar-te-hia Satan m'esflle!--
Uma cartinha fechada,
Servindo de lacre o Sol.

Mas sou um predio em ruinas,
--No tenho nada commigo,
Sou um deus feito mendigo,
Que tomo o sol s esquinas.

Divago roto e contente!...
--Odeio um lente--e o Philyntho!
E sob este azul clemente,
Triumpho alegre e faminto!

Meus deuses so Vico e Dante!--
E gosto, no meu caminho,
Encontrar Minerva amante,
E as Musas cheias de vinho.

Como um barco sem amarra,
Navego, turgidas vellas,
E desafio as estrellas,
 noute, sobre a guitarra!

E a cabello louro ou preto--
--Fragillidades do barro!
Envio sempre um soneto
Na mortalha d'um cigarro!

Erro sem norte e sem tino!
--Ninguem m'estende o seu brao!
Quer-me por fora o destino
Comendador ou palhao!


*Postscriptum.*

Desculpa-me, flor amada!
-- minha Musa divina!
No fui hontem  escada,
Por que empenhei a batina!...




*A LADY*


Aquella que me tem agora, presa
Minha alma, meus sentidos, meus cuidados,
E me faz sonhar sonhos desmanchados,
 uma altiva, uma olympica ingleza.

Nunca typo ideal de mais pureza
Vi nos gothicos quadros mais presados,
Seus dces olhos castos e velados
Tem um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha,
Fronte grega, e um ar grande de Rainha;
E umas mos, como as ladys de Van Dick.

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,
 por ella que eu morro, lentamente...
E ponho no bigode _csmtique_.




*DEDICATORIA D'UM LIVRO*


A Ti, a quem, eu, sempre, em meus idyllios,
    Sublimo, em phrases ternas...
Te dedico, eu, vergonha dos Virgilios!
    Estas rimas _modernas_.

Para que, minha fama, inda hoje escura,
    A tua boca espalhe,
Ao lel-as, no intervallo da leitura
    Das obras de _Terrail_.

E as guardes na gaveta, onde costumas
    Guardar os teus velinos...
Entre os frascos, essencias, mais as plumas,
    E os novos figurinos.

Que possam occupar teus pensamentos
    Meus lyricos ensaios!...
E,  meu bem! lhes concedas os momentos
    Que ds aos teus lacaios

E vejas quanto em mim  aviltante
    O amor das frmas tuas...
Que me faz baixo, vil e semelhante
    Aos histries das ruas.

A Ti, que com teu rir sempre me animas
    A sagrar-te em meus motes,
Dedico eu estas modernas rimas
    Para os teus... _papelotes_.




*HUMORISMO MYSTICO*

(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)


Quando eu morrer, se acaso inda presares
Aquellas nossas digresses antigas
Ao verde campo, e as joviaes cantigas
Da aldeia inda apagar os teus pezares...

Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grande muro branco...
Te lembram... e te vaes sentar no banco
s tardes... junto s tilias do caminho!...

Se, acaso, aquelle nome solitario
Que eu fui gravar um dia no pinheiro,
Vinha descendo o sol... como um guerreiro
Cheio de sangue... atraz do campanhrio...

Se, acaso, aquelle nome o tronco duro
Inda o guardou fiel!... e a larangeira!...
E eu no passei por este val escuro
Como uma ave lugubre e estrangeira!...

Se acaso inda te lembra d'esse, a quem
Tanta vez tu vestiste com as tranas!...
E  cova em que eu jazer vier _alguem_...
Sem ser as meigas pombas e as creanas!...

Se acaso aquelle fogo em que te abrasas
Inda no se apagou!... nem o encanto!...
--Mais que a ideal palpitao das azas,
Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!

E n'essa cova ento bella e dourada,
--Como a nossa unio antiga e calma!
Colhe tu uma flor branca e raiada...
--Que n'essa flor te enviarei minha alma!

Toma cuidado n'ella... Ali se encerra
O que amaste!... e, ah! no vs como as mulheres
Curiosas d'amor, lanando  terra
As folhas virginaes dos _malmequeres_!...

Planta-a dentro d'um vaso predilecto...
Entre os outros,  luz... sobre a sacada...
E eu gosarei como um praser secreto,
Sentindo a tua mo pequena e amada!...

Ser esse o meu goso derradeiro!...
O meu sol, meu azul, o meu espao!...
E ao sentir-me regar pelo teu brao...
Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro...

Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grade muro branco...
--E quando iamos fallar no velho banco,
s tardes... junto s tilias do caminho!




*O CANNIBAL*

(A C. Verde)


Tenho, defronte, uma visinha loura
Cuja carne alva, fina e setinosa,
Faz lembrar, quando  tarde o sol descra,
A cr humana pallida da rosa.--

No  fragil, nem debil, vaporosa,
Como as virgens mortaes que a luz no doura,
Antes  forte, esbelta e a voz sonora,
--Tranquilla e altivamente magestosa!

