The Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa; A Gratido; 
O Arrependimento; by Camilo Castelo Branco

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Title: Annos de Prosa;  A Gratido;  O Arrependimento

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: July 22, 2008 [EBook #26103]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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ANNOS DE PROSA

Romance

por

CAMILLO CASTELLO-BRANCO


A GRATIDO

Romance


O ARREPENDIMENTO

Romance




PORTO.
Editor, Antonio Jos da Silva Teixeira.
Rua da Cancella Velha, 62
1863




Typographia de Antonio Jos da Silva Teixeira,
Cancella Velha, 62
1863






ANNOS DE PROSA.






ANNOS DE PROSA.


DISCURSO PROEMIAL.

Altissima  a misso do escriptor, e a do romancista principalmente. O
mestre Ignacio da cartilha velha, amoldurada s necessidades do seculo,
 o romancista. Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que
vendem peonha em lindos crystaes, e desfloram as almas em luxuriante
florescencia da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas
d'este paiz. No ha fibra direita no corao da mulher que bebeu a
morte, e--peior que a morte--algumas dezenas de gallicismos no que por
ahi se escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como
os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de
quinze annos  a cousa mais equivoca d'este mundo, se a menina leu cousa
em que os pedagogos do corao a ensinaram a conhecer-se, antes que a
experiencia a doutrinasse.

Para cumulo de infortunio, Portugal  um paiz onde se est lendo muito.

Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara alimento bom ou
mau, assimilarem-n'o com tamanha sofreguido, que o encruamento do blo,
e o marasmo so inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos
e Apicios das letras expem  voracidade publica as suas iguarias
estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupleta-se com
tamanha intemperana, que o resultado e as dispepsas espirituaes,
tormento de angustias vomitivas, que fazem descer o corao ao lugar do
estomago, e subir o estomago ao lugar do corao.

Eu tenho assistido a esta deslocao de visceras com lagrimas nos olhos,
enxutos para tudo o mais. Muitas vezes tenho perguntado s velhas se
isto assim era no tempo d'ellas. Faz d vr a consternao com que
algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada! Compunge vr
rolar a lagrima preguiosa do olho desvidrado d'outra, que se recorda da
honestidade com que foi amada pelo seu quinto amante!

Ha cincoenta annos que as senhoras no liam romances, por uma razo cujo
descobrimento me custou longas vigilias:--no sabiam lr. Algumas,
rebeldes  vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever  tia uma
carta em dia de annos, copiada do _Secretario portuguez_ de Candido
Lusitano. Os paes aceitavam com repugnancia aquelle abuso de
intelligencia, e castigavam a filha, forando-a a um trabalho litterario
semanal: escrever em cada segunda feira o rol da roupa. Este systema
penal tinha s a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da
intelligencia, reduzindo-o  essencia bruta de sua nudez primitiva. J
no era pouco para exemplo e edificao das almas. O melhor moralista
ser aquelle que despir o delicto do corao das galas que lhe veste o
desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.

Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas da
corrupo tentaram exercitar o seu maleficio, vertendo para pessima
linguagem portugueza novellas francezas, que transpozeram as fronteiras
no couce da bagagem do Junot.

Em 1814, a immoralidade, at esse anno sopeada pela impertinente virtude
das novellas, taes como _A virtude recompensada_ e o _Escravo das
paixes_, quebrou as ferropeas, e despejou do regao dissoluto a verso
de _Tom Jones_, o _Soph_, o _Candido_, e quejandas falas incendiarias,
que pegariam nos coraes, se a manteiga e o paio das tendas no
esfriassem a fora comburente d'essa droga, que acirrava os paladares
anthropphagos d'aquelle festim de 1793.

Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, at 1830,
encontraram as almas portuguezas hermeticamente calafetadas. Ate esse
anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a
providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do homem, qual Jehovah a
fizera d'uma costella do mesmo.

O salo era um como trintario cerrado, onde, a espaos, uma gosmenta
matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de somno, surgia
estremunhada, dizendo: _Dominus tecum_. A menina casadeira no se erguia
de ao p da mi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, no
auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde
reslumbrava a paixo.

No havia ento d'estes homens mulherengos, que alambicam a parlenda
assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno do estilo, que  o mais
corrosivo de quantos ha na toxicologia do amor. A mulher actual  quasi
sempre victima da rhetorica requentada do romance, que esteril
peralvilho lhe encampa como cousa de sua alma. Algumas conheo eu que
resvalaram ao abysmo da perdio pela rampa de um adverbio
euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este sortilegio da
linguagem, que enfeitia e d quebranto s mulheres,  apanhado no
romance. O corao de certos individuos acha-se, muitas vezes, a paginas
tantas de tal novella. Sem figurinos e romances, no haveria corpos
apresentaveis nem espiritos insinuantes.

Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos
pyramidalmente tolos. Eu no. Tal ha que se vos afigura mazorro d'alma,
e, no obstante, ao lado de mulheres, dispara descargas de phrases
amorudas que  um pasmar. Asneira, dita em nome do corao, no ha uma
s que no seja laureada. Cada Petrarcha lorpa tem, a final, o seu
capitolio.

A mulher, por via de regra,  de seu natural to boa, sensivel e
generosa, que chega a recompensar a pertinacia do homem que, primeiro, a
nauseou: o segredo d'este paradoxo est na influencia contagiosa da
tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma
cabea de granito, cuida que fez o milagre de Moyss na rocha de Horeb.
Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.

Que mudanas!

D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: _Meu amado
bem!_ Agora j diz: _Anjo!_ ou _Seraphim!_ Era d'antes a phrase
sacramental do exordio: _Vr-te e amar-te foi obra de um momento._ Agora
no  raro encontrar d'estes arrojos: _Amar e morrer  meu destino!_

E, depois, o maleficio do romance no est smente no plagiato
irrisorio; o peior  quando as imaginaes frivolas ou compassivas se
entalham os lances da vida phantasiosa da novella, e crem que a norma
geral do viver  essa.

Em quanto a mulher estuda smente a phrase que applica, bem ou mal,
quando a enlouquece a vaidade de parecer o que no , bem vai. D-se um
exemplo: A apaixonada de um amigo meu, ao recebl-o, pela primeira vez,
em sua casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mo,
estendeu o brao direito em magestosa attitude, deu  frente a regia
altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse em tom cavo e solemne:
_Juraes levar-me s aras?_ O meu amigo, que balbuciava um prefacio de
longo estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu as escadas,
por no poder com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma
que os romances de Arlincourt salvaram; quantas, porm, perdidas por
guardarem as phrases ridiculas para o final?...

Grande mal  o identificar-se o espirito s visualidades do romance.
Quando a leitora se ri das crendices da sua infancia e dos absurdos
principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar do espirito, vem-lhe os
enfados, o escutar as mentiras do corao que se emancipa, o crr que a
vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma
assim, ser como o do arbusto bravio que d flres sem aroma, e fructos
sem sabor.

Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas mes, e nossas
irms, e nossas esposas!

A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos  j saborosa no
viver intimo, requer muita estupidez, muito somno a toda a hora, um
estomago exigente e forte, muita digesto soporosa de substancias
pesadas.

Esta bemaventurana ha-de restaural-a a ignorancia supina, no ho-de
ser as palavrosas theorias de Michelet cerca do _amor_ e da _mulher_.
Comecem os paes de familias por circumvalarem suas casas de um cordo
sanitario contra a peste do romance, que no se abonar com a promettida
pudicicia d'este, e de outros com que o author, corao aberto a todas
as chimeras, e de entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco
carcomido da humanidade toda a casta de virtude.

Vou lembrar um alvitre, cuja adopo poderia ser momentosa na
regenerao dos costumes.

As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se nos
velhos, que beberam ainda as escorralhas dos seios puros do seculo
passado. O Porto, de preferencia, graas  fora refractaria da sua
organisao, encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia
antiga. Fra facil eleger de entre estes--(abstenho-me de os nomear,
porque a modestia n'elles de de insoffrida como ulcera em lombo de
muar, e no  raro responderem ao elogio com o couce)--eleger d'entre
estes, digo, uma corporao censoria, encarregada de examinar os livros,
que giram no mercado, e referendar os que a juventude feminil podesse
lr sem deterioramento da innocencia. D'esta arte, os ancios no
restringiriam a sua egoista virtude  misso balda de condemnarem o
vicio da mocidade inexperiente. O exemplo do-no optimo; a doutrina  a
que ns sabemos; mas no os devemos desquitar de se constituirem
entulhos contra a torrente do vicio, desviando-a de levar ao regao das
futuras esposas e mes o romance peonhoso.

Pelo que, d'aqui j sotoponho este livro  censura, e assim dou publico
e voluntario testemunho de quanto venero as cs e as virtudes. Fadario
triste! A minha sina capricha, at hoje, em fazer-me malvisto d'esses
que eu mais quizera bemquistar, ainda  custa de um panegyrico 
corrupo senil dos raros que desgarram da trilha austera por onde a
virtude os vai guiando ao co, no qual os proprios anjos se espantam das
colonias que vo d'aqui.

Porto--1858.




PRIMEIRA PARTE.


I.

Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para
desgraas, encendrei as imagens das formosas apparies da terra, as
creaes do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas
do co estrellado.

Eu tinha horas de to dce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do
poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do
Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas
subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feies do genio um
trao de cada uma, no meu espirito.

Mas, n'aquelle dia,  entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa,
quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do corao, como as
da aguia ferida, baixavam  terra, aquella mulher...

A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a
Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousra crr e
dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante.

Que mulher! Bella? Ai! no, no  essa a palavra. Bella como a filha do
anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que
mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinao do abysmo
onde o cahir  perder-se o homem para si, para a humanidade, e para
Deus.

Eu era poeta.

Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinho na herana das celebradas
agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no
calvario do talento!

Este augusto titulo, merc do co, rubricado por sello divino no
corao do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso.

Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de
menospreo ao talento, e diz: _poeta!_

Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as
bestas-feras insultam a intelligencia!

Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes
extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graas,
comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: _poeta!_

Ha ahi um rir do vulgacho, que d em terra com a alma. Oh! o rir da
gentalha maltrapida  menos fulminante que o escarneo da plebe
engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!

Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de
trabalho.

Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentao, e de amigo logo,
porque eu sei que elle o  de conhecidos e desconhecidos, tirante os
estupidos maus.

Este nosso amigo  uma afflico permanente, um como pelicano que se
est continuo espicaando o peito para alimentar do sangue proprio seus
filhos insaciaveis, suas imaginaes escandecidas.

Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma abriu-lh'os uma
paixo das que alumiam a carreira do crime at  morte moral. A
consciencia de sua individualidade, desunida das mil formosas
existencias que se identificra, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a
soberana da creao--a mulher!

Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem dobrra o joelho!

At ento, Jorge Coelho amou sua mi e irmos, flres, estrellas, fontes
murmurosas, os pinhaes rumorejantes, o co azul e as nuvens abertas em
coriscos, os repiques festivos do campanario da sua alda e o dobre de
finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da viuva e da
orph.

Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de flres da esposada
at  baeta negra do esquife.

No sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, tres rugas que lhe
avincavam a testa entre as bossas frontaes, impressionaram-me. Um poeta,
da alteza d'elle, diria que semelhantes vincos eram vestigios da vara
com que a mo de um genio funesto o ferira, no bero. Moo de dezoito
annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos lagrimosos
pelos confins dos horisontes, e me diz:--a minha alma no cabe aqui
esse tal  de crr que se fine na flr dos annos, depois de haver
experimentado as dres todas de longa vida.

A minha alma no cabe aqui--disse-me elle, sentado no tpo de um
fragoedo, com a arma caadeira encostada ao peito, e afagando com a mo
o focinho do galgo que a lambia.--Nasci hontem, e j me cana a vida.
Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se  mesa do
festim. Meus irmos esto contentes ao p de minha mi. De manh so
abenoados e beijados;  noite vo restituir-lhe o beijo com a face
alumiada de santa alegria; recebem a segunda beno da virtuosa, e vo
dormir serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento
debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o s
paginas graves da philosophia que me disputa  f, e da f que me
arranca aos tedios indigestos da philosophia.

--Nunca sahiste d'aqui?--interrompi, suspeitando da candura de Jorge
n'este tecido de palavras presumidas.

--Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio frade, que,
ha um anno, me entregou ao ensino de minha mi, dizendo que a semente da
sciencia no podia germinar em terreno, onde faltava o amanho da boa
educao religiosa.

Minha mi no me entendeu melhor que o frade. Fallou-me do temor de Deus
como principio da sabedoria humana. Eu tenho um Deus que no temo,
porque o amo e adoro com espontanea devoo, porque o vejo luminoso em
todas as minhas creaes impalpaveis, porque o respiro e converto em
seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto mais se engolfa na
immensidade divina.

Minha mi  uma virtuosa senhora que s acha digna de Deus a linguagem
dos psalmos penitenciaes, e os actos contrictos de peccados imaginarios.
O circulo, que ella traa s minhas aspiraes,  estreitissimo. Para
ella, o futuro  a successo dos dias travados uns nos outros, iguaes e
serenos, como os viveram meus avs, e como ella pretende herdal-os a
seus filhos. O futuro para mim  o grandioso imprevisto,  a vida com os
seus desertos e oasis,  o oceano com as suas calmarias e borrascas,  a
peregrinao do israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho,
logo alumiado pela columna de fogo.

Que sinto eu aqui?--proseguiu elle, pondo a mo na testa, cujos vincos
se afundavam--Ser o pensamento confuso do girondino  vista da
guilhotina? Ser o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de
trazer-me a congesto ao cerebro?... No sei...

--Porque no ser a alma que geme solitaria como a rla, que, alm, no
ramo secco d'aquelle azevinho, est chamando o companheiro que ha-de
vir?--disse eu em phrase lyrica para no destoar da linguagem levantada
de Jorge Coelho.

--No creio--acudiu logo o meu amigo.--Eu tenho lido o amor dos livros,
o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. No me
inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que no entendia aos quatorze
annos, no o entendo hoje melhor. As impresses que ento recebi,
recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e
Pris, so duas telas borrifadas de sangue. O amor no pde ser aquillo.
Paulo e Virginia, Julieta e Romeu so duas catastrophes que apertam a
alma entre a admirao e o d. A felicidade no est n'esses amores to
celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo
inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no
abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdio, so dous entes
desamparados do anjo bom que nem sequer j serve para galardoar heroicos
martyrios. Pois no iro mais longe os meus anhelos de gloria?

A regio da felicidade estar delimitada pelas raias do amor, que o
romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e
sangue?

--Mas ha um amor--redargui--que no  o amor da historia, do romance, e
da epopea.  amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e
no entendem.  amor, preludio da bemaventurana, e prelibao da
ambrosia celestial.

-- o amor do romance, esse, creio eu...--interrompeu Jorge Coelho
sorrindo.

--No , meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza
de affectos, que eu no posso acreditar, por honra da especie humana. O
que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra
te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e
calamidades que me custou a descobril-o?

Repara nos meus cabellos brancos.

Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a
perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo.
Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam,
quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha
phantasia?

No te allucines, porm--prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do
enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que
lhe deparasse o acaso.--No te allucines em presena de qualquer mulher
com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de
epitaphio da innocencia. No respires com sofreguido o aroma das
primeiras flres, que encontrares. Lirios e mandragoras so bellas
flres, que matam, se as no lanares de ti, aspirados os primeiros
effluvios. Ha mulheres como as flres venenosas: se te detiveres com
ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensao, e
regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito,
em que sero delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais vlida de
todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem--a liberdade. Esta
doena, no comeo da vida, deixa achaque para sempre;  como a bala
recebida em pleno peito e l encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a
dr lhe est lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida.
Mulheres, que matem coraes generosos, ha muitas para cada homem.
Mulher, que salve, ha uma s.

A minha vida  uma elegia continuada desde o bero at esta ante-camara
do tribunal da morte, onde estou esperando que me chamem: no tem
romance: so desastres concatenados, sem intermedios d'esse
contentamento vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se
tivesses mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos
d'este mundo, que Dante no cantou de preferencia aos do outro, porque a
civilisao da idade media no tinha em si os supplicios d'esta
sociedade em que vaes entrar.

E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vr-me-ias longo tempo
enredado na torpeza, na irriso, e na brutalidade dos differentes
algozes, que me suppliciaram a alma. Se quizesses que te iniciassem no
segredo de sondar a perversidade dos coraes, no poderia eu, porque a
aspide, que te mede o salto do seio da mulher, s vibra a farpa mortal
depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do ramilhete,
que a esconde.

A sombra da mancenilha  grata como a de todas as arvores; suave  a
virao que lhe estremece a coma; o sol nem sequer mosqueia o cho em
que refazes os membros lassos; mas agonia mortal ser o teu despertar se
a formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que te
faz morrer em acerba palpitao de todas as fibras. Conheces tu a
mancenilha n'este deserto, que vaes palmilhar, encalmado das ardencias
do corao? Sabers tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que
mata, da mulher, que salva? Os trinta abysmos, d'onde me eu levantei,
com as faces a escorrerem sangue, estaro cobertos de flres para ti? Eu
creio que o poeta  um condemnado, a sua patria primitiva um outro
mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que montam os
suffragios do padecente experimentado para te remir? Nada. Cumpre a
sentena, porque  intransitivo o calix...

..........................................................................

Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, no vos direi aonde, porque
ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a verdade no pde, por
motivos sagrados, ser dita  curiosidade malevola.

Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. Outros de
igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado a residencia
d'esse moo, na terra, em que eu, de passagem, assentra a minha barraca
de bohemio.

Reconhecendo-me, ergueu-se, abraou-me com expansiva vehemencia, e
proferiu aquellas ultimas palavras do estirado discurso do anno
anterior:

_Cumpre a sentena porque  intransitivo o calix._

--E muito amargo? perguntei eu.

--Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o aviltamento. Adormeci
debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei nos paroxismos de que no
posso morrer. Achei uma das mulheres, que perdem. A sociedade
applaudiu-a, quando eu cuidava que a indignao do mundo me vingaria.
Ajuntei  minha dr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso n'ella.
Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da minha
desgraa. O mundo viu-me passar de olhos baixos para esconder as
lagrimas, e fez da palavra poeta um synonymo chocarreiro de insensato.


II.

Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim:

Sahira, pela primeira vez, da sua alda para cursar a universidade. A
mi, abenoando-o, ungira-o de lagrimas, e lanara-lhe ao pescoo um
crucifixo.

O tio egresso, vencido na resistencia que fizera  sahida de Jorge,
mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas malas do sobrinho
alguns livros de moral religiosa, que ambos sabiam de cr, um  fora de
repetil-os, outro de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que
principiavam sempre com a epigraphe:

_Initium sapientia est timor Domini_--O temor de Deus  a base do saber
humano.

Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas
preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. Contou elle que,
durante esses oito mezes, apenas sentira o corao na dr da saudade de
sua mi, de seus irmos, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras
dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa, todas as
semanas, em que a expresso maternal pintava o anceio com que l se
contavam os dias, na esperana d'aquelle em que seus irmos iriam buscar
ao caminho o mano doutor, como elles j o denominavam.

O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe ento a phantasia de
ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso horisonte, que
descobria do topo das serras onde trepava para dar  sua imaginao
sedenta a vaga imagem da immensidade. Agora, parecia-lhe que 
sofreguido da alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dce
dos saudosos ermos da alda, que conheciam o seu poeta desde os onze
annos.

Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos novos.
Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de saudade.
Imaginava-se sosinho ao p da arvore conhecida, em cujo tronco uma vez
entalhra a ante-data de seis annos, com uma interrogao ao lado, e
como se perguntasse o segredo do seu destino  sibylla dos seus queridos
bosques.

O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos
presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e
auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o encargo
de responder a mal-agourados futuros.

Quo longe eu estava da verdadeira felicidade, minha querida
mi!--escrevia elle na primavera de 1855, quando as margens do Mondego
reverdecidas lhe festejavam as saudades e as esperanas maviosas. A
imaginao enganou-me. Cuidava eu que o corao de minha mi faria o
milagre de communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que
eu encontrasse fra da nossa alda! Pensei que a imaginada formosura da
natureza comeava quem dos horisontes, que eu descobria do alto das
montanhas. As impresses novas antecipavam-se-me cheias de espiritual
deleite, e abundantes da vida que me l faltava ao p de pessoas vistas
a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao p das arvores, vistas
em cada primavera, com as mesmas grinaldas, e em cada inverno com a
mesma nudez funerea, que me confrangia o espirito.

Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, d'onde via o
cume da serra em que tantas vezes me assentra, ideando ao longe o
caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo estranho para o meu
corao. O vento do outono despia as arvores da sua folhagem; mas a
poesia melancolica e contemplativa d'essa transfigurao, qual a eu
sentia na minha alda, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, em
cerrao d'espirito, em arrependimento doloroso.

A duas leguas de nossa casa, minha boa mi, quiz retroceder: reteve-me
a vergonha. Depois de ter passado uma noite--primeira de minha
vida--fra do meu quarto, n'uma estalagem, ergui-me com proposito de
vencer o pejo, e ir lanar-me chorando em seus braos. Conteve-me ainda
o receio do _ridiculo_, palavra e sentimento terrivel, que, ha dez
mezes, me foi entalhado no corao por um homem, onze annos mais velho
que eu, propheta do meu destino, to verdadeiro como terrivel propheta,
que me vaticinou a sensibilidade immensa do poeta, e as lagrimas
inexhauriveis do incessante desengano.

J verti as primeiras; essas, porm, so talvez uma puerilidade que o
mundo escarneceria, por que, bem averiguada a causa da minha tristeza de
seis mezes, encontra-se um bom corao de filho e irmo, a nubelosa
saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver com tanto afan rebatido o
parecer de meu tio, que me quiz demover da teno de estudar em Coimbra.

Eu prometti-lhe, minha mi querida, a noticia exacta das minhas
impresses.--Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se
afigurar  tua imaginao--foram as suas palavras. No posso
descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto. Se
deponho com fastio os livros, que s abro por obrigao, interrogo de
novo o meu espirito, tento sondar a indole mysteriosa da minha vontade
oscillante, e encontro sempre enigma. Quer-me, s vezes, parecer que
estou em vesperas de uma grande transfigurao no meu modo de ser e
pensar; escuto o surdo rumor das idas, que ameaam rebellar-se contra a
moderada esperana em que minha alma se acalenta; sinto-me impellido 
vereda de angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias
da vida serena no seio de minha familia se me varrem da imaginao como
as copas de flres desmaiadas, que o nordeste sacudiu e dispersou.

Deverei occultar-lhe alguma das minhas vises, querida mi? No posso.
A confidencia  a respirao das almas; , mais ainda,  a supplica do
conselho e do remedio para as tribulaes, ou de estimulo e f para crer
na felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que no eram
mentira os meus delirios dos dezoito annos.

Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem como elle
indelineavel. No sei a qual hora da vida acharei a sombra real d'esta
idealidade, que se fez corpo e alma, impresso e sentimento para a minha
phantasia. Tenho querido collocal-a ao p de minha mi, como reflexo do
seu amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a
influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a nuvem
que m'a envolve pela mo luminosa da Providencia. Ser a realisao do
infinito amor, porque entre Deus e minha mi falta um lo. Creio que no
usurpo a minha mi o vago affecto dedicado a essa alma estranha, que me
visita nas horas de intimo recolhimento e scismadoras saudades de no
sei qu, como se do co perdido nos ficassem saudades para
reconquistal-o  custa de lagrimas. Isto que sinto no pde ser, como me
dizem os livros sentimentaes, os alvoroos precursores das primeiras
devoes, o subir para o altar dos cultos fervorosos e apaixonados. 
mais.

Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me banha de
festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial flr, que me delicia
e adormece em dces lethargias, tenho um despertar alegre e sereno, como
o do homem incapaz de ir abraar-se  realisao de seus ambiciosos
sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do mal-fazer.

Assim pois, minha mi, contente-se a sua boa alma de se vr assim
reflectida na do filho, que d'ahi sahiu agourado por to maus prophetas.
No abordei esses abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de
l, e contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia christ,
bastante para defender das tentaes todas as naes da Biblia,
exterminadas por causa do peccado.

D'aqui a tres mezes, deporei no regao de minha mi o corao
inexperiente com que de l sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de
contentamentos puros, e desejos de ser bom filho; e, se assim no fosse,
iria agora fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me faltam.

Trs mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu condiscipulo das
visinhanas do Porto, passou no Porto, quando recolhia a ferias, e alli
se deteve, para assistir ao ultimo baile annual da _Assembla
Portuense_.

Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostra pela imaginao o prazer de
encontrar duzentas damas reunidas  competencia de formosura e pompas.

Dizia-lhe o condiscipulo, j gasto para as commoes dos bailes (tinha
vinte e dous annos, e passra desapercebido em todos os bailes)
dizia-lhe o condiscipulo que o corao nascia de improviso no primeiro
baile, e muitas vezes l morria. Contava-lhe, em testemunho de verdade,
a sua historia, que era uma historia negra, passada ao claro de
centenares de lumes, nas salas da _Assembla Portuense_, no baile
carnavalesco do anno anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato
violentar as glandulas lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com
patheticas descargas electricas os nervos engelhados, no nos abstemos
de contar em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo
de Jorge, em geographia e historia.

Parece que o snr. Pires chegra de Coimbra a ferias de entrudo, e
conseguira ser convidado para o baile. Alugou um domin de seda, entrou
nos sales, e remoinhou longo tempo por entre centenares de pessoas
desconhecidas. Dizia-lhe a consciencia que era um tolo, por no buscar
ao acaso uma particula da felicidade, que brincava nas physionomias de
toda a gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da
mascara suffocante.

Deliberado a demonstrar a si proprio que no era absolutamente nescio,
dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, e disse-lhe que os anjos
do co, quando cahiam c em baixo na morada dos homens, ficavam tristes
como ella.

Ora, um magano, tambem mascarado, que por alli gravitava em redor do
mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz amabilidade, que no
s aos anjos do co acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam
c em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando cahiam de um
terceiro andar  rua.

Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao rosto
para esconder o riso.

O estudante, voltando-se para o entremettido, replicou-lhe que era de
pessimo gosto a chufa, e o gosto da senhora no era de melhor quilate
festejando com riso complacente to deslavada semsaboria. Redarguiu o
incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir fra das
salas para lhe estender uma orelha de modo que por ella o conhecessem
todos, visto que elle tivera a habilidade de a esconder no capuz do
domin. Trocaram-se algumas finezas mais d'este tomo, at que um homem
de porte grave travou do brao ao snr. Pires, e, levando-o ao salo
menos frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para
desavena to impropria de cavalheiros. Pires, querendo dar ao successo,
uma causa digna de transmisso, contou que merecra lisongeiro
acolhimento da senhora com quem estava trocando as phrases previas de
uma paixo, que rebentra subita e reciprocamente, quando o indiscreto e
villo interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que denotavam o
ciume d'elle.

--Pois aquella senhora, a quem o domin allude, trocava com v. s. as
phrases previas de uma paixo?--perguntou o interlocutor do estudante
com sorriso de affectada serenidade.

--Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.

--Antes de dizer-lhe que mente, preciso vr-lhe a cara.

Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a mascara ao
snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, chamou o escudeiro,
que passava com bandeja de dces, e disse-lhe: D a este menino dous
bolinhos, e mande-o embora.

Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por elle,
era muito mais dramatica e engraada, visto que terminava por dous
duellos mallogrados, um com o rival, outro com o marido, e por tres
desmaios da dama, um no salo, outro na carruagem, e o ultimo em casa,
na presena do marido, que, pelos modos, a quizera enforcar.

E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no corao do
snr. Pires, o resultado foi afogarem-se l os embries da sua
felicidade, e ficar aquella viscera rida e resequida como enxundia
secca de gallinha.

Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a respirao suffocada, e teve
instantes em que duvidou do bom siso do seu amigo;--to descozido lhe
parecra o conto, e to ineptas as consequencias.


III.

Entrou Jorge Coelho nos sales da assembla, e julgou-se em regies de
houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira impresso.
No o enleava esta ou aquella physionomia; eram todas. N'aquella
harmonia do bello, at as senhoras feias--se ha senhoras feias, vistas 
luz do corao--recebiam homenagem do extatico moo. No espasmo
delicioso do academico, se algum amor influia, era de certo o amor da
especie, porque seus olhos no haviam ainda estremado o individuo, que
os olhos d'alma entreviam no todo.

Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio do sol
coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por magico prisma,
no haveria muito cisco, muito atomo de poeira humana, que smente
refulge aos reverberos dos lustres, consoante o variegado das cres?
Decidam os que l andam.

Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, porque
se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho das danas,
e raros intervallos perdia, perguntando ao condiscipulo se estava
contente.

Jorge no sabia danar, porque no tivera tempo de aprender esse
appendiculo grutesco da boa educao. Muitas vezes lhe dissera o tio
padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danas eram
ansas do demonio armadas  alma.

No se glorie, porm, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do
sobrinho o horror das mazurcas. Jorge no danava porque no sabia se
quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o
accesso s almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salo em
que o espirito se retoua em piruetas, mais ou menos ridiculas e
parvoinhas, da materia.

 meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se
retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras
reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A
mais velha no excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria
dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, seno
antes uma contemplao absorta em que ellas mesmas repararam.

O academico devia captivar a atteno das duas senhoras, melancolicas
por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si to meigo e
affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas,
pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava
o brando olhar do moo. Estava, por ventura, este condo sympathico na
magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleio mimosa, que
effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos
nossos se recommendam s senhoras idealistas, affectando langores e
martyrios de alma, dos quaes a victima principal , em verdade, o corpo.

--Sympathica physionomia!--disse a mais velha das duas senhoras.

--Conheces?!--perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual,
por mero disfarce, encarava objectos, que realmente no via.

--No o conheo, nem me lembra de o ter visto em parte alguma.

--Tinha curiosidade em conhecer... No achas n'aquelle rosto um no sei
que de distinco?

--Tem alguma cousa no vulgar...

--Uma tristeza insinuante, achas?

--E no sei que de magoa supplicante...

-- verdade... e as supplicadas somos de certo ns...

--s tu, Silvina... s tu a examinada com um ar de espanto ou ternura
que compromette. Olha um grupo de homens, que nos observam e mais a
elle...

--No olhemos mais. Elle j sabe que o vimos e discutimos. Achamol-o
sympathicamente triste, e bem pde ser que seja um tolo com bastante
coragem para nos dizer que o ... Mas quem ser?!

A curiosidade das duas damas  menos racional que a dos leitores que
desejam conhecel-as.

