The Project Gutenberg EBook of Os Pobres, by Raul Brando

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Title: Os Pobres

Author: Raul Brando

Contributor: Guerra Junqueiro

Release Date: March 17, 2007 [EBook #20841]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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OS POBRES




OBRAS DO AUCTOR


A ARVORE:

I--_Historia d'um palhao_. II--_Os pobres_. III--_Raizes_ (em
preparao).


ROMANCE:

_A Fara_.


THEATRO:

(De collaborao com Julio Brando)

_A noite de Natal_, drama em 3 actos, representado no theatro de D.
Maria II.




RAUL BRANDO


OS POBRES


Precedido de uma Carta-Prefacio de GUERRA JUNQUEIRO


LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e 47
1906




CARTA--PREFACIO

_Meu bom amigo_:


O seu livro  a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de
Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos _Pobres_ emfim? No. A sua.
Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma,
transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia
espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e
divina. Confisso verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a
musica mysteriosa do universo, d'um corao que repercute a dr eterna
da natureza, mas que s ao cabo de oscilaes, duvidas e desanimos,
coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as
formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.

No vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da
imaginao e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade
religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. No a
confisso mentirosa, a confisso vulgar, da boca que tem dentes, para o
ouvido que tem sombras. No a confisso-analise, a confisso dos
criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida
confisso das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de
eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha
lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram,
a natureza denuncia-se. O homem  um resumo ideal da natureza. Andou o
infinito, e lembra-se; andar o infinito, e j o sonha. Quando o genio
explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo  o santo.
O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.

As confisses augustas so as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a
personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e
difusas. O inconsciente imenso no acorda, porque est, como um aroma,
dentro d'um bloco duro, impenetravel.  o sonho captivo n'um ovo
hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas
conservam aquella graa radiante, aquella omnipresena espiritual, que
as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O
sonhador dos _Pobres_  um evocador atormentado e religioso. Busquei no
seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vr se a desenho com
rapidez e preciso.

Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro,
esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece,
palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a fra, a
rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluvies de nebulosas,
incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o
tempo no exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e
reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam,
penetram, correspondem.  uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios
moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade
impenetravel, sem ninguem ver o tecelo. Rigidez, solidez, inercia, no
existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos,
dramas, turbilhes de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis
so redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material
evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do
sol, que  sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na mo
d'uma creana. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de
vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado,
irradia no ether. Vde um penedo monstruoso: Parece firme.
Desagregou-se, e  lama; a raz tocou-lhe e  seiva; a seiva gerou, e 
flor e  fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue
vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa.
Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma
vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila,
desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se no ha terra em que poise,
nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio,
ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do
imenso ao gro d'areia, o gro d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em
vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo,
a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.

Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se no ouvem. A
natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas,
silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que
bocas humanas ha na terra, o que no dir o coloquio formidando de todas
as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os
que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda  agua, a raiz
ao lodo, a luz  folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se casam,
raizes que se querem bem. O oxigenio  intimo do ferro, o azougue 
intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as
electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!

Materia infinita,--foras infinitas, infinitamente caminhando. E no
pelago vertiginoso da mobilidade universal  cada atomo invisivel um
desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...

O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das
linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o
homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha
e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel. Articulou
todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias
dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuio
prodigiosa do meu amigo.

Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou em
tres fases emotivas. Estudei a primeira,--_a emoo dinamica_. O mundo
resolve se lhe n'um jogo de foras, n'um conflicto de vontades,
brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas,
ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.

Mas o que  a vida? Chega  segunda fase. Deslisa da emoo dinamica 
emoo moral. Depois de ver o mundo atravez dos sentidos, julga-o
atravez da raso e da consciencia.

O que  a vida?

A vida  o mal. A expresso ultima da vida terrestre  a vida humana, e
a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um
tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.
O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que  de dez
metros, ao curso da bala, que  de vinte kilometros. A fera, a dez
passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O
homem  a fera dilatada.

Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de
guerra, com as escamas d'ao, os intestinos de bronse, o olhar de
relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando
lavaredas, vomitando morte.

A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do
chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte
escavacava um cedro, o canho Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma
vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.

Os grandes monstros no chegam verdadeiramente na epoca secundaria;
aparecem na ultima, com o homem. Ao p d'um Napoleo um megalosauro 
uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de
viandantes, emquanto milhes e milhes de miseraveis cahem de fome e de
abandono, sacrificados  soberba dos principes,  mentira dos padres e 
gula devoradora da burguezia christ e democratica. O matadoiro  a
formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros
para verdugos. Uns jantam, outros so jantados. Ha creaturas lobregas,
vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas
d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem
pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre
de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e
diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao
peito de selvagens.

Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em
alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou
aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o
boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus
milho no digere sem a guilhotina de sentinella. Os homens repartem o
globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinho. Homens
que tm imperios, e homens que no tm lar.

Os ps mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e
os ps vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagaes. Bebem
champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns ces
de regao, e algumas creaturas, por falta d'uma codea, acendem
fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e
esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem!
Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades,
deixam-na to indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel,
bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias
no arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo
esplendor aos campos de batalha ou ao bero infantil, e as hervas
gulosas no distinguem a podrido de Locusta da podrido de Joana d'Arc.
Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os
lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharo, egualmente
candidos e nevados.

A humanidade, emfim,  a victoria dos arrogantes sobre os humildes, dos
fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre
vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e as
lagrimas, o seu corao misericordioso de poeta inclinou-se
espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.

A dr  o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitaes, por
cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros
leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes,
virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam
promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como
entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos
hiantes, boqueires de sombra. Explora desvos, trapeiras, minas, covas,
esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas,
que gotejam sangue, nas roucas escurides tumultuosas, pavidas de
gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.

E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de
crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de
abominaes e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos,
regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas
lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam
ralas estorturantes, gemem creanas vagabundas, tossem tisicos, ardem
febres, lusem gangrenas e podrides... E tudo vago, indistincto,
confuso, n'um rumor longo e subterraneo. No se destacam, no se
desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada
mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos.  o mundo cahotico
da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de engulir...
 o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario, quasi
desconhecido e genial.

Homens de gosto colecionam quadros ou estatuas. O meu amigo coleciona
dr. No em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biologico
das varias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende,
no a invasilha n'um frasco, guarda-a no corao.

Conta-lhe os ais, no os microbios. Em vez de a analisar, decompondo-a,
analisa-a beijando-a. No seu laboratorio chimico existe apenas um
reagente, que dissolve tudo: lagrimas.

O poeta dos _Pobres_ no  um romancista. A alma do evocador
fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que elle evoca.
Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azues, planos, concavos ou
convexos, reflectindo todos elles um unico semblante, que julgamos
distinto, porque aparece deformado.

Chamei aos _Pobres_ uma confisso religiosa. No ha duvida. Os seus
pobres, meu amigo, so bocas de vises, articulando a alma d'um vidente.
Falam a sua lingua e contam-nos a sua historia. No a historia, no
minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a historia, no espao e no tempo,
do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.

No drama dos _Pobres_ ha duzias de actores e um s personagem: o
dramaturgo. As suas figuras no constituem individualidades reaes,
caracteres verosimeis, logicamente architetados e definidos pelas
inumeras causas de existencia, conglobados em duas ordens genericas,--a
herana e o meio. Os seus ladres, assassinos e meretrises, no roubam,
no matam, no copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu mister. Mouca, Luiza,
Gebo, Golim,--pseudonimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos elles
 um s: a Dr.

Inevitavel. Desde que o meu amigo rasgou as mascaras enganadoras ao
Universo, para lhe descobrir a essencia e natureza intima, e desde que a
lei do Universo  o predominio do mais feroz e do mais forte, toda a
imensa humanidade, tumultuosa e vria, se resume logicamente em dois
homens apenas: o algoz e a vitima, o homem que sofre e o homem que faz
sofrer. Os bons so os que padecem. A miseria, mesmo sinistra e
delinquente,  j um principio de virtude. Nenhum dos ladres, nenhuma
das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade
propria, por fatalidade fisiologica. Obrigou-os a fome, calcou-os a
injustia. A sua infamia e a sua ignominia  a avareza ou a luxuria dos
homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, so
perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando, so
creaturas boas, porque so vitimas dos primeiros. Os retratos dos
bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe uma galeria de
afogados, todos solemnes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar
de cerimonia. E as alfurjas, cadeias e prostibulos, onde se amontoam,
n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes,
afiguram-se-lhe  imaginao misericordiosa como templos de angustias,
santuarios sagrados de tribulaes e de martirios.  um flos-sanctorum
da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.

Mas se a lei da natureza  iniqua e feroz, visto os maus triunfarem e os
bons sucumbirem, d'onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao
universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ella
seja imanente ao universo infinito, , nos dois casos, uma lei
monstruosa, negadora da suprema ideia do espirito do homem, a ideia do
bem e da justia. Contradio inexplicavel: A natureza  iniquidade,
porque a lei que a rege assegura o predominio e a sobrevivencia do mais
forte. Mas quem me leva a dizer que a natureza  iniqua? O sentimento do
bem e da justia, desenraisavel do meu corao e do meu cerebro. Logo
existe tambem na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da
justia, contraposta  lei da fora e da violencia. Se Christo morreu na
cruz, a natureza  o mal. Mas sendo a natureza o mal, como  que d'ella
nasceu o mesmo Christo, afirmao de todo o bem?

A ideia do bem e da perfeio, levada ao infinito,  a ideia de Deus.
Mas como hamornisar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como
fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do
bem, o universo de Deus?

Chegamos  terceira e ultima fase do seu espirito:  fase religiosa, 
_emoo divina_.

A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dr e
resolveu-se lhe em amor. Movimento infinito, dr infinita, amor
infinito, eis os tres rostos da natureza no espelho cada vez mais
profundo da sua consciencia, nos olhos cada vez mais abertos da sua
alma. O dinamismo atomico do universo reduziu-o,--pavorosa sinteze!--
dr sem fim,  dr universal. Viver  sofrer, e tudo vive, tudo sofre.
Vida infinita egual  dr eterna, eis a equao matematica da natureza.
Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente
inexoravel. No ha, pois, evasiva? Ha. D'esse inferno sobe uma escada de
chamas tenebrosas, que vae ao purgatorio, e do purgatorio uma espiral de
luz radiante, que nos leva ao co. A dr, que se lhe afigurou a essencia
intima da vida e sua unica expresso, no era, ao cabo, o substracto
ultimo da natureza, o fundo irredutivel do universo. A dr no era
irredutivel. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. No ha bellesa
esplendente, que no fosse dr caliginosa. A flor  a dr da raiz, a lua
a dr das estrellas, e a virtude ou o genio a dor ascendente do ether
luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvario inenarravel de
milhes e milhes de seculos sem conta. A alma de Jesus proclama o
triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Venus entoa a
victoria da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha brta e
desharmonica. Bellesa de essencia ou bellesa de aparencia, virtude de
Jesus ou formosura de Venus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo
horror e a mesma imperfeio. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o
verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria
vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria  o sofrimento
amoroso, o sofrimento espiritualisado. Deus , pois, o amor infinito,
vencendo infinitamente a infinita dr. E, vencendo a infinita dr, elle
 a infinita alegria, a paz absoluta, a gloria eterna, a bemaventurana
ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do
sofrimento universal.

Nos meus _Ensaios Espirituaes_, ainda ineditos, eu exprimo inumeras
vezes a mesma ideia. Quer vr? Destaco uma pagina:

S a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto,
sustenta-se do sofrimento do universo.  uma luz eterna, alimentada por
um incendio eterno. Deus, amor absoluto, projeta-se em dr infinita da
natureza. Para ser a perfeio absoluta, encarnou se na imperfeio
ilimitada do universo. Deus no se comprehende sem universo. O perfeito
vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal  a condio
do bem, o erro a condio da verdade, o crime a condio da virtude. O
santo  santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o santo no se
comprehende. Sem universo imperfeito no ha Deus perfeito. Satanaz  uma
das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz  o corpo de Deus. Deus  Deus,
isto  infinita perfeio, infinito amor, porque vence eternamente
infinitas imperfeies e infinitas dres. Deus  a completa affirmao
do Bem, pela completa e continua victoria sobre o mal. No instante em
que o mal acabasse, acabava Deus. Deus no  ida, pensando-se
infinitamente: _ acto infinito, amor infinito, a realisar-se pela
infinita vontade na durao infinita_. Eliminando o imperfeito, o
perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto: _o
absoluto que fica  o absoluto no-ser_. _O infinito amor de semelhante
Deus seria o infinito amor de si proprio, o infinito egoismo_.  como se
quizessemos resumir a infinidade dos numeros em um numero unico,
infinito, eterno, inalteravel, o numero absoluto perfeito, e
realizassemos a sinteze da infinidade numerica no absoluto do zero. Tudo
egual a nada. No! Deus  infinito amor, esforo infinito, actividade
infinita. O universo  o corpo de Deus,  a carne de Deus. Deus 
absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa
diversidade infinita no ha, nem pde haver, a unio suprema. Mas a
sinteze da vida  irrealisavel na ideia de numero e quantidade, na ideia
concreta de materia. S na ordem moral se unifica absolutamente a vida
varia do universo. _As quantidades, traduzidas em imperfeies, os
numeros traduzidos em egoismos, so reductiveis ao absoluto na ideia
unica d'amor_. Ahi o imperfeito torna-se a condio matematica do
perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoismos
infinitos, continuamente evolucionando para elle. Deus, beatitude
eterna, vive e sustenta-se das dres infinitas do universo. Deus como
corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espirito puro,
Deus, amor absoluto, no sente dr, nem sofrimento.  a bemaventurana e
a gloria eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do
seu corpo. O santo verdadeiro d-nos a imagem palida de Deus. Deus  o
santo perfeito, o Christo absoluto e universal.

       *       *       *       *       *

Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma sinteze. Mas o
auctor dos _Pobres_ no desvendou, ideologicamente, abstractamente, o
segredo da natureza, a explicao religiosa e intima da vida universal.
No a estudou como filosofo, descarnando-a, dissecando-a, at lhe
descobrir as leis inalteraveis e reconditas da sua estructura evolutiva.
No fez do cerebro um instrumento de viso, agudo e claro, gelido e
penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cosmico, o
borbulhar infinitiforme da existencia. No mediu a vida a compasso, no
a formulou em theoremas ou equaes. Viveu-a. O seu livro no  a
historia dialetica da razo d'um homem, sistematisando e codificando a
natureza. No  a historia d'um encefalo, desdobrada em ideias.  a
historia d'um homem, a historia plena e formidavel d'um organismo
inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lagrimas, das mos que
abenoam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca
que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do
anjo que se encaminha para Deus. Sim, a historia universal d'um homem,
gemida e rugida, furiosa e candida, no para que o mundo lha oua (ento
seria hipocrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no
silencio.  a confisso clamorosa, satanica ou celeste, das energias
infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no misterio pavido
d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto;
e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel.
Almas inumeras se agrupam na alma sintetica e central. Ha em cada alma
infinidades d'almas. E umas to horriveis e loucas, que as escondemos
para que as no vejam, e outras to inconscientes e profundas, que,
habitando comnosco, as no chegamos sequer a conhecer. O poeta dos
_Pobres_ conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara  mais
crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado
nascente, ingenuas e vivas, sem occultar uma unica.

O seu Deus no  o ultimo termo d'uma cadeia logica de silogismos. No o
descobre pela razo, atinge-o pela emoo. O meu amigo no raciocina,
isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As
ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da facada ou a flor da
haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genesico. No falam,
no discursam, no discorrem. Gritam, uivam, ululam, gemem, resam,
blasfemam. Ciclones d'ais, de oraes, de imprecaes, de furias, de
lamentos. O meu amigo pensa, forma juizos, como as eletricidades formam
raios.

O seu Deus  a expresso da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua
moralidade. S cr em Deus, s descobre Deus, quando em si, pela
virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realisar. Se a bondade e a
paz lhe existem no corao, a natureza resolve se-lhe em Deus, em amor
supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoismo invade-o, e no  j em Deus,
 na chimica, que a explicao do mundo lhe apparece. Qual a fonte do
ser, a raso da vida?  o acaso,  o apetite,  o amor,  Deus ou
Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilibrio instavel da
sua carne e do seu espirito. Logo de comeo, a paginas 29 e 30, define
Deus abrazadoramente n'uma lingua de chamas, n'um paroxismo de dor e de
misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, to fervido e to
lucido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma, a
verdade da vida. A vida  um calvario. Sbe-se ao amor pela dr, 
redempo pelo sofrimento. Christo  um redemptor humano, Deus o
redemptor universal.  o ser infinito, porque  o amor ilimitado. E a
natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras,
lutas, crimes, catastrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em
harmonia magica e perfeita.

Mas logo adiante, a paginas 42, a natureza, divinisada, reverte e
regressa  sua forma demoniaca, de materia bruta.

Ser s, sem amigos, sem apertos de mo, sem conhecidos, ser s e livre,
que sonho!

Do altruismo absoluto, do absoluto amor, que  Deus, retrogradou ao
individualismo anarquista, ao egoismo feroz, que  Satanaz. Do polo
positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o
mal, entre Deus e o Diabo, vae oscilar e flutuar a sua alma, ora
aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se
quasi, pelo hausto indutivo das duas correntes antagonicas.

Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a
meio da encosta, varado de dr, esvahido o animo e evolada a f,
arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: Basta! Se o
caminho do co  um martirio abrupto, uma inferneira ingreme, desisto do
co e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de
minha me, para o afecto dos meus parentes e meus irmos. Antes risonho
e feliz, junto do meu pae humano, que  carpinteiro, a aplainarmos
cruzes, do que, morto e crucificado, na gloria infinita do meu divino
Pae celestial!

E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da
amargura, para j l no fundo, voltar a subil-a novamente, a cruz nos
hombros, com maior f e maior ancia.

O seu poema  a historia da escalada tragica do seu calvario. Mil vezes
o meu amigo tomou nos hombros a cruz da dr e da paixo, e outras tantas
a deixou cahir, exhausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado,
cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e
chorando, galgou a montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em
Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma.
Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.

No volte  servido,  escravatura negra e demoniaca. Mantendo-se
liberto, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras
futuras, vastas, claras e radiantes, servir de entrada e de prefacio. A
arte vale mais ou menos, segundo a poro de amor que abrange e que
revela. A arte soberana  a que conjuga a natureza toda,--homens e
monstros, aguas e arvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o
verbo infinito e perfeito, o unico verbo creador, que  o verbo amar. O
universo atomico, particulas inumeras e vagabundas, fraternisa em Deus,
unificado n'uma s alma e n'um s corpo.

Resar o universo  polarisal-o no infinito amor. Cantar no basta. Resar
 mais. Resar  o superlativo divino de cantar. A orao  a cano
angelisada, a cano chorada e de mos postas. O universo absorve a,
comprehende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as aguas e
os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia
branda e luminosa. Rese todas as dres, pobresas, miserias, lutos,
soffrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o
carcere, a enxovia, a terra tragica, ulcerada de mortes, e a noite
concava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a dr, mas rese
tambem a alegria, que  dr vencida e desbaratada pelo amor. Rese o
triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha pica da
vida pelo caminho eterno, que no tem fim. Rese chorando, mas lagrimas
fecundas, que faam parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente.
Lagrimas d'aurora, orvalho vivo e creador. Resar e chorar, mas
heroicamente, na aco e na luta, no mundo e para o mundo. Resar, como
Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que vo
para Deus, voltando as costas  natureza. Quem se quizer salvar, ha de
salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese
egoista, eis o atheismo verdadeiro. A imobilidade  sacrilega, a
escurido  sacrilega, o silencio  sacrilego. A vida  som,  luz, 
movimento. A vida marcha por abismos, tragica e formidavel, mas ruidosa
e simfonica, vestida de luz e de mil cres. Amortalhal-a de negro,
arrancar-lhe a lingua, para que no cante, e os olhos, para que no
deslumbre e no dardeje,  como se lhe cravassemos no corao uma facada
sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo
e nihilismo,--dois zeros, dois sinonimos. O frade catolico, na concha da
mo, exangue e paralitica, sustenta uma caveira.  o nada olhando o no
ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo
d'oiro constelado. Tem o universo.  o monge futuro.

Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa f e a
nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte creadora, que seja
po e seja luz.

Se nos acusarem de hipocritas, deixal-os accusar; mentem. E a mentira s
aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a
gloria, desviando de ns as multides, que no pensam e vo para onde as
levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem,
ficaro comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lezam-nos
smente na vaidade, que  vicio ruim, grama que custa a deitar fra.
Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos
perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor
ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesitaes e
desenganos, cravou as raizes para sempre n'um ideal de amor e de
verdade, pdem calcal-a e tortural-a, pdem-na ferir e ensanguentar, que
quanto mais a calcam, mais ella penetra no ideal que busca, mais ella se
entranha no seio ardente que deseja.

Seu amigo e camarada cordealissimo

1902.3

Guerra Junqueiro.




OS POBRES




I

O ENXURRO


Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza
inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra.
As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.

 como um rlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a
chuva comea.  um ruido dce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas
idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia,
a torrente jorra at polir as pedras: ara na terra, pe raizes  mostra,
arrasta n'alluvio o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres
dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos,
dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.

Assim a vida.  um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva
pe as mais fundas raizes  mostra, a torrente leva comsigo de roldo a
desgraa e o riso; sem cessar carreia este terrio humano para uma
praia, onde as mos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mo
que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar,
ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se
converte em realidade...

