The Project Gutenberg EBook of Humus, by Raul Germano Brando

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Title: Humus

Author: Raul Germano Brando

Release Date: May 5, 2012 [EBook #39618]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                             Rita Farinha (Maio 2012)




[Figura]




     Reservados todos os direitos de reproduco nos paizes que
     adheriram  Conveno de Berne; Brasil: Lei n.^o 2577 de 17 de
     Janeiro de 1912; Portugal: Decreto de 18 de Maro de 1911.




HUMUS




DO AUTOR


EDIES DA RENASCENA PORTUGUESA


O Cerco do Porto, contado por uma testemunha,
o Coronel Owen--Prefacio e notas (2.^a ed.).

1817--A Conspirao de Gomes Freire (3.^a ed.).

El-Rei Junot (2.^a ed.).

Memorias, 1.^o vol. (2.^a ed.).

Humus (2.^a ed.).





RAUL BRANDO

Humus


     O que tu vs  bello; mais bello o que suspeitas; e o que ignoras
     muito mais bello ainda.

     D'um autor desconhecido.


2.^a EDIO


[Figura]


EDITORES Renascena Portuguesa--Porto ANNUARIO DO BRASIL--RIO DE JANEIRO




AO MESTRE COLUMBANO




A VILLA


     13 de novembro

Ouo sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...


Uma villa encardida--ruas desertas--pateos de lages soerguidas pelo
unico esforo da erva--o castelo--restos intactos de muralha que no
teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes no conduz
a nenhures. S uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios
das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre--a porta da S com os
santos nos seus nichos--a praa com arvores rachiticas e um coreto de
zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se
na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas
tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias,
regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi no sei onde, n'um
jardim abandonado--inverno e folhas seccas--entre buxos do tamanho
d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feies.
Puira-as e a expresso no era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um
esforo enorme para se arrancarem  pedra. Na realidade isto  como
Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...
Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dr que a ninharia e o
habito no deixam vir  superficie. Afigura-se-me que estes sres esto
encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez no
possam falar.


Silencio. Ponho o ouvido  escuta e ouo sempre o trabalho persistente
do caruncho que roe h seculos na madeira e nas almas.


     15 de novembro

As paixes dormem, o riso postio creou cama, as mos habituaram-se a
fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e
neutralisa, e s um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o
tempo ilimitado para roer. H aqui odios que minam e contraminam, mas
como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia 
infinita e mete espiges pela terra dentro: adquiriu a cr da pedra e
todos os dias cresce uma polegada. A ambio no avana um p sem ter o
outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, no se
lhe ouvem os passos. Na aparencia  a insignificancia a lei da vida;  a
insignificancia que governa a villa.  a paciencia, que espera hoje,
amanh, com o mesmo sorriso humilde:--Tem paciencia--e os seus dedos
ageis tecem uma teia de ferro. No h obstaculo que a esmorea.--Tem
paciencia--e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com
os mesmos olhos sem expresso e o mesmo sorriso estampado. Paciencia...
paciencia... J a mentira  d'outra casta, faz-se de mil cres e toda a
gente a acha agradavel.--Pois sim... pois sim... No se passa nada, no
se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos
com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os
habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambio e o fel e
torna as figuras grotescas.

Reparem, v-se daqui a villa toda... L est a Adelia, o Pires e a Pires
como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima
Angelica no levanta a cabea de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que
desaprendeu de falar. Chega o ch, toma o ch, e apega-se logo  mesma
meia, a que mos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella,
mal se ergue, recomear a tarefa. Um dia--uma semana--um seculo--e s o
pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavel--p'ra a
morte! p'ra a morte! p'ra a morte!

Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra
camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gtas d'agua d'uma
clepsydra. De tanto vr as pedras j no reparo nas pedras. A morte roda
na ponta dos ps e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva,
todos os dias toca a finados. O nada  espera e a D. Procopia a abrir a
boca com somno, como se no tivesse deante de si a eternidade para
dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto no tivesse importancia
nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto no fsse um drama e todos
os dramas, um minuto e todos os minutos...

No h annos, h seculos que dura esta bisca de tres--e os gestos so
cada vez mais lentos. Desde que o mundo  mundo que as velhas se curvam
sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal  a bisca--o jogo  o da
morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa
Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se
do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na,
a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraa para lhe dar tres
vintens. S destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel
Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas.
Ambos regulam a consciencia como quem d corda a um relogio. Dividas so
dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia
debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mos da D. Leocadia, que
pe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orf a quem
sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala
toda, o mundo todo...

No sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro
anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o
salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta no se
traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella
sabe o que est por traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a
gente se habitua  vida. Matar matava-a eu, mas varias palavras me
deteem. Detem-me tambem um nada... Chegamos todos ao ponto em que a vida
se esclarece  luz do inferno. Mas ninguem arrisca um passo definitivo.

As velhas com o tempo adquiriram a mesma expresso, com o tempo chegaram
a temer um desenlace. Debruadas sobre a meza as figuras no bolem. No
bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa no
so as palavras do padre--Jogo;--nem o que a Adelia diz baixinho 
Eleutheria, para que a velha temerosa oua:--A nossa Theodora est cada
vez mais moa!...--o que me interessa so as figuras invisiveis:  a dr
d'essas figuras imoveis, e sobre ellas outra figura maior, curva e
atenta, que ha seculos espera o desenlace.


A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo bolor. Mora aqui a
insignificancia e at  insignificancia o tempo imprime caracter. Moram
na viella ingreme e cascosa, que rev humidade em pleno vero, velhas a
quem s restam palavras, presas, alimentadas, encarniadas, como um
doido sobre uma cora de lata que lhes enche o mundo todo. Mora d'um
lado o espanto, do outr o absurdo. E todos  uma afastam e repelem de
si a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar os moveis, s e
fechada com os moveis reluzentes, talvez resto d'um sonho a que se apega
com desespero, e velhas s mesuras, s baba, s rancor. Ter uma mania e
pensar n'ella com obstinao! Creal-a. Ter uma mania e vl-a crescer
como um filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a acenar que sim 
vida, e a Ursula, cuja misso no mundo  fazer rir os outros.

Cabem aqui sres que fazem da vida um habito e que conseguem olhar o co
com indiferena e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo e
de figuras somiticas. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo,
que de quando em quando sae do torpr e clama:--O inferno! o
inferno!--Moram as Telles, e as Telles odeiam as Souzas. Moram as
Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a
fazer cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias s teem um fim
na existencia: estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os
que moem, remoem e esmoem, os que se fecham  pressa e por dentro com
uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um anno, at chegar
a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.

Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo, e a ambio que gasta os
dentes por casa, o que enche a existencia de rancores e, atraz d'anno de
chicana, consome outro anno de chicana. Cabem aqui dentro as velhas
scismaticas, atraz de interesses, de paixes ou de simples ninharias,
dissolvendo-se no ether, e logo substituidas por outras velhas, com as
mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridiculos,
fedorentas e maniacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fra
dedadas de mentira, promptos para a cova--e o Gabiru e o seu sonho. Cabe
aqui o ceu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a bisca de
tres. E cabe aqui tambem uma velha creada, que se no tira deante dos
meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas todas.
A Joanna  uma velha estupida.

Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade. Serviu um
anthropologista exotico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de
quem a Joanna dizia ao amollecer-lhe os edmas dos ps:--Este senhor 
um 2.^o Cames!--Serviu a D. Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma
saia rta, as mos sujas de lavar a loua, uma camisa, os usos e seis
mil reis de soldada. Lavou, esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a
miseria, o riso, que caminha para a morte com um vestido d'aparato e um
chapeu de plumas na cabea. Para contar fio a fio a sua historia bastava
dizer como as mos se lhe fram deformando e creando ranhuras,
nodosidades, codeas, como as mos se foram parecendo com a casca d'uma
arvore. O frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou
endureceu-lh'as. Sempre a comparei  macieira do quintal:  inocente e
util e no ocupa logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e ella
est aqui tal qual como quando entrou para casa da D. Hermengarda. Faz
rir e faz chorar. Os meninos borraram-na--adorou os meninos. Os doentes
que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna. J ninguem extranha--nem
ella--que a Joanna aguente, e a manh a encontre de p, a rachar a
lenha, a acender o lume, a aquecer a agua. H sres creados de proposito
para os servios grosseiros. Por dentro a Joanna  s ternura, por fra
a Joanna  denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste tambem
as arvores.

 uma velha alta e secca, com o peito raso. O habito de carregar 
cabea endireitou-a como um espeque, o habito das caminhadas
espalmou-lhe os ps: a recoveira assenta sobre bases solidas. Parece um
homem com as orelhas despegadas do craneo e olhos inocentes de bicho. 
d'estas creaturas que do aos outros em troca da soldada o melhor do seu
sr, que se apegam aos filhos alheios e choram sobre todas as desgraas.
E ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam embora, porque no teem
serventia, pem-se a chorar nas escadas.-- preciso
escodeal-a--asseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena para
casa. Escodeia-a. Noite velha e j ella bate de cima com a tranca no
soalho, a chamal-a.--E no te servindo a porta da rua  a serventia dos
ces.--Mas ella apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora.
Venera-a. Annos depois diz das pancadas:--Merecia-as.--J no  preciso
chamal-a: a Joanna ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite negra, e
dorme com um olho fechado e outro aberto. Velha, tonta, abre de quando
em quando os olhos, pe o ouvido  escuta num movimento instinctivo, 
espera de uma imaginaria ordem: ouve sempre a voz da D. Hermengarda a
chamal-a.

Mal se comprehende que depois d'uma vida inteira, esta mulher conserve
intacta a inocencia d'uma creana e o pasmo dos olhos  flr do rosto.
Trambulhes, fome, o frio da pobreza--o peor--e, apezar de amolgada, com
uma saia de estamenha, no pescoo pelles, as mos gretadas de lavar a
loua, uma coisa que se no exprime com palavras, um balbuciar, um
riso... Misturou  vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida.
Aqueceu isto a bafo.


Tem as mos como cepos.


     16 de novembro

Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura
reduzir a vida a uma insignificancia. Todo o trabalho insano  este:
reduzir a vida a uma insignificancia, edificar um muro feito de pequenas
coisas deante da vida. Tapal-a, escondel-a, esquecel-a. O sino toca a
finados, j ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma
cerimonia, em que a gente se veste de luto e deixa cartes de visita. Se
eu podesse restringia a vida a um tom neutro, a um s cheiro, o mfo, e
a villa a cr de mataborro. Seres e coisas criam o mesmo bolr, como
uma vegetao cryptogamica, nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o
seu rei, as suas paixes e um cheirinho suspeito. Desaparecem, resurgem
sem razo aparente d'um dia para o outro n'um palmo do universo que se
lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos saes, exhalam os mesmos
gazes, e supuram uma escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez
a sentimentos, a vicios ou a discusses sobre a imortalidade da alma.

Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos
habitos. Construimos ao lado da vida outra vida que acabou por nos
dominar. Vamos at  cva com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos.
Pesam toneladas, teem a espessura de montanhas. So as palavras que nos
conteem, so as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por
crear uma atmosfera que a arranque  vida e  morte. O sonho e a dr
revestem-se de pedra, a vida consciente  grotesca, a outra est
assolapada.

Remoem hoje, amanh, sempre as mesmas palavras vulgares, para no
pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no co, mas
quantos passaram no mundo sem ter olhado o co na sua profunda, na sua
temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum de ns
repara no que est por traz de cada sylaba: afundamos as almas em
restos, em palavras, em cinza. Construimos scenarios e convencionamos
que a vida se passasse segundo certas regras. Isto  a consciencia--isto
 o infinito... Est tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre
a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existencia 
monotona, o tempo chega para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim
lentamente crostas: dentro de cada sr, como dentro das casas de granito
salitroso, as paixes tecem na escurido e no silencio, teias de
escurido e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede o filho
sobre o taboleiro de gamo. Quero resistir, afundo-me. Comeo a perceber
que o habito  que me fez suportar a vida. s vezes acordo com este
grito:--A morte! a morte!--e debalde arredo o estupido aguilho. Choro
sobre mim mesmo como sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza, como
este unico minuto com a morte pela eternidade peza! Como a vida
esplendida  aborrecida e inutil! No se passa nada! no se passa nada e
eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo e que no quero vr.
Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o peor  que eu
percebo que, se se apodera de mim, no posso mais viver. Agarro-me com
desespero ao habito e s palavras. Tu no existes! tu no existes! O que
existe  isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os
dias, os sres com quem falo todos os dias.--E tu rodeias-me, tu
reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. No te posso
vr!...

Se h momentos em que o caixo que um galego leva s costas me chama 
realidade, ao espanto, desvio logo o olhar e reentro  pressa na vida
comesinha. Finjo que sorrio e esqueo. Mas sempre no posso! Anno atraz
d'anno no posso! No h mais nada! no h mais do que estas figuras
paradas, e as horas verdes que de espao a espao caem como gtas d'agua
no fundo d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo ainda para a
morte! Sinto uma dr sem gritos por traz da immobilidade. Cada hora 
menos uma hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo cr de mataborro
que ao granito salitroso junta camada denegrida, e s almas sepultadas
outra pazada de cinza... H momentos em que as figuras teem tanta vida
como os santos imoveis nos seus nichos--mas h momentos em que cada um
redobra de propores, h momentos em que a vida se me afigura iluminada
por outra claridade. H momentos em que cada um grita:--Eu no vivi! eu
no vivi!--H momentos em que deparamos com outra figura maior que nos
mete medo. A vida  s isto? Por mais que queira no posso desfazer-me
de pequenas aces, de pequenos ridiculos, no posso desfazer-me de
imbecilidades nem d'este sr esfarrapado que vae de plo a plo. Tenho
de aturar ao mesmo tempo esta ida e este gesto ridiculo. Tenho de ser
grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou s o meu riso 
idiota. E estou s e a noite. Por traz daquella parede fica o co
infinito. Para no morrer d'espanto, para poder com isto, para no ficar
s e o doido,  que inventei a insignificancia, as palavras, a honra e o
dever, a consciencia e o inferno.


E ainda o que nos vale so as palavras, para termos a que nos agarrar.


 ento um mundo de formulas a que eu obedeo e tu obedeces? Sem elle
no poderiamos existir. Se vissemos o que est por traz no podiamos
existir. O nosso mundo no  real: vivemos n'um mundo como eu o
comprehendo e o explico. No temos outro. Estamos aqui como peixes n'um
aquario. E sentindo que h outra vida ao nosso lado, vamos at  cva
sem dar por ella. E no s esta vida monstruosa e grotesca  a unica que
podemos viver, como  a unica que defendemos com desespero.--Pois sim...
pois sim...--Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da
morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o
tempo. Este passo, que  unico e um s, damol-o como se fosse uma
insignificancia. Mais fundo: no existem seno sons repercutidos.
Decerto no passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. J no reparo,
j vejo turvo.--Jogo!--E de repente todo o meu sr  sacudido pelo
espanto que tacteia  minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas
sinto-o aqui ao meu lado--sem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem
quero! Se me alheio um momento dou um grito de dr. Escaldo-me.


Na verdade o que eu no posso  vr, o que eu no quero  vr! A villa
regula-se por habitos e regras seculares--mas h outra coisa enorme para
l do scenario de que me rodeio. Para no ter medo criei eu isto, para a
no vr criou o Santo o inferno. H outra coisa esfarrapada e
dorida.--Jogo!--Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me
parecem mais gastas. H outro sr que vae de plo a plo... Esta figura
grotesca no  a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus
nichos--roeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos
gestos inuteis para no desatar aos gritos.--Jogo!--Isto para fingir que
 indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos
rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Est alli a morte--est aqui a
vida--est aqui o espanto--e s a ninharia consegue deitar raizes
profundas.


     20 de novembro

Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do co, e na luz turva
vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma
sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas
chapeadas que rangem nos gonzos como portas de priso, fachadas com os
vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de p sobrepostas. Lojas
terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas,
todas as janelas esto perras, e o tempo vae substituindo uma figura por
outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim,
com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir
os gestos, as cortezias, as aces do confim dos seculos. Isto  nada--
vulgar e quotidiano.  uma aparencia.


A villa  um simulacro. Melhor: a vida  um simulacro.


Atraz desta villa h outra villa maior. A lentido, o gesto usado, a
meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a viso. Sobre cada sr cahiu
uma camada de p. A villa  isto--e a villa no  isto. Que me importa a
Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquescencia, um sorriso, baba,
mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha.
As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sr absorto, o
exagero minusculo, teem outra significao. A realidade  a manha, a
astucia que cada um pe em jogo. No h velhas com cartas na mo; h
orgulho, soberba, inveja paciente. H intuitos, cautela de quem caminha
na ponta dos ps. H foras e experiencia, avareza e astucia. E mais
fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam
teem, alm da significao banal, uma significao que cada um peza e
calcula,--e outra significao superior. H palavras que requerem uma
pausa e silencio, e h palavras que  preciso afundar logo n'outras
palavras. H pelo menos dois sres n'este homem que toda a gente
conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer
esgares. Elle e o doido que s consegue comprimir  fora de
pontualidade. Esta velha no  a velha com quem lidamos-- outra. Tem
tido um trabalho para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se
arrisca, h-de contar comsigo mesma para se contrariar.  uma discusso
que no acaba, com a bocca amarga, arrependimento--e por fim no realisa
uma catastrophe authentica, que a engrandea. Curvada sobre o lar remexe
sempre as mesmas cinzas frias...

Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos
os dias a mesma coisa. O homem s vive de detalhes e as manias teem uma
fora enorme: so ellas que nos sustentam.


Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como 
dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo 
foroso seguir um fio invisivel--e ser reles e sorrir. Gasta-me uma
fora superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida
mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o
vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um
tabique. Tudo o que fao  um arremedo. Est alli outra coisa quando
falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouo
mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os
dias, as aflices e a usura que tornam as figuras ridiculas e coadas.
Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cva, os
pequenos interesses, a inveja, a ambio, a dr phisica. Todos os dias a
Hermengarda amarga os brazes da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias
scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se
deposita nas almas--e com isto uma coisa desconforme, que se levanta e
deita comnosco, no se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com
quem temos por fora de cohabitar; deante de quem  foroso ser vulgar e
dissimulado, fazendo que a no vemos e com ella  cabeceira da cama...


Atraz da insignificancia andam os cos, os mundos, os vagalhes
doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as
enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando
estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e
outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que
te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e
phrenetica, o espanto, a mixordia, a dr, as foras monstruosas e cegas.


Em certas ocasies, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da
vida, s ficava de p o espanto.


S a insignificancia nos permite viver. Sem ella j o doido que em ns
prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificancia comprime uma fora
desabalada.


Para no vr, para no ouvir,  que nos curvamos sobre a mesa de jogo.
Para te no ouvires a ti mesmo, para no vres o que te gasta a todos os
minutos e a todas as horas, usura immensa que no sentes e que te vae
levar para o escantilho sofrego, que te vae mergulhar no silencio
profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos
os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis.
Todos os dias acordamos com mais fl. E todos os dias com mesuras, sem
gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, no vendo,
fingindo que no existe, o espanto que est ao nosso lado, e o espanto
peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto no tem
importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida at chegar a morte. Esta
mesa de jogo  a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o
galope da outra vida ao lado. No se passa nada! No se passa nada! No
vero o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e
apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira
da praa, s tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de
montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragedia--e as montanhas no
desistem. De quando em quando, na solido que  noite redobra, cahem do
alto da S as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso
desconforme.


Estamos aqui todos  espera da morte! estamos aqui todos  espera da
morte!





O SONHO


     6 de dezembro

Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos
enterrados em convenes at ao pescoo: usamos as mesmas palavras,
fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se.
Adhere. H dias em que no distingo estes sres da minha propria alma;
h dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a
impassibilidade, dr; h dias em que o co e o inferno esperam e
desesperam. Presinto uma vida oculta, a questo  fazel-a vir 
supurao.

Esta manh de chuva  um minuto no rodar infinito dos seculos, e os
sres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem no
viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida no  isto. A arvore
cumpre, o bicho cumpre. S eu me afundo soterrado em cinza. Terei por
fora de me habituar  aquiescencia e  regra? Crio cama e todos os dias
sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.


-- necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.

 o Gabiru que se pe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos
magneticos de sapo.  uma parte do meu sr que abomino,  a unica parte
do meu sr que me interessa. s vezes deita-me tinta nos nervos. Fala
quando menos o espero. Chamo-o, no comparece. Se quero ser pratico,
gesticula dentro do casaco arripiado:--A alma! a alma!--Singular
philosopho!  capaz de desejar a morte para vr o que h l dentro; 
capaz de achar vulgares at as coisas eternas. Ao lado da vida constroe
outra vida. Sonha, e os seus sonhos so sempre irrealisaveis,
transformam-se-lhe nas mos em barro informe. Toda a gente se ri--j
sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em
embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho.
Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouo-o
monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas.
Na arvore v a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo.
Pe a mo e molha. Destinge sonho...

--A alma--diz elle--ao contrario do que tu supes, a alma  exterior:
envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos
homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma cr.
H sres cuja alma  uma continua exhalao: arrastam-na como um cometa
ao oiro esparralhado da cauda--immensa, dorida, phrenetica. H-os cuja
alma  d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi
tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam,
mesmo antes da materia comunicar. O amor no  seno a impregnao
d'esses fluidos, formando uma s alma, como o odio  a repulso d'essa
nevoa sensivel. Assim  que o homem faz parte da estrella e a estrella
de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma  interior, pequenina emoo,
pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada
primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas
lagrimas, vem  tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes,
na pedra concentrada e recalcada, que dr inconsciente, que esforo cego
e mudo por no poder abalar as paredes e comunicar com a alma do
universo! A pedra espera ainda dar flr.

Para elle estas coisas ethereas so visiveis. V to exactamente como eu
te vejo a ti a paixo, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados
d'oiro, de piedade e de genio. H noites em que no resisto: fecho-me
com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo.  o doido que em ns
prga e nos deixa aturdidos. s vezes consigo afastal-o, mas succede que
fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais
desgraado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o no tenho ao p
de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre  elle
quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e
quando rio como toda a gente ri, s a elle o ouo no mundo. Diz-me
coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe
de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um co
vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as
florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz.
Vem feliz!  elle que me prga:--Toda a agitao  inutil. No tenhas
medo da desgraa!--E eu tenho medo da desgraa.  fora de habito
cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto
mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou
a vida toda.

Mora n'um velho pardieiro encostado  muralha, abafado d'um lado pela
muralha da villa, que  noite redobra de porpores. O granito
enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra d calafrios a quem
entra.

--Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada
sr realiza uma primavera  que  tudo. O resto insignificancia.  ella
que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...

D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o co, do outro o
sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada.
Dentro d'isto sonho.


Ponho-me a olhar para elle--ponho-me a olhar para mim. Passou a vida
n'aquella inutilidade, de que sae a revr sonho, e com os ctos partidos
a esvoaar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do
laboratorio,  procura da pedra philosophal.--Ridiculo. Depois na
aplicao da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que
se desentranham em flr, sem produzirem fructo.--Grotesco. Agora ninguem
o arranca a infindaveis monologos cahoticos:--A morte! a morte! a
morte!-- Incongruencia, obscuridade e dr tambem; a dr de quem vem da
irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate
com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho
titubia e no sabe onde pe os ps. Tem as azas partidas. Comprehende
ento a sua inutilidade e desespera-se at reentrar na nuvem que o
envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos
que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouo a sua voz
magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:

--Isto  um fluido dr, falta-me condensal-o.  uma nuvem que envolve
tudo, que vem do turbilho da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e
ascende em espiral at Deus. No, a sensibilidade no  individual, 
universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos at 
Via Lactea, para transformar as noes do tempo, do espao, da vida e da
morte--basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir
toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...


     7 de dezembro

A villa  tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho
desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho  d'elle: a
propria casa de granito rev sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe
sonho do sonho. Debalde o que  mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru
no ouve, no v, no sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida
de frio, no casaro que deu  costa como uma nau do passado, com o
cavername roido pelo mar das trevas.


 um sr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se
sumiu n'um spro cada vez mais ephemera, com dois olhos verdes de
espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma
coisa inerte...


Morreu transida de frio. Uma mulher palida--o que vale um passaro.
Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal pousa os ps no
cho, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se... No se
atreve, e esboa um sorriso logo molhado de lagrimas. Morre de frio.
Agosto--morre de frio. At para lhe sorrir se esconde, e pe-se ento a
olhar o muro (vou-te dizer o sitio) a falar com o muro, a queixar-se 
grande nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um
vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura
tel-a-hia salvo--ninguem o arranca quelle sonho informe. Morta...

Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou. Estende fios no cho entre as
arvores, e as arvores, sob o fluido electrico, todo o inverno se
desentranham em flr. Pegou-lhes sonho tambem.  um desbarato, uma
profuso que as devora. Absurdo. O quintalorio ao p da muralha, que h
seculos rev humidade, no  maior que um leno; a primavera s chega
aqui tarde e de mau modo, com pena das arvores de saguo. Arrepende-se
logo. J veem que o absurdo  maior ainda... Dezembro e primavera. O co
gelado, um brilho de estrellas em engastes novos, e, entre a carie das
paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exhalaes de ternura.
Mortas. Mortas, seccas de sonho. Mortas as arvores desfeitas em flr.

--Este efluvio  que  tudo: a torrente de ideias e a torrente de
paixes. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e
dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas
de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes no me deixa
comprehender, mas  raro que eu no saiba logo quem tu s, e, mesmo que
seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no
mundo.--E logo:--A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta  que dei com
ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos
sempre, amar-nos-hemos sempre...

A noite  d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e
depois na chanfradura das ameias. Mais flres--todos os galhos do flr.
Sente-se, quasi se ouve, a dr das arvores, dos sres vegetativos, ao
terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.

--Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais
dois dias e tinha suprimido a morte!

Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os
primeiros botes. A arvore transforma-se n'um sr dorido e
esplendido--transforma-se em sonho--em sonho desfeito em flr, em flores
espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos
espremidos escorrem dr. At as pedras deitam tinta. O quintal escorre
sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas,
e velhas pedras iludidas pem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos,
que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite
concava e branca--gelada--cobre indiferentemente tudo isto. Que no
cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco
tambem a noo da realidade.

--Tanta flr!

--Para a sua cva.--E pondo em mim os olhos atonitos:--O que  preciso 
ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os  obscuridade, juntar
outra vez as boccas dispersas. No morrer  nada: vou resuscital-os...

Imagina o negrume d'um poo--imagina dentro o espanto, e no sei que luz
viva, no sei que dr recalcada, no sei que de humilde, que quer viver
apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha.
Escurido e oiro--silencio e oiro--espanto e oiro.

--V tu a arvore... Uma camada de flr--um grito; outra camada de
flr--outro grito. V tu a arvore como se transforma n'um phantasma
d'arvore, e depois em emoo!...

Suprimir a morte!  uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar
transborda--branco e dr--branco e sonho. Depois o silencio, depois a
sua voz magnetica--depois a sombra immensa que ameaa desabar sobre ns,
no quintal do tamanho d'um leno. Desato aos gritos quando todas as
roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio
caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o
corao. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:

--No morrer  nada, suprimi a morte. O que  preciso  arrancar os
outros ao silencio.  uma coisa simples,  uma questo de synthese.

--A morte,--afirmo-lh'o-- o repouso eterno.

--Repouso eterno, estupido!  exactamente o que est vivo, a morte.  o
que est mais vivo.


     10 de dezembro

Na escuridade e no silencio o sonho deita braos desconformes.
Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avana para mim como uma
exhalao de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a
inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da
villa quieta e absurda onde s elle se atreve e scisma... Isto 
possivel ou isto no passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho
grotesco?