A mais velha  a snr. D. Francisca da Cunha, creatura galante, com
quanto morena, grandes olhos pretos, sobrancelhas travadas e negras,
opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante a fingir
illustrao. Pertence a uma familia heraldica da provincia de
Traz-os-Montes, e veiu ao Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela
politica e pelas proprias dissipaes, com o fim de acirrar a cobia de
um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no nobilissimo
tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e romanesco. Por
muitas vezes tem mallogrado os esforos casamenteiros do pai, mofando da
figura e palavriado, um pouco para rir, do noivo.  fora de ser m,
conseguiu fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias
ser marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista,
com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que poder ter
sobre o homem a quem der os sentimentos embrionarios no seu corao.
Para experimentar, sem risco da sua nomeada, recebe cartas de varios
oppositores  sua alma, e responde regularmente a umas com idas
respigadas nas outras. Nos grupos, que se vo formando na sala, em que
est com Silvina, sua prima carnal, avultam quatro dos seus
correspondentes activos, e dous, que obtiveram promessa de resposta, e
alguns, que esperam aso de solicitarem aquella gloria, no entender de
cada um negada a todos, chegando a fazerem-se a mutua justia de
julgarem-se parvos uns aos outros.

D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca,  tambem provinciana, e veiu
de uma alda do Minho a banhos do mar, convidada por sua prima, de quem
 hospeda. O que ella aprendeu em quatro mezes de convivencia  possivel
que o no acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de
innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras
desanimadas e preguiosas, e, no todo, uma despresumpo de maneiras,
que fazia suppr grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!

Fra D. Silvina da sua alda para o Porto com uma paixo por um morgado,
que a no seguira por fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha
feito extraordinarias despezas na construco de uma eira, na
reedificao da capella solarenga, no muramento de algumas cortinhas,
que comprara, no fallando j nas desastradas mortes de um macho, que
tinha trinta annos de bom servio na casa, e duas juntas de bois
atacadas de epizootia. O moo pedira debalde soccorros, fingira-se mesmo
epileptico para que o cirurgio da terra lhe receitasse banhos salgados;
o velho, porm, passaro bisnau, e avesso  inclinao do filho, deu
grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se um
namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. Facil foi
a D. Francisca obliterar no corao da prima a imagem do seu primeiro
amor, zombeteando-a  proporo que a ingenua provinciana lhe ia
mostrando as cartas do saudoso morgado.

No podmos averiguar porque traas o morgado de Santa Eufemia arranjou
dinheiro com que foi ao Porto, tres mezes depois que Silvina cessra de
responder-lhe s cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixo as
dictava em estilo talhado para matar paixes. O certo  que o allucinado
homem chegou ao Porto na vespera do baile da assembla, e alcanou
carto de convite. A sua ida era encontrar Silvina.

Todo sorvido na ancia de vl-a e fulminal-a com olhadura terrivel de
accusaes, o morgado de Santa Eufemia no cuidou, com tempo, de mandar
fazer casaca. A que trazia na mala era dos figurinos de Guimares, e,
posto que em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e
comprimento das abas, na pequenez dos botes, e rebordo dos punhos.
Consultou a pessoa, que lhe alcanra o convite, cerca da casaca; mas,
desgraadamente, a pessoa consultada era um d'aquelles individuos de
juizo, que no tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja
sacrificada aos caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e
commoda, smente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates
especuladores, inventam feitios novos.

Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor lhe fra
ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira sala foi um
acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e seguiram-n'o com
insultuosa curiosidade at ao salo da dana. As senhoras, em regra,
pouco curiosas do trajar dos homens, no repararam na casaca, mas no
podiam deixar de vr o collete e a gravata. Era esta descommunal na
altura, atravessada por um lao, cujas pontas, como orelhas de lebre
morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A cr verde da gravata
contrastava com o encarnado-ginja do collete de uma abotoadura e
colchetes apertados at ao pescoo, e acairelado na abotoadura e bolsos
com vivos roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da
casaca, com as quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que
viera, para irriso e descredito de Freixieiro, cujo elegante era.

Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que o
seguiram, desde o vestibulo da assembla. Viu, depois, que as damas se
trocavam olhares suspeitos, que o no impediam de procurar Silvina com
aspecto entre o furioso e o comico. A obstinao, porm, dos
chasqueadores era inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez,
em que olhou em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, ento,
graas  Providencia, se Silvina o no tinha visto; mas o derradeiro
olhar, que lanou aos descaridosos mofadores, era provocador.

Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua familia, que
o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia sahindo,
atravessou por engano a sala em que se achavam D. Francisca, D. Silvina,
e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por alli estanciavam, deram com
elle de cara, seguido d'um cortejo de folgazos, que tinham passado da
zombaria cautelosa  risada descomposta.

Silvina corou at s orelhas, quando Francisca exclamou:

--Oh! que original! Repara, prima, tu no vs aquelle homem?!

A este tempo o morgado estava em meio da sala, e fazia machinalmente uma
cortezia s damas.

--Aquillo ser comnosco?!--dizia, com desdenhosa zanga, D.
Francisca.--Conheces aquelle phenomeno?! Olha que elle est esperando
que o comprimentemos... Conheces, Silvina?

--Conheo...--balbuciou Silvina, acaso to afflicta como o desastroso
morgado, que estava alli chumbado ao pavimento.

--Quem ?  da tua terra?--tornou Francisca j envergonhada de que
julgassem ser ella a causa da attentiva paragem de semelhante entrudo.

Silvina ergueu-se, tomou o brao da prima, e disse:

--Vem, que eu te contarei tudo.

Sahiram.

Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com seriedade o
morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a boa alma que o
insulto era improprio de pessoas bem educadas como deviam presumir-se
aquellas, que estavam alli representando a melhor sociedade.

O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. Foi
ainda Jorge quem unicamente viu este signal de afflico; e, sem saber o
porqu, sympathisou com a dr do homem, que levava de poz si o escarneo
de tanta gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo
aos olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre
criana! como vivias enganado pelas maximas dos teus romances francezes!
No sabias tu que ridicula, sem rehabilitao,  s a pobresa.

D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o salo
do baile. A primeira compunha o semblante ainda descomposto das
gargalhadas com que recebera a revelao da prima. Esta, mortificada
pelo amor proprio, se no antes vexada pela indecorosa eleio d'um
amante chulo, captivava lastimas com a tristesa que devra acarear
despreso. Despreso! Talvez piedade, que a situao era digna d'ella, por
que  a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a accusa
d'uma escolha, que no s lhe no disputam, se no que, peior ainda, lhe
injuriam com motejos. O morgado de Santa Eufemia, at  noite infausta
do baile, era uma recordao, se no saudosa, ao menos magoada. D'ahi em
diante, pelo menos n'aquella hora, causava-lhe tedio, e forava-a a
participar da zombaria.


IV.

Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. J
tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a
remuneral-o vantajosamente da insulao em que se via no meio de tantos
indifferentes  sua tristesa. A todo homem esta mutao tem acontecido,
uma vez na vida. O baile  triste para quem leva da soledade do seu
quarto o corao de lucto; porm, quelle mesmo conforta, s vezes, uma
chimera, l onde menos a esperana lh'a promettia. Chimeras so que
desbotam, como as flres dos enfeites, ao repontar da manh; mas Deus
sabe quantas almas se retemperam nas illuses de um baile, e que horas
de abenoado engano l divertem as tristesas dos mais desenganados!

No era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu
breve dia de f e amor principiava alli--quando o amigo Pires,
lanando-lhe o brao em redor do pescoo, lhe disse:

--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas
de gesto, como se tivessem comido a fatal ma?

--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.

--A cr de cra?

--Sim.

--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que 
mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser
apresentado?

--Pois tu conheces?

--No, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me,
e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, c na boa
roda,  este.

--Mas a quem me has-de tu apresentar?  necessario, a meu vr, que ella
te diga quem .

--Pois no lh'o pergunto eu?! Essa reflexo  piegas. Se queres ouvir o
que eu digo, colloca-te ao p de ns, e escuta-me nos intervallos das
marcas.

O snr. Pires no reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas.

D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente,
para, se acaso visse pessoa de suas relaes com elle, podesse, de
conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informao do seu
mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao
encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com
elegante desembarao, solicitou de Silvina uma contradana: esta, com
adoravel aprazimento, aceitou logo o brao do cavalheiro porque se
estavam alinhando os pares.

Aqui, porm, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires
de procurar _vis--vis_, e era j fra de tempo o procural-o. A dama deu
primeiro pela falta, e o academico fez-se da cr do rabano. Silvina
relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o
primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o brao, e entrou no lugar
fronteiro  prima.

--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva at a rasgar,
deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc. esta contradana.

--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distraco_,
respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura.

Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de
Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moo, que
envidava os recursos todos da delicadesa e do encontro para romper a
barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe,
franzindo a testa:O senhor no cabe? se quer passar espere que acabe a
_polka_! O bom do burguez no sabia ao certo se era contradana ou
polka o que se estava danando.

No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli
no estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita s
difficuldades do salo, conversava assim com a senhora attenciosa:

--Quando tive a honra de impetrar de v. exc. a graa d'uma
contradana... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de
dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la rverie_, com que
elle fitava v. exc., era merecida, justificada, e...

--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabea
uma evoluo de movimentos indescriptiveis--mas eu no reparei bem no
amigo de v. s., que me distinguia de modo to lisongeiro.

--Se v. exc. tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o
extasiado...

--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja  galhofa!

--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o
mais comico azedume.

Silvina relancera a vista como quem no via, e voltando-se para o
cavalheiro, disse:

-- do Porto aquelle senhor?

-- da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo,
chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v.
exc. que  um corao virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela
primeira vez os impetos juvenis do amor.

--No admiro, porque  muito novo.

--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui
estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero j
_desillusion_, decrepito.

--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graa
de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me
em que romance poderei encontrar o seu caracter, j que no devo esperar
uma revelao das tempestades que o fizeram to cedo naufragar!

--O meu caracter ainda no est escripto!--respondeu Pires, avincando a
testa, e fitando-a de esguelha.

N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou
engasgada at ao proximo intervallo. Enganou-se, porm, o sceptico.
Silvina, como esquecida da suspenso da lugubre narrativa, perguntou ao
cavalheiro:

--O seu amigo demora-se no Porto?

--No so essas as intenes d'elle, minha senhora; mas  de presumir
que um aceno de v. exc. o faa esquecer a familia carinhosa que o est
esperando.

--V. s. depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras
com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua
gotta moral zombando das pessoas que ainda crem e esperam alguma cousa
d'esta vida?!

Acudiu Pires:

--Eu que digo isto  porque sei o que v. exc.  para Jorge. Respondo
gravemente s suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v.
exc....

--V. s. conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada.

--No tenho essa honra, minha senhora.

--Quem lhe disse que ha em mim virtudes?

--Rosto angelico e vo translucido: homem experimentado adivinha o
corao do anjo.

Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a
contradana. Conduziu a dama  sua cadeira, e disse-lhe:

--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc. o meu amigo Jorge
Coelho; porm, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente
a v. exc.

--No tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.  um cavalheiro da
boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que  academico, e sympathiso
com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmos no seminario, e
no sei que analogias me fazem presar os estudantes.

--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para
ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxes de gentil
effeito--direi mais a v. exc. que me chamo Leonardo de Sousa Pires e
Albuquerque, a minha casa  na Maya, e costumo passar as ferias no
Porto, porque sou avesso  vida pastoril, e no tenho seno mediocres
tendencias para admirar a natureza bruta...

--No  poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de
zombeteira admirao.


V.

--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento
olhos de lastima.--A poesia  flr muito delicada, que o primeiro
vendaval do corao desfolha. Desfolhada a primeira flr, o vaso que
fica no tem seiva para outra:  como a terra ferida de maldio.

--Isso  triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabea e olhos umas
gaifonas piedosas.

--Tristissimo, minha senhora!

Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama j pedia a
Deus que no viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma
d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia no refreia.

Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, no podia
tolerar a detena do amigo. Se eu soubesse danar--dizia de si para si
o academico--teria feito o que fez Pires... Ser de mim que elles esto
fallando?  natural, porque a vejo fitar-me com atteno... Se me eu
avisinhasse, daria melhor occasio a Pires de me apresentar...

E, obedecendo  hypothese, deu alguns passos; mas to a medo o fazia,
que antes parecia querer que o no vissem. N'isto, j o amigo o andava
procurando, e Silvina, vendo a direco errada de Pires, acenou-lhe de
longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.

O pobre moo tremia quando viu que era procurado. A sua primeira ida
foi fugir da sala, e no duvidamos crr que fugiria, se Pires lhe no
trava do brao, dizendo:

--Olha l como lhe fallas: a mulher tem espirito, e  um genio.

Isto foi peior.

--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar  exc.ma
snr. Dona...

Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos.

--No sabe o meu nome? isso no importa disse a dama.--Eu me apresento.
O meu nome  Silvina. Tenho a gloria de ser tambem alde. Nenhum dos
tres pde rir dos outros. Ento o snr. Jorge no dana?

--No, minha senhora, eu no sei danar--disse Jorge com infantil
ingenuidade.

--No sabe, porque no ama a dana, no  assim?

--Em minha casa ninguem aprendeu a danar. Minha mi foi educada n'um
convento, e de l sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra
onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha alda ha menos d'um anno, e
tenho consumido todo o meu tempo no estudo...

Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo
que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como
quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com no sabemos
que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:

--Deixe fallar o seu amigo que me est encantando com a singelesa do que
diz...

--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou
compromettido para a seguinte polka.

--Tambem eu...--disse Silvina, j quando o par se avisinhava, ao qual
pediu desculpa, de no danar, por causa de uma forte dr de cabea. E
voltando-se para Jorge, que no soubera avaliar a fineza do fingido
incommodo:

--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia,
porque talvez precise desafogar saudades d'ella em corao que o
comprehenda.

Jorge cobrra alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle
profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.

Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe no chamava
irmo ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto
de Silvina, que, por encanto, o timido moo, sem forcejar contra o
enleio da alma, tirou de l expresses de sorte affectuosas que nem os
mais destros comicos de sala as diriam assim.

--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando
mimo.--Est ancioso por chegar aos braos de sua mi?

--Quizera que v. exc. a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de
amal-a... que minha mi est to longe d'este mundo brilhante, vive d'um
modo to differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz d
o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis,
n'uma alda, sem outra convivencia seno a de seus filhos, e sempre
magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc. e
n'ella...

--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me
infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poder
dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mi?

--Immensa, e no sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este
sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez,
se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. At ha pouco, havia
l a de minha mi smente, e os traos informes, a sombra, o indefinido
do ser que vaga entre o co e a imaginao do poeta. Agora...

--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua
idade e modos usuaes--no poder jmais deslumbrar a de sua mi, porque
os entes de imaginao, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse
aos entes que a natureza nos est dando todos os dias em realidade de
amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, ver que  inutil esperar aquelle
puro original da cpia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o
corao novo e enganado lhe empresta as cres do co. Affirmo-lhe, seno
authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confisses
sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta
nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do co a
procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua
mi, e no consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe d.

Disse.

O academico ouvia, pela primeira vez, a expresso floreada, a linguagem
musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de
mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feies menineiras da
provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na
memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle
meu estirado discurso, na sua alda, dezoito mezes antes. Tropeou na
hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um
corao desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a coraes
novios. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido  ultima
expresso de Silvina, era acanhamento. J no: era a duvida.

--Ficou to pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Est pesando no seu
juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...

-- verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc. com
outras que me disse um homem de trinta annos.

--Contrarias s minhas?

--Semelhantes na inteno; mas muito mais desconsoladoras na frma.
Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma s que salva.

--Mas affirmou-lhe haver uma que salva?

--Sim, minha senhora.

--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoo e
generosidade a mulher que sente em si o corao salvador?... Creio que
me no fiz comprehender...

--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc. se a mulher capaz de
erguer a alma despenhada de sua grandesa, no se despenhar ella mesma
n'essa generosa tentativa;

--Entendeu.

--No sei responder, snr. D. Silvina. Eu no sei nada do mundo. Ignoro
os precipicios em que pde cahir o homem, e no sei tambem a que alturas
pde levantal-o o amor. J imaginei o mundo mais agradavel: comeo a dar
cem illuses por cada realidade. No cuide v. exc. que eu fiz p atraz
 vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que
ella , vista  luz da razo pura; vejo, porm, que se vo fenecendo as
flres da minha imaginao  maneira que escuto e pondero, com religiosa
crena, as palavras que v. exc. me diz, e as que me disse o bom ou
funesto despertador da minha razo, que dormia acalentada nos braos da
poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o
d?! Para que me diria v. exc., com ar de tanta verdade e segurana,
que eu nunca encontrarei o puro original da cpia que a minha phantasia
entrev?!

--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente
dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustia que fiz s mulheres, e
mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da
sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as
palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de
distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu corao. No se
desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada m,
que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedea aos impulsos do
corao, em quanto a peonha da mentira o no contaminar. No mundo deve
existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua
mi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de
filha. Quando estiver nos braos d'ella, diga-lhe que encontrou no
Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o
espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um
beijo de sympathia e venerao.

E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos
labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mo
tremente.

--Cumpre o meu pedido? tornou ella.

--Pergunta-me se cumpro?  este um encargo doce que v. exc. faz ao meu
corao. Farei que minha mi receba nos labios o beijo que vai n'esta
flr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha,
enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se
ha no corao poesia mais sublime que a da saudade...

--Ha, sim... a da esperana...

--A da esperana!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos
labios, e crando da irreflectida aco que se lhe afigurou menos
respeitosa.

(Oh santa innocencia! no sei se s mais tola que santa!)

Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da
frma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a
candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge.
Invejo-lhe o que j no posso haver nem sequer com grande esforo
d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do
que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flres mirradas da minha
primavera, e vem c a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e
zombaria, para que eu me da e corra das criancices de ento. Pois
rio-me com effeito, que  para isso a cousa, e riam-se,  vontade, os
que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e
rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroava o pudor a ponto
de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava
agora dos bicos da penna uma necedade das que se no desculpam  propria
santa innocencia que, repito, no sei se  mais santa que tola.

Vamos  historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual
providencia, muitas vezes, abre mo d'elles, e deixa-os para ahi
parvoejar que  mesmo cousa de peccado.

Silvina deu f do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade
inteira?--no gostou.  um segredo da essencia mulheril o dissabor que a
molesta, a seu pesar... (v, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se
amulherenga ao p d'ella, e lhe no deixa o exclusivo de mulher. Receios
de desmerecer em graas quando lhe  fora ser mulheril? Consciencia
ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de
captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do
pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora
lhe cerram os labios? No sei se  tudo, ou alguma cousa, ou nada
d'isso. A verdade  que a mulher no gosta de homens que coram, de
homens que choram, de homens que... no so homens, est dito tudo, e
n'isso ficaremos, se acham que est discutida a materia. _Materia_...
que aleivosia! Isto  espirito o mais espiritual que pde ser. Espirito
transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho,
paralta, janota, ou como  que se chama a tal alimaria, que se
desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao p das
costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.

Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge crar,
por ter beijado a flr, onde os labios da peregrina minhta haviam
imprimido o beijo de encommenda para a provincia.

--Agora, disse ella; so dous os beijos que leva a sua mi, em uma s
flr. Queira Deus que o halito dos labios do filho no tirasse o perfume
ao dos labios da amiga.

--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim...

--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido.

--Porque sinto no corao o perfume do seu beijo.

Sahiu-se melhor do que eu pensava.  aquella uma das respostas que
costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado
o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava
Jorge na opinio caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:

--Pois no esperdice o perfume, porque nunca sentir no corao outro
mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do co.

--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criana--Olhe que essa
palavra pde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc. consentir que
eu a guarde...

--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com to
pouco conhecimento de quem a dou, e to pouca esperana de a vr florir
em venturas.

Jorge Coelho ia naturalmente crar terceira vez, quando Francisquinha da
Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:

--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e  to cedo... que raiva!
estava agora ouvindo uma enfiada de tolices to peregrinas...

--De quem?

--Eu sei c de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor
conhece... No lh'o diga, no? Eu fui indiscreta...

--No diz nada--acudiu Silvina--pois no, snr. Jorge?

--Eu, minha senhora!...

--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com
cabea e braos--que se eu o no amasse, havia de espirrar  minha
fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem,
que homem aquelle! O que se produz na Maya!  filha, eu no posso perder
aquillo!... Pires  meu...

Ai! o pai... Vamos, Silvina.

Silvina estendeu a mo a Jorge, e disse a meia voz:

--V vr-me manh ao jardim de S. Lazaro.

Jorge balbuciou alguma cousa que no vinha do corao. N'este momento,
um receio doloroso o affligia com esta pergunta: Esta mulher ir
escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?


VI.

As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, no merecem
chronica. O que pde, porm, succeder a um moo, que passeia o corao
amante, no jardim do Porto,  bom de dizer-se, e folga a moral de
ouvil-o.

Se o leitor est no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e
conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua
primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a
cortezia , alm de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a
inconveniencia, e pde ser at escandalo. Resta-lhe o expediente commum,
e salva assim a honra das familias:  amoutar-se como fauno por entre as
murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e alm, a caa estranha.

No jardim de S. Lazaro os dous sexos do ao passeio o que as sovinas
municipalidades no tem querido dar-lhe; isto , uma luxuosa
superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se
avantajam s do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem
compostas e ageitadas de mos e cabea, e alli se esto deleitando na
vista do repuxo, em quanto o pap rufa com tres dedos na tampa da caixa
do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as
trombetas bastardas esto executando... _executando_, sim,  a palavra.

Ao relance artistico dos olhos no  feio aquillo. Cuida enxergar o
myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_;
mas a illuso d'um myope no vale os desconsolos de tanta gente que tem
a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum
satis_ de espiritualidade.

Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. No sei se a
bemaventurana  accessivel por igual de todas as terras; mas,
convencido da rectido que assiste aos negocios dos outros mundos,
quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma
de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto,
devem de ter differente recebimento e quartel nas regies da gloria,
onde ha premios para a virtude.

Na razo directa da tentao, nos esforos em rebatel-a,  que deve ser
aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e
incubos, se alista nas legies do co. No se dogmatisa, entendam:
quer-se escassamente enunciar ida nova, resaibada de heresia, a vr se
algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade
apostolica. No ha no romance outro merito que o inculque, nem
perspectiva melhor agourada para o editor.

As adoraveis virtudes das senhoras do Porto no so de todo um
merecimento: oram mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um
tero, ou ainda menos das precises espirituaes que, n'outras partes,
incommodam o corao humano. Esta feliz frugalidade procede do geito
d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijo, rachitismo
moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadia, por quanto, se
no  do Porto, e por l apgar alguns mezes, leitor, apalpe as costas,
e topar uma protuberancia a crescer, a crescer, at se formar corcunda,
que ir comsigo a stoda a parte.

Aquelle aleijo, de barreiras do Porto a dentro, no fica mal a ninguem.
Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a
ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As
bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco
sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo
do selvagem.

A juventude masculina da cidade heroica est em contacto com a
civilisao d'este seculo pelo alfaiate. No poderam os velhos trancar
as portas do burgo de Moninho Viegas  invaso dos figurinos. Calo e
rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourlo cederam,
constrangidos, o joante indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o
difficil, porm, era pentear, vestir e calar o espirito de gaito e arte
que a gente, fitando em rosto o filho da civilisao portuense, no
tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos ps o tamanco.  o sestro
das transfiguraes de golpe e abruptas.

Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um
janota. A menina ingenua diz  visinha: conhece aquelle janota? ou
fulaninha namora um janota louro. No se cuide, porm, que este
epitheto implica mofa ou menospreso como em Mas de D. Maria, ou Lamas
d'Orelho. O janota portuense  uma cousa sria, que pde ser vereador,
e irmo da ordem terceira.

Por via de regra, o janota  uma creatura que nasce, cresce, abre-se em
florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse
do balco paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe
descontem as letras, pe oculos se teve o infortunio de estragar a vista
com a luneta que lhe servia de no vr nada, fructifica em crianas
gordas que entrajam  escoceza, e esca-se de vida atravs de quarenta
annos de lerda pachorra de espirito, legando  prole um nome limpo, com
pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous
legados de cincoenta mil reis s entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa
ao hospital do Tero.

D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras:
primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da
adolescencia vestindo-se de manh para sahir de tarde; segunda, que as
meninas, ao despegar da costura, ageitam os laarotes do toucado,
entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da
janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou
quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto
 duvidosa.

D'est'arte, as paixes so innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como
um caldo de gallinha. As relaes epistolares no derrancam a pureza das
olhaduras. A carta, em regra,  declarao escripta que tolhe a poesia
da declarao muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua
para a janella, que piedosa criada deixou aberta, so, se a patrulha o
tolera, a morte de ambas as declaraes, porque o janota que falla 
muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda
assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais  que
ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a s por s com a
sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: Que bella mocidade
eu tive! muito me diverti!

Ponderam alguns authores que a morigerao dos costumes portuenses  o
necessario effeito do atraso da civilisao e policia da classe media,
em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra
civilisao anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das
industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com
diminuto trabalho, constitue a maxima civilisao material, o Porto
ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos
economistas. E assim  que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas;
porm, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram
digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes
deu.

Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que  a mesma
civilisao, irm gemea da intellectiva, e fonte da s moral, derruem
desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do
systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas frmas de governar
das naes mais cultas. No Porto, do-se as mos a riqueza e os costumes
edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos
segundos. A industria  a de hoje: os costumes so os de ha um seculo. O
chefe de familia poder ser moedeiro falso, negreiro aposentado com
exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista
tolerado; mas a filha d'esse homem da poca vive intemerata como a filha
de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem
de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasio de exercitar
as virtudes antigas, no duvidar ser Lucrecia, e Lucrecia menos
equivoca que a de Colatino.

Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que no produzisse um
volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das
sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de
nervo e polpa, com muito sal attico  mistura. O abundoso escriptor
escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque j um dos sete sabios da
Grcia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da m
d'uma atafona; e, para encarecimento do rbano, deixou Marciano um
tractado muito de vr-se. O talento  uma cousa temivel.

Ora no vo j d'aqui os malsins de intenes maliciarem essas
inoffensivas palavras, que no desprimoram, nem arguem deshonra ao
paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra
a proposito de qualquer empeo que lhes assombre o seu municipio, se
acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de
porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto 
o paladium das liberdades patrias.

N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge
Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhra de Silvina, que,
passados minutos de conversao, lhe disse:

--No se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar
espantadio. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.

Jorge Coelho retirou, e deu o brao ao amigo Pires, que fremia de raiva
resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.

--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?...

--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya
tascando com phrenesi a ponta do charuto.

--Que te fez?

--Ouviu-me hontem na Assembla  uma declarao, acolheu-a com doudo
enthusiasmo, disse-me que eu era um homem to admiravel como perigoso;
tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me
arrancaria as entranhas, se me ella no aceitasse a vida como
complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma
carta, com a certeza de me ser aceita. Offereo-lh'a, e ella responde-me
que no sabia lr se no letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e
Albuquerque sabe vingar-se. Vou manh  Maya; depois... ai d'ella e de
mim!


VII.

Christovo Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete
dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da Aguia
d'Ouro depois d'aquelle desastre da Assembla. Alguns hospedes
repararam na recluso, e averiguaram dos criados que exquisito homem era
aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso,
solarengo de Entre-ambos-os-rios homem de grandes brios e musculos.
Apenas informado, foi bater  porta de Christovo Pacheco, dizendo pela
fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do
parentesco foi de facil prova.

--O primo Pacheco no pde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que
um irmo de meu setimo av, que havia nome Heitor Moniz de Valladares
foi casar  casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo
Pacheco, governador de Cochim...

--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu no sei nada de
linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de
Chacim.

--Cochim, primo Christovo, Cochim.

--Ou Cochim, ou l o que ...

--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das
familias do Minho. Talvez v. exc., primo, no saiba que a nossa
linhagem est mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!

--No sabia, nem sei de que sirva isso.

--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Co e Aboim
Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. No diga
tal, primo Christovo Pacheco. Pois ignora que do solar dos
Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos,
sahiu ha cinco seculos um infano, que casou em Castella, e foi tronco
da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de
Frana?[1]

--No sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro.

--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o  bocca
cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a ns fidalgos
de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres bares da crte de
Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si
ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia s conquistas
do restante da Lusitania, e d'alm-mar.

--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas
com que meu pai me quebra a cabea, parece-me que trocava toda a minha
fidalguia por algumas libras.

--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera
indignao.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?

--No  trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa
Eufemia-- que eu estou de vinte e oito annos, e ainda no pude sahir de
casa seno duas vezes com esta; e no tenho remedio seno ir-me embora
para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo
pde lr, e depois me dir se me no era melhor ser antes um caseiro das
minhas fazendas, que me no servem de nada, n'esta idade em que eu
preciso de dinheiro.

--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o
seguinte:

                                                   Meu estimado filho.

J te disse que venhas para casa, que no ha dinheiro para andar em
folganas. Os tempos esto muito bicudos, e o bicho j pegou nas
videiras. Os bezerros do caseiro da Portela l esto com a molestia, e a
cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo so despezas. O
abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pr a porca no sino da
igreja. O milho ainda no chegou  conta; os quatro carros que se
venderam no chegaram para pagar as decimas. O garrano est de todo
espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo so desgraas.
Em quanto  roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste est muito
boa, e o melhor  fazel-a em Guimares, que so mais em conta os
alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao
meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se
ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha beno, e sou teu pai
carinhoso,

                                                             _Vasco._

--Que me diz a isso?--exclamou Christovo.

--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um
tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovo custa muito no
brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos d direito; no
obstante, seu pai est accumulando para o seu filho unico uma grande
casa, e  preciso perdoar-lhe a inteno que  boa. Vamos ao mais
importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus
lacaios? tem tudo s suas ordens; o que eu no consinto  que diga que
trocava os seus brazes por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de
fato? Chama-se j aqui o alfaiate: hoje mesmo pde sahir de ponto em
branco. Tenho c dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo
monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.

O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a
historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de
Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da
mala. Passou  ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na Assembla
narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das
orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da
mulher a quem elle quizera dar o seu nome.

Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia
um reles sargento-mr e um capito de milicias, afra duas bastardias e
um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos,
tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de
Cochim.

--Eu, dizia elle batendo no peito com a mo aberta, eu, primo
Christovo, na sua posio teria aoutado os perros que o escarneceram
na Assembla. Esses que riram de Christovo Pacheco  a villanagem,
cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapo braguez, e o
tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos
paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os
para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, so os
insultadores da risada boal, os miseraveis que atravs da casaca, da
pelle da luva, e do verniz das botas, esto accusando o costado proprio
do fardo, o p que reclama o tamanco, e a mo que suspira pelo cabo da
enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro
observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que
elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a ns, primo, que temos em
nossas casas a educao que elles tem entre as balanas, e timbramos em
honrar os appellidos de nossos avs, descendo at elles para que elles
no subam at ns. Se quer vr quanto  vill a basofia d'estes
tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau,
tenha o primo a longanimidade de os admittir  sua convivencia, e ver
como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o
seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial.
Christovo Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso no 
ultrajado impunemente.