Nasceu formada assim para os amores;
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, no tem rival!...

Ao vel-a os D. Juans baixam a falla!...
--Mas quanto a mim... quisera _devoral-a_...
Com a fome imbecil d'um cannibal!




*ROMANTISMO*


Quando ergue o transparente da janella,
Ou que o seu quarto se innundou de luz,
Eu amo vel-a seductora e bella
--Longos cabellos sobre os hombros nus!

Oh como  bella! e como fico a olhar
Dos seus cabellos desatando a fita!...
Lembram-me as virgens que do austero ermita
Vinham as noutes d'oraes tentar!

Oh como  bella! Tem na luz do olhar
Quaes violetas quando as fecha o somno,
No sei que doce ou languido abandono,
No sei que triste que nos faz scismar!

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seu gestos vrios...
N'aquelle quarto, aquelle ninho cheio
Da doce voz dos joviaes canarios!...

Como eu quisera ser nos sonhos d'ella
Um rei das lendas, o fatal _D. Juan_,
Pirata mouro em galees  vella,
Com minaretes sob o ceu do Iran!

Como eu quizera--e que vontade intensa!--
S pelo brilho d'essa longa trana!
Ser cavalleiro d'invencivel lana,
Ou rei normando d'uma ilha immensa!

Como eu quizera, no seu pensamento,
Ser o rei bardo no rochedo duro,
E ambos fugindo, recortar o vento,
Sobre a garupa d'um cavallo escuro!

Se me morresse, que comprido choro!...
Como vergra sob a cruz da Malta!
Como eu deitara a minha taa d'ouro
Por causa d'ella d'uma torre alta!...

..........................................

E assim por ella fico preso, em quanto
O sol s'esconde no occidente triste,
Um cravo murcha n'uma jarra, a um canto,
--E as aves vam debicando o alpiste!




*AVENTURAS*


Tenho bem fundo, ainda, a sua imagem
Gravada na minha alma. Era alta e bella;
Tomei _cognac_ muita vez com ella,
E aos circos a levei de carruagem.

Era nervosa e lyrica. De pagem
No faltavam _Destins_ quella Estrella,
Lembra-me ainda a scena da janella,
E aquella em que morria na estalagem.

Depois viajou muito. Foi a Hespanha,
A Frana; Italia; Londres; a Allemanha;
Teve um naufragio, junto de Delhi.

Um corsario vendeu-a na Turquia;
--E hoje, ahi, vive, emfim, e leva o dia
A enxotar as moscas d'um _kadi_.




*O INCONVENIENTE DE MATAR A MULHER*

(A Alexandre Dumas Filho)[3]


Matei-a!... Sobre o leito desmanchado
Morreu!... Mas o remorso me pova!
E, agora, vago solitario e  ta,
N'uma tristeza immensa despenhado!

Quando o punhal no arminho immaculado
Enterrei... Sempre a mgoa me corra!
Ella chorou, gritando-me... _Perda_!
_Morro_!... e morreu!...  lyrio ensanguentado!

E agora aonde irei! Horror! Tortura!...
O ceo  o seu olhar! A noute escura
Lembra-me sempre o seu cabello preto!...

E,  supplicio dos crimes verdadeiros!
--Ouo, em chusma, gritarem-me os livreiros:
_Quando  que sae agora o seu folheto_?...




*UM BLAS*

(A S. Nazareth)


Olhando o mundo assim com ar d'enfado,
Casaco abotoado e de luneta,
Caminha com ar grave no Chiado,
Com ar de quem achou algum planeta.

Dizem que nutre uma paixo secreta
Este Musset dos homens ignorado,
E pulsa um corao esphacelado,
Ali debaixo da casaca preta.

A todos diz ha muito andar _blas_...
E falla em vasar copos d'absyntho,
Como quem bebe orchata ou capil!...

Mas, Bacho!  ceus! perdoem-me se minto!
Referem que uma noute, n'um caf,
Acharam-o a libar do... _vinho tinto_!




*O VELHO*


D'entre os males crueis da Humanidade,
A que os vis animaes esto sujeitos,
Nenhum mais triste e cheio de defeitos...
Do que a dura e imbecil senilidade!

N'esta quadra de prantos e saudade,
Ha velhos d'alvas barbas sobre os peitos,
Que nos fazem lembrar, pelos seus geitos,
Orang-otangos de provecta edade.

E eu vi um velho assim!... Seus fortes braos...
Tinham como a rijesa dos bons aos...
E os seus gestos seriam d'um guerreiro...

Se no fossem seus labios j sem dentes,
Fazendo uns gestos comicos, ridentes...
--Como um macaco em cima d'um coqueiro!...




SEXTA PARTE

RUINAS




*FARRAPOS*

(A Oliveira Martins)


A ALMA

  Estou lassa de ti, mundo em ruinas!--
  Velho mundo cruel! nada m'ensinas!
      De grande ao corao!
  Acaso ests to gasto e gangrenado?!