De que  feita a tibornea, o liquido viscoso, cr de sabo, com
filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo rev no vidro, atravez
da luz--a maior descoberta do seculo, o sro que acaba de vez com a
velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium,
o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone--e sonho. Dezasete elementos,
entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico--e dr. Materia,
espirito e concentrao. O misterio  este e mais nenhum:  exprimir
como o que  espirito se transforma em materia, como a poeira se
condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o
qu? As noites infinitas, as mos que tentam arrancar farrapos ao manto
em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa?
Outra vez absorpo, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e
os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das
vozes submersas, a discusso, o tumulto, e poder distinguir entre tantas
boccas que falam, a unica que tem direito a falar.  d'esta obscuridade,
d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. No te
rias. J t'o disse:  um sr aparte com ctos em vez d'azas, que se
agitam n'um desespero para voar. No se contenta com esta vida nem d
por ella, mas fica sempre a meio caminho, e to dorido que no 
possivel tocar-lhe. J t'o disse:  um sr grotesco que pe em mim os
olhos turvos e teima, insiste, repete:

--Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de
todas as athmospheras:  a alma da villa.--E afirma cheio de
convico:--Deito-lhe sonho dentro.


Queira ou no queira faz-me scismar... Na realidade morrer  absurdo.
Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer  estupido. No
comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a
essa hora extrema, s essa hora me interessa... Um sr grotesco, um
unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos.  caricato e pega-me
doirado.

E o peor  que este sonho  afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o
confessa seno a si proprio. O nosso sonho  no morrer. Quando a gente
se esquece a vida tem j passado. E quando a vida tem j passado  que
nos agarramos com mais saudades  vida. A resignao custa muitas horas
doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte 
inevitavel?--pergunto baixinho. E como a morte  inevitavel, como no
lhe posso fugir, para no perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem
sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pz o p no
mundo no  o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?

A verdade  que teima. No nos larga na vida e levamol-o escondido para
a cva. A verdade  que foi esta sempre a nossa maior aspirao, que
h-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o
universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta s um passo...
A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que ns queremos  este sol,
esta pobreza, esta dr, estas iluses modas e remodas. Deixem-nos a
vida que acceitamos tudo. Aqui h, portanto, um erro primario. Protestas
do fundo do teu sr: a morte  absurda.  preciso cortar um n que no
existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel 
talvez uma questo de vontade. A vida  um acto de f de todos os
instantes. Acordo e grito:--Eu no vivi! eu no vivi!--E cada vez o meu
protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida
e inutil, quero recomear a desgraa.


Ninguem pode com semelhante peso. No h quem possa com elle. Na
solido, a primeira coisa que procuro  a ninharia para esquecer a
morte. Um minuto ss a ss com o espanto, recamado de mundos, que
caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo
ainda. No posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar
para a voragem d'um e d'outro lado; no posso arcar todos os dias com
esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora at a
insignificancia me  impossivel. O silencio... O peor de tudo  o
silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no
silencio...


Carrega em cima de ns tal peso que ninguem o suportava se dsse por
elle.  o peso do espanto.


Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os ctos
esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo d o seu
passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros
quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos,
ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que
ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de
desespero cada vez mais phrenetica, que no cessa de prgar, e que me
pe em frente de mim mesmo, que  o que mais temo no mundo.

--O que eu quero,  tornar a viver. A minha saudade  esta. O que eu
quero  recomear a vida gota a gota, at nas mais pequenas coisas. No
reparei que vivia e agora  tarde. Sinto-me grotesco. Recomeal-a nas
tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei h
pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de p, e um unico ramo ainda
verde desentranhou-se em flr... Podesse eu recomear a
vida!--Cala-te!--Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que
nunca fui arrastado at ao amago pelo desespero ou pela paixo e que de
tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a
mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a
cva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a p? Antes me soubesse a
fl--antes a dr!...--Mas sonhaste, estupido!--Sonho. E o que me resta
nas mos inermes, nas mos para que olho com espanto e terror, nas mos
de velho, seno grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com
alguma tinta em cima?... No; viver  que  bom, viver com o instincto,
como os ladres e os bichos, os malfeitores e as fras, sem pensar, sem
sonhar, sem palavras nem leis, at cahir a um canto, morto e feliz, de
barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...--Quantas conversas temos tido
juntos! quantas discusses inuteis! quantos desesperos de que no h
sahir, batendo com a cabea na mesma parede! s vezes
subjugo-o:--Cala-te! cala-te!--s vezes fala elle mais alto e domina-me.
Rio-me de ti e impes-te-me. s ridiculo e s tu te atreves; s tu s
feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem f nem lei. S tu
no tens methodo, s tu te fechas a sete chaves  tua vontade, livre,
feliz e despresado. No fundo invejo-te.

Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e
molha-me. Aturde-me.  s elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado
e mais alto, com interjeies e gestos desordenados pelo
meio:--Estupido!--Hei-de falar! quero falar! hei-de por fora falar!--E
h aqui dr e ridiculo. H um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma
coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo,
e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prgar sem tom nem
som.--Toda a gente se ri de ti...--Deixal-o.--Toda a gente se ri! toda a
gente se ri!--Quero por fora tornar a viver! hei-de por fora tornar a
viver! Sinto que a minha vida no termina aqui. Este sonho hei-de
leval-o a cabo.

Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:

--Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno no  uma palavra
v.  um desespero sem consciencia nem gritos. A vida no  seno uma
tregua--um ah--e logo um mergulho n'esse inferno de dr. Na dr estreme.
Eis o que  a morte: a dr estreme, a dr emudecida. O terror
instinctivo da morte  uma advertencia. No quero morrer e vou
resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!--que
esplendido sonho! A vida  quasi nada. Tudo que custou tanto desespero,
tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que
serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tpo do
calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego 
impalpavel:  a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma
expresso de ternura, e que nunca mais tornars a encontrar;  aquella
manh de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e
que se no repete,  o minuto que nos escorre das mos como um fio
d'agua, mas doira-o o sol, e  esse mesmo minuto translucido que quero
tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado.  a essa mesma
ninharia que  a vida a que deito as mos com desespero. A vida 
nada-- esta cr, esta tinta, esta desgraa.  saudade e ternura. 
tudo.  os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, at da
fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que no existe, as
horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta no faz parte do
meu sr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida
da floresta; o co no faz parte do meu sr, e eu sou o co profundo, o
co tragico e o co esplendido. D-me a vida--dou-te tudo em troca...
Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem no s de
mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para
todo o sempre!--E, com um suspiro mais fundo, repete:--Suprimi a morte,
vou resuscital-os!


Trago comigo um p capaz de doirar a propria eternidade. No sei d'onde
me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante
do negrume--elle reanima-me. Insiste deante das foras desabaladas e da
imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e
cega. Inerte no! inconsciente no! Tenho-lhe horror.


Se com o nosso esforo colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a
morte de p? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o
tempo--destaquei o sonho.

Fui eu que dei valres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei
iluso. Na verdade s existem cres como s existem gritos. Porque no
hei-de acabal-o?  talvez uma questo de vontade. Se at para dar o
primeiro passo precisamos de crr, porque no havemos de dar o ultimo
passo? Iluso, mentira? Mas eu  que fao a verdade e a mentira.
Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode
no existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vz
este suor frio.


A noite vem, a noite avana. Sinto os mortos. Ainda vivo, j estou em
seu poder: fao parte da legio. Noite immensa sem gritos. Peor que
sofrer  no sofrer--para sempre.  nunca mais sentir.  ter as orbitas
vazias voltadas para o co e n'ellas no se reflectir a luz das
estrellas. Mais um passo e  o silencio absoluto. Mais um passo e
tapas-me para sempre a bocca.


No me importa ser feliz--no me importa ser desgraado. O que me
importa  o que h depois,  o que est por baixo da terra e o que est
por cima da terra.


J no lucto. E elle insiste e cada vez prga mais alto:

--Eu no vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o
sempre, o mesmo buraco d'onde no sae rumr. Escuta isto: d'onde no sae
rumr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicao te  licita,
nenhuma transaco  possivel. A morte no espera nem atende. 
estupida. Primeiro  estupida, depois  incomprehensivel.  tremenda
porque contem em si mistificao ou belleza. Absurdo ou uma belleza com
que no posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginao no
atinge. Se  o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se  o
nada repugna-me. Apenas um minuto, e l em cima as mesmas estrellas, e
outros vagalhes de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um
seculo, carrega um sr inutil ou um sr delicado com a mesma indiferena
para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste
na vida seno esperar a morte?  a tua maior preocupao. Debalde a
arredamos: a vida no  seno uma constante absorpo na morte. Ento
para que nasci? Para vr isto e nunca mais vr isto? Para adivinhar um
sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e no
desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia
e no posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do
sepulchro. Estou nas tuas mos... Adeus sl que no te torno a vr, e
agua que te no torno a vr. Arvores, adeus arvores que minha me
dispz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a
gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te.
Interrompes os meus calculos. s o maior dos absurdos. Vr para no vr,
ouvir para no ouvir, viver para morrer!...

E aqui te fao uma confisso: o que mais me custa a largar , como 
cobra a pelle, a vida comesinha. Se  a vida superior  tambem o meu
lume.  o ruido monotono da chuva nas vidraas. Alm da alma h outra
alma que se apega s pequenas coisas,  columna d'oiro perfumada que me
entra de manh pela janella--outra alma humilde e pequenina, que se
acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume...  a alma da materia.
No, o fim logico da vida no  morrer,  viver sempre,  ascender
sempre. At onde? At Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em
elles se pondo a caminho vaes vr doirado. A vida toma novo impulso.
Desaparecendo a morte  que tu abranges a vida. Vaes vr a cr que toma
o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flres que as arvores
criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...

A terra remexe. Sinto um esforo e revive o suor da desgraa; um arranco
na profundidade, e todas as primaveras dispersas no tardam, uma atraz
de outra, a reflorir. H sepulchros at ao fundo do globo. De mais longe
vem um impeto--so outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra
que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no
mundo condensadas, vae desabar sobre ns. As suas palavras criam. O peor
foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores
e as pedras. No h duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido:
o mundo no  o mesmo mundo, o co o mesmo co, a vida a mesma vida. O
que existe  outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa.
Pe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se
aproximasse de ns, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado.
Pe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como
nunca vi arvores, e outros sres desmedidos e phreneticos. Pe-se a
caminho uma vida que h muito sentia aqui ao lado, sem me atrevr a
olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o co augmentou em
profundidade. O que existe so gritos, o que existe  o espanto. O peor
foi tocar-lhe...


Um remexer de treva, que at agora podmos recalcar, soltou-se da
escurido e pz-se a caminho. J no h esforos que a contenham... Um
borro tragico avana--outro borro informe prepara-se. Os mortos
empurram os vivos--desde profundidades desconhecidas...

Passa no mundo a estranha ventania:  a morte que custa a separar da
vida. O rasto que fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi
cortada. A morte est aqui d'um lado, est do outro a vida. Tinha raizes
enormes: arrancaram-lhas de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilho
colerico abala o mundo, oiro e negro, esplendido e feroz. Desenraiza
tudo. As almas acordam n'um sobresalto, e no h homem que se no ponha
 escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas aspiraes
secretas, das nossas duvidas, dos nossos desesperos.  uma voz--so
muitas vozes.  um grito--so muitos gritos.-- o grito contido h
milhares d'annos, o grito dos mortos libertos.




A VILLA E O SONHO


     18 de dezembro

Em logar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois
tons--cinzento e oiro: uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho
turva a villa. A primavera toca n'este charco s ldo e azul: tinge-o e
revolve-o. Mas o habito de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam
com o espanto e continuam a ir  repartio. Horas na torre. Mais
silencio. A morte roda aqui por perto, alguem fala:--Ento como passou?
passou bem?--O habito tem profundidades de legoa.

A principio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem duvida
gostam de viver mais um seculo, mais dois seculos, mas no sabem ainda
que emprego ho-de dar  existencia. No se lhes dava mesmo de morrer
com tanto que continuassem a jogar o gamo no infinito. O que lhes custa
mais a perder no  a vida, so os habitos. Veem-se e no se reconhecem.
H almas embrionarias, velhos lojistas que olham para si proprios com
terrr. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara
a cara. No se atrevem ou ignoram-na: a outra existencia falsa acabou
por os dominar. No h mascara que no custe a arrancar--h mentiras que
teem raizes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns no morrer 
continuar a jogar o gamo pela eternidade, para outros  juntar uma
moeda a outra moeda, um dia a outro dia inutil. Sempre... J na botica
dois idiotas recomearam com escrupulo uma partida que deve durar cem
annos, e o bocal amarello, as moscas mortas esto alli com outro ar.
Fixaram-se. Esto alli embirrentas e sordidas para toda a eternidade.

Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro alastra. Vae mexer com o
subterraneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso h dois mil
annos, sobresalta o instincto, bole com todas as almas sobrepostas at
ao fundo da vida. Transforma, volta a existencia do avesso, deita o muro
abaixo. Por ora  s uma ida, mas sae-nos de cima o peso do mundo...
Mexe em tudo, revolve todas as raizes que se apoderaram da villa. O
sonho cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia que se no
atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na
paciencia de quem espera uma herana com vagares de quem tece uma teia.
Certas existencias so formidaveis, outras existencias so como alcovas
onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e
gesticula um sr desconhecido. Certas existencias so feitas de odio
minusculo, de inveja que sorri--porque nem a inveja se atreve. Certas
existencias so crepusculares. Em certas existencias so os mortos que
ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que esto no sepulchro.
Quasi toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora
perguntam-se:--Sou eu? sou eu?

Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A
minha vontade era anular-te--e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama,
a bocca por se habituar  mentira, a ponto de j no saber discernir o
meu sr, do sr artificial que criei pea a pea.--Pois sim... pois
sim...--Mas atraz disto h outra coisa--h fl; E quando tiro a mascara?
Mas eu j no posso tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete
chaves: a mentira entranhou-se-me na carne. Este phantasma chegou a ter
mais vida que a propria realidade. E aqui andam outros sres. Eu no sei
quem sou e at o meu metal de voz estranho. Eu no sou quem falo. A meu
lado, atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas, uma cauda disforme que
me conduz e empurra, e adiante de mim h uma projeco de vida at aos
confins dos seculos.

Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a hypocrisia para comnosco,
mais dificil de largar que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo do
que minto aos outros, finges tanto com a tua alma como com a minha.
Primeiro  a hipocrisia que descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouo
e desconheo a minha propria voz.


 que a morte regula a vida. Est sempre ao nosso lado, exerce uma
influencia oculta em todas as nossas aces. Entranha-se de tal maneira
na existencia, que  metade do nosso sr. Incerteza, duvida, remorso...
Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio.
Agora no, a vida pertence-nos. A morte no existe, desapareceu a
morte...


Ali a um canto um sr desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguem se
riu.

E, atravez da pedra d'estas physionomias, transparecem j outras
physionomias: as velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabea,
apertam o circulo em volta da magestosa Theodora. So annos de
paciencia, d'inveja e de fl--so annos de tragedia. Sobresaltam-se as
futilidades que estavam para durar seculos, mas ninguem arrisca ainda um
gesto que o comprometa. Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa, e
com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho revestiu-se de cimento
e de grandeza.

Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido a vida inteira. Moe-se a si
e aos outros.--E o tempo passa...--Obedece e sorri a Adelia, que
esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria conserva: tem os cabelos
pretos. Seis, doze vintens desiquilibram-lhe o oramento: perde-os todas
as noites com um sorriso d'angustia. Obedece e sorri a Porphiria, que 
a peor de todas;  feita de destroos e de restos. A aquiescencia tambem
est presente com a D. Restituta, de guardachuva na mo, acenando sempre
que sim  vida:--Pois sim... pois sim.--Faz-se um pouco surda para s
ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal dos outros, nunca repete n'uma
casa o que ouviu c fra. s vezes, de noite, vira-se revira-se na cama,
mas nem ssinha se explica: suspira.  na aparencia um pouco trpega, um
pouco adoentada e surda: tem uma saude de ferro e um filho escondido. E
ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito a
tudo e a todos que sim, j no pode dizer, com o mesmo esgare, seno que
sim:--Pois sim... pois sim...--a Adelia  rispida: um vestido, um chale,
um chapeu de plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem
sessenta annos) de ter uma sala de visitas com dois castiaes de prata e
um album. O album l est, na sala que cheira a bafio, e h vinte e dois
annos que dois paninhos redondos de crochet esperam os castiaes de
prata. Obedecem as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre o jogo,
dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo interesse. A alma d'esta
velhas chegou assim a ser prodigiosa. Faam o favor de entrar... Algumas
flres murchas n'um cantinho com mfo. Depois paciencia, avareza, depois
um vasto campo funerario, onde passa o vento da desolao como na
retirada da Russia. E dominando a paisagem dois ou tres marcos
geodesicos. L no fundo uma pgada de vida empoada e que reflecte o
co: alli se miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma
palavra mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro--tudo isto
cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material no
cabia no mundo, com colunatas, porticos, destroos e subterraneos, como
uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta est o relento, branco e molle,
creado na escurido e no silencio, branco e molle, branco e sem olhos.
Varias sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante, sobre
sarcophagos, a Tradio e a Formula, que durante os annos que durou a
bisca, defenderam a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui
agora--cuidado!--a escurido  viva, a escurido  sonho,  sonho
requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que no podem
mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo,
rezam o tero, e antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil, uma
figura aos nichos, um portico aos porticos, um terrao aos terraos--at
que adormecem com um sorriso candido e um cheiro pela bocca que
tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um alto relevo esquecido;
aqui as figuras so figuras de delirio; aqui a nave atinge alturas
desconexas sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma ogiva com
vitrais, que esclarece a uma luz funerea um quadro indistincto, e que 
talvez a recordao d'um amr j morto--porque ellas tambem amaram--aqui
o misterio envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Christo
exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto com uma cidade
phantastica, campeia o diabo; depois um remate enfumado, cachorros
sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza e a abundancia de
ornamentao ( a paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume
acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si propria se enovela
num desespero, at que no cabe na cathedral, irrompe para o lado de
fra e chega n'um jacto ao co... Isto no  a cathedral de Burgos-- a
cathedral do fl e vinagre.


Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que
esta palavra representa de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis,
de inveja inutil, de bolr e de despeito, tradul-o a paciente D.
Herminia por este grito feroz:

--Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de
aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!


Toda a gente d a mesma ferocidade, odio e instincto. Espremidos deitam
as mesmas paixes. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias.
Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciencia era
pegajosa. A paciencia tinha uma cr especial, verde desbotado, que mal
feria a vista, e um filho, a cobia, tal qual como a D. Restituta, que
encrespa o pello e se pe de p com o guarda-chuva em riste.

Cada sr me perturba como se contivesse em si o co e o inferno. Bem sei
que a formula no  inutil: ao contrario a mascara  indispensavel e 
por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos o mesmo bolr e nos
sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de
terra, h qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida.
At o escuro se eria--at a grande sombra se deforma.--Muita gente na
vida s conta com a morte. A D. Desideria desata aos ais. E  com
secreta satisfao que vejo esfarelar-se este edificio to bem
construido sobre bases, que pareciam inabalaveis, do interesse, da
hipocrisia e das conveniencias... Impelidos por uma mola do todos um
passo em frente, e h tres dias que os padres se descompem na colegiada
sem se chegarem a entender:--L vae o inferno! l vae o inferno!--E,
efectivamente, d'um instante para o outro, l vae o inferno que tanto
custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. L vae o
scenrio admiravel e monstruoso, todas as regras, todos os papeis
pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa
existencia. O que tinha uma importancia extrema passou a no ter
importancia nenhuma; o que parecia indispensavel  vida, e sem o que se
no dava um passo na vida, reduziu-se n'um minuto a zero. E outras
coisas insignificantes assumiram propores enormes... Os padres clamam
n'um cro desesperado:--Acabou o inferno acabou tudo!--Descompem-se na
sala da colegiada que deita para o passado--o claustro com um p de
oliveira, e dois tumulos encravados na parede, scenographia para o
Hamlet,--sr ou no sr eis a questo... Cheiram a ourina e a rano.--A
religio sem inferno est perdida.--Mas l por o homem ter suprimido a
morte, no deixa de haver inferno--observa o estupido conego
Fazenda.--Isso est claro que no deixa, obrigado pela observao, mas 
um inferno to distante que no mete medo a ninguem.--Protesto!--L vae
o inferno! acabou o inferno!

L vae tambem o co, mas o co no faz falta nenhuma.


J no h esforos que contenham o mundo subterraneo que se pz a
caminho. Aos mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira
remexe. Por mais que queiram conter a vida dentro de certos limites,
ella extravasa, e vem  supurao; por mais que a queiram comprimir
estala por todas as costuras.  inutil. Alem da vida aparente, h outra
vida de odio, de sonho, de interesses occultos.  a vida,  o que eu
scismo de noite e me sustenta de dia.  o desejo de exterminio,  o
sonho que arredo e que me pega fuligem: so os restos de sonho de toda a
gente. Em todas as almas, como em todas as casas, alm da fachada, h um
interior escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o co
e respiram. Saem dos buracos e pem-se a rir, ou falam s, o que  a
primeira vez que succede na villa. Emergem da noite e vo deixando cahir
os farrapos. Respiram com sofreguido, os gadanhos afiam-se-lhes, e o
mesmo desejo os domina: a vida! a vida! a vida!

S esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais,
petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade
tragica, sonho e desespero, dr e desespero, noite e desespero...


 um erro supr que o homem ocupa um espao limitado no universo: cada
homem vae at ao interior da terra e at ao amago do co. A parte de
cima foi cortada, mas o que resta da alma  um poo sem fundo. Uma
obscuridade. Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se coisas
abjectas a que no sei o nome. Agora  a vez de impulso--agora  a vez
do interesse. A mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo
ascendem ordens que se no chegam a formular. Deso mais fundo no poo e
encontro restos sordidos e candura. Por baixo sonho--por baixo
fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, no so ms, mas teem
atraz de si seculos de ruina e de destroos. H-as que acordam sempre
com a bocca amarga. J tiveram vinte annos, e cada uma d'ellas suporta
uma cauda de desespero, de iluses desfeitas, de iluses intactas, de
desejos irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada velha arrasta
comsigo uma poro de cadaveres... De mais fundo vem outro impulso...
Comeo a ouvir vozes que supunha de todo extinctas. Acordam e de tal
forma se impem, que a D. Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa
vaga, n'esse ldo adormecido, jaziam sres ignorados que veem 
superficie: sente-se no silencio as mos agarrando-se s paredes. Um a
um todos deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra, a nodoa
desordenada, que satura d'oiro a insignificancia e o genio, a nuvem que
envolve a D. Inocencia, encrespa os cabellos  D. Leocadia, fez esquecer
a dispepsia ao D. Prior, arreganha os dentes a D. Restituta. Pega-se.
Torna uns mais ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que estava
sepultado h dois mil annos, no bolr e no bafio, nas paredes compactas
da S, nos santos immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no habito.
E doira, doira, doira, doira o Telles e o Reles, doira a hipocrisia e o
medo, o egoismo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma,
pe-nos frente a frente a uma coisa estranha que no admite
subterfugios-- realidade.

Desaparecendo a conveno e as palavras, que vae sahir d'aqui de
temeroso e de ridiculo? Transformado o mundo, com que olhos vamos vr o
mundo? Tudo isto eram phrases e s existem instinctos? A honra era uma
phrase, o dever uma phrase e a vida um scenrio? Cada sr  capaz de
todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e
possue todas as cres, e s por habito adquirido h seculos  que
conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.

H dialogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se
usaram, e figuras que j no so as mesmas figuras. Todos ns somos
disformes.--Deixem-me! deixem-me!--Agora quando falam j no  para
dizer coisas convencionaes.--Estou  espera, tenho estado aqui  espera
toda a minha vida.-- espera de qu?-- espera deste hora suprema,  tua
espera...--Mas fala...--No posso, s com gritos  que posso falar...--A
outra coisa temerosa sacode-os...--Tu ouves?--No te quero ouvir. Se
consegues ficar comigo ss a ss, sinto que estou perdido. Tudo que me
deu tanto trabalho a construir, alue-se n'um unico minuto. Teimo em me
defender--teima em se fazer escutar...--Tu ouves? tu ouves?...--Mas tu
no existes... Ou tu no existes ou s tu existes no
mundo...--Estremecem at  base da vida, e, n'este cataclismo, ainda se
lhes pgam coisas vulgares e coisas inuteis--o que se faz e o que se no
faz, o que se usa e o que se no usa, as conveniencias e os habitos
ranosos. H dialogos formidaveis na obscuridade. H almas extacticas,
h-as reduzidas ao espanto.--Ouves?--tu ouves?--No tenho a que me
apegue, mal ouso pr os ps. At agora sabia quem era, ou fingia
sabel-o, agora pergunto se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a D.
Penaricia? S posso viver ligado a certas palavras, a certos factos, a
certas bases que julgava indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto,
transformou de todo a vida. O sonho tem outra cr, e a nodoa de oiro
alastra, corroe, mistura-se a nodoas mais escuras e mais fundas,
penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como ulceras.--Phrases
ainda elles as teem, mas o peor  que cada um sente com espanto que j
no subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a
deixo viver mais duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos annos?
Agora que a sua vida s depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo
viver--contra os meus interesses? Eram tremendas as questes de dinheiro
que a morte resolvia. Quem as resolve agora? Debatem-se em cada
consciencia problemas que s teem uma soluo--a morte. Excusas de
desviar o olhar: s teem uma soluo--a morte. E de mais fundo ascendem
outras vozes e falam cada vez com maior desespero.--No desvies o olhar.
Tu ouves?...

Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto,
imperiosas, as vozes da multido que constitue a tua alma. Isto coincide
com o grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em
plena praa, sem se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos
convencionaes; isto coincide com uma primavera antecipada, em que as
arvores, sentindo talvez que vo ser a nossos olhos apenas coisas
utilitarias, se apressam a dar flr, em que os cos nocturnos e sem
macula parecem ter gelado em azul com fundos d'oiro revolvido...

Alguns pem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa
sombra tragica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre
pessoas consideradas, com assento na existencia, e que usam a cabea
como quem usa um resplendr, o Elias de Mello e o Melias de Mello,
sentem um baque que os amolga. Porqu? Elles teem tudo em dia, as
contas, os livros, os escrupulos. A praa considera-os, Deus
considera-os.--A nossa me morre...--E no tiram o leno dos
olhos.--Veneram-na. Mas o respeito pelos paes s resiste emquanto os
paes respeitam o interesse dos filhos. H decerto uma lei moral, mas h
sempre por traz uma bocca a prgar. Uivos, gritos, exasperos.  a
transformao do grotesco em ferocidade,  a camada de hipocrisia que
custa a romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida
subterranea, o lojista deparando pela primeira vez com uma alma
esplendida, e a D. Adelia, de chin postio, fechada n'uma gaiola com a
verdade, e aos saltos uma  outra.

Foi grotesco, comeou por ser grotesco. Mas escuta-te:  um mundo que l
tens dentro,  uma multido que se prepara para o assalto. Estava
adormecida, acordou. Mete medo. E prgam, aulam-se, avanam direitos
aos seus apetites, ao saque,  guerra,  luxuria. Continham-na arames
enferrujados, o medo da morte, o habito de crr em Deus (sabendo bem que
Deus j no existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram d'um dia
para o outro. Descobrir que no h Deus que alegria! Pe a gente 
vontade. Respira-se d'outra maneira. Descobrir que a morte no 
inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto. Agora  que eu contemplo a
vida--e me perco na vida. Comeo a ter medo de mim mesmo e no me posso
olhar sem terror. Que  isto, este sonho, esta dr, esta insignificancia
entre foras desabaladas? Onde hei-de pr os ps? Eu sou a arvore e o
co, fao parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e
ridiculo. No me desligo do turbilho azul, sem nome, que me leva
arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo.
Sou ridiculo e construi o mundo. Sonho e acabo reduzido a p. Sou capaz
de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil e no tenho limites--vou
de mundo a mundo e de espirito a espirito. Dei alma s coisas inertes,
significao ao universo, vida ao que no existe, luz s estrellas--e no
fim acabo grotesco. Sou nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda no
pelago. O que olhava com indiferena mete-me agora medo. No posso com o
mundo transformado, com outros sres, e onde no me desligo d'uma fora
cada vez maior e mais desabalada.