       *       *       *       *       *

Vde...  noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam
gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida,
mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este
predio revolvido me qudo, ssinho e triste, a escutar... Ouo um rio
que os mais no sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte,
fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos
jorros.  ella que tira  vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres
e simples quasi se ouve essa agua correr e to amoravelmente, que d
vontade de nos chegarmos  sua sombra.  emoo. Minae, no na deixeis
seccar: se finda torna-se a vida como os chos sequiosos.

N'este casaro onde mro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre
sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Prga o
inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...

       *       *       *       *       *

So meus visinhos, l em baixo mulheres perdidas, ao p de mim dois
casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. Jos. As
mulheres passam s vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato
pingado s sahe  noitinha,  hora dos morcegos. Mais timido que eu,
encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rto.

Para que vive esta ral? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar,
para que lhes deem um pedao de po e s se deitam no sepulchro. Caminho
sem sonho. Da vida coube-lhes este quinho amargo: o cansao, a
humilhao e a fome.

Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, to lindo, que at as
proprias macieiras de commovidas se vo desentranhando em flor, sabeis o
que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os
passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que  que elles vivem
aos gritos, offendidos, ral, pedras, sapos? para que  que Deus os
cria?

       *       *       *       *       *

O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pzada de
terra.  soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto
embrulhado no leno do rap e a casaca dobrada no brao. Nunca fala.
Estou mesmo em dizer que no pensa, este avejo que s sahe para os
enterros. Deve ser mo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos
apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto
e casaca, rigido _clown_ da morte, que em logar de gargalhadas toda a
sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os
caixes como quem arranca o corao dos vivos, ao ouvir gritos, tem um
riso interior, jubilo de quem est farto de viver s, arredado,
humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se
de dres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um
carro funerario, na reles mascarada, em que ir elle a pensar,
esbaforido e triste?....

       *       *       *       *       *

Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem me
atiraram-n'a um dia para um collegio d'orphos, onde cresceu entre maus
tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava
a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a
da morte, para que depois soffresse.

Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rtos, e
magra e desleixada que faz piedade.

--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia l uma Irm que
me beijava e fazia festas...

Mais felizes so os ces vadios, mais felizes, incomparavelmente, so as
arvores.

O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella
chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella no d palavra e s
pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata
grite e chore.

Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...

Esta manh appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O
vestido j lhe no serve. E como est frio, reparei, traz os ps
mettidos nos sapates do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida,
soffre! Nada te valer. At  morte, at que te acabe de matar com maus
tratos. s vezes, se elle sahe, pe-se  janella, a scismar na Irm,
que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e
pergunta-se:

--Porque no morri ento?....

Calla-te e soffre. E at  morte, at o teu pobre corpo cahir exhausto,
moido, negro de pancadas. Assim ser irremediavelmente, inexoravelmente.

       *       *       *       *       *

Este velho que pra nos patamares das escadas, gordo e molle, de
cabellos brancos estacados,  o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar
aguado e tonto.

-- Gebo!

E elle, erguendo o caro afflicto:

--Anh?...

       *       *       *       *       *

E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as
pedras. A ventania aouta o casaro e passa, levando poeira de scisma,
ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma
multido feita de terrio, de creaturas tendo arrancado a mascara:
certos homens so sonhos, outros dil-os-hieis gritos. Pe-se o Gebo a
contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio
dos palhaos, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabir, philosopho esguio
e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas
mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idas e nunca olhou
cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que
descobriu  pra do seu barco como um navegador. No subterraneo do
predio mora--ha quantos annos?--_o homem do pacho_, de quem ninguem sabe
a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os
seres e as coisas, maro, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um
rio, nunca mais a viu. Est vivo n'um tumulo: s as paredes esbrazeadas,
 fora d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a
sua historia. Pra no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres
que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e
narra pedaos d'uma triste existencia de humilhao e de esmola, sempre
esbaforido e escorraado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as
suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do po para os seus.
E termina sempre:

--Tenho pena de ter sido honrado...

       *       *       *       *       *

A ventania prsaga augmenta, abalando o Predio. De que  construida uma
casa? De pedra. Todo o globo  revolvido para abrigar o homem. A arvore
e a ossada da terra so arrancadas para o servirem. Juntem a isto
gritos. De pedra, d'arvores e de gritos fra construido o Predio. Juntem
a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos,
outro de tanto sonhar empoeirra d'oiro o granito negro. De frma que
toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feio
d'aquellas existencias.  a habitao do Gebo, das prostitutas, do
Gabiru, do Pitta. Escancara-se o porto, cahem-lhe os telhados, mas se,
em cima, nas mansardas arrombadas d de chapa o sol, acredital-a-heis a
scismar, a cantar.  effectivamente de pedra--e de sonho.

Chove, mas em torno a terra arida, no tem agua nem plantas.

S uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As
suas raizes foram minando at ao Hospital, construido em frente da
casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas
nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de p de luar.

Qudo-me ssinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas
vezes so lagrimas que correm ou emoo que brota com o ruido d'um fio
de bica cheio de scintillaes e rumores. O cahir de lagrimas  sempre
d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade:
arvores, nras humedecidas, donde sahe a frescura do cho, montes
solitarios, parece que os prohibe aos desgraados: como um velho
sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro,
todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.

O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura s vezes ao
contemplal-o:

--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos
no assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito
bem solido, para que se no ouam os gritos c fra.




II

O GEBO


Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados
e um ar d'afflico que faz riso e piedade. Tomba s vezes na rua,
levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois
caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de
cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem
um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos brancos
estacados.  o Gebo.  um gebo por ser picaro e rto e por a desgraa o
ter calcado aos ps at o tornar ridiculo.

       *       *       *       *       *

Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida no n'a entendia e a
cada empurro tinha um ar espantado e afflicto de quem no comprehende.
Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraa faz rir? o soffrimento
faz rir?

E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedincho e
desgraado.

As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres
que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria trto, at as
coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo
existem, e elle punha-se a olhar para a desgraa, atarantado e estupido.
Que mal fizera para soffrer?

Alem de desgraado, este homem fra sempre picaro: assim no globo passam
existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que no deixam o mais
simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto so a
vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados,
fazia rir.

Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha
um corao igneo. Era d'estas creaturas a quem um monto de desgraas
torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome.
Enlameado pela vida fra, resignado e choro, elle ahi vae...

-- Gebo!

E todos se riam ao vel-o chorar d'afflico. Diziam uns:--Que no fosse
tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vr
calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual  a razo porque a
desgraa alheia consola a nossa propria desgraa, dizem-me?...

A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sr molle e
gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as
creanas crem.

Em que hora aziaga encontrou a m sorte que nunca mais o deixou? Ha
creaturas em quem a desgraa se escarrancha no cachao, e  p'ra sempre!
p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflices sem
conto, ainda mais negras que o corao dos outros. Enganavam-n'o, com a
alegria de o verem rebaixado e perdido, empurro d'aqui, empurro
d'acol, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!...
Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas
mosinhas uma fora!

Assim esse velho ridiculo e gordo tambem fra feliz outr'ora. Era
d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia
d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas.
Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso
d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli
era a felicidade. Do-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos
enganam.

       *       *       *       *       *

Muito tempo mentira  mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em
casa, com o corao torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas
horas--ultimas horas tiradas  desgraa. At que um dia succumbiu:

--Eu no te queria dizer... Mas  mulher!  mulher!...

--Que ? que foi?

--Estamos perdidos, estamos perdidos...

--Perdidos?!

--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa.
Tenho pedido, tenho andado... e j no posso! Estamos perdidos,
mulher!...

--Estamos perdidos?

--Sim...

--Tu  que tens a culpa, no tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti.
Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que
queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Ns temos culpa das tuas
tolices, das tuas desgraas?...

--No, mulher, no, bem sei...

--Anda!

E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, at que uma noite a mulher
viu-o entrar, sem chapu, enlameado, exhausto--e de cabellos brancos
estacados. A ingratido embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado,
como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se
importa. Quem quer saber da desgraa dos outros? Ai a minha filha!

Comeou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados
havia vozes a clamar, a escarnecel-o:-- Gebo!  Gebo!--Nunca mais houve
paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os
ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas
horas ferreas em que olhra em torno perdido e s vira seccura e risos!
essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflico para o resto dos seus
dias. Tudo se arrazra. E curvava-se sob as palavras da mulher,
amachucado, sem foras para luctar, quebrado pelos desenganos e pela
indifferena dos outros.

--E agora? agora? perguntava-lhe ella.

E elle cahido:

--Agora no sei... Agora morremos todos  fome.

Batera em vo a todas as portas, anniquilado, sem idas e sem foras. S
sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgraa
seccra, lhe atirava improperios, gritos:

--Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E elle l sahia, tornava aos amigos, pedincho, desnorteado,
atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de
subito a esbracejar com gritos e soluos.

Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos
estacados, aos empurres na vida e com um ar d'afflico que faz riso e
piedade.

-- Gebo!

--Anh?

--Conta!

E elle logo, em palavras rtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:

-- Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais
fao peor, inda  peor... E j no posso mais... Acabou-se! S Deus sabe
pelo que tenho passado, as desgraas que tenho rapado e as afflices,
para arranjar ao menos o triste pedao de po para a bocca... O peor 
d'ellas. O meu corao estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite c
dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgraa. Anh? Tenho pena de ter
sido honrado...

E fica com a bocca aberta, choro, de cabellos brancos estacados.




III

AS MULHERES


Ao vir a noite pem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras
resequidas e o ruido humano pem-se as prostitutas a cantar. So pobres,
tristes, sres de descalabro e piedade, lama que o homem gra de
proposito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos,
flocos de tristeza, que so como a alma, a afflico da noite, a
soluar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De
blcos negros se constroe uma cidade. Ha ainda claridades esparsas,
neblinas, que a Sombra callada, a tactear, de subito affoga sem rumor. E
d'entre as meias portas surgem physionomias como s o remorso as cria:
dirieis, de tristes e cansadas, que se vo diluir como as das mortas.

 a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo
contar sempre a mesma historia desconnexa, dos pobres sahirem  procura
de po.

No escuro as mulheres falam para se esquecerem. s vezes somem-se as
boccas e da treva rompe aquella voz de tragedia, como se a treva
falasse, ao que d'um canto a escurido responde:

-- tu!...

--Que ?

--Lembrou-me agora uma coisa.

--O qu?

--N'esta vida sabeis o que ha de peor?  nem a gente poder estar triste.

--Ahi comeas tu...

Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escurido sente-se pairar
a Desgraa... Callam-se e depois a mesma voz comea:

--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra
que se lhe importa?

--E ento?

--Nada. Mas inda assim olhae que  triste a gente no poder ao menos
lembrar-se...

--De qu?

--Do que l vae...

--Melhor  a gente no se lembrar do que passou.

--Tomra eu ser como morta--affirma outra voz.

--E tu?

--Eu? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomra
eu no ter memoria, p'ra no tornar a vel-a, como quando a vi estirada
no caixo, por _v_ de mim...

--Quem?

-- minha me.

--Ah!...

--Pois ...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente no se deve
lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantae!

E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma
tristeza immensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as
mesmas palavras, mais para fazerem ruido do que para que as ouam. Ha
uma que ri de tudo.  magra, pallida e gasta. Traz um pacho negro n'um
olho e ri sempre, com um ar de mascara, de si, das outras, de todas as
suas desgraas.

--Eu sou a Mouca--comea ella s risadas.--A minha me deitou-me fra
era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a  roda p'ra
ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladres, cresci na rua e a minha
cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladres.
Vidas! vidas!...

--Tu no te calars!

--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rta. At foi bom,
agora no sinto o frio. Depois moeram-me. Vocs no querem saber?
Calcavam-me aos ps por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos
treze annos um ladro desfructou-me. Era um velho careca que parecia um
S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocs ho-de ter ouvido falar. A gente
s aprende  sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra
que todo o mundo piza, mas tambem j tenho calcado. Elle ha desgraas
peores, eu sei que ha. J vi gente morrer por no ter uma codea p'ra a
bocca. Olhae que eu conheo a desgraa. Tenho-a encarado... Faz mal quem
se abaixa... Um dia a gente pe-se a gostar d'um homem e inda  peor.
Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo,
as ricas e as que no tem uma sde d'agua. O peor  quando se comea a
gostar d'um homem...

Vocs sabem o que  o amor? O amor  cada qual ser como um co.  a
gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi tm o que  o amor.
Elle a bater-me e eu a dizer c commigo:--Tu que me bates  porque
gostas de mim...--Ahi tm o que  o amor,  a gente ser menos que um
co... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.

--Todas. No ha nada peor do que nascer mulher.

--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse?
Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer c por
dentro:--Este  meu amigo.--Um dia partiu-me um brao, mas a gente 
como os ces, que s gostam d'um dono que lhes d pontaps. O peor foi
que elle botou-me ao desprezo. Os homens so todos o mesmo... Vidas!
vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou
p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a
querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fra!--E eu
fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para
atormentar uma dor que se me pozera no corao. Mas elle vem! elle
torna!... Qual!...

--Como se chamava?

--Que te importa? No  bom allumiar os mortos. Deixae estar quem est
quieto. Ah, se vs o visseis morto como eu vi!... Vr morto um corpo que
se teve nos braos  como vr no caixo um filho. Por mais que a gente
grite no lhe d vida! Trazia sempre no corao a mesma dr... Vae uma
vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.

--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--J
sei que me no podes vr, acabou-se! no me importo. O que te peo  que
me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois
veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moa, quanto me
daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocs pozerem os ps ponho eu
a bocca. Aqui estou, aqui me tm.--Elles riram-se de mim.--Anda
escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu
ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no.
Ento, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do
corao. Levaram-me em braos. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu s
me ria. J me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu
lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui tm, cada qual
cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a
Mouca--terminou s risadas.

       *       *       *       *       *

Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do
Hospital. As mulheres dos ladres e dos soldados moram ao p da dor. As
paredes so negras e humidas: mos ao roarem-nas deram-lhes afflico,
gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da
mesma pedra de que  feita a vida.

L dentro, a uma luz enfumaada e oleosa, as mulheres expem-se como
farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar
d'afflico, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas 
porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em
magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. 
dura, espremida, de feies crueis e coleras subitas. s vezes
prega-lhes horas e horas:

--O amor sabe a zinagre.  peor do que a morte... No no queiram,
ouviram?

--A senhora fala! fala!... Bem triste  achar-se a gente ssinha no
mundo,--diz uma derreada e tisica.

--E ter o qu? Escarneo, s se fr...--accrescenta outra.

--Eu de mim, se fosse ssinha no mundo, cuido que me affogava.

--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraa.  s fartar.
Que sois vs? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraas.
Antes morrer no rio!

--Eu c--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me
deixasse antes queria acabar... Pela minha salvao que ia direitinha ao
rio.

--Depois queixae-vos...--ameaa a velha.--Sereis peor do que arroladas.

--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer
terra,--affiana outra.

--A gente no tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma
_desinfeliz_?

--A gente no tem pae nem me, nem folego vivo.

--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?

--E ninguem n'este mundo pde chorar ssinho...

--Eu c--diz a Mouca--eu c estou to habituada a que me dm dinheiro,
que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lenol... Quando
acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

--Vocs nem sequer vm... O que aconteceu  Maria? Affogou-se e o amante
ri. Helia l foi p'ra o Hospital.  morta. E todas morrem se se deixam
ter corao.

--s vezes mais vale morrer.

--Morrer!...--exclama a tisica.

--Eu j me matei... E depois? Foi quando me vi ssinha no mundo. Elle
tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteiro de agua-ardente com
lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se
sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava
com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a me que eu
matei  fora de lagrimas, por me vr na triste vida. Nem podia gritar.
Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...

A porta d'ella estava fechada e alli fiquei at de manh ao frio. Os
homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o
que cada um traz dentro do corao. Scismei, passei a noite ora a
scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este
leno que trago na cabea. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas s na
cova me passam.--Farta-te, se queres, mas no me deixes...--Vae elle e
disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te no posso vr.--Vejam
vocs!... Se isto  assim no mundo, se a gente c vem p'ra isto, p'ra
nos deitarem fra, e no ha mais nada, era melhor morrer... E antes
tivesse morrido p'ra no ter mais que penar...

--O Hospital est  espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.

--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...

--E a mim que me importa?

--Eu j ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...

--Depois da morte a gente no sente.

--Quem  pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.

--Pois a mim  o que me entristece... O meu pobre corpo ser
retalhadinho!

--L est o Hospital  espera, raparigas!...

--Tu no te calars!

Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:

--Filhas inda podeis enriquecer. O que  preciso  muita experiencia da
vida. Olhae que na terra s ha dor e vaidade. No ha nada peor do que
envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis po, do-vos
escarneo. E pem-se a rir at do nosso odio, ouviram?

--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.

--E tu p'ra que vieste?

--Foi o meu fado.

E a velha continua:

--Haveis de querer comer e tereis...

--O qu? diz uma anciosa.

--Pedras.

--Acabou-se! diz outra.

E fica scismatica.

--Mais nos valia morrer.

--Mais valia.

--Andae, andae! L est o Hospital  espera. L tendes todas uma enxerga
e o lenol. E o cemiterio pde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.

--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.

--Pois tem,--affiana a companheira.

--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.

--Envelhecei pobres e vereis! vs vereis!...--ameaa a patroa pondo-se
de p.

--O qu senhora?

--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no corao sem se poder
arrancar.

--Ento para que nasce a gente? S para soffrer?--pergunta Sofia.

--S. A este mundo vem-se para soffrer.

--Ah!...

--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O
resto tudo  fingido...

Mas uma, triste e magra, a _tisica_:

--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem,
um pobre como a gente...

--Inda que seja um ladro...--interrompe Luiza.

--Ao p de quem se no sinta desprezada.

--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiana
outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui  menos que nada,  como a
terra...

       *       *       *       *       *

Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em
frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada v-se _o
banco_ do hospital. Nada mais podo do que essas miseras taboas de pinho
seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem,
estremecem. Ha coisas que  fora de serem tocadas por mos humanas,
ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos
que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se
sentirem a toda a hora roadas pelas mos de naufragos (todos os que
entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia
de gritos) comearam uma outra existencia.

Foi a arvore arrancada  terra para amparar os pobres.  ainda mais
bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevo, ao sol, 
tempestade, s estrellas. Eil-a emfim smente erguida para a dr. Taboas
que j deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram
servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflico e
suor de desgraados que se entranhou na madeira.




IV

O GABIRU


No ultimo andar do predio mra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio
e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais
estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe
para l do Hospital  para elle um grande mar ignorado e verde.

A realidade tambem no na entende: solitario e pencudo, da vida s se
fartou com soffreguido d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar
extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaos, deixa correr
as suas idas  solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras
palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda
e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca
viu ao p os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idas profundas
e nunca encontrou a realidade.

 assim feliz e triste. Posto  janella do cubiculo sente correr o
doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as
idas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri
com os ladres e os soldados.

Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porm existe de immaterial--emoo
violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos
soluos. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:

       *       *       *       *       *

Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem
murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu
quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a
escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braos
erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das
coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um
raio de luz em p, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me
pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significao tem
isto?  um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e
ethereos, constellaes infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar
vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...

E no adquiro o habito. Todas as manhs  como se pela vez primeira me
achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus
rios, florestas, o mar a bramir e arvores que so sres!... Por isso,
sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz
d'Adamastor a prgar  terra e s coisas dilaceradas, eu me ponho,
escondido e s, a discutir o enigma...

       *       *       *       *       *

Devo, porm, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha at quem me
supponha doido. Todos os que so apenas restos de sonhos vivos e
despedaados como eu, tm este feitio encolhido e transido. A esta hora
da noite em que o universo parece deshabitado e em que at o rumor da
penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma
coisa, que no sou eu proprio, se pe ento a murmurar baixinho. E
eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a
sonhar em qu? N'esta belleza infinita, o universo igneo...

Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim;
de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaos vivos de sonho. Oh eu
creio que cada creatura  um composto d'almas de montes, de pedras,
d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligao entre o homem
e os mundos. Estou preso s estrellas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

--L vae o Gabiru!

Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes
quero conviver com os desgraados do que com os outros. D'elles tiro
emoo para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta,
construida nos telhados e donde se vem sres admiraveis: labaredas
verdes que se agitam--e so arvores; nuvens pousadas sobre a terra com
oiro a flux ou ento d'um violeta desfallecido--e so montes; e rlos
que correm vivos e fluidos--e so rios. Muito tempo levei a
decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraados o sabia, porque o Hospital
enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nras, torrentes de
detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol,  desconhecida a todos os
que soffrem l em baixo, entre o granito resequido. S outro pobre, o
Pitta, da trapeira contigua v como eu a prodigiosa natura--a Me.

Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas
estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouo as
palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que no comprehendo o
sentido. Os sons so syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar
 fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes
pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo at ao vir da
noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido  o murmurio dos
fontes, como se no quizessem perturbar o espantoso dialogo.

 esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as
palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vo tombar cheias de emoo e
de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me
envolve e toca, e que fala! que vae falar!...

Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe
prostrado e grita as suas palavras igneas so apenas sons, que
misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo
giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por
ventura?.... So syllabas, so vozes da Terra que entra no dialogo. E
mundos, estrellas, so palavras d'Aquelle que no infinito prga. 
sempre a mesma fora, a unica fora que cria a belleza e o sonho, a
fora donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma
coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedao de sonho, que,
apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mos esqualidas fique um
farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para
amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito
existe sempre viva uma poro de belleza. Da cova nascem coisas
materiaes, frmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza absoluta.