A CARNE

  --Ah como  bom, sob este azul arcado,
      Fazer a digesto!


A ALMA

  Prefiro antes cerrar-me solitaria
  A ss e o ideal-- visionaria
      Grande ambio do bem!
  Como  que o vicio affronta as violetas?!...


A CARNE

  Que olhos to sensuaes! que tranas pretas
      Que a quella mulher tem?--


A ALMA

  Cansada de soffrer, em vo anceio
  O Justo, o Bello!-- terra, abre-me o seio!
      Bastante, emfim soffri!
  Estou lassa do Vicio, e da Impostura!


A CARNE

  Dizem que a terra  fria, a cova escura,
      E tudo acaba ahi!


A ALMA

  Estes tempos so vis, e sem virtude!
  Os corpos sem valor e sem saude,
      Os peitos sem amor!


A CARNE

  Mas ha _corpos_ mui brancos e perfeitos!
  Olhos cheios de luz--formosos peitos,
      Tranas de negra cr!...

  Ha noutes de prazer pelo caminho!
  E abunda muito velho e forte vinho
      Sem ser falsificado!

  Nem tudo  luto e dr!--Ha muito riso!
  --E  mais quente que o antigo Paraiso
      O seio do Peccado!


A ALMA

  A Morte, a Morte,  o termo das tristezas!
   ali que emfim livres das torpezas!
      Se pode ser feliz!


A CARNE

  Mas, mau grado essas nobres _theorias_,
  --O que passar por mim, findos dous dias,
      Tapar o nariz!


A ALMA

  O que importa!--Melhor  que pereas!...
  Antes na terra ali tu apodreas...
      Do que eu, n'estas paixes!...


A CARNE

  Assim ser talvez! Santas doutrinas!
  Mas as pernas gentis das danarinas
      Teem grandes tentaes!


A ALMA

  Calculos vos! Contemplaes pequenas!
  --Seculo vil d'aspiraes terrenas,
      Cain do Pensamento!
  Matas as creanas e bons sonhos puros!


A CARNE

  Vou vr se ponho um capital a juros,
      Que d _cento_ por cento!


A ALMA

  Hontem, foram levar  sepultura
  Uma santa mulher formosa e pura,
      Celeste, livre d'erros!...
  To virginal!... Ninguem lhe orou na cova!


A CARNE

  Mandei fazer uma casaca nova
      Para os grandes enterros!--


A ALMA

  Nada  mais triumphante que o Egoismo,
  A ambio de brilhar, o vil cynismo,
      --E, n'este carnaval...
Custa a encontrar um peito bom, sincero!..


A CARNE

  Foram-se os castelles, o negro clero!
      --Saude ao _Capital_!...


A ALMA

  O Capital, bem sei!--A eterna historia
  Do assassinio das honras e da gloria,
      Do talento e da Idea!...
  Vil raa de tyranos e bandidos!...


A CARNE

  Silencio! que as paredes tem ouvidos!...
      --Cuidado na Cadeia!


A ALMA

  Tem quebrantado as almas, as mais fortes!
  --Tyrano algum j mais fez tantas mortes,
      Nem mais vis proscripes!


A CARNE

  Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade,
  Guardar a Lei... firmou a _Propriedade_,
      _O juro_ e as _inscripes_!


A ALMA

   elle o protector dos seus _direitos_!
  -- nobres coraes, sem fel nos peitos,
      Simples castos e bons!
  Deixae-vos fuzillar por essas ruas...
    Que vos afoguem as creanas nuas,
      Sem sangue e sem _coupons_!

  Deixae que o _senhor_ goze-- Natureza!
  Curvae-vos, passa agora Sua Altesa
      Que o mundo assim dispz!
  Callae-vos rouxinoes melodiosos!...


A CARNE

  No sei por que!--So muito saborosos
      Cosidos com arroz!


A ALMA

  Velho bezerro d'ouro sobe ao throno!
  -- alma escura,  terra,  abandono!...
      A vil devassido...
  Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!...


A CARNE

  Se as meigas andorinhas mais os sapos
      Fizeram unio!


A ALMA

   isso! O Capital faz maravilhas!
  Elle bem sabe s Mes comprar as filhas,
      Dal-as ao lupanar!
  Roubar as crenas, honras e a saude!...


A CARNE

  No fazem mais, amantes da Virtude,
      Que dar-lhes de jantar!


A ALMA

  Quantas tristes que a tysica asphixia...
  Sem po, sem ar, cosendo noute e dia,
      Vo nas garras do ar...
  Cair cheias d'opprobrios e martyrios!...


A CARNE

  --Obedecem os sapos mais os lyrios
       lei do eterno amor!


A ALMA

  Isto est desabando!... Homens cruentos!
  Lanae ao mundo novos fundamentos!...
      Venha o Direito e a Lei!
  Venha armada, a Justia vingadora,
  E que na grande ceifa... a espiga loura...


