The Project Gutenberg EBook of O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde

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Title: O Livro de Cesario Verde

Author: Cesario Verde

Posting Date: October 13, 2014 [EBook #8698]
Release Date: August, 2005
First Posted: August 2, 2003

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE ***




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O LIVRO DE CESARIO VERDE


Prefcio


A JORGE VERDE

Aqui deponho em suas mos e debaixo dos seus lbios o livro do seu
irmo. A minha obra terminou no dia em que elle saiu da nossa
doce amizade para a nossa terrvel amargura: morri, meu querido
Jorge--deixe-me chamar assim ao irmo do meu querido Cesario;--morri
para as alegrias do trabalho, para as esperanas dos enganos doces!
O desmoronamento fez-se, a um tempo, no esprito e no corao! Dos
restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicao extremada:
pea-me o sacrifcio; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
ns, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmo
soube impr-se a um corao endurecido; e tenha este outro pensamento:
--Mas no estava de todo endurecido o corao que soube amal-a.

Adeus, meu querido Jorge!

S.P.

20 de julho de 1886.

Encontrmo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem s
Lettras, como se as Lettras l estivessem--no Curso. Eu matriculara-me,
com a esperana de habilitar-me um dia  conquista de uma cadeira
disponivel. Encontrmo-nos e ficmos amigos--para a vida e para a
morte.

Para a vida e para a morte.

Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
no teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu
fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, s 10 horas da
noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do
seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
palavras suas de ha poucos dias:--E como se d o caso de tu seres
o mais dedicado dos meus amigos... Tenho aqui essas palavras:
ellas constituem a justificao dos meus soluos de ha poucas horas,
alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua
primeira noite redimida...

Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraa, n'aquelle
anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi foras com as avanadas
do meu destino, a inquietao invadiu o espirito e o corao de
Cesario Verde, por modo que j eu assoberbara com o meu desprezo
a desventura pertinaz e ainda elle no vingra libertar-se do peso
de seus cuidados e afflies. Durante annos escreveu-me centenares
de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu corao fraternal. Um
dia, trocmos estas palavras:--Como tu tens tempo, meu amigo, para
soffrer tanto!--Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
no soffrimento!.

 indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
da discusso--a toda a hora. Eu careo de preparar-me durante horas
para a simples comprehenso. As exigencias do meu caro polemista
irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
largo sorriso de convencido; e ento--meu querido amigo! meu santo
poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creana amoravel o que
elle chamava o meu triumpho! No hesitava em confessar-se vencido;
e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente.
A generosa alma chamava quillo a minha superioridade!

Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
do poeta: e ento dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
fros de poesia aos aromas das flres. O mesmo sopro bondoso e
potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
e as rosas! A bondade summa est no poeta,--mais visivel, pelo menos,
do que em Deus.

Artista--e de alta plana! Eu pude vl-o cioso de seus direitos e
reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
que um ligeiro esboo, precedendo mais detido trabalho, estou
elaborando sobre os traos mais salientes d'aquella individualidade,
no me dispensarei d'esta indicripo:

Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: O Doutor Sousa Martins
perguntou-me qual era a minha occupao habitual. Eu respondi-lhe
naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se 
minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
o que eu te peo  que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
ds a perceber que eu no sou o sr. Verde, empregado no commercio.
Eu no posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
escrupulos: sim?...

E eu fui  beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava
irremediavelmente perdido!

Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
pallido agonisante illudido!

A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
e originalissimo poeta merecem  Critica independente uma atteno
desvelada. Eu no hesito em vincular o meu nome  promessa de um
tributo que a obra de Cesario Verde est reclamando.

       *       *       *       *       *

E todavia, no pde o meu espirito evadir-se  ida consoladora de
que  um sonho isto que o entenebrece! No pdes evadir-te,  meu
espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dr!

Foi s cinco da tarde--ainda agora. Caa o sol a prumo sobre a
estrada do Lumiar e ns vinhamos arrastando a nossa miseria,--ns
os vivos; o morto arrastava a sua indifferena. Chegmos, com duas
horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descano. Veio o
ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
terrivel: Entre algumas dezenas de homens no houve uma phrase
indifferente--e em dado momento explosiram soluos n'um enternecimento
que ageitava a loira cabea do cadaver l dentro do caixo--como
as mos da me lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

Eram sete horas da tarde,  minha alma triste! Eu fui-me a chorar
velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
que que me dsse fora, que me dsse fora nova,--pois que se
prolonga o captiveiro! E a ss, caminhando por entre os tumulos,
ao cair da noite, pareceu-me comprehender que ns recebemos fora
nova em cada nova dr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que
o alcatruz de uma nra se despeja para encher-se, para despejar-se
--sem saber porque...

20 de Agosto

       *       *       *       *       *

A morada nova do Cesario  de pedra e tem uma porta de ferro, com
um respiradouro em cruz;--rua n. 6 do cemiterio dos Prazeres. 
porta est um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu
querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarou ao
terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, c da
minha raa--funebre e resistente. Est verdejante e vigorosa a
pequenina arvore, e de longe  uma sentinella perdida da minha doce
amizade religiosa. De longe vou j perguntando  nossa arvore:--Est
bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a
gravidade do cypreste:--Bem; no houve novidade em toda a noite...

 que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou 
todo um meu cuidado, como  toda a minha alegria o bem-estar
d'aquella hora em que no ha risos. No fomos risonhos--o Cesario
e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
consolaes, alentos, esperanas, onde elle imaginra renascimentos,
horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
se lhe no consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle
cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
desprezo da vida. O meu santo est alli,--est resignado:  tudo.
Vs todos, que o amastes, sabei que elle est resignado--o nosso
querido morto impassivel!

E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
da porta de ferro a minha pobre cabea esbrazeada e olhei para
dentro do jazigo, involuntariamente; e ento, como quer que eu
visse l a dentro do jazigo alguns caixes arrumados, e como eu
acertasse em descobrir o caixo do Cesario, os soluos despedaaram-se
contra a minha garganta, n'uma afflico immensa e cruel. E foi
ento que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz
d'elle?--pronunciou distinctamente l a dentro do caixo:--S
natural, meu amigo; s natural!

Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce,  meu sagrado
horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
n'uma angustia:--Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo! No se
reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte!

Vo j decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que no
havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
torturando os olhos vidos, desde o bero  sepultura redemptora.
Cheguei aqui,  cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanas: a
crueldade bestial que se debrura sobre o meu primeiro dia no
estava arrependida, nem fatigada: a perseguio renasceu. E quando
eu, no singular desespero dos esmagados em sua crena, pensei na
Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz
de Cesario foi a voz evocadora para a continuao do soffrimento
--do soffrimento amparado e protegido...

Protegido! A proteco foi a maior da grande alma serena para a
pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignao, consagrado s
minhas amarguras,--que para o Cesario no foram mysteriosas; foi o
aperto de mo robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
a minha angustia encontrou na sua.

Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
Vae-se na corrente, desfallecido, se nos no troveja nos ouvidos a
voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois
do grito salvador, tinhas um applauso vibrante l do fundo da tua
grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
mo, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu no
quizera vr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre,
sempre bom--e todavia sempre justo!

A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua
voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellio, com a
desconfiana dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
conseguintemente, com a suppresso do trabalho,--do po,--com a
calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas  minha colera,
com todas as ciladas  minha f... Ah, perdidos em paiz de Cafres!
Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisao!

Hoje, o meu santo amigo est alli em baixo, na sua morada nova,
esperando... Espera que eu v dizer-lhe dos horisontes novos abertos
 consciencia dos justos; espera que eu v dizer-lhe as victorias da
Justia absoluta--da Justia illuminada e serena;--espera que eu v
dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razo, da Sciencia, da
Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
a Vida possvel, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
reconhecidas, a Bondade convertida em nrma, os Direitos e os Deveres
supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua f, o seu horisonte,
o seu amor!

Est alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, no saberei
dizer-lhe o ascendr dos espiritos, e s poderei levar-lhe no meu
abatimento a demonstrao da minha pouca f, aggravada pela espantosa
amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As vises
do poeta ho de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
minha pobre mo tremente e desfallecida lhe depor no tumulo, e os
restos da minha f ho-de misturar-se com o p accumulado  entrada
do seu tumulo pelo Nordste--menos frio do que a minha alma succumbida!