E com que fim? dir-me-ho.

Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar
um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro,
petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus
esmaga o barro que ns somos para construir alguma coisa de
extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo
atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O
soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre
debruadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica
ao tocar-lhes d-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha:
estremecem, levantam vo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o
luar, d vida ao sonho.

Para se crear  preciso soffrer-se. Hoje e sempre s a dor  que deu
vida s coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma
obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons
perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir,
fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e
seccas lettras do abecedario, um desgraado com genio, mettido n'uma
agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construco mais solida e
mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao corao das
montanhas.

O que  ento a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida s
fragas? o que  esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada
da propria alma e que se pde repartir como o po? Nunca houve sob o sol
creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento no consolasse
ou salvasse. At as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de
mirradas, vo aquecer e allumiar os pobres.

A dr d a vida e no  a propria vida: cria, redime, obra prodigios e
nada ha que se communique, que convena, que torne os homens irmos,
como ella... Para onde vo pois todos esses gritos, unidos n'um s
grito? Visto que nada se perde, que  que se sustenta no infinito com
essa enxurrada de lagrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de
creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.

E d'esse mar espesinhado nasciam clares, as nebulosas d'onde surgem
mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe,
vae desaguar no infinito.

 que a dr  a unica fora que verdadeiramente cria e destroe:  a
Fora. Alimenta Deus e o limo.  um atlantico de fogo,  o espirito do
universo. Cria claridades na alma dos desgraados e faz nascer
montanhas.

       *       *       *       *       *

As arvores so emoes da terra.

       *       *       *       *       *

Sonhae! soffrei!

       *       *       *       *       *

Este mundo  talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta
cahida d'um oceano infinito de belleza.

O universo  o sonho dolorido de Deus.

       *       *       *       *       *

Nada se perde. A alma, as idas e as emoes, fazem parte da fora que
faz florir o co e os humildes pomares ignorados.

       *       *       *       *       *

Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em
fogo.

O mundo  mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde
renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cva onde o
Desconhecido remexe frmas: o mar, as creaturas, as pedras, as
tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu
tremo de pavor.

Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito,
ladres, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, so esmagadas para
que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as
macieiras ans. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um
milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...

       *       *       *       *       *

Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o
que as coisas diro!... Esto transidas--ha que dias chove!...--o vento
despedaa-as e  sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos
quedam-se n'uma quietao, como se ficassem a escutar ou se pozessem a
falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro _A
Arvore_.  do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha
estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos
como n'um largo horisonte, no reparei que pela porta aberta alguem
entrra. De frma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz
pausada:

--Maquinaes philosophicas, meu preclaro amigo...

--Hein?

Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a
menos e no sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.

--Maquinaes philosophicas meu preclaro amigo. A realidade  triste e
amarga. Isto que d'aqui v e no comprehende, arvores, montes e aguas, 
no fundo to revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e
despedaa outra raiz, um brao que se crie empurra logo outro brao.
Cada monte gera tanto odio como o corao do homem.

--Por ventura o amigo j viu arvores ao p? Eu s vi a do saguo.

--Sim, conheo-as no s dos bons auctores, como de ter dormido  sua
sombra movedia e fresca... So differentes: so vivas e enormes...

--E o mar?

--O mar, que d'aqui v longinquo, todo do poeira verde,  tragico e
feroz. Brame de furia, despedaa.  esverdeado e cheio de coleras... S
eu n'este momento lhe posso dar informaes cathegoricas, reaes,
absolutas, s eu, Pitta da Conceio,  que possuo no universo esse
segredo temeroso.

--E a Me, a natureza?

--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; frmas revolvidas e
trituradas, boccas que no pdem gritar. Veja...

Para l do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol
emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no
emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros,
gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um
ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimra, bebia-a toda d'um trago.
As nras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que
descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.

--Maquinaes philosophicas, meu preclaro amigo...




V

HISTORIA DO GEBO


Por fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, j tinha vendido
tudo, at o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo,
dil-o-heis um trapo que se deita fra ou um doido de cabellos brancos
estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.

-- Gebo!

--Anh?

       *       *       *       *       *

A mulher, que fra sempre ba, azedra com a pobreza. Nervosa e secca
passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prgava dias
inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos
lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os
desgraados, nem o tempo se aprssa; vae moendo na sua m,
consumindo-as, as tristezas, as afflices e o po negro. O desespero
d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabea do Gebo
espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraa conseguia impedernir
o corao.

Todos os dias eram da mesma frma eguaes, sombrios e tristes. Isto de
chorar um dia e outro dia, d a impresso de que chove e se no sahe do
inverno.

--Dste, emprestste a toda a gente. E agora? agora?--dizia-lhe a
mulher--Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos 
fome.

-- o mesmo, mulher,  o mesmo. Paciencia...

--O peor  de ns, de mim e da pequena.

--Pois  o que me afflige, que por mim quem me dra morrer!

--No fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.

-- mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu no me dirs o que hei-de fazer?

--Roubal-o! roubal-o!...

E eram palavras negras, afflices sem conto. s vezes esqueciam-se e
ainda palravam em torno d'uma esperana, a qual, agora nascida, logo a
desgraa calcava. A mais humilde poeira d'illuso bastava, para que
todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos a
edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. S a filha,
Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso
to triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva misturados. E
como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver
rapar miserias, e por ser o unico sr no globo, que lhe no dizia ms
palavras.

L ia indo pela vida fra, cossado e com um ar de afflico que fazia
rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontres nunca mais lhe sahiam.

A mulher passava os seus dias n'uma lucta desesperada com a desgraa,
arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um at vel-os
desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas
escadas e a sua respirao--anh! anh!--suffocada.

--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.

O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o
dia ruminra:

--At que vieste, homem! E ento? Conta. Ento ha alguma esperana?

--No ha nada, mulher.

E sentava-se arrazado.

--Tambem ninguem faz caso de ti. Que s tu? Sabes o que tu s?

--Eu no, o qu?

--Um ente inutil. No ha ninguem que se no ria de ti, das tuas
desgraas, das tolices que tens feito... Que  do dinheiro que tanto nos
custou a poupar?

--Eu sei l agora do dinheiro. No falemos mais n'isso... O que l vae,
l vae.

--Pois  o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me ouvir. Dste
cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a
pequena. Reparasses, era a tua obrigao.

-- mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma scca. No me
basta a minha afflico!... De que serve isso agora?

--De que serve? Serve de muito!

 noite,  luz do petroleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos
hombros e as mos geladas de frio. A filha, sumida na sombra,
compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz
do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos
tristes, e, do outro lado da meza, s se viam illuminadas as mos de
Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descano.

--J tive uma lettra to linda e agora... Os desgostos cansam a gente.

-- de ti!  de ti! Outros tem penas, desgostos, cahem e tornam a
levantar-se...--dizia-lhe a mulher.

--Tem sorte,  o que . Para tudo  preciso sorte.--E curvado sobre os
livros contando, murmurava mais baixo:--E vo sete--...

--Sorte! sorte! A culpa  tua que no tens energia nenhuma. Procura!
Deixas-te ficar espapaado p'ra ahi... Tu o que queres  comer e dormir.

-- mulher!...--E erguia o caro afflicto, onde batia a claridade de
chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.-- mulher, a gente tambem perde as
foras... Sempre a desgraa! sempre a desgraa!...

--Tudo nos corre torto!

--Mas...

--Tudo! Deixa-me!...

E desatava a chorar. Ento o Gebo, afflicto, a mo curta e gorda
ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.

--Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu vers... No te afflijas.--E
vo cinco...--Tambem ha-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraa ha-de-se
cansar de nos perseguir.

E o po que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto mentia, que
chegava elle proprio a illudir-se.

A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale
rapado.

--No, que  preciso sahirmos d'este atoleiro.

--Agora vae, agora vae, tu vers. Ando ahi com um negocio... Sabes tu
que mais?... Deixa-me trabalhar.

Ia a me deitar-se e Sofia, at ahi silenciosa, dizia erguendo-se:

--Pae no se afflija.

--Eu no, filha, eu no. Aquillo  genio, coitada. Ella tem razo, tem
soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. D c um beijo... Assim. Eu c
fico com a escripta.

--Muito boa noite.

Ssinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e
horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E vo cinco,
e vo sete... noves fra nada...--at que a vista se lhe toldava, e a
deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluando:

--No posso! no posso mais! E tinha uma lettra to linda!...

       *       *       *       *       *

Na propria desgraa cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo
em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz
dos olhos, e a vida d'expedientes tornra-se mais aziaga. Achavam-no
ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e choro, que
vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher
empenhra a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos
livros.

Quasi sempre ao deitar falavam da filha.

-- o que nos vale a nossa filhinha.

--Sempre nos d mais animo.

-- to boa, to nossa amiga!...

A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a
roupa andava defendida e cuidada at s ultimas. Luziam as coisas e
quasi no comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o
Gebo e para a filha.

-- homem, mas ento? Toda a gente, se arranja e tu ests sempre na cepa
torta!

--Deixa estar, mulher! As coisas no vo como tu pensas.

--Ora no vo! no vo!...

Era ella afinal que o empurrava, quelle ser gordo e inutil.
Fortalecia-o.

--Por vossa causa  que eu lucto,--dizia elle sempre.

s vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas
mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que s
apparecem quando a desgraa entra n'uma casa. Era uma velha, de chale
preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia
novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que
pessoas suas conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que
soffriam como ella!

-- Anninhas ouvi dizer que a Desideria est por baixo, coitada!...

--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.

E ella n'uma ancia:

--Fome? passa fome? Coitada!

--Mesmo fome, filha.

--Que me dizes?

-- isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?

--Agora, graas a Deus, vamos indo. As coisas vo-se remediando.

Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os
negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes
desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam
illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, no por mentirem, mas para
tornarem mais visivel a sua aspirao, o sonho que traziam escondido.
Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.

--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...

Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:

--Cuido que est cada vez peor.

--Um homem que teve um credito na praa!

--Tem a fome  porta.

--Coitado! Eu agora  que trago entre mos um negocio...

Porque  que elles no trabalham? Porque a quebra, as afflices, a
ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e s sonham em se
tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a
scisma em maravilhosos lucros. E no tm porventura razo? No vo
amanh quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza--a Morte?




VI

PHILOSOPHIA DO GABIRU[1]


E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio:  uma esperana, um raio de luz entrando n'um
tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crr? porque no
crr? Theorias, palavras... No intimo, porm, sou materialista como toda
a gente. Dormir na terra funda e gorda  bom--dormir para sempre. Ir ser
arvore, luz, detricto, correr nas veias da terra,  quasi
consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um
dia.

Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com a
mesma sinceridade, quasi com ferocidade.

       *       *       *       *       *

Ser s, sem amigos, sem apertos de mo, sem conhecidos, ser s e livre,
que sonho!...

Ser s por cobardia, para no ter este aguilho da vaidade a
espicaar-me:--Ento tu no fazes, e este, aquelle, o diabo,
fizeram!--Ser s para sonhar e para vr este espectaculo unico---a
natureza; para passar os meus dias vendo as transformaes d'uma
d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...

Quando me fecho e estou s, sou to differente!... Como o homem 
desconhecido at de si proprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle
no esteve ssinho! Se estou s vm falar-me _vozes_--eu mesmo--mas com
que palavras unicas! Os sres de que sou composto, se me habituo 
solido, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...

       *       *       *       *       *

Tenho a certeza de que fui arvore e  por isso que tanto as amo.

       *       *       *       *       *

Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns tem por si
o encanto, outras a fora. s vezes as palavras murmuradas impressionam
mais: passado tempo ainda ellas acordam em ns fibras adormecidas.

Porque  que a agua, at o mais humilde charco, attrahe e faz sonhar os
homens de imaginao?

       *       *       *       *       *

Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella  inalteravel.

       *       *       *       *       *

O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a ambio,
interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que no tem
tempo de vr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas creaturas,
existem que nunca olharam para o co? A natureza, arvores, montes, rios,
esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de
preguia e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram tempo para amar
as coisas simples e grandes da vida. O que  eterno no no viveram. Por
mim antes quero comer po e scismar, deixar correr as minhas idas como
um regato corre--at onde tem agua. Alguns morrem sem terem reparado que
existiram.

 por isso que eu corto sempre com tudo que me no deixa sonhar--e que
quando encontro razes para acabar com um amigo tenho um suspiro
d'allivio.  uma amarra de menos.

       *       *       *       *       *

Habituar-se a gente a viver com idas simples  como habituar-se a andar
com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se
viver arredado.

       *       *       *       *       *

A morte aterra-me pouco. Porqu? Porque s penso na morte como n'uma
divida distante. Fica para muito longe ainda.

Ha horas, porem,  noite, de subito, em que, sem ligao, essa ida
rapidamente me toma e abala at s mais reconditas fibras. Suffoco ento
aterrado.

       *       *       *       *       *

Com que facilidade se matam at os entes mais queridos!... Quantas vezes
me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte-- a mesma coisa, com
este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a
menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento  este:

--Se elle morresse...

 claro que protestas logo. Protesta o teu corao, a tua educao, os
teus habitos e at a tua hypocrisia. Mas se deixares trabalhar a
imaginao  vontade, sem peias,  uma hecatombe--por futilidades.




VII

PRIMAVERA


O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia
crear! ia crear!... Aquelle cho que s o arado do sonho lavrra, eil-o
atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida.
Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos
perdidos de scisma...

Acordra emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a
revolver um brazido d'idas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca,
raza como o cho. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de pacho n'um
olho, com um ar de mascara que vae gritar d'afflico.

O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de
frma que ao erguel-os, dra de cara com a vida e perguntra: Que 
isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao
sol, penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os
braos, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo  luz,
 uma chamma? E como tudo  bello!

Vr ao p arvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a
conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe to irrealisavel como subir
s estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso
acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o
extraordinario mar: Vs que me quereis? E no alto da mansarda sorria
para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.

--Porque a amas tu, philosopho?

--Sei l! Amo-a. D-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos
tristes, o seu feitio do co espancado. Amo-a, porque qualquer outra me
desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella  parecida commigo, talvez tenha
pena de mim.

Todos somos constructores. De terra e de emoo andamos pelo mundo a
amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que
se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de ns
mesmos, do que pelo que na realidade so. De saudade, de sonho, de lodo
e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no mundo
aos tombos, sem po e sem abrigo. A elle que passra a vida inteira a
atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de ladres e de
soldados.

A casa das mulheres de dia  funebre, mas de noite,  luz do petroleo
que esvoaa e deixa tudo n'uma meia tinta d'afflico--candieiros
partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraa, onde palhaadas
tragicas faam gargalhar e onde os ladres e as mulheres enfarinhadas
representem a serio vicios e crimes, com risos e choros  mistura, para
que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar
gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e
soturno, com um laivo na cara. Tem as mos osseas e enormes sempre frias
e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico.
Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle no ha a esperar
piedade. S a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a
noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as
feies endurecem, o riso  atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos.
Paga, maltrata.  lodo, no ha que ter piedade. E as mulheres cantam
sempre na mesma toada triste e soluante... Nenhuma fala do passado, com
medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia 
identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram
para soffrer e resignam-se: o esgoto  necessario. Tudo na vida se
alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua. Enganam
nas e no se queixam.  o Fado. No tem odio a quem as illudiu; ao
contrario no esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sentem
correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as
faz nascer e as traga. Triste  sempre a vida--lagrimas, pancadas, po e
assim as leva a sorte at  cova. Ouvi: esta seiva dolorida far nascer
um dia alguma mysteriosa Arvore.

So irms e unidas, sustentam-se na desgraa. Os amantes moem-nas e
ellas humildam-se, to triste  no ter ninguem a quem amar. E as
desgraadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se no enxergam,
so as que de todo se sacrificam por elles. Miseras creaturas, a quem se
paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraa e mais pobres,
quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas
para que as amem. Ficam dias sem po para que os amantes o tenham. Tiram
a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se
se as desilludirem. Sres de ignominia s amam idealmente. Assim ser o
amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza 
pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto  a unica realidade.

       *       *       *       *       *

A casa  tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a
noite agonisa uma luz de petroleo.

Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que
insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, 
alta, curva, cansada, e to cheia de resignao que parece morta; outra,
Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi no fala. Olha soturna, com os
negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de
magoa.

Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. s vezes, altas horas,
tudo sereno, ouve-se na escurido um ruido de choro suffocado.

Fra v se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar
carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas s esquinas creaturas
esperam... Parecem pedaos de noite destacados da propria noite.
Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram  treva para se embrulharem um
farrapo do seu manto. s vezes da escurido sae um perfil, mos que
querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que tm a
rigidez tragica das estatuas. S a mo, que o lampio illumina, fica
decepada. Por vezes toda a figura baa e amolgada surge, para logo se
anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se
mexem, petreas: se choram so a Dor. Algumas, de viverem d'um passado de
fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se, no
occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vo cantando na mesma
toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho
espesinhado...

       *       *       *       *       *

Todas as noites o Gabiru l vae sentar-se a um canto a scismar. Olha a
Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladres e os soldados e ellas
vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:

--L vem o enguio!

A Mouca s risadas diz:

--C temos o enguio!...

Mas em vo! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca
cahida, sem vr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho,
entre as mulheres, os ladres e os soldados:

O que eu sonho! Eu que sou to timido, ponho-me a falar e a scismar...
E tanto scismo!... Troco tudo. Como  que tu gostas de mim, que nem te
sei sorrir?

Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das
arvores, quando desponta maro, para te exprimir o que sinto. Todas as
palavras me parecem mirradas e servidas.

Olha, dize-me: chamas-te Maria, no ?

E entretanto os ladres e as mulheres conversam:

--Tu no te callars, estupor!

E uma tisica, magra, s com a pelle e o osso, explica:

--Uma mulher da vida... Que esto vocs a dizer das mulheres da vida? Eu
inda queria vr... Quando tu no tens po quem t'o d?

E o ladro responde:

--s tu.

--O po que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?

--Commigo.

Mas outra do outro lado berra:

--A gente aqui  como os ces. Toca a rir, raparigas! Se uma me
adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para
um que entra:--Olha l,  coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia...
Tu imaginas que uma pessoa  de ferro?

--Abaixo as patas!

Uma mulher pergunta a um velho ladro calvo, que a um canto s ri, com
uma bocca disforme, escancarada na sombra:

--Tu que eras,  velho?

Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro--s bocca--como a
fauce desdentada d'um lobo, e um outro  que responde:

--O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mos. Cheira a terra e a pobre.

O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os
soldados:

--Tenho muito que te dizer--tanto!...--e no sei o que te hei-de
dizer!...

Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para
a terra.

As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam
desfeitas em sonho.  o que lhes acontece.

Ora vem ahi maro, j rebentaram novas fontes... Maria  um nome to
lindo!

Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio.
Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com
um chale de seda que a no aquece.

--E tu que eras?

--Eu nada. Basta de conversas. Ds-me um beijo?

--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz
de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas... J
viram alguem rir-se assim?

-- minha arrolada!

E deu-lhe um pontap.

Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:

--N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.

--Tu?

--Sim.

--A mim minha me  que era a capa. Encobria-me.

E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia,
toda de emoo e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem vr nem
ouvir:

--No sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu corao sahe
uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouo! o que eu ouo!... Ao
luar, l em cima, ouo as montanhas em dialogo e falarem arvores e
pedras!...

E a _tisica_, voltada para o ladro, diz-lhe:

--Que queres mais que te eu d?

E elle, rindo:

--Ora! dinheiro...

--Nem p'ra po j o tenho, quanto mais!... J o no ganho. Quem me quer,
se todos dizem que estou tisica? Estarei...

--Tu arranjas sempre.

--Aonde? os meus trapos esto no prego, este chale  emprestado por
misericordia. O leno que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar  patroa. E
amanh entro para o Hospital.

Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi  porta murmura:

--Bem sei onde ir buscal-o.

Magra, desconjunctada, a tossir, a _tisica_ exclama:

--Pois vae! vae!... Se outras te do mais, vae!... Deixa-me!...

--Pois vou...

E logo ella, arrependida, torna:

--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como qu? como um filho
meu...--E para as outras com um amargo sorriso:-- raparigas, quem ha
ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?

Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a _tisica_,
estendendo a mo:

--J a no ganho com o meu corpo.

E beija as cruzes ao dinheiro.

--Toma.

D-lha e baixinho pe-se a pedir-lhe:

--Antes de eu morrer, promettes que me vaes vr ao Hospital? Todos dizem
que estou tisica. No  por nada, mas vae-me custar morrer, sem vr
ninguem ao p de mim... Quem hei-de eu vr? Agora olha como te portas
ssinho, ouviste? Inda te levam para o chelindr. Vocs em se pilhando 
solta, adeus meu amigo!... Entro amanh de manh para o Hospital e na
quinta  dia de visita. No te esqueas de mim, ouviste? A gente
prende-se e depois custa-lhe. Ora! que  que eu fao n'este mundo?....
Tu ha boccado dissste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era 
Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um
cangalho, s sirvo de tropeo... Mas olha que fui sempre tua amiga. J
agora deixa-me acabar, p'ra lhe no dares esse gosto... S te peo uma
coisa.  que me vs vr antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto
de a gente morrer sem mais nem menos at me parece exquisito... Que
haver no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem disse:--Ests
prompta!--E atiram assim com a gente p'ra o cemiterio!... Eu ainda
queria que me dissessem o que  que a gente c vem fazer...