Preciso de olhar para mim, sou forado a olhar para dentro de mim mesmo,
a encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavr. No
me posso comprehender no universo, no entendo esta luz insignificante
no negrume gelado, nem esta discusso interminavel no silencio absoluto,
nem este ridiculo, nem esta figura mesquinha que representa o mundo. Com
que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro e os impulsos tremendos
que veem no sei d'onde e caminham desabaladamente para um fim que no
distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho medo de mim mesmo! Nunca o
acaso pariu nada to monstruoso e to grotesco como isto a que se chama
a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais abjecto e mais
transido--cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. No me posso
olhar nos olhos, com medo de vr o que nunca vi, em todo o seu horror e
em toda a sua nudez. Grito.

Gritos--gritos--gritos ainda sufocados. Ouo-os na noite imperturbavel,
na harmonia esplendida, na arvore e na pedra. Mais gritos no turbilho
dos mundos, e atraz desse turbilho outro maior--e mais gritos ainda. A
ternura sou eu que a presto ao absurdo e  dr. O que fica na realidade
so gritos. A harmonia parece immensa porque as coisas no teem bocca
para prgar--ou no as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a dr muda, a
dr intoleravel n'um escantilho de desespero--de desespero sem
significao--de desespero cada vez maior. E sempre outras boccas prgam
mais alto na noite que no tem limites, outras boccas que nem sequer
existem. Levanta-se a poeira tragica, a poeira que anda espalhada h
milhares de annos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira
ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que j foi ternura e
desgraa, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inutil que foi dr.


Os maiores dramas passam-se porm no silencio.


     23 de dezembro

Se ella morresse... Esta ideia ao menor obstaculo, esta ideia a que eu
fujo e a que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina at a
proposito dos que mais amamos--esta ideia transforma-se logo em
aco:--Vou matal-a.


Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta creatura de olhos tristes
fitos em mim. Para sempre! At as coisas mais bellas se transformam em
absurdo e me pesam como chumbo. Peza-me a tua amizade, peza-me o teu
amr--para sempre.


A pobreza e a humildade no se toleram para sempre.


A ninharia a poder d'annos e de persistencia impe-me respeito. A
ninharia um seculo, outro seculo, transforma-se em grandeza.


Quanto menos sinto a morte necessaria para mim, mais a julgo necessaria
para o outros.  um muro que  foroso deitar abaixo. Para respirar 
preciso deital-o abaixo.


Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos mortos, a imporem-me a
sua lei... Agora s eu falo e com a minha propria voz.


Agora s eu mando. A vida vou julgal-a com os meus proprios olhos. Vou
tomar folego, vou tomar peso  vida. Sei-a de cr e salteado. Sei o que
valem os preconceitos, as iluses e as palavras--sei o que vale o
dinheiro. No torno a ser iludido.


A vida  um combate, que s se vence pela bajulao, pela manha ou pela
audacia--todos os meios so bons. Os escrupulos no servem para nada, a
conveno tolhe-nos os braos. Meia duzia de regras afiadas bastam.
Honestidade a precisa para que confiem em ns--piedade a bastante para
que no nos assaltem os cofres. Fra d'isto logro.


Se tenho foras uso-as.


A vida n'estas bases  talvez monstruosa, mas no posso modifical-as.
Aproveito-as. Tiro da vida o que ella me pode dar. Com iluses podia-se
ser pobre--sem iluses s se pode ser rico.


     25 de dezembro

O peor  que se passa no silencio.  a outra coisa que acorda,  a outra
coisa desconhecida que comea a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos
as mos para o segurar, mas, no escuro e no silencio, a presso
redobra... Est outra coisa por traz do tabique, outra coisa que eu no
quiz vr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem sei que existes!
Bem sei que estiveste sempre ao p de mim. Nunca te deixei discutir
comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir a bocca. H
tragedias de que desviava o olhar, fingindo no as vr. Agora hei-de
vel-as por fora. H misterios que no queria debater e agora se me
impem. H vozes que no queria escutar e que falam mais alto que a
minha voz. H sres que no queria conhecer e que discutem agora tu c,
tu l comigo. Tenho de os aceitar. Romperam pelos sepulchros
fra--despedaaram todas as tampas. E esta intruso na vida modificou de
todo a vida.

Cada um v doirado. Tem de pr o problema alli na frente e de o
resolver. Tem de ir at ao mais profundo do inferno e at  vacuidade do
co. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e ridiculo, nu e esplendido.
Cada um v por uma fresta a fora desabalada, e pe-se a scismar como
Dante com a mo ferrada no queixo. Temos todos de resolver o problema.
Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, ahi est na nossa frente o
mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem subterfugios. Traz flres
como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas e
pela lama.  doirado-- feroz. Tem todas as tintas e todas as cres, e
sobre isto phrenesi.  humilde, leva comsigo no mesmo impeto ternura,
dr e desespero. Est dorido e vae to fundo como a propria desgraa.
Impele-nos.  a vida e o sonho,  a tragedia--no existe. No tem nome.
Chama-se a vida e a morte.  uma coisa absurda. Mete-me medo e
extasia-me.


As velhas j no dizem:--Jogo!--Houve uma coisa que se meteu de permeio.
Os passos aproximam-se e o esforo augmenta. Sinto-lhe o bafo
monstruoso, sinto-o mais perto de mim e encostado ao meu sr.

As velhas ouviram passos apressados dentro das proprias almas, o sonho
veio  tona, e ficam absortas com as mos agarradas aos queixos e as
boccas espremidas a remoer em secco...

O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da gente que vive  roda
d'uma ideia sem atrever a encaral-a.-- preciso matal-a!--So annos e
annos, so seculos de inveja paciente, que sobem  superficie: at as
figuras de pedra ressumam dr e desespero. Agora metem-me medo. As
velhas somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam phantasmas.


O que se passa em cada casa, dentro de cada sr, no fundo de cada poo?
Ouve-se as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Esto
promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, no dizem o que sentem, mas
j caminham segundo o interesse, o odio e o sonho. As resmas de
papeladas so inuteis, a lei todos os dias se reduz a zero. A nodoa
alastra. E agora  que se v bem o que cada um trazia dentro de si.
Nesta primavera h duas primaveras. Agora  que eu comprehendo que as
palavras que se pronunciavam eram rituaes, que os gestos, com seculos de
existencia, eram necessarios e significativos. As phrases ranosas das
velhas nos dias de enterro, as phrases banaes, eram as unicas capazes de
amortecer a dr; este habito ridiculo de jogar o gamo um opio, como
esta historia que a Bacellar conta a si mesmo, com um ar idiota, um
principio de sonho. Tanto vale uma tragedia.  preciso fugir 
realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam no Gabiru  a sua
immensa capacidade de sonho; o que a villa escarnece  o que a villa
inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta d'uma meza de jogo
e o candieiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas
esqueceram a mediocridade da vida--esqueceram tambem a morte. O chale
velho a que a D. Leocadia se achega todas as tardes mesmo no pino do
vero, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais peso tem: est encharcado
de sonho...




PAPEIS DO GABIRU


     26 de dezembro

O que me impede de vr a tragedia da vida,  a ninharia da vida.


A alegria  a luz. A luz suprema  Deus.


Se elle no existe--ns creamol-o.


Cheguei a um ponto da vida em que nem os outros me interessam, nem eu
interesso os outros. No falamos a mesma lingua. S entendo alguns
desgraados.


Tudo na natureza so frmas da minha alma. Minha alma passa como uma luz
em frente da escurido. Extincta s resta a treva.


Se no fosse o habito uma arvore matava-me. No posso olhar o co sem
terror, e tenho de fechar todas as portas para voltar  vida comesinha.


Para o outro mundo  preciso uma iniciao.


Sinto que cada passo que dou  irremediavel.


Se me perguntassem o que queria ser--queria ser isto mesmo. Assim na
eternidade te queria, minha alma, com o mesmo sonho, a mesma vida e os
mesmos erros. No te troco por outra alma.


No h belleza completa sem uma pontinha de saudade.


A pobreza, a desgraa e a dr metem-me medo. Mas que prestigio! Ser
alimentado pela desgraa d outra fibra, que s  desgraa pertence.
Faz-se parte d'uma legio esplendida.


H uma poro melhor do nosso sr, no h negal-o. Luz entre residuos,
gritos e instinctos. Se no existe outra vida, pergunto para qu?


Se fosse possivel suprimir a iluso--morriamos todos  uma. Vivo entre
quatro paredes, e entre quatro paredes analizo e commento e construo o
universo. Fora d'esse casulo nada existe para mim. Succede, porm, que
da parte de fra  que est o resto...


Se me perguntam o que  a vida--no sei o que  a vida. Sei que me
devora--sei que tenho ao p de mim a morte.


Que faz de ns a vida? A vida gasta-nos, reduz-nos a linhas essenciaes.
Habitua-nos a viver, e, quando estamos habituados a viver, suprime-nos.


Sei que tudo so aparencias, com uma unica realidade, a morte. Para
morrer no valia a pena viver, para me encher de saudade no valia a
pena viver. S para ser mistificado no valia a pena viver.


A melhor parte da vida-- a saudade da vida.


A que se reduz afinal a tua vida? Algumas ideias mesquinhas--e a uma
coisa que no cabe c dentro.


Sim a vida tem minutos bellos, quando a gente a esquece. E acima de tudo
o sonho. O sonho vale a vida.


 nada e menos que nada. Impulso, desconcerto e logica, e no fundo do
teu sr uma ancia superior a tudo, que  a melhor parte do teu sr.
Melhor, que te faz desgraado. Melhor que teima em querer um universo a
seu modo, e que pouco e pouco, apezar de tudo, contra tudo, tem
construido o mundo a seu modo. Foi ella que fez Jesus.  ella que te
impele para cima, cada vez mais para cima.


Ouo-me viver com terror--e caminho nas pontas dos ps para a morte.


Se a vida futura  um absurdo, esta vida  um absurdo maior.  tudo uma
questo de habito. Tanto sonhei comtigo que te construi.


Sou aqui to necessario como as estrellas do co. Aqui estou, creatura
mesquinha, com a dr a meu lado, com sonho a meu lado. Hei-de acabar por
te dominar. No h morte que te valha!


Isto  abjecto, s vezes  grotesco--mas se isto desaparecesse,
desaparecia Deus, e, com o maior dos sonhos, todos os outros sonhos.


     30 de dezembro

A vida  tecida como o linho: um fio de dr, um fio de ternura. Eu
intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.


S dei por ella depois de morta. As horas mais bellas perdi-as a sonhar,
quando a vida estava a meu lado. Eu no vivi! eu no vivi!


Agora  que me lembro della, como d'uma tarde que viesse devagarinho na
ponta dos ps, e se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas
suspensas na luz--nos botes quasi a abrir.


Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.


O dia d'hoje no existe para mim: s penso com sofreguido no dia
d'amanh. Ora amanh  a morte. E succede tambem que s dou pelas coisas
bellas da vida, depois que passaram por mim, e que as no posso
ressuscitar.


H na vida um unico momento. Um momento que sorri. Que concentra em si
todos os momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.


S agora seus olhos verdes d'espanto me chamam, seus olhos que exprimem
o irreal e o mundo todo, seus olhos cheios de dr represa e de sonho
coado por lagrimas...


Agora  que ella est viva! agora  que ella est viva! E to viva que a
confundo com a morte.




ATRAZ DO MURO


     10 de janeiro

O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpe-se um
muro. O drama no tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. No
tem aco. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim.  um
debate perpetuo.


Que duvidas? Pois se a minha vida  esta e no h outra vida; se o
minuto  este e no h outro minuto, que fora me pde deter para que eu
no realise o meu destino contra ti e contra todos?


H um sr que ocupa o meu sr e me domina quer eu queira ou no queira.
Quem h ahi capaz de dizer que a mesma ideia o no persegue?--Se ella
morresse...--Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos.
Esfacelado. Tenho por fora de o admitir na minha companhia. Subjuga-me.
Peor: faz-me falta quando o no tenho ao p de mim.


Talvez eu seja um sr complexo, talvez os outros sejam to complexos
como eu. Tudo me faz sofrer--mas metade do meu sofrimento 
representado. Tenho  certo duvidas--mas metade das minhas duvidas so
postias. Hei de acabar por no crer em mim como no creio nos outros.


Eterna contradio de todo o teu sr. No sabes o que queres nem como o
queres. No sabes no que crs nem no que no crs. s um impulso. Vaes
at  cva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido.
Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. s um mar d'inverno n'um
dia de vero.


Est tudo decidido--dizes--est tudo prompto. S uma coisa me falta: pr
isto em aco. E essa coisa, que  um nada, tem o infinito de comprido.


Desde que este phantasma se pz a caminho nunca mais consegui detel-o.


Comea por uma ida que afugento. Comea por um pensamento tenue, por
uma simples palavra que afasto.


Insiste. H ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais
vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dr, do que eu.


Assisto  sua aco e no o posso conter. Acaba por acampar entre os
destroos do meu sr como um dominador.


Mas eu no o criei! no fui eu que o criei! No s o no tolero como lhe
tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que h occasies em que me
submeto com alegria. Para ser sincero at ao amago, devo dizer que
n'esta dr, n'este desespero,  que me sinto inteiramente viver. Com
elle  que eu grito. Decerto eu no sou isto--no quero ser isto.
Tenho-te medo e perteno-te. s a melhor e a peor parte do meu sr.


Felizmente no vemos seno detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma
at s maiores profundidades, e vr ao mesmo tempo de que ternura, de
que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma  capaz,
nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha
alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.


Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A
renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do
nada, me leva, queira ou no queira, para o nada? Na cva, na podrido,
desfeito em p, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo,
d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sr, que
no soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te ho de
prgar:--Estupido! estupido!


Remorsos? Eu no tenho remorsos. Duvidas? Eu no tenho duvidas. Desde
que te vi--vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que no tinha
vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia--que mais
valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que s h uma hora na
existencia e que  preciso aproveital-a. Que tudo  simulacro e s tu s
a verdade. E apercebi o universo como fora e destino a tal
profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo
o turbilho da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua
grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vr-te. Portanto no tenho
duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou
decidido.


Mas h uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa--um fio que
no posso cortar. Tenho a sensao de que, cortando-o, aniquilaria a
vida. No a minha vida, que no importa--mas o que h de mais
extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que
aniquilaria Deus.


H uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar--h uma
atmosphera viva que todos ns respeitamos.


Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e no encontro nada. E no entanto tu
existes. s muda e existes. Quando me imagino livre de ti,  que tu tens
mais fora. Procuro explicar-te por palavras, por convenes, por regras
aprendidas, por habilidades... s muito maior do que eu.


Ponho o ouvido  escuta d'encontro ao mundo, ouo-me para dentro, para
surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e so duas ou
tres simples, d'instincto e ferocidade. E alm d'isso outra coisa
immensa--que no existe.


Como te chamas tu? E tu, dr, como te chamas?


     11 de janeiro

Ponho-me a olhar para ti consciencia, e exijo que me fites nos olhos e
que me fales claro. No entarameles a lingua. Em primeiro logar diz-me o
que s e o que significas: medo, receio, uma vz que se cala se a
miseria aperta ou a luxuria levanta a cabea. Um nada, uma voz to
timida e to prompta a sumir-se... Incommodas-me  certo, mas no
impedes nada. Falas quando devias estar calada, no sabes o teu papel e
nunca entras a tempo. Herdei-te: s conveno e egoismo alheio
entranhado no meu egoismo, synthetisado em duas ou tres regras para
commodidade dos outros. Fazes de mim uma prsa facil para quem a no
tem. s escrupulo, e o escrupulo , pelo menos, inutil.


Ests em perpetua contradio. Inutilisas-me metade da vida e nunca me
pude desfazer de ti. N'esta lucta de todos os dias, quando me julgo
livre,  quando te sinto todo o pezo.


Isto  decerto a vida. Mas a vida  tambem o instincto que me
diz:--Aproveita, no deixes fugir o unico minuto. Se a vida  um momento
entre o nada e o nada, o que vale a pena  aproveital-o.


A questo suprema  esta e s esta: Deus existe ou Deus no existe. Se
no h Deus, a vida, producto do acaso,  uma mistificao.
Aproveitemol-a para satisfazer instinctos e paixes. Se Deus no existe,
no h fora que me detenha. No h palavras, nem regras, nem leis. Tudo
 permitido. Questo logica: pois eu hei-de ir para a cva, para todo o
sempre, para toda a eternidade, sem ter extrahido da vida tudo que ella
me possa dar, preso a palavras ou a meras questes de forma? Oh!
ponhamos a questo, consciencia: se Deus no existe tu no s seno um
estrvo, meia duzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos emfim a
questo com toda a clareza, porque este  o unico problema que me
importa e que te importa resolver.


Escusas de encher a bocca com o dever. O dever no me interessa nada. A
questo fundamental, a questo que eu debato com todo o meu sr, e de
que me no consigo desligar,  a da morte eterna e a da vida eterna.


Se Deus existe eu sou um homem,--se Deus no existe eu sou outro homem
completamente diferente.


No existindo tu consciencia, o que tu te intrometes na minha vida! E
tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Ests
morta--ests viva. Na cva hei-de chorar inutilmente por te ter
obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido
amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me de ti, tu
impes-te-me. Quando te julgo aniquilada, ahi comeas a falar outra vez.


Vens de muito fundo!


s vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te.
Humilhas-te para logo levantares a cabea e revolveres o punhal na
ferida. Pesas-me como chumbo. s de ferro. Bem tento explicar-te: so os
escrupulos que me no deixam trahir, mentir, subir. O que  eficaz no 
ter escrupulos,  fingir tel-os.  tudo o que os outros nos pedem.--Mas
tu no transiges. Se te abaixas,  para te ergueres de novo, para de
novo me atormentares. No me largas. Acompanhas-me por toda a parte.


Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!


     18 de janeiro

O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. S isto existia?
Quando tudo em mim me prgava que aproveitasse este momento, que deste
unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar--alguma coisa me
detinha. Eras tu consciencia. E tu no existias! Fale a logica, fale a
razo, fale tambem o instincto... A consciencia  sempre religiosa. Mal
posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo  Deus, Deus rodeia-me.
Tudo para mim  uma causa de espanto--e atravez d'este espanto presinto
ainda um espanto maior. Sinto-me como balouado n'um sonho immenso. Ando
nas pontas dos ps. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a
minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se
converte em foras, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo  acaso
no acaso, se nada existe, se  indiferente o que eu penso e o que tu
pensas, se s eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia j no
 a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia
nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sr. Rebusco-te. s
vezes, nos momentos tragicos, j no  comtigo que eu deparo-- com
outro sr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus
exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um
punhal--e no existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te s tuas
verdadeiras propores--e tu no existias! Atormentaste-me e fizeste-me
sofrer mesmo quando j comprehendera que no existias. E agora mesmo,
quando o universo  outro universo, ainda te encarnias sobre mim como
um phantasma.

Escusas de te rir--tu no existes. Dependias da morte, e o que eu tinha
na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte--medo da minha
alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante
do que  eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Pe-me a questo,
pe-me todas as questes que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e
a voragem, este mundo e o nada. No te metas de permeio, que j no tens
razo de ser. Seria mistificao sobre mistificao. No me atrever
agora  absurdo. Porque, consciencia, o que importa  a parte
interior-- a verdade ss a ss comigo, fechado a sete chaves, e essa 
temerosa. No tentes iludir-me. No podes mentir a ti mesmo. V que
passaste a vida a conter o mal--e o mal fez parte, queiras ou no
queiras, da tua vida. O mal  pelo menos metade do teu sr. Agora
sim--agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre
do tempo, calco-te aos ps. Nenhuma sujeio. Nenhum temor, nenhum
phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma fora entre foras e mais
nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar
o olhar. Sou a unica fora consciente, sem palavras que me diminuam, nem
escrupulos que me contenham...


Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a
fl e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido
rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e
interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos
outros: s o que  selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume
e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber
o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de
obedecer ao impulso...




O SONHO EM MARCHA


     20 de janeiro

Eu sou um desconhecido para mim mesmo. Ia para a cva sem me tr
encontrado um momento ss a ss comigo. E  com dr,  com espanto e
dr, que me reconheo;  com olhos de pasmo e dr...


Tudo mudou. A sofreguido que todos os dias da vida--sempre!
sempre!--nos empurra e leva; o sentimento da vida ephemera e o horrr da
morte--mais perto! cada vez mais perto!--; esta coisa imponderavel que
debalde tento deter--sem nome e a que se chama o tempo--que nos usa, a
que no ouo os passos e que caminha inalteravel--tudo desapareceu de
vz. Respiro. E, modificada a ideia do tempo, todas as outras se
alteraram profundamente. Os sentimentos no so os mesmos. A vida
assenta n'outras bases, a vida fica amarga.

Resta-nos a logica e a consciencia. Mas a consciencia admito-a, comtanto
que no me embarace. A consciencia que quizeres, comtanto que no me
amesquinhe, ou no me iluda. O unico juiz sou eu. O fim da minha vida
no  dominar-me,  dominar-te.

Todos temos de matar, todos temos de destruir, todos temos de deitar
abaixo.


A paciencia acabou, a resignao acabou--e acabou a morte. Suprimida
esta ideia, suprimido tambem o tempo e o espao, as velhas no existem;
o que est vivo  a ferocidade, a paciencia e a mentira--e tudo espera a
ocasio. Espera e desespera. A parte de dentro  que est viva e reclama
de p e de ferro a sua vz. Notem: nenhuma arriscou um gesto mais
brusco. Por mais fl que lhes venha  bocca esto habituadas a
engulil-o. Nem com a cabea tapada se atreveram a olhar a verdade. P'ra
dentro! sempre p'ra dentro! E assim succede que no se construiu nunca
cathedral com alicerces mais fundos. Est viva. Uma sustentou-se de
cdeas, outra sustentou-se de fome. A inveja tambem sustenta, o fl
tambem sustenta.  Araujo s a paciencia e o calculo lhe permitiram
viver. s vezes tem fome--nunca disse a ninguem que tinha fome. Sabe
logo quando entra n'uma casa as palavras que agradam  velha rancorosa e
 filha cheia de pretenes a quem ensina as escalas; de quem h-de
dizer mal esta semana e bem para a que entra. Esperou como a aranha
espera com o estomago vasio. Nunca pediu esmola. Melhor: conseguiu
dar-se ao respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo que a
magestosa Theodora pode durar. A D. Penaricia  abjecta, mas s a
abjeco lhe tem permitido viver. A mentira tem razo de ser--sem
abjeco a sociedade repele-nos. Admitimos alguma abjeco, no completa
e total, que repugna, mas a precisa para servir de realce e moldura ao
nosso quadro. Acresce a isto que teve de viver com despreocupao, de
sorrir com despreocupao, de mentir com despreocupao--com a miseria
atraz de si.

Com fl constre-se uma vida--o fl d certa solidez. O peor  meter
logo para dentro toda a inveja que lhe vem  bocca. Peor ainda: na
velhice misturou-se tristeza ao fl. No s a D. Penaricia tem inveja,
no s a D. Penaricia odeia, mas a D. Penaricia chega ao ponto em que
percebe a inutilidade do fl. A Theodora pode aniquilal-a de um gesto.
Fl e vinagre--mais fl e tristeza.  um vasto campo de destroos de que
desvia o olhar. Foi-lhe ento inutil o fl? Se no fosse o fl j tinha
morrido. Quando passou fome, quando deu dinheiro ao homem para o jogo,
quando perdeu na bisca para a Theodora ganhar e sorrir, o que a
sustentou foi o fl. Quando vestiu a filha e a passeou no jardim, com
trapos como os outros trapos, o que a sustentou foi o fl. Juntem a isto
coisas inverosimeis que se lhes pegam e as reclamam, velhas coisas
esquecidas, velhos sapatos d'ourelo, desaparecidos para sempre nas
profundidades do nada; velhos habitos, costumes aferrados, miserias
chronicas, adquiridas pela vida fra e que erguem a voz, cabelos
postios, sentimentos postios, gritos, e o exaspero de quem no pode
berrar:--O que eu quero  gosar! o que eu quero  encher-me!--o que
representa ainda mais fl e tristeza, mais fl e vinagre. Alli esto
frente a frente, e pergunto se estas velhas que passaram a vida  espera
d'uma herana no teem direitos. Pergunto se  possivel que a magestosa
Theodora continue a viver mil annos e a impr-se, a mandar, de quico na
cabea e com o cofre atraz de si, e as outras agarradas  meza do jogo e
 espera da morte. Pergunto se ter inveja no  sofrer, se ter paciencia
no  sofrer. H que tempos que cada uma d'ellas s pensa em matal-a e
arreda a ideia com medo ao inferno. A teia aperta-se. Mais um momento e
a teia torna-se visivel. A magestosa Theodora no pode escapar. Todos os
dias se tecem fios que a envolvem, todos os dias aquellas vontades
actuam, todos os dias o sonho constre. Sufoca. Formou-se um sr que tem
vida propria, uma atmosphera, uma alma commum, de que fazem parte todas
aquellas almas. A magestosa Theodora pertence-lhes. Hoje a Adelia cravou
de repente a agulha sobre a meza, e a magestosa Theodora desatou de
subito, aos ais, aos ais, como se visse alli lavrada a sua sentena de
morte. Todas as phisionomias mudaram alteradas e profundas, subindo 
tona das profundidades do universo ou de poos mais profundos ainda.
Agora o sonho no  um segundo, o sonho vae ser a vida.

--Est certo o senhor? Est certo o senhor padre Ananias, que depois
d'esta vida h ainda outra vida de que nos tem falado? Ou h s esta
vida? s esta?! E isto  uma _comidela_?

O que ellas estavam era sepultadas n'um vasto cemiterio do tamanho da
villa. Sobre cada velha havia p, sobre cada interesse p, sobre cada
phisionomia outra phisionomia. Efectivamente a Theodora  uma
insignificancia. S d leis. O melhor  matal-a. E todos os olhos se
cravam nos olhos do padre, todas as velhas mastigam em secco, todas as
velhas do de repente um salto brusco no vacuo.


 paciencia que j no s paciencia e trazes veneno na algibeira, com
que despeito olhas para traz, para o Hymalaia de inutilidades. Debalde a
paciencia tenta dizer ao sonho:--Amanh--; tenta iludil-o:--Espera...--e
a mentira propor-lhe uma transao. O sonho toca na paciencia como quem
toca n'um nervo, e quando a Restituta vae mais uma vez dizer-lhe 
pressa:--Pois sim...--aperta-lhe o gasganete e pela primeira vez na vida
a deixa desorientada... Comediante, v se aproveitas o excesso da tua
dr para praticares uma nova infamia!


     21 de janeiro

A mesma interrogao se formula em todas as almas: quer ento dizer que
s vivi uma vida ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da
existencia com aparencias? Quer ento dizer que tudo para que vivi no
existe? Ponhamos a questo! ponhamos a questo! A maior conquista do
homem, Deus, desapareceu para sempre--desapareceu tambem a morte.
Ponhamos a questo: faamos taboa raza. Est tudo em terra, o dever, a
honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questo por uma vz, nitida,
clara e sem subterfugios. Ponhamos a questo e todas as questes...