       *       *       *       *       *

Silva Pinto.





Os versos




I

CRISE ROMANESCA


DESLUMBRAMENTOS

Milady,  perigoso contemplal-a,
Quando passa aromatica e normal,
Com seu typo to nobre e to de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solemnidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me attrae como um thesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estonta e me fascina...
E , na graa distincta do seu porte,
Como a Moda superflua e feminina,
E to alta e serena como a Morte!...

Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
Britannica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre ssinha,
E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mos,
O modo diplomatico e orgulhoso
Que Anna d'Austria mostrava aos cortezos.

E emfim prosiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramatica, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chamma
Seu ermo corao, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, no se afoite,
Que ho-de acabar os barabaros reaes;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingana aguam os punhaes.

E um dia,  flor do Luxo, nas estradas,
Sob o setim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, allucinadas,
E arrastando farrapos--as rainhas!



SEPTENTRIONAL

Talvez j te esquecesses,  bonina,
Que viveste no campo s commigo,
Que te osculei a bocca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,
Mulher como no ha nem na Circassia,
Que bebemos, ns dois, do mesmo fel,
E regmos com prantos uma acacia.

Talvez j te no lembres com desgosto
D'aquellas brancas noites de mysterio,
Em que a lua sorria no teu rosto
E nas lages que esto no cemiterio.

Quando,  brisa outonia, como um manto,
Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
Se prendiam nas folhas d'um acantho,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
E ouvia murmurar  doce aragem
Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borbeletas doudejantes
Nas tuas formosissimas madeixas,
D'aquellas cr das messes lourejantes,

E no pomar, ns dois, hombro com hombro,
Caminhavamos ss e de mos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
N'um amor grande como um mar sem praias,
Ouviamos os meigos dithyrambos,
Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,
Eu comtigo, abraado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-te os beijos que me dras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao collo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como o arminho
Pesava menos que um papel de sda...

E foste sepultar-te,  seraphim,
No claustro das Fieis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No vu negro das freiras resignadas.

E eu passo, to calado como a Morte,
N'esta velha cidade to sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,
Se podra na terra achar supplicios,
Eu tambem me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilicios.



MERIDIONAL

Cabellos

 vagas de cabello esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o crystal d'um lago refulgente
E a rude escurido d'um largo e negro mar;

Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
Deixae-me mergulhar as mos e os braos ns
No barathro febril da vossa grande treva,
Que tem scintillaes e meigos ceos de luz.

Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
Quando elle estiver brando e livre de tufes,
E, ao placido luar,  vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solides.

Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
Occultos n'esse abysmo ebanico e to bom
Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
Abysmo que s'espraia em rendas de Alenon!

E  magica mulher,  minha Inegualavel,
Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exhalas da cabea erguida com fulgor,
Perfume que estonta um millionario avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
E vaes na direco constante do querer,
Mas ouo, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabelleira, errante pelas costas,
Supponho que te serve, em noites de vero,
De flaccido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostrao.

E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhes insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

       *       *       *       *       *

 mantos de veludo esplendido e sombrio,
Na vossa vastido posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.



IRONIAS DO DESGOSTO

Onde  que te nasceu--dizia-me ella s vezes--
O horror calado e triste s cousas sepulcraes?
Porque  que no possues a verve dos Francezes
E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

Porque  que tens no olhar, moroso e persistente,
As sombras d'um jazigo e as fundas abstraces,
E abrigas tanto fel no peito, que no sente
O abalo feminil das minhas expanses?

Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso  falso;
Mas quando tentas rir parece ento, meu bem,
Que esto edificando um negro cadafalso
E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

Eu vim--no sabes tu?--para gosar em maio,
No campo, a quietao banhada de prazer!
No vs,  descrado, as vestes com que saio,
E os jubilos, que abril acaba de trazer?

No vs como a campina  toda embalsamada
E como nos alegra em cada nova flor?
E ento porque  que tens na fronte consternada
Um no sei qu tocante e enternecedor?

E eu s lhe respondia:--Escuta-me. Conforme
Tu vibras os crystaes da bocca musical,
Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme
Que te ha de corromper o corpo de vestal.

E eu calmamente sei, na dr que me amortalha,
Que a tua cabecinha ornada  Rabagas,
A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
E em breve ao quente sol e ao gaz alvejar!

E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
O teu cabelo escuro s veneraveis cans!



HUMILHAES
(De todo o corao--a Silva Pinto)

Esta aborrece quem  pobre. Eu, quasi Job,
Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
E espero-a nos sales dos principaes theatros,
        Todas as noites, ignorado e s.

L cana-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E emquanto vo passando as cortezans e os brilhos,
        Eu analyso as peas no cartaz.

Na representao d'um drama de Feuillet,
Eu aguradava, junto  porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
        Saltou soberba o estribo do coup.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
Roavam no veludo as guarnies das rendas;
E, muito embora tu, burguez, me no entendas,
        Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por no podia abandonal-a em paz!
 minha pobre bolsa, amortalhou-se a ida
De vel-a aproximar, sentado na plata,
        De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botes;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
        E ouviam-se c fra as ovaes.

Que desvanecimento! A perola do Tom!
As outras ao p d'ella imitam as bonecas;
Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
        Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu no deixava de a abranger;
Vi-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
        Que o cho se abrisse para me abater.

Sa; mas ao sair senti-me atropellar.
Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
        Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, m,
Pz-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
--Meu bom senhor! D-me um cigarro? D?...



RESPONSO

I

N'um castello deserto e solitario,
Toda de preto, s horas silenciosas,
Envolve-se nas pregas d'um sudario
E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o leno de Bruxellas
Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas,
D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
Circumda-se de luto e de tristezas
E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados
E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados
Deslisam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna,
E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros
De roda das ameias e dos pgos,
E nas salas resoam uns suspiros
Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem
E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas,
Triste como as rainhas desthronadas,
A contemplar as gondolas airosas,
Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro
E alli  que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
Murmurando palavras afflictivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas
E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento
Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
A musica dulcissima do vento
E o sussuro do mar, que s'espreguia.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos
Eram ir borrifar-lhe os ps, com beijos.

VIII

E s horas do crepusculo saudosas,
Nos parques com tapetes cultivados,
Quando ella passa curvam-se amorosas
As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida
Era vl-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge,
Erram as velhas almas dos prectos,
E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella
E as lentas agonias ao p d'ella!

X

E s lages, no silencio dos mosteiros,
Ella conta o seu drama negregado,
E o vasto carmesim dos resposteiros
Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapearias
Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI

E assim passa, chorando, as noites bellas,
Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
E a reflectir nas gothicas janellas
As estrellas dos ceus desconhecidos.

Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII

Mergulha-se em angustias lacrimosas
Nos ermos d'um castello abandonado,
E as proximas florestas tenebrosas
Repercutem um choro amargurado.

Unissemos, ns dois, as nossas covas,
 doce castell das minhas trovas!





II

NATURAES




CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrivel! J fumei tres massos de cigarros
        Consecutivamente.

Doe-me a cabea. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravao nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
        E os angulos agudos.

Sentei-me  secretaria. Alli defronte mra
Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmes doentes;
Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
        E engomma para fra.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
To livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta  botica!
        Mal ganha para sopas...

O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
        Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais d'uma redaco, das que elogiam tudo,
        Me tem fechado a porta.

A critica segundo o methodo de Taine
Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
        Vale um desdem solemne.

Com raras excepes merece-me o epigramma.
Deu meia-noite; e em paz pela calada abaixo,
Um sol-e-d. Chovisca. O populacho
        Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas s fortunas,
Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
Independente! S por isso os jornalistas
        Me negam as columnas.

Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
Arte? No lhes convem, visto que os seus leitores
        Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
Obtem dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, no ha questo que mais me contrarie
        Do que escrever em prosa.

A adulao repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos litteratos,
E apuro-me em lanar originaes e exactos,
        Os meus alexandrinos...

E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
Ignora que a asphyxia a combusto das brazas,
No foge do estendal que lhe humedece as casas,
        E fina-se ao desprezo!

Mantem-se a ch e po! Antes de entrar na cova.
Esvae-se; e todavia,  tarde, fracamente,
Oio-a cantarolar uma cano plangente
        D'uma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
        Impressas em volume?