--Sei l!

--Chorar. S se fr... E levar m vida.

Apertando-lhe as mos, envergonhada:

--Ento v l se te esqueces de mim.

--gora!...

E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca
descorada como um reflexo de sol:

--gora!  o que vocs sabem dizer. Os homens so todos o mesmo, falam
todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e
tudo leva comsigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoo... E tudo vae
sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas
pedras e na terra, at na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer!
tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?




VIII

MEMORIAS DE LUIZA


 assim a historia de uma das mulheres:

Tive sempre frio. Esta impresso de ter os ossos gelados vem de muito
longe, de pequenina.

       *       *       *       *       *

Nunca tive me, nem ninguem. Fecho os olhos e s vejo o Asylo, os
corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de
granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.

       *       *       *       *       *

Tambem guardo de pequenina esta impresso: a vontade que tinha de
beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram
hirtos.

       *       *       *       *       *

Vou vr se me lembro bem... Primeiro  tudo confuso: depois vae-se
espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.

Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos
andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A Irm
ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manh de que nos arrancavam
era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para
sempre. Para que vem a gente ao mundo?

       *       *       *       *       *

De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por no terem
me.

       *       *       *       *       *

Todas, to pequeninas, tinham o ar de serem j crescidas. E no sei qu
de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida.
Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma
disse alto:

-- mam!...

E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que no tinha me a pronunciar
aquella palavra?

       *       *       *       *       *

Quereis crer? S tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas,
tristes por no terem filhos.

       *       *       *       *       *

E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.

       *       *       *       *       *

Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado.
D'uma vez uma, j eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade
perguntei ao hortelo o que ella tinha.

--Soidades por lhe levarem o filho.

E ha mes que os deitam fra!

Muito deve custar a morrer a uma me, que deixa no mundo um filho para o
Asylo!

       *       *       *       *       *

Havia as grandes, as mdias e as pequenas. As grandes eram desageitadas,
de mos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias.
Faltava-lhes no sei que graa, que s existe nas que tem me, por mais
feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...

       *       *       *       *       *

s vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco, rispido, de
cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:

-- preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos
bemfeitores.

Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato l estava collocado ao p
dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme,
gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os
bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes,
seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.

Todas as noites as Irms nos faziam resar por elles, a quem deviamos o
po e a vida.

       *       *       *       *       *

Era prohibido falar, a no ser s horas de recreio, e isto explica
talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos
cantos da bocca.

       *       *       *       *       *

O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto: era mais quentinho:
dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a Irm
enfermeira ser a unica que tinha corao e que gostava de nos beijar.
Todas eramos amigas d'ella.

 curioso. Lembro-me das grandes arvores que de l se avistavam, mas s
as recordo descarnadas e despidas, n'um cu pallido. Sempre no inverno.

       *       *       *       *       *

Tenho ainda a impresso de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais
consegui aquecel os.

       *       *       *       *       *

O po do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro po, por mais
desgraados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em
todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, at o Christo, at o
caldo aguado, a mesquinha rao que nos davam parecia dizer-nos: Olhae
que viveis por caridade! Habituae-vos  desgraa!

       *       *       *       *       *

Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanas que no tem
me. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.

       *       *       *       *       *

No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco,
funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de
priso, era pallido, e, mesmo de vero, parecia um sol d'inverno; as
camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas s paredes caiadas e
nuas; s ao fundo, por cima da cama da Irm, um Christo de loua azul
manchava aquella brancura.

O recreio no era na cerca do convento. Brincavamos sem barulho no
claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O
claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo
do co, e a sombra geometrica estendia-se c em baixo. De um lado era
sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um
golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio
d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro. S
andorinhas cortavam em cima o co; mas d'uma vez que em maro vieram,
afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas
deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de
pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro.
Passaram de mo em mo com alvoroo. Algumas das asyladas scismavam,
olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:

-- um bero...

Destruil-os porqu? Para que no soubessemos que as aves tm me e
cuidam dos filhos? Para que no tivessemos saudades das nossas, que no
conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das Irms se
era por isto! Ns presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e quando uma
das mais pequeninas explicou s que faziam roda:

-- o bero dos passarinhos...

--quantas de ns j tinham scismado n'um bero assim agasalhado e
ffo!...

       *       *       *       *       *

D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um dia, quando eramos
grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que
comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns
trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos
bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas oraes do bem que lhe
fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por
esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do brao, partiamos para a Vida.

       *       *       *       *       *

Oh! minha mesinha!




IX

PHILOSOPHIA DO GABIRU


Ter os mesmos direitos que as arvores e os bichos  immortalidade,
humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmo do que 
pequeno e desgraado.

       *       *       *       *       *

S as creaturas que soffrem  que so dignas de viver, e na verdade so
as unicas que vivem.

       *       *       *       *       *

No tempo infinito e no espao limitado as moleculas agregam-se,
desagregam-se... S chimica, s a chimica existe... As moleculas, que
tem em si a fora vital, so hoje arvore, amanh animal, pedra, homem.
Conforme o qu? o que  que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso
determinar, conforme as minhas moleculas, amanh desagregadas, se unirem
a outras mais tarde... Tenho vivido at aqui--continuarei assim pela
eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da
minha propria vida: quero que fale dentro em mim o _universo_ que eu j
fui--a pedra que eu j fui--a arvore que eu j fui--o bicho humilde que
eu j fui...

A tua opinio?... De que me serve? E  ella tua, sentel-a bem tua, ou 
aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compe o meu
sr, deixal-o prgar com a sua voz rouca--com a sua propria voz e no
com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso,
deixae-me ser o Riso.

O momento  unico, no vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana,
depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilho, de
desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o
atlantico, tornaro a ser, se chegaro a reunir para terem a consciencia
do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas
leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento  unico: vae perder-se manh. Seculos de canseira para terem
n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no
fundo da obscuridade, para no virem afinal  luz, seculos de amargura,
de esforos, de tentativas abortadas--para no chegares afinal a viver.
 como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo  feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino.
Cumpre tu o teu. Tudo  harmonico, porque vive da verdadeira vida: as
plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a
natureza inteira, no tem remorsos nem duvidas. Nem tu as ters, se
viveres da tua verdadeira vida e no de outra.

A tua educao deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que
trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te
contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornars a ter
consciencia? E que foras perdidas, que luctas no vo ser
necessarias?... Quantos gritos!...

       *       *       *       *       *

Gosa tudo: a desgraa, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca
voltars a sentir seno n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de
vida, do teu largo quinho de vida, para que s portas do Nada possas
dizer:--Vivi!...

       *       *       *       *       *

Esto em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para
com os outros.

       *       *       *       *       *

Deves amar os rios, porque j foste rio; os montes porque andaste nas
suas entranhas; a nuvem tua irm; a arvore onde correste em seiva--e o
homem porque s o homem.

       *       *       *       *       *

Se te no deixam ser o que deves ser--resiste.

Mais vale morrer do que no luctar. Morrendo, triumphars porque
cumpriste o teu destino.

       *       *       *       *       *

Tu s feito de humus, tu s feito de terra. Se ella te deu bocca para
que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao
fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia
tudo ter voz. Na verdade no haver fonte, arvore, bicho por mais
esquecido, pedra por mais ignorada, que no tenha voz e no faa a sua
confisso.

       *       *       *       *       *

A educao moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem
no universo da mesma frma.

       *       *       *       *       *

Nasce comnosco o destino. No o cumprir, seja qual fr,  ser
desgraado.

       *       *       *       *       *

Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada?
Sabeil-o?...

       *       *       *       *       *

No contrariem a vida. Ns somos uma torrente, que Deus creou para um
fim... Assim nascero creaturas que incarnaro o Mal, dirs... Pois que
o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.

       *       *       *       *       *

Se a natureza cria monstros,  que elles so necessarios, como certas
pustulas que purificam.

       *       *       *       *       *

Nunca os tigres afinal venceram.

       *       *       *       *       *

E de que te serve andares mascarado?...

       *       *       *       *       *

O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes,
pedras, etc.  um universo reduzido. Conforme n'elle predominam
determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando  que a chimica ser to grande, que possa fazer esta analyse?...

       *       *       *       *       *

Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem
sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e s
eterno.

       *       *       *       *       *

O que  a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.

       *       *       *       *       *

Fujamos da terra, dizem-te. No, bem preso a terra, a terra subtilizada
que tu s, a terra tua me. Essencia da terra, trabalho insano do seu
ventre durante seculos e seculos, homem no a renegues! Ama-a, ama a
vida. Tu s talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoo,
toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de
immaterial: deu-te o sonho. S bom, se ella t'o ordena, s mu se ella o
quer.

       *       *       *       *       *

Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na
terra.

       *       *       *       *       *

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que so rios
de odio, outros que so rios d'amor, outros que so a amargura, o riso,
o sonho...




X

HISTORIA DO GEBO


Elle ahi vae, aos tropees, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu caro espantado s nos
fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatla-o no lagedo, afflicto,
sem mo que o ampare--e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

-- Gebo!  Gebo!...

No ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu
seio.

       *       *       *       *       *

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas
no cho, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vr
a filha horas e horas a scismar. Em qu?... O Gebo ao pensar na sorte de
Sofia cuidava que lhe torciam o corao. Por ella  que se batia ainda
com o destino. E quasi no tinha po para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu no trabalhas!... Tu o que s s um mandrio. Olha os
outros como furam, como sobem... Tu s um estupido! Na vida  preciso
ter-se muita finura. Quem  assim no se casa!

-- mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem foras, prostrado. A sua
vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrra tudo, batra a
todas as portas e assim se affizera  humilhao e  esmola; a ser mal
recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos,
que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras
na mo:

--Volte depois!  demais! Isto sempre no pode ser, voc abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de po, em que ao
deitar mergulhava logo. Esses pedaos de vida, furtados  desgraa, em
que se no pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico
goso do Gebo. E tanto mais a desgraa o abalava, tanto maiores eram os
seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que
quasi no dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle,
logo cahido na cama, logo tombava como morto. s vezes a mulher nem
descanar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, l se punha a dizer palavras, coisas
desnorteadas, at que ella enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caa aos magros cinco tostes, que todos os
dias precisava de juntar, comera a ser desorientada e feroz. Viam-n'o
correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua
afflico em palavras rtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas
 porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado
pela filha,  espera que um conhecido passasse. s vezes consummiam-se
os dias e elle sem dinheiro para po--porque os coraes so de pedra.
Rondava n'um desespero pelas ruas. No encontraria acaso alguem que lhe
valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios,
pedincho e sempre a suar. J no tinha que pr no prego e muitas vezes
se lembrava da morte.

Oppresso o corao, voltava, l ia  espreita, n'um desespero sem fim.
Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um
transe, perguntava ao avistal-o:

--E ento? ento?

--C est, mulher! c est!

 descanar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir
quella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhaes, as horas amargas
passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de
que nunca mais se acorda nem para a desgraa, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem
tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraada? E nem na propria
casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. S
Sofia, linda e triste, pela sua resignao lhe dava animo. Se no fosse
ella, seria to bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos
como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e no
lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na
desgraa, gordo e picaro, atarantado e pedincho, com uma unica ida ao
acordar: arranjar cinco tostes, para as mulheres comerem.

J cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam
pelas mesmas afflices. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro
frio, que s a miseria d, encostados uns aos outros, raro se aqueciam
ainda com um sonho vo. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela
realidade, e a Desgraa alli presente parecia rir-se. Gastavam as
ultimas roupas, faltavam j trapos usados e elle de cada vez mais gordo
e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos,
aquelle riso fazia mais afflico do que as proprias lagrimas. Muitas
noites no se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica
enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custra as derradeiras lagrimas
d'olhos ardidos, fra a pequena casa e o quintal, que de paes para
filhos at elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as
arvores, que tinham plantado por suas mos, a horta, o fio de agua da
bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fra
levado, como uma parte do seu sr, que lhes lembrava os dias de
felicidade, sol que ainda aquecia e que no tornaria a luzir.

A mulher j no ralhava: tombra, com o olhar desorientado e os dias
gastos em monologos desconnexos. E elle ficra, amolgado pelos
encontres, gordo e ridiculo.

-- Gebo!

--Anh? anh?...




XI

LUIZA E O MORTO


O ladro escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andra e n'essa noite, com
um pedao de po metido entre o seio e a camisa rota, fra dar ao caes.
O cu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua  noite
assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cva. O
rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas
presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao
largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades podas
do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respirao estrangulada,
apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e
opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedao de po--o seu jantar--e teve um ah!
de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado
no fundo do rio. Havia quasi dois dias que no comia e ia emfim dar a
primeira dentada no pedao de po. Tinha os joelhos doridos e sentia uma
lassido enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um
sobresalto, de p, com o po a que ia dar uma dentada na mo, perguntou:

--Quem est ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava
encharcada e frios os ps.

--Estar morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o po. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraada...--scismou--Quem est ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creana, comeou:

--Sou eu.

--Tu quem s?

--No sou ninguem.

--Que ests aqui a fazer?

--No estou a fazer nada.

--Tu que queres, ento?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A agua do rio sempre  mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prgar. As nuvens
baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da
noite. No se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a
outra rouca, eram como o dialogo de duas foras ignotas, que o acaso
rola no mesmo turbilho do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luiza.

--Quem te fez mal?

--Ninguem. Estou gravida.

--Ah!...

--Estou gravida. Eu no sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque 
que no ensinam  gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa
devia aprender.

--O qu?

--A ser desgraada. Ha dois dias que no como. Tenho andado por ahi.
Botaram-me fra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

--Vae p'ra a tua casa.

--Eu sou do Asylo, no tenho ninguem, nem me, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim no, ninguem me enganou. Eu no sabia nada. Quando vim do Asylo
no sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fra. Ninguem me
quer assim. Quando a gente est gravida que ha-de fazer? A gente no tem
culpa...

--No fizesses o filho.

--Eu era uma innocente.

--Ah!...

--No sabia nada, juro-lhe pela minha salvao.

--E ento?

--Deitaram-me fra do Asylo e fui servir. O patro foi quem me logrou.

 sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre
creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do
Asylo com uma trouxa debaixo do brao e o discurso do senhor provedor,
foi servir. Logo que o patro viu aquella rapariguinha ao abandono na
terra, poz-se a falar-lhe baixo, s escondidas.

--Era como se me pizassem o corao...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes
agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar ssinha.
Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, j vindo
 terra com este destino amargo--ser explorada. Elle deixou-a logo e
ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descrada e
triste. Um dia acordou gravida e a patra pl-a na rua. Remexeu-lhe a
trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do brao poz-se a andar pelas
portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, at que foi dar
ao rio, com fome e inteiriada pelo frio.

Callou-se. S se ouvia o chapinhar da mar. S o rio prgava. Tu, rio,
que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas
lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste po, encharcaste terras,
humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado,
foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro,
e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino,
tudo levas, ais, confisses, restos, para o profundo mar. Que dizes,
rio? que prgas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a
fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora
d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por
fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do
planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros
sonhos e raizes na mesma condemnao eterna e n'um trabalho insano? 
isto?  para moeres po negro, passares por troncos conhecidos sempre
rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro
tremulo, de todo se sumira. Ento o Morto no silencio e no negrume,
comeou:

--Tu que imaginas que  isto?

--Isto qu, senhor?

--A vida. Todos querem mas  enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os
pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer.
No grites que  peor. Ninguem te acode.

--Eu no grito.

--A tua me botou te fra, para no te crear, o teu patro enganou-te.
Tu que imaginas? E que podias fazer seno deixal-o enganar-te? Que
has-de fazer? Ho-de enganar-te sempre e s te no desamparar...

--Quem? perguntou anciosa.

--A fome. Has-de andar por ahi at cahires de velha, aos pontaps e s
voltas com a desgraa. A desgraa  que pde tudo, ninguem no mundo tem
mais fora. Se tiveres fome, ho-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

-- senhor!  senhor! Mas ento para que me crearam no Asylo? Era melhor
terem-me deixado morrer. Eu no fao mal a ninguem. Que hei-de fazer?
Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias
que no como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo  agua!... Quando metti os ps no
rio to negro, fugi...  minha mesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda
por crear, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma l o meu po.

E o ladro deu-lhe todo o po que trazia.




XII

PHILOSOPHIA DO GABIRU


Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo
o que se tem sonhado.

       *       *       *       *       *

Ser despedaado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande,
porque abala e acorda vozes adormecidas.

       *       *       *       *       *

Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a
nuvem, no outro a terra. Tudo o que  verdadeiro, arraigado e fundo, 
bello--at o crime.

       *       *       *       *       *

No importa saber donde nasceu a ida da immortalidade, o que importa 
saber se a immortalidade existe. Todos a sentem at os mais
materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sr.
Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicaes mesquinhas,
o que no podem  arrancal-a.  como certas arvores que, deitadas
abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as
extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspirao... Ella
remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?

       *       *       *       *       *

Tomo tudo a serio, at as coisas sem importancia--outra razo para ser
desgraado.

       *       *       *       *       *

E quando  que eu cumpro o meu destino?--dirs. Interroga-te.

       *       *       *       *       *

Se as arvores no fossem necessarias, existiriam arvores? Se os
criminosos no fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?

       *       *       *       *       *

A educao que nos do o melhor que ha a fazer  esquecel-a. E
esquece-se porque ella nada tem com a vida,  uma coisa  parte. A que
adquirimos  custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na
peleja, essa acompanha-nos at ao tumulo.  a verdadeira.

       *       *       *       *       *

O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os
seus erros--e at os seus crimes. Se no existe, inventa-a.

       *       *       *       *       *

Acho que, ao contrario do que se diz, no sou amigo de ninguem seno nos
primeiros tempos. A principio os angulos no apparecem ou disfaram-se.
Depois comeamos a ser duros.

Creio que s ha amigos at aos vinte annos, quando ainda se no pensa na
vida. Depois endurece-se. Raros so os homens que atravez da vida a
serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.

       *       *       *       *       *

No, a morte no destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma
forma destroe a consciencia d'essa forma, que  formada de milhares de
consciencias...

A aco do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu
_eu_, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma fora tira
harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgo. O que resta, pois? A
essencia da vida?

       *       *       *       *       *

A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia
de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.

       *       *       *       *       *

No se trata de ser feliz ou desgraado mas de se cumprir o destino para
que se nasceu.

       *       *       *       *       *

Que ida to falsa a de se suppor que a vida tem um fim--a felicidade ou
a desgraa! No  isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim-- viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para
que fomos nascidos. Isto  logico, inevitavel, maior decerto do que o
que suppomos, mais bello, mas cdo ainda para se entrever.

       *       *       *       *       *

O homem  uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a
emoo torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouo assim correr
a minha existencia...

Um dia a fonte secca-se.

       *       *       *       *       *

A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer
no. O homem no  seno a essencia do universo e nasce para que tudo
tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pr diques, retardar a
torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.

       *       *       *       *       *

No, no  justo que a gente morra de subito sem protestos, sem
palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambies, os seus
sonhos... Abre-se de subito uma cova... No se pensa mais, no se v,
no se ouve... E o que custa no  deixar pessoas queridas, nem
habitos-- no viver. Morrer quando a vida continua da mesma frma
harmonica e impassivel--eis o horror.

       *       *       *       *       *

Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma
outra vida seno a sua vida.

       *       *       *       *       *

Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam 
por habito ou por interesse:  por calculo. Se queres continuar a amar
os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e
passas a morar com a mentira. A peleja comeou:  preciso arredar,
vencer--e cada um n'essa edade  o que . J se no amolda:  um ferro
desembainhado, sahido da forja; tem j os seus habitos, vaidade,
mentiras. Tudo o que estava apenas esboado endureceu;  de pedra.

De frma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua
edade ha centenas que vo comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim.
Adiante de ti esto os homens de quarenta annos, que  preciso arredar,
conquistar ou illudir. Cada um d'elles  de ao. Para triumphares tens
de os lisongear, tens de ser elles e no tu...

Os que tm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem
agradar. O triumpho pertence no aos mais fortes, nem aos mais
intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pdem ser todo o mundo...

Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual  do
homem que precisas conquistar.

       *       *       *       *       *

Sim a vida  uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos,
odios. Falam em ns as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala at,
n'um murmurio, o que  ainda desconhecido.

Que  preciso para que cada um se encontre? Que  preciso para que as
arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu s a me, terra; tu a fecundaste, Dr, e at ns veiu como o murmurio
apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as
mos at as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no
sonho; na morte; na desgraa; no que  humilde ou grande no importa.




XIII

ESSA RAPARIGUINHA...


Qudo-me a scismar to ssinho n'este velho casaro!... De noite ouo
vozes, logo suffocadas, que me querem falar e no podem. S os meus
crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se pem a prgar dentro em mim.
Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas,
alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh no! Bem sei, por demais
conheo a frma porque as ideias se ligam, at as mais contradictorias,
e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas no  isto:  do
fundo do meu sr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um
phantasma. s vezes estou s e esquecido e um estalido atraz de mim
alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, j a pensar n'essa
pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados,
podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no emtanto o facto em si  simples e banal, vulgar como essa
rapariguinha das ruas, molhada at aos ossos, a quem nem mesmo soube o
nome, porque nem sequer lh'o perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao
encontral-a uma tarde, sem po, expulsa de casa, vagueando na tristeza
das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu,
levando-a para a casa de _passe_, sentia, no orgulho nem prazer, mas
oppresso e vergonha. Perguntava-me j: como me hei-de ver livre d'ella?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a
rapidamente, dando dinheiro  mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi
como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque  ento--e j l vo muitos annos--que a certas horas
de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o
sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva,
todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descala, molhada at aos ossos e a
sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um
sorriso to triste que me piza o corao.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de _vozes_, que vo prgar, mas
que logo se callam suffocadas. A ventania passa l fra e na escada soam
os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico ssinho, a
scismar, n'este velho casaro, com os olhos presos no lume que
esmorece...