Avanam e recuam logo. Do sonho grotesco ou explendido, ridiculo ou
feroz,  realidade vae um passo desmedido. Interpe-se um muro... Todos
passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos nem do pela vida. H sres
que tanto faz estarem vivos como mortos. Outros nunca repararam sequer
na sua verdadeira phisionomia (porque at a nossa phisionomia  mais
verdadeira que real). Em alguns o murmurio das vozes  to afastado que
no chegam a interpretal-o... H-os que sahem da lucta esfarrapados,
h-os cheios de reticencias e que mal visionam o mar morto
indiscriptivel. O que os farrapos custam a largar! o que o muro custa a
deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior, o habito reclama-os.
Adhere-lhes o infinito e as colicas, a usura e o fl. E sobre tudo isto
h a contar tambem com a imbecilidade e a apagada, inepcia. H a contar
com a langonha que tambem tem o seu sonho. H a contar com o que se
arrasta no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos para a lua e para
o sonho. H a contar com as velhas encardidas de habitos e de fistulas.
Em sres amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe ainda um
resquicio de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na mesma
mimica, e no olhar, onde, at na imbecilidade cerrada, se distingue no
sei que de temeroso. Por isso a questo no  facil de resolver. Por
isso o Anacleto ainda no a matou. Ainda no conseguiu deitar o muro
abaixo. No  o que se pode dizer na praa, porque a praa venera-o. No
 tambem que a ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu
escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma lettra. Mas h no sei
qu que o contraria e se ope. Tambem as velhas se deteem, tambem o
Santo se detem. Mas a mar que ahi vem sobe sempre. Ao mesmo tempo
entontece-os e ao mesmo tempo perturba-os.--Eu no quero vr! eu no
posso vr!--e tenho de me olhar cara a cara, tenho por fora de te
admitir, tu que s o meu verdadeiro sr, immenso e profundo, com raizes
em toda a lama e braos que chegam ao co.--Eu no sei d'onde vem isto,
e isto aturde-me. Olha como sorrio para ti, como finjo que sorrio de mim
e de ti que te pes a falar. O gesto que eu fao, no me pertence,
perturba-me o som da minha voz. E a noite  cada vez mais
cerrada...--Ninguem quer achar-se frente a frente com o seu proprio
phantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se succede
encontrarmo-nos, quedamo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. Um
passo est dado, falta dar outro passo. Custa...--Ao que quasi todos se
apegam no  a grandes aces,  a simples peripecias. As existencias
que se nos afiguram dramaticas so cheias de ninharias, de ideias fixas
e de paciencia. O Torres engrandece a mania de copiar inutilidades:
d'aqui a dois dias ou d'aqui a dois seculos, ainda o encontras curvado
sobre o mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do _Seculo_. 
Araujo que d lies de piano  desespero inteirio. O honrado Elias de
Mello v o tratante Elias de Mello pr-se a caminho e no o pode
deter.--Ahi comeas tu tambem a perceber que a tua vida foi um mero
simulacro, que, a tua bondade for sempre um simulacro, que a tua
felicidade no passou d'um simulacro...--A D. Fufia, que h muitos annos
est morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer mal, e que,
quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a
abocanhar todos os ridiculos, todos os orgulhos, todas as vaidades:--O
que isto consola!...--Divagam, falam queiram ou no queiram com os
proprios phantasmas, monologam, discutem, gritam. A cada passo uma
interrogao exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...--D.
Leocadia, o meticuloso dever foi a tua vida e agora descobres que o
dever no existe, descobres que tudo aquillo para que viveste no
existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as
palavras no te servem de nada. Descobres que tens d'ir de encontro s
questes e no as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas
proprias mos criaste uma creatura disforme, que alimentaste de mentira.
E, a esta luz que te d de chapa, descobres que a tua caridade e os teus
escrupulos eram uma lucta de vaidade e de medo, de palavras e de
instincto, onde no entrava uma unica verdade. Descobres que criaste um
sr falso que abominas e te abomina, e que no te podes separar d'esse
horrr. Descubro tambem que errei a vida, e no sei recomear a a vida,
e que tudo que fiz no fui eu quem o fiz, mas o outro que me mete medo,
e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da
Telles de Meirelles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras,
ambos subvertemos o mundo--um dia, uma semana, um seculo.--Examinando
bem a questo, meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter...
Examinando bem a questo reconheces que foram as conveniencias... Has-de
arrepender-te at a consumao dos seculos. O mundo vesgo que em mim
descubro no outro compartimento,  o mesmo que em ti descobres. Faz
esgares como certos rictos indecisos que se formam  tona dos pantanos.
Todos sentimos atraz de ns um mundo, outro mundo, outro mundo de
ninharias, de palavras sem nexo, de coisas que perderam a expresso, de
apetites que nunca se realisaram--todos cobrimos isto de aparencias.
Passamos a vida a conter outro sr--outra coisa--outro espanto. H um
fio invisivel que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que
ninguem rompia. At a colera e o desespero mantinham certo verniz. E
agora descobrimos todos ao mesmo tempo,  meticuloso Elias,  impoluto
Melias--com risca e vinco, com vinco e risca--que resolver matal-a 
facil, mas para a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura.
Deixamol-a morrer ou no a deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir
a resposta. A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e pela bocca do
Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o depois de amolgado. Outro sr,
n'um estonteamento, bate com a cabea pelas paredes.--Mas ento?...
pergunta atonito.--Mas ento posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma
mistificao? Mas ento tudo  possivel e posso realisal-o manh, hoje,
logo? E estas teias de ferro eram teias d'aranha?... Mas ento o medo, a
morte, o inferno...--Aqui estou eu com esta mulher a meu lado, e sem
querer pergunto a mim mesmo...--Mas ento?...--Sim, resta-me certa pena
e saudade, mas o interesse levanta a cabea e deita as suas contas to
baixinho que mal lhe ouo fazel-as...--Teamos, teamos todos a nossa
teia esplendida, vulgar ou grotesca..:--Mas ento...--E encaro com um
mundo novo, a que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de ns se afoita.
S as interrogaes so cada vez maiores em todas as almas. Todos os
bonecos arreganham os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente no
se comprehende para que vivem certos sres inuteis, que atravancam a
nossa existencia e um pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente
no se explica que bastem alguns fios imateriaes para nos conterem, e
que um vidro de vidraa seja suficiente para nos separar da vida.

At a D. Restituta que era um poo sem fundo, desata a repetir os
segredos de toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guardasol
de panninho.

--Acuso! acuso! acuso!

Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que
sim. Hoje uma gota de fl, manh outro resto amargo. J no sabe dizer
seno que sim, j no consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram.
Coada, coada, coada. Fez as vontades  D. Procopia,  D. Felizarda, 
D. Herminia. Sujeitou-se s vontades do conselheiro Pimenta, quando por
desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe,
que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera, ninguem concebe que a
Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta  um
reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. H familias separadas por odios
seculares: s ella entra e sae n'essas casas quando precisam communicar.
Naquella alma incutiu-se at profundidades desconhecidas o respeito s
pessoas ricas, a considerao s pessoas importantes. Que tem a
Restituta que desata aos gritos:

--Acuso! acuso! acuso!

Debalde lhe tapam a bocca.  um vomito, um chorrilho de palavras
precipitadas--a vida de toda a gente--so os despejos entornados. Em vo
dez, vinte mos anciosas se lhe agarram s guellas abertas: aquillo sae
n'um jrro impetuoso--tudo quanto estava recalcado, todos os segredos
que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram para dentro, e, se pra um
momento,  para tresvariar n'um riso feito de todos os risos postios,
n'um esgare feito de todos os mil e um esgares que acumulou durante a
vida:--Eu tambem tenho um filho! eu tambem tenho um filho como
voces!--Impurram-na, escorraam-na, e ella agarrada ao guarda-chuva
ainda brada:

--Acuso!

A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactus, nascidas d'um dia
para o outro, com escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris.
Arredei sempre isto--isto que estava ao lado da vida. Nunca quiz vr
isto, fingi sempre que isto no existia. Tambem tu o arredaste... E isto
existe. E isto  enorme. O que ahi est fede. Tresanda. Sua
viscosidades. Apega-se.  uma marcha furiosa e desordenada.  a Vida.
So todas as ancias soterradas que se no chegaram a exprimir.  um
inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis de sonhar, aquecidos
a bafo e ternura, sem forma nem cr, ou admiraveis sonhos de tragedia.
Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e
sepultado, toda a podrido, todo o desejo encarniado e oculto, toda a
mistella que lucta s cegas na escurido para vir  superficie, desata a
falar  ta. Mais um passo e o sonho  realidade. Fala a infamia e o
grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.


     23 de janeiro

Ao Santo s lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe o orgulho
intacto. Debalde prga, debalde lucta comsigo mesmo.--Eu j no creio no
inferno.--E detem-se com espanto deante dos destroos, das formulas, da
insignificancia, dos simulacros que foram a razo da sua vida. Tudo que
lhe enchia o mundo no existe, tudo que no existia lhe parece
maior:--Eu quero crr! eu quero crr e no posso crr!--Debalde insiste
comsigo mesmo:--Nossa vida aqui  nada, nossa vida eterna  tudo. Nosso
destino  a morte. S assim posso explicar o universo, s assim posso
comprehender o universo.--Tudo o que se tinha apoderado do seu sr at
s mais intimas raizes, tudo o despedaa at s mais reconditas raizes.
Dilacera-o.--No me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a
olhar o pelago desordenado. Eu quero vr e no ouso! Eu quero crr e
sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto! D'esta coisa monstruosa que
no posso arredar. No posso arredal-a.--Para ti tambem o problema 
insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido coado, mais secca e
mais verde. Estaes ambos encalacrados.--Tu viveste sempre para Deus e
para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre
segundo a tua consciencia, regulaste tudo conforme a tua consciencia--e
tu e tu--e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos e verdes,
desesperados e verdes, ss a ss em frente d'uma figura que vos no
larga.

--Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude vr, diz
ella--Deste-lhe codeas mas no podeste amal-a. Sustentaste-a por
caridade, sustentaste-a de restos para calares uma voz tremenda. Ella
foi peor que uma creada, foi uma creada que se no pode despedir, presa
pela gratido--observa a outra D. Leocadia--Fala claro, fala alto.
Atreve-te.--Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrificio de a manter,
toda a minha vida por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna,
amachucada e sem vontade, para cumprir perante Deus o meu dever. E agora
a consciencia exige de mim?...--Exige.--Exige de mim, porque o meu filho
lhe fez um filho, que o case com a orph, sustentada de esmolas, calada
e viscosa?--Exige.--Por quem eu s sinto repulso?--Exige, e o peor de
tudo  que lhe deste restos, mas no podeste amal-a.

Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo
outra camada de sonho. A D. Leocadia coada e secca sacode em vo e
arreda outra D. Leocadia inteiria e coada. Tambem o Santo est aqui,
s e o pecado, s e Deus, s e o desespero: Deus existe--ou Deus no
existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus existe e se
interessa pela minha dr, esta vida transitoria  um unico minuto com a
eternidade  minha espera. Tudo me parece facil. Que exige o meu Deus?
Que me reduza a p e despreze a aparencia? Tudo  vo deante da
eternidade que me espera. O meu Deus enche o mundo. S o meu Deus
exista, e todo o resto no universo  to pequeno e to futil, que
reclamo mais dr, mais sofrimento, mais fome. Que a desgraa caia sobre
mim com todo o peso da desgraa; que a dr me descarne at  medula.
Despreso a dr. Exijo-a deante da eternidade. Sou capaz do andar de
rastro com a bocca no p, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a
certeza de que me livro d'uma eternidade d'angustias para vr Deus.
Venham todos os escarneos, todos os gritos, todos os suores da
agonia--venha meu Deus a cruz! At  morte hei-de crr no que creio. Sem
crr no sou nada--sem crr no existo--sem crr no comprehendo a vida.
Preciso de caminhar para um destino. Crr  uma necessidade absoluta, um
sentimento primario, a propria vida, sua razo e seu fim. Tenho
necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem elle a vida  desconexa
e atroz; peor,  monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse
s a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma lei,
n'uma logica, n'uma razo de ser, n'um sentido. Eu vejo Deus, eu sinto
Deus.

Mas se Deus no existe--se Deus no existe que me fica no mundo? Sou
nada no infinito. Fui tudo--e sou nada. Leva-me a fora bruta. Sou o
acaso na mistificao. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus
no existe tanto faz gritar como no gritar. No tenho destino a
cumprir: saio do nada para o nada. Nas mos da fora bruta que sou eu no
mundo que grito, que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito vivo,
h outro infinito vivo. Atraz d'esta impenetrabilidade, h outra camada
de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sofrego. No
encontro aqui logar para Deus que me oua, que me atenda, ou que saiba
sequer que existo.


Os gritos so inuteis, tu no me ouves. Estou s n'este absurdo que me
impele e esmaga... Que no houvesse o co, que existisse o inferno s o
inferno! E nem o inferno existe!...


Se Deus no existe... O peor de tudo  que eu digo e afirmo,--Deus no
existe!--mas na realidade no sei se Deus existe ou no. No h nada que
o prove--ou que prove o contrario. O peor de tudo  que eu sinto uma
sombra por traz de mim e no sei por que nome lhe hei-de chamar. O peor
que podia acontecer no mundo foi alguem pr esta ida a caminho. Mas
mesmo que Deus no exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha
alma, tenho medo de me encontrar ss a ss com a minha alma, que  nada,
o fim e o principio da vida e a razo do meu sr. Mesmo que Deus no
exista e a consciencia seja uma palavra, h ainda outra coisa indefinida
e immensa diante de mim, ao p de mim, dentro de mim. Vem a noite e com
a noite interrogo-me:--Existe?--O que existe  monstruoso. No ouve os
nossos gritos. O que existe  o espanto. O que existe reclama dr.
Sustenta-se de dr e no d por ella.

O que existe ento  isto-- um ulular de dr na noite--no turbilho, no
escuro. O que existe so gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta
mistificao. Por traz de mim h uma coisa que me apavora, por traz de
mim h uma coisa cada vz mais sofrega, cada vz mais phrenetica--e que
de cada vz exige mais dr. Espera: a harmonia no existe--existe a dr;
a belleza no existe--existe a dr; Deus no existe--existe a dr. E h
um momento apenas para realisar a vida. Nesse momento de paixo todas as
foras se concentram e ponho o p no mysterio. Tenho de aproveital-o.


Tudo o que exista na noite immensa, na noite ignobil,  peor que Deus.
Tudo o que existe me faz horrr, tudo o que existe entre as foras
desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que
proteste, estou aqui diante do incomprehensivel, vivo no nada, de p na
voragem. E para l h uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida
infinita.  immenso-- inutil. Sou menos que nada. S deparo na minha
frente com infinito sobre infinito, com o negrume sufocado, com o
negrume impassivel, com o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso.
S contei comtigo meu Deus--e agora quero crr e no posso crr. Estou
aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastido infinita. Tudo o
que disse--disse-o deante do vacuo, tudo o que sofri--sofri-o deante do
vacuo. Todo o meu desespero, a minha dr, a renuncia, os esforos, o
calvario deante do vacuo!


O maior drama  o das consciencias. O maior drama  arredar todos os
trapos da vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama 
ficar s com o vacuo e em frente do espanto,  dizer: nada disto existe.
S dou no meio d'este assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a
discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O maior drama  no
encontrar razo para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos--e
ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os esforos e
fazer todos os dias o mesmo esforo. E isto no nos larga. Sacode-nos e
abala-nos at  raiz, n'uma discusso que nunca cessa. Nem em mim, nem
em ti, D. Leocadia. Essa figura tremenda insiste cada vez mais alto,
cada vez mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a diante de ti,
ao p de ti, dentro de ti, mais coada e mais verde, com outra camada de
sonho e outra camada de verde?

--O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.

--Mantive-a para cumprir o meu dever.


Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens tu a tua consciencia, e aqui
est a consciencia da D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio em
frente da consciencia, como o ridiculo em frente da consciencia.--Valeu
a pena no matar?--pergunto--perguntas--perguntam. Aqui estou em frente
d'isto, com um segundo e todo o seu esplendr e todo o seu espanto e
todo o seu desespero, e pergunto, perguntas, perguntam, se o que se
chama a honra e o que se chama a consciencia e o que se chama o dever,
teem foras para se me impr. Oh palavras no! A pergunta no  como as
outras para ser iludida com subterfugios.  a unica que carece de
resposta imediata como um punhal que vae direito ao corao. V tu que,
apezar de tremulo, estou calmo... O problema  capital. Pergunto se toda
a lucta foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inutil?
Pergunto, perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma
estupida mistificao. E as boccas remoem em secco no escuro, e as mos
sofregas palpam os vestidos de ceremonia. Esto decididas a tudo.
Vem-lhes  supurao o antigo fl e vinagre, os pequenos desesperos, e
os grandes desesperos. Tudo est vivo. Cada sr formula uma
interrogao. Segue-se que se os paes teimam em viver, transtornam todos
os planos, todas as regras e todos os preconceitos estabelecidos.
Segue-se que acima de teu direito est o meu direito. Segue-se que a
construco antiga desabou, e a um mundo novo correspondem creaturas
novas. Segue-se que todos os problemas se reduzem a um s problema--o
dos mortos. Segue-se que o muro  uma insignificancia. Tapa o co e a
terra, no existe montanha de tanta espessura-- uma teia d'aranha. Sa
a hora da outra coisa disforme o aluir para sempre. Por traz do muro 
que est a paixo, o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.


 preciso deital-o abaixo. Os tumulos esto gastos d'um lado pelos
passos dos vivos e do outro pelo esforo dos mortos.




FEVEREIRO


     1 de fevereiro

Chega fevereiro. Primavera. D logo rebate o tojo bravio. A aspereza  a
primeira a sentil-a.


O tempo est funebre. Ouo o ruido calamitoso das aguas. S os botes
dos salgueiros estalaram. Nos galhos despidos entreabrem-se flocos
friorentos e pelludos.


Corre um vento glacial e as arvores encolheram-se transidas. Mas n'esta
frialdade sinto j ternura.


O ar de fevereiro  outro:  morno. As rs, de barriga no ldo, coaxam
de satisfao, pegajosas e molles como a herva verde e humida. E, d'um
dia para o outro, crescem  tona da poa azul, encastoada na terra
negra, fios d'herva a reluzir. Tinta entornada.


O ar sabe bem: sabe a bravio.


Ao longe o sol trespassa os montes. Manh de nevoa e oiro gelado. Uma
arvore nova cobre-se entontecida da primeira flr. Apressou-se,
enganou-se...  uma haste de pele luzidia, tres raminhos abertos no
azul. E isto envolto em ternura, tanto faz que se trate d'uma arvore
como d'uma rapariga.


Sente-se n'esta atmosphera humida a seiva inchar os botes tumidos das
arvores. Volta a chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitaes.


Muda o scenario. Acinzentam-se os montes por onde sobem arrasto pelas
pedras rlos de fumarada. Acastelam-se no co as grandes nuvens
esponjosas. Chove. A voz  outra. D'onde a onde descerra-se a cortina
vaporosa e emergem os montes brutos e compactos.


Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros botes. E quanto mais
bravos, mais flr deitam.  uma prodigalidade.


Noite. A escurido, o silencio, o esplendido co todo d'oiro sobre a
massa negra dos montes.  isto e os gritos da moichela aos ais
d'aflio. Eis torna o silencio, e a alma sufoca de espanto... O pio
triste dos sapos irrompe de profundidades ignotas. E outra vez o
silencio, a noite imutavel cheiinha de estrellas--e sempre o mesmo fio
d'agua, misturando ternura a este espectaculo d'assombro.  s isto, e a
muralha disforme ao fundo, ainda palida de luz.


A primavera  um phenomeno electrico.


Na primeira tentativa da flr h fealdade e ao mesmo tempo candura;
depois, da noite para o dia uma gta de tinta como uma gta de leite.
Basta que  nevoa se mistura o sol, para entreabrir, ainda informe.
Todos os sres, antes de se vestir, so abrtos: teem medo de nascer
bellos.


s vezes basta um dia. D'um instante para o outro, poeira azul,
entontecimento, sonho...


E isto no  s material. N'este mysterio h certa dr, certa tontura,
h at espanto.  um olhar que se abre para o mundo. Pela emoo a
arvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triumpha
sobre a dr inconsciente.


Entre a arvore, o co e a terra h um compromisso de ternura.


     5 de fevereiro

O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma
primeira primavera, mas as flres, que hoje so ternura eram ento
espanto--tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta
primitiva, no os ouo mas esto aqui contidos. E ainda hoje a terra se
perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.


Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se
concentra para a destruir.


A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D.
Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao rz de
cuja alma liquida se espalmam flres venenosas. No h sr que fique
indemne. At que chegou a vz  macieira anainha, que um bafo
humido-lilaz turba e perturba. H aqui um encolhido, que nunca sahiu do
saguo, que nunca olhou para o co nem sabe que o co existe: sente
tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no
inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe
crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados,
botou um simulacro de flr.


Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais
fundo, mais fundo ainda--esta primavera que revolve os vivos e os
mortos. Todos deitam flr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o
sonho que levaram para a cva, com todos os sonhos desfeitos em p.
H-os que nunca se atreveram a declaral-o. H-os que o sumiram com
receio de sonhar. H-os estonteados...


Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo
ah--de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?...
Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o p desaparecido.


Na frente uma aparencia--a vida est na multido que nos impele, a vida
est nos mortos. Massa atrz de massa, os mortos empurram os vivos.
Sente-se o esforo doloroso. Atraz d'estas mos, outras mos de
desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforam para a
luz. O peor era o silencio. O esquecimento  que  a morte definitiva, e
por isso o esforo augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para
a vida e para a dr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a
sua ancia  viverem depois que esto no sepulchro. A velha que sahiu da
existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham
tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os
dispostos a sofrer por uma nova iluso. A vida foi um nada, impregnou-os
para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto 
dr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas s nossas lagrimas! o
que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos
sepulchros--onde estremecem--se no desligue da vida que ainda se no
tornou visivel!  que no s os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos
mandam nos mortos. E avanam, empurram-nos... Conservam no fundo do
tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao
peito como um filho, com medo de o perder. A moa, mesmo na cva, d um
geitinho to lindo ao lenl! Este conserva na concha da mo uma moeda
de cobre, e quella, Maria Antonieta, Ren reconhece-a mais uma vez por
a tr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mos mirradas para se
aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos
vulgares--os mais bellos--o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que
corre e que nunca mais tornar a correr, o da voz que lhes falou na hora
extrema; guardam nas mos o ultimo contacto das mos, e a restea doirada
d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...

Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo
ainda. Mesmo morto o que eu no quero  morrer... Primeiro rebate, da
primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e
deslumbra...


Os mortos  que estam vivos! os mortos  que estam vivos!




A MULHER DA ESFREGA


     7 de fevereiro

Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte  mulher da esfrega.
Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a,
espalma-lhe os ps, esfarrapa-lhe os vestidos.

Est aqui a figura--est aqui outra coisa. Muda de expresso, como se
fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a
chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece
um minuto, mas esse minuto chega. Logo  submisso e  humildade se
mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo
debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio
pela vida fra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. 
um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer
estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os
caminhos, com ps espalmados como a recoveira. H sonhos humildes que
ninguem quer sonhar: servem  Joanna que quando os usa os vira do
avsso.

Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna no tem experiencia
nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma
filha, nunca fala na filha. s vezes pousa em mim os olhos turvos:

--O corpo pede-me terra.

Ainda hoje no comeu seno uma cdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda
sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos so sempre os
mesmos: secca-os no corpo. O monologo  sempre o mesmo com que enche a
vida toda.  sempre a mesma obstinao desconjunctada, como se as
palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a
persegue o que debalde repele. Seja o que fr, a Joanna esconde-o muito
fundo. s vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas
trpegas.  pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma
absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio  de
morte. Entranha-se-lhe at aos ossos, e a velha l segue com o saquitel
de bora e os olhos turvos de tanto ter chorado. V sempre no sei qu
que a no larga.

--A tua filha?...--E nunca fala da filha.

N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro,
sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escurido. A
Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos
outros. No se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.


A ternura  humida.


No comprehendo este sr. Viro-o, reviro-o.  um nada com duas ou tres
idas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os
doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna
de unhas rodas, pelles no pescoo e olhos turvos, uma figura disforme.
Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortia d'um lado e se faz
sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mos se lhe
deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega
se parece com o panno da esfrega. No sei explicar o resto. Com este
molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, h um fiosinho d'oiro a
reluzir, um fio que teima em aparecer  tona e em se misturar a agua de
lavar a loua. Annos, velhice, desgraa--e teima. Teima at ao caixo.
Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastido sofrega, o rodilho do
universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um
spro. Resiste a tudo, esse p necessario como o polen  aza para voar.
Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se
gasta e desgasta--no o usam.

Tenho passado noites em debate com este sr absurdo. Acabo pelo
desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha
sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que
lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada.
Sacudo-a--deita sempre a mesma agua. O mundo  uma voragem. Tanto faz. A
vida  uma mistificao. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me
com uma vida humilde de desgraa e lagrimas. E outra coisa exprime a
figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso,
uma fora immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para
chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar--para gritos.
Impelem-na--impele. Debalde a dr sua, a Joanna caminha molhada e
tropega, mas caminha.  inutil a desgraa agarrar-se-lhe. Mais funda
porque  muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce,
enrodilha-se-lhe. Sua. S geme:--Anh...--Resiste  desgraa, resiste 
vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraa.
Nem toda a agua de lavar a loua suprime este facto.

O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que no
comprehendo, de mos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de
ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo.
Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas
estrellas no co, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no
entanto n'esta confuso esplendida s a sua alma comunica com a minha
alma. A sua dr, a sua mentira  que importam  minha vida e  tua vida.
Negrume e um arranco: exaspero para manter de p um resto de iluso. Mal
se fecha abre os olhos atonitos. No diz palavra. Por fim chora, as
lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao p de
sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e
poidas--ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em
todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanas pobres, de
trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.


H um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma l-se como
atravez d'um vidro. Tudo n'ella ser falso excepto a dr. No sei,
ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e
dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabea pelas paredes. No ouo
o que diz, nem sei o que sofre--mas a desgraa sua n'aquelle monologo
sem ps nem cabea, a que no ligo sentido. Debalde o sonho se
encarnia. O sonho, que no cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes
daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar.
No quer vr--e h-de por fora vr. Persiste em manter de p o resto da
iluso em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a
frente  desgraa.  sonho contra sonho. O que ella no quer  vr, e s
ella sabe o que no quer vr. No pode com o pezo desconforme que a
torna grotesca, e de todo se assemelha agora  arvore do quintal: mais
sonho--mais flr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra
as mos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. H-de
acabar por lhe extorquir a dr...

Sua vida  um monologo, que eu no sei traduzir. Nossa vida  sempre um
monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de
dia, de noite, quando acende o lume ou quando pe em mim os olhos
turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro,
s dr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraa est
alli ao p, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraa conseguem
arrancar-lhe aquillo de vez para fra.--A minha filha...--Mas isso no
basta! no chega! Mais dr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e
no tira outro som dos gorgomilos: s emite um ronco. A desgraa e o
doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a loua. H-de acabar por
falar... At agora por mais que faa sae-me das mos ridicula.

--E vae eu disse-lhe...--E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o
sonho com desespero.--Anh...--E como n'aquelle caco espesso s h duas
ou tres idas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida,
no avana mais palavra. E a desgraa sua e tresua. Grotesco, grotesco,
e desespero n'este grotesco, e dr n'este manequim desconjunctado, com
um chale a esvoaar e a bocca espremida. Anda aqui um sr immenso que
lucta com um sr humilde e o amolga at  caricatura. No pode mais--e
ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe
fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada
sobre um ecran.--Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo
do chale, com olhos agudos e tal ar de aflio que parece tonta.--A
minha filha...--e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos.
Debalde se debate: tem de falar...

--A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas ( o
que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha
filha... no posso! no posso!...

E para no avanar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a no
soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores
embaraosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos
empurres e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem
termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligao sente-se cada
vez mais dr: o panno sujo da esfrega est embebido de lagrimas.

--Tenho uma tristeza metida em mim...