Nas lettras eu conheo um campo de manobras;
Emprega-se a rclame, a intriga, o annuncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
        Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha.  feia...
        Que mundo! Coitadinha!



A DEBIL

Eu, que sou feio, solido, leal,
A ti, que s bella, fragil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
N'uma existencia honesta, de crystal.

Sentado  mesa d'um caf devasso,
Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
N'esta Babel to velha e corruptora,
Tive tenes de offerecer-te o brao.

E, quando soccorreste um miseravel,
Eu, que bebia calices d'absintho,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudavel.

Ella ahi vem! disse eu para os demais;
E puz-me a olhar, vxado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinaes.

Via-te pela porta envidraada;
E invejava,--talvez que o no suspeites!--
Esse vestido simples, sem enfeites,
N'essa cintura tenra, immaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarcha.
Triste eu sahi. Doa-me a cabea;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exequias d'um monarcha.

Adoravel! Tu muito natural
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, n'um largo arborisado,
Uma estatua de rei n'um pedestal.

Sorriam nos seus trens os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa me, que te ama tanto,
Que no te morrer sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma familia, um ninho de socego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegancia e sem ostentao,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E d'altos funccionarios da nao.

Mas se a atropella o povo turbolento!
Se fosse, por acaso, alli pisada!
De repente, paraste embaraada
Ao p d'um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
Julguei vr, com a vista de poeta,
uma pombinha timida e quieta
N'um bando ameaador de corvos pretos.

E foi, ento, que eu homem varonil,
Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que s tenue, docil, reconhecida,
Eu, que sou habil, pratico, viril.



N'UM BAIRRO MODERNO

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manh; os transparentes
Matizam uma casa apalaada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamisada.

Rez-de-chausse repousam socegados,
Abriram-se, n'alguns, as persianas,
E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papeis pintados,
Reluzem, n'um almoo, as porcelanas.

Como  saudavel ter o seu conchego,
E a sua vida facil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quasi sempre chego
Com as tonturas d'uma apoplexia.

E rota, pequenina, aramafada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
Como um retalho de horta agglomerada,
Pousra, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Poz-se de p: resoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodo azul da meia,
Se ella se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
Se te convm, despacha; no converses.
Eu no dou mais. E muito descanado,
Atira um cobre livido, oxidado,
Que vem bater nas faces d' uns alperces.

Subitamente,--que viso de artista!--
Se eu transformasse os simples vegetaes,
 luz do sol, o intenso colorista,
N'um ser humano que se mova e exista
Cheio de bellas propores carnaes?!

Boiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz s costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E s portas, uma ou outra campainha
Toca, frenetica, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo organico, aos bocados.
Achava os tons e as frmas. Descobria
Uma cabea n'uma melancia,
E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos do o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
So tranas d'um cabello que se ageite;
E os nabos--ossos nus, da cr do leite,
E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.

Ha collos, hombros, boccas, um semblante
Nas posies de certos fructos. E entre
As hortalias, tumido, fragrante,
Como d'alguem que tudo aquilo jante,
Surge um melo, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons coraes pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o co. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dra o ramo de hortel que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
No passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...

Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
E, pelas duas azas a quebrar,
Ns levantmos todo aquelle peso
Que ao cho de pedra resistia preso,
Com um enorme esforo muscular.

Muito obrigada! Deus lhe d sade!
E recebi, nquella despedida,
As foras, a alegria, a plenitude,
Que brotam d'um excesso de virtude
Ou d'uma digesto desconhecida.

E em quanto sigo para o lado opposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas mas do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
D'uma janella azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrellas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

Chegam do gigo emanaes sadias,
Oio um canario--que infantil chilrada!--
Lidam mnages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja distillada.

E pittoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
D'uma desgraa alegre que me incita,
Ella aprega, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas d'um gigante,
Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rustica, abundante,
Duas frugaes aboboras carneiras.



CRYSTALISAES

A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
  Vibra uma immensa claridade crua.
  De cocaras, em linha os calceteiros,
  Com lentido, terrosos e grosseiros,
  Calcam de lado a lado a longa rua.

Como as elevaes seccaram do relento,
  E o descoberto sol abafa e cria!
  A frialdade exige o movimento;
  E as poas d'agua, como em cho vidrento,
  Reflectem a molhada casaria.

Em p e perna, dando aos rins que a marcha agita,
  Disseminadas, gritam as peixeiras;
  Luzem, aquecem na manh bonita,
  Uns barraces de gente pobresita.
  E uns quintalorios velhos com parreiras.

No se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
  Tomam por outra parte os viandantes;
  E o ferro e a pedra--que unio sonora!--
  Retinem alto pelo espao fra,
  Com choques rijos, asperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapages, morosos, duros, baos,
  Cuja columna nunca se endireita,
  Partem penedos; cruzam-se estilhaos.
  Pesam enormemente os grossos maos,
  Com que outros batem a calada feita.

A sua barba agreste! A l dos seus barretes!
  Que espessos forros! N'uma das regueiras
  Acamam-se as japonas, os colletes:
  E elles descalam com os picaretes,
  Que ferem lume sobre pederneiras.

E n'esse rude mez, que no consente as flores,
  Fundam, como a esquadra em fria paz,
  As arvores despidas. Sobrias cres!
  Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
  Atiram terra com as largas ps.

Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!--
  Carros de mo, que chiam carregados,
  Conduzem saibro, vagarosamente;
  V se a cidade, mercantil, contente:
  Madeiras, aguas, multides, telhados!

Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
  Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
  O ceu renova a tinta corredia;
  E os charcos brilham tanto, que eu diria
  Ter ante mim lagas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
  Eu tudo encontro alegremente exacto.
  Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
  E tangem-me, excitados, sacudidos,
  O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforos na friagem
  De to lavada e egual temperatura!
  Os ares, o caminho, a luz reagem;
  Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
  Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pra emquanto eu passo;
  Dois assobiam, altas as marretas
  Possantes, grossas, temperadas d'ao;
  E um gordo, o mestre, com um ar de ralao
  E manso, tira o nivel das valletas.

Homens de carga! Assim as bestas vo curvadas!
  Que vida to custosa! Que diabo!
  E os cavadores pousam as enxadas,
  E cospem nas callosas mos gretadas,
  Para que no lhes escorregue o cabo.

Povo! No panno cru rasgado das camizas
  Uma bandeira penso que transluz!
  Com ella soffres, bebes, agonisas:
  Listres de vinho lanam-lhe divisas,
  E os suspensorios traam-lhe uma cruz!

D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
  Surge um perfil direito que se agua;
  E ar matinal de quem sahiu da toca,
  Uma figura fina, desemboca,
  Toda abafada n'um casaco  russa.

D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
  E a quem,  noite na plateia, attraio
  Os olhos lizos como polimento!
  Com seu rostinho estreito, friorento,
  Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
  Como lajes. Os bons trabalhadores!
  Os filhos das lezirias, dos montados;
  Os das planicies, altos, aprumados;
  Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feies, o queixo hostil, distincto,
  Furtiva a tiritar em suas pelles,
  Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
  N'este dezembro energico, succinto,
  E n'estes sitios suburbanos, reles!

Como animaes communs, que uma picada esquente,
  Elles, bovinos, masculos, ossudos,
  Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
  E ella vacilla, hesita impaciente
  Sobre as botinhas de taces agudos.

Porm, desempenhando o seu papel na pea,
  Sem que inda o publico a passagem abra,
  O demonico arrisca-se, atravessa
  Covas, entulhos, lamaaes, depressa,
  Com seus psinhos rapidos, de cabra!



NOITES GELIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a allem que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gaz d noites de ballada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas ls forrada,
Recorda-me a elegancia, a graa, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.


SARDENTA

Tu, n'esse corpo completo,
 lactea virgem doirada,
Tens o lymphatico aspecto
D'uma camelia melada.


FLORES VELHAS

Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
Aonde tanta vez a luz nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um vo.

Em tudo scintillava o limpido poema
Com osculos rimado s luzes dos planetas;
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrugaes;
E as viraes, o rio, os astros, a pasizagem,
Traziam-me  memoria idyllios immortaes.