Eil-o que pra no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade no conheo outro homem to nullo, banal como a propria
banalidade. A sorrir, a amar, e at com o corao despedaado, esse
homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou
desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. Jos era incapaz de odios.
Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum
bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na
rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida  a vida de todas as
creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta:
enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas
philosophias o ensinam)  de quem possue a fora e aptido... Mas hoje
estou n'um dia enervado e sinto-me ssinho n'este velho casaro. Parece
que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto
esquecidos!...) encontram emfim palavras e se pem a falar dentro em
mim.

 talvez para fugir a esta obsesso que me deito a scismar na vida
d'este homem banal como a propria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faa a narrao d'uma existencia,
que  como um trapo que se deita fra todo molhado de lagrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e
incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E no
faltou a doena a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a
romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o.  por isso que
elle, ao saccar das casas o caixo dos mortos como quem o arranca do
peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.

Quem foi a tua me,  S. Jos?...

       *       *       *       *       *

Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle
os visinhos e s a Rata fala ao gato pingado.

A Rata  sua egual, to maltratada pelo destino como elle. Foi sempre
assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar.
Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com
quem casou, e que logo a deixou ssinha. Com o S. Jos conversa s
vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal
sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as
pedras, os sres que o acaso rola juntos no mesmo vagalho da vida. Nem
se queixam--e de que se ho-de queixar? Deus os sustenta na sua mo de
pae.

--A gente  pobre--diz elle.

--A gente  pobre--torna-lhe ella.--E s vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe
o sustento e eu mal o ganhava para mim. At que acabou de penar os seus
trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Peor do que isso  no ter ninguem.  peor do que a fome.

-- o peor de tudo.

--Que se ha-de fazer?

--Sabe vocemec? olhe que eu s vezes ponho-me a scismar porque  que a
gente soffre...

       *       *       *       *       *

E o vento ulula. No corao do inverno o enxurro leva as lagrimas que
ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino
ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos,
ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja
o lume e o predio sob a ventania arqueja.

Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou
com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na
escurido como um brazido de gritos.

A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o
acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu.
Arrancaram-n'o ao corao da terra. A ossada dos montes, abraada pelas
raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou,
sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irm da terra,
sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.

Ao p da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As
suas raizes vo sob a terra at ao Hospital e os seus braos quasi
cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. S elles
prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta,
qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital
tem raizes em toda a cidade.

A Arvore  quasi uma construco. O tronco  corroido e as pernadas em
cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vo sugar no Hospital. Com os
annos enlaaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram
fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.

E para l? o que ha para l? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que  a
respirao dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do
Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de
minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e
vogam no ar aspiraes de arvores, murmurios de fontes, o halito das
plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem
as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se
presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada at s suas raizes
mais fundas.

       *       *       *       *       *

Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio
prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouo o esforo
que o mundo, que povoa a escurido, faz para gritar. A treva arqueja e a
ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae
esmorecendo...

Grito!  sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e
triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de
lagrimas. Sorri para mim, descala, estendendo-me os braos. Eil-a!
eil-a!... S uma braza ainda vive no lume, misturando na escurido uma
poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...

Toda a vida  uma construco de gritos, a cada passo para a frente ha
sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?

No  odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto
molhado de lagrimas,  triste mas resignado. No emtanto o remorso
acorda, o remorso pe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe
dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada at aos
ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae
gritar? De que servem os gritos na terra, no me diro?

Para quem ha-de ella apellar no mundo? E no entende. Descala caminha
pelas ruas desertas  chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois
outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de
soffrer e de se resignar  brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de
se affazer a ser explorada,  mentira,  infamia... E assim caminha,
ensopada de lagrimas, afundada na desgraa pelos que passam e riem;
assim vae pela vida fra at onde?... At onde?

Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella
braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida
passa l fra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A
esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mo que os ampare? De
que servem os gritos, no me diro?... Aquella restea de lume  como o
ultimo fio d'uma alma que vae findar!...

E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o
soffrimento, j dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso
resignado de quem j presente o que a espera--quantos gritos! quantas
lagrimas pela existencia fra!...

       *       *       *       *       *

Cerrou-se de todo a escurido. Suffoco!...




XIV

O ESCARNEO


No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:

A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calhos, torrente
que leva comsigo gritos e foras embravecidas, turbilho arrasto pelo
infinito fra, no  indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em
macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga.
No  o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras
frmas. Ha corpos que a chimica no consegue ligar, porque os separa o
odio, e outros que se reunem com soffreguido.

Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas,
at que se encontrem as que se devem juntar. O meu corao unido ao teu
ha-de florir n'um simples espinheiro. Ser n'um sitio pobre, mas alguem
que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu
cerebro procurar o teu cerebro para vogarmos juntos na mansido d'um
rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente at dar
comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei
topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.

       *       *       *       *       *

Creaturas simples vo ser arvores que de anainhas a gente se sente
commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andaro nos
poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias
eternas, sero construidas do corao dos mus.

       *       *       *       *       *

Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me
mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual
nos montes e nos igneos mundos. E eu perteno a este pelago como tu,
passo os meus dias a contemplal-o!

       *       *       *       *       *

Fico horas a aparar nas mos o jorro do sol, olhando-o correr...

       *       *       *       *       *

Por fora existe uma razo superior seno o homem seria Deus, a
consciencia do universo, o que se no comprehende: um deus reles, com
miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaado
pelos tombos.

       *       *       *       *       *

S sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.

       *       *       *       *       *

Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o
espirito.

J ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou
tremessem de pavor?

       *       *       *       *       *

Vr o sol, o universo, olhar, j  um prodigioso milagre. Mas tocar,
comprehender calhos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no co e
no oceano-- o portentoso sonho.

       *       *       *       *       *

O homem arranca de si proprio universos de belleza.

       *       *       *       *       *

O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de
sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e
enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a
materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde
tinha sahido.

       *       *       *       *       *

Creamos cada um de ns um universo d'angustia ou de belleza, resequido
ou de fogo. So felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que
vivem sem suspeitarem que o universo existe.

       *       *       *       *       *

s vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado
de desprezivel terra ha uma fora escondida. Parece inerte. Esperae,
porm, que maro a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido
e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as
horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que
vae gritar d'afflico. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e
esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham
no sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaos do Gabiru alguem
encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o
vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no
saguo.

Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a f no
transformam o mundo at s suas mais profundas raizes? Quem diz que se
no podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou
estrophes de luar?

As suas theorias, as suas idas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo
tronco corriam j estremees: os gommos pareciam envernizados.
Debruado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua,
mas--como direi?--vestida de emoo.

--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.

Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama
espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo
atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo
habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem
estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? So feitos de
pedaos d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem so o Riso e 
como se dentro d'elles andasse um doloroso palhao aos saltos. Tm
olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que j brotou para
soffrer.  a Noite que anda a architectar de neblinas os seres
destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza
indifferente,  porventura necessario e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru l vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladres
e os soldados, que  noite surgem para se rirem das lagrimas e dos
gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que
s ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do
soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste,
pe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda
a noite  uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as
mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas
como a terra, todos elles riem, com um _anh!_ de satisfao por as
fazerem soffrer.

Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vr
nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece,
tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mo no peito:

-- tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer,  Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repello se
erguem.

--Esperem... Tu no ouves?

--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?

Ento o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mos geladas,
como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que  poeta! Dizem que  poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que
foram sempre maltratadas, chegam-se rtas, tisicas, razas como o cho:

-- o poeta!

Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge.
Vo-se rir, vo espesinhar. Logo o cro de gargalhadas e de gritos
esturge.

--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

-- o enguio,--diz a Mouca.

--Olha l--avana outro--onde mettes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladres e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de
frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre,  luz
do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os
seres de descalabro, as caras dos ladres. Ha physionomias de pavor e em
semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, s boccas.
Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que s admiram a fora.

--Tu que andas aqui a fazer,  Gabiru?

Elle espantado accorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho v a
realidade, e entre o circulo dos ladres e das mulheres acha-se
transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vo fazer mal.
Vo-se rir do que  pobre e desageitado; vo-se rir do que no
comprehendem--do sonho.

--Acho que  poeta!...

E os ladroes ululam. O riso  odio, o riso ignaro  odio da materia
contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladres e as
mulheres para gargalharem d'aquelle sr encolhido e trto.

Tem passado fome, tem vivido s com po e scisma, preso a nuvens e de
subito d de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da
tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraa? Tambem.

Os ladres e as mulheres tm vontade de espesinhar porque odeiam e no
comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as
mais amargas catastrophes que a multido gargalha. Ponham a Fome a
ulular que a materia ri. Ri de tudo o que  triste, pobre e torto--e do
que  bello como os astros.

Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar
da Desgraa e da Dor; transformem em fara toda a tragedia humana.

--Diz que ests apaixonado?

O Gabiru calla-se.

--Tu no falas?... Ah tu no falas, enguio?...  d'esta que tu gostas?

-- de mim? pergunta a _tisica_ e tosse, rindo-se.  de mim?--Est ao p
da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um
momento os risos. O que sentem todos  vontade de calcar, de o tornar
razo como elles...

-- por esta? No? Ento tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu
desengonado? Tu!... Vocs vem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o
poeta!...

D-lhe um encontro, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mo em mo
como um trapo. Todos tm vontade de o amachucar, de o tornarem mais
reles, mais triste, mais pobre e transido, por no lhe poderem tirar o
po da sua vida--o sonho.

--Ahi vae o poeta!...

At que o largam. De p no meio da sala, com a sobrecasaca rta,
amolgado, exclama, no comprehendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas ms
clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e v-a
rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a
seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido
espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladroes gargalham e s ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de
tudo, da vida, da morte e at da propria desgraa.

-- Mouca!  Mouca! olha o poeta!--gritam todos  uma.

--Que ? Deixem-me!...

E scisma.

       *       *       *       *       *

Altas horas da noite... Saio, rro... A pensar em qu? Em coisas
desligadas, sem nexo: na ambio, no odio, no exaspero. As ruas seguem
monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem
construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo
este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... No o distingo
bem:  a sua sombra que eu vejo, comica e desengonada e, ao passar pelo
lampeo ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra
agita-se. Mexe os braos, com o chapeu na mo, fala ssinho, discute...
s vezes tropea, ergue-se e l parte a prgar por entre a casaria e o
ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do co.

Agora as ruellas apertam-se e j reparei, elle dobra, volta para traz,
ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os
cabellos e o seu brao gesticula n'um redemoinho.

Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa
indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflices.

A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens
baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casares
alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfo de luz. A
sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae ssinha com o seu sonho
ou a sua desgraa.

Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva
tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro,
espapaa-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as
mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes,
escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pra indecisa...

Que me importa o que os outros soffrem? Uma desgraa? O mundo est cheio
de desgraados. Um sonhador que se afunda? O mundo est farto de sonho.
Este mesmo co pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos
e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada
um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropea,
cahe; depois l se arrasta tropego.

Alvorece e, quella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A
casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio,
pelas ambies, pelos rancores...

Eil-o que se senta na terra, arrazado. Est enlameado, exhausto... Ao
romper da manh comea de novo a chover e elle chora.

Tanta lagrima! Um dia a desgraa, no outro a desgraa... Aquella sombra
 a minha! aquelle homem sou eu!...




XV

FALA


Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno,
pardos e monotonos, em que at o resquicio de sonho, que acaso coube em
sorte s pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que
ia rir, e accudiram-me idas em que nunca tinha reflectido... Alguem
abala uma arvore at s suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a
terra revolvida d foi o meu grito.

       *       *       *       *       *

Dm-me a vida que devem viver os sres e as coisas, a quem ninguem
ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida
corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sr: no fingir, mas
sr, no viver da tua vida, mas da minha propria vida.

       *       *       *       *       *

O momento em que tu deparas, a ss, com a tua alma, que at ahi no
tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti
tudo que estava para sempre adormecido...

O que  isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as
arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o corao.
Riram-se de mim! riram-se de mim!

       *       *       *       *       *

Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei  aprendido, vo, construido de
palavras que no so minhas. Nada conheo da vida.

       *       *       *       *       *

O homem s  feliz quando  elle. Os outros  que o empurram para a
desgraa. O homem precisa de se encontrar.

       *       *       *       *       *

Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e
modelam-te. Para qu? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser
desgraado  minha vontade!...

       *       *       *       *       *

Qualquer arvore incha, cresce e por tal frma se liga  terra, pelas
suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. S na
minha vida no ha raizes. Amigos no os tenho nem os quero, e tudo me
parece pardo e inutil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me
commovi como deante da arvore mais humilde.

       *       *       *       *       *

A desgraa que eu tenho encontrado no  a desgraa, nem isto  a
felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a
vida; quero o meu quinho tal como o tm os miserrimos bichos, os montes
ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.

       *       *       *       *       *

S em pequeno  que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro
 essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a
bravio que o matto orvalhado tinha de manh, e que me fazia scismar na
vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e so; que
dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras ffas; que matam sem
remorsos.

O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de
pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar,
voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e
co azul confundem-se: tudo  poeira azul. A luz palpita. Um risco
d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitaes,
cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo
pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.

Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho,
uma labareda verde. As couves so do tamanho d'arvores e a agua
sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe  farta a terra
negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras
de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas
e carnudas que d uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado
pela agua resa como um cortio. Scintillaes, rumores por toda a
parte, por toda a parte a solido.

Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia
d'uma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei
sabor  vida, at que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...

       *       *       *       *       *

Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraa no so
verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, s mascaras que afivelamos em
determinadas occasies, porque os auctores, os amigos, todo o trama
complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situao tu sers
feliz...

E ns realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...

       *       *       *       *       *

Fugi. Isolei-me. No quiz amigos, quiz isto: ser s.

Para que me chamam o _Gabiru_? Mettido no ultimo andar do Predio,
ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade,
para conhecer a realidade. Deitei fra o que aprendra, combati commigo
mesmo...

       *       *       *       *       *

Agora vejo a desgraa! agora encontro a desgraa!...




XVI

HISTORIA DO GEBO


Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para
onde a sorte os atirra n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o po e
o frio era tanto que no sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os
pobres e no pediam esmola. Elle sahia logo de manh escovado, limpo,
com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia
lhe ainda a mulher:

--Homem, v se te do um emprego...

--Anh? Eu vejo! eu vejo!... No te afflijas, mulher.

Um emprego! quem d ahi po ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido
e tropego, e que j mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado,
todos os dias se levantava para a humilhao e para a correria atraz
d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de
cabellos brancos estacados.

Um dia andra, rondra, a tresuar d'afflico. Todos o repelliam. Era em
certa tera feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar
podia de amargura e cansao, e via chegar a noite, horas de voltar para
o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:

--Ento? ento?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo v lhe acudisse na sua
miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas
fechadas a sete chaves. Ento, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo,
estendeu a mo a um desconhecido que passava, dizendo palavras
desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido,
escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as no vissem, n'uma
afflico de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e
amargurado po, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos
incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa
noite--tera aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos
farrapos na lama.

--Ento? arranjaste?

--Valha-me Deus! c est, mulher! c est!... Apezar dos ralhos, todos
tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraa
anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para
que o outro tivesse mais po; se qualquer adoecia, os outros nem dormir
podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se,
chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde ento ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados,
seguia-os pela casa, at que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia
e outro com a desgraa sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era
o arrimo, a energia, a fora que os sustentava a ambos e impellia para a
vida; era ella quem disputava--em vo!--brao a brao com o destino
ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos
de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta.
Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se
das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que
correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta
que lhes fazia, como s se medem os troncos depois de tombados.

       *       *       *       *       *

Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mos do Gebo e da filha, ficra
branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que
ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre
toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava
e scismava:--Amanh l tenho de ir  procura de po...--Sempre a mesma
vida, sem tregoas, agora ss os dois e a Desgraa. Quando a mulher era
viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o
anno a m sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastra a a
ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a
esperana murchra. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a
clamarem:

-- Gebo!  Gebo!...

--Anh? ahi vou! ahi vou!...

Levaram-n'a para a valla commum n'um caixo de pinho e elle ficou
abraado  filha, soluando.

--Se Deus nos levasse!...

Tropego, velho, cansado, s sabia chorar, e a filha tinha de o levar
pela mo como quem guia uma creana.




XVII

O QUE  A VIDA?


O Gabiru no entende a existencia. A sua alma  como uma penha ferida,
que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro.
Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore,
as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde?
para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor.
Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotes, e o homem indifferente... Ao
dar de cara com a existencia, transido, ao vr-se escarnecido entre a
Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a
primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus ps
a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabea a
abobada do cu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem queda-se
inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellaes e o mar profundo e o
homem contina impassivel.

O que  isto? o que  a Vida? o que  este mysterio onde o homem entra
como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore
cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se
espelha o sol e tumultua a materia em combinaes infinitas--e o homem
segue o seu trilho inconsciente!...

O que  a Vida? o que  a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem
realidade? O que pratico sobre a terra  indifferente ou vae
repercutir-se algures? Isto  lodo ou fogo, apparencia ou temerosa
realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o
amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto  um turbilho d'almas e de
pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida
caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro
fechado, ou vivo da verdadeira existencia?

E os pobres? porque  que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como
a terra por este arado ferreo--a dr? S se vem a este mundo para
gritar?

O Gabir via-os cheios de resignao seguirem o caminho da vida, cada um
com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem po, escarnecidos,
tombando sem gritos? Porqu tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua
philosophia tombra por terra...

Reuniu os desgraados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao
Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as
bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunio, o Pitta e o Sabio falavam:

--S sabem sonhar e depois...

--So homens extraordinarios, affianou o Pythagoras.

--Veja voc... Querem que se lhes explique, o qu? A Vida! J o outro 
assim.

--O _homem do pacho_?

--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras
prodigiosas, chos que s do sonho. Ha sres inteiramente edificados de
nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no
silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim
cresce  solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... So
sapos de sonho.

--So sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se
arrede e fuja, no do homem, que no importa, mas d'isto, do convivio
com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um
oceano? No a vr, no a ouvir, no a sentir correr continuamente, toda
d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Voc
comprehende?

--Comprehendo.

--A mais mesquinha terra gra mysterio.  to admiravel e sempre to
diversa, como isso a que voc chama o infinito.

--O qu?

--O infinito.  ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque
a realidade  sempre maior que a phantasia.

--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou j na
trigessima lico... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma
estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu s o vejo nas
trevas...

-- horrivel?

--. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admirao:

--Voc, Pitta, afinal  um experimentador.

O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:

--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para no
sentir a piedade dos outros. Na treva no se vm olhares de piedade ou
risos. Cada um pode esquecer a sua miseria,  forca de a esbrazear. O
seu sonho  subterraneo, sabes?

--Sei.  como o das plantas cortadas, s raiz, e que ficam vivas debaixo
da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor.
No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.

--Assim  o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para
sempre? Talvez outrora perdido buscasse  noite alguem como elle, para
se amarem... Rondou com os sapos, que s apparecem a noite, porque so
grotescos...

--Mas os sapos encontram sapos com quem se pem a falar d'alguma
estrella e elle...

--Elle foi feito para viver na solido. E que fome! e que sede! Agua, se
ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar
inexgotavel entre as suas mos, cheia de scintillaes e murmurios;
montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os ps; e as arvores, e
o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename
v l!... Da terra no conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o
universo para logo se emparedar. S sabe o que  o sonho. Refugiou-se em
soffreguido no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem,
imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello
de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o
amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vo quebrar
esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado
tudo, a natureza, a vida, mas elle s quer sonhar.

-- que o sonho  o po dos desgraados. Todas as creaturas que soffrem
refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima
codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a
sonhar...

Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affianou:

--Amigo, s ns  que j no podemos sonhar...

--Ns no, nunca mais podemos sonhar!...

       *       *       *       *       *

Eil-os reunidos aos desgraados e todos se pem a falar ao mesmo tempo.
Nenhum quer ser o que , e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os
que tm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.

--Para qu ser homem?

--Ninguem sabe.

--Quem dra no sentir, andar como anda a essencia do tio ardido,
perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na me de agua ou no
fundo do mar.

--O que  a Vida?

--Sei l! Talvez uma aspirao, talvez um sonho. Olhae o universo, que
amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sr que sentes
deante do temeroso universo?

--Tudo  chimica,--disse o sabio profundo.

--Eis um sonho,--affianou gravemente o Pitta.

S os mais pobres, arredados a um canto no diziam palavra, porque
tambem s os pobres na vida sabem soffrer.

--Mas ento mais vale a morte.

--Pois mais vale.

Pe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feies
consumidas, olhos fartos de chorar, cabeas simples e grandes de
martyres e de santos. S elles sentem o mysterio da vida; s elles
gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os
outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.