A CARNE

      Que horror!... bem sei! bem sei!...


A ALMA

  Vises, vises talvez! Mas preso e adoro
  Estes sonhos vermelhos e cr do ouro
      De luta, vida e Aco...
  Se no fosse inda a crena santa e ardente!...


A CARNE

  --Deixa-me louca em paz--e emfim consente
      Que faa a digesto!...




*AOS VENCIDOS*


Quando  que emfim vir o claro dia,
--O dia glorioso e suspirado!--
Que no corra mais sangue, esperdiado
 luz do Sol que os mundos alumia?!--

Que os _vencidos_ no vejam a agonia
Do seu tecto de colmo incendiado,
E se oua retumbar o monte e o prado,
Ao tropel da velloz cavallaria?!

Quando  que isto ser?--Quando na vida,
Vir ella, a doce hora promettida,
Hora cheia d'amor, e desejada!...

Em que fataes Cains, fartos da guerra,
Nosso sangue no beba mais a terra...
--E nem mesmo a Justia use d'Espada?!




*O MUNDO VELHO*


Nas crises d'este tempo desgraado,
Quando nos pomos tristes a espalhar
Os olhos pela historia do passado...
Quem no ver, contente ou consternado,
--Mundo velho que ests a desabar--?!...

Sim tu ests a morrer, vil socio antigo...
E Pae de nossos vicios e paixes!
Camarada dos crimes, torpe amigo...
--Morre, emfim, correr no teu jazigo,
Em vez de vinho, o sangue das naes!

Deves morrer, provecto criminoso!
Tens vivido de mais, vil sensual!
Tu ests velho, cansado e desgostoso,
E, como um velho principe gotoso,
Ris, cruelmente, s sensaes do mal.

--Que  feito do teu Deus, do teu Direito?
--Onde esto as vises dos teus prophetas?
--Quem te deu esse orgulho satisfeito?
Muribundo Caiphaz, junto ao teu leito,
Morrem, debalde, os gritos dos poetas!

No tempo em que eras forte, foi teu brao
Que apunhalou os grandes ideaes!...
Hoje ests gordo, sensural, devasso,
E andas, torpe a rir, como um palhao,
N'um circulo lusente de punhaes.

Tu tens vendido os justos no mercado!
Crucificado o nobre, o bello e o bom!
Vaes cahir templo pdre e abandonado,
No  voz de Jesus ensanguentado,
--Mas ao verbo sinistro de Proudhon.

 elle que te arrasta ao teu jasigo,
Andas vergado  sua maldio!
Cambalas ao funebre castigo,
E passas corcovado como o antigo,
Escravo, sob o lenho da paixo!

O seu grande claro inda t'innunda,
Fulminou-te, morcgo,  sua luz!
Marcou-te a conscienia rta e immunda,
E a chaga que te abriu  mais profunda
Que a do lado direito de Jesus!

Nenhum deus, j ninguem pde cural-a!
Has-de morrer, caido amphytrio;
 essa a dr eterna que te rala,
--Manda erguer o caixo na tua salla,
Prepara o funerario cantocho!

Tu tens quebrado os peitos mais robustos,
Tens dado aos santos o vinagre e o fel...
--Bom conviva de Nero e dos Procustos,
Andas ebrio do sangue de mil justos,
De mil sabios... de Christo e de Rossel!

Tens talhado a teu modo a Sociedade!
E por isso o infeliz que te condemne;
Ensanguentaste as mos da Mocidade,
Nunca amaste o Direito ou a Equidade,
Matas Valls...... Deixas viver Bazaine.

Tu viveste contente e agasalhado
Entre os brilhantes, e as vises do gaz!
--Bem te importava a neve... e o ar gelado,
O Frio e a Fome...  tepido o Peccado!
Calvo amigo!... Venceu-te Satanaz!

Tornaste o Templo casa de penhores,
--Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes!
E j cheios de lastimas e dres,
Ns lemos mais nas petalas das flores
Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!
--Nem podes, levantar as mos aos ceus!
Ha muito que ris d'isso, aborrecido?
Em nada crste, em nada!--Adeus vencido!
Morre ahi como um co!--Vencido, adeus!

Morre, morre, na lucta, pois, soldado!
Corpo cheio de tedio e de bolor!
--Adeus, velho navio destroado!
--Morre! antigo conviva do peccado!
--Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!




*AOS VENCEDORES*


Visto que tudo passa e as picas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vo cada vez mais,
Que tudo  luto e p!  vs que triumphaes
No turbeis a razo nos vinhos das vas glorias!

No ergais alto a taa,  hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E no faaes jmais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

No celebreis jmais as festas dos noivados,
No encontreis na volta os lugubres cortejos!
--E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
No respondam da praa os ais dos fusilados!

Sim!--se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphos, as amantes,
Nem faaes, junto a ns, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria  p! toda a fortuna v!--
--E ns lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regmos j demais a terra-- gloriosos
Vencedores! talvez,--_vencidos d'amanh_!