Diziam-me que tu, no florido passado,
Detinhas sobre mim, ao p d'aquellas rosas,
Aquelle teu olhar moroso e delicado,
Que fala de languor e d'emoes mimosas;

E,  pallida Clarisse,  alma ardente e pura,
Que no me desgostou nem uma vez sequer,
Eu no sabia haurir do calix da ventura
O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quasi irms do vento com as flores
E a molle exhalao das varzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
No ninho de affeies creado para ti,
Por entre o riso claro, e as vozes das creanas,
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito,  symbolo das santas,
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

E nosso bom romance escripto n'um desterro,
Com beijos sem ruido em noites sem luar,
Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu no beijarei, s horas somnolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por no ter sabido amar os movimentos
Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepes e os grandes desalentos
E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

E tudo emfim passou, passou como uma penna,
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
E aquella doce vida, aquella vida amena,
Ah! nunca mais vir, meu lyrio, nunca mais!

 minha boa amiga,  minha meiga amante!
Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia em que rangia a saia roagante,
Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

Eu tinha to impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas illuses
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as azas ir abrindo s minhas impresses.

Soltei com devoo lembranas inda escravas,
No espao construi phantasticos castellos,
No tanque debrucei-me em que te debruavas,
E onde o luar parava os raios amarellos.

Cuidei at sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha f, n'um veo consolador,
O teu divino olhar que as pedras amollece,
E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

Os teus pequenos ps, aquelles ps suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas mos,
E imaginei ouvir ao conversar das aves
As celicas canes dos anjos aos teus irmos.



NOITE FECHADA

(L.)

Lembras-te tu do sabbado passado,
Do passeio que dmos, devagar,
Entre um saudoso gaz amarellado
E as caricias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruasinhas,
Que ambos ns percorremos de mos dadas:
s janellas palravam as visinhas;
Tinham lividas luzes as fachadas.

No me esqueo das cousas que disseste,
Ante um pesado templo com recortes;
E os cemiterios ricos, e o cypreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Ns saramos proximo ao sol-posto,
Mas seguiamos cheios de demoras;
No me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cpula da egreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa bocca viosa de cereja,
Torcia risos com sabor amargo.

A lua dava tremulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com arvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei comtigo
N'um pateo velho que era d'um canteiro,
E onde, talvez, se faa inda o jazigo
Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flr da tua pelle,
Tua luva, teu veu, o que tu s!
No sei que tentao  que te impelle
Os pequeninos e canados ps.

Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
Eu por mim tinha pena dos maranos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafunados por immensos annos!

Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
Que apparecem ao fundo d'umas minas,
E  crua luz os pallidos barbeiros
Com oleos e maneiras femininas!

Fins de semana! Que miseria em bando!
O povo folga, estupido e grisalho!
E os artistas d'officio iam passando,
Com as ferias, ralados do trabalho.

O quadro anterior, d'um que  canda,
Ensina a filha a ler, metteu-me d!
Gosto mais do plebeu que cambala,
Do bebado feliz que falla s!

De subito, na volta de uma esquina,
Sob um bico de gaz que abria em leque,
Vimos um militar, de barretina
E gales marciaes de pechisbeque,

E em quanto elle fallava ao seu namoro,
Que morava n'um predio de azuljo,
Nos nossos labios retinio sonoro
Um vigoroso e formidavel beijo!

E assim ao meu capricho abandonada,
Errmos por travessas, por viellas,
E passmos por p d'uma tapada
E um palacio real com sentinellas.

E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calada sepulchral,
Tive a rude inteno de violentar-te
Imbecilmente como um animal!

Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
Como longiquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para ns vivermos.

E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
 grande pomba tpida que arrulha,
Vinham batendo o macadam fremente,
As patadas sonoras da patrulha,

E atravez a immortal cidadesinha,
Ns fomos ter s portas, s barreiras,
Em que uma negra multido se apinha
De teceles, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiada
Era uma esteira lucida d'amor;
 jovial senhora perfumada,
 terrivel creana! Que esplendor!

E ali comearia o meu desterro!...
Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentmo-nos, os dois, n'um novo aterro
Na muralha dos caes de cantaria.

Nunca mais amarei, j que no me amas,
E  preciso, decerto, que me deixes!
Toda a mar luzida como escamas,
Como alguidar de prateados peixes.

E como  necessario que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquella noite
E andei leguas a p, pensando n'isto.

E tu que no sers smente minha,
s caricias leitosas do luar,
Recolheste-te, pallida e ssinha
 gaiola do teu terceiro andar!



MANHANS BRUMOSAS

Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Pe o chapeo ao lado, abre o cabello  banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexes inglezas,
--Na Nevoa azul, a caa, as pescas, os rebanhos!--
Sigo-lhe os altos ps por estas asperezas;
E o meu desejo nada em epoca de banhos,
E, ave de arribao, elle enche de surprezas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandezas teem soberbos desmazelos!
Ella descobre assim, com lentides ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquellas so maritimas, serranas,
Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botes a tiracollo e applicaes vermelhas;
E  roda, n'um paiz de prados e barrancos,
Se as minhas maguas vo, mansissimas ovelhas,
Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Pe o chapeo ao lado, abre o cabello  banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.



FRIGIDA

I

Balzac  meu rival, minha senhora ingleza!
Eu quero-a porque odeio as carnaes redondas!
Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
E eu turbo-me ao deter seus olhos cr das ondas.

II

Admiro-a. A sua longa e placida estatura
Expe a magestade austera dos invernos.
No cora no seu todo a timida candura;
Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

III

Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
N'uma das mos franzindo um leno de cambraia!...
Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
Quando arregaa e ondula a preguiosa saia!

IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

V

Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
 gelida mulher bizarramente estranha,
E tremulo depor os labios no seu pulso,
Entre a macia luva e o punho de bretanha!...

VI

Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
Pausadamente lembra o silvo das giboias
E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

VII

Metallica viso que Charles Baudelaire
Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
Permitta que eu lhe adule a distinco que fere,
As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

VIII

Deslise como um astro, uma astro que declina;
To descanada e firme  que me desvaria,
E tem a lentido d'uma corveta fina
Que nobremente v n'um mar de calmaria.

IX

No me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
No bosque das fices,  grande flor do Norte!
E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
O socegado espectro angelico da Morte!

X

O seu vagar occulta uma elasticidade
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
E a sua glacial impassibilidade
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

XI

Porem, no arderei aos seus contactos frios,
E no me enroscar nos serpentinos braos:
Receio supportar febres e calefrios;
Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

XII

E se uma vez me abrisse o collo transparente,
E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
Nas trevas, a cortar pedaos de cortia!



DE VERO

A Eduardo Coelho

I

No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
   A claridade, a robustez, a aco.
   Esta manh, sa com minha prima,
   Em que eu noto a mais sincera estima
   E a mais completa e sria educao.

II

Creana encantadora! Eu mal esboo o quadro
   Da lyrica excurso, d'intimidade
   No pinto a velha ermida com seu adro;
   Sei s desenho de compasso e esquadro,
   Respiro industria, paz, salubridade.

III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
   E tu dizias: Fumas? E as fagulhas?
   Apaga o teu cachimbo junto s eiras;
   Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
   Quando me alegra a calma das debulhas!

IV

E perguntavas sobre os ultimos inventos
   Agrcolas. Que aldeias to lavadas!
   Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
   Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
   Como nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
   Dos olivaes escuros. Onde irs?
   Regressam os rebanhos das pastagens;
   Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
   E, silencioso, eu fico para traz.

VI

N'uma collina azul brilha um logar caiado.
   Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
   Com teu chapo de palha, desabado,
   Tu continas na azinhaga; ao lado
   Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII

N'isto, parando, como alguem que se analysa,
   Sem desprender do cho teus olhos castos,
   Tu comeaste, harmonica, indecisa,
   A arregaar a chita, alegre e lisa
   Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
   O sol abrasa as terras j ceifadas,
   E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
   Sobre os teus ps decentes, verdadeiros,
   As saias curtas, frescas, engommadas.

IX

E, como quem saltasse, extravagantemente,
   Um rego d'agua sem se enxovalhar,
   Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
   Depois de bem composta, dste  frente
   Uma pernada comica, vulgar!

X

Exotica! E cheguei-me ao p de ti. Que vejo!
   No atalho enxuto, e branco das espigas
   Caidas das carradas no salmejo,
   Esguio e a negrejar em um cortejo,
   Destaca-se um carreiro de formigas.