Tem um rival, primo?

-- de crer que sim.

--Fidalgo?

--Isso no sei.

--Cumpre sabl-o.

Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de
Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapos da melhor
fabrica. Vestiu-se Christovo Pacheco, e era de vr em que gentil moo
se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse
lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezo que se sepultra no
frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo
corao do homem:  nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos
ensina que no ha nenhuma to mortificada que deixe de mostrar algum
alvoroo para uma pea de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela
novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: at os
pensamentos e as esperanas renova um vestido novo.[2]

Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se.
Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado
d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. No se canava
de correr a mo pela macia seda do chapo, e remirava-se ao espelhinho
que o imaginoso chapelleiro enquadrra no centro da copa. Com o que elle
se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas
costuras, com a presso do dedo polegar que queria  fora entrar com os
outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os
mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do
Porto inventor dos mysterios da dana. No Porto ha gente para inventar
tudo quanto ha.

Os dous morgados sahiram da Aguia d'Ouro no domingo posterior quelle
em que Silvina fallra um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim
foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa
dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de
elegantes, para quem a physionomia do morgado ficra indelevel, desde o
baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente
reparo.

O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:

--Ora vamos: andem, ou desandem!

Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados
da propria docilidade.

--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.

Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal
assombrado:

--Que  l isso?

--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei
immenso de vr aquelles bigorrilhas ladearem  esquerda e direita, e
comprehendi a razo porque elles pararam contemplando este cavalheiro
que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembla Portuense. Eu
honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe
que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me no conhecerem
digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques,
e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque no
tenho que fazer, e no me conformo  vida de meus antepassados, que
viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha
aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um
corao nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que seno
brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de
avs.

Pires foi fallando n'este estilo at ao jardim. O morgado de
Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a
familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado
palavrorio do mettidio. Christovo ia um pouco desconfiado da
bacharelice de Pires, que j o tratava por voss quando entrou no
jardim.

L estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho,
censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa
Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da
victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima,
fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a
no louvava. Era, pois, certo que o corao d'esta menina, degenerado
acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade,
se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem,
cuja mo tres mezes antes apertra com fervoroso amor e esperana de ser
d'elle.

Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a atteno que Silvina dava
aos cavalheiros minhotos. No os conhecia, para afoutar-se a entrar na
roda, e interrogar com uma palavra vaga o corao de Silvina. Esta,
porm, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente
a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e
fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.

A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes,
Christovo de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso
comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia,
voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a
algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre
todos, foi apertar a mo a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da
quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fra
aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem
cataclismos.

--D-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da
Maya, e no pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a
Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao
canto esquerdo dos beios, e arqueando os braos na cintura.

--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da
grosseira postura do morgado--est defronte de mim.

Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no
condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o
rosto risonho para a dama, e disse:

      _Sobre a pyra fumegante,_
      _Ardem ternos coraes._

D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu
prasenteiramente  tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa
de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o
morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o
grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente
os nervos de Silvina.

Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os
olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado at s
orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e
nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a
meia voz:

-- aquelle?!

--Pelos modos!--respondeu o primo.

--Pobre criana!  preciso dizer ao pai que o mande buscar.


VIII.

Tinha Leonardo Pires,  volta com muita pequice, assomos de brios
capazes de enganar a gente. No levou em paciencia que os morgados
rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse,
estendendo o brao em attitude esculptural para o lado onde Jorge
estava:

--Aquella criana, que alli est, tem um dedo de homem, que faz recuar
perfeitamente o gatilho de uma pistola.

Os circumstantes algum tempo no tugiram. Se no fosse o melodramatico
da postura, a cousa no era para rir; mas a lentido, com que Pires
desceu o brao, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que
arquejava em ancias de raiva.

Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo,
accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um
_obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura
desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.

Silvina, contente da faanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco.
Porm, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos
olhares coriscantes de Christovo Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo
as pantalonas que tinham marinhado at meia-canella, e disse:

--Vamos, meninas, so horas de jantar; vamos s sopas.

Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a
mo, de sorte lh'a apertra e sacudira, que fez evidente a inteno de
tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e
educao alde.

Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente
a Jorge Coelho, e disse-lhe:

--O senhor  um petisco! No se me ande a fazer fino, quando no...

Jorge respondeu assim  brutal arremettida:

--A phrase  de carreiro; e, se no  carreiro quem me insulta, deve de
ser um embriagado.

Leonardo Pires d um passo  frente de Jorge, pe a mo no peito, e
exclama nem facundo nem irado:

--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfao.

O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada  filha e
sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braos, e
tirou do peito estas memoraveis palavras:

--Os senhores esto aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que
l no matto so os homens de figados, peguem em dous carvalhos
cerquinhos, e deem at tocar a quebrado; mas no queiram que os botem s
gazetas manh. A minha opinio  esta. O menino v para um lado--disse
a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em
quanto  rapariga, minha sobrinha, manh eu a porei em casa do pai.

Jorge, tirado pelo brao de Pires, sahiu do jardim, e pde ainda vr nos
olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.

Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava
assim: _ bello ser amada por um homem de corao e esforo.  bello
poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas  triste no
poder, na presena de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A
VIDA!

O academico da Maya ouvira lr a carta, e disse, com quanta vehemencia
lhe permittiu a posio horisontal n'um canap, e as pernas sobre as
costas d'uma cadeira:

--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo
Jorge, so o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a
dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que
estragamos a memoria em Coimbra, no me dirs?! Se o padre Cardoso, que
fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu
que eu sou um parvo e que me no hei-de vingar da Francisca da Cunha!
Diante d'estes talentos brutos, sem mo d'obra, como  o da tua Silvina,
os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia
explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo  muito mais a
mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do corao na mulher
que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha l nada mais lindo? A
formosura fenece como as flres; o estilo fica. Silvina, a eloquente
Silvina, quando de pura velhice no tiver aquelles dentes de marfim e
esmalte, ficar com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do
cysne. Tu s feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte.
Ests sem vintm?

--No; meu tio padre mandou-me cincoenta mil ris para lhe eu comprar
dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...

--J devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos,
no  verdade?

--E minha mi encommendou-me duas peas de durante, e no sei que mais,
que est esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que
me fez pena e saudade...

--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.

--No brinques com cousas sagradas: minha mi no tem estilo, e n'esta
carta o que me diz  copiado do seu livro de oraes.

--Ora essa!... Isso  original! Deixas-me vr a carta-jaculatoria de tua
mi?

--Deixo... Aqui a tens... eu leio.

Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:

Abro o meu livro de oraes e copio estas palavras para que meu Jorge
as leia:--A infeliz mi, cujo filho comea a frequentar as sociedades
pe toda a sua esperana na proteco de Maria. Comea o joven mancebo
por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios cerca do
restante da sua idade. A mi assim lh'o diz, e d os mais ternos
conselhos; elle, porm, rebella-se contra aquelle to puro affecto,
contra aquella dolorosa previso de mi, e assomando-se lhe pergunta
porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu
comportamento reprehensivel, porque no frequentaes a sociedade: eu fao
o que fazem todos.--Infeliz!--a mi exclama--que te deitas a perder por
isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos,
e adianta-se s cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo est posto
em aventura: a honra n'este mundo, e a salvao no outro. No sabe a mi
o que faa para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias.
V perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porm, consoladora dos
afllictos se lhe mostra como dce viso... E a mi afflicta, de joelhos,
com as mos postas, exclama:  Maria, auxilio dos christos, salvai meu
filho, rogai por elle!--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mi de
Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao corao. Vem, vem para ns:
teus irmos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.

Leonardo Pires respeitou a commoo de seu amigo, e principiava um
discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de
Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim,
assomaram na porta.

--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro
circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu
elle, adiantando-se para a porta--se  que entende com o meu amigo Jorge
a honra da visita dos cavalheiros.

Egas de Encerra-bodes entrou e disse:

--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da
Trofa, fidalgo to antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge no me
conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra
para justificar o meu nascimento.

--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--no precisava v. exc. dizer tanto
para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o
vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado  tido e
havido na conta de muito bom sangue da provincia...

--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa
misso. Christovo Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge
Coelho se algum de seus avs lhe transmittiu o fro que torna iguaes no
campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.

Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicao
da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires,
sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:

--Jorge Coelho herdou de seus avs a honra,  quanto basta. Na sala do
palacio de Cintra no est l o escudo dos Coelhos, porque o cobre a
mortalha da

      _..............misera e mesquinha_
      _Que depois de ser morta foi rainha._

Jorge por sua mi,  Sepulveda, appellido que traz  memoria o caso
miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias
nasceu um poema!...

--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco.

--Lrias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu
Pires--Ento que quer o senhor?

--Queremos que esse amigo d uma satisfao ao outro a quem elle chamou
bebado hoje.

--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo
Christovo no prope, nem aceitaria desafio, a quem no tiver
nascimento.

--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro  de familia de bom
sangue...

--Eu no sei de que sangue  a minha familia--atalhou Jorge
serenamente.--O meu amigo Pires no o sabe melhor que eu, e vv. exc.as
ho-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a cr
do nosso sangue l a veremos no campo, quando elle quizer.

--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas.

--Um serei eu, se derem licena--disse a voz de um homem, que entrou de
subito no quarto.

--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mo.

Era, com effeito, o padre Joo Coelho.

Leonardo Pires e os outros olharam com venerao para a figura sublime
do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge
baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mos
convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes,
disse compassadamente:

--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em to pouco
tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braos de tua
mi, e venho-te encontrar na vespera de expr o corpo e a alma com menos
desculpa que o salteador que traz o peito  bala e o corao damnado
pela perversidade!

E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre
authoridade e sorriso ironico:

--Quem so estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem
aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma
criana? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam vares
de grandes servios  religio e  patria:  lastima que os netos dos
Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de
sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor
lhes fra que as suas consciencias fossem mais christs que honradas.
No se illustram memorias de avs derramando doutrinas impias. Se o
seculo as aceita, senhores, ento reneguem vv. exc.as das virtudes de
seus avs, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta
civilisao, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus
animos, no andem hypocritamente chorando saudades de Sio, os que se
atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua
mi: no querer Deus que tu desobedeas  voz que te chama. Eu s quero
exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mi chama-te: deves
hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente
que se no afflijam da perda de um novio na confraria dos heroes do
tempo. Costumavam nossos avs, antes de entrarem na cavallaria, velarem
as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro,
que no  ainda, e depois voltar  arena. Riem-se os nobres senhores?
Velar as armas  sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha
se deu por bem posto na sua misso, antes de armar-se cavalleiro no
curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu
j Dulcinea, meu sobrinho? Claro  que sim. Ora, pois, aguarda melhores
dias para as tuas faanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser
mais algum tempo bom filho, bom irmo, e bom christo.

Egas de Encerra-bodes j no estava muito de bons humores com o padre.
Tinoco Pitta no o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez.
Leonardo Pires no se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas
e por vezes graciosas parvoiadas que lhe vinham  flux da abundancia do
corao. Jorge Coelho tinha to de negro cerrado o espirito que no
balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina,
sem levar comsigo a certeza de que a distancia no mataria n'ella a
paixo nascente, isso era uma dr que o pobre moo desafogou em pranto
desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.

O morgado de Matto-grosso, para evadir-se  posio embaraosa em que se
via, despediu-se com estas palavras:

--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que
o offensor no tem imputao, attendendo  sua criancice, e mais ainda
ao facto de a mi o mandar chamar para o seu regao, como criana que 
desmamada de fresco.

--No, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor
morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe
que seja generoso no perdo das injurias; que no desdoure os seus
antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram;
diga-lhe sobre tudo v. exc. que seja christo. Lembre-lhe que o desafio
 uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira
coragem  aquella admiravel abnegao dos louvores do mundo aos impetos
da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor  s aquelle que tem
mo de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os fros e
acommettidas do inimigo.

--Teu tio  grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto
immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.


IX.

Pobre corao! To puras lagrimas no has-de choral-as mais. D'essa
grande afflico de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te
sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo,
saudoso do co. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa
companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem
mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos parars, no
caminho da vida, peregrino da sepultura; voltars o rosto para aquelle
teu dia dos dezenove annos, e vers em flres, fenecidas mas ainda
graciosas, os espinhos por onde a pedaos te fica, meu pobre Jorge, o
corao. Sabers ento o que  a saudade; pedirs  desgraa dres
semelhantes s da tua mocidade para abenoal-as; atirars com o peito s
saras das paixes vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos
do amor contrariado. No j lagrimas, se no fel derramar o corao,
que devras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a
repelles e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no
seio de tua mi; bem pde ser que ainda l te espere o anjo da tua
guarda.

Jorge Coelho no proferira uma palavra desobediente ao tio padre.
Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes
de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me  honroso sahir do
Porto sem responder ao desafio?...--Padre Joo, que abria o seu enorme
leno escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braos
suspensos, e o leno pendurado, e assim esteve, como estupefacto
cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porm,
urgia: padre Joo Coelho levou o trombetear da limpeza at  hyperbole,
dobrou o leno em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns
torceges ao nariz, armou-se de pitada, e disse:

--No  Deus que os perde;  o demnio que ensandece aquelles que quer
aproveitar. Que  honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do
odio, das affrontas, das injustias? O filho de Deus dictou e rubricou
com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; no importa
ser o evangelho obra de Deus; no importa que alli venham prescriptas as
maximas da boa e honrada vida: o evangelho  j inefficaz por que a
humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a
vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue,
justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislao decreta a forca, e a
conveno social o galardo da bravura. Jorge, quem te disse que o
assassino era honrado?

O academico apenas respondeu:

--Meu tio, vamos; eu estou prompto.

Leonardo Pires j estava no largo da Batalha, chamando a atteno dos
numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com
as esporas cravadas nos ilhaes de uma gua de fina raa que se empinava,
e corcovava, e atirava ora couces, ora gales medonhos.  que Leonardo
Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel
Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle
espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabea, como de facto
quebrou, e to desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada
de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.

Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos
do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do
Norte para a praa.

Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor,
Pires montou de salto, e acompanhou at Vallongo o condiscipulo, com
evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficra
atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de
Francisca da Cunha disse a Jorge:

--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a no mandar para a alda?

--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de
lagrimas--diz-lhe que eu no posso contar com a minha vida para lh'a
offerecer. Diz-lhe que eu no fugi de cobarde; por quem s, Pires, no
consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de
minha mi, que eu sei que ella me amar ainda mais, vendo que eu
respeito tanto as lagrimas da que me formou o corao que eu lhe dei, e
ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as
entregares... Silencio, que ahi est meu tio.

--Snr. padre Joo Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo
c para a frente.

--Alexandre Magno no montava machos, senhor estudante, respondeu o
padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as
tradies de Sancho Pana. O machinho sabe que leva em cima um engenho
velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada pea para o seu
lado.

--Mas leva uma grande alma, replicou Pires.

--O macho? perguntou o padre, sorrindo.

--Sim, senhor.

--L em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes
almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Cates para estes
quadrupedes! Se assim , que nos fica para ns, senhor academico?

--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com
grande alma.

--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas
metti-me a engraado a vr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que
vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braos de sua
mi e irmos.

-- que Jorge Coelho, tornou o estouvado infano da Maya, est como a
avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e
vacilla entre ir para a mi que a est dentro chamando com o cibo, ou
voejar para a arvore em flr que a est enamorando de longe.

-- uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre,
fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta
correspondente.--A avesinha (se d licena, eu componho em linguagem
chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a
carinhosa mi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida;
e, como quer que as foras lhe canassem do desusado vo, no teve a
avesinha remedio seno abater-se ao cho para pousar. E vai n'isto,
andava por alli  caa de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou
gata; o essencial  que apenas o triste passarinho apegou, o animal
damninho fez-lhe o salto d'entre umas balas, e o filho da pobre mi,
que se morria de paixo no ninho, l foi empolgado pelo gato ou pela
gata... Lafontaine no inventou este conto, e merecia a pena; no
importa: compuzem'ol-o ns, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja
delfim o nosso Jorge.

A alluso desgraciosa da gata foi to clara quanto desagradavel a Jorge.
Era uma injuria  mulher querida,  sombra lagrimosa que o ia
acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e
exhortando a emancipar o corao d'uma tutela que lhe deixava da vida as
regalias que bastavam  criana, mas no ao homem.

Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre Joo, Jorge disse com
vehemencia:

--Meu tio offerea a moralidade dos contos a quem lhe pedir lies.

Padre Joo, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada
tristeza:

--No te envergonhes de pedir-me lies, filho, que as no pedes smente
a um velho; d-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e
estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa
inutil  sociedade. Se me no quizeres as lies, de que sirvo eu,
Jorge? J agora irei prgando sempre, quer me ouam, quer me repulsem,
como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e
convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz
este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mi, te
premuniu com cabedal de philosophia christ, bastante para defender das
tentaes todas as naes da biblia exterminadas por causa do peccado.
Sei de cr as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da
ingratido. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: no me
sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te
apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios:
como te no encontrei, fui colher mais informaes; voltei  noite 
hospedaria tres vezes, e s duas horas no tinhas ainda recolhido. No
dia seguinte, que foi hoje, procurei-te s nove horas da manha: tinhas
j sahido. Dste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da
tua historia de tres semanas. Sei quem  a creatura que te ourou a
cabea.  uma feia alma n'um formoso estojo;  uma aventureira...

--Meu tio, isso  crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado.

--Bate, mas escuta, dizia o philosopho:  uma aventureira de maridos,
que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o
consentimento do velho fidalgo para a realisao do casamento que a
fazia rica. Desvanecidas as esperanas do morgado, cuja rudeza lhe no
desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de
Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro no lhe entendeu os pespontes da
eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse.
Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...

--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.

--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...

--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu
solemnemente Leonardo.

--Pois faz v. s. muito bem: o amor do proximo  preceito divino: sou de
parecer que a ame; mas no lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a
tal Silvina j no Porto, de mos dadas com a prima, no duvidou visitar
uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta
estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de
contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira no
andava acostumado a comprar seno negras possantes e trabalhadoras,
recusou comprar a compleio melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi
veio o saber-se, pelo dizer a snr. D. Silvina, que o poderoso
brazileiro  filho d'uma taverneira, e que fra para o Brazil com umas
soletas e chapo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis
aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os
carinhos de sua mi, a dce amisade de seus irmos, e as lies
amoraveis de seu velho tio.

Jorge Coelho ficou enleado, e no replicou; Leonardo Pires, porm, que
nunca em sua vida pensra o que dizia, seno meia hora depois de o
dizer, exclamou:

--Mas ha-de confessar, snr. padre Joo, que ellas so boas mulheres!

--Boas!...--murmurou o padre, que no entendeu o sentido do
adjectivo--boas... quer-me parecer que no so muito!

--Ora essa! pois no as acha bonitas e elegantes?

--Eu no as conheo; mas creio que so bonitas e elegantes: e d'ahi?

--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence.

--Agradeo a traduco--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a
verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido
homem antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires no tem
mi?--acrescentou o padre, aps um curto intervallo, com summa
seriedade.

--Tenho, sim senhor; mas no tenciono namorar minha mi--disse
precipitadamente Leonardo.

O padre fitou-o com tristeza e admirao, um momento, e depois disse-lhe
com bons modos:

--Praza a Deus que o corao esteja menos derranado que a linguagem...
snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas
respeita-se um velho.

D'esta vez, o imperturbavel Pires no teve que responder.

Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mo ao seu amigo, e
disse-lhe suffocado:

--Adeus! no sei se te verei mais... Sinto a morte no corao!

O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:

--Deus o tenha de sua mo.

Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas,
murmurou:

--Jorge! quem te abriu as portas da desgraa foi aquelle homem.


X.

No esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o
morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:--_Anda-te embora, logo que esta
recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a
jornada cinco pintos._

O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. Jos Francisco
Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde
viera tratar do bao, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do
snr. Jos Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava
retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos,
logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua
alma. Porm, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem
para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde
dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma
esmola de cincoenta mil ris ao hospital da Santissima Trindade, o snr.
Jos Francisco viu-se to festejado, to requestado, to necessario ao
Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.

Tentemos um debuxo de Jos Francisco. Deve estar entre cincoenta a
cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das
quaes a primeira, comeando pela parte mais nobre do sujeito, principia
onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida
adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em
frma de cabea. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres
ordens de refegos por sobre as falsas costellas, lada tumida e retesada
como os flancos d'um dre posto de travs, e vai perder-se nos sovacos,
mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira
barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida
e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda,
no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda
ella se libra em conjecturas. O author no assevera seno a existencia
das barrigas.

Isto tudo tem uma base caprichosa: so cousas que a linguagem do
paradoxo denomina ps. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto
dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro d-nos uns longes da
realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e
barrocaes dos joanetes. Os ps de Jos Francisco so a desesperao dos
Gavarni. O marro do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma
pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que
enganassem o bico sequioso da passarinhada.

No tocante  cara o snr. Andraens  homem, apesar d'outros animaes que
lhe no disputam os fros da humanidade, porque no teem um curso de
historia natural. O rubor do tomate desmaia ao p das papeiras faciaes
do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de
tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilaes carnosas, sebaceas e
luzidias. A menina do olho  rutilante e azougada, posto que as
secrees visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.

O snr. Andraens  commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo
visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afra isto, o
brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial
do Porto,  orador vitalicio d'aquella assembla, em que no so raros
os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de
Freixieiro.

Jos Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos,
segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu
amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo no apparecera para receber o
dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de
procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza
que elle tivesse feito na estalagem.

Foi o snr. Andraens  _Aguia d'Ouro_, e como no encontrasse Christovo,
deixou dito ao criado do quarto quem era e a preciso que tinha de
fallar com o morgado. J vinha descendo as escadas, e voltou acima a
chamar o criado.

--Olhe l, disse elle, o fidalgo deve muito c na casa?

--No, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.

--Est bom, est bom, voss no diga que eu perguntei isto, e pegue l
para matar o bicho manh.--Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada
de missanga, e tirou trinta ris que deu ao criado com a mo direita
fechada, para que a esquerda se no escandalisasse da prodigalidade.

Na manh do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do
brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque Jos
Francisco estava ainda recolhido com a barriga n. 2 envolta de papas de
linhaa.

--Estou aqui emplasmado, senhor morgado--disse Jos Francisco, arqueando
os braos por sobre a esphera abdominal.

--Ento o snr. Jos que tem?

--Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores c de
dentro, que do que fazer  botica; mas isto, se Deus quizer, no 
nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber,
para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir
ter aonde a v. s. e dizer-lhe que o melhor  ir-se para casa, quanto
antes, porque o velho, pelos modos, est l arrenegado por si. Ento,
vai ou no vai?

--Por estes dias, irei; mas j j no se me arranja c a minha vida,
snr. Jos.

--Ento o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem c que fazer? Ahi,
por mais que me digam, anda derrio... Eu hei-de saber o que  quando
fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor
morgado...

--Ento o senhor conhece a D. Silvina de Mello?

--Conheo-a como os meus dedos...--respondeu o snr. Andraens, com um
sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.-- bem boa
estampa,  senhor morgado, no ? ora diga a verdade!

-- muito bonita, isso .

--Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso ento quando calha de fallar,
aquillo no despega nem  mo de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha!
At em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu l ido a
troco c de certa pendencia, e veiu  colleco a guerra da Russia, e
ella comeou alli a manobrar as batalhas, e se fr como ella diz o snr.
D. Miguel (Deus o traga) no tarda c. Eu no tenho partidos, e at a
fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me
c com os velhos, e gente como era a antiga j se no topa. Pois 
verdade... eu...

--E a fidalga--atalhou o morgado--nunca lhe fallou em mim, snr. Jos?

--Fallou, pois ento? disse-me at que o senhor queria casar com ella...
 assim ou no ?

--Isso  verdade. Paixo de raiz como a que eu tenho por ella no a
torno a ter pela mais pintada.

--Ah! que me diz?--acudiu o brazileiro com espanto--pois a cousa  isso?
Quer apostar que o senhor est aqui pr'a-mor d'ella?

--Em fim, o corao no mente...  conta d'ella  que eu aqui estou.
Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu
para o Porto. Arranjei como pude licena do pai, e vim encontral-a c a
namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela,
mas antes de hontem fugiu l para cascos de rolha.

--Conte-me isso, conte-me isso--exclamou Jos Francisco com vehemente
interesse.

-- como lhe digo, snr. Jos. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver
o que ella faz.

--Com que ento diz-me o senhor morgado--disse meditabundo e detidamente
o brazileiro--que ella andava j com o miolo s voltas por outro
sujeito!... As mulheres so o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto 
pedra que cahe em poo, ouviu o senhor?

--Eu no digo nada; pde fallar snr. Jos.

--Pois ento, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao
Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a
estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello  boa, mas est
empenhada at aqui.--(O snr. Jos Francisco poz um dedo na barriga n.
3, que deu de si como um balo de borracha). Ha-de haver tres mezes que
eu fui levar  filha umas libras que o pai lhe mandou dar para
vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa
d'elle, que parte com os meus terres da Lixa, e no se me dava de lhe
ir dando aos poucos algum dinheiro at lhe apanhar a propriedade que me
faz muita conta. E vai se no quando, meu amiguinho e senhor morgado,
veiu a fidalga  sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racol, palavra
puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e
jantei l n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua
e crua, como o outro que diz, eu no sei o que sentia c no interior!
Que diabo  isto que eu sinto? disse eu c c'os meus botes. Eu andei
por l por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o
olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente  de carne e
osso; mas nunca me buliu c por dentro mulher nenhuma como esta! Se o
senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vr se me lembro...
No encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta
d'ella...

--Uma carta d'ella!--interrompeu o morgado a fumegar.

--Pois ento? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha l uma em que ella
escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir
quella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de l um caixotinho de
vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...

Christovo Pacheco abriu com a mo convulsa a gaveta, e levou  cama do
snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de
cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando
palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que
procurava, e exclamou:--C est ella! tal e qual. Ora faz favor de lr,
que eu no estou hoje muito escorreito dos olhos.

O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate at 
raiz dos cabellos, leu o seguinte:

Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca,
ella por amisade reconhecida, e eu do corao affectuoso lhe agradecemos
o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...

--Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de
ouro que eu mandei s duas, que me custaram dezesete libras e mais uns
psinhos, no fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha
custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro,
no tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:

O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor
que lhe transpiravam da testa:

Apreciamos a dadiva j pelo que ella vale, j pelos sentimentos
delicados que ella representa...

--Isso  bem dito, no ,  senhor morgado?--interrompeu o snr. Jos
Francisco.--L que ella tem uma cabecinha como no ha outra, isso pau
pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta  milo...
Ora ande l... v lendo:

Nunca eu aceitaria--continuava a carta de Silvina--uma prenda de homem,
que no tivesse uma explicao honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso,
no me faz estremecer a mo de pejo. Os meus sentimentos a respeito de
v. s. tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua
atteno, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s. sabe
como eu aprecio as paixes proprias dos meus annos...

Jos Francisco Andraens deu dous gales no leito, e clamou:

-- ahi,  ahi onde est a cousa!

Christovo continuou, j deletreando, porque a raiva lhe nublava os
olhos:

No creio na durao do amor impetuoso. A violencia da vibrao fatiga
as cordas da alma...

--Olhe l--atalhou o brazileiro--isso que vem a dizer? esse bocado no o
percebi bem... _A violencia da vibrao fatiga as cordas_... que
diabo!...

--Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforo, quer dizer que...
sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixes fortes adoentam a
gente...

--Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu c sinto os estragos no
interior... Ora faz favor de vr o resto.

O morgado leu:

A minha ambio  encontrar um amigo verdadeiro, um corao sereno, um
homem para quem o mundo no tenha abysmos, dos que tem no fundo a
desgraa da esposa trahida, e esquecida. Receba no corao estas
palavras da sua dedicada e constante amiga, _Silvina_.

--Que me diz o senhor a isso?--interpellou Jos Francisco, dando uma
palmada no hombro do entorpecido morgado.

--O que eu lhe digo, snr. Jos!...--tornou o morgado, atirando a carta
para sobre o leito.--O que eu lhe digo  que esta mulher...

-- uma mulher de pouco mais ou menos--concluiu o brazileiro, atando as
cartas com o nastro--Ora ahi tem... Agora,  vista d'isto, deixe-se
andar por c atraz d'ella...

--E o senhor continua o namoro?--perguntou o morgado com os olhos
vidrados de lagrimas.

--Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!


XI.

Jos Francisco Andraens, mentiste  tua consciencia! Supposto que as
tuas barrigas te meream quantos desvelos cabem na alada do oleo
d'amendoa dce e da linhaa, o corao em ti  um musculo cheio de bom e
sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e
reuma  cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, Jos Francisco,
quando respondeste quelle pobre morgado, que o que tu querias era
melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da
faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de
vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com
que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de
farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhs. Commendador da
ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te
houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferaes contra a
fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra
as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e
juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que
fosse a tua lingua peonhenta e a dos teus amigos famintos de detraco
e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o
dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porm, Jos Francisco
Andraens, que no sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam
amantes abandonados, ergueste os alapes da tua alma, e deixaste romper
a torrente represada, com estas palavras: Qual namoro, nem qual diabo!
o que eu queria era melhorar da barriga!

Ai! se elle a amava!

No houve ahi cancro de amor que afistulasse, to no intimo, corao de
homem. Aquella propria dr de estomago, rebelde  linhaa, nos est
dizendo finezas do amor de Jos Francisco, procedida, como , do uso do
ch a que o foravam successivas noites que passou em casa do tio de
Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a
fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que no era extremamente do bom
tom rejeitar o ch, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O
brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua
casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes
chocolateiras de ch, que a moa inexperta chamava o cozimento, e
carregava de folha at sahir negro na fervura. Jos Francisco conhecia o
veneno, punha a mo no buxo, e, se no dizia como o papa Ganganelli:
hei-de morrer d'isto... gritava pela cataplasma de linhaa, mitigava a
inflammao, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino
amante que no tem mais que dar.

Ha ahi amadores, Jos Francisco, que cubiam a pedraria oriental para
construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para
lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas
para o pavilho do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos
ps; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe
deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mo soberana, e o
diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de
Cozelhas! o teu estomago estragado pelo ch, sobreleva em dolorosa
realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus,
em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete
libras de pulseiras, s quaes a propria Diana caadora te estenderia os
seus divinos braos.

Ai! se elle a amava!

Por uma tarde de Agosto, na alamda da Lapa, se andava Jos Francisco
passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaos, o amador de
Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de
arroto, e o aafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora
desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:

--Que tem voss, sr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real,
afervorando o zelo da pergunta com um suave empurro.

--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Voss bem sabe que eu ando mettido
n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lram quando eu era
rapaz, d-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. At ao
presente, em boa hora o digamos, a cousa no me tem ido mal; d'aqui por
diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te no caias.