*A CANALHA*


Eu vejo-a vir ao longe perseguida,
Como d'um vento livido varrida,
Cheia de febre, rota... muito alm...
--Pelos caminhos asperos da Historia--
Emquanto os Reis e os Deuses entre a gloria
      No ouvem a ninguem!

Ella vem triste, s, silenciosa,
Tinta de sangue... pallida, orgulhosa,
Em farrapos, na fria escurido...
Buscando o grande dia da batalha,
-- ella!  ella! A livida Canalha!
      --Cain,  vosso irmo!

Elles l vem famintos e sombrios,
Rotos, selvagens, abanando aos frios,
Sem leito e po, descalos, semi-nus...
--Nada, jmais, sua carreira abranda!
Fizeram Roma, a Inglaterra e a Hollanda,
      E andaram cum Jesus!

So os tristes, os vis, os opprimidos,
--Em Roma so marcados e batidos,
Passam cheios de vastas afflices!...
Nem das mesas lhes deitam as migalhas!
Morrem sem nome, s vezes, nas batalhas,
      E andam nas sedies.

Veem varridos do lugubre destino!
Em Roma e a velha Grecia erram, sem tino,
Nos tumultos, enterros, bachanaes...
Nas praas e nos porticos profundos...
E disputam, famintos e immundos,
      O lixo aos animaes!

So os parias, os servos, os _illotas_,
Vivem nas covas humidas, ignotas,
Sem luz e ar; arrancam-lhes as mes,
--Passam curvados nas manhs geladas,
E, depois de j mortos, nas caladas,
      Devoram-os os ces.

Elles veem de mui longe... veem da Historia,
Frios, sinistros, maus, como a memoria,
Dos pesadellos tragicos e maus...
--Eu oio os reis cantando em suas festas!
E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas--
      Chorarem nos degraus!

 uma antiga e lugubre legenda!
--Vo, sempre, sempre ss, na sua senda,
Sublimes, quasi heroicos, rotos, vis...
Cheios de fome, s luzes das lanternas,
Cantando sujas faras, nas tabernas,
      Chorando nos covis.

Alguns dormem em covas quaes serpentes!
Viveram, entre os povos, e entre as gentes,
Vergados d'um remorso solitario...
--Sabem, de cr, os reinos desvastados!
E, vieram, talvez, ensanguentados
      Da noite do Calvario!

Teem trabalhado, occultos, noite e dia,
 reis!  reis! as luzes d'esta orgia,
De subito, que vento apagar!
--Corre no ar um echo subitaneo...
E escuta-se, feroz, no subterraneo,
      O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!
 legionarios! desertae as tendas,
J demolem os porticos reaes...
Os que teem esgotado a negra taa,
--Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraa_,
      E a historia dos punhaes!

Vo, ha muito, na sombra, foragidos,
Pelas neves, curvados e transidos,
Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus!
Vem do Sul uma lugubre toada,
E escuta-se Rousseau, na agua furtada,
      Gritar--_Que me quer Deus_!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganas,--
Assoma l ao longe um mar de lanas,
Resoam sobre os thronos os machados...
E a Europa v passar, cheia de assombros,
Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,
      --Seus reis esguedelhados.

 voz das legies rotas, sombrias,
Desabam pelo mundo as monarchias...
Tremem os graves bispos... e depois...
Que mais faro? perguntam, desolados,
--Vo ser, inda, depois, crucificados
    Os deuses e os heroes!

..........................................
........................................
......................................

Vae prolongada a vil, barbara orgia!...
No silencio da noite intensa e fria,
Vem uns echos perdidos de batalha...
Como uns ventos do norte impetuosos,
--So uns passos, nas trevas, vagarosos,
      Os passos da _Canalha_!

Elles veem de mui longe... mui distantes
Como sonoros bathalhes gigantes,
Como ondas negras d'um sinistro mar...
N'uma viagem tragica e sem gloria,
--Ha muito, pela noite da Historia,
      Que os oio caminhar!

Quem sabe se viro...  longa a estrada,
D'esta comprida e aspera jornada
Quem sabe quando, emfim, descanaro?
As pedras atapetem-lhes com flores!...
L veem queimados, rotos, vencedores,
      Altivos e sem po!

No raiou inda o dia da Justia!...
Mas, breve, talvez, se oia a nova missa,
E a Liberdade emfim junte os seus filhos...
Vo talvez vir os tempos desejados!
--E, ento, por vossa vez,  reis sagrados!
      --_Saude aos maltrapilhos_!




*O NOVO LIVRO*[4]


Vou cantar novos casos dolorosos...
E navegar n'outro pico Oceano,
Novas vellas soltar!--O ouvido humano,
Que se preste a meus cantos vigorosos!

Por que eu fulminarei os crapulosos,
O fanatico, o Escriba, o Publicano,
E arrastarei  luz--como um tyranno,
O santo d'olhos doces e amorosos.