XI

Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
   Na natureza trmula de sede,
   Arrastam bichos, uvas e sementes;
   E atulha, por instincto, previdentes,
   Seus antros quasi occultos na parede.

XII

E eu desatei a rir como qualquer macaco!
   Tu no as esmagares contra o solo!
   E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
   Eu de jasmim na casa do casaco
   E d'oculo deitado a tiracolo!

XIII

As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
   Um sublimado corrosivo, uns ps
   De solimo, eu, sem maior demora,
   Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
   Preferes o romantico ao feroz.

XIV

Que compaixo! Julgava at que matarias
   Esses insectos importunos! Basta.
   Merecem-te espantosas sympathias?
   Eu felicito suas senhorias,
   Que honraste com um pulo de gymnasta!

XV

E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
   Luziam, com doura, honestamente;
   De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
   Lembravam-me fuses d'immensos oiros,
   E o mar um prado verde e florescente.

XVI

Vibravam, na campina, as chocas da manada;
   Vinham uns carros a gemer no outeiro,
   E finalmente, energica, zangada,
   Tu inda assim bastante envergonhada,
   Volveste-me, apontando o formigueiro:

XVII

No me incommode, no, com ditos detestaveis!
   No seja simplesmente um zombador!
   Estas mineiras negras, incanaveis,
   So mais economistas, mais notaveis,
   E mais trabalhoras que o senhor.



O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

A Guerra Junqueiro


I

AVE MARIAS

      Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

      O ceu parece baixo e de neblina,
O gaz extravasado enja-me, perturba;
E os edificios, com as chamins, e a turba
Toldam-se d'uma cr monotona e londrina.

      Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando  via ferrea os que se vo. Felizes!
Occorrem-me em revista exposies, paizes:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

      Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificaes smente emmadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

      Voltam os calafates, aos magotes,
De jaqueto ao hombro, enfarruscados, seccos;
Embrenho-me, a scismar, por boqueires, por beccos,
Ou rro pelos caes a que se atracam botes.

      E evoco, ento, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
Lucta Cames no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu no verei jmais!

      E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
De um couraado inglez vogam os escaleres;
E em terra n'um tinir de louas e talheres
Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

      N'um trem de praa arengam dois dentistas;
Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
s portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

      Vasam-se os arsenaes e as officinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

      Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas,  cabea, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

      Descalas! Nas descargas de carvo,
Desde manh  noite, a brdo das fragatas;
E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
E o peixe pdre gra os focos de infeco!


II

NOITE FECHADA

      Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje esto velhinhas e creanas,
Bem raramente encerra uma mulher de dom!

      E eu desconfio, at, de um aneurisma
To morbido me sinto, ao accender das luzes;
 vista das prises, da velha s, das cruzes,
Chora-me o corao que se enche e que se abysma.

      A espaos, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafs, as tendas, os estancos
Alastram em lenol os seus reflexos brancos;
E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

      Duas egrejas, n'um saudoso largo,
Lanam a nodoa negra e funebre do clero:
N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

      Na parte que abateu no terremoto,
Muram-se as construces rectas, eguaes, crescidas;
Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

      Mas, n'um recinto publico e vulgar,
Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
Bronzeo, monumental, de propores guerreiras,
Um pico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

      E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
N'esta accumulao de corpos enfezados;
Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

      Partem patrulhas de cavallaria
Dos arcos dos quarteis que foram j conventos;
Edade-mdia! A p, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

      Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixo defunta! Aos lampees distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir s montras dos ourives.

      E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoos altos
E muitas d'ellas so comparsas ou coristas.

      E eu, de luneta de uma lente s,
Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; s mesas de emigrados,
Ao riso e  crua luz joga-se o domin.


III

AO GAZ

      E saio. A noite peza, esmaga. Nos
Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
 molles hospitaes! Sae das embocaduras
Um sopro que arripia os hombros quasi ns.

      Cercam-me as lojas, tpidas. Eu penso
Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
Em uma cathedral de um comprimento immenso.

      As burguezinhas do Catholocismo
Resvalam pelo cho minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

      N'um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exhala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a po no forno.

      E eu que medito um livro que exarcebe,
Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
Casas de confeces e modas resplandecem;
Pelas vitrines lha um ratoneiro imberbe.

      Longas descidas! No poder pintar
Com versos magistraes, salubres e sinceros,
A esguia diffuso dos vossos reverberos,
E a vossa pallidez romantica e lunar!

      Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
Sua excellencia attre, magnetica, entre luxo,
Que ao longo dos balces de mogno se amontoa.

      E aquella velha, de bands! Por vezes,
A sua trane imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
Escarvam,  victoria, os seus mecklemburguezes.

      Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
Flcos de ps de arroz pairam suffocadores,
E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

      Mas tudo cana! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
Da solido regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausolos as armaes fulgentes.

      D da miseria!... Compaixo de mim!...
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!


IV

HORAS MORTAS

      O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

      Por baixo, que portes! Que arruamentos!
Um parafuso ce nas lages, s escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

      E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longiqua flauta.

      Se eu no morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeio das cousas!
Esqueo-me a prever castissimas esposas,
Que aninhem em manses de vidro transparente!

       nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos traro a nitidez s vidas!
Eu quero as vossas mes e irms estremecidas,
N'umas habitaes translucidas e frageis.

      Ah! Como a raa ruiva do porvir,
E as frtas dos avs, e os nmadas ardentes,
Ns vamos explorar todos os continentes
E pelas vastides aquaticas seguir!

      Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no valle escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

      E n'estes nebulosos corredores
Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de brao dado, uns tristes bebedores.

      Eu no receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
Amarelladamente, os ces parecem lobos.

      E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as immoraes, nos seus roupes ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

      E, enorme, n'esta massa irregular
De predios sepulchraes, com dimenses de montes,
A Dr humana busca os amplos horisontes,
E tem mars, de fel, como um sinistro mar!



DE TARDE

N'aquelle pic-nic de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarella.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de gro de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Ns acampmos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melo, damascos,
E po de l molhado em malvasia.

Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



EM PETIZ


I

DE TARDE

Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem fora teve em si para soltar um grito;
E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homemzarro servi-lhe de barreira!

Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, ttas a abanar, as mes de largas ancas,
Desciam mais atraz, malhadas e turinas.

Do seio do logar--casitas com postigos--
Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo prego vos tira ao vosso somno, amigos!

Ns davamos, os dois, um giro pelo valle:
Varzeas, povoaes, pgos, silencios vastos!
E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
Roavam pelo teu costume de percale.

J no receias tu essa vaquita preta,
Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Hombros em p, medrosa, e fina, de luneta!


II

OS IRMOSINHOS

Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
Eu, que apartava as mansas das velhacas,
Fugia com terror dos pobresinhos!

Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouo!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
Os mandries que rosnam, altos, grossos;
E os cegos que se apoiam sobre o moo.

Ah! Os ceguinhos com a cr dos barros,
Ou que a poeira no suor mascarra,
Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!

E os pobres mettem medo! Os de marmita,
Para forrar, por anno, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, afflicta.

Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas putridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!

Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as villas; sobem os outeiros;
E s horas de calor, nos esterqueiros,
De roda d'elles zumbem os moscardos.

Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
Batiam ao porto com seus cajados;
E um aleijado com os ps quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.

O resmungo! Que barbas! Que saccolas!
Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
Dormia as noutes por telheiros rotos,
E sustentava o burro a po d'esmolas.

       *       *       *       *       *

 minha loura e doce como um bolo!
Affavel hospeda na nossa casa,
Logo que a torrida cidade abraza,
Como um enorme frno de tijolo!

Tu visitavas, esmoler, garrida,
Umas creanas n'um casal queimado;
E eu, pela estrada, espicaava o gado,
N'uma attitude esperta e decidida.

Por lobishomens, por papes, por bruxas,
Nunca soffremos o menor receio.
Temieis vs, porm, o meu aceio,
Mendigasitas sordidas, gorduchas!

Vicios, sezes, epidemias, furtos,
De certo, fermentavam entre lixos;
Que podrido cobria aquelles bichos!
E que luar nos teus fatinhos curtos!

       *       *       *       *       *

Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
Rua, descala, a trote nos atalhos,
E que lavava o corpo e os seus retalhos
No rio, ao p dos choupos e dos freixos.