A narrativa desconjuncta-se: ganha em dr e em grotesco. Enche a bocca,
perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado  de fara
com residuos de lagrimas. A desgraa ri-se da desgraa. Augmenta as
cres de exagero, carrega o trao, e a tinta engrossa:

--A sala de vizitas! a sala de vizitas!...--Representa com ademanes e
mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procisso.
Avana um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha,
umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a
scena para as velhas se rirem--e tem os olhos arrasados de lagrimas.
Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um n no
gorgomilo. Teima, e desata a chorar.--E vae eu disse-lhe...--Reage e
comea logo a rir.  um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a
tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes
desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama--e os
chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as
mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra
dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e j nos longes
enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento--da
alta roda... E o sr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo,
com um sorriso  sobreposse. Postio sobre postio. Representa--e todas
estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria
ridiculas, mal do dois passos, esto mortas por desatar aos
gritos--todas estas damas inverosimeis, de rxo, de amarello e de verde,
pariu-as o grotesco com dr. A Joanna imita as contumelias, olha em
roda, e recebe-as p atraz p adeante. E j o absurdo augmenta, a dr
augmenta e trasborda, quando outras damas de fara, outros manequins
forjados pelo sonho, se agitam de c para l na sala de vizitas,
engrandecida e transformada na sua bocca n'um salo doirado.  o ponto
em que as velhas gosam, sentadas  roda da Joanna, em que a D.
Felicidade exclama:--Ai que eu no posso mais! ai que eu at fico
doente! Vem-me a sufeca.--Esto ali todas. Est a D. Herminia, e com a
D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D.
Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio,
todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos
arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago.
Est a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de co. E com isto
ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.

J a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado
porque  que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta
pormenores embaraosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa,
hesitante, como se fosse arrancada aos pedaos d'uma alma
espesinhada.--E vae eu disse-lhe...

--Hoje  que ella est que at parece o Taborda!

Na realidade a Joanna  insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas,
depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se
pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:--A esta hora l
est ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...--E os olhos
cerraram-se-lhe de extasi, de dr ou de espanto no sordido buraco.


Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, d uma grande volta no
negrume, alta, ossuda, molhada at aos ossos. Ninguem sabe onde a
conduzem os passos tropegos, a falar s, a remoer o sonho que a sustenta
e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um
sr mysterioso, uma questo insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que
gesticula e reza. Pra n'uma ruella, senta-se  porta d'um casebre.
Bate, no lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a
chamar...--De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o
mesmo caminho, encharcada at aos ossos... Esta casa no  como as
outras casas, esta sala no  como as outras salas, nem esta rua como as
outras ruas.


     8 de fevereiro

O sonho  um--a realidade  outra: a realidade  uma figura s dr.
Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mos seccas
de desespero tentaram em vo arrancal-a  desgraa. A filha desceu mais
fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo.
Andou nas mos dos ladres e tem tal ar de aflio, que parece tonta. A
desgraa pega-lhe pela mo e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de
encontro ao peito descarnado... No faz ida nitida da vida e da morte,
nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraa. Suporta
os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho--das
noites de dr e do riso dos ladres.--A usura da vida e a dr represa,
engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha.
Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dr, uma
carcassa e farrapos, e nos olhos no sei que expresso que a faz mais
baixinha:--Aqui estou para te servir.--Passou por tudo, e um resto
d'iluso bastou-lhe para poder viver. Ss a ss a figura tem uma
expresso descarnada e reflectida.


Nessa noite,  meia noite, nasce o menino entre ladres. Vem morto ao
mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mos da esfrega e deita-o no
chale. Quatro cabeas se curvam  luz do candieiro de petroleo para
verem o menino--tres cabeas de ladres e a cabea da velha.

--O menino est vivo!--afirma a Joanna.

-- preciso enterral-o de caminho--diz o ladro mais velho, encolhendo
os hombros. E juntam-se  porta falando baixo, enquanto a velha lhe
aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a me geme.

--Vamos.

Os gritos cessaram de todo.

--Venha d'ahi.

E, tomando o brao de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no
chale, levam-na para a rua. Vo adiante o ladro e a velha. Caminham at
um terreno de construco, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno
d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a
cva com o alvio. Nenhum diz palavra. S a Joanna aperta mais o menino
de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o
dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra
encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cva, e ella ainda protesta:

--O menino est vivo.

Nenhum dos ladres se ri. O que ella quer  outra vez crear. Est
disposta a recomear a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o  bocca
para o dar aos outros. E insiste:

--O menino est vivo.

--Vamos embora.

Sacodem as mos: s a Joanna conserva nas mos a terra da cva.
Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo
monstruoso. A seu lado caminha o ladro mais velho. Os outros
adiantam-se.

--O estafermo da velha rica est s. Tu podes abrir-nos a porta...

--Roubar!...

--Ouve o que te digo... Tu no sentes o frio e ests molhada at aos
ossos, tu de tanta fome j no sentes a fome.

--Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.

--Nem ds pela desgraa. Tu no vs a tua filha n'uma viella e nas mos
dos ladres?

--As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladro!...

--A desgraa tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a
lama das ruas  mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...

E a Joanna mastiga:

--N'aquella terra to fria, chegado  terra...

--Para no sofrer. Deixa l os mortos. Os mortos podem mais que os
vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...

--Jesus!

--Matava-o eu para no ser ladro. Deixa l o menino que est na terra.
Excusa de ser ladro... O estafermo da velha rica est s. Tu podes
fazer-nos a entrega...

--Senhor ladro, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra
est fria!...

--Que me importa a terra! O que me importa  o dinheiro do estafermo.
Ouve! ouve! ouve! Ella  rica, tu s pobre...

--O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para
ajudarem os pobres...

--A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se no nos abres a
porta elle estorcega-a. A tua filha  menos que nada nas mos d'elle...

--A minha filha... Vocemec, senhor ladro, tambem teve uma filha, que
eu sei...

--Cala-te! Esta noite  por fora noite de desgraa. Tive uma filha e
no lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica,
morreu-me  fome e no lhe pude valer! Fiz-me depois ladro. Deixemos os
mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco
para o pr no prego.  porta d'um estava um cavallo  carroa, com a
cabea metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo!
Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladro.

--A sua filha morreu-me nos braos...

--Tu no te calars! Esta noite j me no serve.  noite de desgraa.
Vae-te p'r'o diabo!

Repele-a, e ao por-lhe a mo no hombro, repara que s traz a camisa
extreme sobre o corpo:

--O chale? que  do chale?

--O chale dei-o ao menino.

--Fizestel-a bonita!

Tal  a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraa e pela mentira. A
Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postia, mente. Tem duas
existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e
submissa:  noite vive com os ladres e as mulheres das viellas. E
mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pde. Mentiu a si e aos outros.
Fez da dr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraa, mais
exagero e mais grotesca a sala de vizitas--maior a sala de vizitas--mais
doirada a sala de vizitas. A Joanna no se atreve a sonhar a felicidade:
contenta-se em sonhar a desgraa, e no lhe tira os olhos de cima, para
no vr outra desgraa maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitao
profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra.  como se pela
primeira vz dsse com a vida. Deita as mos, no encontra a que se
apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que no
percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras
descosidas e sem significao. De quando em quando pra, com os olhos
fixos, e diz uma phrase fra de propsito, a scismar com obstinao
n'outra coisa:

--Casa de mulheres, casa de ladras.

Ou monologa parada a um canto:

--O Senhor l sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam
estas coisas... Estas coisas...--E abre os olhos espantados.--Tudo est
escripto no livro do futuro... Sempre elle h gente muito boa n'este
mundo!  o que vale  pobreza.--Depois um salto dentro d'ella:--Onze,
no, doze vintens  que so. Quatro vintens, do bahu que levei  cabea,
seis vintens da esfrega...--E conta pelos dedos:--Seis, sete, nove
vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:--A desgraa no
nasceu comigo nem h-de morrer comigo.--Ou explue n'um grito de quem no
pode mais:--No posso com este peso, com esta desgraa, com esta
desgraa sobre esta desgraa, e com isto!... A dr que a gente cria aos
seus peitos! E ainda por cima isto!

Depois cala-se.  peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo
prostrado, que no sabe porque sofre e mantem os olhos abertos--ridicula
deante da desgraa e deante do assombro. Cala-se e outro sr immenso
comea a falar dentro d'ella.  um debate ao mesmo tempo futil e cheio
de grandeza, que no posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e
grande pelo sentimento que o reveste.  uma coisa triste, uma coisa
dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A
Joanna fala com o Sonho tu c tu l e atira-se ao Sonho. E quando emfim
o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispe-se a arrancar-lhe
farrapos. Misturem a isto a dr, misturem a isto ridiculo, porque a
Joanna revolve tudo, phrases, sentenas, palavras que lhe acodem e que
no formam sentido--veem de muito longe...--lagrimas, sonho, e ranho.
Assoa-se ao avental.

--Eu no sei dizer! eu no sei dizer!...

E sem falar  sombra que a no larga, a velha gesticula para o escuro: a
desgraa tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro.
Avana com as mos abertas. A noite  immensa. Cabem na noite os mundos
infinitos, mas s me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e no
pode. Peor: o sonho humilde j lhe no  possivel. Parece perdida, to
inutil no mundo! A ternura no lhe serviu de nada. E h outra coisa em
que  preciso insistir: no sabe porque sofre, no lhe cabem l dentro a
desgraa e a explicao da desgraa. Outra vez recorre  perlenga com
que amortece a dr:--A sala... a outra sala...--Mas na sala disforme
vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas,
que a Joanna no consegue tapar. Est s e a noite, s e o sonho. Fica
dr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chamin quando se
incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume  cada vez mais
compacto e o esforo da velha cada vez maior. Quanto mais negra  a
sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em
delirio: quem as recebe de p a fazer cortezias de espalhafato  a
propria desgraa vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expresso,
o doirado dos moveis apega-se  noite espessa. Estes cacos so
expresses de dr e  a desgraa quem os arruma.


A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este
sr que s tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com
um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a
noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite 
inutil.




PAPEIS DO GABIRU


     10 de fevereiro

Ella foi uma flr que se aspira e se deita fra--quasi sem
reparar--scismando na imortalidade da alma.


Se eu pudesse cinematographar a vida e a morte d'uma flr,
cinematographava a sua vida.


No sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa,
 o que ella disse  grande nodoa de humidade da parede.

Sei que chorou mas no a ouvi chorar. Ninguem a ouviu, ninguem deu por
ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as,
meteu-as para dentro. A dr aprendeu a contel-a. Habituou-se a
queixar-se  grande nodoa de humidade da parede.


Entre mim e ella interpoz-se o sonho.


A ternura tambem cansa. Deixem-me! deixem-me sonhar!

O principal para mim foi a queixa que ninguem ouviu no mundo; foi o que
os seus olhos verdes d'espanto decifraram n'aquelle arabesco da parede.
Podes por ventura conceber isto? Uma dr que no deixa vestigio, um
sonho ignorado que no deixa vestigio, que passa no mundo e no deixa
vestigios--a dr despercebida, as lagrimas contidas que se no chegam a
chorar?


No valia nada o que vale um passaro, e em questes afectivas, em
ternura, tinha a profundidade do mundo--a do silencio--a do sonho.


Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!


Deito-me debalde aos encontres  noite. Nem um grito. Os remorsos so
inuteis. Um passo na vida  sempre irremediavel: no h foras humanas
que o possam apagar.


     11 de fevereiro

A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. No sei
qual  melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais
perto! mais perto! O frio da morte d  vida um encanto superior e um
prestigio maior.


Deixem-me! deixem-me! Deixem-me s com isto, deixem-me viver para isto.
Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo,
que no existe e  a razo da minha vida. Deixem-me ir para a cva
agarrado a este nada immenso, que me doirou as mos e me deixou atonito.
S no fundo da cva  que estou bem, ss a ss, fechado com elle para
sempre.


Se o sentimento de belleza  a unica coisa humana que no nos engana--se
s a isto ficamos reduzidos--como no prever outra belleza maior?


De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em
vulgaridade e de contradio em contradio, assim vim at ao fim. No
consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.


Atraz d'este assombro h outro assombro--e depois outro assombro ainda.


Qual  a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual  a lei que extraes da
vida? Nenhuma. S o espanto. S uma coisa cada vez maior, sempre
assumindo maiores propores, que sinto desabar no silencio, mais
doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos
valor, e a coisas a que no damos valor. E entretanto ao nosso lado
passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fra desabam os
seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de
calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito,
levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e
Deus.


Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos.
Se a vida fosse s isso no valia a pena vivel-a. A vida  muito maior
pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que
conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, no h nada mais
estupido--se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas.  por isso que eu
teimo que a Morte no tem s cinco lettras, mas o mais bello, o mais
tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.


O problema capital da vida  o problema da morte. Elle resolve tudo. No
h factos isolados; no h acontecimento no universo que no gere outro
acontecimento. O inconsciente no pode criar o consciente.  impossivel
dar um passo a que no succeda outro passo. A vida gera a morte--a morte
gera a vida. Mas que vida?


Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, 
espanto, mas defronto-me com o enigma, encarnio-me e saio d'aqui
esfarrapado, despedaado--mas teimo e hei-de vencer-te. No quero morrer
de vez. No quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade
do universo. Eu sou o nada, tu s o infinito--hei-de por fora
vencer-te!


E no entanto sinto-me tocado de hesitao e de duvida. Do que tenho
saudades  d'esta vida. Ao que eu aspiro  a esta vida. O gesto que o
moribundo faz ao arrepanhar o lenol  um gesto de naufrago.


D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate,
lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito
a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successo
ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso  atroz, a
no ser que outra coisa nos espere.


Se no nos detivessemos com palavras, se avanassemos todos ao mesmo
tempo, esquecendo o que  inutil, para esta coisa que nos devora,
subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse.
Mas nenhum de ns se atreve e passamos a vida a fingir que no existe. E
s ella existe.




OUTRA VILLA


     12 de fevereiro

O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a
vida dura seculos ninguem espera um minuto.


Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e
mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Est aqui o
fel--e o fel est vivo. Est aqui a mentira--e a mentira est viva. Est
aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postio, o Anacleto e
as conveniencias. Esto todos. No falta ninguem  chamada. Est aqui
tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em p. Custa-me a
admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades
ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheo-o. Passei a vida a
arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prgar-me:--No metas ahi
o nariz.--E a minha vontade era meter alli o nariz.--Passei a vida a
cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te
e agora tenho por fora de viver comtigo. E tu?--e tu?--e
tu?...--Gastei-me, gastei-a...--exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o
meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda
a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. No
transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por
ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a
a um sr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia,
gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feies e de no nos
reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio
gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos
sagues.--Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada,
livrei-te da fome,  preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu
cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu
direi eu, n'uma eterna contradio, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o 
bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever.
Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente,
com a barriga  bocca,  espera que eu cumpra o meu dever at final.
Qual  o meu dever? Reconheo que a odeio--odiei-a sempre. Mas qual  o
meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem,
amargava o bem; e tu no me largavas se tentava o mal. A minha vida tem
sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o
meu dever amargo, o meu dever estupido.--E os olhos no se lhe despegam
do phantasma coado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:--Cumpri sempre
o meu dever! Se no cumprisse o meu dever ia parar a uma
viella.--Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza
ainda, diante da voz que lhe diz no sei o qu de temeroso...--E
tu?--pergunto--tiveste inveja?--Tive e recalquei-a. Arranquei tudo,
destrui tudo, por ti que no existias.--Mas isto  infame, isto no sou
eu!--s, s, mais do que nunca o foste.--Eu mesmo reconheo que sou
outra casta de intrujo. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e
julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujo. O que me
falta  desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer,
admiro os meus escrupulos e dou importancia s minhas teias de aranha. A
minha vida  uma serie de transigencias secretas--e por cima
medo...--Fala mais alto! fala mais alto!--A minha vida to bem
construida  uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um
pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo
tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e s vezes
surprehendo-me a pensar:--Sou um doido? sou um doido?-- que me vem no
sei d'onde, no sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho
medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?--Cada velha
se pe a recuar deante de si mesma; cada sr procura afastar-se; cada um
a si proprio se repele. Mas todos so enrodilhados no p de vento, que
os leva sufocados e atonitos, balouados entre a vida e a morte, entre o
assombro e o inferno. E  grotesco este encarar com o sonho, p atraz p
adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que
quer ser mentira at  ultima extremidade.--Tu no deste um passo na
vida sem obedeceres s conveniencias e sem consultar o teu codigo de
meticulosidade. Tens um _Deve_ e _Haver_ do tamanho d'um predio. A praa
considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as
conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o
mesmo grito recalcado ao fundo do corao. E esse drama correcto,
torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, h-de acabar
por atingir a correco suprema.--No tenhas medo, avana um passo,
outro passo ainda...--Que  isto? que  isto que se me pega, diz a
Telles, diz a Reles--e que me no deixa pensar na mania?--E nos olhos de
idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir  superficie.--Ah,
a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um
dia, e s pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e s
mania!--Dois castiaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com
minucia. Um nada--ou Deus--bastou para me encher a vida. Acordei com
elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a
razo do meu sr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia
morrer com esta mania, levava-a para a cva, sem ter pensado no resto, e
agora encontro-me ss a ss comtigo, desprevenida e ssinha. Foste para
mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor
cantinho do meu sr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o
desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria
a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente at de si duvida, quanto
mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da
minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu no me
deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte--e eras um trapo, uma
cora de lata, dois castiaes de prata! Agora mesmo procuro
agarrar-me--mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... H s uma
coisa que eu queria ainda dizer, e no a sei dizer diante de isto que
tenho ao p de mim, dentro de mim e me no larga...--Ai! ai! ai!--Tambem
tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruada sobre a
meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te no sei que dr
na escurido cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal,
furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta
inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia
eterna, a que mos caridosas j no desfazem as malhas, e que tem tres
metros de comprido...--A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal
maneira se olharam nos olhos, que no foi possivel tornar a juntal-as.
S a mesma voz persiste dentro de ns mesmos, no silencio e na mudez da
noite infinita, tal qual a D. Leocadia:--Mas eu no posso! eu no posso!
Tu obrigas-me a fazer o que no devo! Tenho aqui fel e hei-de, para
cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os
dias, moer-me todos os dias, prgar-me todos os dias:--A gente s vem a
este mundo para cumprir o seu dever!...--O que h de peor no mundo 
arrancar os desgraados  desgraa! O que h de peor no mundo  no
haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!


     15 de fevereiro.

At agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as
palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde  custa de palavras
cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamo, Elias de Mello ou Melias
de Mello. S  custa d'isto pude aturar a vida e o horrr da vida. S
por no a vr, pude encaral-a. S emquanto fui feito de pequenas
miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta
se tudo  vazio de significao?

Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo,
a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sr.  certo
que metade d'isto--metade pelo menos-- representado. Se te confessasses
dirias:--Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento
sempre at quando sou sincero; at quando digo o que sinto,  outro, e
noutro tom de voz, que diz o que sinto... C estou a vel-o
representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus
sentimentos, so postios. Todos estamos ligados por compromissos,
aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre ns e dentro
de ns um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes  mentira,
mas sei tambem que tenho obrigao de ajudar a mantel-a. Respeitamos um
compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver s
lidamos com uma parte convencional da vida. A outra no existe: se
existisse seriamos bichos. Esta vida  uma mentira--a outra vida 
monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que
ahi est por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e
na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois
atravez de terrores e de indescriptiveis esforos. Custou aos vivos e
aos mortos a dr das dres, poderem discernir dois ou tres factos
essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou
seculos. Esforo inconsciente de larva, com um destino a cumprir e
legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e
seculos--mas tiramol-o do nada. No principio s fomos almas, creamos
depois a casca. Tambem as arvores s a poder de tempo se revestiram d'um
envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo--e a mentira. Tudo--e o
habito. Tudo--e a paciencia. O sonho no  seno uma reminiscencia.
Todas as inutilidades no passam de adaptaes  vida. Essas pequenas
coisas so ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia
 uma tragedia. D'estes sres saem outros sres grotescos e
terriveis--terriveis e grotescos. No silencio a mania toma propores
chimericas, e no sei como hei-de juntar estas duas coisas--mania e
desespero.


Dentro de cada sr resurgem os mortos. Crescem dentes s velhas,
afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expresso.
Quasi toda a gente emagreceu. Aguam-se ferros no escuro. Procuram-se.
Qual  o teu verdadeiro ser? Eu mesmo no sei. D-me um trabalho
encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que no consigo dar
unidade. Uma ninharia--um impulso--um habito.  isto que constitue o meu
ser, ou  esta serie de imagens, j desaparecidas, que formam a minha e
a tua vida? No, o meu verdadeiro sr sacode a poeira na colera, na
paixo, no amor ou no odio,--porque aos sentimentos tambem  preciso
desenterral-os--e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitaes e as
duvidas, porque j no sou eu quem mando, a minha razo ou a minha
vontade: so os mortos. E  quando me sinto viver.


E a insignificancia? At a insignificancia. A insignificancia com
orgulho, a insignificancia com desespero.


     21 de fevereiro

Aqui est a villa toda--mas as figuras mudaram. So disformes. O proprio
Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas  rua.
Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrr. O
silencio redobra, a dr redobra. E com isto uma alegria a que falta o
resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos.
Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o
mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva
esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que no nos d
tregoas e que atinge o desespero:--No grites, D. Leocadia, no grites.
Reconheo que s feita d'uma pea s. Foste sempre inteiria.--Tirei-o 
bocca para a manter...--Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste
sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida,
e o dever, que fizeste amargar aos outros, comeou por te amargar a ti.
E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos
ignorados...--Mas ento no h dever nenhum e eu no sou a D. Leocadia,
29-3.^o-D.?--Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...--Que
exiges tu de mim ento, que no comprehendo? Que exiges tu de mim contra
a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?--No
grites...--Que exiges tu de mim de absurdo com que no posso arcar? Um
esforo sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faa o bem que posso, uma
parte do bem? Ou  o mal que tu exiges de mim e o bem  um pecado?
Melhor ser deixar a cada um a sua parte de desgraa e de colera?... Eu
posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges
tu de mim com que, ainda que queira, no posso! Que exiges tu de
mim?!--Mas, D. Leocadia, eu no exijo nada de ti, cada um se aguenta
conforme pode n'este balano...

--Mas ento no h dever nenhum? no h bem nenhum? Que fiz eu d'este
sr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?--Oh D.
Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever,
um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio,
uma construco de trapos e de palavras que chegou ao co e substituiu o
co--como tu tapas os olhos com desespero para no vr! Hs-de aguentar
com este pezo, que no podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez
saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a
sua bondade, e os pobres s fl e vinagre, mas temos de ver o que no
nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, at a cobra
adoece. Tanto importa que resolvas como que no resolvas o
problema--todos temos de dar o passo. A villa  a mesma villa, as pedras
as mesmas pedras. Ns mesmos no mudamos. A nova vida obriga-nos apenas
a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, at este
desespero; tudo estava vivo, at este grotesco. Ns  que estavamos
mortos.


Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se
entranhou na vida que custa a separal-as. Mas j l vo as formulas, os
alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho
remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a
escurido, s a Via Lactea mudou de cr e alastra de lez a lez na
aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.




DEUS


     25 de fevereiro

Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um sacco. Todos
os dias arranquei de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei tudo
para ficar s comtigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus,
nu e a vida eterna. Tinha o horrr da lepra, vivi com os leprosos.
Calquei todas as afeies inuteis, e se uma andorinha me fizesse ninho
na banca, como ao frade d'Assis, torcia-lhe o pescoo. Encheste-me a
vida toda.


E agora a morte no existe, Deus no existe, a vida eterna no existe.
Uma luzinha e depois a escurido!


Tenho diante de mim esta fora cega, este absurdo a escorrer ternura e
lepra, como uma primavra escorre morte, a irromper contra tudo e apezar
de tudo, d'uma profundidade cada vez mais sofrega e cada vez maior. No
quero vr e hei-de por fora vr!


Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu sr, no existe!
Tinha conseguido s te vr a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vacuo.
E este Deus por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida,
no existe! Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio em
espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu no existias! Vivi fra de mim
mesmo e de repente tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi
inutil! tudo o que fiz foi inutil! Foi grotesco e inutil!


Sacrifiquei tudo a qu? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vacuo.
Ofereci-lhe em espectaculo a minha dr. Mas ento que existe? Qual a
directriz da minha vida? Qual a iluso com que hei-de encher isto? E
para que hei-de viver? Qual o sonho immenso capaz de substituir este
sonho? Que  Deus agora? Deus  tudo e nada.  uma fora. Deus  uma lei
inexhoravel. Mas ento tu que podes tudo--tu no podes nada. s uma
lei--e hs-de cumprir essa lei. s um destino e no podes dar um passo
fra d'esse destino. No vs, no ouves, no sentes. Eu sou uma
insignificancia, e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu
atrevo-me. Amanh quebro o meu destino. Tenho uma consciencia. Sou
ilogico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, no passas d'uma fora cega e
estupida. No me serves de nada.


Preciso d'um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e
que me veja sofrer. Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne.
Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso d'uma inteligencia superior 
minha e em comunicao com a minha.


Um Deus-fora, um Deus que no se comove com os meus gritos nem com as
minhas suplicas, no me interessa. Um Deus que caminha para um fim que
no atinjo,  um Deus absurdo. De que me serve este Deus? No ouve os
gritos--destre; no sente a dr--destre. Destre e caminha. 
inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo deante d'este espectaculo,
para nos mergulhar no nada. A nossa aspirao no cabe aqui: entrevmos,
sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no inicio de sonho maior,
destre-nos. Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de
sofrimento inocente ou culpado. Rev-se na dr. Deus  cego.


Debalde grito--no h quem me oua. Debalde sofro--ninguem o detem.
Tanto faz viver como morrer. Deus, tu s monstruoso! Destres--caminhas.
Destres e no sentes. Vens do infinito, e atraz de ti fica um infinito
de dres, uma massa de gritos e de sres espesinhados. Segues e
destres. Constres no sei o qu de portentoso com que no posso arcar.
D'essa pata monstruosa escorre sempre ternura. No  indiferente que
calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais gritos, mais ternura
nas arvores, mais estrellas nos cus. Parece que a dr  inseparavel da
ternura, como a morte  inseparavel da vida.--At aqui eu tinha uma
taboa a que deitar a mo. At agora tinha um nome--agora no sei como me
chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado n'este
cahos infinito, n'este repelo desabalado, que me leva sem sentido e sem
fim. Eu e a noite--eu e o doido! At agora supunha-me tudo, eu e Deus,
eu e a mo enorme que me conduzia e amparava.--Sofras ou no sofras,
vaes para a mesma cva, para o mesmo nada, para o mesmo silencio. Antes
o inferno! antes o inferno! Tu que foste desgraado, ou tu que foste
feliz, tu que te descarnaste at  medula e tu que passaste indiferente
pela desgraa--vaes para a mesma cva profunda, inutil, absurda e muda.
Antes o inferno, antes a dr pelos seculos dos seculos a vir, do que a
mudez e o horrivel silencio atroz!--Tudo foi indiferente tudo 
indiferente ao monstro que passa e esmaga, que no ouve e esmaga, que
no v e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas;
indiferentes a tua renuncia, a tua dr, as tuas lagrimas. Foi
indiferente que fosses bom ou mau, que tentasses subir ao topo do
calvario. No existe na realidade nem vida nem morte--no h na
realidade seno chimera e dr--no h na realidade seno este monstro
que passa e esmaga, que caminha e esmaga.


Deus  cego! Deus  cego!


Emquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu unico pensamento e
s tu me importavas no mundo. Agora no posso, agora no dou comtigo.
Agora no te encontro. Agora sou mais pequeno, e maior. Agora meto-me
mdo. Que voz pode echoar e sobresaltar esta solido infinita, este
mundo infinito, onde os gritos se no ouvem a cem passos, e tudo que
chamamos amargura, dr, grandeza, se apaga logo e se reduz a zero? O meu
dever j no  o mesmo dever, a minha consciencia j no  a mesma
consciencia. S os meus instinctos se conservam de p.


Acuso-te de teres comprometido a minha situao no universo. Acuso-te de
no me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de
impedires o instincto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a
consciencia. Acuso-te de me deixares ssinho com este peso em cima, com
a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um
calvario como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em
frente de ideias com que no posso arcar. Acuso-te de no poder mais, e
de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o
assombro que no existe; a morte que no existe; a consciencia que no
existe. Subverteste o mundo. Foraste-me a criar outro mundo, a olhar
para cima e a clamar no vacuo. Acuso-te de no me deixares atascar 
minha vontade em ldo, de no me deixares mentir, matar, chafurdar.
Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o
fundo. Acuso-te de no me deixares ser bicho.