E, por tanto, homens cheios de vaidades!...
Preparai-vos a ouvir rubras verdades
Que vos ho de queimar como carves...

E se no receaes ver morto o Erro,
--Vinde  janella a ver o grande Enterro...
E o desfilar das lividas vises!




*ALGUMAS PALAVRAS*


Achmos sempre de supremo mau gosto ver o auctor, na sua propria obra,
demorar-se complacentemente n'um prologo, como que fabricando uma
aurola.

Por isso, isto no  a demorada profisso de f d'um poeta novo, nem a
rhetorica pomposa e esteril de quem intenta dar realce a um livro.--
apenas uma explicao.

Este livro, producto d'uma inspirao meridional e algumas verdades
heroicas, no se filia, exclusivamente, em nenhuma escola conhecida.

 uma obra na qual influiram muitas e varias correntes do espirito
humano, e muitas impresses, muitas nobres ideas do seu tempo.

No entanto, o auctor conhece que fez uma obra sua, com horisontes
particulares e pontos de vista seus, e no apenas uma synthese das ideas
dominantes de qualquer escola aplaudida.

Na mysteriosa, singular, e complicada elaborao intelectual do espirito
humano, qual ser o auctor asss sincero que possa sempre ass*gnalar
com segurana a origem d'uma idea, ainda que essa idea seja to luminosa
como a rotao da terra, a descoberta da alavanca, ou a creao de Joo
Valjean?

Quem poder dizer  borboleta, ao lyrio, ao monstro marinho, e quellas
aves singulares da America que teem todo um arco celeste de tintas nas
plumas, a parte que elles devem na vida, nas cres, no aroma, nas
plumagens, ao Sol, s nuvens, aos ventos--e a todas as foras chimicas
da Natureza?

Do mesmo modo tambem as grandes sementes que espalharam os espiritos que
nos precederam, ou as d'aquelles que ainda hoje arroteiam o campo, fasem
desabrochar uma infinidade de pomos intellectuaes na grande planicie dos
seculos, por aquelle mesmo trabalho lento e maravilhoso, pelo qual o Sol
vae preparar ao mais fundo da terra o diamante.

E assim  facil, por um contraste notavel, n'um dado espirito poderem
ter operado as influencias da leitura de Proudhon, de Cicero, de Vico,
de Dante, de Baudelaire, de Renan, Voltaire e de S. Agostinho, e d'ahi
depois crear-se uma entidade to diversa d'estas entidades em
particular, que nenhum d'elles o teria por discipulo.

Quem poder assignalar a S. Jeronymo, o grave doutor da Egreja, o aspero
e cavado ermita do mosteiro de Betlem, a influencia que tiveram nos seus
escrptos o estylo delicado de Cicero, Horacio, e os licenciosos poetas
pagos? Nenhuma influencia se operou talvez visivel; mas talvez muitas
secretas e particulares.

 por isso que compete ao escriptor trabalhar a sua idea, lapidal-a,
polil-a, desenvolvel-a, facetal-a, de maneira que ella seja como que um
grande elo em que se vo encatenar um rosario luminoso d'outas novas, e
que ella saia transformada d'esse vasto laboratorio intellectual, por um
processo mysterioso semelhante ao do que faz a Natureza transformando da
lagarta a borboleta, do carvo o diamante, e da ostra doente a prola.

O escriptor  um producto litterario do seu tempo, das suas leituras, do
seu temperamento, do seu estudo--e obedece mais que tudo ainda  sua
consciencia, e a influencia do Sol sob que nasceu.

O poeta que no obedece a nada d'isto--no  um poeta na grande accepo
da palavra:  um plagiario, um parasita que vive da imitao servil dos
outros, e que  to digno de se agremiar a elles como o sapo de fazer
unio com as borboletas.

 por isso, pois, que este primeiro livro  d'um meridional; mas d'um
meridional moderno, que celebra o Sol por que desperta o homem para a
Aco para a Vida e para o Trabalho, e que achou curioso,--no seu
tempo--fazer um livro de vida, d'imaginao, de ironia, de sol, e de
liberdade--o mais heroico dos ideaes.

Mau grado algumas affeies litterarias dos comeos do auctor--entre as
duas escolas modernas de que tanto se tem discutido, o _satanismo_ e o
_realismo_, no preferiu nem uma nem outra.

O _satanismo_ por que tem uma philosophia absurda que consiste em querer
ao eterno equilibrio do Bem e do Mal, em que se baseia a harmonia da
Natureza que assombrava Rousseau e que lhe valeu de Voltaire a sangrenta
satyra do doutor _Pangloss_--antepor, pertinazmente, o predominio do
Mal.

E o _realismo_, reduzido s condies de escola--isto  de
conveno--por que debaixo d'uma v, rhectorica, apparencia d'analyse,
de critica e de experiencia, revela o sordido e o obsceno, ou cae como o
_satanismo_ na preoccupao do Mal em tudo, e a descrevel-o--o que 
mais desagradavel ainda.