E a douda a quem chamavam a Ratada
E que fallava s! Que antipathia!
E se com ella a malta contendia,
Quanta indecencia! Quanta palavrada!

Uns operarios, n'estes descampados,
Tambem surdiam, de chapeu de cco,
Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
Artistas despedidos, desgraados.

Muitos! E um bebedo--o Cames--que fra
Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
Com uma pala verde sobre um olho!
Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

E o resto? Bandos de selvagensinhos:
Um n que se gabava de maroto;
Um, que cortada a mo, coava o coto,
E os bons que nos tratavam por padrinhos.

Pediam fatos, botas, cobertores!
Outro jogava bem o pau, e vinha
Chorar, humilde, junto da coxinha!
Cinco risinhos!... Nobres bemfeitores!...

E quando alguns ficavam nos palheiros,
E de manh catavam os piolhos:
Emquanto o sol batia nos restolhos
E os nossos ces ladravam, resingueiros!

Hoje entristeo. Lembro-me dos coxos,
Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
Sulcavam as caladas, de muletas;
Cantavam, no pomar, os pintarroxos!


III

HISTORIAS

Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
Assim que um besunto dos taes se apercebia
Da minha blusa azul e branca, de riscado.

Minaveis, ao sero, a cabecita loira,
Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!

Na noite velha, a mim, como ties ardendo,
Fitavam-me os olhes pesados das ciganas;
Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.

E eu que era um cavallo, eu que fazia pinos,
Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
Sonhava que os ladres--homens de quem m'espanto
Roubavam para azeite a carne dos meninos!

E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
Branca de susto, meiga e miope, estacando!



NS

A A. de S. V.


I

Foi quando em dois veres, seguidamente, a Febre
E o Cholera tambem andaram na cidade,
Que esta populao, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
(At ento ns s tiveramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montes de malvas
Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
Morreram todos. Ns salvmo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um panico! Nem um navio entrava a barra,
A alfandega parou, nenhuma loja abria,
E os turbolentos caes cessaram a algazarra.

Pela manh, em vez dos trens dos baptisados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucesso dos armazens fechados!
Como um domingo inglez na city, que desterro!

Sem canalisao, em muitos burgos ermos,
Seccavam dejeces cobertas de mosqueiros.
E os medicos, ao p dos padres e coveiros,
Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!

Uma illuminao a azeite de purgueira,
De noite amarellava os predios macillentos.
Barricas d'alcatro ardiam; de maneira
Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

Porm, l fora,  solta, exageradamente
Emquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetao, plethorica, potente,
Ganhava immenso com a enorme mortandade!

N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
N'uma opulenta furia as novidades todas,
Como uma universal celebrao de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste d'ouvir fallar em orphos e em viuvas,
E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
No quiz voltar seno depois das grandes chuvas.

Elle d'um lado, via os filhos achacados,
Um livido flagello e uma molestia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
E um salutar refugio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde ento, segundo o que me lembro,
 todo o meu amor de todos estes annos!
Ns vamos para l; somos provincianos,
Desde o calor de maio aos frios de novembro!

II

Que de fructa! E que fresca e tempor,
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o sol, nos talhes e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manh!

O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos so resvaladios)
Desce em socalcos todos os macissos,
Como uma escadaria de gigantes.

Das courellas, que criam cereaes,
De que os donos--ainda!--pagam foros.
Dividem-n'o fechados pitosporos,
Abrigos de raizes verticaes.

Ao meio, a casaria branca assenta
 beira da calada, que divide
Os escuros pomares de pevide,
Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

Entretanto, nao ha maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
O seu leito  um atalho de passagem,
Pedregosissimo, entre dois logares.

Como lhe luzem seixos e burgaus
Rolis! Marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como loes espigam altos paus!

Montanhas inda mais longiquamente,
Com restevas, e combros como boas,
Lembram cabeas estupendas, grossas,
De cabello grisalho, muito rente.

E, a contrastar, nos valles, em geral,
Como em vidraa d'uma enorme estufa,
Tudo se attrae, se impe, alarga e entufa,
D'uma vitalidade equatorial!

Que de frugalidades ns criamos!
Que torro espontaneo que ns somos!
Pela outomnal maturao dos pomos,
Com a carga, no cho pousam os ramos.

E assim postas, nos barros e areiaes,
As maceiras vergadas fortemente,
Parecem, d'uma fauna surprehendente,
Os polypos enormes, diluviaes.

Comtudo, ns no temos na fazenda
Nem uma planta s de mero ornato!
Cada p mostra-se util,  sensato,
Por mais finos aromas que rescenda!

Finalmente, na fertil depresso,
Nada se v que a nossa mo no regre:
A florescencias d'um matiz alegre
Mostra um sinal--a fructificao!

       *       *       *       *       *

Ora, ha dez annos, n'este cho de lava
E argila e areia e alluvies dispersas,
Entre especies botanicas diversas,
Forte, a nossa familia radiava!

Unicamente, a minha doce irm,
Como uma tenue e immaculada rosa,
Dava a nota galante e melindrosa
Na trabalheira rustica, alde.

E foi n'um anno prodigo, excellente,
Cuja amargura nada sei que adoce,
Que ns perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!

Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
E, sendo fracos, sejam generosos!
As doenas assaltam os bondosos
E--custa a crer--deixam viver os maus!

       *       *       *       *       *

Fecho os olhos canados, e descrevo
Das telas da memoria retocadas,
Biscates, hortas, batataes, latadas,
No paiz montanhoso, com relevo!

Ah! Que aspectos benignos e ruraes
N'esta localidade tudo tinha,
Ao ires, com o banco de palhinha,
Para a sombra que faz nos parreiraes!

Ah! Quando a calma,  sesta, nem consente
Que uma folha se mova ou se desmanche,
Tu, refeita e feliz com o teu lunch,
Nos ajudavas, voluntariamente!...

Era admiravel--n'este grau do Sul!--
Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
Que eu embarcava para Liverpool.

A exportao de frutas era um jogo:
Dependiam da sorte do mercado
O boal, que  de perolas formado,
E o ferral, que  ardente e cr de fogo!

Em agosto, ao calor canicular,
Os passaros e enxames tudo infestam;
Tu cortavas os bagos que no prestam
Com a tua thesoura de bordar.

Douradas, pequeninas, as abelhas,
E negros, volumosos, os besoiros,
Circumdavam, com impetos de toiros,
As tuas candidissimas orelhas.

Se uma vespa lanava o seu ferro
Na tua cutis--petala de leite!--
Ns collocavamos dez ris e azeite
Sobre a galante, a rosea inflammao!

E se um de ns, j farto, arrenegado,
Com o chapeo caava a bicharia,
Cada zango voando,  luz do dia,
Lembrava o teu dedal arremessado.

       *       *       *       *       *

Que d'encantos! Na fora do calor
Desabrochavas no padro da bata,
E, surgindo da gola e da gravata,
Teu pescoo era o caule d'uma flor!

Mas que cegueira a minha! Do teu porte
A fina curva, a indefinida linha,
Com bondades d'herbivora mansinha,
Eram prenuncios de fraqueza e morte!

 procura da libra e do schilling,
Eu andava abstracto e sem que visse
Que o teu alvor romantico de miss
Te obrigava a morrer antes de mim!

E antes tu, ser lindissimo, nas faces
Tivesses panno como as camponezas;
E sem brancuras, sem delicadezas,
Vigorosa e plebeia, inda durasses!

Uns modos de carnivora feroz
Podias ter em vez de inoffensivos;
Tinhas caninos, tinhas incisivos,
E podias ser rude como ns!

Pois n'este stio, que era de sequeiro,
Todo o genero ardente resistia,
E,  larguissima luz do Meio-dia,
Tomava um tom opalico e trigueiro!

       *       *       *       *       *

Sim! Europa do Norte, o que suppes
Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
Quando s dockas, com fructas, os paquetes
Chegam antes das tuas estaes?!

Oh! As ricas primeurs da nossa terra
E as tuas frutas acidas, tardias,
No azedo amoniacal das queijarias
Dos fleugmaticos farmers d'Inglaterra!

 cidades fabris, industriaes,
De nevoeiros, poeiradas de hulha,
Que pensaes do paiz que vos atulha
Com a fructa que sae dos seus quintaes?

Todos os annos, que frescor se exhala!
Abundancias felizes que eu recordo!
Carradas brutas que iam para brdo!
Vapores por aqui fazendo escala!