Estou prompto para tudo. Desde que no h Deus tudo so palavras. Desde
que no h outra vida, s h esta vida. S h este minuto, esta hora
presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive annos a rezar a uma comoda, a
falar a uma comoda, a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco! fui
grotesco e tu no vias! fui grotesco e tu no ouvias! fui grotesco e tu
no existias!


Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me grotesco! sentir que perdi
a vida e sou grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado, impotente
e grotesco!


Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atraz de mim uma
architectura desconforme e destroos que enchem o mundo--por uma palavra
e mais nada. Tu no existias!


Mas ento--pergunta esta voz colerica--todo o esforo  inutil? todo o
sacrificio  inutil? Creaste estas ideias falsas de dr, de renuncia--e
no existes! Um santo viveu sobre uma columna: Desde que se punha o sol
at que amanhecia o dia seguinte, estava de p na columna com as mos
levantadas ao co. Oitenta annos de grotesco. Outro amaldioou-te: Ai
de ti cidade sensual onde os demonios fizeram sua habitao!--Grotesco!
grotesco! grotesco! Tu no existias! Que se levantem todos do sepulchro,
uns atraz dos outros, que se erga o p e te grite:--Tu no existias!
Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de
rastros, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento
e ao sarcasmo. Renunciaram  vida, deram-te o espectaculo da sua dr, a
ti que no existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ancia,
das profundas da dr ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces
como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os os vivos e os mortos. E
por mais esforos que empregue--tu na realidade no existes. H outra
coisa peor que est viva, outra coisa monstruosa que avana dentro de
ns e direita a ns e que ninguem pode deter. Tu no existes e eu tenho
de caminhar por fora, no sei para que estupido destino. Tu no existes
e obrigas-me a avanar para um fim grotesco--desmedido e grotesco--que
no comprehendo nem abranjo. Tu no existes--e estou nas tuas mos. Tu
no existes e n'este mundo absurdo, onde no encontro quem me condemne e
quem me salve, h ainda quem me empurre, quem me arraste e me faa
sofrer, uma fora cega que trago comigo, que me rodeia e me no
larga!--Tens de existir por fora. Tens de existir pelo que sofremos e
pelo que creamos. s a unica luz n'esta escurido cerrada, a unica razo
como verdade ou como mentira. Existe aquillo que eu quero que exista, 
verdade aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo que eu e os meus
mortos transformamos em verdade. A f  maior que todas as foras
desabaladas, mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade de
todos os esforos e fao pela mentira, o esforo que fazia pela verdade.
Tenho de te manter  custa de desespero.


Se no existes  foroso que exista um dictador moral, que extirpe sem
piedade o pecado da terra. Que no oua os gritos e condemne, que
realise o pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas
estradas, e cujo poder ignorado e oculto submeta a humanidade a uma lei
de ferro, e a salve pela mentira, j que a no pde salvar pela verdade.
Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo taboado, e empregue o mesmo
esforo, por um sentimento de desespero contra ti que me iludiste. Por
mim proprio, para fugir de mim e de ti que no existes! Resisto, teimo.
S vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo.
Rasgo-me com gritos.  desgraado, aquillo em que tu crs  mais negro
que o negrume!


A mesma fora cega nos impele. Queira ou no queira sou levado para um
fim que no comprehendo... Cahi nas suas mos! Outra coisa me envolve a
que no sei o nome, outra coisa que espera de mim uma aco que ignoro,
outra coisa a quem eu me quero manifestar e que talvez se queira
manifestar, sem nos chegarmos a entender. Rodeia-me. Sinto-a. H
occasies em que me toca. Ouo-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me.
H momentos em que me iludo, para fingir que estou ssinho. H momentos
em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos--tenho medo que
me fale! S ella vive no mundo, s ella anda  ta no mundo! Debalde
aplo para mil manhas, debalde tento mil explicaes. Estou nas suas
mos! estou nas suas mos! Outra coisa inexplicavel e immensa, temerosa
e immensa, anda por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo maior,
outra coisa que sua e me escalda at  medula. Procuro esquecer-me--ella
aqui est ao p de mim. Na vida e na morte estou nas suas mos
monstruosas. Sou a consciencia--tu s o impulso. Sou a razo--e no sou
nada. Lucto at  morte, finjo at  morte, vou at ao fim dilacerado,
escarnecido e iludido.


Estou nas tuas mos! estou nas tuas mos!




O DEVER


     1 de maro

D. Leocadia o dever  um contrato. Um contrato com um ente superior ou
um contrato com os outros. H deveres para com Deus e deveres para com
os homens. O contrato com Deus falhou, porque Deus no existe; o
contrato com os homens no o cumpro, porque, se me sujeito a
respeitar-lhe as clausulas ssinho, expoliam-me. Restam os deveres para
comtigo, os deveres perante a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia,
eis o fundamento da questo!... Tu tens passado a vida com uma
personagem importante, que te julga, te aplaude ou te condemna, e para
ella, e s para ella, deste as tuas melhores representaes. Para a
enganares, enganaste-te, mentiste para lhe mentires. E reduzida a trapo,
s desespero e orgulho, atiraste-te aos ps d'essa avantesma que no
existe, D. Leocadia--que afinal no existe! Como se consegue edificar
uma vida sobre um broche com um sujeito de suissas e uma redoma de vidro
com a imagem d'um santo, e intercalar-lhe um drama baseado na ideia do
devr, at ao ponto de se apoderar de ti at ao amago,  que eu no
comprehendo e admiro,  sordida antrpopiteca com uma cuia de retroz! O
devr era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devr era coado e hirto e
tu cumpriste-o. Foi a razo da tua vida. Azedou-te e sustentou-te.
Quando te vencias, vencias-te com orgulho. Deu realidade  tua
existencia ephemera. Fste ao mesmo tempo actor, tablado e publico. Sem
esse dialogo entre ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e
outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado e pertinaz, articulado
ou mudo, que te fez de fl e vinagre, a tua vida no tinha tido
directriz. Nas noites solitarias, em que no conseguias aquecer os ps
com dois pares de coturnos, aqueceu-te. Deante do frio da pobreza
teimaste:--Cumpri sempre o meu devr.--Deante da sordida velhice,
avanaste com autoridade:--Cumpri o meu devr.--E at deante da imagem
pavorosa da morte, exclamaste sem receio:--Cumpri sempre o meu devr!--E
s tu sabes o que  cumprir o devr dos devres, o que  tiral-o  bocca
para o meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes d'um terceiro
andar (29-3.^o-D), desde o principio da vida at ao isolamento da cva.
Cumprir o devr minucioso e exigir o devr minucioso. Com elle
dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te e gastaste-a, esqueceste a vida
e a ti propria te esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha os
dentes se queres ao teu proprio phantasma... Com uma palavra e mais
nada. Subordinaste a tua vida ao devr, e o devr no existe:  um mundo
d'orgulho e de escrupulos. Custa a entrar na cachimonia que a cdea que
tiraste  bocca para a mantres, o vestido que cortaste ao teu proprio
vestido para a vestires, as noites de discusso interminavel, tu e o
devr--tudo fsse irrisorio e inutil. Mas foi. O devr no existe, o
mundo construido com alicerces por _omnia seculo_ seculorum_ no existe
D. Leocadia. Perdeste a vida e transtornaste a vida atraz d'uma sombra.
Restam-te mil annos e um dia, para cumprires, se queres, o teu devr
inutil, o teu devr atroz, para obedeceres a um phantasma absurdo, a
quem ds o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem, atende bem...
Chegou o momento em que vaes aparecer deante do universo com as tuas
ideias fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre, e, se te obstinas,
mesmo no fundo da cva e com a bocca cheia de p, hs-de gritar de
desespero, quando te compenetrares de que o devr postio, o estupido
devr, fede que tresanda. Queiras ou no queiras chegou a ocasio de me
rir de mim e de ti com dr e lagrimas, e de te expr tal qual s, nua e
reles, nua e grotesca... Despe-te D. Leocadia!

Mas a figura verde no cede: traa o chale como quem se fecha com os
sete slos do Apocalipse e exclama do alto do seu pedestal:--Eu sou de
muito ba familia!


(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura secca e coada,
desagradavel e scca, que eu conheo desde que me conheo, sempre a
prgar contrariada o seu devr, sem um dia de descano e na eterna
duvida:--Cumpriria eu afinal o meu devr?--Vai para a cva farta de
cumprir o seu devr e ignorando se na realidade cumpriu o seu dever nem
para que serve cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devr que
cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo como quem cumpre um destino. At
te digo mais: o que lhe custa a abandonar na hora extrema no  a tua,
mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento. Faz-lhe falta. Mais
falta do que Deus, essa avantesma de cuia de retroz com quem passou os
melhores dias d'uma existencia incerta.  talvez o seu verdadeiro
Christo, que continua, mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra
as clausulas d'um contrato j rto. Tem de cumprir o seu devr no
acreditando no seu devr. A D. Leocadia  uma figura secca e coada,
enorme e secca, vrde e grotesca, que desvia o olhar da vida, para
cumprir, seja como fr, o devr estupido, o devr atroz. Tenho vontade
de chorar)...


Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa, com o cabelo cortado como um
recruta. Deitou-lhe a mo e fechou-se com ella por dentro. As paredes
tomadas de frio salitroso, transiram de frio sepulchral. Quando se
atreveu a rir, cortou-lhe logo o riso cerce--para no se tornar a rir,
ao primeiro assmo de vontade, cortou-lhe logo a vontade rente--para no
tornar a ter vontade; e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite 
sua cabeceira, hirta e solemne como o devr. Um pobre no tem vontade,
um pobre no tem orgulho. Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o
seu devr. Veio ao mundo para sr obediente. Pobres educam-se como
pobres e ricos educam-se como ricos.

S tu D. Leocadia te deste ao goso superior de tres uma alma  tua
descripo. E isto sem gritos, com um ou outro soluo logo represado,
noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto, uma luz que se extingue
at  impassibilidade, n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou
tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou em vir  superficie, at
que a D. Leocadia a conseguiu esmagar sob o calcanhar de ferro--para
sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou a cabea submissa, e a
outra ergueu a cabea triumphante.--Para a livrar da fome, para a
subtrahir  desgraa. Se no fosse eu ia parar a uma viella. Cumpri o
meu devr.--Sim, e para a crear, para que no fosse parar a uma viella,
o vestido que lhe durava uma eternidade, teve de lhe durar outra
eternidade ainda; a cdea, que mal chegava para lhe matar a fome,
repartiu-a com a orph, guardando para si o bocado mais pequeno. Cumpriu
o seu devr de ferro, o devr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem
desviar uma polegada da linha do devr. Obrigou-a a levantar-se de
noite, mas levantou-se primeiro do que ella. Pobres querem-se como
pobres, sempre na regra e no devr e sem levantarem a cabea. Quando a
orph a olhou transida de dr e a D. Leocadia lhe bradou:--Cumpre sempre
o teu devr!--j ella tinha cumprido o seu devr at final. Passaram-se
annos ou seculos, morreram as aranhas de velhice no fundo dos sagues
deshabitados; nas paredes mestras de granito a camada de frio salitroso
juntou-se camada de frio sepulchral, e a camada do frio sepulchral
sobrepoz-se camada de frio deshumano. E sempre tu cumpriste o teu devr
e ella cumpriu o seu devr d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o
to fundo que ahi a tens na tua frente, palida e inerte, com um filho do
teu filho na barriga...


No te queixes D. Leocadia, porque afinal foste buscal-a ao asylo para
te sentires maior no teu orgulho. A desgraa dos outros no comove, a
desgraa alheia consola. Mas tinhas de cumprir o teu devr: ao magestoso
edificio que architectavas, faltava-lhe ainda o remate. A cdea que
tiraste  bocca manteve-te melhor que se a comesses, e o vestido que lhe
deste, agasalhou-te melhor que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste
e doiraste.  verdade que tambem resequiste. Espera, espera...
Resequiste, mas como o mundo  extraordinario, como a vida  prodiga e
teimosa e irrompe at das pedras, extrahiste no sei que ternura azda
do mais duro de todos os peitos-- contraditoria D. Leocadia,
29-3.^o-D., que eu no chego a decifrar. No podes com isto, no
explicas isto, no aturas isto! No comprehendes. Nem eu.--Tambem eu D.
Leocadia! L com cr. Tambem eu, se me liberto d'isto que no tem
significao, no encontro nada que tenha significao. Chegamos ambos
ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma
palavra apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na
rua da Bitesga, entre duas ou tres curiosidades seculares. Usas um
vestido de lemistre, luvas d'algodo no fio e um broche pendurado ao
pescoo. No sei por que bamburrio se te encasquetou no toutio a ideia
de Deus e do devr, e de que o infinito tem de dar importancia ao teu
problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suissas
no tira de mim os olhos de peixe... No mastigues. Bem sei que s ns,
tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre,  que somos capazes de
contrahir noes, talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal. Os
outros bichos teem mais que fazer. Mas  por isso mesmo D. Leocadia que
te cahiram os dentes postios e que comeas, n'esta nova situao, a
comprehender que o bem e o mal  tudo a mesma coisa. Talvez a gente no
possa fazer o bem seno a si mesmo...--Mas ento--e crispa a mo sobre o
broche--talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de
destruir. O mal  que eu sinto. Para o mal  que eu fui creada!--E sua
d'aflio toda a tinta que l tem dentro, quando outra D. Leocadia
irrompe da carcassa da D. Leocadia:--Pergunto-te se o que tu no
consegues  prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho humano, se esse
orgulho sobrehumano, no  um mal maior, e essa piedade que sentes no 
por ti que a sentes.--E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa
no me serviu melhor que a tua verdade amarga.--Pergunto-te a ti--e
sacode-a--se no  isto que eu sinto c de dentro, do fundo dos fundos.
Pergunto-te de que te serve a mentira com que cohabitavas. Nunca
conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu devr. Logo que te puz a
ti e a ella na mesma situao de egualdade j no pudeste cumprir o teu
devr.


D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre humilhado. O bem constrange.
O que tu chamas a piedade, e o bem pe quem o recebe na situao de te
morder as mos. E continuar a fazer o bem  elevar-te pelo bem que fazes
e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que em mim h de
melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse--eu  que te fazia o bem, para tu
veres o que  o bem recebido, o bem agradecido e o bem amargurado. Antes
tu me fizesses mal, D. Leocadia, porque o mal pe-me ao teu nivel, e o
bem acostuma o desgraado a ser mais desgraado ainda. Degrada-o. Pe-no
na tua dependencia e na dependencia da desgraa. Cria uma superioridade,
a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido
se no reajo em odio.--Mas ento...--e a D. Leocadia atira-se com
desespero  outra D. Leocadia, e interrompe-a, primeiro com mudez,
depois com gritos:--Ia parar a uma viella!--Avana e repete mais
alto:--Ir parar a uma viella  o que h de peor no mundo!--E a outra
torna com escarneo e diz-lhe ao ouvido no sei que segredo temeroso--e a
D. Leocadia torce-se com pavor mas sustenta:-- o que h de peor no
mundo!  o que h de peor no mundo!--E com dr, com angustia, com
desespero, pergunta a si propria (a outra teima e no a larga):-- o que
h de peor no mundo!?--Eu no sei se  o que h de peor no mundo, no
sei se reduzir uma creatura, a trapo  o que h de peor no mundo. A tua
piedade amesquinha-me. O que eu reclamo  o meu logar na vida e o meu
quinho de desgraa. No m'o tires! Mas ella  d'ao. No transige e
protesta:

--Matei-lhe a fome.

--Mataste-lhe a fome mas no podeste amal-a.

--Nem posso! nem posso! nem posso!

E encara-se mais atonita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem
desviar o olhar.




A VELHA E OS LADRES


     3 de maro

Sombras. Tres cabeas monstruosas projectadas n'um muro, que se
aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se
aos ps da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra
disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada,
a menos que nada,  sombra da dr. Por fim erguem-se, mergulham e
dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladres e as
sombras das mulheres, a quem no distingo as feies... Eu j vi isto
algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E no 
s medo,  dr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi
atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante
da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes
sombras levam, no sei para que destino, as outras enrodilhadas. Duas,
tres horas da madrugada talvez... Caminham sem se lhes ouvir os passos 
beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.

E o silencio  cada vez maior. S a agua fala nos buracos poidos das
pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um cro de vozes ininterruptas e
indistintas--ameaas, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: s se lhe
ouve um anh... anh... de canasso, como se arrastasse na escurido uma
cruz do tamanho da escurido. A seu lado o cro inutil da agua corre
sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.

Uma voz, a do velho ladro compadecido, diz-lhe baixinho:

--A tua filha... Se teimas levantas a desgraa a teus ps.

E l deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prgar o mesmo
presagio de dr no chape que chape onde se percebem chos de todas as
desgraas que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas
que se choraram no mundo.

Outra vz no escuro:

--Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a
entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella  nada n'estas
mos.--E pergunta-lhe:--Tu s ou no uma coisa que me pertence? Posso
matar-te?--Podes--E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:--E ou...
Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh...
anh...--canasso ou dr)--Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges?
Tu que dizes? A velha  rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede
mais nada. Eu c  que executo.

E lana a dois metros um jacto de saliva.

A Joanna recua: avanam logo e no a largam as sombras que a envolvem.

--Tu hs-de abrir-nos por fora a porta!

--Estafermo! estafermo!

--Tu abres-nos a porta.  velha deito-lhe a mo ao gasganete e no d
pio. Aperto no escuro--eeeh...--e sinto no escuro um estremeo e mais
nada...

--Jesus!...

-- pandorca! s um trapo! s peor que um trapo!...

--Deixem a velhota ssinha comigo, que ns dois entendemo-nos--intervem
o ladro mais velho. E leva-a suspensa pelo brao como quem leva uma
pluma.

Cobre-os o co profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre
a velha e o ladro de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os
sempre as outras sombras temerosas.

--Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e
deitam-te fra. S te deram restos e enchiam-se at aos gorgomilos. E tu
apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...

--Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...

--Isso! At me metes nojo! Isso! At me fazes rir! S tu, calhordas,
eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu
tempo!...--E aperta-lhe o brao contra o peito, leva no ar aquelle molho
de ossos e ri-se com escarneo.--Tu lavas, tu esfregas, tu comes os
restos, tu at cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede?
Que nos abras a porta e mais nada. S h uma ocasio na vida, toca a
aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.--Abraa-a. Vomita
uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra,
vem do boqueiro da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove:
parece que toda a lama fetida da rua subiu ao co para tornar a cahir. A
Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se
extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada,
sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite  p de
desgraa, cada vez mais modo e mais negro.

--No te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te
digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come po. Ao menos
l enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...

--O que havia de dizer a minha senhora!

--Ninguem no sabe. E ouve: se no nos abres a porta, a tua filha nunca
mais a vs.

O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham,
e aquella sombra humilde cada vz mais pequena, reduzida  sombra da
sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraa, contra as
injurias e as vozes do rio. H milhares d'annos que o dialogo nas pedras
dura, sempre nas mesmas ameaas, que vem do fundo da agua e a Joanna no
ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um
pedao de ferro gasto e poido.

Outra vz na noite:

--Me!

A vida d'essa mo de rachar lenha, d'essa mo de arvore e dr! Como ella
se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitao
instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mo abre-se e deixa
cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prgar, a
correr e a falar s pedras e s estrellas nas mesmas palavras inuteis,
ao lado da vida sem destino.

Chegam emfim  muralha do predio, e outra vz as sombras se juntam n'uma
unica sombra, outra vz se ouve aquella vz sahir da noite:

--Me, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!

E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as
vozes roucas reclamam:

--A porta... Depressa! depressa!

--A chave perdia.

Um repelo e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez
mais longe e cada vz mais alto...


Sobre este sr humilde encarnia-se mais o sonho. L vae a mulher da
esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra
e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado
de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mos encortiadas de lavar
a loua, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado,
a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir
em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma
creatura agarrada  ideia do sacrificio.--Anda para deante.--Estupida!
estupida!--A bondade entranhou-se-lhe at ao amago. Tudo est nos seus
logares: as coisas simples e as coisas eternas, e h outra coisa que
ella no sabe exprimir, que a alma d'esta mulher no abrange: a intruso
do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. At agora s com a
desgraa arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um co molhado.
Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em
palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo
recomea logo. H no sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as
lagrimas e leva todos os gritos. E no se farta. H no sei qu que
reclama dr. Toda a noite se desespera. A desgraa sua, a desgraa
trpega e ridicula. A desgraa enche a noite de esgares. Depois o sonho
desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e l torna, sem uma palavra,
sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se
estorcega. A desgraa sua de aflio sem poder exprimir-se. E quando a
dr se concentra, quando a dr se torce como quem torce um farrapo e a
velha no pode--a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais
fundo...

Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o
guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:

--Acuso! acuso! acuso!

--Senhora D. Restituta...

A senhora D. Restituta est cheia de lama. Tem a penna do quico partida:
 uma figura feita com tres traos de tinta e algumas manchas de
desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos
agita-se como um pendo de revolta, esgarado e chamuscado. Todas as
vontades a compeliram e a esmagaram--quer retomar a forma primitiva.
Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca  uma bocarra cada vez
maior, para prgar, para aular, para vomitar injurias. Smente no
emite outro som seno este:--Acuso!--a velha gasta, a velha inutil, a D.
Restituta da Piedade Sardinha.

--Senhora D. Restituta...

A outra no v, no ouve, no mexe.

--Minha senhora...

--Acuso!

--...para o que se vive n'este mundo no paga a pena ruindades.

Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula
despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira
virgindade--teve duas--metido debaixo do brao. Nem uma nem outra
entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mos de lavar
a loia, a outra com as mos pacientes, as mos diaphanas da mentira.
Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se
engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir
ao cho.

--Acuso! acuso! acuso! De repelo--mete para dentro! uma vergonha mete
p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome--mete tudo p'r'o sacco! Para um
sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca
pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca
pude vr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, seno
matavam-me  fome... E nunca pude vr o meu filho, seno matavam-me 
fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha,
de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho
que nunca pude vr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este
filho que criei d'abjeco, sem nunca o poder vr, vi-o agora! Este
filho que tinha sonhado s escondidas, com a bocca tapada para no
gritar: Tenho um filho, tambem tenho um filho!--vi-o! vi-o! vi-o! Meti
tudo p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! S a noite me ficava livre para
sonhar com elle, para o vr rico, para o vr como os filhos das
outras... Aqui est a Restituta que  idiota, aqui est a Restituta que
 um poo sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve
para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que  o que lhe
vale--mete a viola no saco. S a Restituta sabe o que se passa, o que
est no prgo e o que est no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo
que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete
a viola no saco!--E n'um crescendo de desespero:--Acuso! acuso! acuso!


Debate-se a Joanna n'uma cogitao a que no suporta o pezo.  como se
pela primeira vez dsse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para
ella mudou de expresso: a desgraa muda de expresso, a filha muda de
expresso. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o
ranger dos gorgomilos.

A dr descarna-a e redul-a s linhas principaes,  secca realidade. Um
ulular de tempestade, e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou em
mais serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sr abjecto, que,
como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, no tem
frma nem cr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem
aflio. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraa aos tropees
pela vida fra.

 como se tivessem metido a dr dentro de um saco e dssem com elle
pelas paredes.

Aqui est a mulher da esfrega e a desgraa que tem os seus direitos e
no os perde nem transige. No a larga tambem o sonho. Agora  que ella
destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a loua. Agora  que ella
ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa
feita trapo e horrr.

--Para que  que vocemec me creou?

Um soluo, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz
que no suporta o pezo.

--Antes vocemec me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!

--Anh!...

--Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!

 um sr diferente, um sr aparte, que a Joanna v pela primeira vez.
Como pde creal-o aos seus peitos? Crear vida  crear um grito que no
se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:--Para o que
tu me creaste! para o que tu me creaste!--Juntem a isto o escarneo e
todas as vzes que lhe prgam:--Estupida! estupida! Toda a gente se ri
de ti!--Andou nas mos dos ladres.--Rouba! rouba!...--E sente ainda nas
mos um pedao de ferro gasto e poido como o ao, que entranha na pelle.
Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais
alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser m e no pode, e misturem a
isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a
subordinao, s l tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir
uma porta; quer levantar a cabea, mas tanto tem obedecido que curva
logo a cabea. Ridiculo sobre ridiculo.


Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo,
tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraa.  fora
de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dr. E
aquillo persegue-a, encarnia-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo
ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande
sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilho sfrego, e o gesto
que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma
dorida, a ternura que a no larga, e o contacto feroz que no explica e
a que sente o pezo.--Para o que tu me creaste! para o que tu me
creaste!--Atormenta-a, sufoca-a, e como no pode mais, como no
comprehende--no consegue--e como aquillo se encarnia, a Joanna
mostra-lhe as mos enormes, as mos rodas, as mos s dr...


Tem as mos como cepos.




DIALOGO DOS MORTOS


     12 de maro

H em mim varias figuras. Quando uma fala a outra est calada. Era
suportavel. Mas agora no: agora pem-se a falar ao mesmo tempo.


Sintiste-o avanar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu
pensamento disforme avanar mais um passo no silencio?  porventura
possivel que o que se passa no mais recondito do teu sr, alguem o
presinta e o oua avanar no silencio?


Perpetuo combate a que bem quero pr termo e que s tem um termo--a
cva. Eu e o outro--eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me,
aturde-me. Perpetuo debate a que no consigo fugir, e de que sahimos
ambos esfarrapados,  espera que recomece--agora, logo, d'aqui a
bocado--porque s essa lucta me interessa at ao amago... Estou prompto!


Todos ns pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a
vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes
do globo postas umas em cima das outras.


Se me esqueo o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...


Vejo-o caminhar e no o posso deter. Por mais esforos que faa no o
posso deter.  como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a
caminho. Todos os phantasmas se dissolviam  luz da madrugada. Agora
estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo
baixinho se na verdade eu no desejo que avancem um passo--e outro passo
ainda...


Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora
tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e s dr.


Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade--porque nunca mais
se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem
vibrao, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouado
entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e
completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte--est aqui a
vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta
obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes
dizer--j eu o disse a mim proprio. At hoje falava a alguma coisa que
me ouvia, hoje s interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.


Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;--tu queres
fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e no podes. S
consegues,  custa de esforos desesperados, manteres-te dentro da
formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e
fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho
trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora no.
Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a
vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O
homem  sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancres,
com resquicios d'oiro  mistura. O que pode fazer  dominal-os. Mas sae
sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:--Valeu a
pena? valeu a pena?--Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo,
elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sr. Ficou
diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.


H entre as figuras que compem o meu sr, duas encarniadas uma contra
a outra. H uma que cr, outra que no cr. H uma capaz de todas as
cobardias, outra capaz de todas as audacias. H uma prompta para todos
os rasgos e outra que a observa e comenta.


Mas h entre as figuras que compem o meu sr, uma que est calada.  a
peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremea.--Por
muito que me accuses, j eu me tenho accusado muito mais!


Olhas-me e eu estremeo. A sofreguido dos teus olhos, a sofreguido
verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dr e de espanto
onde encontro emfim a vida!


Se te quizesse descrever, no te podia descrever. Sei que me pertences e
que te perteno.


Talvez as almas fossem mal conduzidas, talvez j adivinhassemos o
universo e depois o esquecessemos. Creio que se no complicassemos a
vida e a dirigissemos n'outro sentido, presentiriamos tudo e
resolveriamos tudo. H em todas as existencias alguns segundos em que
sentimos o contacto do mysterio--de que nos separam logo leguas de
impenetrabilidade.


Alguma coisa porem se interessa pela minha dr. Todas as noites grito,
todas as noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo
problema e a mesma angustia. E h uma coisa que assiste a este
espectaculo e se interessa, que cada vez me mergulha mais fundo para que
eu me despedace--e se interessa...


     15 de maro

Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas
que do sabr  vida. J reparaste que so as pequenas coisas da vida
que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os
ultimos dias d'outomno que se despedem de ns com saudade, o oiro
humido, o ultimo sol nas flhas molhadas; as noites cheias de estrellas,
em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que no tem
existencia real, a sensao que passou por ns n'um segundo, sem deixar
vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro,
ao p do lume, j sumidas tambem na voragem. Nada--tudo. A tua expresso
em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como
se me fsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma
limpida--todos os sentimentos que geramos de iluso, de sonho e de
tristeza. Tudo e nada.