--Mas ento voss que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica
com uma palmada na espadua boleada de Jos Francisco.

--Homem, voss casou quando era moo, e deu-se bem com a mulher, e tem
vivido sem sustos; mas eu j c esto os cincoenta, no sou dos rapazes
da moda, e tenho s vezes umas lembranas que me derrancam o corao.

--Ora, deixe-se d'isso, sr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem
voss vai casar,  menina bem comportadinha, e voss, quando casar,
deixe-se de ir muitas vezes s assembleas, e pouco de visitas, e de
theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutao,
e no a deixe pr p em ramo verde, sem ir com ella.

--Pois no pozeste!--acudiu Jos Francisco soltando uma risada aspera de
saces, que valia bem um programma.--Voss ainda est n'essa?

A minha mulher, quando eu a tiver,  c para o amanho da minha casa.
Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, no lhe ha-de canar; mas
ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe c se me v
algum _T_ na testa!  verdade que a minha futura noiva  toda pronostica
e est avezada ao palavriado dos pantomineiros que no tem seno aquillo
e a sua mia; mas eu logo que case hei-de pl-a na lei em que ha-de
viver.

A mulher  do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenas, e do
arranjo da familia. Quem quer andar  tuna nas comedias e nos balancs
deixa-se estar solteira; no  assim, amigo visconde?

--Assim ; mas no ser bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de
mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a
desatremar, adeus, minha vida!

--A desatremar!--clamou Jos Francisco com iracundia.--Ento um homem
no  senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher
com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe no custou a
ella a ganhar? do seu dinheiro?

--Voss diz bem, sr Jos; mas  que ella a isso pde dizer que estava
melhor solteira.

--Homem, voss nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia
pungente Jos Francisco.--Eu vou j embuchal-o com uma pergunta:--Quanto
vale a tal madama?

--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.

--Por tudo que ella tem no dou eu seiscentos mil ris. A casa  do
morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmos, nem p'ra pagarem
a minha divida chegam. E quanto acha voss que eu tenho,  amigo
visconde?

--Voss, c segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem
contos... p'ra cima que no p'ra baixo.

--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse Jos Francisco muito 
puridade, se no fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa,
podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil
ris a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas
correrem regularmente, c nos engajados, escuso de bulir no que tenho
apurado. Ora ahi tem voss. Faz favor de me dizer se a rapariga, que no
tem nada, casar commigo, no fica a ser rica e respeitada no mundo!
Responda a isto, amigo, se  capaz!

--Sr Jos Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que
eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa
comsigo,  por que quer figurar. Voss j no  muito moo, e no sei
como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se
est na teima de a no deixar ter alguma folga, o melhor  deixar-se
estar solteiro at lhe apparecer moa mais azada p'ro seu modo de vida.
Deixe c o arranjo ao meu cuidado, que eu conheo muito negociante aqui
no Porto que tem raparigaas como castellos, e voss no tem seno
escolher.

--Cale-se l, homem!--interrompeu com azedume e paixo o de Cozelhas--Eu
gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, j fiz
alguma despeza com ella. Voss inda a no enxergou?

--Ainda no  minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile s
para a vr a preceito; j a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella
era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.

--Isso ento!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de
jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das
bochechas at s orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita
at alli! O pescoo  branco como a cal da parede; os braos parecem de
leite, e aquillo ho-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou
Jos Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece
que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como
dous grillos; os dentes so da cr d'essa camisa, e to iguaesinhos que
parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda
pela casa, aquillo  um gosto vl-a! parece que est a casa cheia! E
ouvil-a fallar?! Voss no faz uma pequena ida! At falla de
Sebastopool! (V-se que esta feio do talento de D. Silvina foi a que
mais deu no gto do snr. Jos Francisco Andraens.) Em fim, amigo
visconde, mulher como ella no espero topal-a. Tenho-lhe sympathia c de
dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a no veja, ando como
a cobra que perdeu a peonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu
no a vejo, vou zangado p'ra casa, e j me tem acontecido no ceiar! As
cartas d'ella tenho-as na cabea, e j comprei um livro muito grande,
chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... voss hade
saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...

--Uma pauta, ha-de ser pauta...

--Qual pauta, nem qual diabo!  um livro, que ensina a escrever com as
letras todas... J me lembra: um breviario.

--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o
ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras
todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--no
me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago
eu na carteira uma carta, respondendo  d'ella de hontem, a vr se lh'a
entrego esta noite. Quer voss vr, amigo visconde? Eu p'ra si no tenho
aquellas. Ora escute l; mas o mais acertado  lrmos primeiro a que
ella me escreveu. Voss vai ficar pasmado; ora oua.

Jos Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamda da Lapa, e
leu correntemente o seguinte:

                                                        Meu caro amigo.

Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu no
estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o
acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a
no remanso duma dce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas
to amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos
d'um delicioso futuro...

Aqui Jos Francisco sacudiu na mo o papel, e exclamou radioso:

--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos
modos, quer dizer que o que ella quer  uma vida socegada para, em vez
d'andar em visitas, dormir na sua cama  sua vontade. No  isto?

--Pois elle que ha-de ser seno isso?--disse o visconde gostoso da
modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexes a proposito,
quando Jos Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:

Estar ainda longe o dia suspirado, meu amigo? No tem j do meu
caracter um profundo conhecimento? No se demore a confirmar o destino
que minha alma anceia, porque desgraadamente a minha vontade no  de
todo livre, e bem pde ser que meu pai, antes da resoluo de v. s.,
tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do corao, _S._

-- troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e
melancolico-- que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar c de
dentro. Ora escute l a resposta:

Meus amores!!! (Na pontuao guardamos a fidelidade que descuramos na
orthographia, cuja liberdade concedemos a Jos Francisco e pedimos
alternativamente para ns). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta
at ao meio consolaram o meu corao saudoso!!... mas as que vem no cabo
da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu corao saudoso!! Se
vosso pai no levar a bem o nosso casamento,  cos!!! tanto faz querer
como no querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu v s do cabo;
estai descanada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa
da Lixa arranjada (que andam l os estucadores e os pintores) estamos
casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado at 
morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.

--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico
compositor de cartas incendiarias.

--Onde diabo aprendeu voss tanto,  sr Jos?--disse o visconde com
sincero espanto.

--Isto que aqui v fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo
visconde. Ponto  ter c dentro o amor a puxar pelas memorias.

Jos Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu
alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do
visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta
apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.

Jos Francisco tinha desafogado. O arroto j no vinha acompanhado do
suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude
phisiologica. O jubilo doudo da sua esperana sorria aos arreboes que
cintavam o horisonte do oceano; a virao da tarde, brincando na
folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos
d'alma d'aquelle amante feliz.

Ai! se elle a amava!

Este expansivo dialogo fra anterior quarenta e oito horas quell'outro
que ouvimos entre o brazileiro, e Christovo Pacheco de Valladares.

Quem te ha-de crr agora, Jos Francisco Andraens! Que se te d a ti da
barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descana, anjo do
amor, no teu co de duzentos contos, que as filhas dos homens l iro
buscar-te!


XII.

Ai! como elle a amava!

Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella cdea grossa de
Jos Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de
cioso! Aquella  verdadeira paixo que ora se refrigera com orvalhos do
co, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixo de Jos Francisco
era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de
Petrarcha; agora arripia o vl-a a espirrar coriscos da cratera que l
referve dentro.

Mal Christovo Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a
quatro, Jos Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria
lembrar Cato arrancando o proprio redenho. Saltou para o cho, calou
as mouras escarlates que lhe serviam  farta de tapete, lanou sobre as
espaduas um capote de camelo de quatro cabees, enfiou as mangas do
mesmo, e sentou-se  escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas,
que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasio
com a terceira camada de linhaa, e fez p atraz, enfiada de puro
horror.

--Que queres tu, moa?,--mugiu Jos Francisco.

--So as papas...--balbuciou a espavorida criada.

--No quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha j
de marcha para ir com uma carta a Margaride.

O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a
authenticidade do de todas as outras, no pude havel-o, apesar de suadas
canceiras que este paiz to sovinamente remunera aos indefessos obreiros
das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a
Pedro de Mello, pai de D. Silvina. Jos Francisco lembrava ao fidalgo a
sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta ris que
lhe emprestra sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que no
podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da
universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou
trespasse da quinta hypothecada. Ameaava-o com o poder judiciario, e
terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:

_Pr'mor da sua filha  que  tudo isto. Se ella andasse direita comigo
outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo no
se manga, e est arrumada a pendencia._

Ai! se elle a amava!

A carta partiu, e Jos Francisco, aplacado o maior afgo da convulso,
chamou a moa, pediu uma tigela de tapioca, e comeu  tripa frra.

Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa
Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de
saber o fim a que o chamra o brazileiro. Christovo contou lealmente o
acontecido, j barafustando furioso, j enternecendo-se a lagrimas. O de
Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo
lhe embargavam as guinadas de riso. Comeava a desconfiar o de Santa
Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:

Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um Jos Francisco na
conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meas
de merecimento com um chatim de negros! um moo no mais florido dos
annos, gentil de sua pessoa, sacrificado  mazorral caricatura, que ahi
est symbolisando uma fortuna to besta quanto assignalada das vergoadas
do ltego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue
das costas dos escravos!... Primo Christovo, torne sobre si, peje-se
d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para no tomar
ignominioso quinho da sua dr aviltante para evos e para vindouros! Que
mulher  essa, a neta do sargento-mr d'Amarante, que anda ahi a
chafurdar nos chiqueiros da sua cubia um appellido que usurpou?
_Mello!_ Quem lhe deu a ella _Mello_?! Seu visav era Antonio Gonalves;
seu av era Francisco Antunes Gonalves; quem enxertou no pai esse
pomposo appellido? Silvina Antunes  como ella se chama, essa farrapona
que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preo dos ultimos doze
pretos que Jos Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo
Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e
Alvim, aafata illustre da crte do snr. D. Pedro 2., descendente dos
Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira!
primo, lembre-se de quem , e esmague debaixo das solas das suas botas o
corao, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no
vilipendioso affecto que prodigalisou  esposa promettida de Jos
Francisco!

Este aranzel fez bem ao corao do morgado. Entrou em si, coou-se com
ambas as mos algumas vezes, estirou os braos convulsivos com os punhos
cerrados, e exclamou de golpe:

--Que a leve o diabo!

Egas estreitou o primo ao corao com vehemencia, levantou-o tres vezes
em peso, e bradou por fim:

--Reconheo o meu sangue!

Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a
janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provra ao
de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:

--Que a leve o diabo!

N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.

--L vem aquelle!--exclamou Egas--Vou chamal-o para lhe dar a noticia
que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Ol! snr. Albuquerque!
_Psio_.

Pires fez uma continencia militar com o chicote.

--Suba c--tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios--temos que
contar-lhe.

--Viram aqui passar a Francisca da Cunha?--perguntou Pires.

--No.

--Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem
que seja gata, que a minha paixo me d por lebre.

-- muito possivel...--redarguiu a rir o de Matto-grosso--Suba, e ver
que no est longe da verdade.

O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praa duas vezes, e
subiu.

--Ento que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho no tarda
ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.

--Quem falla aqui em duello?--acudiu Egas--Escreva ao seu amigo, e
diga-lhe que se deixe estar com a mi e com o padre l na sua alda, se
no quizer vr Silvina, o anjo de candura, de brao dado com as fronhas
carnosas de Jos Francisco Andraens...

--Quem  Jos Francisco Andraens?--interrompeu Leonardo.

Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta
feita, no sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vr com que
graa soez o amante ultrajado ia j apimentando os sarcasmos detraidores
de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao
parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam Jos
Francisco n'uma situao to irrisoria como bemquista do siso commum, o
qual  uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da
opinio publica se denomina senso-commum.

O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razes pouco
para se estamparem. Leonardo Pires disse que no avisava o seu amigo
para no perder occasio de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais
facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem
os tres  janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio
Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.

--Ellas ahi vem!--disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O
morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham
com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella
na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho
em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se
lhe atravessou no caminho, dizendo:

--Criado de vv. exc.as

--O snr. Pires!--disse Francisca toda graa e affabilidade
ironica--Faziamol-o no seu _chateau_... Que  feito de si?

--Agoniso, minha senhora, agoniso.

--Ai! que funebre vem!--disse Silvina--pde-se agonisar com esse rosto
to de vida, e rubicundo?

--Pde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo--replicou
Pires--Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que
soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem.
Darei a v. exc. um exemplo. Conheo uma metaphora chamada Jos
Francisco Andraens... (Silvina crou e franziu a testa) monstro cevado
em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual
monstro,--ninguem o ha-de crr, minha senhora--neutralisa o combustivel
da paixo com o refrigerante das cataplasmas de linhaa. Ahi tem v.
exc. um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.

--Vamos, prima, que so horas--disse Francisca da Cunha, condoida do
enleio desacostumado de Silvina.

--Pois sim, vamos--disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixo
em homem que no fosse Pires.

--Do-me as suas ordens, minhas senhoras?--disse elle,
ladeando--Ah!--continuou Pires de sobresalto--esquecia-me dizer  snr.
D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...

--Ah! vem?--disse machinalmente Silvina.

--Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheo
grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe Jos Francisco
Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de
fallar a vv. exc.as, e que at ouso recommendar-lhes, para que vv.
exc.as admirem no s o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaa.

O enleio de Silvina redundou em colera.

--O senhor, disse ella, est-me insultando por que eu e minha prima,
confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um
homem, cujo desforo nos desafronte com honra.

--Dizes bem, prima--acudiu Francisca, tambem colerica por
contagio--Deixemos o villo.

Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento
d'ellas, e tomou-lhes o passo.

--Continua a petulancia?--disse Silvina irada--olhe que eu trago um
criado!

--Com libr emprestada, minhas senhoras?--disse o imprudente fidalgo da
Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamaes geanologicas d'Egas
de Encerra-bodes.--Snr. D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre
alma de Jorge Coelho, que v. exc. quiz estragar. Empeonhou-lh'a, mas
no ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de
Albuquerque. Saiba v. exc. que Jos Francisco Andraens  meu. Aquelle
problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc. ha-de
ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora ns,
snr. D. Francisca da Cunha. V. exc., que s sabe lr as cartas do
linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar
ridicularisando _no boudoir_ das suas dignas amigas, ou se encastella
com o linheiro das Hortas l no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de
esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo l de pernas ao
ar as suas epistolas. Sem mais.

Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho
esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados,
que o espreitavam.

Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da S, soffreu um
insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha
consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada
tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa  competencia desfaziam-se
em desvelos; mas Silvina respondia apenas: hei-de vingar-me!

Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a Apologia da tontice. Eu no
me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porm, assim como os
regedores das republicas nobilitam com mercs e titulos no s a
estupidez--isso  o menos--mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada
e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto
de louvor a alguns selvagens da civilisao, doudos providenciaes que
atiram a vaza do insulto a caras j de si to sujas, que no ha medo de
enferretal-as?

Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como
esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na
antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na
meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos cauo
de suas prerogativas censorias, os histries palacianos. Na correnteza
d'esta gerao por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do
que ahi se chama ridiculo e do que mais  para chamar-se lastima, ha
muito quem tire a campo de zombaria os ridiculos do mundo; mas ninguem
se v copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o
orgulho de cada azmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas no
responde. A isto  o que ahi dizem guardar as conveniencias:  mesma
cousa, chamavam d'antes guardar as costas.

Seja o que fr, a satyra assim no vinga fructo de servir  gerao que
est nem  porvindoura.

Satyra prestadia, se alguma houve,  a de Leonardo Pires. Eis ahi um
doudo, que tolos e sisudos lanaro de suas casas com horror; e todavia
qual de ns no sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razes e
murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam
o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade
media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16. o verme
roedor que desmedula os ossos atravs de vinte geraes que ho-de
lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que
nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu
orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.

D'um lado Leonardo Pires; de outro lado Jos Francisco Andraens, e o
linheiro das Hortas. Quem levar a melhor?  tola a pergunta. Ha-de ser
o linheiro das Hortas, e Jos Francisco.


XIII.

O apostolico e dicasissimo padre Joo Coelho, desde Vallongo at
Amarante, excedeu-se a si proprio prgando ao sobrinho o melhor e a
maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e
casuistas cerca do amor mundanal e da mulher. Jorge no replicava, por
que o no escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava
dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profuso de
tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca,
Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a
mulher so cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre
Joo no era erudito que smente fizesse praa dos exemplos que
authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou
nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas
orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na
boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um
valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um
maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea,
da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeao impudico e deslavado.
Do Olympo desceu padre Joo aos antigos imperios, e poz pelas ruas da
amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalo, Sichem, Salomo,
Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos no deram boa
conta de si, ou as mulheres no deram boa conta d'elles.

O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia
to dentro em si, to lacerado pelo abutre da paixo sem esperana, que
as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre
espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da
tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho
templo a fazer orao a S. Gonalo e visitar os cubiculos onde viveram
santos vares da sua creao, Jorge foi sentar-se  beira do Tamega, e
ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulaes das
serranias para alm das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu
indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu
costume, contra o governo que permittia  municipalidade amarantina que
as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro
danassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio
e na claustra.  de crer que as mulheres recebessem com galhofa o
egresso venerando, cujas botas de borla e chapo tricorne deviam de
parecer cousa de entrudo s bacchantes que a onda da civilisao
revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no
porto suspirado da sepultura.

Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vzo de lastimar os frades!
D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho
desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de
operario que trabalha  candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que
nos cubiculos do mosteiro de S. Gonalo se alojem as vivandeiras do
destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vo ellas,
repletas de vinho e despejo, danar a sirandinha e a canna verde? Se eu
disser que no tempo dos frades no se viam semelhantes desacatos, hei
grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da
religio de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no
refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o
mulherio da tropa. Se o padre Joo Coelho quizesse, esse  que podia
responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se
lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante,
sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da
profanao do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das
carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.

Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera
no escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impresso amarga que
recebera das revelaes do tio, impresso immorredoura, dizia elle.
Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelaes, e
sem piedade lhe transmitisse o excesso de peonha que havia de matal-o.
Ajuntava elle que j no amava Silvina; mas que no podia despresal-a; e
que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se
lhe enroscara no corao.

Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho  uma alimaria a que os
poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor
em estilo cho. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar
serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora.
No  raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas
serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peonha, n'uma carta arrufada,
em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em
pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas s outras
com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica  a peonha
instillada e derramada na circulao sanguinea. Na correnteza do tempo,
vem esta peonha a consolidar-se no corao, e d'ahi procedem as
postemas, que degeneram em aleijes, commummente denominados
scepticismo, cynismo, devassido, libertinagem, impudencia, e outras
molestias pegadias. As rolas e as pombas, desde que o corao
inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem
para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e gluto hajam sempre
aves.

Vem a pllo fallar da gorda gallinha que padre Joo trinchou na
estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto,
se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os
soluos da afflico, que o egresso, to de boa f como crente na
efficacia da historia, julgra minorada com a quarta dissertao que
fizera cerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma
na poca dos Cezares.

Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em
toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos
mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these
de padre Joo Coelho assentava n'esta proposio de S. Paulo: Quem no
ama est na morte; mas to engenhosamente o erudito frade torceu o bico
ao prego que as concluses eram todas contra o baixo amor terreal, e
pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria 
risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em
quanto o sobrinho abafava de dr no quarto. Esta  a grande vantagem dos
que andam empinados em amores do co, que nunca deixam de comer s suas
horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes no
pesa na consciencia. No ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi)
que disse--que a religio christ, depois de nos felicitar n'este mundo,
nos segurava a felicidade do outro.

Padre Joo dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge,
apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo
penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo
penitenciario! parece um paradoxo! Tomra eu saber se David compoz
aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsab o enfastiassem!)...
Estas incises intermittentes ho-de perdoar-m'as os leitores que
souberem o que  escrever um romance n'um carcere, onde j no ha
carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que
ns c os assassinos e os salteadores denominamos as _authoridades_, que
medram no cvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros
carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia
representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do
symbolo que lhes legitma a crueza, a barbaridade que lhes tem
ladrilhado o corao, e muitas vezes a infamia que se abona com a
justia, essa divina irm dos anjos, que os cafres trazem to nusinha e
pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.

Agora  que me eu perdi de todo... Perdido devras andava aquelle pobre
Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do
justo. Chegou  celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentao
de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a
imagem de sua mi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no
Tamega, Levantou os olhos para o co, e disse:

 Providencia Divina! leva esta dr ao corao de minha mi, para que
ella, a santa, pea por mim!

Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos
rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha
a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos Dous
renegados. Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e
truculentos d'aquella cano de amor que chora como anjo e obsecra como
demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou
chorando, j no em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de
sua mi lhe alcanasse do co a merc das lagrimas que desopprimem.

Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres
que padre Joo vira com santa indignao, a tripudiarem sobre as ossadas
dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola.
Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata,
e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.

--V-se agora, embora, mulher--disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da
solido que to suave lhe estava sendo.

--O senhor d-me este dinheiro todo?!--disse a mulher, que os homens
chamam perdida, e que no o estava, nem o podia estar aos olhos do seu
Creador.

--Dou, sim.

--Bem haja, meu senhor!--tornou ella, com lagrimas na voz--j tenho com
que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraada, que vim do Algarve,
ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para
casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas no teve
licena para casar commigo; eu depois fui lanar-me aos ps da senhora
do commandante, e consegui licena. Quando estavamos muito contentes,
mandei buscar a minha certido e mais papeis  terra; mas disseram-me de
l que ns eramos primos, e no podiamos casar sem dispensa. No
tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo at vr se Deus dava
remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e
deixou-me a morrer  fome. Agora com este dinheirinho vou j amanh para
o Porto, e de l vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos
aos ps de minha mi.

--Pois v, no mude de resoluo, e faa por ser boa filha--disse Jorge
com maviosa caridade.

--O senhor ser um anjo do co?--disse a feliz creatura lavada em
lagrimas.

--No sou anjo do co, no... V com Deus.

A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo
de granito em que na fachada do templo de S. Gonalo sobresahem os
grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regao. Jorge viu,
ao claro sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher
ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que no poderia
existir na terra, se acima d'este tremedal, no velasse um Deus as
aces do homem que pde erguer-se do seu rasto at hombrear com os
anjos.

Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da
mulher pura, a mi, a santa, onde chegra talvez a revelao das penas
do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a
poesia da paixo pde disputar o espirito do mancebo  poesia da
caridade.

Entretanto, o varo justo, o padre Joo Coelho, acordava com a digesto
consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um
beatifico ronco.


XIV.

As preleces de historia antiga que padre Joo fizera, desde o Porto
at casa, no tocaram o juizo nem o corao de Jorge; mas as singelas
palavras da indulgente mi, e as caricias dos irmos, acalmaram algum
tanto a febril paixo do academico. D. Antonia, de proposito, passou com
o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava
dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no
arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da
capella-mr, e chamou para junto de si o filho.

--Senta-te aqui, Jorge;--disse ella--quero fallar com o meu filho ao p
da sepultura de seu pai. No a esqueceste ainda, pois no?

Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito
pavimento da capella-mr. D. Antonia continuou:

--Tenho f em que o meu corao n'este lugar, onde ha cinco annos venho
chorar todos os dias, te saber dizer o que teu bom pai te diria, filho.
Se Deus me no fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez
annos, sero perdidas as minhas consolaes, e tu as tomars como
conselhos importunos...

--No, minha mi...--atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do
local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo
cinco annos antes--os seus conselhos...

--So conselhos de mulher, conselhos de mi, que quer desterrar da tua
alma lembranas d'outra mulher que me rouba o corao de meu filho. Deus
levou-me teu pai, Jorge; e Deus no me podia enganar quando d'aquella
tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a
compensao da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns
beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mos ao p de mim
n'este mesmo sitio? No te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas,
Jorge? Lembras-te?

--Lembro-me, minha mi... E porque est chorando agora?--disse
compadecido o moo.

--Parece-me que  saudade das dres de ento, filho... As de hoje so
inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que no; mas
orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e
agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mi, logo que um acaso
infeliz depara aos dezoito annos de uma criana os affectos verdadeiros
ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da
infancia. Isto  triste! A natureza poder justificar este vulgar
infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e no ha razo que
convena uma mi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus
rogos durante tres mezes.

--Eu no desvaliei os seus mandados, minha mi--disse Jorge em tom de
carinhosa submisso--Havia uma corrente invencivel que me prendia 
desgraa...

--E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que no...
Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me
trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre,
seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica
e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a no
sacrificasses  nossa solido e pobreza comparativa; mas, filho, essa
menina, que te enganou o corao, no tem virtudes que suppram a
riqueza, nem a riqueza que possa compensar o corao estragado e sem
escrupulos do homem, que no s tu, merc do Senhor! Antes de teu tio ir
ao Porto, j eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre
do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses
para ns, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no
convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar
com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe
informaes da tua vida, e no se demoraram. O marido d'esta senhora
procurou-te varias vezes, e nunca pde encontrar-te. Andavas perdido na
tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas
lagrimas da pobre mi que no pde contar com o amparo de tres meninas,
nem ellas contam com outro amparo seno o teu. No achas tanta gente boa
a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a ns para o atirar aos
ps de uma mulher que d'aqui a um anno ser na tua memoria apenas um
remorso, seno fr antes uma vergonha?

--Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que
surprehendido da qualificao.

--Pois qual  o nome que d o mundo s paixes que humilham os que as
soffrem, e mortificam uma familia que no espera d'ellas seno
amarguras, desgraas, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um
esforo de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas
oraes. Em nome d'estas cinzas queridas, peo-te em nome de teu pai,
que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos;
no tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no
mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor;  teu pai que te pede pela
minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; no lhe escrevas, os teus
amigos que te no fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a
innocencia de tuas irms: volta a Coimbra quando o desejo do estudo
renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da
caa; restaura a tua saude, que trazes to quebrantada; eu pedirei aos
amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber
conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres;
satisfaz todos os caprichos que te no arruinem a saude nem a alma; tens
a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te
estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mi do prestigio d'essa
mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me
tens feito chorar...

--Basta, minha mi--murmurou Jorge, levando aos labios a mo tremula da
magoada senhora--Luctarei, e... morrerei, se no vencer.

--Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua f
e da sua razo.--Vences, porque Deus no d s ms paixes o poder de
matarem uma creatura, que pde desafogal-as nos braos de sua mi.--E
erguendo as mos para o altar, disse com a voz convulsiva--Graas, meu
Redemptor!

Anoitecera. Padre Joo, que era o vigario da freguezia, andava
discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para no
interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia
ergueu-se, tomou a mo do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam
brincando as tres irms de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove
annos, e o irmo mais novo que nascera depois da morte de seu pai.
Saltaram os mais novos aos abraos  mi, e as duas meninas ao pescoo
de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do
adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que  fina fora
queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia
contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso,
debruado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o
mordomo da festa de S. Sebastio cerca do numero de padres e do
prgador que devia chamar. Os meninos mais novos j tinham largado a mi
para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario,
cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a
muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.

Resolvido o negocio da festividade do orago, padre Joo tirou pela
corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mos,
e resaram em voz alta. Ora, Deus nos d boas noites.--Disse o padre.
Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mo, e Jorge tambem depois que sua
mi lhe deu a fronte.

Terminado este lance, cuja poesia santa no ha pedil-a a coraes que
deram com ella no pgo da lama brilhante onde dizem que a poesia est,
Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos
seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que
lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as
vibraes do sino que repicava no baptisado de seus irmosinhos, e
dobrra na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta
amargura que no era angustia de saudade, nem pavor de previses
afflictivas... Que era, pois, esse vulto l muito ao longe, ao p
d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha?
Era a imagem de Silvina ainda perto do co, porque de l vinha cahindo,
bella como os anjos que l nasceram; e, rebeldes  piedade,  virtude, 
suprema graa, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando
ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos,
reptando-o  lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao
protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com
lagrimas de mulher sem macula. Era a viso maldita, a fada inexoravel
dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo
sacrifica e cospe.

Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:

Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais
saborosa peonha!? V se te sorriem uns labios com mais dces favos de
phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!

Meu pobre Jorge Coelho! Tua mi no te salva d'esse captiveiro. Teu pai,
esse resgatava-te, se te dsse um lugar no seu leito!... _ intransitivo
o calix!_


XV.

A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia
todos os dias  Foz de carroo, e almoava bifes e fiambre no hotel
inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de
anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na
agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos trites de bata
azul que a rodeavam, e sahindo dos braos de Neptuno mui peneirada aos
saltinhos pela praia, que eram umas delicias vl-a. Dizia mais, que
Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua
que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do
fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia
todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando
grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.

Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o
vasava no corao. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, seno
uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos
apaixonados  esperana, lagrimas de saudade e protestos de firmeza
eterna.

Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se
com Silvina na calada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das
Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina
partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente,
dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma
palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e no
duvidamos acredital-o--que Jorge devras merecia meia duzia de
palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo
que fizera presente das suas azas  gravata do morgado de Santa Eufemia.
E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo
fra fallar a Francisca da Cunha que estava  porta do snr. Antonio das
Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro
lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.

Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo
pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em
seu comeo tropea na desgraa; rebates de saudade d'um tempo que mais
no voltaria; os encantos perdidos do co, das arvores e das montanhas
que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o
corao desaffeito das caricias maternaes e j insensivel ao sabor
d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas
sobre livros em que elle, como Hamlet, no via seno _palavras_,
_palavras_, _palavras_.

Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez no fosse a
Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da
morte era a viso mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos
seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua
irm Angela.

D. Antonia no entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre
desde criana. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre
com os cotovlos na mesa de estudo, o rosto entre as mos, e um livro
aberto. Se o interrogava cerca da sua saude, Jorge respondia sempre que
no soffria seno o mal-estar da sua doentia imaginao. A mi, fiada em
suas oraes, esperava o melhor, e agradecia j a Deus a cura completa
de seu filho.

Padre Joo, porm, via mais de perto o fio s cousas.

--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso 
cunhada--No nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha
amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que no 
d'aquelles annos. Jorge est magro, macilento, e no dorme. Debaixo da
janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. J pude concertar
uns pedacinhos, e l encontrei o nome da fada m, que nos ha-de perder
Jorge.

--Perder!... no diga tal, mano Joo!--exclamou a viuva, estorcendo os
dedos, e j com as lagrimas, a fio.

--Perder, sim!... Mana Antonia, eu j tive vinte annos, e entrei no
mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu
filho das ciladas da sereia?... Olhe que s Ulysses venceu uma vez
sereias. Que me conste; desde Ulysses at ns, as vencedoras so ellas
sempre, quando as victimas as no podem examinar de perto, e vr que
ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudio
mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)

--Ento que conselho me d, mano?--atalhou a senhora.

--Quando Jorge der signaes de doena grave, quando uma ponta de febre
lhe accender as faces, mande-o para o Porto.