--A vida, concluiu o Astronomo, s vale passando-a a sonhar, embevecido
n'uma obra.

--A sonhar no!

--Eu queria ser poeta...--torna um.

--Se eu fosse poeta quereria isto: no fazer um livro, mas crear uma
nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine
que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.

Sora a hora da vida, em que, todas as illuses cahidas, se scisma ou na
morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de
existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido
de paixo e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens
assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o
poder. S o Pitta, outr'ora to materialista, protestava em nome do
ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um
palhao, a quem chamavam o _Corsario_, o Sabio comeou:

--S a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as aces e de
todos os phenomenos, s encontramos a chimica... Na primavera e no odio.
Vocs nunca viram l fra onde existem arvores?... Sim ha arvores e
aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra  como um laboratorio
immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos
montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billies de gottas. E
de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram
prodigios: reaces, transformaes, a vida emfim. Vocs nunca viram uma
grande nuvem verde pousada sobre os campos?...  herva nascendo... Pois
 feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem gottas mais
grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os
troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao
sol, n'uma vida furiosa.

--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas no 
tudo: o infinito existe...

--Onde?

--Onde? Onde no sei, mas  l que vive a alma d'aquella pobre senhora
que eu outr'ora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas
nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade,
a desgraa e o proprio sonho, constrem os seus typos. Marcam-nos.
Triste  chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em
brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um
punhal. A multido ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que
comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te
appareceu como um fructo, arredaste-a, para s pertenceres  tua obra: o
riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto:
queimaste o que em ti havia de melhor: dste-lhe os nervos e o cerebro,
e quando surgiste emfim, exhaurido, e prgaste  multido--eil-o o
poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que  peor, viste que o
brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga,
a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e
uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia
dilacerada. Comeas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te 
possivel: s o alcool te d ainda illuses, e as conversas desesperadas,
monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho
para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os
illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaos
arrancados ao poente.

Para o _Corsario_ chegra a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava
no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; s o
Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes
todos juntos tinham discutido a morte!...

--A nossa desgraa, rompeu o Pitta,  a falta de dinheiro. Com oiro
triumphariamos ainda.

--Com oiro! berrou o _Corsario_.

-- que, respeitavel madama, hoje elle  o unico poder, a grande fora.
Permitta-me que lhe affiance:  Deus. O oiro  tudo!

Cada um ruminava as suas idas sem se importar com o Gabiru. Do saguo
vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas 
sombra, queriam entrar na alluvio eterna.

--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

--Enforcado no. Lembra um palhao.  a morte a deitar a lingua de fra
aos vivos, um trapo pendurado...  afflictivo e d vontade de rir.

--J tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.

--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das mars...

--Perdo, no mar largo...

--Uma bala, uma bala seria mais prompto.  at elegante. Repare que  a
morte dos namorados.

--E o veneno?

--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos
banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o
veneno a mim atterra-me.

Ficavam um pedao a scismar. O que os prendia afinal  vida? em que
criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as
coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhra e aos
quarenta annos j se no constrem nuvens. S o Astronomo todo se
consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para
o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

--Sonhar! sonhar!--prgava.

--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida s o oiro vale.

--Que querem se eu nasci para isto? Eu s vivo na solido, e a vida para
mim  sonhar. Como hei-de eu, que vivo l em cima, pobre, com este
casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?....
D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilho d'astros... Quantas
riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina
e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o cu seja uma arvore
sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e
eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se deso c
p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no
cu.

--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.

--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol  bello:  tudo d'oiro e
verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao
p...

--Perdo! mas j muita gente... O amigo confunde!

--Na minha pobre cabea tudo se confunde.

--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim j estou farto de nuvens!

--E que querem que faa, se eu no sei mais nada? Nem me sei rir, nem
sei falar...

       *       *       *       *       *

Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos
temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era
desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforo para
materializarem a propria alma, que outra coisa no  crear, dra-lhes
como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco.
Porqu? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os
aterrava, a morte que era o _nada_ para todos, at para o Pitta ento
idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia no era de
certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhra.
Tinham rido de tudo. S a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na
sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella
pe, at no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro,
arrepios de allucinao e terror, quando acaso a Havas diz  Terra que
um Rotschild acabou de uma frma identica  d'um pobre diabo ou d'um
poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim  indifferente ir
apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura
pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano
negro no sahem nem gritos, nem benos, nem palavras.  o formidavel, o
mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente,
diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impe-se ao homem, negra
e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de
relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns  madrastra, para outros 
noiva. Ora avana como uma furia, ora coberta de flores como abril.

As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, prias,
esperam-na como a redempo. De tanta lagrima, de tanta aspirao,
alguma cousa se deve ter creado no infinito...

Os humildes, que vm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida 
aziaga e que vo de rastros at essa praia, onde o mar desconhecido rola
as suas ondas silenciosas, vm-no dourado, cheio de claridade, n'uma
madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que no tenha sido
torcida e despedaada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vo
erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma
viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar  negro,
tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde
s monstros cresciam.

Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da
verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.

A differena  simples: ella  termo de miserias, ou o termo do goso.

Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os
humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos
porque ella liberta, e at os incompletos, aquelles a quem no  dado
nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada
um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...

--Este fim para que ns caminhamos, com terror e angustia quasi sempre,
 o termo da vida?  o inicio da vida?--perguntava o Pitta.

--As philosophias e as religies respondem. Cada uma assegura a fala. O
mais certo, porem,  seguir o conselho de Plato: escolher a melhor
opinio e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a
existencia,--dizia o Pythagoras.

S o Astronomo lhes explicava:

--A morte  a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do
que  materia resultam bellas frmas, arvores, nuvens, cres; da
transformao do que  espirito alguma cousa de radioso dever surgir...

Ha muito que eu conheo duas figuras, que atravez das edades, vem
prgando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras
d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra prga, a
outra fala entre desesperos e ruinas. Vs, meus amigos, conheceil-as--a
figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes
typos da humanidade. s vezes confundem-se, misturam-se: cabeas de
idealistas e coraes de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma
segue a outra, para derrubar ou para construir. Tm assim vindo pelas
philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Plato, ora nas
palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito
precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia
quer prgar--apparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos
seus combates dentro do meu corao. Uma affirma, a outra nega. So duas
grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma cr apenas na realidade, no universo tangivel, a outra pe mais
longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana,
desola-a, mas no a faz descrer:--L, l, tudo se realiza e os proprios
gritos so necessarios  Harmonia.

Uma  feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como
ldo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que _depois_ s o nada
existe.

E assim : o nada para que os que crem no nada, a belleza eterna para
os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos
tivessem soffrido, cheios de abnegao, sem a terem creado, 
immortalidade. Se ella no existia formou-se, desde que os desgraados e
os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem
sahido foras e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde
que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pz a justia eterna e
a sua f--o infinito creou a.

Elles, porm, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte,
que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo  tona
idas, explicaes, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam
idolos, religies, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a
gesticular, querendo comprehender, vr. Ao p d'essa figura negra e
indecifravel, como no sco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com
theorias, brazidos, lama, desesperos, que no conseguiam sequer pr uma
ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o cu, tragica e
muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para l
caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico,
desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

--Ento a quem morre...--perguntou alguem.

--Acabou-se-lhe o sonho.

--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o
oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...

--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.

--Podesse eu ir  terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro at a fazer
gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro  a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia
do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria.
Botam as arvores flor e as creaturas emoo... Tudo isso seria meu.
Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceio, seria
talvez nomeado Imperador do Mundo.  filhos lembrae-vos!... O mal a
imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do
heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem
bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...

E como o Pythagoras fosse a sahir:

--Espera. Para onde  a ida, philosopho?

--Prgo a revoluo. Ando a prgal a...

E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:

--Ao pequename! Rica ida! E philosophica! Um grande elemento. Pois 
atiar-lhe!...

E sahiram ambos.

       *       *       *       *       *

Ento o Gabiru ficou ssinho com os pobres. Elles no sabiam explicar a
vida: sentiam-n'a e soffriam. De p explicou-lhes:

--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu
puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mos
eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era
profunda como um poo. O cu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um
dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a
contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, c
fra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas
mos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o
sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!...
Attonito, com as pedras inuteis na mo, olhei... E assim desperdira a
vida  procura d'um thesouro que tinha alli  mo!...

Ninguem lhe respondeu. S o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

--Que ?

-- pena. A vida no se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella
a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade
por nuvens.

E, ai! a vida no se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que
passa limpida pelas mos d'uma d'essas estatuas que tu vs nas fontes.
Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillaes, e nunca tambem
estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, no se torna a ter na
bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores so as mesmas
arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moa... Perdeste-a!
perdeste-a!...

--E tu?

--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o
que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moa e
viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e ento
arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como pde
metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci  humilhao, a
procurar o amor que se paga. Isto! isto!... S ento entendi que os
homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fra depois de
servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que mro com o
odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca.
Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos
desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu
odio murchar commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem
toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu
daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o po iria arrancal-o
s mos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella
seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era foroso que
fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma
alma de pedra, peor que a minha, mais m que a minha. Dir-lhe-hia tudo,
ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi.
Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sr s
existe seccura e interesse. As mulheres se so honestas  por vaidade, e
quantas ao p do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria
minha filha! A semente germinaria, cahida n'um corao mais duro que as
pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida,
mais rancorosa que eu, a prgar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria,
sua me--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...

       *       *       *       *       *

Sahiu. S os desgraados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto
os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas
lagrimas choradas. No sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos
a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraa. Erguiam os braos e de
cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da
guerra.

Um disse:

--Eu gosto de vr soffrer! eu quero vr soffrer!... Como elle anda a
espreitar illuses a vr se as calca! Onde nascem flores logo as
esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol s levadas. Calca tudo e ri, tudo o
que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra,
minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vr o sol.

--Ha desgraas e dres que fazem rir,--diz alguem.

Outro ri, ri sempre d'afflices, de catastrophes. Procura dores para se
rir e doido eil-o a rir e a clamar:

--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra est farta de soffrer.
Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude
rir,--prga uma bocca na escurido.

O Gabiru sente-se agarrado pelo _homem do pacho_.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir
d'um tumulo.

--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...

-- impossivel...

--Oh no saber nunca o que  amar, viver como os outros que se pdem
rir--e ser s, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e
depois, sabes? tive odio. Odio... No eu no sou amigo do sol nem das
arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os
outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida
come-me a vida--e triste vida d'afflico a minha! Fui sempre doente.
At em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque  que Deus faz
nascer creaturas com vida e d a outras um quinho de negrura? Tenho
frio e fome de sol, de saude, de foras, e vivo gelado, sempre gelado, e
sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja at da
terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos no soffre.
Dem-me o quinho de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a
minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--
certo?--que at as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja,
a dr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E
nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca
para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam
pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

--Olha! olha p'ra mim!...

Sahiram--e atraz de todos, no tendo dito palavra, caminharam os pobres,
curvos, descalos, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os
tirando o po da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de
lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.

       *       *       *       *       *

Afinal todos se tinham ido; s na escurido ficra uma velha prostituta.
Era quasi uma coisa--a podrido. No sabia falar, nem sabia queixar-se.
Tinha apparecido para dizer o qu? Que accusao tremenda contra a vida?

Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:

--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...

Ella no respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que
era a Vida afinal?... Pouco e pouco um claro se fazia na sua alma... O
Gabiru absorto sonhou, at que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

--Mas ento p'ra qu? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e
nem posso gritar... E tu?

--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer  afinal
reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e
vel-o calcado!...

--Eu c fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? No me
lembro de ter sido feliz... No me lembro... Sempre se riram de mim e
toda a vida me bateram.

--Tu sim, pobre de ti... E amaste?

--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de
servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma
_desinfeliz_? Inda se a gente encontra o po de cada dia... Agora sempre
anda um frio!...

--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal.
E batiam-te?

--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, no fazia mal... E a
ti?

--Puzeram-me a alma negra.

--E tu?

--Eu soffria.

--Pois se a gente tem po e uma enxerga ainda ao menos  feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi
cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles
encolhidos sonhavam, pareciam arder falas, restos d'um lar a apagar-se.

--Ouve, no chores... Tens frio?

--Estou gelada de frio.

--Olha: soffrer no importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas
que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vo crear, para
depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a
nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se no
extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?

--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... No fales! oh no
fales! no me lembres!...

--Se tu amaste e soffreste nada  perdido. As tuas mos esto geladas,
mas as minhas ardem.

--Eu j no sinto o frio... S me sinto de rastros, pequenina e
perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que
serve a gente lembrar-se? Para chorar?  melhor dormir, dormir sempre...

--Soffre. Nada  perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflices
e os nossos gritos, uma outra terra!...

--Aonde?

--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando  ultima dor, aos
ultimos gritos, se esbrazear...

--Conta! conta-me!

--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

--Um sonho?!

--Um sonho  como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em
fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais
puida  a materia, mais elle arde!... Isto no se perde... Constroe-se
das nossas lagrimas...  um palacio. As pedras de que  feito so os
gritos... Sabes?

--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor...
Consummiu-me.

--Assim...

--Um sonho!...

--Tudo se illumina dentro em ns. E a cada humilhao elle se torna
maior. Depois que soffri,  que comecei a vr o que nunca tinha
presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as
agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca  noite. E tanto mais
soffro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escurido. Por fim s a voz d'elle
corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.




XVIII

HISTORIA DO GEBO


Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta,
abalado pela dor, a suar de afflico... Morta a mulher, o lar ficou
gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que
transe os coraes. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo
poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas no, era preciso
tornar  mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo cho, atraz de
esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, j ninguem
o esperava n'uma ancia como outrora:

--E ento? ento? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida s conhecia afflices, no tinha
para o Gebo nem ms palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo
branco, gordo e choro, era o seu pae. Escondia as lagrimas para no o
affligir.

--No se consumma! no se consumma!

--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?

--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.

--Acho que no! acho que no!...

Depois da morte da me, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o
Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, s sabia dizer, n'uma voz
molhada de lagrimas:

--A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um
exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle
era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado
e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo po, com os cabellos em
p e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez.
Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir
desgraas, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedincho e mais
gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o _Gebo_, e
perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

--Hein, dize l,  Gebo, ento tu no tens uma filha?

E elle logo com um riso no olhar:

--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?

Humilde, cossado,  espera da esmola, sem foras para protestar,
respondia com um sorriso e lagrimas  mistura:

--Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de co, a que nem sequer resistir podia. L ia levado,
enlameado e de rastros, a chorar. Illuses? j as no tinha, se illuses
no servem seno para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda
arcava com a desgraa. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar,
com pedaos de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos,
agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro
sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa,
prgava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos,
todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a
scismar.

Mas agora nem isso... Enregelados no apellavam para a illuso. Elle
chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que
dissessem. Oh seria to bom morrer, descanar, dormir por uma vez sem
mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro,
apegava-se como um desesperado  vida. Ainda por cima o Gebo era
cobarde: tinha um grande medo  morte.

Assim comiam o po negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob
este solo que calcamos atraz, das nossas ambies, anda um humilde rio
de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e
corre sem ruido...

J no sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia
andar; embrulhado e tiritando de frio, no se erguia da enxerga. Quereis
crr que estava mais gordo e mais picaro?

E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro,
espapaado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e
amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:

--Tenho pena de ter sido honrado...

Porque  que a desgraa se no cansava de o perseguir? Este aguilho
cravado no peito no lhe deixava um minuto de descano: a sorte da
filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.

--Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os mos que conhecera, estavam ricos e
escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvra
acolhiam-no com risos e s fizera ingratos.

O Gebo no entendia a vida.

-- Gebo!  Gebo!--gritavam-lhe.

E elle meio tonto:

--Anh? anh?.... Se eu no tivesse sido honrado...

Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco.
Scismava. Da vida tudo ignorava, a no ser a historia dos seus: o lar
apagado, a afflico da me, o choro do pae ao voltar para casa sem po.
A velha dizia s vezes ms palavras ao Gebo, quando lhe perguntava
anciosa:

--Arranjaste?

E elle a bufar, exclamava succumbido:

--Valha-me Deus, mulher!

N'esses dias aziagos ella dizia improperios  vida e ao Gebo, que nem
sequer tinha foras para as sustentar a ambas.

--Olha os outros! olha os outros!

E elle atrapalhado:

--Mas que hei-de eu fazer, mulher?

--Vae roubal-o! vae roubal-o!...

Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome,
todo o dia na negra faina:

--E agora como ha-de ser?

A me tinha escondidos alguns vintens tirados  bocca e em torno do po,
esquecidos, l se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que no
havia honra nem Deus--tudo no mundo era questo de dinheiro--oiro! Mas
quantas vezes a velha repartia com os pobres o po que lhes fazia
falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a m sorte.

De frma que Sofia nada sabia da vida, e assim fra crescendo sem
queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do
velho, pela saude d'aquelle sr offegante e grotesco, que passava horas
e horas a chorar.

--...O po nosso de cada dia nos dae hoje...

--Filha que ha-de ser de ti!

Engordra, no se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as foras. Extendia
a mo na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das
lojas. A ida da filha abandonada e com fome, allucinava-o:

--Eu j no posso mais! eu j no posso mais!...

       *       *       *       *       *

Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se
pareciam, como a desgraa se assemelha  desgraa. At que cahiu por
terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de
lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou
prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraa havia-o
emfim aniquilado: engordra-o, exhaurira-o e pregra-o para sempre a
chorar n'um colxo de trapos.

Ento Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos
postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o
viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro
d'afflico--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das
prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com po para
o Gebo, que s lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de
sebo--e de cabellos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos,  a voz dos
desgraados, dos pobres, dos que no tm po, nem felicidade, nem arrimo
na terra!...




XIX

O GABIRU TRESL


Noite de luar. A Arvore mergulha os braos n'um oceano de luar
translucido, bilies de atomos luminosos errando.  um collosso de
verdura e de bondade, uma construco cheia de frescura e rumores.
Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem
ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o
luar  tanto que faz afflico. Sente-se a satisfao gigantea da
Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte,
simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite
callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflico. Por entre os
raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas
sobrepostas. No cho a sombra faz mancha e os fios de luar do-lhe vida.
Dirieis que alli anda folego vivo. Fra da Sombra  tanto o luar que s
se v uma brancura.

O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a
scismar. Vivera sempre to transido e pobre, to sosinho--que lhe no
fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mos. S escarneo! s
escarneo!...

       *       *       *       *       *

Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. No 
ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mos estendidas, e cheio de
luar sorri extasiado...

       *       *       *       *       *

Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraa. Em pequena anda
rta, quasi nusinha, e o po da vida do-lh'o os ladres e soldados.
Maltratam-n'a, irm da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e
que culpa tem ella de no sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das
pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as
aspiraes, cospem-lhe em todos os sonhos. S soffre. Vm uns, vm
outros para a fazerem gritar, e ella um dia pe se a rir e ri-se at da
desgraa.

       *       *       *       *       *

Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece,  medida
que o Gabiru vae tecendo.  no sei o qu de incerto que mexe--fio de
luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha
extasiado.

       *       *       *       *       *

Da terra dilacerada surgem frmas de prodigio. Quanto mais revolvida a
materia, mais bella  a ecloso do sonho. Da vida da Mouca que comeou a
soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella
ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare seno
prostitutas e ladres. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na
vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecer
o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma
maravilhosa forma de luar.

       *       *       *       *       *

O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia
pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou
construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar,
de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos
fios de luar...

       *       *       *       *       *

--Fui eu que te criei, s minha!--diz elle absorto, erguendo-se.
Caminhas para mim alheada, no me querendo olhar e no me podendo fugir,
pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de
dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes,
arrancados  via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube
dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me dra ser a
noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflico! Juro-o, as arvores
falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas
tantas estrellas pelo cu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da
gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solido, magoam
como ais d'alguem a quem aconteceu desgraa...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que no fujas desfeita em luar.
Gostava tanto de sentir a tua mo pousada na minha cabea, tanto!
Olha!...

       *       *       *       *       *

Sob a Arvore--realidade ou illuso?--uma figura se constroe de luar, na
sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar,
amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva!
viva!... Dirieis que  s um sorriso, um olhar muito triste... O Gabir
corre e tudo se esvae... S a Sombra resta e um ruido de gotas de luar
tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!

       *       *       *       *       *

Todas as noites, muito tarde, volta para ao p da Arvore.

--Uma  terra, outra  luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais
esta se cria. Oh, no me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida
como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus
cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escurido os teus
olhos, mas sinto a irradiao da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o
muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua
claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida,
toda se desfazia em p claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se
tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um
ai baixinho e triste. Era a creao! A alma da Sombra acordava. Eil-a!
eil-a!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos
compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. S os olhos se
perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra
rir.

--No fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido
em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e
na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e
dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo
cho corria um fio de agua ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!




XX

A MOUCA


Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma
angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um claro de
tochas  porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado.
Trouxe-a para casa uma noite, a essa creana que encontrou cahida na
rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe
quer o gato pingado fazer, no me diro?...

       *       *       *       *       *

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixo d'um garoto, que no
lhe  nada. Elle que no tem onde cahir morto, chora o po que tiraria 
propria bocca para o dar a outro.

       *       *       *       *       *

Morreu-lhe hontem.  decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaar, d'essa noite de primavera negra,
em que todos se pem a contar baixinho os seus sonhos  escurido.