Na pintura o _realismo_, com processos exagerados e abusando das
minuciosidades tem procurado impr pela verdade, ora procurando o _feio_
com um furor, como nunca a Arte Antiga se lanou no Bello, ora abusando
dos pormenores, como se a pintura podesse retratar a Natureza, e se o
fim da Arte no fosse servir-se d'ella como meio.

Alguns pintores inglezes da escla realista chegaram a fazer quadros
curiosissimos de serem analysados a microscopio; tal era a fidelidade e
o rigor das _menores_ cousas.

E, comtudo este exagero no pde nunca dar seno a consciencia ou a
medida d'um talento d'um artista, e no a vastido d'um genio, que no
pde nunca restringir-se a pequenos effeitos visuaes, ou  fidelidade.

Alem d'isso, se a simples fidelidade fosse a maior aspirao da Arte, o
microscopio d'um observador inglez teria direito quasi a procurar n'um
copo d'agua os animalculos que a povam.

Todas as extravagangias da escola bolonheza, de Paulo Veronezo e seus
seguidores, ostentando em todos os quadros as magnificencias da
architectura, d'entre os quaes um d'elles ficou mui celebre, as _Bodas
do Can_, no teem nada d'exagerado em relao ao furor, e  preocupao
quasi comica do _feio_, que domina Courbet e os seus nephitos.

Os poetas realistas, esses mais declamadores do que profundos, mais
horrivelmente minuciosos do que verdadeiros, teem feito um mundo de
mulheres perdidas, de Manfedos de crapula, de trufas, de velludos, e de
lepras, e teem-se posto n'uma tal gamma d'inspirao, simulando a
sciencia, e affectando chamarem ao diamante _vil carvo_, que teem
tirado a poesia a tudo,-- arvore,  flor, ao diamante, e at ao carvo.

Estes so os exageros em que ultimamente tem caido esta escla, e dos
quaes j agora morrer,--descrevendo ainda uma pustula.

Entre pois estas hesitaes e absurdos d'esclas, o auctor achou melhor
no preferir nenhuma, reservando todas as suas affeies para uma poesia
mais sadia, forte e verdadeira, e que no desprese nem o amor, nem a
imaginao, nem a liberdade.

Esta poesia nova, que procura o seu caminho to gloriosamente no meio
d'estes tempos to turbados, j certa de triumphos verdadeiros, e a que
alguns teem chamado Humanismo,  a que comprehendendo o homem com todas
as suas paixes e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem
fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o
verdadeiro equilibrio entre o _ideal_ e o _real_, e mirando como a
philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser
digna da nobre misso que n'estes tempos lhe est confiada.

Mau grado as vs declamaes ultimas contra o _lyrismo_, por alguns
pregoeiros d'uma theoria de que no ouviram seno a primeira palavra, o
auctor est convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento so e
foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle
poeta que jmais cantou a Mulher e o Amor,  um ente to duhio na
Sociedade, como um sacerdote da deusa _Tani_ em Carthago.

Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio
no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se
tem escrito no mundo, _De natura rerum_, comeou por uma elevada
invocao a Venus--que  a mulher na Antiguidade feita deusa.

Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais
puro, mais casto, devido  philosophia christ, por que no ha de tratar
de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe--como Philosophia
e como Arte--o papel que ella tem direito a representar na
sociedade--banindo dos seus livros a poesia da cortez?!

O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi
para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.

Injustamente; porque a bondade  tambem uma justia superior; e uma das
grandes misses do poeta  a d'alem de ser justo, ser bom.

E em nenhuns tempos a misso do poeta foi to grande de cumprir como
hoje.

Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme
corrupo de gosto e de ideal nas letras. O jornalsmo, a parte mais
deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraada ignorancia
geral um ascendente que seria comico se no fosse para lamentar, e
invade como uma grande corrente, sem dique, a opinio publica, reduzindo
a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questes de visinhas
despeitadas.

A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o _bel
esprit_ que tanta indignao causava a Rousseau, todo forjado segundo os
moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que est para a
verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon est para uma
_cocotte_ e o sentimento de Chnier est para o sentimentalismo de salla
de Feuillet.

Tendo-se o auctor feito conhecer por algumas poesias liberaes, muitos
perguntaro talvez a raso por que no deu no seu livro mais latitude 
ultima parte.

Essa razo foi unicamente a de no querer fazer um livro exclusivamente
didactico, e por que as poesias que publicou e que entravam no plano do
seu livro lhes restringiram o espao.

Alem d'isso porque tambem, as luctas religiosas da Allemanha, os eternos
combates entre a Egreja e o Estado lhe haviam feito conceber o plano do
_Antichristo_, onde mais latamente poderia desenvolver algumas theorias
e tratar questes do mundo politico e religioso.