--Para o Porto?! Que desproposito  esse!?

--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua
indigna paixo. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres
como a lana de Plias: curam a ferida que fazem. Eu j me arrependi de
obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente.
Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle
 miseria da sua illuso. A esta hora estava elle talvez desenganado.
Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a
sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um
brazileiro millionario, to monstruoso em corpo como ella  monstruosa
na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que
fazem zombaria das affeies serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se
lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, no me
acredita; e, se me acreditar, no temos balsamo que lhe feche a chaga;
ver que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o
meu parecer  este. No me argumente, que no sabe, nem pde. Se a sua
vontade fr outra, lavo d'ahi as minhas mos...

D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto.
Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter
n'outros papeis a folha em que escrevia.

--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada
brandura.

--No, minha mi, no escondo...

--Pois eu no vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente.

--So cartas para os meus condiscipulos.

--Deixas vr-m'as, Jorge? Que poders tu dizer aos teus amigos, que no
dissesses a tua mi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a
mim.

--Eu no fallo de amarguras, minha mi--disse Jorge, erguendo-se, para
afastar a mi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas
impresses de leitura, cousas que no podem recrear uma senhora...

--Assim ser, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirs, pois no?

Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que
valia tanto como a supplica de perdo.

N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que
vinha visitar o academico. Jorge foi logo  sala, a mi acompanhou-o at
fra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu
entretido. Foi fcil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No
alto da folha, leu estas palavras: AO ANOITECER DA VIDA. Depois seguia
assim:

Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma
saudade e uma esperana. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso
esperar? Quem me dera j as trevas! Esta luz, que me alumia,  ainda a
d'aquelle claro infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de
um inimigo. No me has-de tu matar, paixo! Morro porque no podia
viver. Se no fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte
ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no corao de Silvina.
Porque me disse ella: no mundo deve existir a imagem da mulher digna de
senhorear-lhe a alma com a de sua mi, cuja face eu beijaria com
respeito e ternura de filha? E como Deus pde crear no corao humano
para zombaria pensamentos assim!  mulher infame devia morrer a memoria
das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A
compensao dos affrontados  esta. No mal e no bem te reconheo,
Providencia Divina!... Mas o mal para que ? Se  necessaria na ordem do
mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraa, fra digno da
perfeio divina deixar s almas inculpadas o galardo de no sentirem a
absurda justia do Creador.

Que s tu, bem? que s tu, virtude?... que s tu...

Aqui fra interrompido Jorge pela subita entrada da mi.

D. Antonia quasi no entendera o escripto; mas algumas palavras, as do
titulo s, bastaram a compenetral-a de consternao e terror. Ouviu os
passos de padre Joo, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso
leu, e respondeu risonho:

--No tem de que se lastimar por em quanto, minha irm. Isto  um
accesso de febre; mas no me assusta; o que eu receio  a outra que no
interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o
seio, e esperar resignadamente a morte. V  sala, que o hospede quer
comprimental-a.

D. Antonia sahiu, e padre Joo escreveu o seguinte no papel que lra:

O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradio. O oleiro
responde: porque eras barro antes de seres pucaro.

Virtude  o diamante em que se pulverisam os raios da desgraa. Aquelle
 virtuoso que olha em torno de si, e v prostradas as calamidades.

O reino de Deus no est em palavras sonoras; mas em virtudes. (S.
Paulo--aos impacientes de Corintho).

Corao apoucado, sossobra, se no podes com a tua miseria; mas no
abandones a tua memoria a uma piedade v, que  quasi uma zombaria.


XVI.

Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:

So 6 horas da manh. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o
corao a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que  uma gotta
de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte.
Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. _Evoh!_ Como a vida 
linda! que vergeis de flres recendem  tona d'este lamaal! Vem c,
Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem c, que eu bem te
vi no baile, como o poeta inglez te via nos paos e nas tavernas!
Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida
de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e no me venhas dizer que s
filha da Providencia, infame blasphema!...

Canou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes
apostrophes. O descriptivo  o meu forte.

Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que
estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varo
justo a braos com a adversidade: _vir fortis cum mala fortuna
compositus_--a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do
visconde  litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de
pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do
baile!

Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O
visconde respondia que eu era um _bolas_, que descompozera no largo da
Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o Joo da
Thereza da Cancella! Este Joo  meu caseiro ha cincoenta annos. V-me,
corre a abraar-me, e exclama: Fidalgo, o meu Francisco chegou!--Quem
 o teu Francisco, amigo Joo?--O meu Francisco--tornou elle--que
estava no Maranho! pois no sabe?--No sabia... Vem rico?--Rico
como um burro!--Est bom; estimo;  baro de...?--No, senhor; baro
ainda no ; mas est aquartelado em casa do snr. visconde dos
Lagares.--Sim?!-- como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a
filha;  arranjo tratado j l do Brazil.--Fazes-me um favor,
Joo?-- pedir por bocca.--Teu filho ser capaz de me arranjar que
eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanh?--Que
remedio tem elle, seno arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem
para o Rio seno o paisinho do fidalgo?!--Vai depressa, e volta aqui
com a resposta.

Meia hora depois, voltou Joo da Thereza da Cancella, com a carta, e
disse-me: Olhe que o homem no queria dar o officio; foi preciso eu
dizer que dava duas libras por elle, sendo preciso; o meu Francisco
chamou-me bruto, e depois l se mexeram como poderam, e aqui tem.

Dei um abrao democrata no meu caseiro; procurei os meus quatro
conhecidos, mostrei-lhes o carto, e fiz o elogio do seu valimento
d'elles.

Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que fallava com
Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu fosse uma grande
botija destapada de vinagre de sete ladres. Retirei-me a rir, e, na
reviravolta impetuosa, bati n'uma grande esponja: era Jos Francisco
Andraens.--Perdo!--disse-lhe eu. Jos Francisco grunhiu, e enviezou-me
um olhar sanhudo--Perdo!--tornei eu. O cerdo poz as mos na linha
hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso etrusco, e regougou: O
senhor anda a embarrar pela gente?!--Foi uma _embarrao_ inopinada,
snr. Andraens!--repliquei eu--Se lhe offendi os tecidos,
desculpe-me.--Estes meliantes... disse o brazileiro, e foi-se embora.

Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de Matto-grosso.

--Que ha de novo?--perguntei eu.

--O casamento de Silvina com o brasileiro est definitivamente
tratado--disse-me Egas de Encerra-bodes.

--Com o brazileiro?

--Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz  filha as vantagens do
casamento, e ella poz os olhos no co, e disse:--cumpra-se a vontade do
Senhor,... e a de meu pai!

--E c o amigo Christovo Pacheco que diz a isso?--perguntei eu,
voltando-me para o de Santa Eufemia, em quanto Egas ria estrondosamente.

--Eu digo--respondeu elle--que j c botei as minhas contas, e que
hei-de tourear o tal Jos Francisco!... Estou civilisado;--c o primo
tosqueou-me o pello.

--Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse
ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava
alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos
duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotes de raiva.
Jurei tirar alli uma vingana em teu nome, a vr se me assim despenava
da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella
mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, no largando
nunca o brao de um ou outro homem. O millionario, filho do Joo da
Thereza, levou-me  casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que
tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava
nas chammas como a salamandra. Tornei s salas, encontrei Francisca da
Cunha pelo brao do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse,
com a solemnidade do estilo:--Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe!
Fornarina e Rafael de Urbino!

O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:--No conheo este
sujeito.

Eu continuei: Beatriz e Bernardim!

--O senhor est enganado comnosco--disse o linheiro na sua boa f de
linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo brao com fora, e afastaram-se. No
sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e
disse-me:

--V. s. parece que, ha bocado, me quiz insultar.

--Eu no o quiz insultar ha bocado, senhor... como  a sua graa?

--Eu chamo-me Antonio Jos Guimares.

--Pois senhor Antonio Jos Guimares, como passou?

O linheiro aafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse:

--O senhor ha-de dar-me uma satisfao.

--N'esse caso, satisfaa-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me,
snr. Antonio.

--Na rua nos encontraremos.

--Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer
duello a todo o trance e sem misericordia? Eu no me bato com armas
brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa,
leve uma corda, que o hei-de enforcar.

O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira
em manh de orvalho.

Tocou  ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes
retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das
espheras. Jos Francisco Andraens ia atamancando um empado de pombos,
cujos arcabouos lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina
defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres pers,
ou seis, ou no sei quantos pers intactos na mesa. Fui collocar-me
atraz de Jos Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O
snr. commendador Andraens--disse-lhe eu a meia voz--quer que voss leve
um d'estes pers de mando d'elle quella senhora que tem uma grinalda de
flres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina.

Chegou o criado com a travessa, e disse:--Minha senhora, o snr.
commendador Andraens manda isto a v. exc.

--Isto a mim!--tartamudeou ella entre admirada e vexada.

--Sim, minha senhora, a v. exc.--teimou o criado.

Silvina pregou os olhos abrasoados em Jos Francisco, que lhe abria um
sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu
ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e
segredei-lhe:

Minha senhora, Jos Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a
alma de Jos Francisco  uma ucharia, os suspiros de Jos Francisco so
pers.

Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu desapparecido. Fui
ao ouvido de Jos Francisco, e disse-lhe  puridade:

--A sua noiva est indignada de o vr comer assim! Sacrifique a Cupido o
oitavo pombo, amigo Jos.

O que decorreu depois d'isto, no sei dizer-te meu caro Jorge. A minha
cabea no podia j com encargo da chronica at final: sahi. O ar fresco
da madrugada, que aspirei at s cinco horas, restituiu-me  bestial
vida commum. No posso mais.

--Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por Silvina,
envergonha-te de chorar segunda.

Adeus. Teu

                                                             L. PIRES.


XVII.

Verificaram-se os presagios do padre Joo. Jorge, depois da ultima carta
d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e j no pde.
Debil de compleio, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente
na funesta scisma de que no havia ahi na terra voz humana que o
chamasse ao amor da vida, nem no co misericordia que o remisse da
immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si
incentivo  piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e
ficou um dia no leito. A pobre mi alvoroou-se, e com ella toda a
familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente
dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a
molestia do doente era cousa moral, paixo, hypocondria, ou romance. O
facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e
disse  viuva que no era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho,
acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do
mesmo co. Chiste de cirurgio de alda.

D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores
cuidados.--Para o Porto, e sem demora, o rapaz--disse o padre  cunhada.

--Mas o cirurgio no receia, nem Jorge se queixa...--acudiu D. Antonia,
temerosa da separao.

--Deixe fallar o cirurgio, senhora. Seu filho morre sem se queixar.

--No me diga isso!...--exclamou a mi consternada.--Pois as suas
palavras to persuasivas, mano, e a religio no ho-de poder nada?

--A religio pde muito: se elle fizer uma confisso contricta, e morrer
com sincera dr dos seus peccados, a religio encaminha-o para Deus; mas
o que ns queremos  que elle viva. Que me responde a isto, mana
Antonia?

--Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo--disse ella suffocada
pelos gemidos.

--Respondeu acertadamente; mas a supposio de que Jorge se perde no
mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer,
que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem
antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que --uma alma cheia de
innocencia, de bondade, e de ignorancia.

--Pois bem, meu amigo, faa o que entender, mas salvem-me o meu filho.

--Aceito o encargo com uma condio: a mana no chora mais uma s
lagrima na presena de seu filho; finge acreditar que elle precisa de
banhos do mar; exige que v j para o Porto, e de l para Coimbra, se
fr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?

--Com tudo que de mim quizerem--murmurou ella enxugando as lagrimas.

--Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.

Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a _Nova Heloisa_ de J. J.
Rousseau. O egresso foi de mansinho ao p do leito, tirou pausadamente
os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz,
abriu e arredondou os beios, pendido o queixo, e examinando o livro,
disse:

--Era um grande homem esse Saint-Preux,  Jorge!...

--Pois o tio conhece Saint-Preux?!

--Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons
quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura,
por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de pararia com os
muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas,
de que est inado o mundo, graas s novellas, e ao descredito a que
baixou a roca e o fuso. Que carta ls?

O egresso levantou o nariz com os oculos  linha horisontal dos olhos, e
leu algumas linhas da pagina.

--Ah!--continuou elle--trata do suicidio... Est mui atiladamente
debatida a questo por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em
paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo
 humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixes
vills, mal resguardadas por uma cdea de soberba e orgulho. Ensinava o
mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a
impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas _Confisses_,
com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que at o
impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a
luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no corao da sociedade
pelas ms doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus
tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e
j receio de ter dito de mais. Isto so reminiscencias das minhas
leituras de ha quarenta annos. Quando orares pelos sessenta, Jorge,
has-de abrir a tua _Nova Heloisa_ n'essa pagina, e has-de rir da
impresso, que te magoava, quando a lste, aos vinte annos.

--No me sinto magoado por impresso alguma, meu tio--disse Jorge,
sorrindo, e depondo o livro.

--No mintas, meu sobrinho--tornou o padre com branda severidade--Faz
quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do corao,
o melhor thesouro d'elle, a _verdade_, filho. Sofres, e soffres muito,
Jorge. Pensas em morrer, e ds de bom grado a tua vida a Deus, se  que
a Divina Providencia transluz nas tuas imaginaes negras. No te culpo,
rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado
que no soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma
tenra vergontea, dobrada pelas minhas mos, se levante commigo, no
hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos,
no responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por
elle, e o temperamento tambem. Isto do _temperamento_, digo-to aqui
muito  puridade, que ns c, os theologos, no queremos ceder nada aos
temperamentos. Ora vamos, Jorge, a p d'essa cama!

--A p!--disse Jorge--e poderei eu?!

--Pdes porque queres. Hoje e manh de convalescena; depois de manh
para banhos do mar.

--De que me servem banhos de mar, meu tio?

--A resposta  do fro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em
casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creao de tua mi. Vaes do
Porto  Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar
o primeiro anno juridico, vai; se no quizeres, fica o inverno no Porto,
e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos
teus arvoredos.

--Peo licena--disse Jorge com amargura sincera--para contrariar a
vontade de meu tio.

--Teu tio no concede a licena pedida.

O moo fitou os olhos nas mos cruzadas sobre o seio, e no respondeu. O
egresso lanou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:

--Vou mandar pr o teu talher na mesa.

Jorge disse entre si:--Morrer aqui ou l... que importa?

Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um
criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra
fez-lhe uma convulso: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:

No sei que mal fiz a v. exc. para merecer-lhe uma vingana to baixa!
Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a
parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?

Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com
paciencia. Que queria que eu fizesse para no ser insultada pelo seu
amigo? Diga-me se  necessario pedir-lhe perdo de ter sido abandonada.
No hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc. me garanta a certeza de
que no serei injuriada nas praas e nos bailes. De v. exc.--eu muito
respeitadora, _Silvina de Mello_.

Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se
negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doena, em poucos minutos,
progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a
carta na mo tremula.

--Que tens, meu filho?--clamou ella ajoelhando diante d'elle, e
abraando-o.

--Nada, minha mi,  fraqueza... No chore, por piedade, no chore, que
eu estou bem.

E, erguendo-se com vacillante esforo, foi para a mesa. Forcejou por
comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia no
conseguia desentalar-lhe a garganta.

--Que  isto?--disse o egresso.

--Foi uma carta...--respondeu D. Antonia.

--No  nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impresso
gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licena para me
erguer da mesa, e dar um passeio no jardim.

--Vai--disse o padre.

--Eu vou comtigo, meu filho--acudiu a mi levantando-se.

--No vai, mana; deixe-o ir sosinho.

Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu
ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortia encostado a um macio.
Abriu a carta de Pires, que resava assim:

A Providencia no  uma mentira. Jos Francisco Andraens apanhou uma
indigesto de pombos, salame e salmo no baile do visconde, e est em
risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vr quantos Jonas sahem
d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia,
jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual
bruto j se confessou, a vr se a gente se persuade que existe uma alma
n'aquellas cavernas de sebo!

Parte o correio.

                                                          Teu do intimo

                                                           _L. Pires._


_P. S._ O linheiro das Hortas ainda no appareceu com a corda.


Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocao ao amor de Jorge,
simulando razes e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante,
que a despresara sem motivar o menospreso immerecido,  de presumir que
o brioso moo nem respondesse  carta, nem se doesse dos hypocritas
queixumes de uma caprichosa estouvada. Porm, o estilo, assim magoado
como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabea e o corao
do academico, que j elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de
ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E--o que  mais
--sentiu rancor quelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se
andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!

Quantas idas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina.
Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora j a esperana de ir vl-a
ao Porto lhe era um desafogo, e no sei mesmo se contentamento. O pobre
moo, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de
inquieto regosijo quanto a resoluo do tio lhe era grata. A mi,
compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmos choravam ao p
d'elle, e elle fugia de todos para que o no vissem alegre.


XVIII.

O leitor  uma pessoa de juizo limado e occupaes serias. Estou que no
l romances de ninguem, e muito menos os meus, que so escriptos em
lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde  sabido que
no ha imaginao que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem
no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se no  copia do
estrangeiro, e aborrecida inverosemelhana, ora por cousa peor, que  a
semsaboria.

Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que so vinte e
tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio

      _do negro esquecimento e eterno somno_

tres livros denominados: ONDE EST A FELICIDADE--UM HOMEM DE BRIOS--e a
VINGANA.

N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas
vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui
aguentando com embaraos da composio, mas venci a minha. Custava-me a
falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa
fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si no era seno
escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e no acabo
commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes
de poesia n'este segredo. Diga o leitor que  tolice, e saldemos assim
as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelao da
minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa f guarda o
tco de cera benta para se alumiar  hora da morte.

Pois  verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de
Augusta.

Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em
infancia de illuses, passai um instante luminosos na escuridade d'esta
recamara da sepultura, onde at a lampada da esperana se vai
extinguindo na mo do anjo do conforto! Vinde a mim, coraes amigos,
cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a
intuscepo da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o
travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crr nas
promessas do corao, nos levantados desejos do espirito que no caiam 
terra sem se infamarem; foi comvosco a f na religio da poesia, que era
a minha f unica, porque no havia crr nem sentir em mim em que no
estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das
delicias que eram d'elle, creaes suas, umas sujas, outras empestadas
pelas mos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de orao, a minha
ultima aco de graas, a palavra final da profisso de f, que devia, a
meu vr, remontar-me ao co, e que, ao revez das mais espirituaes
theorias de Plato, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da
redempo das almas, deu commigo em baixo n'um golfo de lama, onde ha o
ranger de dentes d'estas bestas feras, que at na lama sustentam o
egoismo da sua propriedade!

 vises immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e
levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio
da vida, vs bem vistes com que saudosa uno eu vos offertei dous
livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos
que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo  prosa
d'estes annos,  mofa d'estes industriaes, que me esto perguntando se a
apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem flego, e accenderem o
seu charuto.

Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os
romances, que no tem que vr com elles o leitor, que tanto conheceu as
almas, como se lhe d dos romances.

Veiu isto a ponto de estar aqui j comnosco o amigo de Guilherme do
Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flres do Candal, e as
almas desamparadas d'aquelles que... L ia j sahindo outra tirada de
sentimento.  enguio, que me ha-de retirar a proteco de muita gente
boa, que no precisa de lr um folhetim para convencer-se do seu direito
de espriguiar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular
perspicuamente as relaes economicas que podem dar-se entre a alta do
cravo dito girofe e a baixa do cacau.

Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da
defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de
Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.

D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous
meninos, e varias outras pessoas, esto sentadas em roda de uma grande
mesa jogando o quino. O jornalista est sentado n'um soph, conversando
com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha
vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversao foi interrompida
pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mi e irmos receberam
com muitas vozes de alegria, s quaes ella respondeu dando um beijo na
fronte da mi, e outro nos labios das irms. Com a bem vinda entrou
tambem o marido. O litterato, j de p, deu dous passos, e disse  dama
que entrra:

--Quero vr se me conhece ainda, minha senhora.

--Se o conheo!--exclamou Rachel.--O mesmo que foi para o Brazil; o
mesmo que era ha cinco annos... No se admire da nenhuma surpreza com
que lhe fallo porque eu j sabia que o vinha encontrar. A mi, quando o
senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias
suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.

--Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.--disse o poeta--se bem
me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a
viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava,
minha senhora. Noto-lhe apenas uma differena sensivel.

--Qual?--perguntou D. Marianna com solicitude de mi.

--Acho-a mais bella--respondeu o poeta.

Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como
aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel,
dizendo:

--Ento, vamos a isto?--E escolhia cartes do quino.

Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava j de
comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um
homem da antipathia d'elle.

As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicao do marido,
ficou com as costas voltadas para o jornalista.

--No vem jogar?--disse Rachel ao hospede.

--Vou, sim, minha senhora.

As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou
machinalmente um carto entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate,
cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.

O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.

Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traos
geraes d'esta familia, e fechar o capitulo.

Rachel tem vinte e quatro annos.  encorpada, mas a robustez no desdiz
da gentileza. No tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em
todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graa, e garbo que vem
de seu natural, e ninguem o dir se a no tiver visto em toda a sua
desaffectada singeleza no recesso das suas occupaes caseiras. Quando
Rachel est n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era
ella solteira, e teria quinze annos. Isto j l vai ha quinze. Se eu me
no lembrar do que ella era ento, melhor me ser despedir de mim esta
bruta alma que nem para a saudade j serve. As minhas reminiscencias
do-me Rachel vestida de branco. No lhe hei-de aqui chamar anjo, porque
no foi essa a impresso. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella
criana; no a vi a descer do co, onde os poetas teimam em ir buscar
tudo que  excellente, como se o co no fosse um puro congresso de
espiritos que valem de certo l muito mais do que pesam, mas que
passariam desapercebidos nos nossos bailes, se no tivessem a esperteza
de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a
Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus,
todos esses marmores eternos, que ho-de sobreviver  mythologia dos
anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os
vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem;
poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz
d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a
antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o
rancor lhes fuzilava nas pupillas; porm tu que paixo tiravas da alma
toda amor, para a lanares de ti como um incendio que te abrasaria, se
eu, se todos, que te viam, no tomassem de joelhos um quinho d'esse
fogo! Que haver alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido
electrico no basta a dizer o que  que vem de l como corpo estranho
que vos entra no seio, e vos no cabe na alma, e quer fugir s ancias do
corao que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao
phrenesi, do rir brio da felicidade s lagrimas incessantes de noites
desveladas! E, depois, porque no eram s os olhos o condo d'esta
mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o
Creador, l se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade
diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma
menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio;
mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes
enclavinhados; alm aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma
laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma
bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a
estremecida creatura, com uma luz serena de co n'aquella face em que se
espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se
n'ella! Abenoada sejas tu de todas as venturas, que to perfeita s,
to cheia de tua belleza, to digna dos thronos da terra, j que o
Creador, o teu Pygmaleo, te no arrebatou para si! Onde est,  Senhor
Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre
ns que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas
da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, 
mo divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas
que recende aquella virgem? Onde est o homem que...

O homem elle aqui est.  o snr. Manoel Pereira. J quinou tres vezes.
Feliz no jogo, infeliz no amor;  certo o proverbio... at com elle!

Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabea
quadrilatera, e plana como um queijo do Alm-Tejo desde o occipicio at
 cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de
anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos
arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina
em frma de fava. O nariz no tem canas; parece que  formado de
parafusos. Comea do centro da testa por uma verruga, transforma-se em
lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beio
superior, repuxando por elle de modo que o dono no pde exercitar as
funces olfactorias sem enviezar o beio. Este nariz ha-de ser
lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O
nariz  o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como
Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.

Temos  roda da mesa a snr. D. Marianna e quatro filhas.  de notar em
Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mi, senhora de quarenta
annos,  bonita ainda. Se a perfeio das raas  admissivel, nunca mais
sensivel foi a gradao do aperfeioamento como entre D. Marianna e
Rachel. Das outras filhas, uma  formosa, se bem que j ferida da
tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irm que a
mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das
flres, e a dos prazeres da vida. Outra  uma linda criana de doze
annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente
com a mais bella  j casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto
vulgar, posto que o no parea entre outras que no sejam suas irms.

Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma
agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas,
sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a
esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade
em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus
primeiros annos.

cerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora.

Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia
desde hoje a tomar as propores d'um escandalo monumental.


XIX.

--No sabes quem hoje me escreveu?--disse D. Marianna a Rachel,
terminada a partida do quino?

--A minha Antoninha do convento.

--Sim? que novas lhe d ella do filho? A mi disse-me que a pobre
senhora vivia muito consternada com a paixo do rapaz pela tal Silvina.

--Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge est
enfeitiado, e cuida ella que a maneira de o desenguiar  mandal-o para
aqui, a fim de elle,  vista do comportamento de Silvina, se desenganar.
Acho esquisito o remedio.

--O remedio  eficacissimo, snr. D. Marianna--disse o litterato.--O que
a mim me espanta  ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga 
fazer com que o filho se sinta aviltado por amor de uma mulher ridicula.
O amor rompe todos os tropeos, transige com muitos defeitos e mesmo
vicios da pessoa ou... cousa amada; mas da mulher escarnecida  que no
ha cegueira que o aproxime.

--Conhece a tal Silvina de Mello?--disse Rachel.

--J a encontrei em algumas partidas na Foz, minha senhora.

--Que ida fez d'ella? A sua apreciao deve chegar-se muito  verdade.

--Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e at mesmo esperta.
Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra uns folhetins que denomina
_Felizardas_ as senhoras provincianas, e pasmei da imprudencia com que
desprimorou as damas portuenses, chacoteando-as por um lado que 
justamente, a meu vr, o mais vulneravel da fidalga do Minho...

--Qual ?--interrompeu Rachel com vivacidade. O jornalista, reconhecendo
a inconveniencia da resposta ajustada, fez, como por disfarce, esta
pergunta:

--No  certo estar tractado o casamento da tal senhora com um
commendador fulano de tal Andraens?

--Assim dizem--respondeu D. Marianna--pelo menos cuido que...

--Parece-me que no  anno de fortuna para ella... atalhou o snr. Manoel
Pereira, coando a verruga media da aza esquerda do seu nariz.

--Por que?--disse Rachel olhando de travs o marido.

--Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do visconde dos
Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a peor. O homem j
soffria molestia interior, e comeu tanto  ceia, que esteve a
rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem queira bailes!... Se elle
estivesse em sua casa...

Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e
desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o flego
comprido das tolices com esta fina ironia:

--Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que
ento--continuou ella, voltando-se para o jornalista--o amor no ser
capaz de vencer a indigesto do noivo?

--Segundo ouo ao snr. Manoel Pereira--respondeu o litterato em tom
lastimoso--a gentil menina est em risco de vr o corao, que to caro
lhe era, romper-se, batido pelas exploses do estomago que rebenta,
deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito.

Rachel e uma das irms sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da
mulher, e disse mal encarado, com o nariz j roixo:

--Se elle quizesse mulher to bonita e mais rica que ella, no lhe
faltavam por ahi s duzias.

--Ninguem contesta o dito de v. s.--redarguiu o escriptor.

--Mas o senhor parece que estava caoando com o meu amigo...--tornou
Manoel Pereira.

-- injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irms dar-me-ia por
ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento no
saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em
mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de
galantear o amigo de v. s., e morrer de amores por elle se uma
indigesto rival m'o arrebatasse.

Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira,
cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes cres desde o
aafro at ao talo da couve lombarda.

O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:

--Tive tambem occasio de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da
amiga de v. exc. Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle
corao em flr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos
de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que
singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias
encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimares,
linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se far
d'alli, se o co o no leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto
precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo no
conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de
D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei
Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo no
conhecem...

--Nem  preciso conhecerem--exclamou Manoel Pereira-- um patife, que
concorreu muito para a doena do meu amigo Andraens!

--Eu no pensava--replicou o poeta--que Leonardo Pires era um alimento
indigesto!... Se bem me recordo, v. s. disse ahi que a enfermidade do
snr. Andraens era uma indigesto!

--Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o
homem atrigou-se, e sahiu c para fra afflicto, e nunca mais foi bom.

--No sabia isso; apenas me disseram que elle recommendra ao snr.
Andraens que no comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho,
longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigesto fatal que se
deu.

--Deixemo-nos de contos...--instou o marido de Rachel.

O sorriso d'esta era j forado por vr que o jornalista no tinha a
cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira no percebia.

--E D. Antonia que diz, mi?--interrompeu Rachel.

--Diz que Jorge Coelho vem para esta casa.

--Para esta casa?!--acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaando
o nariz at  testa.

--No tenho n'isso duvida nenhuma--respondeu Bernardo Joaquim Ferreira,
que tinha sahido e voltra momentos antes.--E dou-te parte, Marianna,
que Jorge j est na hospedaria, e no sei se ser dever meu ir j
buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, pedindo-me que o
desculpe de no vir directamente aqui.

--Como ainda  cedo, disse D. Marianna, podes ir buscal-o. O quarto est
preparado. A mi descrevendo n'um estado tal de amargura que eu tenho
pena de o deixar sosinho na hospedaria.

--Mas ha um inconveniente--redarguiu o snr. Bernardo.--Tenho gente no
escriptorio  minha espera para liquidar umas contas, e no posso
deixal-as para manh, que os negociantes so da provincia, e partem de
madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir  Aguia d'Ouro...

--Homem, eu a fallar-lhe a verdade--disse Manoel Pereira--tenho aqui
n'este p direito uns callos que me no deixam dar passada; se no da
melhor vontade; mas, sempre lhe direi o que penso respeito  vinda
d'elle para aqui. Eu no sei o que me parece metter n'uma casa onde ha
meninas novas um peralvilho que no gosa dos melhores creditos, e que de
mais a mais  amigo do tal Pires, que ha-de c vir onde a elle, e o
mundo pega logo a fallar pr'aqui, pr'acol, e s duas por tres... Em
fim, meu sogro l sabe o que faz...

D. Marianna replicou com vehemencia:

--O snr. Pereira no ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha
amiga era um moo muito digno?!

--Todos elles so muito bons, mas em minha casa  que elles no pem o
p.--Disse Manoel Pereira, e fez meno de procurar o chapo.

Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia
figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre
si com sorrisos rebeldes  prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua
superioridade relativa de sisudeza e bom senso, no deixou de vacillar
ao choque das reflexes do genro. D. Marianna, porm, voltando-se com
energia para o jornalista, disse-lhe:

--O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embarao a um amigo
antigo?

--Faa-me a honra de mandar-me, minha senhora.

--Tem a bondade de ir  hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga,
o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que no posso
pagar-lhe d'outro modo?

O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapo:

--Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para
que o no esperem. At j, ou muito boas noites, minhas senhoras.

Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que no tinham na
apparencia muito cabimento alli, fallou assim:

--Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo  mi do meu
hospede; escutem-me, e depois diro se o filho de tal anjo no ser
digno de ser recebido como seu irmo. Eu fiquei orph e pobre aos onze
annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue  caridade da prelada,
que me achou com habilitaes para ser uma simples criada grave de
convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasio,
e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para
chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser
senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa
piedade das ricaas do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e
to suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se no
depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que
recebi de Antonia. Vivi cinco annos  sombra da generosidade d'ella:
prendei-me  sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educao que
nos davam no convento; e j depois que a minha amiga sahiu para casar
obedecendo s ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os
presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz,
enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrana de amiga que lhe eu
mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha
vinte e quatro annos no modo de ser util  minha querida Antonia; a
Providencia depara-me agora occasio de velar as commodidades do filho
d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa f a dizer-me que devia ser outro o
meu procedimento...

--Ninguem se atreve a tanto.--disse Rachel com enfado.--Eu, se minha
mi, por desgraa nossa, no existisse, levaria para minha casa o filho
da nossa amiga, da protectora de nossa mi. Se eu tivesse um marido que
me quizesse roubar o prazer da gratido em to pequeno servio,
amaldioaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...

--No te irrites assim, Rachel...--disse Bernardo Ferreira, ferido pelas
palavras da filha, que lhe apontavam direitas  consciencia, onde as
fibras do remorso doiam sempre.

Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas
hediondas, por onde vaporava a zanga.

O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor,
dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a
delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as
ordens de sua mi.


XX.

O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado 
banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercao, que
fra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava
escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de m catadura,
esboava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos.
Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires,
mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraou-o, e exclamou:

--Aqui est o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro!

--Temos _ecce homo_?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires--disse o
jornalista sorrindo--me prepare algum calvario?... Como est o snr.
Jorge Coelho? O aspecto denota inquietao...

--No  inquietao;--atalhou Pires-- a sina maldita d'este desgraado
que nos tortura a ambos...

--Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires--tornou o
escriptor--Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os
demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa...
Querem vr que o snr. Jorge  energumeno d'alguma Xantippa ideal, que...
(O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi
recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo
contrafeito, respondia:

--No, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo.

-- cavalheiro--clamou Pires irritado--diga ahi a esse ingrato quem 
Silvina de Mello. No se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e
matar illuses queridas. A paixo de Jorge  uma nodoa que eu quiz
delir-lhe do corao,  custa mesmo do meu descredito e abominao
n'esta sociedade devassa. Tenha voss a franqueza de dizer a esta
criana o que eu tenho sido, j que eu tive a boa sorte de lhe referir
ao senhor as minhas aces e palavras.

O romancista achou de riso a gravidade da appellao de Pires para o seu
testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e
disse:

--O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr.
Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo
respeitavel, menos na sua virtude.

-- de mais!--atalhou Jorge--Pde ser que Silvina merea censura como
inconstante, sem com isso...

--Deixar de ser virtuosa?...--interrompeu o poeta...

--Justamente.

--No julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade no pde ser virtude. A
mulher que enfeira o corao, e o pe  concurrencia, mirando s
vantagens do pedido, poder ser uma sagaz professora de economia
politica applicada s mercadorias do corao, mas virtuosa  que ella de
certo no . Para mim tenho que a virtude pde coexistir com a miseria
da mulher perdida que no tem a hypocrisia de expor o corao  venda;
porm, quero eu que no prostituamos a palavra, que  santa, cedendo-a 
que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr. D.
Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia,
encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu c deixei, 
uma senhora aleijada.

--Ainda mais essa!--atalhou Pires--Eu nunca dei pelo aleijo de Silvina!

--Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome
se ha-de dar  lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta
das suas illuses de infancia, esfrega os olhos, e comea a procurar em
redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais
torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem
alluido a sua virtude pela base, que  a vergonha. D'ahi vante o pudor
 uma mentira, as cres que sahem ao rosto so irrupes de sangue como
as empigens,  um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo
nos prostibulos. Que  o que bate no peito d'essa mulher, desde que a
ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensaes? Quando ella
fallar nos affectos da sua alma, qual  de ns o que voluntariamente se
immolar ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo s Silvinas
com expresses de candura e boa f? O snr. Jorge Coelho tem a
sinceridade de me dizer se me entende?

--Entendo; mas no creio que Silvina seja a mulher que o senhor
qualifica.

--Eu no a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu
joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence  pratica o qualificar
Silvina. Est o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto  uma
questo de tempo. Faa as suas experiencias desde manh em diante; mas
tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos.
Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o
tinha, que estes amigos so raros. Outro objecto. A minha commisso no
era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr. D. Marianna
Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles,
onde foi recebida uma carta de sua mi.

--Oh! bravo!--exclamou Pires.--Temos homem!

--No atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!--disse o escriptor.

--Que mulheres, que mulheres tu vaes vr,  Jorge!--continuou bracejando
o da Maya.--As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas
do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais
indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a
repartio dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as
mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se  que uma mulher
d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita!  Jorge, tu ests
curado! Quando vires Rachel, sentirs um corao novo, um corao
caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a
visse segunda...

--Iria  missa dos Clerigos vl-a terceira, no  assim?--interrompeu o
poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.--Rachel 
uma bella senhora, e uma nobilissima alma--continuou o escriptor
gravemente.

--Mas, segundo a sua theoria--atalhou de golpe Jorge Coelho--essa Rachel
 uma das muitas aleijadas que por ahi ha. No a conheo; mas sei que
ella casou com um brazileiro hediondo e rico.

--Aquelle nariz!--disse Pires.--Tambem me quer parecer que a mulher
pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira!

--E eu creio que a sociedade--tornou Jorge--no desconsidera Rachel
porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a
desinteressada pobresa e o corao opulento de muitos rapazes que a
cortejavam. J se v que a opulencia d'um sordido no desluz aos olhos
da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella.

--So contos largos...--disse o romancista.--Custa-me que o cavalheiro
confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho,
Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignao que santifica
a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem
existir. No levo em paciencia o aggravo feito  pobre menina. Vou
contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo
Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia
d'umas paixes, que podem vingar e prosperar sem dinheiro.

s filhas chama-lhe suas, e no exclue d'esta propriedade o corao. O
seu pensamento fixo d'elle  casar ricas as filhas. Rachel era querida
de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a
ventura, se os encontros predestinados dos espiritos no fossem o
mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos,
fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco
mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse
foram: Morreu Rachel! A minha alma foi com ella. Pobre moo! bem
sentia elle que j no tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por
ignorados motivos, esquecido de tudo que fra, tinha uma s
reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella...
Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os
senhores no sabem ainda o que  olhar para o passado aos trinta e cinco
annos, e vr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros
lagrimas...

O poeta dissera isto to do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires
deixou de o escutar com magoa. Jorge, j dorido de suas tristezas, no
era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia  dr
alheia.

Proseguiu o romancista:

Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem
os indicava, e negociava com ardis, e negaas ignobis, sobre serem
immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o
outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e
amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher,
odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres,
porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que
a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo no
dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a
victima.

N'este tempo, Manoel Pereira entra em transaces com o governo, e perde
cincoenta contos. Ferreira, sabedor da perda, acolhe de novo o outro
concurrente, e cede-lhe a filha. Este carecia de ir liquidar o seu
negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a liquidao se detivesse mais d'um
anno, Manoel Pereira aventura-se em especulaes mercantis, estas
prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar
Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mo, receia que o
outro no volte, e quebra pela terceira vez o contracto. Rachel ignorava
estas asquerosas mercadorias. Annuncia-lhe o pai que ella  esposa
promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer defender-se primeiro
com razes, depois com lagrimas. Tudo lhe  rebatido com indifferena,
ou com palavras violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se
fizera definitivamente a operao commercial dos quinze annos d'um anjo
formoso, como a esperana d'uma alma pura, com o homem de cincoenta
annos, sem o desconto de alguma feio boa do corpo ou da alma, Rachel
era perseguida pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia
Manoel Pereira estar na sala, e a lagrimosa criana se demorava no seu
quarto para encurtar as horas do supplicio, ia l o pai buscal-a; e se
as grosserias a no compelliam a aligeirar o passo, no era raro
ameaal-a de pancadas, e mesmo fazer executiva a paternal justia.
Quantas vezes Rachel entrou na sala, com as faces escarlates das
bofetadas que o pai lhe dava como incentivo para saber aproveitar-se da
fortuna caprichosa! Era esta a lastimosa situao de Rachel quando eu
fui para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa criana
me disse a ultima vez que fallamos.--Tenha animo para a
obediencia--disse-lhe eu--Bem pde ser que Deus a remunere d'essa
virtude com imprevistas felicidades.

--Eu dou por terminada a minha vida--respondeu-me Rachel com os olhos
enxutos--Tenho quinze annos, e ha tres mezes que olho para a minha
existencia, como se ella fosse j longa de trabalhos. Os paroxismos
ho-de ser rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irms podemos
sobreviver  mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. D'aqui a
pouco lanarei o corao em golfadas de sangue, e meu pai no ter
remorsos de ter cooperado para a minha morte, por que elle j viu dous
irmos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde cahiremos
todos. V, que no me torna a vr...

Eu sahi de ao p de Rachel, com o corao opprimido, mas contente de mim
porque chorava as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei
serem as ultimas... Rachel casou. No morreu. Mentiu-lhe o anjo que
fallava quella sua innocentissima alma. Vive.  uma agonia sem nome...
O quarto de hora j l vai. Agora, meus amigos, no venha mais o nome de
Silvina como um escarro  face de Rachel. At manh, snr. Jorge. Depois
d'estas reminiscencias, eu tenho um singular corao que se brutifica, e
uma alma que detesta a sociedade. Boas noites.


XXI.

Cuidava o leitor que estava livre do sujo Jos Francisco Andraens; do
estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; da erudio
mythologica de fr. Antonio; do mettedio jornalista; da fidalga de
Margaride, adeleira fraudulenta do seu roto corao; da Francisquinha da
Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de Santa
Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, illustrissimo
sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e candida e apaixonada at
enfastiar o bom siso de quem nos atura, a elle e a mim; e, finalmente,
de Rachel.

Ai! no me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As lindas
mulheres s enfastiam os seus maridos, e desagradam s mulheres feias.
Parece que a propria moral, severa como a directora d'um collegio, se
compraz s vezes de as vr louquinhas, se o ellas so. A belleza  o
poder moderador dos delictos do corao. Uns lindos olhos so a mais
commovente rhetorica em defeza das culpas que a intolerancia lhes
assaca. Um brao gentil, que descuidosamente se denuncia nu, abala o
animo do juiz austero com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e
Mirabeau. O sorriso discreto, se no  bem despreso nem expresso de
orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado de
indifferena, que a lacrimosa perorao dos que vingam apertar com os
cilicios da piedade o corao de um jury.

Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! Peccou ella,
por ventura? No, minhas senhoras. Rachel tem um s peccado de fraqueza;
foi optar pelo marido, entre o marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo
das outras, que lhe haviam dado o exemplo da renuncia de si proprias,
podendo afidalgar-se e ser unica pelo heroismo de se entregar  justia
de Deus, fugindo s injustias do mundo. A morte moral, que a sociedade
inflige s malfadadas, que a cupidez d'um pai acorrentou a um marido
abominavel, se o corao, em phrenesis rompeu o grilho, , mais
dolorosa que o suicidio tantas vezes, quantos so os repelles que a
sociedade lhes d at as engolfar no abysmo sem sahida.

Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da morte, e
fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo de Manoel
Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) ninguem se
lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que o desdem da
gente sria, e a censura da gente religiosa, e a irriso da gente
parvoa, e o contentamento de outra que Manoel Pereira iria escolher,
entre mil, n'esta grande feira, fariam do suicidio de Rachel assumpto de
reprovao e de affronta  sua exquisitice? Tambem o penso assim. Estou
que ninguem j hoje se lembraria do pobre anjo que fra queixar-se a
Deus de o terem querido despir de suas pompas, de suas flres, de sua
aureola, de sua virginal pureza, para o prostituirem aos regalos d'um
satyro revelho, que perdeu alma e corao no grangeio da riqueza, com a
qual vem mercar um recreio para a sensao do corpo, abrazeado na vida
ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que preferira deixar as
graas do corpo aos vermes, para o no dar ao cvo de uma besta-fera.
Assim ; porm, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do cadaver a
que a prenderam; se a fora, que o corao lhe fizer, tiver comsigo a
fora do exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil
batel de virtude, forada e violenta, se desconjuntar e abrir, rebatido
pela tempestade das paixes; se em fim, aquella honra, a
constrangimento, e no de vontade aceite, se fr a pique, a sociedade
que dir?

A sociedade--replica o leitor que a conhece e se conhece--a sociedade
faz-se desentendida por cortezania; por conveniencia; porque sabe a
historia do olho com trave, que se abria espantado de vr uma aresta no
olho alheio. A sociedade fez uma conveno tacita, de que  fiadora a
civilisao. Em substancia, este contracto social d os seguintes
resultados:

1. Respeitar a liberdade do corao humano, sem prejuizo do soalheiro
das salas, em que  preciso entreter o tempo, e fingir a gente que no
conhece seno as pessoas que esto fra das salas.

2. Fingir, outro sim, a gente que est convencido da tolice dos outros,
para que os outros nos tenham em conta de boaes de boa f, e no de
espertos sem pudor. D-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o
mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irriso cauterisam,
sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e
aproveita occasio de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma
lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupo social,
voltam as costas a rir um do outro, e vo cada qual por seu lado,
espalhando a risada contagiosa.

3. No perdoar o que se chama escandalo. Escandalo  no ter a
sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico,
tratando-o de nescio. Escandalo  tomar a serio as brincadeiras do
corao, e vir dar alguem  sociedade uma prova de que despresa o
contracto social. Escandalo  cahir da prostituio legal  honra do
corao, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o
estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade
na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e
imperdoavel  a mesma miseria.

A sociedade sabe que o crime  um dos elementos da ordem das cousas, e
julga-o um mal necessario, sem o qual no haveria bem-aventurana nem
inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por no ter que
fazer, visto que os theologos lhe no attribuem occupao que no seja
julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a
sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo
funccionalismo, cujo presidente  o Creador do co e da terra, do mar e
do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leo que atra os
desertos, do homem como Alexandre e Napoleo e do homem como Jos
Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu no dizia
nada: quem dizia que o crime  necessario era o jornalista, amigo de
Guilherme do Amaral, conversando na Aguia d'Ouro com Jorge Coelho,
alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da
primeira parte d'estas biographias.

Vamos agora  historia.

Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala
adornados com muito aceio e seleco. Melhor que isto, era o gosto de se
vr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e
filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da
familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era
natural, e das abstraces penosas, que tinham a sua razo de ser na dr
do corao.

D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que to
preciso , chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou
na paixo, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos,
nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia.

D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e
talvez lhe exagerasse os defeitos.

Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a
assim fallar na presena de suas filhas, que todas estavam presentes,
salvo Rachel, a quem elle no tinha ainda visto.

Lembrado est o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de
sua sogra, por que a maioria lhe rejeitra o parecer de no ser recebido
Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse ento da sua paciente
annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser
contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que no queria
relaes com tal sujeito.

No dia seguinte, ao abrir da manh, mandou preparar alguns bahus, entrou
n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a uma quinta, seis leguas
distante do Porto, nas immediaes de Barcellos. Quizera a submissa
senhora despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as
verrugas do nariz, e enviezando o beio na sua ordinaria expresso de
zanga, atalhou as intenes da saudosa Rachel, dizendo que a mulher
casada no tinha familia seno seu marido. E Rachel, fitando os olhos
coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do corao nos
labios, que sorriam sardonicamente:

--Deus te livre que eu alguma hora me esquea de que tenho uma familia,
que no  meu marido... Se lhe eu perder o respeito a ella, se os
estimulos de minha exemplar mi me faltarem, tu vers ento que eu no
tenho outra familia.

O marido, arregaando os musculos businadores, e as azas nasaes com
elles, regougou:

--Pe l essas doutorices em miudos, que eu no te entendo.

--Se me tu entendesses--redarguiu Rachel--nunca me forarias a fallar
assim  tua ignorancia.

Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e coou-se atraz da
orelha esquerda.

No se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel ia linda pelo
escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, quando no cabeceava
de somno jogando contra o hombro de sua mulher.

A gentil senhora, a espaos, encarava no marido, e dizia entre si: Que
destino o meu! Este  o homem, que me deram para a vida! Querem que seja
d'este homem o meu corao! Ter uma s existencia, e curta como hade ser
a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale duzentos
contos de ris!

Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que lucrou este homem
em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo conhece que lhe obedeo
abominando-o? Mas eu no devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui
levada de rastos, e que me perdi por ser boa filha, e me tenho
atormentado para ser uma victima obediente dos calculos de minha
familia! Calculos! quaes, e de que serviram? Quem foi feliz com
elles?!...

Estes mentaes soliloquios eram cortados por algum ronco pavoroso, ou
espertar estremunhado do negociante de couros, quando no era uma
pancada da mo esponjosa que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.

Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e as
criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e o
seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma carregao de
couros, e activar uma leva de escravos brancos para o Rio de Janeiro.

Rachel,  hora crepuscular da noite d'esse dia, foi ssinha sentar-se
nas escadas do cruzeiro, que defrontava com o portal da quinta, e ento
chorou as lagrimas represadas em tres dias de exasperada angustia.

Como tu serias linda alli de uma formosura do co, Rachel! Qual
Magdalena mais linda inventou o buril aos ps da cruz misericordiosa! E
se anjo tu eras de purissima alma; se as mesmas lagrimas te depuravam de
intenes culposas, que alegria no seria a do teu Creador, vendo-te
assim incontaminada, com menos ventura que muitas que no tinham no
corao uma fibra incorrupta!

Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdo da queda, ho-de
os anjos chorar-te,  Rachel; mas pediro a Deus que te leve para si e
para elles, como se houvesses cumprido immaculada o teu desterro do co.


XXII.

Jos Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrra no buxo,
disfarada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos
Lagares.

Das recahidas  que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe
empunha um caldo simples com meia ona de po esfarelado, Jos Francisco
desfazia meia gallinha na tigela. A inflammao gastrica
reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe
os succos das tres barrigas at descoroar rebatida pela brutal
compleio. A final nem a medicina pde acabal-o!

Ergueu-se Jos Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado
de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de
carroo at  Foz, e almoou com appetite. Voltou no dia seguinte, e
almoou duas vezes. Cubiou pescada, por que a viu sahir das redes, e
mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um
somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que no succede muitas
vezes aos justos)--e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde
a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de
Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre
um penedo sobranceiro ao mar.

Tomada a refeio, Jos Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os
beios pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabea 
bafagem fria do oceano, cruzou os braos em postura de quem medita, e
pensou assim:

--Como isto  tamanho! Como se faria o mar? Por que ser que o mar
cresce e minga? Quantas pescadas haver no mar? A gente sempre a comer
peixe, e nunca se acaba!

Entrava Jos Francisco na soluo d'estes problemas, quando a linha do
seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram ento com o
sublime do engenho humano as suas meditaes:

--E o vapor!?--dizia elle--Sempre os homens tem idas! Pelos modos o que
faz girar as rodas  o fumo do carvo! Uma cousa assim! E como a gente
come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em
que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que
qualquer cousa me trabalha c no interior!...

Estas consideraes entristeceram Jos Francisco, e o espectaculo do
oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e
algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde ento
passeavam muitas familias.

Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio Jos
Guimares, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na
praia.

O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a
atteno da prima.

Jos Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabea.

 preciso explicar o que o leitor j devia saber, se esta historia fosse
contada com mais arte.

Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve
quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho,
resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que Jos
Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus
parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco
mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a
quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.

Silvina no mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto
para apressar o casamento, to indignado ficou da avareza do moribundo,
que deu louvores a Deus de matar a tempo o villo, para que sua filha se
no conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do
sargento-mr d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo
tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto,
exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de
cabea d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse  filha que seria
prudente no dar de mo ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha
soffrido um insulto apopletico, e no poderia viver longo tempo.

Silvina, anjo de submisso, accedeu  vontade paternal, e trocou algumas
palavras com Christovo Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e
recebiam a uno conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em
que pegou o desamuarem-se:

O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabea com
furioso impeto, perneando fra d'agua. Como Silvina estivesse perto
d'elle, viu que o sapato d'ourlo n'um d'esses pinotes de arlequim
maritimo, lhe saltra de um dos... dous ps--digamos dous ps por
deferencia  historia natural.--E, quando o sapato, entumecido de agua,
ia ao fundo, Silvina disse  banheira que apanhasse o sapato do
cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando  tona
d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mo da
banheira, que lh'o atirava a elle, Christovo, bem assombrado, disse a
Silvina:

--Obrigado  sua atteno, minha senhora!

--No tem de qu--respondeu Silvina, sorrindo.--Porque no toma o senhor
o seu banho mais quieto?

--Gosto d'isto assim;--respondeu o morgado.

--Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.

--Nada, no , minha senhora;  que eu gosto de brincar com o mar; com o
amor  que eu j no brinco.

--Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o
senhor zomba com as victimas d'elle...

--Eu  que zombo, minha senhora!... No perca esta onda, que  boa.

O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natao,
deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou  praia.

Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e
esperou, disfaradamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca,
e deu de rosto com Christovo Pacheco. Sorriu-se, e respondeu  cortezia
do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da
Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o
linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado
sentia caimbras nas pernas e saltos do corao. Girava em roda d'ella,
puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que
fazia s vagas: metteu a cabea, e foi.

Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de
hora. D'esta conversao resultou ficarem convencionados para tomarem o
banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram.

Jos Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve
noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos
Lagares, e deu procurao para ser demandado Pedro de Mello por um conto
oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes
acontecimentos coincidiu a ida do commendador  Foz, e o seu encontro
com Silvina em Carreiros. Agora est dada a razo de ter perdido Jos
Francisco o tino, quando a viu  cata de conchinhas.

-- prima Silvina--disse Francisca--olha que est aqui o senhor
commendador Andraens.

--Bem se lhe d ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo--disse com
ira e amargura Jos Francisco.

Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo:

--Folgo muito em vr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia
dolorosa a sua morte, por muitas razes, sendo a primeira o receio de
vr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do
senhor commendador.

Jos Francisco respondeu com promptido sem mudar de cr:

--Quem deve, paga.  como . A senhora esperava ser minha herdeira?

--No, senhor; esperava merecer-lhe a considerao de mulher que
estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor no andasse jogando
entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que no vale para mim este
punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. Jos Francisco
Andraens no viesse por si mesmo certificar a conta, em que  tido, de
possuir uma riqueza que  o seu flagello, e o das pessoas a quem
empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em
perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraado de todos
os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de
meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde
que v. s. praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu
tivesse?

Jos Francisco tartamudeou esta resposta:

--Eu no estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. L foi o
meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim.
Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.

No ha que vr: Silvina era a mulher fatal de tres coraes, que por
ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a
consciencia da sua dignidade, e--o que mais  para assombro--a
consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a
natural grosseria, mais escravo se humildava Jos Francisco. Fulminava-o
a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que
faria lembrar o da magica da Colchida, se elle no fosse prco, antes de
ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que
o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submisso amor, que os
romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.

Antonio Jos Guimares, avesso  reconciliao de Silvina com o morgado,
e desejoso de a vr ligada ao seu amigo Andraens, esforou-se em
desamual-os, dando explicaes a favor d'um e d'outro, de modo que ambos
j as escutavam silenciosos. Jos Francisco acompanhou Silvina e
Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e
authorisou o linheiro a dizer de sua parte  menina que por causa d'elle
no se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente
sustar a comeada execuo sobre Pedro de Mello; presenteou com
alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro
de Mello as satisfaes que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao
arbitrio d'este as condies da escriptura nupcial.

E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.


XXIII.

Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, 
Foz. D. Marianna contrarira-lhe o desejo, at quelle dia, por saber
que a ventoinha de Margaride l estava, desafiando, com as suas
evolues amorosas, a irriso da gente frivola e a indignao das
pessoas srias. O jornalista, porm; que era oraculo em casa do
negociante Ferreira, aconselhra a excellente amiga de D. Antonia a no
impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que
Silvina se exhibia.

Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o caneiro onde os
grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima,
conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra
eminencia do fragodo, abarcava as pernas com os braos, e apoiava o
queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que frma a outra riba do
caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um co da
Terra-Nova a saltar s ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da
praia, envolto no seu cobrijo escarlate, franjado de borlas verdes, e
cahido a um lado com a natural graa, que usam dar-lhe os provincianos,
vesados quella elegancia de feiras.

Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:

--L est ella... No passemos d'aqui.

--E que quer dizer no passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o
charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge,
fingir o que no s? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella
mulher?!

--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice
isto, mas...  cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina.
O amor e o remorso so espinhos, que no desencrava do corao quem
quer. Para que te hei-de eu mentir, se me no posso enganar a mim? No a
esqueo, nem se quer a despreso quella mulher. Minha mi ajoelhou
commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle,
que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e no pude, meu
amigo! Como queres tu que eu possa dissimular  penetrao de Silvina o
que por ella sinto?! Melhor  que me ella no veja. Vai tu, se queres:
eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.

Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o
chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o
morgado de Santa Eufemia.

--Ento quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de
certo no, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem no, que est
acol conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vo das
gaivotas, como Cato d'Utica.

--Que ?!--disse Christovo, receioso de que o nome do romano fosse
algum chasco  sua ignorancia.

--Cato d'Utica, disse eu, meu caro senhor; no conhece este personagem?

--Nada, no conheo--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de
Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.

--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que l vem--retorquiu o da
Maya.

Christovo olhou na direco indicada, e viu Jos Francisco Andraens,
que descia lentamente a calada que conduz  praia. No teve mo da sua
raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina
com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:

--L vem o nosso homem!

E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas
apertadas entre os braos.

Silvina virou-se de lado com repello, e Leonardo Pires exclamou:

--Esto bonitos! isto sim, que daria idas a um Gavarni canado! 
humanidade tu s a caricatura dos monstros que a imaginao cria nos
seus delirios de cognac e absyntho!

Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli
se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo
que Jos Francisco se aproximava de Silvina.

--Ora viva!--disse o commendador  fidalga de Margaride--Como passou?

--Excellentemente, e o snr. Andraens?

--Est feito; no me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta,
e trabalhou-me c dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e
acho que vamos ao banho.

--Quando quizer.

--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou Jos Francisco,
apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pde, com as asperezas
d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso
da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfao, e cruzou as mos sobre a
barriga n. 2.

--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar?

--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa.

--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...

--Ah! sim... estava...

--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto  uma obra que
faz pasmar a gente! O que me d no goto  isto de crescer e mingar o
mar!... A senhora sabe a razo?

--Dizem que  effeito da attraco da lua.

--Da lua!--atalhou com espanto Jos Francisco.

--Sim, senhor, da lua;  o que dizem os entendedores; mas como se faz o
fluxo e refluxo do mar  que eu no sei, nem mesmo me importa saber...

--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e
gesticulando mudamente com os braos, como quem se esforava por
entender a aco da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de
alcatruzes.--Da lua no pde ser!--disse elle por fim, com a energia e
aprumo de Galileu,  sahida do carcere.

--Pois ento no seja!--disse Silvina com enfado.

--Porque a lua--tornou Jos Francisco, com os olhos no co, e os dedos
das mos afastados entre si--a lua est l em cima, e...

--E o mar est c em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de
riso.

--Ora ahi est! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me
explicassem como  que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... 
snr. Guimares! olhe aqui que vai j.

O snr. Guimares era o linheiro, que estava a pouca distancia com
Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de Jos Francisco, e ella
principalmente attrahida por um tregeito da prima.

--Diga-me c: voss sabe como  que a lua faz isto de crescer e mingar o
mar?

--Eu no estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a
mim, a mar cresce quando o vento  de mar, e minga quando o vento  de
terra.

--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o
commendador.--Mas da lua!...  que estava c a minha Silvininha a dizer
que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabea, menina?

--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando
francamente com Francisca da Cunha.

--Isso entendo eu... Agora--tornou Jos Francisco--se querem ir l
conversar sosinhos, vo, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns
arranjos c da nossa vida de noivos.

Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as
cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas
por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.

Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a
sua cadeira a Antonio Jos Guimares; mas Leonardo no se moveu, e o
linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da
Maya, que assobiava apparentemente distrahido a cano popular, cuja
letra : _Muito bem seja apparecido n'esta funco_...

Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porm,
bamboando a cabea, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:

--O que voss merecia, sei eu.

--Que regouga?--disse-lhe o da Maya.

--O senhor...--replicou Antonio Jos--ainda ha-de topar quem lhe d uma
boa lio.

--V-se embora--redarguiu Pires--Se no, atiro-lhe areia aos olhos.

--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro.

--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pdre. V-se
embora, homem, e diga l  fidalga que no ame parvos, se no quer
receber d'estas affrontas.

O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do
cho dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:

--Olhe que vossemec leva!

Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma
dobra do cobrijo, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez
um gesto ao terra-nova. O co comeou a tirar com os dentes pelas abas
do palet de Antonio Jos, e este a sacudir-se, e a florear a bengala,
que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio
foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se no tem botas de cano
alto, sahiria com as canellas estrincadas; e pde ser que os dentes do
terra-nova procurassem afiar-se em poro das pernas, no abroqueladas
das botas, se Egas lhe no fallasse de modo que elle, de cauda cahida,
veio rastejar-lhe aos ps.

Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava
perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse
saber ao seu co que nem todos os cidados traziam botas de cano alto.

Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podra forrar-se 
vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um
doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo,
viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e
descer agilmente as fragas resvaladias, para se entremetter na
desordem, que encontrou no periodo final do co arremettendo s pernas
do seu amigo.

Aplacado o incidente, entraram Silvina e Jos Francisco, cada qual em
sua barraca, para se vestirem.

Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de
banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o
commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes
adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e
onde s os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo
mergulhava, e vinha com ella, at marrar nas pernas de Jos Francisco.
Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdo e tornava para o seu posto.
Jos Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a
marrada era infallivel.  terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu
mergulhar o monstro da Maya; este, porm, nadando com os olhos abertos,
l foi abalroar com o homem, e pedir perdo pela terceira vez.

Jos Francisco esbofava no mar como tubaro ferido. Sahiu  praia
atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficra longe
do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a
via, resguardando-se de ser visto.

Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:

--Jorge de Sepulveda est acol, minha senhora! Anda aquelle seu bom
anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc. a cahir, a cahir,
a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de Jos Francisco
Andraens!...


CONCLUSO.

Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a
noticia do casamento de Jos Francisco Andraens com D. Silvina de Mello,
observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mes
de familia citaram-na como exemplo s suas filhas; e estas, bem que
exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na.

s suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fra um
sacrificio do corao  dignidade propria; por quanto, dous implacaveis
homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando
aos ps quantos deveres a civilidade impe a sujeitos, que no podem ser
amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito.
Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com
prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella
mil maravilhas.

Jos Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o
mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam
a contemplal-o  porta dos snrs. Pintos Leites, na calada dos Clerigos,
nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. Jos Francisco
estava um todonada melado de rosto; mas no lhe iam mal aquelles ares de
noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e cr de poesia.