Agora a vida  amarga. Acabou a saudade e este sabr amargo  o sabr da
vida nova que comea.


At hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os
teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu
sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma
transitoria, sonho e mais nada.


Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha 
certo negrumes profundos e espaos to negros, que n'elles s morava o
vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu
corao. A impresso que me sufoca deante da eternidade sem limites e da
durao da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me
faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o
_abc_ do co, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram
decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.


Ilusoria irriso. Tudo isto no existe, ou s existe como agitao e
desespero frenetico. Tudo isto desaba h milhares d'annos n'uma queda
infinita, n'um grito que nunca cessa nem echa. Que desapareas amanh e
as mesmas estrellas indiferentes luziro no co, o mesmo impeto de vida
galopar no espao. S os teus olhos no procuraro os meus cheios de
sofreguido e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima
em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o
olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e
os teus olhos tristes enchem-me de inquietao e terrr. Tu no existes!
tu no existes! Escusas de soluar. No te tolero. No sei quem s e
conheo-te. Tens vivido na minha companhia, e s uma frma transitoria e
mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.


Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te
vem, no sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fra para onde
ninguem te conhea, deixando tudo, e abandonando tudo--fugindo a ti
propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro
arripio de vento lva sem destino.  essa mesma sensao que todos
experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura
monstruoso e inutil, com uma unica certeza--a de caminharmos todos,
atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impresso dura um
segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.


     20 de maro

Agora no contenho a multido que constitue a minha alma. Nunca estou s
e ouo-os que clamam cada vz mais alto. Sinto phantasmas at  raiz da
vida. Minha alma  um tablado onde todos os mortos se degladiam.
Ouo-os! ouo-os! so impulsos, so sres que actuam e falam como se eu
no existisse. N'esses momentos sou apenas um espectador que os vejo a
caminho sem me poder defender. Ouo-os! ouo-os!


Se Deus no existe e a outra vida no existe--se disponho s d'esta
vida, os deveres que tenho a cumprir so apenas os do instincto. S
tenho deveres emquanto no me pezam. No te deixes iludir.


Era sempre com secreta irritao que eu fazia o bem. O bem contraria.
Fugi sempre a este problema... Era sempre n'um impulso de paixo--e com
todo o meu sr, que eu fazia o mal... O sacrificio, a piedade, a bondade
s teem logar no mundo como culturas artificiaes.


Repete isto: a bondade  um sentimento falso e o mais artificial de
todos os sentimentos.


Ah, a ironia... H de te servir agora de muito a ironia!


O dever acabou, o estupido dever, o dever que me dominava, a vida com um
pezo de chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inuteis.
Respiro.


Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era
o meu interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei
annos sob esse jugo, e agora descubro com alegria que te detesto.
Detestei-te sempre.


Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que
eu.


Assistir  ruina dos nossos amigos  talvez melhor do que assistir 
ruina dos nossos inimigos.


Eu sou a unica consciencia n'esta barafunda cega e sofrega.


Temos de fabricar novas leis. Faamos leis para as classes superiores, e
leis para as classes inferiores--leis para os pobres e leis para os
ricos. As leis modificam-se com as consciencias, e as consciencias
modificaram-se.


Formemos classes--as de cima e as de baixo. O problema da educao  um
problema capital.


O amor  um unico minuto. Um minuto esplendido. O resto  habito,
palavras, hesitaes, trampolinice, livros de capa amarella...


E o peor  que isto no so phrases, o peor  que isto existiu sempre e
impz-se-me sempre. O peor  que quando eu te falava e sorria, e tu me
sorrias extenuada e palida, o meu pensamento era sempre o mesmo, e s a
custo continha o tumulto dos mortos. O peor  que eu sei que desde que
este phantasma se pz a caminho, no o posso deter. O peor  que eu li
hoje nos teus olhos ternura e espanto. O peor  o que os teus olhos
exprimem--e eu no o posso deter...




PRIMAVERA ETERNA


     5 de abril

Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores so
phantasmas--os homens so phantasmas.  noite a velha cerejeira  uma
apario. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras ans. O
respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao
desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavra. Deita flr a
D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte
se consomem de sonho.

Primavra entontecida de gritos e rancres,  a villa feita sonho; so
aspiraes ridiculas, restos trpegos que procuram adaptar-se. Para
resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjeco, e
essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais
importante que muitas outras a que chamamos reaes.


Phisionomias de dr, phisionomias concentradas, phisionomias de
desespero e paixo, vo aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam
com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado.--Dez annos,
vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!--O homem roe dentro
do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Comeam a distinguir
na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que
no lhe estavam destinadas. No  s o homem d'um momento,  uma srie
de figuras ainda por crear:  o homem do futuro.


Mais braos na monstruosa arvore de sonho, mais braos que atingem o
co, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus
doirado...


Na pequena villa j havia, como em todas as almas, um Robespierre, um
cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a
cantar. O quinho  igual para todos--o que pode  estar sepultado. A
questo era de propores: os valores j no esto na mesma escala.
Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num
minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro
velho, toda a mania resignada  fora, comprimida  fora, levada 
fora para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram,
impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra
regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de p,
quando o mesmo furaco revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de
si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo
instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos,
com velhas dentaduras postias, o mistiforio e a obscuridade, o p
inutil que largaste pelo caminho at chegar  velhice, a vida consciente
e a velha Eulalia, cuja existencia  um subterraneo e que mal sabe
falar, todos ficmos estonteados...

A villa entrou em plena primavra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da
esfrega. Aqui esto alimentadas a mentira, tendo passado a vida no
testamento, na cortezia e na colica; aqui est o topete, a filha para
casar e as faltas de dinheiro--aqui esto todas enrodilhadas de pavor,
mas cheias de deciso deante do co e do inferno. J abrem aquellas
ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a
desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo
cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. At as pennas
velhas se encrespam, at nos restos de chales sem pello, o pello se pe
de p.


Todos ns somos arvores. H que tempos que deitamos flr pelo lado de
dentro. Fomos sempre construces vivas, arvores estranhas que
bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos
desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fra. Foi por
dentro que crescemos, e s por dentro nos era licito crescer, cada vz
mais alto at a morte intervir.


At as arvores estranhas, at as arvores s tronco, que metiam os ramos
e a tinta para o interior, bracejam  custa de gritos ramos e tinta,
ramos desmedidos e tinta para o lado de fra.


Este  nosso sonho, esta  nossa vida oculta, nossa vida de desespero,
nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso.
Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a
reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sr homem
 d'uma grande responsabilidade. Tem prs e contras terriveis. Tambem
sei que o que nos separa dos bichos no  a inteligencia: a inteligencia
 o menos. O que nos separa dos bichos  o esforo dos vivos e dos
mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fsse verdade. O
que nos mantem n'este inferno  a architectura artificial,  o facto de
no nos vermos tal qual somos, baseados n'uma conveno que julgamos
indestructivel. De no nos vermos a ns e de no os vermos a elles.
Porque o homem por dentro  desconforme.  elle e todos os mortos.  uma
sombra desmedida. Encerra em si a vastido do universo. Agora somos
phantasmas, somos afinal s phantasmas, e o que construimos no cabe
entre as quatro paredes de materia.


Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra.
Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de
desespero no interior das cvas, at se compenetrarem de que todo o
sacrificio foi inutil, de que toda a dr foi inutil. Ouvel-os com dr e
desespero?...


Queira ou no queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em
amargura e sonho. Bem vs, a insignificancia vae durar mil annos, a
vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me
peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar
dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanh, sempre. 
escusado luctar. Emquanto era a razo que me guiava, andava s
apalpadelas: agora  o inconsciente e cessaram de todo as duvidas. Tudo
se ilumina a outra claridade. Tudo me  permitido. Respiro d'outra
maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a
pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos esto de p para
mil annos e um dia.--Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...--A outra
coisa no nos d treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em
costura. Pe-nos a contas com a questo das questes, com a questo
insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano
principal. O meu interesse, o teu interesse,  D. Penaricia,  matal-a
sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados
pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama
a tua consciencia. Ergue a cabea D. Lambisgoia e recorda-te que j
foste fra. Podmos suprimil-a sem remorsos. Matar  uma palavra e mais
nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos,  certo, a ir para a cva
inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites
gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas
escalas. Mas hoje tudo se reduz a metl-a n'um jazigo selado e chumbado,
com a chave entregue ao juiz de direito. Pe em mim teus olhos turvos, 
D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo est
agora por cima.  roda da meza do jogo nunca pensamos seno em anulal-a.
O remorso no existe, o crime no existe, a formula no existe. O passo
nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes.
Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a  tua vontade. s um
producto fetido do acaso. No duvides. Se Elle existe, nem suspeita
sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de
chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou no existindo ainda
exiges que proceda como se existisses?... No duvides. Nada. S algumas
palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas
palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo
sobre esta base: o que me convem e o que no me convem. Eu sou eu. O
egoismo  a suprema lei da vida. A honra no  essencial. Ao contrario o
meu interesse  mentir, o meu interesse  trahir-te.  indiscutivel que
tenho devres para comigo, mas no  indiscutivel que tenha devres para
comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me so permitidos com
tanto que se no venham a saber. Serves-me ou no me serves? s meu
escravo ou meu senhor? Sers tu meu inimigo?...


Que riso que nunca vi ( a cva que se ri)! que bocca que nunca vi e que
me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D.
Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavra. Vamos entrar n'outra vida
sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impe, 
D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia
suprema porque suspiramos sempre. Vamos vr que propores atinge a
langonha e a D. Herminia, o fl e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos
e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na
minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar
de desespero; tenho-vos aqui s bichos em frente da necessidade fatal,
da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o
esplendor cada vez maior, cada vez mais sfrego deante de ns. Estamos
promptos. Estamos fartos. O que resta  o sonho de p, s sonho e
doirado, ftido e doirado, cahotico e doirado. Est rto o contracto.


A primavra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta,
dr sobre dr. Resuscitam todas as primavras, as primavras
successivas, as primeiras primavras em que a ternura se confunde com a
fealdade e a fealdade  j ternura, outras primavras, e outras oiro e
verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou  arvore a
transformar-se em sonho,  arvore dorida com a flr recalcada, at se
desentranhar em emoo!... Mais outras primavras phreneticas, mais
outras timidas e delicadas, mais outras que no chegaram a abrir cobrem
os vivos e os mortos...


Mais braos na monstruosa arvore do sonho, mais braos que atingem o
co. E ahi esto todas as flres e todos os gritos, a tentativa ridicula
da flr e a flr esbraseada das noites sobre noites de concentrao.


Todos anciamos por este dia. Ns e os outros do fundo da sepultura
contamos sempre com a primavra eterna--ns e a cohorte muda cujo
esforo senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que
vem de longe, expresses mutiladas que tentam impor-se. Este sonho no
era s meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu
sr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente,
at que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dr e de restos,
coado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do co e do inferno. 
nosso e dos mortos.  o patrimonio da vida, e do tumulo.


E os mortos esto arrependidos! os mortos esto arrependidos!


     20 de abril

As velhas encarniadas so outras, so velhas em sonho vivo.--Mata!
mata! mata!--Aqui de rastros, anno atraz d'anno, para ser comida!--Aqui
a levar pontaps n'este sitio, aqui a crear rugas e fl!--Pois eu no
fui eu, e agora estou deante d'isto, d'este assombro e d'este
desespero!--Gritam porque se no podem vr. Gritam porque a realidade e
o sonho tomaram propores que lhes no cabem nas almas. Gritam porque
no lhe entrevem o fundo. A D. Penaricia tirou a cuia postia, e atirou
com a cuia ao cho. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada, e
absorveu-se na cuia de retroz, como se tivesse alli em frente o symbolo
do universo:--No posso desfazer-me d'isto! no posso desfazer-me
d'isto! Toma! Eu no sou isto, e hei-de estar aqui sufocada a aturar-te
para no morrer  fome. Hei-de ver-me e ver-te e hei-de
dizer:--Jgo!--Hei-de fazer-te as vontades e ver-me tal qual sou, tal
qual era e tal qual hei-de ser?-- espera de qu, se nem da morte
podemos esperar?--Ento este esforo para ter uma alma no se conta?
Este esforo para no andar de rastros como a cobra? Para viver com isto
e com isto? Com esta amargura, o fl, o que  mesquinho e com Deus? Eu
no posso com o que no comprehendo, com o que est por traz de mim, com
o que est a meu lado e com o que tenho de fazer todos os
dias...--Falo!--Falo eu agora!--A tragedia  que eu iludia-me, mentia a
mim mesmo e agora no posso mentir. No h gritos que te valham e a
ninharia desapareceu do universo. A insignificancia acabou.--O peor
drama--exclama outra-- que eu vejo o que fiz de mim propria.

--A inveja que eu te tenho! a inveja que eu te tive sempre! E tenho que
sorrir para ti, de dizer a tudo que sim!

--Jogue!

--Ento eu passei a minha vida a ter paciencia,  espera, passei-a a
mentir e obedecer, e tu a mandares, e agora hei-de continuar a ser
abjecta quinhentos annos, seiscentos annos?

--E eu! o po que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais
me sabia a zinavre. No te matei porque no pude!

--Corte!

--Tu no s mais do que eu!

--Ai! Tambem eu, tambem eu tenho a dizer uma coisa.  que eu sabia bem
tudo isto, h que tempos que o sabia!... Mas no sei que era que me
obrigava a fingir. Corto!


Avante! avante! Um cordo de velhas, como um cordo de sentinelas, no
desampara o quarto onde a magestosa Theodora agonisa. Chove. Entre estas
paredes forradas de papel doirado j no se moem as palavras de uso.
Alumia-as o candieiro a escorrer petroleo, e a luz fixa as arestas das
figuras de cerimonia, todas vestidas de preto, a calva d'um homem gordo,
a quem s se veem as mos esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas
boccas remoem no escuro, a Adelia mais safada e mais sofrega, e o padre
no meio da sala dominando-os a todos. Onde vae o ridiculo da D.
Penaricia, as mesuras da D. Andreza, o riso idiota da D. Idalina, a
langonha da D. Herminia? Parecem forjadas de novo. At as prgas dos
vestidos cahem como prgas de estatuas. Cada velha resolve que a colica
da Theodora seja a sua ultima colica; em cada velha cresce, augmenta,
trasborda, n'um tumulto, o inferno. Ao saque! ao saque!-- para mim. Eu
 que sou a prima mais chegada.--Eu  que lhe tenho aturado tudo,  a
mim que ella deixa os trezentos contos, os quatrocentos contos, ninguem
sabe o que ella tem.--Nenhuma admite que a magestosa Theodora escape.
Veem de muito longe estas figuras--veem das profundas... Nos olhos da D.
Penaricia h claridades do inferno. Ganharam todas em fixidez e audacia.
O sarcasmo no me chega  bocca, passou-me a vontade de rir.

Desapareceram seculos de paciencia e astucia, surgiram figuras novas.
Para as comprehender pergunto a mim mesmo o que  isto embrulhado n'um
chale, e no me atrevo a contemplal-o. Ridiculo e ferocidade? Uma coisa
sem nome, producto do acaso, ou uma coisa abjecta? Uma alma ou um
resultado de formulas? Est aqui a D. Penaricia e a D. Eulalia ou Deus e
o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz? Esto aqui perguntas vivas e
respostas vivas:--Abra l essa porta para traz!--Essa porta deita para a
parte prohibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor parte
da vida.--Abram l essa porta para traz!--No lhes parece que esperam h
annos, parece-lhes que esperam h seculos, e tem alli deante de si
estateladas, as cortezias que fizeram  velha,--o pois sim que disseram
 velha--os sorrisos com que sorriram  velha--as vontades que fizeram 
velha. So tragedias. Veem de muito longe, d'uma vida sem limites. Em
cada uma se representa um drama atroz, o drama do interesse e do
calculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que esto na minha frente, so
infinitas de grotesco e dr. Duram h seculos. H seculos que teem
paciencia para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde os
confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados.  um poo
donde s saem ais e mais ais. O dificil  a gente habituar-se a viver
esta vida e a outra vida: carregar com este pezo desde o infinito e
lidar e falar e viver.--Oh morte que to bem cheiras!...--Bem sei, os
seculos imprimiram-lhes dedadas, os seculos deformaram-nas... Mas agora
esto aqui desesperos em frente de desesperos, e desatam a berrar umas
s outras:

--Tem paciencia, tem sempre paciencia. Doe-te? tem paciencia; amargas?
tem paciencia...

--Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida  espera da morte.
Estou farta! estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer
a tudo que sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora est aqui a vida.
Esta vida e todas as vidas.  preciso que ella morra, e se no morre 
preciso matal-a. Ouve senhor padre Ananias, senhor padre unguento,
senhor padre e as suas _comidelas_, senhor padre e o seu inferno?...
Mentira! mentira! Eu propria era uma mentira. E s me aterra a ideia de
acordar tarde, de acordar na morte, com a certeza de que era tudo
mentira e s mentira...

Abrem as boccas desmedidas, fecham logo as boccas desmedidas.

--Bem v que no posso mais. Eu que mentia no posso mais mentir. Como
hei-de viver?

--Tem paciencia, tem mais paciencia, tem paciencia por todos os seculos
a vir...

Esto alli dispostas a morrer e a matar. Est alli um cordo de velhas
como um cordo de sentinelas  porta do quarto da magestosa Theodora.
Duas, ambas de quico, ambas de mitenes, ambas impenetraveis, trazem na
algibeira o leno com que ho-de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam
que ella se decida a _expedir_. Nenhuma abre o bico, mas apalpam os
vestidos como se trouxessem um punhal escondido. D'um lado as gulas
exasperadas, a hora extrema--chamem o tabelio! chamem o tabelio!--o
testamento, a sorte grande--emfim! emfim!--os chapeus de plumas, o oiro
mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas do tapete, o vicio e
o goso--do outro a vida nova, o todas as abjeces inutilizadas.

 morte que to bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa
cheira bem! como cheira bem aqui dentro!-- morte que to bem cheiras,
tu dilues o travor de fl e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo,
realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas
aspiraes, que nem a Deus se confiam,  morte que to bem cheiras!--E
calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito
secular:--Coitadinha j tem panella!...

Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo
obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crr ou no crr, com a
vida antiga e a vida que antev; tem de desfazer a unhadas um edificio
mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as
pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho
sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as
inscripes e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida
passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma
vez: um passo, e  o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio
imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar 
morte  fugir  lei de Deus.--E d'um dado puxa por ella a vida, do outro
puxa por ella o inferno--e as velhas l fra esperam e desesperam. Sente
as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades;
envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno no cessa de
reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de
lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios
profundos: aquellas raizes no se arrancam sem produzirem buracos. E as
velhas l fra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos,
balouada--e com a cuia a desfazer-se-lhe--entre a realidade e o sonho,
entre o inferno e a vida nova que comea. Mas como a estupida vida de
caldo e po que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e
no sei que de solido e amargo, a velha pde salvar-se, com um resto de
chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama
para o cordo das outras estupefactas:

--Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!


     25 de abril

E o doirado no cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o
ridiculo... Teamos, teamos todos a nossa teia... A minha prendo-a s
arvores, ao co e s coisas eternas. Todos os sonhos se pem a caminho.
 uma coisa equivoca.  uma coisa desgrenhada e ftida.  o sonho
lastimoso das velhas, o sonho que no chega a ser sonho, onde boiam
mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiados que se
prolongam no escuro. Toda a gente fala s. E o luar intoleravel, o luar
indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os
santos imoveis nos seus nichos. Do horas, mas as horas acabaram. Coisa
singular: esta gente s fala comsigo mesma, em monologos roucos,
desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e
concentrao; a D. Herminia comea uma tragedia, que dura uma noite
inteira com a mesma palavra obscena.

A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita
de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados,
encrespa-se e cresce em vagalhes magneticos. Modifica todos os sres e
abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus
nichos: at na imobilidade entranha desespero. Quedam-se estonteados e
transidos, como se a vida fosse uma mera creao do luar e da loucura...
A alma da villa  sacudida por uma tempestade de espanto. A botica est
deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.

Um momento angustioso no se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor,
um ah! A villa toda grita:--Eil-o! aqui est o meu sonho, aqui est como
o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde;
aqui est a minha verdadeira figura--a figura do Melias e a figura do
Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o
desespero e a Ursula, o grotesco e o p doirado que no sei d'onde se me
pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos ns escondiamos,
cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... L
vae a Adelia, com o chapeu s tres pancadas, l vae um logista que
parece Napoleo Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco--l
vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro no existe--derrubaram o
muro.


Nesse momento pezado de angustia todas as mos se agitam no ar diante da
outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada
vez mais disformes. Est sofrega. Cresce, grita, avana direita para
ns. O que se pz em marcha no vem de fra, mas de dentro de ti mesmo,
da mais cerrada das noites. H muitas camadas de mortos. H-as a legoas
de profundidade e at de l sobem os gritos. O homem  o mais profundo,
o mais vasto de todos os sepulchros.


Pe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a
praa, ao p desta coisa desordenada que se encarnia e no nos larga, 
Elias,  Melias,  Melambes! A considerao no existe! a praa no
existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as
lettras e os que teem as lettras protestadas, ns e ns, ns e os
ladres das estradas, ns vestidos e grotescos, ns nus e tragicos--ns
e o universo monstruoso! Ns correctos e ns disformes, ns e o co
profundo na sua temerosa realidade. Salta lar, perirone, perirote! Mas
salta com desespero, salta com as tuas eternas explicaes, o
subterfugio e o grotesco. Agora no nos servem de nada os relatorios,
nem as razes dispostas como formulas algebricas--agora estamos aqui ns
e o problema desalinhado e feroz, que nos impe uma soluo imediata.
Salta lar, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos l se
vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoa l se vae o nosso
credito na praa. Mas--pergunto--posso porventura deixal-a morrer quando
est nas minhas mos salval-a? No sou eu por acaso um homem de bem? Tu
s um homem de bem, eu sou um homem de bem, ns somos todos homens de
bem--depende das circunstancias. Os paes so paes, mas deixam de ser
paes se nos do cabo de tudo--e da firma. Por outro lado h a contar com
o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia
para o outro, e sem credito um homem no vale nada na praa. Meditem e
atendam. Acima de tudo est o credito. Est talvez acima de Deus, ainda
que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem
credito no dou um passo na vida.

--Alm da firma que nos resta na vida? Fra da praa no existimos.
Pense que logo, amanh, hoje mesmo, a nossa me remoada deixa de sr a
nossa me. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por
suas proprias mos o nosso credito na praa?

Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeas, com calva e risca,
com risca e calva, aquella distino de porte e de vinco, aquella
ponderao de estilo, aquella correco de maneiras, aquella seriedade
das seriedades, que a praa honra, que as firmas honram, que a Egreja
honra, e de que at o proprio Deus do co j est  espera com o palio
meio aberto. A firma Elias & Melias to correcta, com livros, ripolin
nos caixilhos e nas almas, v-se descascada at  medula e treme nos
seus fundamentos. Est encalacrada. E o peor  que no so s elles que
esto encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa
no  o que tu me dizes:  o que eu digo a mim mesmo...  Rinhe como tu
rinhes com dr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam j
palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos!
Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz no te d tregoas o
impulso. Neste conflicto delicado s tu vinhas a tempo,  morte que to
bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com
o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniada e feroz,
sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as
formulas e o vinco, com a praa e o credito!...

Agora no, D. Bibliotheca das Bibliothecas, j preparada com todos os
requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora no! J tentaram
desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de
outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Po p'ra a vida eterna!
O que tu queres  esta vida, esta insignificancia e estes restos--e est
aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apgo! Tudo te doe e do
fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho
diante da figura tremenda que no sae de ao p de ti...  carne
putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperana, a um s que
seja! O que te custa a largar o brazo na fralda da camisa, o postio de
toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores--tres
tostes, seis tostes, um quartinho!  carne fedorenta,  carne j
preparada para o mausolo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois
involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro  espera!

E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora no Elias
& Melias, agora no D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a
frente com a realidade e a morte. Salta lar, perirone, perirote!

--No quero morrer! no me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem
toda a gente. No me deixem morrer!

Todos os apetites, todas as sensaes que pareciam extinctas, assobiam
como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher est to intacta
por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela
cama fra.

--Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!

--Chamem o procurador!

Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos,  a ancia
de viver.

-- No, no. Tirem-me para l esse homem. O que eu quero  viver.

V no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas
grotescas:

-- minha senhora cheguemo-nos  razo. Seja razoavel.

--Quero viver.

--Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos
religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo
respeitosamente. Apelo...

--Dm-me o remedio! Quero viver!

--Segundo lembro a V. Ex. que tem sido at agora me extremosa dos seus
filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex.^a,
Ex.^{ma} senhora, que  que V. Ex.^a  aos seus filhos?

--Quero viver!

--Perdo minha senhora! Esta fortuna to bem administrada pelo casal de
que tenho sido bastante procurador a que mos ir emfim parar? Peo-lhe
que reflicta. Peo-lhe que se submeta. Lembro-lhe que esto alli fra
seus respeitaveis filhos subjugados pela dr, lembro-lhe a sociedade, e
atrevo-me a lembrar-lhe que no tarda ahi o D. Prior.

Um fio, falta s um fio, e ainda aquella figura grotesca se debrua para
lhe dezer:--V. Ex.^a...

--Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!--exclama o honrado
Elias de Mello, com a calva arripiada.

--No quero morrer!

Tem foras para saltar da cama, para se arrastar at  porta, e toda a
noite no casaro echoam gritos.

No quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse
minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o
slo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita--e do outro a
sofreguido cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na
bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu
phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,--tu ungida e
tingida, ns e ns--ns correctos e grotescos--ns Melias e doirado, ns
Melambes e phrenetico!


     30 de abril

Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que,
apezar da dr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que
se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a viso nitida da
montanha de p acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a
romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de
mo onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; s ella
pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha
a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas.
Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que no via h annos.
Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coada e mais
gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.--Pois sim, pois
sim...--Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em
realidade. Ahi est patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que
sonhaste com fl, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de
farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi est
patente,  luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambio e de
imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste  custa da
tua propria alma-- Restituta da Piedade Sardinha!

...--Sejamos logicos me--diz elle--na vida  preciso ser logico. A me
creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que no tinha me.
No hei-de agora que vou casar apresental-a:--Aqui est a minha me que
me creou de esmolas, que me creou escondido.

--Tens razo, filho.

--O que  preciso  que a me desaparea. O que  preciso  que a me,
que tem sido logica deixando-me fazer carreira, no estrague agora tudo.
Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a
sacrificar-se. No lhe peo mais nada: desaparea.

--Desapareo.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que
teve sempre por as pessoas consideraveis. Est alli na sua frente de
chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos
a creal-o escondido, e rev-se embevecida nos cartes em que elle
assigna Monfalco dos Monfalces (Sardinha). De resto no lhe custa nada
desaparecer. No lhe custa mesmo nada.  mais uma ordem a cumprir.
Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda,  D. Theodora,
 D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de considerao,
como obedeceu  vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse
minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida
reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a
D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e
desespero.  o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada
ao co e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo
pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais
obscuro da sua alma.--Vi-o! vi-o! vi-o! Que  isto? que  isto que se me
pga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que  isto que no
comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguido e pois sim,
doirado e pois sim! Eu no posso com isto amargo e doirado! Eu s posso
mentir, s posso obedecer, s posso com restos, com os restos dos
restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fl e pois
sim. Tenho sido sempre Pois Sim, s Pois Sim, e agora sou Pois Sim e
desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavra de restos, uma primavra
abortada, que s chega a deitar uma flr miudinha como a flr do
escalheiro.--Mente! mente! mentir no custa nada!--Mas a D. Restituta j
no pode mentir ainda que queira. Quer dizer que no, e com ella todos
os mortos, todos os mortos que no se atreveram a sonhar, que no
abranjeram o sonho, dizem  uma que sim, dizem com desespero que sim.
Sonho e pois sim no cabem no mesmo sacco. No cabem no mesmo sacco
primavra e pois sim. A sofreguido atingiu o auge e tu viste-o!
viste-o!...