--Deitam flr  noite...--diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva
sinistros clares d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da
noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vo mulheres perdidas e
a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixo de passarito,
comboiando a turba, l marcha o gato pingado, de brando em punho,
chapeo alto e casaca a esvoaar... A que iro elles deitar fogo na noite
tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ral, o velho tisico... Na
volta vm decerto a cahir de bebados.

       *       *       *       *       *

Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital.
Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta?
O Gebo a sustentar.

Todas as manhs sobe  mansarda onde o velho dorme, levando-lhe po, que
elle mastiga com um n na garganta. Olha-a com lagrimas e s diz:

--Filha!

A existencia  como um circo. No ha piedade.

       *       *       *       *       *

Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea
bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que fora  que se
constroe, de que chimica  que se forma a bondade profunda, inabalavel,
inextinguivel, que sustenta e ampra os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora _menina_,
depois que a vem sua egual. Repartem com ella o po que ganham, e ao
vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois no sabem consolal-a.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui  uma vida de co.

--Olhae que ter fome!... Sempre a fome  negra,--conclue outra.

       *       *       *       *       *

S a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata
agora. Se podesse, pizal-a-hia aos ps. Ella, de quem todos se riram com
escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. No havia
ser mais degradado, no porque fosse m, mas porque era como todas as
creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de
a verem chorar lagrimas d'afflico, para a igualarem.

--C temos a _menina_!

--Quem no diria? No falava a ninguem a mosquinha morta!  para
aprender!

--Deixae-a!

--Deixae-a o que? Ella  como as outras.

--Deixae a pobre, que no faz seno chorar. Vocs no tem corao.

--Tambem a gente soffre.

       *       *       *       *       *

Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante
d'aquella dr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a.
Tratavam-n'a por _menina_. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. S a
Mouca lhe tinha o mesmo odio.

--Olha l,  parida!

-- commigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba l com esses ares de senhora. J estou farta. Tu
aqui s tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, seno ensino-te quem sou.
Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu no falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? No quero que
olhes p'ra mim, no quero, ouviste? Ai, no falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui s uma desgraada
como eu. Aqui no ha meninas. E agora? agora? pensas que s mais do que
as outras?

--Sou mais desgraada.

E poz-se a soluar.

Mas de subito a Mouca clamou:

--Perdo! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: no a podia ver
por inveja. Fui sempre assim. No me fique com raiva. Eu dizia c
commigo: Ento os outros tem me e eu nunca a tive? Os outros so
infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da
terra. Crearam me os ladres, j deve ter ouvido. Tenho sido muito m
p'ra a menina, peo-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peo-lhe que se
ria p'ra mim, para me mostrar que no est zangada commigo.  ba! eu
dizia c por dentro: Hei-de pl-a to raza como eu. Que  ella mais do
que eu? Sabe porque lhe tinha esta _osga_? Por vr que a menina era
infeliz e ba p'ra todos. Eu sou assim, sou como um co. Peo-lhe uma
coisa... Bata-me para eu acreditar que  minha amiga.




XXI

AHI TM OS SENHORES A NATUREZA!


N'essa madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio
ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que s elle sabia a
existencia. As paredes arrombra-as d'onde a onde a raiz torcida da
Arvore.

--Anda! anda! Estas raizes so mais duras que a pedra. Nada lhes
resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto.
Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que  como a agua da
rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias
d'arvores, cheiinho de emoo. Param. Uma brancura, nebulosa na cova
onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No cu brilham estrellas e
sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores
tomba em gotas grossas como chuva de vero. Os troncos alm so
espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma
estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgo de claridade... Eis o
sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem
calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a
verdura da herva, na manhsinha,  immaterial, como se fosse a
respirao da terra. As aves, nas moutas, comeam o seu dia cantando.

--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.

--Espera! espera!--diz o outro entontecido.

--Ouo gritos e s vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouo! que
sem numero de vozes, de palavras precipitadas!

--Vs arvores?

--S vejo um claro.  como um relampago, offusca-me! Mas o que eu ouo!
quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores
porque ouo o seu ruido e a sua voz...

--Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus ps. Ahi
tens um charco.

Tudo j estava cheio de sol.

--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mos. Ahi
nas tuas mos, n'esse pedao de lama, tens tudo, particulas d'arvores e
de sonho, realidade e emoo...

--Isto  ento...

--Um turbilho,--affiana gravemente o Pitta.

--Isto  vida?

-- vida. Esse pedao de terra  humus. Incha com a primavera, fala.
Est morna e escuta, pe-n'a ao ouvido... Ouves?

--Ruido, vozes, gritos d'embryes, um borborinho...

--Ora repara.  sempre a mesma coisa. Maquinaes philosophicas... Isto
 um mundo e isto--e aponta um charco-- um mundo. N'esse charco
adeante, ahi, vs?...

-- oiro.

--No,  agua onde o sol se espelha, apenas agua...

O Gabiru curvado mergulha as mos afiladas e negras na poa. Tira-as
depois para fra fascinado. As gottas d'aquella agua turva cahem qual
oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.

--Eis estrellas! exclama commovido.

--Perdo,  apenas como te disse, um charco, um desprezivel charco.
Habitua-te primeiro a vr.

--Quero vr mais!

--Habitua-te primeiro a vr...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sres e as
coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os
troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manh de primavera, em
que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e
at nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva
encharcra, irrompe uma vida exuberante, apressada, de sres que em
minutos de existencia tm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, crear,
morrer...

--Eis uma arvore--aponta o Pitta.

--Como ella gesticula para ns!

--Pois ahi tens uma arvore.

--Que coisa enorme e bella que  uma arvore!  differente da outra... E
 uma arvore? Uma arvore d agua, ouo a agua a cahir.

--E o ruido das suas folhas.

--Uma arvore  viva. Fala?  o ser mais bello que eu conheo.  verde,
mexe-se...

--E alli, longe, um monte.

--Aquillo pequeno? Um torro como este que os meus ps desfazem. S 
violeta. Maior  uma arvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos
envolve, que ? Alma?

--Maquinaes philosophicas... Caminha agora, v... Eu vou-me deitar 
sombra... Podes vr...

O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao p d'um sobro. Da algibeira
saccou o caderno de notas e poz-se a escrever: _Deve_  D. Antonia, tres
mezes em atrazo--30:500 rs.; _a Haver_ das explicaes da natureza aos
domicilios--25$000... Differena...

O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as
mos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas,
arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica
absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira
treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem emoo. Os ps
calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam c fra o seu sonho;
esquece-se ao p das fontes vendo-as jorrar e pe-se a respirar fundo,
querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.

De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e
rapidos. A chuva que tomba  morna. As plantas bebem-n'a, as flores
abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vm-se crescer as
pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de
resina estalam, abrem, com um ruido suffocado--ah!... Tudo fica bao a
principio, a terra molhada  d'um negro gordo; um fremito corre nas
folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol comea de novo
a correr. As fontes deitam oiro, as plantas tm fios d'oiro e no cho ha
toalhas e caminhos d'oiro e sombras.

--Senhor Pitta, eu quero ser isto...

--Isto qu? resmunga o outro concentrado.

--Quero ser isto!...

Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:

--Maquinaes philosophicas. Deixa-me... Eis a differena--22$000
ris... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a
vr os rabiscos do sol e um galho to em flor, que parece uma teia de
luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que
estoura, para ser boto e depois flor... Medita. Est um dia morno e
humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas
passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe.
Acredital-a hieis viva.

Em que se pe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, affeito ao
silencio, ouve at ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo
empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e
sobem para a luz, o _glu glu_ das raizes gordas e felizes ao mergulharem
no humus.

 um barulho de mar longinqua que cresce, galga, augmenta, trasborda...
Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas
escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os
nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calhos.

Anda, anda, e d com aguas grossas, felizes, apressadas; com
quintalorios onde a verdura cresce aos borbotes; pinheiros, depois
silvas, bravios--e at nos sitios mais estereis encontra a mesma vida e
o mesmo amor.

Que fora  esta que faz mexer a terra e a abala?

 uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem  suppurao?
Um riacho de tintas, brotando  superficie do solo em labaredas verdes,
todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura to tenue que dil-a-hieis
uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou
aos troncos.

A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de
sympathia e frescura que ellas exhalam.

Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre flores
esmagadas, Nas mos flores, aos seus ps flores esmigalhadas.




XXII

PHILOSOPHIA DO GABIRU


Oh descubro agora a torrente esplendida que  a vida!  a emoo. Ella 
o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens,
prende-os--e o egoismo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vo desaguar ao grande atlantico de
belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio
corrente--agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a ambio, os
interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.

       *       *       *       *       *

Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros,  tornar a
existencia simples, monotona e grande;  fazel-a parecida com as mantas
grossas, d'uma unica cr neutra, que agasalham os pobres.

       *       *       *       *       *

O homem que tem emoo e que ama  sempre feliz: as coisas conhecem-n'o,
as arvores so suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais
resequido calho.

O que odeia, o ambicioso e o mu, passaram pela natureza como o homem na
guerra: no viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elles. Nada lhe
dizem, porque no sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um
sitio recolhido e simples, deante das desgraas alheias, tu, pobre, que
tombaste na cva desprezado, rto, e a quem a terra recebe como a um
amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente,
como morre tudo o que  simples, tu viveste... Communicaste pela piedade
e pela emoo, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos
mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu
soubeste e presentiste tudo.

       *       *       *       *       *

O que  grande  sempre simples.

       *       *       *       *       *

Desperta em ti a emoo para que possas dizer:--Vivi!

       *       *       *       *       *

Todo o homem que nasce deve ter um quinho de terra--seu sustento e sua
cva. O po de cada dia deve grangeal-o com o suor do seu rosto.

       *       *       *       *       *

 singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas mais
profundas da vida--e a gravidade com que discute as que so apenas
apparencias vans.

       *       *       *       *       *

A desgraa  sempre boa--porque approxima o homem dos desgraados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples.  como a folha que se
deixa vogar na mansido de um rio at que o oceano a traga.

       *       *       *       *       *

Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza:
o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de
corao e vida simples, pacifica e grande.

Para se ser feliz na vida  preciso ser-se pobre. Sentir-se que o po
que se come no  tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos aquece
roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos d o po saboroso e negro e o tronco
para o nosso lume!...

       *       *       *       *       *

Quando se ama, a emoo sahe de ns como d'uma fonte e a gente prende-se
aos outros. No se sente ssinha: faz parte da Vida, d'uma torrente
d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmos.

       *       *       *       *       *

O homem no faz seno complicar a vida, que em si  afinal bem simples.

       *       *       *       *       *

As coisas despresadas so as melhores da vida: a paz, as horas
esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os minutos de silencio em que
se sente Deus comnosco.

De que serve accumular odios, ambies, riquezas? No  isto demais para
uma vida terrena?

       *       *       *       *       *

No saber nada seno amar--repartir emoo com os outros!

       *       *       *       *       *

De rastros! de rastros! Odio, ambio, gritos, tudo isso  nada! Toda a
existencia perdida a sonhar, a viver ssinho, absorto em coisas nullas,
quando a vida  to grande e to simples e se reduz--a amar! Pelo amor
conhece-se tudo, at o que os sabios ignoram. Olha para um mysterio com
amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calho com amor, que at
n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmo,
at ao mais degradado, com amor, que n'elle deparars com Deus. Deus
vive ao p de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que precisas para o
sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com emoo
e o teu pedao de po negro, olhando o prodigioso mysterio, e sers
feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te  abobada do
co, ao homem,  montanha,  arvore, ao mar--e ouvirs Deus em ti,
sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.

Deus est muito perto de ti--e  por isso mesmo que o no vs. A palmos
da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na
crosta da terra, para que o cho gretado e pedregoso se transforme. Que
torrente de emoo no vae atravessando os mundos, os homens, as folhas
seccas e os globos d'oiro do co!

O homem enredou se de tal forma na ambio, no odio, na guerra, que
perdeu o sentido da vida--to simples e to larga--e que deixou de vr
Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e
grandes--ao amor dos seus irmos, da natureza, e de abrir o seu corao
a esse fluido mysterioso.

A vida artificial  que transformou o homem. Da vida artificial  que
nasceu o orgulho, e que nasceram a ambio, os erros, o crime--e at a
piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia--o homem seria
feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prgando o Amor. S o Amor nos
pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que monto d'infamias! que monto de crimes! O
homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambio, da vaidade, do
sonho vo, para qu? Para ser desgraado. Um trabalho ferreo e
herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com
inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. No hesitou em
despedaar, em calcar, em mentir--em busca do que elle julgava a
felicidade, e que era apenas o erro. No teve tempo para olhar a
montanha, o mar, o ceo--o espectaculo de Deus no o viu--porque corria
atraz da felicidade. No perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo,
tendo piedade de seus irmos, dando a mo aos desgraados, porque vivia
n'uma afflico, atraz do qu? Da felicidade. No se sentiu a ss
comsigo, no se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu
olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu corao.
Porqu? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a
respirao dos montes; riu-se do amor, da emoo--futilidades--porque
feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um
minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e
po, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar, contente o
seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraado. Est a
dois passos da cva. Interroga-se e no comprehende. Ento isto  que
era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraado no reparou
que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha
desdenhado!

Ama, ama a teus irmos e vel-os-has transformados e cheios de belleza:
mesmo nos mais seccos irs encontrar coisas inesperadas; ama a natureza,
os montes, as pedras--e vers que espectaculo sublime; ama que sentirs
a mo de Deus pousar se sobre a tua cabea.

Torna  vida simples e sers feliz. A tua vida no custar gritos; o teu
po no ser furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro,
ha cem creaturas morrendo no desespero e na afflico.




XXIII

A OUTRA PRIMAVERA


Os dias passaram-se e a Arvore era um collosso.

N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao
vento.

--Pitta voc tem um ar estranho.

E o Pitta, transido, murmurou:

--Voc deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, affianou:

--Foi a primavera.

--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles s
apparecem de noite, criam-se nos sagues. Deparo com creaturas que nunca
vi. Uns so lama viva, outros que so?.... Homem, dir-se-hia que todos
os sonhos tomaram corpo.

--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Voc tem visto um
charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se.
O mesmo spro que faz bater mais alto o corao dos montes, cria
n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de
mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida
furiosa. Eu j vi...

--Ento...

--Ento, Pitta, voc medite,  isto... Esta lama que se cria nos
sagues, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear...
Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo
que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.

--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppresso,
mysterio...

--Emoo que foi at s tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e
crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riacho,
gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro  terra...

--Crearam?

--Crearam. Isto que ns vemos no so elles, so apparies.  o que
elles sonharam. Os sonhos dos desgraados tomaram corpo. S ns  que
no podemos sonhar.

--Ns no, nunca mais... Os sonhos dos desgraados tomaram emfim corpo!

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

--Mas foi a Noite ento?....

--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoo e de noite. Elles s
deitam flr  noite e s podem sonhar  noite.

--E voc como soube?

--Meditei.

--So afinal,  certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros so
disformes...

--Eu tenho visto.  uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de
crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que
tudo acarrete...

--O que elles sonhariam para chegar a materializar!

--De cada canto surgem.  inesperado e imprevisto. E dos sitios mais
negros  que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma
flr---branco, todo branco ou de luar gelado...

--E falam!

--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido at aos
alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia
coleras, engrossra, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava
oiro, como as poas que reflectem um poente. O Gabiru prgava aos
desgraados. O Pitta mostrando-lhe ao p os montes, as arvores, a
natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes
baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia 
procura de odios para as atiar. Prgava-lhes, apontando o Hospital:

-- alli! alli!...

Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manh de
maro esbraseara-o.

-- uma coisa esplendida!  ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um
incendio verde que pacifica e estanca toda a sde. Aguas a rolar e
arvores esgalhadas falando... Sabeis o que so arvores? Ha alli
montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite,
esguio como um enterro.

--Ha montes todos d'oiro erguidos para o co, ha oiro nas arvores, oiro
nos montes e no tojo... Todas d'oiro so as aguas a rolar. Ha seda viva
e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraa,
escutavam-n'o e punham-se a falar ssinhos. As palavras do Gabiru
empoeiravam-n'os d'inquietao e tristeza, e a noite era como um brazido
que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho
affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.

--Ha oiro! para l ha oiro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio
parecia abalado. Todo aquelle terrio de creaturas o esbrazeara.

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres que fariam seno deitar as mos tabidas a um outro universo que
elles presentiam igneo?

 fora de sonhar materialisaram o sonho.

Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em
cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. No conheciam da vida
seno a dr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoo, como
quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se
entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a
historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotos, nas mansardas e nos
sagues, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De
uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e
lhes faziam precipitar as illuses represas...  verdade afinal que ha
arvores e fontes todas d'oiro? Porque  que eu nasci para soffrer?
Porque  que existem vidas, como a de certas sementes, que no chegam a
ter fora para germinar?

Tocados d'essa primavera negra, de que falra o sabio, juntavam-se para
se queixar e cada um,  fora de sonhar, crera uma figura,
desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma
appario d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos
traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo
odio, pelo riso, por monstros...

--Eil-os que deitam flr! eil-os que deitam flr!...

E na noite elles botavam realmente flr, e de tanto falarem nas arvores
e nos montes at as pedras cheiravam a terra arada.

Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illuses,
sonho de sbes, de calhos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e
humilimo.




XXIV

A MORTE


Oh eu j no sei bem, pobre de mim, o que  realidade e o que  sonho.
Por vezes me parece que o proprio Hospital se pe a falar pela sua bocca
de pedra. Em noites de luar, quando tudo para l se envolve em algido
luar, eil-o que enternecido conta sonhos rtos e tristes, o sonho dos
pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como
os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de
musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...

       *       *       *       *       *

Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe
no craneo um ruido extranho. Constellaes de fogo, mundos e coisas
terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do
casaco d'alpaca, olhava o co n'um extasi. De que tombra? De fome ou
d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.

Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa
d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira
d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou
descobrindo outro sonho to vivo, que, de vl-o, cahira fulminado? Em
torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas
prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um _viva a republica_! outro,
_morra a D. Antonia_! contas e um soneto bocagiano pela mo do Pitta--e
entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das
constellaes, que luzem at no fundo das latrinas.

       *       *       *       *       *

Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas  tona. S a Arvore
cresce e  medida que ella cria foras a Mouca se consomme. A tosse
desconjuncta-a. Creou-a a desgraa humana, construiu-a do lodo das ruas
e d'abjeco. Mas a dr vem e purifica:  como o fogo que torna um galho
apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta,
luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe
os ladres e s ella no ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca
chora. Um dia ao vr que batiam em Sofia diz-lhe:

--E se ns nos matassemos?

--Calla-te! calla-te!

--Sabe a menina? Eu no sei que tenho, j no me importo de viver. Perdi
o amor  vida. Olhe para o meu corpo. J no tenho seno ossos. Porque
ser que a gente muda? Diga-me:  p'ra amor do velho que se no quer
matar?

--, est callada.

--Eu c sou assim, que quer? s vezes, quando no tenho com quem falar,
ponho-me a falar sosinha. Antigamente no me lembravam coisas que me vem
agora  ida. Esta vida sempre  mais negra, no ?

--.

--Pois , eu bem digo e mais no conheci outra. Sempre a gente nasce com
cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, no me deixe ir p'ra o
Hospital.

--No fales...

--Porqu? Eu bem sei como estou. D-se-me bem! A gente tem de morrer,
no ? Ento quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladres espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como
um co ao dono. Por fim disse-lhe:

--Vamos ambas ao rio quer? Eu no me importo de morrer. Mais vale
acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem
medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.

--No, deixa! no te afflijas!...

--Eu, sim! Bem m'importo!...

       *       *       *       *       *

De noite muitas vezes tinha afflices, suffocada. Agarrada a Sofia:

-- valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo
estava tranzido.

--Na primavera...

--Sim, na primavera.

--Vs a Arvore, vl-a? Assim que tiver flor,  mais quentinho...

Mas veiu maro e depois abril e que transformao! Quasi que nada
restava da Mouca, escarneo de ladres e de soldados. At a voz se lhe
sumira...

       *       *       *       *       *

Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Comeo da noite. Fra, na rua,
lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae
morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e p ante p
vem os ladres e os soldados para ao redor da enxerga vl-a acabar.
Moldado pelo lenol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se s
a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a
morte esgana--mais perto! mais perto!...

O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de l os seus olhos
brilham;  cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O leno
est ensopado de suor d'afflico.

--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.

--Est a passar?

--Shiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladres e os soldados e curvam-se em volta da
enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feies crueis, ha
espanto e terror.

--Inda fala?

--Shiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse
apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na
cara branca e immaterialisada:

--Menina! menina valha-me!...

--Estou ao p de ti.

--Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladres e dos soldados, todos em roda--e p ante
p tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braos e d'um
lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mos.

--Aqui est uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de
manta cossada.

--Shiu! j no precisa.

-- melhor deital-a com a enxerga no cho, para acabar de
penar--aconselha a patroa.

A Mouca respira afflicta.

--Tenho frio... nas mos, na cara...

       *       *       *       *       *

Devagarinho, arrepanhando o lenol, rodeada de todos que a tinham
maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina;
a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de
correr. Haviam ficado em volta immoveis.

Este acto do espirito se libertar  de tal forma grande, o inicio do
mysterio, que at o Pitta olhava estarrecido. Fra disse para os
ladres:

--A morte, rapazes, ensina. No ha lico mais formidavel.  doloroso e
no emtanto pacifica. Vr morrer, enche de grandes idas, filhos!...