O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o
balsamo da vida: morrra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina
casra.

D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas
com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local
sagrado que d luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vo celebrar
n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se no trpe, na essencia.

Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas
prosperidades a Jos Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e
invocou do anjo da piedade o desafgo do pranto.

Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se no era o anjo da piedade, tinha
em si um santo e mysterioso condo de espremer entre os dedos
inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peonha dos
coraes, cancerados pelo amor.

Alguma vez ver o leitor que boleus deu toda esta gente com as
costumadas voltas do mundo.

O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACO DA
POESIA.

 o natural seguimento dos Annos de prosa.

FIM.

    [1] No v entender alguem que o romancista est phantasiando.
    Quando Napoleo III casou com a condessa de Montijo, duas familias
    ventilaram em Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros
    que levra a Castella os embries da imperatriz. As familias
    litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha no Porto,
    e outros de igual appellido de Abrago, ahi para as cercanias de
    Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e nomeadamente no
    _Portugal_, jornal realista do Porto. A critica oscillou longo tempo
    indecisa entre as duas familias, at que um dia, canada de
    oscilaes, cahia a rir deixando s duas familias nobilissimas o
    direito salvo de enxertarem o imperio francez l em casa.

    [2] _V. do Arcebispo._


      *      *      *      *      *




O ARREPENDIMENTO.






O ARREPENDIMENTO.


ROMANCE.


Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha,
minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente
confesso que no ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de
uma mulher que soube envelhecer. A sua conversao instructiva e
divertida,  um inesgotavel thesouro de lembranas, anecdotas,
observaes chistosas e reflexes circumspectas,  finalmente uma
revista do passado.

D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava  amenidade da conversa,
a do caracter, que era brando e indulgente.

Quando tinha occasio de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as
horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as
gastava a distribuir finezas e galanteios s mais formosas rainhas dos
mais brilhantes sales. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para
o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e
voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o corao satisfeito e
melhor.

A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D.
Mafalda n'um d'estes seros em que vos fallei.

Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira 
Voltaire, tendo a seus ps, deitado em um cochim, o seu cosinho
querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e
parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flres do
jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella
vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um
abuso de confiana; contei-lhe o succedido, e no calor da narrao no
poupei ao culpado as maiores imprecaes, nem deixei de lhe dizer que
desejava fazer-lhe todo o mal possivel.

--Devagar, meu querido amigo--me disse ella--no o julgava to
irrascivel, nem que tivesse to pouca caridade para com o proximo. Sabe
l, se, com a vida, no tiraria ao culpado o merito de para o futuro se
poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe
infringisse o castigo no seria o destinado por Deus para esse
arrependimento?

--Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expresso, um
pouco subversiva da ordem social.

--Deus me defenda--me replicou--de querer que o culpado no seja
castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro
praticou contra ella; quiz dizer smente que devia deixar s leis o
cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, no devia,
como individuo, fechar assim desapiedadamente o corao a todo o
sentimento de commiserao por um desgraado e infeliz, no corao do
qual talvez ainda bruxelei algum claro de virtude, que uma occasio
favoravel e propicia, que se apresente, ainda pde despertar, e fazer
com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e
aproveitavel.

Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabea, que
so um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:

--Est com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda
temos algumas horas?

No recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltao
d'espirito em que estava.

D. Mafalda principiou assim:

--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmos, dos quaes, o mais
novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcanado
fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus
commettimentos e especulaes. Emilio da Cunha,  custa de muito
trabalho e economias, pde alcanar uma fortunasinha, que lhe permittia
esperar com socego, o momento de descanar da vida laboriosa em que
tinha vivido.

Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irm, que tendo
seguido seu marido  India, para onde elle tinha sido despachado, e no
vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, no lh'os
recordarei mais.

Aconteceu que o irmo de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma
d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal
sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma
febre cerebral. A herana, que deixou, foram dividas e um filho.

Emilio da Cunha, que tinha um corao bondoso, e um caracter
pundonoroso, para que a memoria de seu irmo no ficasse deshonrada,
comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para
lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno
de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados
quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.

Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha j 15 annos
d'idade, mas o pai, inteiramente entregue s especulaes, e aos
cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua
educao, por isso o seu retrato moral, n'esta occasio, nada tinha de
vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noes que
possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o
respeito aos direitos d'outrem era para elle uma inveno estupida dos
homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em
fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de
virtude, existia no corao de Roberto, ainda estava em embryo, por que
se no tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai,
cego pelas especulaes, concentrava todas as suas faculdades
intellectuaes na realisao d'um impossivel, no deixou Roberto de ir ao
collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava
as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praas. D'ahi
proveio o tomar relaes com meia duzia de garotos, ou vadios,
permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas aces, nem nas
palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia,
roubando os pomares; e o endurecimento de corao, castigando
barbaramente animaes inoffensivos.

Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho
era dotado, e a desmoralisao, que j se tinha infiltrado no seu
corao, mas concebeu a esperana de o regenerar com desvelos,
paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei
Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a
realisao d'este seu empenho, to justo e louvavel. Era uma menina para
quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e
corao, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia
amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que
se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus
fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do corao os maus
instinctos. Esta magia no teve menos poder sobre Roberto, do que sobre
os outros, de sorte que a regenerao que elle soffreu, nos seus
costumes e aces, foi to sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha
revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados
que tinha colhido.

Deu-se porm uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi
desgraada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se
tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma
carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da
Cunha, que seu irmo mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser
o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens
rusticos, e estabelecimentos industriaes  no que consistia a fortuna,
dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o
tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, alm de
se no julgar com conhecimentos e foras para bem gerir a industria com
que seu irmo tinha feito fortuna, no tinha desejo, nem queria
expatriar-se. Foi at com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao
Brazil tomar posse e liquidar a herana; parecia que um secreto
presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a
considerar como uma desgraa esta viagem, a que os sagrados direitos de
sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.

Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precaues para a
tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de
educao mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa
particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua
idade, pois que j ento tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de
que at uma criana de 8 annos poderia zombar.

Emilio da Cunha aportou a salvamento s terras de Santa Cruz, e logo que
saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os
meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente
os resultados no correspondiam aos seus esforos e desejos, porque de
todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos
e embaraos no prevenidos nem esperados. Havia j um anno que Emilio da
Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios no estavam mais
adiantados, que no primeiro dia.

Canado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe
chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um
desassosego de que no podia explicar a causa, deliberou entregar os
seus negocios e a liquidao e arrecadao da heranca a um procurador, e
embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.

Que se tinha porm passado no Porto, durante este tempo?

 o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me
ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer s minhas leitoras, se
ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lr.

Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguia,
fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e
infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que
tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram
portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na
baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por
companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras
brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra
mendigos, ou ladres. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as
maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassido, com os vestidos em
desalinho, os cabellos eriados, tomal-o-ia por um bandido de trinta
annos, quando elle no tinha mais que dezenove incompletos. Valentina,
pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e
virtudes.

Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto,
agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um
pequeno episodio d'esta muito veridica historia.

De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha
desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descanar, e
ahi passar at ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto,
na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso
por abraar e apertar contra o corao. Julgo desnecessario o dizer-lhe,
pois me parece j o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha,
que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto
amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que
no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeio, deitou-se
e adormeceu, embalado por sonhos felizes.

No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, j subia pela escada
do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia
de portas de quartos, um homem de m catadura. Era um d'estes
_cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer
pretexto, de manh cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto
que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma
mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os no obriga a
retirar-se de mos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na
porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se
reconhecia facilmente, que era um novio, que ia tentar os seus
primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteao_.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia,
e irresoluto se devia ou no penetrar no quarto de que a porta se achava
meia cerrada, metteu primeiro a cabea, depois uma perna, e por ultimo
todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o
hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabea,
Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu
tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de
ferro at ao Carregado, e ahi na mala-posta at ao Porto, onde trinta e
seis horas depois se achava nos braos de sua querida filha Valentina,
que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

--Tu sahes j, j do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da
Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgaz--que vida
socegada e feliz no vamos passar todos tres, no  assim meu querido
pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz
soturna.--No quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai,
mas a todas ellas no obteve outra resposta, seno a completa prohibio
de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porm no tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provaes, que
Deus lhe destinra. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado
do Rio de Janeiro, quando recebeu a participao de que o procurador,
que ficra encarregado da liquidao e arrecadao da herana, tinha
cumprido a sua misso, mas que, depois de ter arrecadado a somma
importante, que produzira a mesma herana, tinha desapparecido, sem que
as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem
dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque,
impaciente por satisfazer os credores de seu irmo, pai de Roberto,
tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.

O golpe foi forte, mas ainda assim no o foi bastante para poder
subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina
n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai.

Renunciando heroicamente s commodidades da vida, em que at ento
tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma
pequena casa, na qual soffreram privaes diarias e penosas, tratando
sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em
trabalhos mal retribuidos.

Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade,
principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus
primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso
melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que
assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu
aluguel, e de j no receiarem tanto nem o frio, nem a fome.

Valentina ia entregar a sua obra  modista, a qual satisfeita com ella
lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer.
A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastana mediocre, que era
por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.

Decorreram assim dous annos.

Um dia, em que Valentina estava s, lhe entregou o carteiro uma carta, e
qual no foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.

Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento
em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu
tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos
para na fuga se salvar s imprecaes d'indignao do velho. Chegou
offegante ao Terreiro do Pao, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir
n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito
tempo, com a cabea escondida entre as mos, mergulhado em acerbas e
crueis reflexes.

Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revoluo; o seu
procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e
hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em
suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no corao
sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma
conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os
seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrana, que o seu
anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a
sua rehabilitao, e a no descanar sem a ter chegado a alcanar.

A occasio favoravel no se fez esperar muito, por que um capito d'um
navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu
passagem gratuita, mediante os seus servios e o seu trabalho na viagem.

Aportou Roberto  California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se
embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um
estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua
felicidade se tornar completa, o obter o perdo de seu tio, e a
esperana de poder tornar a vr sua prima, cuja imagem tinha
constantemente na ida, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de
trabalho e ordem, de que no pensava mais em se desviar.

Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua
prima.

Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar to grata
noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.

Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas,
Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra.
Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldio nos labios;
ella lanou-se-lhe de joelhos aos ps, chorou, supplicou, mas elle a
tudo ficou impassivel e inflexivel.

Valentina consternada respondeu  carta de seu primo descrevendo-lhe o
succedido, e a inutilidade de seus esforos; mas para o no desanimar
promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria at que chegasse a mover
seu pai  commiserao e piedade, de que no desesperava. A carta
continha tambem a descripo de todos os successos, que se tinham dado
desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha,
a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal
retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de
sua posio, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortao e
amisade.

A situao de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo,
uma modificao muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao
aniquilamento da sua fortuna.

Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe
entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a
titulo de restituio. D'onde tinha vindo este dinheiro?

Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha
roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua
consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte
da restituio, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de
concordar com a opinio de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de
lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.

Qual das duas opinies era a verdadeira,  o que nos no importa saber,
o que se sabe  que a abastana ou decencia tinha reentrado em casa
d'Emilio da Cunha, e as idas do digno e honrado velho, foram-se
tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.

Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo
Roberto, e ella no perdendo esta occasio to propicia, que se lhe
offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de
seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella
quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa
alguma.

Estaria ou no convencido?

A pergunta no tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido
sem colera e com socego as allegaes a favor de seu sobrinho, o que j
era um bom indicio da mudana que n'elle se havia operado.

Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro
commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que
havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre
algum novo passo dado na estrada da reconciliao.

Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha
seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a
sua filha:

--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?

--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina.

--Queira Deus que te no enganes.

Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao
jantar, gritando, como se continuasse uma conversa comeada:

--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppes, com
que prazer e alegria........

No terminou a phrase, mas a expresso benevola da physionomia de Emilio
da Cunha indicou a Valentina o complemento da ida.

Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu,
e fechou-se a correspondencia.

Uma manh Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas
elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado
a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha
sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de
flres, olhava sorrindo para Valentina, que, de p, junto d'um aafate
em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:

--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era s
voltar para te ser concedido o perdo, depois de me teres feito soffrer
com a tua ausencia e ingratido? Muito bem; visto que o teu regresso
prova um arrependimento sincero, perdo com prazer; no  assim,
paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos
com uma expresso de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber
os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha no deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a
face.

N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina
dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava
sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de
Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a
poder imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que j comprehendeu que, para
soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituio.

D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua
historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha
expendido antes de comear.

--Ah!--lhe disse eu com admirao sincera--v. exc. podia facilmente
escrever um romance.

--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como
produco da minha imaginao e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa
discusso.

No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu
sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos
suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com
extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma
felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um
anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que
se pde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu
nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial
e industrial, n'uma palavra nada faltava  sua gloria, fortuna, e
felicidade domestica.

--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos
retiramos.

--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.

--Pois aquelle que viu  o Roberto da minha historia.

Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexes: Que a
regenerao do homem pelo arrependimento no  utopia, e que a sociedade
e a sua organisao  que so as causas principaes, que occasionam que
muitos de seus membros no se regenerem, por lhe embargarem ou matarem
logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no corao.

Pensem, e vero o corollario que tiram.

FIM.


      *      *      *      *      *




A GRATIDO.






A GRATIDO.


ROMANCE.


I.

Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa
de neve cobria o slo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve
no tardava a cahir. Os ramos ns das arvores dos montes tremiam
soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e
tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.

Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com
difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A
criana, d'espao a espao, soprava s mosinhas inteiriadas pelo frio,
e no se podendo sustentar sobre os ps, que tinha inchados pelas
frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com
uma energia superior  sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao
lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo
modo como andava, e tateava o caminho com a multa, via-se que era cega.

--Aonde vamos ns, Rosa?--perguntou a velha  rapariguinha.

--Em meio caminho, minha av.

--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres
pernas j esto canadas, e parece-me que no chego ao fim da jornada.

--Encoste-se ao meu hombro, avsinha, que eu no estou canada.

--No, no. Tudo est acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome,
e muito frio para vencer o caminho at S. Cosme. Ai meu Pai do co, que
me sinto desfallecer...

Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.

--Avsinha, avsinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o
peo eu; mais um pequeno esforo e chegaremos a S. Cosme.

A cega no deu accordo de si.

--Avsinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me
abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixo?

--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus,
no permittaes tal.

--Ento levante-se que lh'o peo eu; se fica aqui mais tempo o frio
matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.

--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr. D.
Thereza receber-nos-ha?

--Ha-de receber sim, minha avsinha, eu lh'o afiano. No creio que a
boa snr. D. Thereza nos despea. Quando eu lhe ia vender flres
silvestres, que apanhava no monte, abraava-me, e dizia-me muitas vezes,
que desejava que eu fosse sua filha.

--No duvido que ella te receba, porque s muito linda e agradavel;
agora o que eu no creio  que me receba a mim, que sou uma velha e
cega, que para nada sirvo.

--Se assim acontecer, voltaremos  nossa alda, e os bons lavradores,
que conheceram meus paes, tero piedade de ns, soccorrer-nos-ho, e eu
trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.

A av, muito commovida, apertou ao corao a pequena, e murmurou
palavras de ternura e gratido; e reanimada por esta felicidade, que
Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o
caminho de S. Cosme.

O vento soprava j com mais fora; o ar tinha escurecido mais, e
pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com
frio, fazia esforos sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a
pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou,
e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior
abundancia.

--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas no posso; deixa-me
ficar.

--Avsinha, eu j avisto a torre da igreja de S. Cosme.

--Ests bem certa d'isso?

--Eu no queria mentir...

--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.

--No tenha receio de me canar, minha av; sou forte, e no estou
fatigada. Encoste-se ao meu hombro.

--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.

Chegaram finalmente a S. Cosme,  quinta de D. Thereza de Sousa, depois
de mil esforos, que canaram completamente av e neta.

Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no cho. Entrando na
cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reaco to violenta, que
desfalleceram.


II.

D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para
serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado
todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal
era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos
do lar, em que ardia uma grande fogueira.

--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a
esta hora, e com este tempo vieste at aqui com esta boa mulher.

--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha  minha neta.

--Sim, snr. D. Thereza,  minha av, de quem tantas vezes tenho fallado
a v. exc. e...

--Ento porque no continuas?--lhe replicou D. Thereza.

A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma
tal expresso de supplica, que a commoveu.

--Falla, falla, minha menina. No tenhas receio. Queres pedir-me alguma
cousa, no  assim?

--Vde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a
custo,--eu e minha av, somos muito desgraadas. Meu pai, que era
rachador de lenha, feriu-se pelo S. Joo em uma perna com o machado.
Minha mi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que  um
homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a
casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e no queria vir commigo
para no torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me
acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito
mal, e que no promettia cural-o. Duas semanas depois veio  ferida uma
molestia, de que me no lembra agora o nome, e meu pai morreu.

Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluava. D. Thereza abraou a
rapariguinha, apertou a mo  pobre velha, e disse:

--Para hoje j  de mais, manh...

--Perde-me, snr. D. Thereza,--replicou Rosa,--mas  melhor que eu
termine hoje,--e continuou:

--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mi cahiu de
cama; a febre no a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que
minha av me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha
mi. Um dia abraou-me e disse-me:

Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que ser de ti?

Trabalharei, lhe respondi.

s muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te
receba sob a sua santa guarda, e te no abandone. Nunca desampares tua
av, s-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas no pde,
abraou-me e  avsinha, e expirou.

Desde ento alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e
soccorreram; mas como no so ricos, e precisam de mudar de terra por
no terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho  senhora,
pois que, sendo to boa, no deixaria de nos recolher, que somos to
desgraadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e comeo a
lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro.
Minha av tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de
satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos
ps de D. Thereza--no nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e
faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a
Deus pela vossa vida e felicidade.

D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica,
que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.

--Levanta-te, Rosinha, manh fallaremos n'isso. Tu e tua av ide-vos
deitar. Sempre te direi, que s muito linda e corajosa, para que se no
tenha piedade de ti.

Rosa beijou com reconhecimento as mos de D. Thereza, e a cega encheu-a
de benos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e
quente, em que um somno reparador lhe reanimou as foras.


III.

Ainda mal a aurora tinha raiado, j Rosa estava a p. Fatigada, como
estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
cedo, mas fez um esforo para mostrar os seus desejos a D. Thereza.

Arranjou-se, o melhor que pde, com os seus velhos vestidos, e, depois
de ter dirigido mentalmente a Deus uma orao fervente, desceu ao andar
terreo.

--J a p,--lhe disse alegremente D. Thereza.

--Estava to canada do caminho d'hontem, que receei, j fosse tarde;
mas graas aos vossos beneficios, minha senhora, j estou prompta, para
o que me determinardes.

--E tua av?

--Ainda dorme.  to velhinha e to doente, que vos peo tenhaes piedade
d'ella.

Rosa ergueu as mos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.

D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.

Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia,  que
tinha alcanado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.

Fosse como fosse, o que sei , que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mos, e a viu com os
olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
uma supplica to humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
resistir.

N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
injusto com ella, por que, recolhendo a av e neta, tomava um encargo
bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criana estava a fazer
dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
compridos caraces louros, e animado com uns grandes olhos azues
escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distinco n'uma
criana, ainda to tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
desenvolvida.

A mi, logo que ella teve tino para se no perder nos caminhos,
mandava-a apanhar flres silvestres, que ia vender s familias mais
abastadas das aldas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar,
e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.

Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
fidalguinha.

Se tinha adquirido maneiras delicadas, no havia perdido as boas
qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
conhecia adorava-a.

O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
n'um instante pela ida a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resoluo
de recolher a av e a neta.

--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe no era habitual,--porque
espero has-de ser uma boa criada, servial e trabalhadeira.

--Ento fico em casa de v. exc.?--disse Rosa, no podendo crer em tanta
ventura.

--Ficas, sim, e parece-me que nunca me dars motivo para me arrepender
do que hoje fao.

--Oh! minha senhora, estai certa que me esforarei o mais possivel, para
vos agradar e satisfazer os vossos desejos.

--Assim o espero. Anda vestir-te.

--Desculpe-me, senhora. Mas minha av...--e Rosa parou corando.

D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:

--Que queres a tua av?

--Ella tambem fica?

--No. Tua av  cega e velha, para nada serve, e eu no sou rica
bastante, para me encarregar da sustentao de duas pessoas.

--Ento, senhora, agradeo os vossos beneficios, e todo o bem que me
querieis fazer, mas no posso abandonar a minha avsinha, que morreria
de paixo.

Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos  nossa alda.

--E que has-de fazer na tua alda?

--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da
sua casa, que estou certa me no negar. No sou robusta, mas tenho
coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o
vero irei vender flres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a
pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para
ambas. Logo que chegue a primavera no seremos pesadas a ninguem...

D. Thereza apertou Rosa nos braos, e chegou-a ao corao.

--Basta, Rosinha, tu s um anjo do co, que Deus enviou a minha casa
para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irs participar a
tua av, que ambas ficaes para sempre em minha casa.

Descrever a alegria da av, quando soube a deciso de D. Thereza, -me
impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vs, que deveis ser dotadas
de bom e piedoso corao, melhor a podereis imaginar. Abraava Rosa,
agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo
fazer todo possivel para ser menos pesada  sua bemfeitora. Rosa nada
dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua
gratido.


IV.

Rosa, ainda que novinha e de fraca organisao, tornou-se util em casa.
Incansavel no trabalho, de manh cedo tratava da capoeira e do pombal;
depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,
fiava na sua roca.

Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto
vr esta criana to tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como
o faria a melhor mulher de casa.

D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela
ter recolhido. A av tambem no era inutil. A cegueira no a
impossibilitava de fiar desde pela manh at  noite, e o seu trabalho
era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.

Chegou a primavera. Comearam a desabrochar com o tepido spro d'esta
estao, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de
cora d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de
calices perfumados.

Rosa, quando ia  serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os
caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,
as fontes escondidas pelas aras, e as arvores, sob as quaes tinha
encontrado as mais lindas flres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada
diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como
se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e
animao, esta poetica criana fazia cestinhos de vimes e juncos, que
guarnecia com musgo e flres silvestres, mas com um gosto e belleza
exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preo.

Ganharam renome os cestos de Rosa.

Em todas as quintas e casas ricas dos arredores no queriam outros, e
at muitas familias da cidade, que iam passar o vero quelles sitios,
compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.

D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu
que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a
fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.
Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor  sombra
dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.

Passou-se assim o vero, e D. Thereza no teve que se arrepender da sua
resoluo. Um certo numero de meias coras de prata provou o bom
resultado do negocio de cestos e flres.

O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal
maneira a ir todas as manhs para a serra, que chegava muitas vezes a
esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente at  baixa d'ella.
Voltava ento muito apressada  quinta e redobrava d'actividade, para
fazer esquecer as suas faltas involuntarias.

Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi
augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e
flres.

D. Thereza considerava Rosa como sua filha, no podendo estar sem ella
um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que
Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do
lugar.

A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na av; tratava-a com tal
respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mi de D. Thereza,
tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.

A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam
julgar seguros; mas como nada n'este mundo  immutavel, o momento, em
que a adversidade ia estender o seu brao de ferro sobre as duas
infelizes, no estava longe.


V.

Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupaes de Rosa. Foi
com enthusiasmo, que a candida e poetica criana encontrou as flres,
suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
mercado.

Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extraco, como no
anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
esta linda criana por algum tempo.

Rosa, vestida  lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
voz era agradavel, e as maneiras to delicadas, que quasi sempre as
freguezas, ao preo do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.

Rosinha tinha uma paixo ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
aprendido a lr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
um livro para se entregar  leitura.

D. Thereza pela sua parte tambem no obstava aos desejos de Rosa, tanto
que se lhe no dava que ella faltasse s suas obrigaes; mas devemos
fazer-lhe justia dizendo que sabia alliar a satisfao dos seus
desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso s depois de ter
terminado os seus affazeres  que se dava ao estudo.

Estava Rosinha uma occasio sentada  borda d'um ribeiro, entretida a
colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
aproximou uma senhora ainda joven.

--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
joven senhora com modo affavel.

Rosa levantou a cabea, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:

--Fao cestinhos com flres para vender.

--Quero ento j avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flres, por
isso queria que me fizesses um cestinho j, e se eu ficar contente
has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?

--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
satisfazer, vou j preparar o vosso.

--Assento-me aqui ao p de ti e vamos conversando. Como te chamas?

--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.

--Assim, Rosa, o teu trabalho  fazer cestos de flres para depois os
ires vender?

--Sim, minha senhora.

--E teus paes em que se occupam?

--J no tenho paes; s me resta minha av, que  cega.

--s orph, e onde moras?

--Estou em casa da snr. D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
to boa, como rica.

Ha um anno, que eu e minha av no sabiamos aonde nos haviamos de
recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que no tinhamos
comido, quando de repente me lembrei da snr. D. Thereza. Eu e minha
av, que ento moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
para S. Cosme. O caminho  muito mau, por isso mais d'uma occasio
julguei que minha av ficava na estrada, porque j no podia andar; mas
o Senhor teve misericordia de ns, e felizmente terminamos a jornada. A
snr. D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.

--Amas ento muito a snr. D. Thereza?

--Se a amo. No queria mais nada, seno poder reconhecer todo o bem, que
nos faz. No desejo seno crescer e robustecer para lhe poder servir
d'utilidade.

--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te no
encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.

Parece-me que o meu cesto est acabado?

--Ainda lhe falta uma cercadura de _no me deixes_. Permitti, senhora,
que eu v ao proximo ribeiro colher estas flres, porque alli as ha mais
frescas, e em mais abundancia.

--Ide, que aqui te espero.

Rosa partiu correndo.

D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
Thereza, tinha vinte annos.

O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um
brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma
palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.

Sua mi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
aconselhado os ares do campo, e o no constrangimento, como os meios
mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
quinta proximo da serra de Vallongo.

D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se 
sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as aras. Ao
principio a viscondessa receiou que estes passeios to longos
prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
vigorosa, e que se a pallidez no tinha desapparecido, a expresso
soffredra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
obter o triumpho sobre a molestia.

D. Julia era to boa, e ao mesmo tempo to prudente, que sua mi no
temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
phantasias.

A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irm nos seus
passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
sua irm, dando como razo, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
esses _estupidos_ e _rudes_ aldeos, que habitam os campos, e a quem
ella acariciava, e que alm d'isso estragava os seus vestidos seguindo
D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu corao s
imperava o egoismo.

Num d'estes passeios  que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
encantada com a sua innocencia.

Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e j receava que ella no
voltasse, quando a viu vir correndo.

--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
muito longe colher as violetas e os _no me deixes_, porque queria que o
meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
a sua apreciao.

Uma alegre exclamao de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.

--Quero abraar-te, minha querida menina; ha muito tempo que no vi nada
to lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.

Este cestinho podia vr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
folhas verdes, ainda humidas; uma cora de lirios cercava as violetas, e
em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
formando as azas.

--No quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
uma obra to bella tenha um viver ephemero; vou j bordar um quadro,
cpia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
queres por este trabalho?

--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
minhas freguezas.

--Mas quanto  que custam ordinariamente?

--Tres ou quatro vintens.

--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.

--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.

--Caro, no, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
maior preo, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho.
Toma, Rosinha, no tenho aqui seno esta meia cora, mas amanha a esta
hora apparece aqui, e fallaremos...

--No posso aceitar o que me des, minha senhora, porque  muito.

--Queres fazer-me zangar?

--No, senhora.  a primeira vez que a vejo, mas j a estimo muito. Eu
no preciso de nada; a snr. D. Thereza  muito minha amiga e...

--No  uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
prata na mo de Rosinha--no te esqueas da recommendao, que te fiz,
de estares manh aqui a esta mesma hora.

E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, j D. Julia tinha
desapparecido, levando na mo o cestinho.

Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeou
ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
Thereza o seu encontro de pela manh, o que lhe tinha acontecido e
perguntou-lhe se devia ou no guardar os cinco tostes.

--No te authoriso a pedir, Rosa, mas isso no  uma esmola,  um
presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
J sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
com o qual te hei-de comprar um rico jaqu para o S. Miguel.

--No, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--no  esse o meu
pensamento, e que me causa tanta alegria.

--Que  ento?

--Rogo-vos que me no faaes perguntas; depois o sabereis.

--Guarda o teu segredo, porque sei que no s desgovernada, e que o no
has-de gastar mal gasto.

Rosa abraou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
de flres e cestos.


VI.

D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
determinado.

A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
caminho, ao encontro de sua filha.

--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.

--No, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago,  que foi a causa
da minha demora.

E D. Julia mostrava a sua mi o cestinho, que Rosa tinha feito.

--Como  lindo--respondeu a viscondessa--No sabia Julia, que tinhas a
prenda de fazer cestos de juncos entranados.

--No fui eu que fiz este cestinho, minha mi.

--Ento quem foi?

--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.

--Uma lavradeira?!

--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mi, que por todo este
trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?

--No te pergunto quanto lhe dste, por que conheo a bondade do teu
corao, e tenho a firme convico de que no abusaste da sua
simplicidade.

--Dei-lhe s meia cora, por que no tinha mais na minha bolsinha. No
queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
se chama) para nos encontrarmos manh, no mesmo sitio,  mesma hora; e
se ella, como penso, fr digna da sympathia, que me inspirou, e do
interesse que j me causa, consentir-me-heis, minha boa mi, que a tome
sob a minha proteco?

--Consinto em tudo, minha filha, que te d prazer, e distraco. Se a
tua protegida fr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
accordaremos no que devemos fazer para seu bem.

D. Julia abraou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
bondade.

N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.

D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
desceu  sala a buscal-o.

D. Bertha estava examinando o cestinho com atteno e minuciosidade.

--No esto to bem dispostas e combinadas essas flres, Bertha?--disse
D. Julia.

--Assim, assim. No gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo.
Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.

--No concordo com a tua opinio. Estou convencida de que Rosa no podia
ter melhor gosto.

--Rosa?

--Sim, Rosa. Ah!  verdade; ainda te no contei o encontro, que tive
esta manh. Ora ouve.

D. Julia contou a sua irm minuciosamente toda a conversa, que tivera
com Rosa.

Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.

--E, sem duvida, Julia, j te affeioas-te a essa pequena; no 
assim?--disse D. Bertha.

--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a
torna digna da proteco, que se lhe dispensar.

--O que mais me admira e me espanta, Julia,  a rapidez com que
sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides,
que essa pessoa  digna da tua affeio e amisade... No quero tomar-te
o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, no  assim?

--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.

--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que
liguemos alguma atteno s flres dos nossos parques e jardins,
concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
s tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.

--A minha opinio, Bertha,  exactamente o contrario. Mas isso no
admira, por que ns raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia.
Ponhamos isso de parte; queres tu vir manh, commigo e com a nossa boa
mi, vr Rosa?