Quanto a esta obra, seja qual fr o logar que a Critica lhe faa
occupar, ella no  mais do que a primeira pedra d'um edificio que
existe todo construido na imaginao do auctor.

Mas por muito insignificante que ella seja, elle recorda a todos que se
teem visto n'uma sociedade esterelisadora, em lucta continua com um
ideal novo e grande, como Jacob toda a noute com o anjo, que o seu
desejo constante foi sempre fugir do _exagero_ e do _mau gosto_.

Se nem sempre o conseguiu, ainda assim os justos, e os fortes, pela sua
vontade, o sabero apreciar.




*ERRATAS NECESSARIAS*[5]


O leitor curioso pde, para mais facilidade na leitura, fazer estas
emendas na margem do livro.

Na poesia _Lisboa_, 5.^a estrophe, 3.^o verso, leia-se em vez de
_prises_, _procisses_.

_N'aquelle Sabio_, 2.^a estrophe, 1.^o verso, leia-se: _Tem assim ares
d'empyrico_.

Na _Joven Miss_, 2.^a quadra, 2.^o verso, leia-se: _Cria em ns todo um
mundo de moral_; e A _Uma voz celeste_, 9.^a quadra, 3.^o verso: _Eu que
nos astros leio_.

Em _Junto do Mar_ dever-se-ha lr: _O mar cheio de medos e soluos_,
9.^a quadra 4.^o verso; _O sangue dos nossos males_, em _Tristissima_,
5.^a quadra, 4.^o verso.

No citamos aqui suppresses de lettras e virgulas, que o leitor pde
corrigir facilmente.




INDICE


*INSPIRAES DO SOL*

Hymno ao Sol
 Janella do Occidente
Os Santos
D. Quixote
O Publicano
A Lyra de Nero
Mysticismo Humano
Monges de Zurbaran
A Bella Flor Azul
Hora do meio dia
Cantiga do Campo
A Aguia
Accusao  Cruz
Luthero
A Terra
O Ouro
O Budha
No Calvario
Hli! Hli!
As Aldeias
Beneficios e Philosophia do Sol
Disputa
As Cathedraes
Lycanthropia
O Peccado
Soneto d'um poeta morto
A uma Judia
A Visita
Palacios antigos
Cain
A Primavera


*REALIDADES*

Accusao a Christo
De noute
Aquelle sabio
Na Taberna
Os Lobos
Miseria occulta
Lisboa
A sesta do senhor Gloria
Fara triste
Madrigal da rua


*CARTEIRA D'UM PHANTASISTA*

Antes d'abrir a carteira
A noute de noivado
A tortura das chimeras
Tarde de vero
Na cabeceira d'um leito
Madrigal excentrico
Aquella orgia
O Visionario ou Som e Cr
Madrigal funebre
Debaixo d'uma janella
A Selvagem
A Lanterna
Ultima phase da vida de D. Juan
Ultima ceia de Falstaff
Falstaff moderno
Na rua
Phantasias da lua
O Selvagem
O amor do vermelho
A um corpo perfeito
Carta ao Mar
A lenda das rosas
No enterro d'um corao
A Joven Miss
O doente romantico
Quadra d'um desconhecido
Em viagem
Noutes de chuva
Idylio meridional
Duas quadras de Diogenes no album de Lais
A Camelia negra
A ultima serenada do Diabo
A Musa verde
Idyllio d'aldeia
Carta s estrellas
Na folha d'um livro
Os Brilhantes
O Astrologo


*MYSTICISMO*

Dedicatoria
Os deuses mortos
Debaixo das hervas
A uma voz celeste
 pomba que voou
Tristissima
Idyllio triste
A um lyrio
A uma andorinha
Entre os arvoredos
Confisso a uma violeta
A sua camara
Hora mystica
Junto do Mar
Doente
N'um cemiterio
Despedida ao Sol


*HUMORISMO*

A Aranha
Nova ballada do rei de Thule
Phantasias d'um aborrecido
El Desdichado
A Valentina de Lucena
Phantasias
A Biographia de Satan
Agua furtada d'um Original
Bilhete d'um estudante
A lady
Dedicatoria d'um livro
Humorismo mystico
O Cannibal
Romantismo
Aventuras
O inconveniente de matar a mulher
Um Blas
O Velho


*RUINAS*

Farrapos
Aos vencidos
O Mundo velho
Aos vencedores
A Canalha
O Novo Livro
Algumas palavras




Notas:

[1] Esta poesia s tem referencia ao estrangeiro; Hespanha, Italia, e
principalmente Frana. Em Portugal o absynto no faz estragos.

[2] Esta poesia j foi publicada sob um pseudonymo.

[3] Este soneto foi dedicado a Dumas filho, pela occasio da celebre
questo do Homen-Mulher, que deu origem a um diluvio de folhetos e
publicaes.

[4] O Antichristo.

[5] Nota de ps-processador do DP: todos os erros apontados foram
corrigidos.





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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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