Uma alta parreira muscatel
Por doce no servia para embarque:
Palacios que rodeiam Hyde-Park,
No conheceis esse divino mel!

Pois a Cora, o Banco, o Almirantado,
No as tm nas florestas em que ha coras,
Nem em vs que dobraes as vossas foras,
Pradarias d'um verde illimitado!

Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
Ricos suicidas, comparae comvosco!
Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
Facilimo, evidente, salutar!

Opponde s regies que do os vinhos
Vossos montes d'escorias inda quentes!
E as febris officinas estridentes
s nossas tecelagens e moinhos!

E  condados mineiros! Extenses
Carboniferas! Fundas galerias!
Fabricas a vapor! Cutelarias!
E mechanicas, tristes fiaes!

Bem sei que preparaes correctamente
O ao e a seda, as laminas e o estofo;
Tudo o que h de mais dctil, de mais fofo,
Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

Mas isso tudo  falso,  machinal,
Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
Com essa perfeio do fabricado,
Sem o rythmo do vivo e do real!

E c o santo sol, sobre isso tudo,
Faz conceber as verdes ribanceiras;
Lana as rosaceas bellas e fructeiras
Nas searas de trigo palhagudo!

Uma aldeia d'aqui  mais feliz,
Londres sombria, em que scintilla a corte!...
Mesmo que tu, que vives a compor-te,
Grande seio arquejante de Paris!...

Ah! Que de gloria, que de colorido,
quando, por meu mandado e meu conselho,
C se empapelam as mas d'espelho
Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

Para alguns so prosaicos, so banaes
Estes versos de fibra succolenta;
Como se a polpa que nos dessedenta
Nem ao menos valesse uns madrigaes!

Pois o que a bocca trava com surprezas
Seno as frutas tnicas e puras!
Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
A graa vegetal das sobremesas!...

Jack, marujo inglez, tu tens razo
Quando, ancorando em portos como os nossos,
As laranjas com cascas e caros
Comes com bestial soffreguido!...

       *       *       *       *       *

A impresso d'outros tempos, sempre viva,
D estremees no meu passado morto,
E inda viajo, muita vez, absorto,
Pelas varzeas da minha retentiva.

Ento recordo a paz familiar,
Todo um painel pacifico d'enganos!
E a distancia fatal d'uns poucos annos
 uma lente convexa, d'augmentar.

Todos os typos mortos resuscito!
Perpetuam-se assim alguns minutos!
E eu exagro os casos diminutos
Dentro d'um vo de lagrimas bemdito.

Pinto quadros por lettras, por signaes,
To luminosos como os do Levante,
Nas horas em que a calma  mais queimante,
Na quadra em que o vero aperta mais.

Como destacam, vivas, certas cores,
Na vida externa cheia d'alegrias!
Horas, vozes, locaes, physionomias,
As ferramentas, os trabalhadores!

Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
E a rama do pinheiro! Eu adivinho
O resinoso, o to agreste pinho
Serrado nos pinhaes da beira mar.

Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
Cheia de ns, d'imperfeies, de rachas;
Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
Sob uma calma espessa e calaceira!

Feias e fortes! Punham-lhes papel,
A forral-as. E em grossa serradura
Acamava-se a uva prematura
Que no deve servir para tonel!

Cingiam-n'as com arcos de castanho
Nas ribeiras cortados, nos riachos;
E eram d'assucar e calor os cachos,
Criados pelo esterco e pelo amanho!

 pobre estrume, como tu compes
Estes pampanos doces como afagos!
Dedos de dama: transparentes bagos!
Tetas de cabra: lacteas carnaes!

E no eram caixitas bem dispostas
Como as passas de Malaga e Alicante;
Com sua frma estavel, ignorante,
Estas pesavam, brutalmente, s costas!

Nos vinhatorios via fulgurar,
Com tanta cal que torna as vistas cegas,
Os parallelogramos das adegas,
Que tm l dentro as dornas e o lagar!

Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
Que grande azafama! Apressadamente
Como soava um martellar frequente,
Vspera da saida dos navios!

Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espirito secreto!
Com folhas de saudades um objecto
Deita raizes duras de arrancar!

As navalhas de volta, por exemplo,
Cujo bico de passaro se arqueia,
Forjadas no casebre d'uma aldeia,
So antigas amigas que eu contemplo!

Ellas, em seu labor, em seu lidar,
Com sua ponta como a da podoas,
Serviam prbas, uteis, dignas, boas,
Nunca tintas de sangue e de matar.

E as enxs de martello, que d'um lado
Cortavam mais do que as enxadas cavam,
Por outro lado, rpidas, pregavam,
D'uma pancada, o prego fasquiado!

O meu animo verga na abstraco,
Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
Mas se de materiaes descubro um veio
Ganho a musculatura d'um Sanso!

E assim--e mais no povo a vida  corna--
Amo os officios como o de ferreiro,
Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
Seu malho retumbante na bigorna!

E sinto, se me ponho a recordar
Tanto utensilio, tantas perspectivas,
As tradies antigas, primitivas,
E a formidavel alma popular!

Oh! Que brava alegria eu tenho quando
Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
Fao um trabalho technico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!

       *       *       *       *       *

Os fruteiros, tostados pelos soes,
Tinham passado, muita vez, a raia,
E, espertos, entre os mais da sua laia,
--Pobres camponios--eram uns heroes.

E por isso, com phrases imprevistas,
E colorido e estylo e valentia,
As haciendas que ha na Andalucia
Pintavam como novos paysagistas.

De como, s calmas, n'essas excurses,
Tinham aguas salobras por refrescos;
E amarellos, enormes, gigantescos,
L batiam o queixo com seses!

Tinham corrido j na adusta Hespanha,
Todo um fertil plat sem arvoredos,
Onde armavam barracas nos vinhedos,
Como tendas alegres de campanha.

Que pragas castelhanas, que alegro,
Quanto contavam scenas de pousadas!
Adoravam as cintas encarnadas
E as cres, como os pretos do serto!

E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
A educao vistosa das viagens!
Uns por terra partiam e estalagens,
Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

S um havia, triste e sem fallar
Que arrastava a maior misantropia,
E, roxo como um figado, bebia
O vinho tinto que eu mandava dar!

Pobre da minha gerao exangue
De ricos! Antes, como os abrutados,
Andar com uns sapatos encebados,
E ter riqueza chimica no sangue!

       *       *       *       *       *

Mas hoje a rustica lavoura, quer
Seja o patro, quer seja o jornaleiro,
Que inferno! Em vo o lavrador rasteiro
E a filharada lidam, e a mulher!...

Desde o princpio ao fim  uma maada
De mil demonios! Torna-se preciso
Ter-se muito vigor, muito juizo
Para trazer a vida equilibrada!

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as pdo e empo.
Ah! O campo no  um passatempo
Com bucolismos, rouxinoes, luar.

A ns tudo nos rouba e nos dizima:
O rapazio, o imposto, as pardaladas,
As osgas peonhentas, achatadas,
E as abelhas que engordam na vindima.

E o pulgo, a lagarta, os caracoes,
E ha inda, alem do mais com que se ateima,
As intemperies, o granizo, a queima,
E a concorrencia com os hespanhoes.

Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
Competem contra os nossos fazendeiros.
Do frutas aos leiles dos estrangeiros,
Por uma cotao que nos desvia!

Pois tantos contras, rudes como so,
Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
Venham de l pesados os comboyos
E os buques estivados no poro!

No, no  justo que eu a culpa lance
Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
Ns no vivemos s de coisas bellas,
Nem tudo corre como n'um romance!

Para a Terra parir hade ter dor,
E  para obter as asperas verdades,
Que os agronomos cursam nas cidades,
E,  sua custa, aprende o lavrador.

Ah! No eram insectos nem as aves
Que nos dariam dias to difficeis,
Se vs, sabios, na gente descobrisseis
Como se curam as doenas graves.

No valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
Difficultoso trato das cearas!
Lutas constantes sobre as jornas caras!
Compras de bois nas feiras annuaes!

O que a alegria em ns destroe e mata,
No  rede arrastante d'escalracho,
Nem  suo queimante como um facho,
Nem invases bulhosas d'herva pata.