--No posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem
amanh aqui passar o dia. Alm d'isso, fallar-te-hei francamente, no ha
nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar
uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um
tanto aborrecivel.

--Rosa  muito linda e interessante.

--Para ti, Julia, todas as lavradeiras so lindas e interessantes. Para
mim todas so feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse
D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um soph.--Vai, Julia, vai
pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para
onde espero ir muito breve.

Estas ultimas palavras j mal se perceberam, porque foram acompanhadas
com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.

D. Julia lanou sobre sua irm um olhar de compaixo e sahiu.

Alguns instantes depois deu principio ao quadro.


VII.

No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cdo, para adiantar o seu
trabalho, e poder assim dedicar mais tempo  joven senhora, que to
amavel e generosa tinha sido com ella.

Trabalhou com tal desembarao, que, muito antes da hora marcada por D.
Julia, tinha terminado o seu servio.

Aproveitou portanto o tempo entregando-se  leitura d'algumas paginas
d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com
atteno, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para
exprimir a sua alegria e enthusiasmo.

Estava Rosa de tal sorte entregue  leitura, que no presentiu a chegada
da viscondessa e de sua filha D. Julia.

--Que livro ests lendo, com tanta atteno, minha menina--lhe disse a
viscondessa.

Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:

--So as _Meditaes religiosas_ de Rodrigues de Bastos.

--E encontras grande prazer na sua leitura?

--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada  borda d'um regato,
ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha
alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se pe
em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que
nos cercam, e a quem no fundo do meu corao adoro e venero.

A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do
campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.

--E que mais costumas lr?--perguntou D. Julia.

--No tenho muitos livros. Alm d'este possuo um cathecismo, uma vida de
santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos
d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de
geographia, que me deu o mestre escla da minha freguezia, mas que no
leio, por que tem muitas palavras, que no entendo.

--Pelo que me dizes conheo que tens desejos de te instruires. Se te
proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?

--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso  impossivel, porque,
para ir todos os dias  mestra,  preciso ser muito rica.

--Mas se te mandassem  mestra?--insistiu D. Julia.

--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.

--Pelo contrario; eu e minha mi, viemos procurar-te para que nos
conduzisses a casa da snr. D. Thereza, e, se a tua protectora estiver
satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias 
mestra. Ento no respondes?

--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria
agradecer-vos, mas no posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?

--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr. D. Thereza, e isso
indica um bom corao; s trabalhadeira e tens desejos de te instruires;
mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a
viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr. D.
Thereza.

Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha.
Pelo caminho respondeu modestamente, e com graa, a todas as perguntas,
que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas
senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.

Quando chegaram  quinta, D. Thereza no estava em casa, mas no devia
tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou s duas senhoras
cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e
morno.

D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.

Rosa trouxe ento uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu
sobre uma mesa, na qual collocou o melhor po, que havia em casa,
manteiga e um copo de leite.

D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e,
reanimadas com elle as suas foras, pediu para visitar a quinta.

A av de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de
clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance
antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presena, ninguem seria
capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi
morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em p, encontramos
seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.

A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta,
prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.

--No vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a
viscondessa--permitti-nos smente que conversemos por um instante
convosco.

-- muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a
cega--estou portanto s vossas ordens.

--Visto isso no vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a
vossa neta?

--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella,
que  a minha beno sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa
d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era
rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mi de Rosa, seguiu
passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque no sabia o que havia
de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avsinha, eu
conheo uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa
nos ha-de recolher. E foi verdade.

A snr. D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peo a Deus
todos os beneficios e benos, teve a caridade de recolher em sua casa
uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque
ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando at o corao,
commovem e decidem  compaixo. Vai em dezoito mezes que aqui nos
achamos. Fio um pouco para no estar em descano; mas Rosinha, senhora,
Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manh at  noite. Em
quanto que dura o vero, occupa-se a colher flres na serra e no campo,
e a fazer cestinhos com ellas; mas isto no obsta a que, quando se
recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se
quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito
tempo.

Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde ests tu, que te no
chegas a mim para te dar um abrao?

Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se
retirado, quando a av comera a elogial-a.

A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito
pela av, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.

Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a
D. Thereza como sua filha sympathisra com Rosa, e estava resolvida a
tomal-a sob a sua proteco, se D. Thereza a isso se no oppozesse.

--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e
venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me
d'ella: porm, se fr sua vontade, no me opponho, por que julgo lhe
procuraes a sua felicidade; mas ponho por condio, que lhe no
prohibireis vir algumas vezes visitar-me.

--Isso, senhora,  um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porm
interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.

D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:

--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?

--Pois vs, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
embora?

--No. Pergunto smente se me queres deixar, para te tornares uma menina
da cidade, instruida e de maneiras polidas?

--No, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lanando-se nos braos
da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
me instruir e de aprender, mas, se para isso  necessario o deixar-vos,
antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora,
quando eu e a minha querida avsinha, estavamos quasi a morrer de fome,
e havia de ser to ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
utilidade, vos abandonasse? No, senhora, nunca, nunca vos deixarei.

--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
razos de lagrimas.

--Pelo que vejo, Rosa, ests bem decidida a no vir comnosco?--lhe disse
a viscondessa.

--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vs, est a snr. D.
Thereza, que salvou a minha pobre avsinha d'estender a mo  caridade
publica e que sempre to minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
assim fallo...

--D-me um abrao, minha menina--lhe disse a viscondessa
interrompendo-a--d-me um abrao, porque te mostraste tal, como eu
desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.

No tenhas receio, que te separemos da snr. D. Thereza. Pediremos
smente  tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
beneficios, que te prodigalisa.

--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
tempo estiver bom, dar-te-hei as lies na serra,  sombra d'um
sobreiro, ou d'um pinheiro, ou  borda d'um regato; e quando estiver
mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr. D.
Thereza me no negar este favor, e prazer.

--Oh no, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
servio dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.

-- objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr. D.
Thereza ha-de-me permittir licena de offerecer a Rosa, para si e sua
av, o que contm esta pequena bolsa.  para comprar em nosso nome um
vestido novo.

E como D. Thereza, Rosa e a av lhe fizessem muitos agradecimentos, a
viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
voltar muito breve  quinta.

D. Julia abraou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe at
manh.

Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.

--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.

--Pois eu, minha irm--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade no s para hoje,
mas tambem para muito tempo, porque ser contado no numero das minhas
mais gratas e queridas recordaes.


VIII.

D. Julia, na frma convencionada, principiou no seguinte dia o curso,
que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigao, que se
tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo no excedia, o que mostrava a
sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e
muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicao; as
lies tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da
viscondessa.

Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que
Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a
discipula no afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous
mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse
bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar
ssinha, durante o inverno.

Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter
deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.

A pobre menina no teve foras para resistir a este ataque, e no podia
sahir do quarto.

Rosa, que no auge da sua desesperao, com risco da propria vida,
quereria dar algumas foras  amiga do seu corao, podia a custo conter
as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma
cadeira de braos, forcejando por se levantar sem auxilio, para no
aterrar a sua querida mi e a sua discipula predilecta.

N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por
aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os
mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo
que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o brao
de Rosa  que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus
livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.

D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicao, affligia-se com a
lembrana, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha
podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptra d'uma
lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lies a Rosa, para
socegar a inquietao de D. Julia.

Havia j tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor;
sua mi j no tinha esperanas algumas. Tres medicos, que do Porto
haviam sido chamados, no deram esperanas da doente melhorar.

A viscondessa, porm, no podendo convencer-se de que sua filha estava
irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e
resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.

D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irm,
consolava-se com a ida de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto
amava.

S  fora de muitas instancias e esforos  que D. Julia consentiu em
deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condio de para l
voltar se peorasse.

Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, no pde
conter a sua desesperao. Queria acompanhar D. Julia, e no a
desamparar um s instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era
baldado, por que Rosa estava inconsolavel.

Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lanou-se-lhe
aos ps, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes.
A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma
bolsinha de sda, apresentou-a a Rosa.

--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis,
que so as minhas economias do vero; pe a juros este dinheiro, para
que se augmente este capitalsinho.

 um presente muito pequeno; mas se nos no tornarmos a vr, minha boa
mi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.

Rosa beijou as mos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.

--No recuses, Rosa--tornou D. Julia--seno fr para ti,  para tua av.
Sabes l o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos
ser util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor,
para que me d saude.

Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluos embargaram-lhe a voz. A
viscondessa, testemunha d'esta scena to tocante, temendo as funestas
consequencias, que sua filha soffreria com to grande commoo, levantou
Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre
menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pde vr D. Julia,
que, com um olhar maternal, a abenoava.


IX.

J tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,
e Rosa ainda no tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criana
affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, no tinha outra
causa, seno o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,
que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanas. Uma carta de D. Julia
veio confirmar as prevenes de D. Thereza.

D. Julia, com mo tremula, escreveu  sua querida discipula.
Participava-lhe que a sua doena parecia estar um pouco mais debellada,
e que os medicos davam algumas esperanas de a poder subjugar, e
embargar-lhe o seu progresso.

Terminava a carta aconselhando Rosa a que no descurasse os seus
estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.

Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.
Julia, assegurando-lhe que no despresaria os seus conselhos, e que
tinha esperanas, de, para a primavera, renovar as suas lies sob as
arvores da serra; que nas suas oraes rogava todos os dias a Deus, com
fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas
fossem attendidas.

Rosa, cumprido este dever sagrado, lanou mo do seu trabalho com mais
vigor.

Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo
um lindo presente para offerecer n'aquelle dia  sua bemfeitora, e para
isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e
julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,
de que ella admirasse o valor e o gosto.

Faltavam s quatro dias para que, esse dia to anciosamente esperado,
chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, to longo lhe
parecia.

Na vespera de manh D. Thereza queixou-se d'uma dr de cabea, mas
julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora
voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.

Despresando o seu estado, ainda presidiu, na frma costumada, ao jantar
dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.

Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na  cama, e
partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgio.

Chegou este, e, mal viu a doente, no deu esperanas de a salvar.

--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle-- j tarde para se lhe dar
remedio.

O desespero e a consternao espalharam-se na quinta.

Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser
muito vigilante, era boa e justa.

Os menores movimentos do cirurgio eram seguidos com anciedade por todos
os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e
actividade, que desenvolvia em executar as prescripes do cirurgio,
ainda bem no estavam dadas.

Rosa no podia crr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e
esperava ainda que uma crise feliz a restituiria  vida.

A av de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em
no poder fazer cousa alguma.

De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoo.

Entre as alternativas da esperana e desconforto se passou o dia. 
noite o cirurgio declarou que j lhe no restava esperana alguma; que
D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que no proferiria
mais uma palavra, nem faria um unico movimento.

Descrever a afflico de Rosa e de sua av -me impossivel; bastar
dizer que a dr as tinha quasi enlouquecido.

D. Thereza no tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.
Euzebia, sua irm, rica proprietaria em Rio Tinto.

D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, no estava em
intimas relaes com D. Thereza. Assim que teve noticia da doena de sua
irm poz-se logo a caminho, no por amisade que tivesse  moribunda, mas
sim para vigiar que lhe no roubassem a mais pequena parte da sua
herana.

Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu
ordens como se j estivesse senhora da herana. Rosa e sua av
inspiraram-lhe antipathia, e no podia comprehender como sua irm
voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.

D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgio dissera, mas sem
falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as
faculdades. S os olhos  que conservavam ainda alguns signaes de vida e
intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforos para fallar,
naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos
moribundos no lhe foi permittido.

O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos 
moribunda, tentou mitigar a dr de Rosa, mas a joven menina estava muito
consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se
de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mo gelada
apertada nas suas.

--O meu lugar  este,--dizia ella entre soluos,--s deixarei minha
segunda me no tumulo.

Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulso, alguns
murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre
os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligaes terrenas, vora ao
co a receber da mo de Deus o premio das suas virtudes.

Ao principio no se ouviam mais que os chros de todos os criados da
quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a
de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irm, deu as
ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,
que fechava com cuidado, guardando as chaves.


X

Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito
da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.
Thereza.

--Aqui esto as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas 
inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irm, e
ella no podia desherdar-me.

-- verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,
por que a lei protege os direitos de todos.

--S eu  que tenho direito  fortuna de minha irm, pois ella no tem
filhos.

--Sim, minha senhora, mas esta orphsinha, a quem ella deu asylo?

--Minha irm--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de
me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que
ella teve a phantasia de recolher em sua casa?

--No o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua
irm pde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua
estima e amisade.

--No julgaria sufficiente o sustental-a e mais  av,--disse D. Euzebia
com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
velhacas, virieis vs roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz
eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe
l, o que ella tem roubado. Minha irm era to pouco cautellosa...

--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposio
offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e
minha av recebemos da snr. D. Thereza?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.
Euzebia no continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discusso
to vergonhosa, e feia.

Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braos com as
suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que
Rosa no pde refrear a sua indignao.

--No me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--no me
injurieis diante do corpo de vossa irm, de quem s a vista bastaria
para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um s instante
de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela
apoplexia? No, senhora. Ento como podia eu subtrahir cousa alguma?
Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu
e minha av preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais
insignificante, que nos no pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou
forte; posso e quero trabalhar, por isso no serei pesada a ninguem.
Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que,
logo que o seu corpo saia d'esta casa, no vos pediremos asylo.

Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou
corrida de vergonha.

Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro
a D. Thereza.

A pobre criana, com a av pelo brao, seguiu chorando o prestito.
Depois de terminado o officio, Rosa e sua av, ajoelharam-se junto da
campa, em que D. Thereza foi sepultada: era j noite cerrada, e ainda as
duas desgraadas no cuidavam em se retirar.

O frio, que fez dar um gemido  av, advertiu Rosa de que se devia
recolher; s ento  que pensou para onde havia de ir.

--Vamos, minha avsinha--disse Rosa--a casa da snr. Maria da Gandra,
que estou certa, sendo to nossa amiga, nos no ha-de deixar na estrada.

A snr. Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos
os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida
de D. Thereza, e censurra o procedimento de D. Euzebia.

--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella
logo que a avistou.--Que prazer me no causa teres procurado a minha
casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da
Quintella, por isso  que te no offereci para vires para aqui com tua
av.

--Agradeo-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com
que vos offereceis para nos recolherdes; mas no venho pedir-vos casa e
sustento de graa, porque tenho duas inscripes de cem mil reis cada
uma; o que vos rogo  que me aboneis tudo o que eu precisar e minha av,
que vos satisfarei logo que termine a liquidao da herana da snr. D.
Thereza, e receba as minhas inscripes.

--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr. Maria da Gandra--No
preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua av. Mas diz-me, como
obtiveste essas inscripes?

--A snr. D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,
com os quaes a snr. D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou
duas inscripes em meu nome.

--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque
d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignao, assim
como vs, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir
ao vosso quarto.

Rosa e sua av ficaram portanto habitando na Gandra.

A pequena no estava ociosa, antes pelo contrario era to zelosa e
trabalhadeira, que a snr. Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella
e a av, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e
com reconhecimento, pois n'aquella occasio era a maior felicidade, que
lhe podia apparecer.

No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,
Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.

Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que
tinha sido para ella to hospitaleira, o corao comprimiu-se-lhe e no
pde reter as lagrimas.

Tudo se passou sem novidade; s de quando em quando D. Euzebia mostrava
por gestos e exclamaes o seu desapontamento por encontrar menos
dinheiro, do que imaginava.

Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, no foi uma exclamao de
surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava
um accento de triumpho.

--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter
_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu no viesse logo... o que teria
acontecido. Examinai, senhor escrivo, o que  que ahi existe.

O escrivo tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo
tamanho, no pertencia de certo a Rosa.

--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como  que este vestido veio aqui
parar?--No preciso perguntal-o, porque a culpada est-se denunciando
pelo rubr, que lhe cobre as faces.

--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criana
 digno de censura. Ainda, at agora, no encontramos cousa alguma, que
fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto
dar-me as explicaes, que tiver a fazer.

Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como  que este
vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

--Que ; que ?--interrompeu D. Euzebia.

--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.

-- bem publico e sabido, que eu, durante o vero, fazia cestinhos de
flres, que ia vender s casas abastadas dos arredores.

Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:
entregava-me a snr. D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas
pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a
snr. D. Thereza no seu dia natalicio.

Estava muito indecisa, por no saber o que lhe devia offerecer, e foi a
minha av, que me suggeriu a ida de lhe comprar um vestido. Para levar
a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.
D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora
no despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a
apresentar.

Esta explicao, simples e clara, que demonstrava um corao sincero e
grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.
Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar
a verdade.

Quando se encontraram as duas inscripes, D. Euzebia chegou ao auge do
desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse
possivel obtel-as  mo; mas, felizmente para Rosinha, no pde
conseguil-o.

Finalmente, pelos cuidados e proteco do juiz eleito, Rosa e sua av,
apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o
que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais
cruel e mais requintada avareza as expulsava.


XI.

Estamos no anno seguinte.

Rosa escreveu  viscondessa do Candal e a sua filha uma carta to
affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
desejo de tornar a vr a sua querida discipula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraar a sua amiga, pareciam-lhe
seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
da primavera, porque ento  que devia, e podia estreitar ao corao a
sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia to anciosamente almejado. A primeira pessoa que
D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
estabelecido e sido causa das relaes e intima unio, que existia entre
ellas.

D. Julia ao vl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coup;
mas no pde fazel-o, por que estava to magra, fraca e desfigurada que,
quem a via, s a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
desvelos, de que a cercava a viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
immediatamente a sua mi, que recebesse em sua casa Rosa e sua av.

A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.

Rosa e sua av vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resoluo  snr. Maria da
Gandra.

--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr. Maria da
Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
pesar, e  com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
uma pequena, que seja to humilde e trabalhadeira.

A viscondessa em seguida quiz satisfazer  snr. Maria da Gandra toda a
despeza, que Rosa e sua av tinham feito em sua casa; mas a honrada e
digna alde no quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua av tinham
despendido.

A despedida de Rosa e da snr. Maria da Gandra foi pathetica, e s a
muito custo se desprenderam, chorando, dos braos uma da outra,
promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
snr. Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe
no tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que s acreditou depois
de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
ventura lhe succedesse.

--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e sua av foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
muita censura e reparo de D. Bertha.

--Era s o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como  que Julia pde
affeioar-se tanto a estas duas creaturas?

--Tua irm, Bertha, tem o corao muito sensivel; basta que lhe faam
uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
tudo, e logo se affeioar a qualquer, e lhe dedicar carinho  proteco.

--Mas na verdade, esta sociedade no  to agradavel e
attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas _bellas_ resolues D. Bertha evitava o mais possivel
dirigir a palavra a Rosa e sua av, e, quando por necessidade o fazia,
era com um modo to sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no corao de D. Bertha
sentimentos mais nobres e mais christos, mas infructuosamente, por que,
procurar commover e sensibilisar o corao empedernido e orgulhoso de D.
Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu corao, a sua
discipula, recuperou algum vigor, e ainda pde recomear as lies. A
fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
atteno e estudo, que Rosa prestava s preleces.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

--Queres dar a Rosa--disse uma occasio a viscondessa a sua filha--uma
educao e instruco superiores  sua posio na sociedade, e no
receias que isso para o futuro lhe cause embaraos e dissabores?

--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mi, a bondade de
ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra,  alcanar bastante
instruco e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
podendo dizer s minhas discipulas: era uma alde muito ignorante e
rustica; uma boa menina, a snr. D. Julia, filha da snr. viscondessa do
Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua proteco e de me ensinar.
 a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me
amaes, deveis igualmente amar a snr. D. Julia, minha bemfeitora; e
ento ellas vos rendero graas, assim como eu vol-as rendo agora.

--No te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
filha, pois Rosa  digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles
se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.

A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
dava as lies a Rosa.

Estes estudos no fizeram pr de parte a preparao de Rosa para receber
dignamente a primeira communho. Foi com uma piedade exemplar que ella
cumpriu este solemne acto, e o futuro provou no ter sido esteril para o
seu corao.

D. Julia passou o vero entre as alternativas de melhoras e recahidas
nos seus padecimentos, que tinham uma successo quasi regular e
periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
braos, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanas. Aos
proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.

D. Julia, porm, no se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
mi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
faltava muito tempo para a sua realisao, e que no chegava a vl-os
confirmar.

A ss com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminao da
sua existencia, e ento ella supplicava-lhe com instancia, que
repellisse da sua imaginao to sinistras idas.

--No posso crr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
d'este mundo todos os meus protectores: no sei que crime tenha
commettido, que merea semelhante castigo.

--Resta-te ainda minha mi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
certa nunca te ha-de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversao abraando D. Julia e procurando
distrahil-a por todos os meios possiveis.

O que a dedicao mais sincera e real pde suggerir de mais bello, tudo
Rosa executava, recebendo, por galardo, ou recompensa a mais grata, um
terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
merecer faria o impossivel se necessario fosse.


XII.

D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
interiormente no sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
poca, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximao d'esse termo
fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
apresenta, a molestia no offereceu n'esta estao alterao alguma.

A esperana, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doena,
comeou a penetrar em todos os coraes, e at no da propria enferma.
Rosa chegou a dizer  viscondessa, que tinha uma convico firme de que
D. Julia no morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e no a havia
de privar da sua protectora.

A viscondessa, que at ahi estava convencidissima, de que sua filha no
passaria alm do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
sua fatal predico se realisasse, comeou a crr que se tinham
enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.

Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
que no amavam s, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, no tendo morrido na
poca marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
esperana e crena.

Estas demonstraes respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
reconhecimento esta nova prova d'affecto.

Porm, de todas as felicitaes, a da sua discipula e de sua av, foi a
que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo sua cega av, se ajoelhou com ella junto da cama
de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
para que o seu restabelecimento fosse real e breve, no pde soffrear a
sua commoo, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitao que acabava de lhe
ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
alterao sensivel.

Com a chegada da primavera D. Julia recomeou os seus passeios pelos
campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
communho, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
progredisse nos seus estudos, pediu a sua mi que lhe escolhesse uma
professora.

A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendao e
abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
de ser concedido o titulo de capacidade.

Rosa esforava-se por todos os meios possiveis para corresponder
dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mi, lhe estavam
constantemente prodigalisando; procurando sempre no dar o mais leve
desgosto s suas protectoras; comtudo,  preciso dizer que Rosa no era
perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
erros, e mostrava-se to arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
afinco e perseverana, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
tempo.

Rosa dava as suas lies, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
querida de sua filha.

D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
dignamente  confiana, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
confiando-lhe a instruco da sua pupilla.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direco experimentou,
foi grande, dando j signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigaes e deveres estavam terminados,
dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua av. Esta, desde que viera
viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgaz, e
ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
viver.

Tinha j decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
estado de saude de D. Julia no denunciava signal algum de peoramento; a
molestia, porm, que at ento estivera encubada, reappareceu com grande
violencia, e em oito dias as crises succederam-se to proximas umas das
outras, que pozeram a enferma em estado de se no conceber esperana
alguma de a salvar.

A illuso, que at ahi existira em todos, desappareceu completamente: j
no esperavam seno o golpe final... Rosa, nem um s momento desamparava
a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
tratava de D. Julia; no consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
mais insignificante servio, chegando at a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicao e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
sentena dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, no
tivesse resolvido chamar  sua presena, a receber o premio das suas
virtudes, aquelle anjo de bondade e resignao.

D. Julia, j moribunda e quasi expirante, pediu a sua mi, como ultima
graa que lhe fazia, que no abandonasse Rosinha, a sua querida
discipula e amiga; que se no affligisse, nem desanimasse, porque em
Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
que havia de substituir no seu corao o lugar que ella deixava vasio, e
a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mi, por que n'ella
encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
abraou sua mi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
mi... expirou, voando a sua candida alma  presena de Deus a receber a
glorificao de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
o mundo, fra longa pelas boas obras, que sempre praticra, e pela
pureza em que sempre vivera.


XIII.

J decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
antecedente.

No deixaremos, porm, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
pertencente  viscondessa do Candal, por que  no caminho, que a ella
conduz, que tem lugar o que passamos a contar.

Uma senhora ainda joven, e outra j de mais idade caminham em silencio,
e commovidas.

A mais idosa  a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.

O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
embranquecidos antes do tempo.

A sua companheira  uma joven que figura ter dezesete para dezoito
annos, d'apparencia ingenua e modesta;  a nossa Rosa, a pequena dos
ramos e cestinhos.

A viscondessa caminha apoiada no brao da sua companheira. Depois
d'alguma hesitao Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.

--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
visita vos cause uma grande commoo e vos prejudique a saude. Por que a
no deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?

--No, Rosa, no. Ha oito dias, que no vim visitar a campa onde jaz a
minha Julia, e oito dias j  um espao muito longo. Sinto-me hoje
melhor, no despresarei portanto esta occasio que se me offerece, por
que, quem sabe se recahirei?

--No penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
muitos annos de vida; tenho f, que Deus vos no roubar  minha ternura
e reconhecimento.

--Se as oraes d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheo que as
tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
lembrada Julia despedaou-me o corao. No estou eu s n'este mundo?
Bertha no me abandonou logo que casou? Que fao ento aqui n'este ermo,
a que chamam mundo?

--Ah! senhora, esqueceis ento a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
vos  to dedicada como se fra vossa filha?

Estas palavras, pronunciadas com um accento de submisso, penetraram at
o imo do corao da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
braos recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.

--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheo,--disse a viscondessa cingindo
Rosa ao corao. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
e a tua inexcedivel dedicao. Perda-me, minha filha, minha querida
filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era
merecedora da minha ternura e amisade, e quanto  digna de ser
pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
para me servires de consolao e allivio na minha dr. Abraa-me Rosa,
minha filha querida.

Rosa, por unica resposta, abraou com ternura a sua bemfeitora.

As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
o que a commoo lhe embargava nos labios.

Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.

A viscondessa do Candal, como tributo  memoria de sua filha,
mandra-lhe levantar um lindo e rico mausolo de marmore branco, no qual
ella tambem queria ser encerrada  sua morte. Em volta das grades
viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordao das
flres com que enfeitra o cestinho, que fra causa da intima unio, que
se estabelecera entre ella e D. Julia.

A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
morte.

Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e ps de
flres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os no
estiolassem, dirigiu-se  viscondessa.

--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
da campa de minha av.

--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.

No muito distante do mausolo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminra os seus
dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
affectuosa da sua bemfeitora.

Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
diversas flres, semelhava um jardimsinho.

Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoo por algum
tempo, levantou-se, e dando o brao  viscondessa retiraram-se, fazendo
ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.

Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
havia de proceder aos exames d'habilitao para os titulos de
capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propr-se a exame, que
enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.

Rosa apresentou esta carta  viscondessa.

--Sempre ests decidida a propr-te a exame?--lhe disse ella.

--Sim, minha senhora.  o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
senhora, que a instruco e saber, que vos devo, e a vossa querida e
chorada filha, aproveite s crianas, que a pobresa retem na ignorancia
e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma s d'entre
ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!

--Tinha a esperana de te conservar sempre na minha companhia---replicou
a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
levou, da minha Julia. No queres, Rosa, ser minha filha?

--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai alm da minha
ambio. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que s aos vossos
beneficios devo a minha instruco, e a cultura da minha intelligencia.
Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
cuidados no foram perdidos, mas com isso no me devo tornar vaidosa,
por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vs uma filha
adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso
lado, esforando-se por pagar a sua divida de gratido e reconhecimento:
Recebendo e aceitando a vossa affeio e amisade, para mim preciosa e
apreciavel, no me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar 
mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu corao,
quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianas,
que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que  obra vossa! Ha
muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: s
pobres rapariguinhas das aldas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.
D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus
lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu corao e o seu espirito, e
por unica recompensa no quererei mais do que ouvil-as bem dizer os
nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.

--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraando-a, e com os
olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
me fazes nascer no corao com as tuas palavras.

........................................................................
........................................................................
........................................................................

Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
concedido por unanimidade e com distinco.


XIV.

Dous annos se passaram j, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
Sousa o seu titulo de capacidade.

Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
frente ha um pateo largo e espaoso. Sobre o muro pendem os ramos
verdejantes de dous chores. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
caramanchosinho, que, pelo bem cerrado que est, indica que no vero
deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle  devido. Que
vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
menos, vestidas de branco, e tendo todas na mo um raminho de flres do
campo, com um lao de fita. Ao fundo da sala v-se uma rica imagem de
Nossa Senhora da Conceio, collocada sobre um altar, bem adornado com
castiaes de prata, velas de cera e jarras com flres.

N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braos; n'uma d'ellas est
sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de p, junto d'ella,
est dizendo os nomes das suas discipulas.

A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
expresso do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.

O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
indica que se espera alguem.

O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
momento pelo porto.

Um sorriso alegre se v deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
quem se esperava.

A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os  porta, e
conduziram-nos s cadeiras que lhe estavam destinadas.

As crianas tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:

Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vr aqui reunidas para
a celebrao do primeiro anniversario da installao d'esta escla,
devida  muita philantropia e caridade christ da exc.ma viscondessa do
Candal, e  dedicao exemplar da vossa digna professora a snr. D. Rosa
de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
vs, minhas filhas, no ha ingratas. Vs respeitaes e veneraes a exc.ma
viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, no 
assim? , assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter
uma saudosa recordao, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
vossas oraes. Prestai-me atteno, que vos vou dizer quem  essa
pessoa, cuja recordao vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
de juncos, e ramos de flres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
posio futura. Essa joven senhora, de que vos fallo,  a exc.ma snr.
D. Julia, filha da exc.ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a
quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeio,  a vossa douta
professora. Ha j alguns annos, que a alma da exc.ma snr. D. Julia voou
 presena do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das
boas obras, que praticra n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que
foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.

Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
porque isso  o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
recompensa, que recebem da sua dedicao, que estou muito convencido
sempre fareis por merecer.

No quero, porm, retardar por mais tempo o momento de receberem o
premio e galardo, que merecem pela sua applicao ao estudo e amor ao
trabalho, quellas que d'isso se tornaram dignas; e s que d'esta vez
no so galardoadas resta-lhes a esperana e o meio de, pela imitao
das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
futuro.

Vamos por tanto proceder  distribuio dos premios.

Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.

A conferencia dos premios foi esplendida.

Os premios consistiam em livros religiosos e d'instruco, que tinham
sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vr a alegria,
que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
distribuio.

Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramancho um
bem servido _lunch_.

--Como  magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianas, alegres
e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
attrahes as benos do co sobre ns, e sobre a memoria da minha
querida, e chorada Julia.

--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
prophecia se realise, e a minha mais cara aspirao ficar satisfeita.

..........................................................................
..........................................................................

O desejo de Rosa realisou-se. A escla est cada vez mais florescente, e
a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
Rosa, modlo raro d'um corao verdadeiramente grato e reconhecido aos
beneficios que recebera.

FIM.





End of the Project Gutenberg EBook of Annos de Prosa;  A Gratido; 
O Arrependimento by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANNOS DE PROSA ***

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