XXV

A ARVORE


O Morto tinha um feitio singular. Uma fora desconhecida--d'essa
corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A
sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem
ss e a quem o tempo sobra para reflectir.

--Quem s tu? disse-lhe o Gabiru.

--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo
ninguem o saber. No tenho familia.

--Quem te creou?

--Os ladres.

--Se no tens onde dormir, deita-te l em cima.

E emquanto o ladro dormia aos solavancos, acordando d'estaco, para de
novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.

s vezes o ladro tornava e o philosopho repartia com elle o seu po.
Depois dizia-lhe:

--Dorme.

Mas n'essa noite o Morto no quiz dormir. Sentados  beira um do outro
falam durante largo tempo.

--No sei porqu este tempo afflije--comea o Morto--No devia haver
este tempo.

--Qual?

--Este, de primavera. At na cadeia, quando n'uma noite assim o luar
consegue entrar pelos buracos, os ladres acordam sobresaltados. Tenho
visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma
creana por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a
bocca s grades para respirar com soffreguido e desatou a cantar. Este
tempo tira a fora.

--Escuta. No ouves nada?

--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os
que matam inda so os que tem melhor corao.

--Tu para que roubas?

--Roubo porque tenho de roubar.  o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o
que a gente faz est escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda
hei-de fazer peor quando soar a hora...

--Que hora?

--A minha hora. Todos n'este mundo tem uma hora em que cumprem aquillo
para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por
exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que  para roubar? Matam
uma creana que nunca lhes fez mal.

--De que serve fazer mal?

--Em primeiro logar  fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal,
 sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me prga
que faa mal e as minhas mos procuram logo quem matar. s vezes sonho
que mato.  signal que a minha hora ainda no soou.

--E Deus?

--Deus foi que me creou, Deus no se importa. Que tenho eu que fazer
n'este mundo? S mal.  porque Deus me creou para o mal.

--Resiste.

--Quando a gente  creada para isto, no ha nada que nos impea.

--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

--Mas viver!... Viver com toda a fora! Tu no vives. Morrer sem ter
vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraa? Que sabes tu de ser
perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de
seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver 
preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sr,  preciso a gente
sentir-se s contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar
inda que esmague. Para onde?  para o mal? Que importa!...

--Mas o mal...

--Que sabes tu do mal?

--Nada.

--O mal sabe... Ter as mos ensanguentadas e esmigalhar nas mos!...
Fugir de noite com os ps nas pedras, perseguido, sem poder respirar;
encher depois o peito, com o corao a estalar, escondido n'um canto
negro ou estender-se a gente no cho e sentir na bocca o travor da
terra!... No respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer
chorar! Eu ter entre as mos uma vida e vel-a finar-se!...

--E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite  espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e,
no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores,
com frmas de sonho.

--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu s a terra, tu s a terra a
falar... Tu s s terra. Eu no vivi? Tu s como a forja apagada e eu
no, eu no, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

--No, no quero ver. Isto tira a fora  gente.

--Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um
sonho que o outro no podia vr...

       *       *       *       *       *

Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma
torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras
estremecem impellidas. Ha como uma ligao entre a Arvore e o que para
l existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e hontem  tarde
eu vi que a Arvore j no era a mesma. Foi quando, como agora acontece
sempre desde maro, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos galhos. Vae-se o
sol embora e ainda--vou jural-o--lhe fica sol nos ramos. Hontem  tarde
parecia transformada, dirieis haver n'ella no sei o qu
d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma me. Puz-me a vel-a
tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri
perdida, quasi sumida, uma flr to miuda, to tenue... Qualquer spro
do vento leval-a-hia para sempre.

       *       *       *       *       *

A noites estremecia despedaada. Uma nevoa viva, torrente luminosa,
arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das
aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade
ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa
d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida
brotra, uma appario, um sonho realisara-se tornado em materia. A
propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore.
Envolvia um fluido, um rastro d'emoo. Erguida, enorme, transformra em
flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o
Gabiru pendurado n'um ramo.

Namorra sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando
n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias,
quando a morte a tocra, no tirava dos troncos despidos o olhar
absorto.

--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...

No sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia pertencem
mais a um outro mundo do que  terra. A materia est j toda imbebida de
mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo
emmudecem e pe-se a falar dentro em ns a poeira d'astros de que 
feita a alma.

--A Arvore! a Arvore!...--dizia ella para Sofia--Donde nasce
aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz...
Lembra-se do anno passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da
sua voz? Parecia agua a cahir...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais.
Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella amra. As
noites tinham j esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no
escuro, de palores esquecidos...

Altas horas  janella, todo o co pontilhado d'estrellas, ouviu soluos
na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia
esperar escutando. S muito ao longe, no silencio que lhe pareceu
presago, dir-se-hia que uma nascente deixra correr um fio de agua--s
um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se
a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia
transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e
meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a
correr?

Desceu tres a tres os degrus e eil-o no quintal. Vestira o luar a
Arvore e sob a magia da noite a ecloso fizera-se. Cobriam-na
flores--cheiinha--e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o,
com uma voz conhecida.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco
phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o tomar
e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos
ramos...




XXVI

NATAL DOS POBRES


Natal...

Est um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para l as arvores
despidas no bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora arrasto
pelas encostas pedregosas dos montes. No se ouve um grito. Tudo na
natureza se concentra e sonha. Ha no emtanto um grande rio revolto que
nunca cessa de correr...

       *       *       *       *       *

Longe pelos caminhos, atravez de pinheiraes sumidos e callados, vo
velhinhas tristes, de saia pelos hombros, para consoar n'esta noite com
os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mos callosas, as
caras enrugadas, onde as lagrimas abriram sulcos, os olhos tristes,
contam o que ellas tem passado na vida, dias sem po, suor d'afflices,
desamparos, mus tratos...

Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga.
Que tudo repouse. O vinho d'hoje conforta, como as lagrimas choradas
pelas nossas desgraas, o lume d'hoje aquece como o amor de nossas mes.

       *       *       *       *       *

Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, andam pobres que no
tm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os
tenha na sua mo de pae. Partem, chegam, vm de muito longe, para verem
os seus meninos, matando saudades. Quasi no comem e sustentam filhos,
sustentam netos. Os velhos, que tm atraz de si uma vida de martyrio e
fomes, dizem:

-- hoje o maior dia do anno...

Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevo. A cosinha  negra, de telha
v,  negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco
avistam-se as estrellas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das
pinhas, abafadas na cinza, repartem um po que  o suor do seu rosto,
bebem um vinho aquecido em arvores que as suas mos cortaram.

Sentados ao lume no falam. As brazas vo-se extinguindo como um poente,
ou como uma alma que vae deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado
a estrella reluz, o nevo cabe com um ruido de flres desfolhadas, e
cada um scisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo: em
certa hora da vida, na me, n'um filho ausente, n'aquella morta que
passou seus dias a sacrificar-se por ns...

--O lume apaga-se...

--Deitae-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vm escutar-nos
attentas.

       *       *       *       *       *

Os pobres so como os rios. Estancam a sde da terra, fazem inchar as
raizes e crescer as arvores; acarretam; mem o po nos moinhos. Eil-a a
vida da terra. Todas as cathedraes se construram da sua dr; sem elles
a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque  que creaturas
miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para recordar e
amar? Pobres repartem o seu po; espesinhados do-nos das suas lagrimas.
Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a afflico. Chegam-se uns
para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sitios onde se
soffre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a scismar. Os
pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas,
onde nem o lume se accende; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma
hora, scisma, abandonada e ssinha, ao p de brazas extinctas, no filho
doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rtos, almas mais
gelidas que o nevo.

       *       *       *       *       *

As lagrimas que se choram e se no vm so as peores: cahem sobre a
alma.

       *       *       *       *       *

Sofia sbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com
o Gebo. Na sua physionomia ha um cansao enorme.

A chorar, misturando-lhe lagrimas, o velho, mais gordo e todo branco,
bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraados soluam na
trapeira fria. Fra no se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.
Pem-se a scismar na me que descana na terra encharcada. Tudo to
triste, dias sem po, e o amor a prendel-os, a unil-os, mais forte que a
desgraa. No sentem odio, nem teem foras para gritos. Baixinho o velho
Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.

--Se o Senhor tambem nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

--Tenha paciencia, tenha paciencia...

--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que no tinha
tanto frio.

--Ahi tem po.

--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha, no
tinha tanto medo.

--A me l nos espera. Na cova acabam-se as precises e as lagrimas...

--Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se tambem a
desgraa.

--Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de communho, noite de lagrimas e saudades! No
 chuva que cahe sem ruido, so lagrimas. O Gebo abre a janela e pe-se
a falar para a escurido com palavras que a noite escuta, com palavras
que a noite leva. Sofia o ampra.

       *       *       *       *       *

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados
nas taboas, olham o vinho quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de
natal!... At as prostitutas se querem lembrar... Moidas de pancadas,
tem ms palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para
que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoo a
estas creaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre
lagrimas, risos sem piedade... Uma comea:

--Ninguem canta?

E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golpho:

--Eu c foi por fome que me desfructaram. Ninguem queria saber de mim e
a minha madrasta calcava-me aos ps.

--Eu nem sei como foi...

--E eu ento--continua--foi por fome. O pae estava encarangado e a minha
madrasta era to m, que, por eu me demorar n'um recado, partiu-me um
brao.

--Pois eu foi assim de repente...--diz outra--Ia pela rua fra. Vinha da
fabrica, comeou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem poz-se a
falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a
falar, a falar, at me doa o corao! E nunca mais o vi. Se o vir acho
que nem o conheo.

--Enganam e nunca mais querem saber.

--A mim minha me bem me prgava, mas a gente que ha-de fazer?

--Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro,--diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No
hombro os ossos furam-lhe a pelle.

--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

--Tola!

--Que tem? Tenho alli a roupa apartada.

--A mim quando sahi do asylo enganaram-me, levaram-me. Eu no sabia
nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fra... Depois
no tinha mais para onde ir ...

--Eu c tive um filho...

Uma que estava callada soluou no escuro. E como todas se voltassem
poz-se a rir e a ageitar os cabellos.

--Eu tive um filho e puz-me a creal-o. Depois de isso o meu amigo nunca
mais quiz saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o innocente
e elle punha se a rir.--Mulheres no faltam, dizia-me. Vae-te!--E a
gente fica feia. Vae um dia e disse-me:--Se c tornas chamo a
policia.--Eu chorei at no ter mais lagrimas e acabou-se tudo. So
todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que no me conheceu.

--E o teu filho era bonito?

--Era um anjinho do co. Tanto chorei que seccou-se-me o leite de
chorar. A gente sempre  mais tola!... Poz-se muito chupadinho e morreu.

--A Maria j deitou um  roda.

--Eu c se tivesse um filhinho acho que morria por elle. No tinha
corao para o dar a crear.

--A gente no podemos ter filhos.

--Eu c era uma innocente. At me d riso! Tinha treze annos e foi logo
ao entrar para a fabrica. O mestre foi quem me desfructou. Agarrou-me,
mas eu no sabia e puz-me a chorar.--Calla-te! se dizes, vaes para a
rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente ha-de cumprir o seu fado.

--Eu c fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois tudo esqueci,
porque seno a gente morria. Meu pae era muito meu amigo. Era preciso
no ter corao para o enganar. Nem elle podia suppr mal de mim, nem do
outro que entrava na nossa casa. Meu pae era tambem muito amigo d'elle e
tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no
collo me dizia:--Tu s o meu coraosinho...--Eu sempre tive um collo!
Olhae: emballava-me como s creanas.--Falta-te a tua me, mas eu sou a
tua me, queres?--Era uma dr do corao enganal-o e ns enganamol-o
ambos. E eu bem sabia que elle era casado, mas mentia-me...

--Porque ser que os homens mentem sempre?

--Mentia-me sempre, e eu era innocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O
peor  que um dia fiquei gravida. Comeou o meu castigo.--Vou-lhe dizer
tudo.--Diz--disse elle. Matal-o. Se queres diz...--Eu callei-me.--E
agora?--Agora...--Eu j lhe no queria, acho mesmo que nunca lhe quiz
deveras. Foi uma desgraa. J estava escripto que fosse desgraada,
acabou-se!... Depois no podia esconder o meu erro. S meu pae no
reparava... E elle que me imaginava uma inocente!... Esperae...--E
agora? agora?.... perguntei-lhe. Ento arranjei com que meu pae me
deixasse ir com elle e a mulher para uma quinta. Se vs visseis!... A
pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a peor que a um
co.--Calla-te!--e ella callava-se, a pobre.--Fala!--e ella falava.--
estupor tu no te callars!--Ella tinha os cabellos todos brancos e vae
em um dia perguntei-lhe quantos annos tinha.--Trinta, respondeu-me, e
callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para a
ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ella, ouves, velha?--E dormia
commigo. A senhora no dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos
to tristes, que faziam afflico. Um dia que ficamos ssinhas, ella
disse-me:--A menina ha-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ella com a mo
nos meus cabellos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua
to negra!... Ainda eu...--Porque o no deixa? perguntei-lhe.--J me
tinha deitado ao rio se no fossem os meus filhos.

--Elle sempre ha desgraas? s vezes mais vale ser mulher da vida.

--Esperae pelo resto... Tive as dres uma noite no vero, em agosto, e a
pobre da senhora  que me tratou. Elle levou-me logo o filho. Na outra
sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fra, sem saber o que
fazia.--Onde est o meu filho?--Fui mesmo de rastros e puz-me  porta a
escutar. Elles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado 
mulher.--Mata-me! tornava ella.--Tu queres a minha desgraa?
Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta.--O nosso
filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou
sempre depois.

--Tinha-o matado, o malvado?....

--Tinha. Affogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperae... A
creada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e
descobre do outro. Elle fugiu para o Brazil, eu fui presa, e meu pae
deante d'uma ingratido to negra--queria crr?--estalou-lhe o corao.
Depois... depois... A gente quando nasce j tem a sua sina escripta.

--E a ti?.... No falas?--perguntam a uma sumida no escuro.

--A mim enganaram-me. Foi ha tanto tempo que j me no lembra. Tudo
perdi.

--E a tua familia?

--A gente no tem familia.

       *       *       *       *       *

Na noite, a um canto do Hospital o velho _banco_ de taboas puidas, d
lhe tambem para scismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A
treva amontoa-se ao fundo, e, para alem, nos corredores abobadados, arde
um lampeo. Direis que o negrume remexe: pedaos de escurido
destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas humidas e espessas. Mais
para o fundo ha como um abysmo, valla commum de treva empastada. Os
gritos redobram; depois, por momentos, o silencio suffoca, como o d'um
sepulchro.

--Se  luar que cahe d'aquella fresta,--cuida o banco.--Se fosse
luar!...

Pela escada v se a enfermaria onde os lampies em fila do uma
claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos
leitos: parece uma necropole subterranea e immensa.

--Se fosse luar...--Ha que tempos que no sinto o luar. Era como um
ruido branco que me envolvia outrora na floresta. Neva s vezes luar. E
havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites
nascem! Era differente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos
ramos historias acontecidas n'outros montes. Ha epochas em que o vento
traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados s flores... Se
aquella poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim,
aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia no sei o qu de
mysterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os ultimos lampies
apagam-se um a um, como se alguem lhes soprasse.  a Morte seguindo o
seu caminho. Sombras esvoaam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais
callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha d alma. E o _banco_
scisma:

--Ha que tempos que no sinto em mim a luz da manh, que traz comsigo a
vida de tudo o que existe, dos rios, das outras arvores, nem o sol a
crescer em vagas d'oiro, nem a agua verde, melancholica, e to mansa
entre os choupos que parece ir vogando j morta... Sinto-me transido...
Transido? Isto  como fogo, mas trespassa-me de frio. E no ha nevo,
mas ouo sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... D'estas
enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Ser uma
fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as
minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que 
feito de gritos.

Baixo a pedra comea tambem a lembrar-se e quella hora perdida da noite
toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e
logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes,
materialisam-se e so como nuvens: so de fogo, so de luar. Sombras aos
bandos dissolvem-se, para outra vez se crearem.

--Acho que sempre  luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo
meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira azul
andava um turbilho de bichos. Outras arvores fluctuavam na mesma poalha
e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto
aquella companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio chalrava.
Folhas cahiam e iam devagarinho viajar sobre a agua verde. Para
onde?.... Debaixo de mim, at ao mais fundo das minhas raizes quantas
vidas protegi e defendi!... As minhas raizes tocavam na vida!... As
vezes cahia um p d'agua, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de
sol, para me enredar--e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo
que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas funebres em que a agua cahe a golphes, a gente
concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os
bichos na terra tremem de frio sob as raizes e as folhas seccas estalam
e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a
nevoa, os montes so mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da
tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sbe e se
dispersa.  a nevoa. Baba d'oiro luz na agua e os choupos so sombras.
Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois
poentes doirados... Porque  que me ponho a pensar e a scismar? Ha tanto
tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do
luar... Oh se ainda houvesse luar!

       *       *       *       *       *

As mulheres callaram-se. No ha ruido. Ellas proprias sonham. Em torno
da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas
pensam decerto n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o
gelam.

--A esta hora a minha mesinha ha-de por fora pensar em mim...--comea
uma.

--E tu porque no foste consoar com ella?

--Punham-me fra! queriam-me l!... Meu pae, meus irmos...

--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. ssam-se pinhas no
lar, e minhas irms pequeninas... oh minhas irms pequeninas!...

E suffocada desata de repente a chorar. As outras no se riem como de
costume. S uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

     Se vires a mulher perdida...

--Raparigas  o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu
fado.

-- noite a minha me aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente 
creada para uma vida! Quem adivinha?

--Calla-te!

--Eu era o miminho de todos, eu...

--S eu nunca tive me, de mim ninguem se importa! Acabou-se!

       *       *       *       *       *

Na escurido as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade.
Brilham, esmorecem, vo-se apagar: so vidas que se extinguem, a alma da
treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada,
parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parra tragico
defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida,
contempla o seu destino.

       *       *       *       *       *

Natal dos pobres! Natal amargo dos que no tm po e se ajuntam
friorentos em torno d'um lume que no aquece; natal dos sres que a
desgraa usou... O vinho enregela, o po  duro, mas resta ainda este
lume, que jmais se apaga:--manh! manh!...

       *       *       *       *       *

Que poesia to triste no vae cahindo como um chro sobre aquellas almas
de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraados!

N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre to
n que no sabe exprimir o que sente.

Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha
medo de sonhar e at de chorar, fizera se um claro. Tal o espanto
enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar
flr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o
calhao, que a trouxe no meu ventre.

Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:

--Ambos somos desgraados e ssinhos.

O vinho que havia aquecido d-lh'o com um pedao de po. Ella olha-o,
tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois
alguem que a amasse?...

--Bebe.

-- to bom a gente estar junta.

--No se tem frio.

--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha me... Porque seria que ella
me engeitou?

Fra choram. A Rata ergue-se e v no corredor uma rapariguinha que a me
pz fra da porta e que chora e pensa:

--E se eu me deitasse afogar?

D-lhe do seu po, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz,
pondo-lhe a mo na cabea:

--Deus te crie para boa sorte...

Na terra s os pobres sabem ser desgraados.

       *       *       *       *       *

Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o p se
transforme em vida, que  necessario? Torrentes de chuva, oceanos
d'agua. Eis a vida... Para que do que  materia algo de radioso irrompa,
que  preciso? Um atlantico de lagrimas.

Da materia tem nascido  custa de gritos, de fibras torcidas, o
immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dr
veio surgindo. O mundo espiritual  j hoje mais vasto que o mundo
material. A dr  a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se
entrar na morte ha sempre gritos. A dr ara o co cheio de estrellas e
os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que  que se alimenta no infinito? D'estes
pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--humus,
amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos.
Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, so a vida da
terra: as arvores, o po, as frmas, a seiva esplendente. No infinito 
da sua dr que se sustenta Deus.


Maio de 1899--Janeiro de 1900.




INDICE


Carta-Prefacio
I.--O enxurro
II.--O Gebo
III.--As mulheres
IV.--O Gabiru
V.--Historia do Gebo
VI.--Philosophia do Gabiru
VII.--Primavera
VIII.--Memorias de Luiza
IX.--Philosophia do Gabiru
X.--Historia do Gebo
XI.--Luiza e o morto
XII.--Philosophia do Gabiru
XIII.--Essa rapariguinha
XIV.--O escarneo
XV.--Fala
XVI.--Historia do Gebo
XVII.--O que  a vida
XVIII.--Historia do Gebo
XIX.--O Gabiru tresl
XX.--A mouca
XXI.--Ahi tm os senhores a natureza
XXII.--Philosophia do Gabiru
XXIII.--A outra primavera
XXIV.--A morte
XXV.--A arvore
XXVI.--Natal dos pobres




Notas:

[1] Estes pedaos so arrancados s reflexes philosophicas do Gabiru, a
que elle chamou _A Arvore_. _A Arvore_ porqu? Porque com ella
germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas. _A
Arvore_ sustentou-se de desgraa. As suas raizes alimentaram-se d'este
humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns
pedaos do livro, o necessario apenas para se vr a transformao do
Gabiru, pelo contacto com os sres humildes e a dr, promettendo
publical-o mais tarde com a sua concluso.





End of the Project Gutenberg EBook of Os Pobres, by Raul Brando

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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