Podia ter seccado o poo em que eu
Me debruava e te pregava sustos,
E mais as hervas, arvores e arbustos
Que--tanta vez!--a tua mo colheu.

Molestia negra nem charbon no era,
Como um archote incendiando as parras!
To pouco as bastas e invisiveis garras,
Da enorme legio do phylloxera!

Podiam mesmo, com o que contm,
Os muros ter caido s invernias!
Somos fortes! As nossas energias
Tudo vencem e domam muito bem!

Que os rios, sim, que como touros mugem,
Transbordando atulhassem as regueiras!
Chorassem de resina as larangeiras!
Ennegrecessem outras com ferrugem!

As turvas cheias de novembro, em vez
Do nateiro subtil que fertilisa,
Fossem a inundao que tudo pisa,
No rebanho afogassem muita rez!

Ah! N'esse caso pouco se perdera,
Pois isso tudo era um pequeno damno,
 vista do cruel destino humano
Que os dedos te fazia como cera!

Era essa tysica em terceiro grau,
Que nos enchia a todos de cuidado,
Te curvava e te dava um ar alado
Como quem vae voar d'um mundo mau.

Era a desolao que inda nos mina
(Porque o fastio  bem peior que a fome)
Que a meu pai deu a curva que a consome,
E a minha me cabellos de platina.

Era a chlorose, esse tremendo mal,
Que desertou e que tornou funesta
A nossa branca habitao em festa
Reverberando a luz meridional.

No desejemos,--ns os sem defeitos,--
Que os tysicos peream! M theoria,
Se pelos meus o apuro principia,
Se a Morte nos procura em nossos leitos!

A mim mesmo, que tenho a pretenso
De ter saude, a mim que adoro a pompa
Das foras, pode ser que se me rompa
Uma arteria, e me mine uma leso.

Ns outros, teus irmos, teus companheiros,
Vamos abrindo um matagal de dores!
E somos rijos como os serradores!
E positivos como os engenheiros!

Porm, hostis, sobresaltados, ss,
Os homens architectam mil projectos
De victoria! E eu duvido que os meus netos
Morram de velhos como os meus avs!

Porque, parece, ou fortes ou velhacos
Sero apenas os sobreviventes;
E ha pessoas sinceras e clementes,
E troncos grossos com seus ramos fracos!

E que fazer se a gerao decae!
Se a seiva genealogica se gasta!
Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
Morre o filho primeiro do que o pai!

Mas seja como for, tudo se sente
Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
 flor cortada, susceptivel, alta,
Que assim seccaste prematuramente!

Eu que de vezes tenho o desprazer
De reflectir no tumulo! E medito
No eterno Incognoscivel infinito,
Que as idas no podem abranger!

Como em paul em que nem cresa a junca
Sei d'almas estagnadas! Ns absortos,
Temos ainda o culto pelos Mortos,
Esses ausentes que no voltam nunca!

Ns ignoramos, sem religio,
Ao rasgarmos caminho, a f perdida,
Se te vemos ao fim d'esta avenida
Ou essa horrivel aniquilao!...

E  minha martyr, minha virgem, minha
Infeliz e celeste creatura,
Tu lembras-nos de longe a paz futura,
No teu jazigo, como uma santinha!

E emquanto a mim, s tu que substitues
Todo o mysterio, toda a santidade,
Quando em busca do reino da verdade
Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!


III

Tinhamos ns voltado  capital maldicta,
Eu vinha de polir isto tranquillamente,
Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
Pois um de ns caiu, de subito, doente.

Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
D-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
No sei d'um infortunio immenso como o seu!
Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Como tanta crueldade e tantas injustias,
Se inda trabalho  como os presos no degredo,
Com planos de vingana e idas insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida  dura,
Tenho momentos maus, to tristes, to perversos,
Que sinto s desdem pela litteratura,
E at desprzo e esqueo os meus amados versos!



PROVINCIANAS


I

Ol! Bons dias! Em maro
Que mocetona e que joven
A terra! Que amor esparso
Corre os trigos, que se movem
s vagas d'um verde garo!

Como amanhece! Que meigas
As horas antes de almoo!
Fartam-se as vaccas nas veigas
E um pasto orvalhado e moo
Produz as novas manteigas.

Toda a paizagem se doura;
Tibida ainda, que frecas!
Bella mulher, sim senhora,
N'esta manh pittoresca,
Primaveral, creadora!

Bom sol! As sebes d'encosto
Do madresilvas cheirosas
Que entotecem como um mosto
Floridas, s espinhosas
Subio-lhes o sangue ao rosto.

Cresce o relevo dos montes,
Como seios offegantes;
Murmuram como umas fontes
Os rios que dias antes
Bramiam galgando pontes.

E os campos, milhas e milhas,
Com pvos d'espao a espao,
Fazem-se s mil maravilhas;
Dir-se-ia o mar de sargao
Glauco, ondulante, com ilhas!

Pois bem. O inverno deixou-nos.
 certo. E os gros e as sementes
Que ficam d'outros outonos
Acordam hoje frementes
Depois d'uns poucos de somnos.

Mas nem tudo so descantes
Por esses longos caminhos
Entre favaes palpitantes
H solos bravos, maninhos,
Que expulsam seus habitantes!

E n'esta quadra d'amores
Que emigram os jornaleiros
Ganhes e trabalhadores!
Passam clans de forasteiros
Nas terras de lavradores.

Tal como existem mercados
Ou feiras, semanalmente
Para comprarmos os gados
Assim ha praas de gente
Pelos domingos calados!

Emquanto a ovelha arredonda,
Vo tribus de sete filhos,
Por varzeas que fazem onda,
Para as derregas dos milhos
E molhadellas da monda.

De roda pulam borregos;
Enchem ento as cardosas
As moas d'esses labregos
Com altas botas bartrosas
De se atirarem aos regos!

Eil-as que vem s manadas
Com caras de soffrimento,
Nas grandes marchas foradas!
Vem ao trabalho, ao sustento,
Com fouces, sachos, enchadas!

Ai o palheiro das servas
Se o feitor lhe tira as chaves!
Ellas chegam s catervas,
Quando acasalam as aves
E se fecundam as hervas!...


II

Ao meio dia na cama,
Branca fidalga o que julga
Das pequenas da su'ama?!
Vivem minadas da pulga
Negras do tempo e da lama.

No  caso que a commova
Ver suas irmans de leite,
Quer faa frio, quer chova,
Sem uma mam que as deite
Na tepidez d'um alcova?!

Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.


NOTAS

Cesario Verde (Jos Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
Pao do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho  do sr. Jos
Anastacio Verde, negociante, e da sr. D. Maria da Piedade dos
Santos Verde.

       *       *       *       *       *

A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
Verde, precedendo-os de uma carta de apresentao a Manoel d'Arriaga.
Esses versos no se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
Realmente o eram--pela hesitao do neophyto.

       *       *       *       *       *

Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnao foi hoje
respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composies de
menos folego.

       *       *       *       *       *

No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
tarde, do Porto, da Renascena, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
da Illustrao, etc., no ser discutida pelo auctor d'estas linhas.
No  hoje discutida, nem o ser jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos
insultos.

       *       *       *       *       *

Os 200 exemplares d'este livro sero distribuidos pelos parentes,
pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuio
ser publicada. As reclamaes justificadas sero attendidas.

1887.

S. P.


INDICE

Dedicatoria
Prefacio

VERSOS

CRISE ROMANESCA

Deslumbramentos
Septentrional
Meridional
Ironias do Desgosto
Humilhaes
Responso

NATURAES

Contrariedades
A debil
N'um bairro moderno
Crystalisaes
Noites gelidas
Sardenta
Flores velhas
Noite fechada
Manhans brumosas
Frigida
De vero
O sentimento d'um occidental
De tarde
Em petiz
Ns
Provincianas

Notas









End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O LIVRO DE CESARIO VERDE ***

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  License. You must require such a user to return or destroy all
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or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
Defect you cause.

Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of
computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
from people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
volunteers and employees are scattered throughout numerous
locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
date contact information can be found at the Foundation's web site and
official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:

    Dr. Gregory B. Newby
    Chief Executive and Director
    gbnewby@pglaf.org

Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment. Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements. We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations. To
donate, please visit: www.gutenberg.org/donate

Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
freely shared with anyone. For forty years, he produced and
distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
volunteer support.

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editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
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