Salta lar, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se,
sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida,
reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou s e
contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fl.--Mete o
diabo no sacco!--To cansada e to gasta que nem as feies lhe
reconheo; to amarga e to ridicula, to pois sim, que da D. Restituta
s resta uma expresso de dr, de dr mutilada a dizer que sim, sempre
que sim--a dizer a tudo que sim.

--Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fl da
submisso. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de dizerem a tudo que
sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado,
sofreguido e pois sim!


Baloua ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver
da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim--para que o
filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Baloua ao vento
n'um sexto andar--esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a
vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com
brazo e elmo, Monfalco dos Monfalces (Sardinha). Da mo crispada
ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o
fardamento da _Escola Academica_, como um guarda-porto em miniatura. A
sombrinha l est aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela
janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico no
cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.


     6 de maio

Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as
primavras--a primavra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sres e as
coisas de flres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as
cres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as
tintas--com todos os desesperos. Est aqui tambem presente a floresta
apodrecida... As arvores no se veem, mas esto tambem aqui... Est aqui
a floresta apodrecida, e com ella as frmas de sonho e as frmas de dr
mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos
viscosos, as mos geladas ainda em esboo, os sres cegos e com gritos,
porque no sabem ainda viver, as frmas hesitantes do pezadelo...

 aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz--os tons violentos
e os tons apagados. At as arvores so sonhos. Atravessaram o inverno
com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam h seculos. E
at esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o
milagre: as arvores chegam ao co.




DEUS


     10 de maio

O que eu sinto  o desespero de no haver dr eterna. A dr pela
eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrr sempre, com a
consciencia do sofrimento,  viver sempre. Antes o inferno! antes o
inferno! o inferno em logar do nada.


O inferno era ainda o co.


Alguma coisa nos conduz e nos leva at  morte. Rodeia-nos. Impele-nos.
No a vmos e est ao nosso lado. S ella existe no mundo. Estou nas
suas mos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu no existes! tu no existes! E no h mos mais crueis que as tuas.
s abjecta. s cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E
queira ou no queira estou nas tuas mos. S tu existes no mundo.


Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade s
tu--ftida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hs-de gritar pela
eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta fora
que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com
bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza--para
nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como
a claridade na agua para me entontecer.


Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra
vz a primavra! outra vz o escarneo! O que tu queres  iludir-me. A um
dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a
noite est cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua
tem um som mais lindo, a neblina d encanto  minha vida e aos grandes
montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido at
 morte. Atraz de ti s h dr e o desconhecido. Mascaras-te para me
iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arma; mais uma vez
os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... No quero vr! no
posso vr! No te posso vr! A vida  amarga, a primavra  secca e
inutil. Fecho tudo para no te vr. Fecho tudo para no vr a primavra
e sinto-a atravez dos muros.


Oh o grande oceano, a torrente impetuosa--sempre! sempre--o mar de mos
fluidas que me envolvem--o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que
deslisa no silencio--como tudo isto me mete medo!


Reconheo-te fora, mas no me importas nada. Este deus faz o que elle
quer e no o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, no  feito 
minha imagem e semilhana. No me ouve nem me atende. No o posso
desviar da sua marcha  custa de suplicas e de gritos. No se apieda.
No sei se tem o sentimento da justia. Talvez tenha outro sentimento de
justia--outro maior--outro que no abranjo. Este deus no me  nada.
Para elle  vo tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no
mundo  vo. Todos os santos so grotescos. Todos, os que te chamaram e
suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dr, o fizeram no
vacuo. Pai, tu no existias! E no existindo impeles-me, entonteces-me e
esmagas-me. Estou nas tuas mos e no as vejo. Crias-me e no existes.

Eu sei, eu sinto que ests ahi desconforme, vivo, e obstinado--mas no
s o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como
conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu ests ahi patente, vivo
como a vida, mas no me conheces nem eu te conheo a ti. No nos
chegamos a entender. No tens nome. E estou nas tuas mos.


Estou nas tuas mos e no me interessas. O que me interessava eras tu.
Tu, que no existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma
que no me livro de ti. No existes e dominas-me. No existes e
torturas-me. No existes e s tu s a razo da minha vida, dos meus
actos, e do meu sr. No existes e s tu existes. Tenho mil annos e um
dia para prgar deante do vacuo que no existes. Para te chamar sabendo
que no ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos
e um dia deante da mudez, a clamar, a prgar, a mentir.


O resto so phrases e mais nada. S a vida futura, s a vida presente
sob o teu olhar tinha finalidade e razo de sr. O resto so phrases com
que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia,
ss a ss com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras--a vida
eterna e a morte eterna, no como palavras mas como realidades, nunca
mais podeste desviar o olhar.


O que me interessava eras tu porque para, que tu existas  preciso que
eu exista tambem. Eu no posso passar sem ti, mas tu no podes passar
sem mim.


Se tu no existes, estou nas mos da fora obstinada e cega. O que me
interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias
e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu
fazia parte.


E agora, reconheo-o, toda a dr resulta de eu criar um universo que no
existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do
universo ignora a vida e a morte. Toda a dr resulta d'este esforo para
a mentira. De eu no no me submeter  fora desabalada e cega. De eu
tr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o
sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinao
at  cova, ao co e s estrellas. D'estas duas creaes antagonicas
resulta a maior dr humana. Se eu no tivesse criado outra vida
imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas
no me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a
consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para qu se tudo acaba alli, se no ha
outra vida consciente, se no tenho de responder perante ti pelos meus
actos? E mesmo diante do escantilho sofrego, o que  o bem e o mal? A
que eu tenho de obedecer  ao instincto e mais nada. Se no ests ahi
para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer
exactamente o contrario? S uma coisa resta: iludir os desgraados,
leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a
vida. No se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto--trata-se de
mentir, de mentir sempre--de mentir cada vez mais.


Estou nas tuas mos... Esta noite limpida como um diamante polido no
existe. O que existe  atroz... Nem a primavra existe, e tudo se
entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu
criei, existe. O que existe  atroz. Nem este sonho em que ando
envolvido e iludido. S tu existes no mundo e me trazes estonteado no
mundo. Fecho-me para te no vr e estou nas tuas mos. Se eu pudesse
ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se eu pudesse
encarar-te em toda a tua plenitude--via o negrume monstruoso e cahotico
avanando para mim, o repelo doirado levando tudo diante de si, no
desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para
crear mais dr. No te fartas. Isto  desconhecido,  absurdo, 
eterno--mas a belleza tragica da vida ephemera consiste em te resistir,
todo o nosso afan em crear uma mentira para opor a tua verdade--de que
resulte dr. Tu podes tudo como verdade. Estou nas tuas mos. Eu posso
tudo como mentira, e s assim saio das tuas mos. A verdade  a
dissoluo e a morte, s tu; a mentira  a vida. Resisto-te para poder
viver; para poder viver crio a mentira tragica. Se cedo ao teu impulso,
se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te oponho a
mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeo-me. Estou nas tuas
mos--e nego-te. E o homem  tanto maior quanto mais alto afirma que
existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se at s ultimas fibras,
lucta, grita e sae em farrapos das tuas mos.


Todos os heres so martyres, todos os santos foram iludidos at 
morte.




CO E INFERNO


     20 de maio

Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a
gritar como se lhe arrancassem a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo
em frente da sombra que se lhe introduziu na vida. Grita a paciencia e a
mentira, grita a hipocrisia. Desapareceram as figuras e s ficam gritos
na noite. Outro passo--outro grito.  a custo que me separo d'este sr
com quem cohabitei sempre. O escarneo est aqui; est aqui o escarneo e
o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos. Que dever? O dever de
te matar? O dever de te cuspir? Matal-a, mas matal-a  at um caso de
consciencia, para que a minha vida seja a minha vida.--E os gritos
augmentam--gritos de dr, gritos d'espanto, gritos sufocados de colera,
mais gritos de sres que se no querem separar da antiga carcassa.

Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo d'esse
fim; tudo isto se alimentava de certas regras, tudo avana desesperado,
aos gritos, ancioso e doloroso:--Pois s tu! s tu! E o interesse s tu!
e o amor s tu!--O desespero augmenta, os gritos redobram. As creaturas
com que deparo so temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos
sobre sarcasmos. H-os que se reduzem a baba e a p.--O qu, tudo isto
era to pequeno! Pois passei metade da existencia, annos atraz do annos,
ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto em ninharia! E nunca
dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar,
atrevo-me a escarnecer-te...--Mas ento--pergunto--eu fui o homem
escrupuloso, eu fui o homem honesto que luctei toda a vida com os maus
instinctos, n'um combate perpetuo--para isto? Pergunto--para isto? Alli
aquella desata aos berros e sres caminham transfigurados; sres que
nunca sonharam, materia impenetravel, deparam pela primeira vez com o
sonho, o que os deixa atonitos. Ninguem pode encarar-se at ao fundo. A
tua meticulosidade  de ferro, est de tal maneira entranhada no teu sr
que sem ella no existes. Pois at a tua meticulosidade se h-de
dissolver. E tu sem o habito no existes, nem tu sem o dever, nem tu sem
a consciencia. A D. Ursula que passou a vida a esfregar, a polir, a
limpar os moveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar 
rua.--Adoro-a mas no posso separar o interesse do amr--no posso
separal-os. Est dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo
de meu horrivel pensamento, uma outra ideia lucta, avana e no a posso
arredar. Estraga-me a vida toda.--O mundo moral est com escriptos e
reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no tecto.


Vemo-nos! vemo-nos que  o peor! Porque na verdade eu nunca me tinha
visto n'esta horrivel nudez sem arrepanhar  pressa os vestidos. Eu
metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos! Todos os sres so temerosos.
Mesmo grotescos so tragicos. H n'este trapo que creaste, n'esta cora
de lata que foi a tua vida, no sei o qu que sua espanto. E dr! e dr
na tua duvida ridicula, no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi nos
teus olhos. Este momento tragico, esta pausa, este horror em que cada um
se v na sua essencia, em que cada sr se encontra ss a ss com a sua
propria alma, reduzido sem artificios  sua propria alma, s tem outro a
que se compare, aquelle em que cada um v a alma dos outros. Porque, por
melhor ou peor que tenhamos julgado os outros, vimol-os sempre atravez
de ns mesmos.


O que ahi est  temeroso, sres estranhos; sres que, se do mais um
passo, nem eu nem tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses--e
outra coisa. Com mil palavras diversas e ignobeis, mil boccas que te
empurram para a infamia--outra coisa. Tens de confessal-o. No  a
consciencia--no  o remorso--no  o medo.  uma coisa inexplicavel e
immensa, profunda e immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer
palavra--e espera... s immundo, s a vida. No te sei definir, no te
comprehendo. Se te levo at ao ultimo extremo perco o p... No sei at
onde vae o meu horrivel pensamento. At aqui tinha limites, agora nem o
meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar de matar 
tudo a mesma coisa.  tudo inutil. Agora no! agora no me quero ver nem
te quero ver! Estamos no co; e no inferno, D. Idalina e a langonha.
Estamos no co e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua
inalteravel correco. No te desmanches! Estamos emfim todos no co e
no inferno, e todos  uma percebemos que a vida foi inutil.  com gritos
que a D. Leocadia reconhece que o escrupulo no existe;  com espanto
que ella percebe que o bem que fez foi inutil;  com horror que a D.
Leocadia comprehende que s lhe resta o vacuo. A inteiria D. Leocadia
berra no infinito, depois de se desfazer de todos os sentimentos
falsos:--Mas eu cumpri sempre o meu dever!--H-de-te servir de muito!--E
aqui te encontras diante desta coisa que no foi feita para ti, aqui
ests tu atirada de repente para uma aco sem limites, com os cabelos
em p,--tu D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que moravas entre
quatro paredes a rever salitre, e agora tens de morar no co e no
inferno. O drama  tu, D. Leocadia, no te poderes desfazer da outra D.
Leocadia; o drama supremo  tu seres ao mesmo tempo, D. Leocadia
29-3.^o-D e D. Leocadia Infinito.--Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto!
Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto em que te vejo cara
a cara e percebo que tudo  absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse
fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam duas figuras, que, por
mais esforos que fizessem, nunca se chegaram a entender!--A tua vida, a
minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste um filho e apegaste-te mais
ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o
dever esqueceste interesses e paixes, e na tua alma solitaria s coube
o exaspero e o dever. Mais nada. E  medida que a vida te inutilisou as
ambies e te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi
a unica razo da tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te com
ella no silencio gelido da villa, onde, nas noites sem fim, se chegava a
ouvir o contacto das aranhas devorando-se com volupia no fundo dos
sagues. Todos os dias pezaste o po que lhe dste, mas dste-lho. E,
tendo perdido tudo, s o dever te restou no mundo--e a orf, a quem j
no consegues reconhecer as feies. A mesma coisa nos dilacerou a
ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de colera,  medida que
caminhavamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui
cheguei, ambos ridiculos e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com
outra coisa que nunca quizemos vr. Ambos grotescos e de p, tu e eu, eu
e tu, com o teu broche, onde o mesmo sujeito de suissas--lembrana do
primeiro matrimonio!--no tira de mim os olhos aguados de peixe. Ambos
tendo atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos os mares, e no
fundo a mesma dr, no fundo o mesmo fl, no fundo o mesmo esforo para
sustentarmos sobre a cabea esta abobada que no existe. O que no
queriamos vr era a noite...--Vontade tinha eu de fazer o mal, o que me
no atrevia era a fazel-o.--Oh D. Leocadia d um passo, outro passo
ainda e mergulhas na beatitude como quem cumpre um destino.--Cessou o
debate.--No fales mais, D. Leocadia. Est tudo dito...

A figura que ahi vem mastiga em secco, com uma camada de verde e outra
camada de sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado, e a que
adherem ainda os mil e um nadas da sua existencia anterior de molusco,
avana hirta para mim, inteiria como uma barra de ferro. Ainda cheira a
mfo, mas os olhos entranham-se-lhe n'um vasto panorama inexplorado. V
para dentro, cada vez mais sofrega e o seu sonho no tem limites. O mal
no tem limites. Tem diante de si mil annos e um dia para essa absorpo
dolorosa e tragica. Abarca o mundo.  D. Leocadia agora  que tu
chegaste ao amago!  um conflicto entre ti e os outros mortos, uma lucta
num tablado que abrange o universo. D'ahi o seu prestigio--d'ahi o
immenso scenario que se desdobra deante da D. Leocadia absorta n'esse
panorama sem limites...


S h no co e no inferno outro espectro peor.  este sr sem nome,
pedra e desespero, noite e desespero, que se imobilisa na inutilidade de
todos os esforos.


Todos gritam de desespero no co e no inferno. Confundem-se mil boccas,
as coisas mais altas e as coisas mais reles. Aqui est a villa toda,
virada do avesso, os ridiculos sem vergonha do ridiculo e os infames
lambendo a infamia. Aqui est a iluso--e aqui est em pello a D.
Possidonia, que ainda conserva na cabea o chapeu de plumas. Aqui est a
ordem e aqui est a desordem, as palavras inuteis e a inutil burandanga,
toda a formula, todo o calvario da vida para subir at a morte--e aqui
nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos, reles,
todos da mesma lama e com as mesmas chagas.--Eras tu fora estupida e
cega que me enchias de iluso para poder suportar a vida? Eras tu o
interesse, eras tu o amr?... Aqui esto d'uma banda as formulas (e s
agora comprehendo a sua necessidade) aqui est do outro lado a vida;
aqui est o que se chamava a honra, e o que se chamava o dever.  amigos
eis aqui todo o nosso grotesco, todas as nossas ambies, todas as
nossas vaidades--e com ellas o absurdo e a logica. E eis aqui o meu
drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a colera duns e o
terror dos outros. Eis aqui o co e o inferno, o maximo de iluses e a
ausencia completa de iluses. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os
grandes insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se tudo, todas as
fachadas e todos os artificios. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e
insultos.--Como eu te reconheo! e a ti! e a ti!--E a ti que s a figura
silenciosa que h tanto tempo me persegues, calada e triste, o que eras
a peor. Tu que curvas a cabea, sem nunca te pronunciares, tu que sofres
quando eu sofro, que te envolves em silencio quando persisto n'este
caminho doloroso--como te reconheo!--D gritos! podes gritar  tua
vontade!


Agora estou nu e toda a mentira me  impossivel; agora estou nu e todas
as palavras so inuteis; agora estou nu deante da immensidade e no
posso ao mesmo tempo com o co e o inferno. Agora  peor, agora tanto
faz resistir um dia como um seculo. Agora  peor: no nos podemos ver.
Como dois amigos que se encontram passados muitos annos, perdemos todos
os pontos de contacto. Estamos aqui a representar: a verdade  que no
nos podemos ver. Eis-nos bichos em frente de bichos.


     25 de maio

Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma. Reparem nas pedras e no que
ellas exprimem, na alvenaria e castanho assentes com outro destino...
Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras.
Silencio e humidade at  medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma
rua desce at  egreja de cantaria lavrada. Um predio enorme avana
sobre a ruella onde os passos echoam. Cresce aqui uma vegetao especial
de sepulchro, e a sombra absorvida pelas muralhas da S exhala-se em
bafo passado um seculo. Os alicerces so temerosos, as traves d'uma casa
davam para a construco d'um bairro. E tudo isto se entranhou de
salitre, de interesse e de odio. Em tudo isto h uma mescla de
inutilidade, de f e de sonho. Tudo isto est cimentado para seculos.
Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para
se lhe erguer em cima no uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma
alma--tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. At
os sepulchros foram construidos para a eternidade. A pedra depois de
talhada,  uma expresso. Entro na cathedral. Silencio e um cheirinho a
floresta apodrecida. As lages esto gastas d'um lado pelos passos dos
vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da
mesma ideia... A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo
de estatuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma
gerao, outra gerao, todos apodrecendo juntos na mesma terra
misturada e revolvida. A parte exterior  maravilhosa, a parte
subterranea  mais maravilhosa ainda.  a unica raiz que se conserva
intacta.

Aqui no andam s os vivos--andam tambem os mortos. A villa  povoada
pelos que se agitam n'uma existencia transitoria e baa, e pelos outros
que se impem como se estivessem vivos. Tudo est ligado e confundido.
Sobre as casas h outra edificao, e uma trave ideal que o caruncho roe
une todas as construces vulgares. Sob um grito outro grito, sob uma
pedra outra pedra. Debalde todos os dias repelimos os mortos--todos os
dias os mortos se misturam  nossa vida. E no nos largam.


Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam todos os dias as
mesmas aces e se repetem todos os dias os mesmos gestos... Aqui s h
um pensamento fundamental: fugir  morte, protestar contra a morte, que
 a mais viva de de todas as realidades, que  talvez a unica realidade.
Protestar, contra as foras desabaladas, pelo sonho, em espirito ou em
pedra, que se erga deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da
paciencia e da mentira, todo o esforo do homem tende para outro homem,
para o homem ideal, para a figura de sonho, que h-de sr um dia a
creao dos vivos e dos mortos--o sonho realisado--o universo realisado.
A vida ideal, a vida artificial, como a do granito, representa a mesma
tentativa da mentira contra a verdade e a obstinao sobrehumana dos
mortos para suprimirem a morte.

A vida em si  o mais profundo de todos os horrores,  o esforo
inconsciente da larva repetindo as mesmas aces instinctivas, que o
destino nos impe. Tudo que nos rodeia  monstruoso; o que nos rodeia de
negrume vae desabar sobre ns, reclamando dr, reclamando gritos e
sustentando-se de gritos. Separa-nos um fio. S com a condio de no
vermos a realidade  que podemos viver. Para a esconder erguemos a
cathedral immensa, reconstruimos o universo todos os dias pelo esforo
dos vivos e das geraes passadas. E toda esta mentira tragica a
levantamos at ao co a poder de palavras e com a fora magnetica das
palavras.


No s os sentimentos criam palavras, tambem as palavras criam
sentimentos. As palavras formam uma architectura de ferro. So a vida e
quasi toda a nossa vida--a razo e a essencia d'esta barafunda.  com
palavras que construimos o mundo.  com palavras que os mortos se nos
impem.  com palavras, que so apenas sons, que tudo edificamos na
vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas
palavras?  preciso crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis,
em carne viva, que traduzam a colera, o instincto e o espanto.


Mas se tudo so palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta
afinal? Gritos em frente de gritos, instinctos em frente de instinctos.
Fica a morte  solta e o instincto  solta. Ficam os mortos de p--a
cohorte que no queriamos vr, erguida, como o vento ergue a poeira, at
aos confins da vida.

A D. Adelia no existe, o que aqui est vem de muito longe. Est aqui a
paciencia com um chale, a mentira com uma cuia de retroz--esto aqui
espectros. O que aqui est, com o infinito em cima e o infinito em
baixo, so phantasmas. Todos praticam as mesmas aces banaes entre a
vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e ouo o grito de dr,
emquanto as mascaras se transformam e a materia se decompe. Eu vejo o
que ha dentro deste sr, que no tem limites, o que ha dentro deste sr
de real e verdadeiro. Cada um assume propores temerosas. Cahem l
dentro palavras, sentimentos, sonho-- um poo sem fundo, que vae at 
raiz da vida.  superficie todos ns nos conhecemos. Depois ha outra
camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do que  capaz,
ninguem se conhece a si proprio, quanto mais aos outros, e s 
superficie ou l para muito fundo,  que nos tocamos todos, como as
arvores duma floresta--no co e no interior da terra. Do mais baixo
ainda veem terrores, ancias, desespero...


Agora o homem existe em toda a sua plenitude. Anda hoje no universo como
andou sempre no universo. Para elle no h passado nem futuro porque
elle  o passado e o futuro. A villa tomou outras propores e sente-se
n'outras mos. Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem lhe
dera no vr! Para no te aturar vida sfrega e doirada, tive de me
revestir de casca como as arvores, porque no principio todos fomos
phantasmas. E agora no sou eu quem falo--so elles que falam! O que as
figuras representam vem do fundo dos fundos--o que ellas teem de
transitorio e o que ellas teem de temeroso, desde o homem que no bole
junto das fazendas petrificadas, at  impenetravel D. Ursula, que remoe
entre dentes o pavr. O que me parecia gelatinoso  uma fra immensa,
este habito ridiculo um principio de sonho. A paciencia e a mentira so
aspectos da dr, e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os
penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se entre phantasmas e
phantasmas, n'um ciclone de desespero e gritos. Cada boca fala por
outras bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel e vinagre, 
uma figura tremenda. Todos os dramas teem a mesma
assignatura--Shakespeare. As aces veem dos confins dos seculos e o
proprio mal no  um acto individual. O crime  sempre a aco impulsiva
ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime  preciso revolver
camadas de phantasmas. Desperta echos adormecidos at no sei que
profundidades. Pe em debate este mundo e o outro mundo, e d'ahi a
fascinao que exerce em todas as almas. A vasa no na jogam s figuras
somiticas: de cada sr paciente e sordido arranca-se outro sr
ilimitado. Vejo no escuro as outras figuras atentas sobre o jogo...
Esto aqui as velhas amarradas por quinhentos annos  mesma mesa da
bisca. Est a inveja, e a inveja esverdeada torce-se sob o olhar da
magestosa Theodora. Est a paciencia, e a paciencia sorri deante da
magestosa Theodora. Est aqui a mesa de jogo projectada no infinito, com
sres que se no podem vr, e que ho-de cohabitar acorrentados por
quinhentos annos. Ha ocasies em que vomitam as peores injurias; s
vezes torcem-se e soltam ais sobre ais represos.--Jogo!--E a bisca segue
pela eternidade fora.--Corto!--Tambem eu atravessei o inferno e tenho
saudades do inferno!--E a magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo
do inferno.  o momento decisivo, quando, de p, em roda da mesa, onde
fram insignificantes, se vem umas s outras. Peor momento  quando a
si proprias se vem, quando se chocam como ferros, e seus olhos adquirem
tal percepo que no so s ellas que olham, quando ao espanto se junta
espanto e no so s ellas que falam, mas muitas outras vozes, e no s
as suas figuras gesticulam mas muitas outras figuras. Um momento, um
seculo, e eil-as at aos confins. Todas as bccas prgam de cada vez
mais fundo...

Cada bocca se abre no escuro como se fosse o abismo; as boccas falam por
muitas boccas que no tem nada de humanas e que moem e remoem com
escarneo e baba; por boccas franzidas s pelle e espuma; por boccas sem
dentes; por boccas ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem
veneno; por boccas que se desesperam de ser boccas, para se fazerem
ouvir.

E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre ellas e sobre as figuras
invisiveis que arfam de desespero at  raiz da vida...


N'esse instante vmos todos os sres extraordinarios que no tinham
entrada no mundo; n'esse instante toda a villa est de p, a villa
tragica, com os vivos e os mortos e o drama profundo das almas que toca
no co e no inferno. Eis a villa como no torna a aparecer outra na
terra, e que dura um minuto e um seculo. Cada figura escorre dr, no s
a dr propria, mas a do tumulo, cada figura  um sr d'espanto. At tu,
no relampago antes de te curvares sobre a meia que j tem vinte metros
de comprido,  prima Angelica,  figura tremenda de inepcia, que tambem
achaste sabr  vida e logo te fechaste com elle na escurido cerrada da
idiotia--at tu, pela maneira como apertaste a mandibula, pelo olhar que
se fitou no meu olhar e veio da espessura dos seculos, descobriste no
sei que mar nunca d'antes navegado, no sei que dr transida e doirada,
no sei que mysterio que no fala, que no pode falar, mas que est,
real e patente, aqui ao lado e na nossa companhia...


H--sentimol-o! vmol-o!--foras que tacteiam para l e augmentam o
nosso desespero.  talvez Deus que nos quer falar e que no pode, ou que
fala e no o entendemos.


No so s os grandes fluidos que se entrechocam sobre a villa, h outra
coisa que a todos os momentos nos reclama... E  um milagre que toda
esta architectura--que no existe! que no existe!--se sustente de p e
no vacuo, baseada em palavras e sons, e que joguemos a bisca de tres na
encrusilhada da vida e da morte. Mais:  um milagre muito maior ainda
que consigamos cerrar os ouvidos  fora que bate estonteada  nossa
volta e que faz esforos desesperados para communicar comnosco. No tem
bocca para falar, mas tenta, n'uma dr muda, fazer-nos comprehender
algumas noes que transformariam o universo. s vezes estamos por um
fio...--perdemo-nos logo n'uma escurido que tem leguas de distancia.
Bom  cerrarmos os ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto
desaparecia no ar...


Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em que no nos distinguimos na
floresta apodrecida! A vila  immensa, as figuras so immensas, s dr e
sonho--jacto que vae de polo a polo e onde no existe nem vida nem
morte. Na floresta putrefacta o tempo e o espao desapareceram: s
existem sres estranhos e arvores estranhas. O que ns viamos eram
sombras projectadas n'um muro. Mais um passo e todos sahimos doirados
d'este mergulho no sonho--outro passo ainda e s existe uma fra
frenetica e immensa, desesperada e immensa...


Agora  que ella anda  solta! agora  que ella anda  solta!




A ARVORE


     15 de setembro

Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que d sombra e ternura--uma
velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio
morto de cansao e de mentira deito-me ao p d'ella e renaso. Todos a
aproveitam--para o lume--para traves--para o caixo.


 filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.


A dr afeioa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignao. E
depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.


Pouco e pouco a ternura torna  supurao. A filha desapareceu. Sabe que
a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pra n'um hospicio, e vae l
buscal-a. Caso extraordinario: v mais naturalmente a desgraa da filha
do que a pobreza da D. Hermengarda.  a sua senhora. Limpa-lhe a baba e
cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de co h uma
inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e
a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Est afeita.
Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis
vintens, doze vintens... De dia carrega bahus,  noite o quadro  este:
a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico
na cabea, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.

No ouve, creio mesmo que no pensa. Os seus gestos so conduzidos por
outras mos, atraz d'ella h outras figuras at  raiz da vida, que
embalaram beros, choraram sobre a desgraa e tomaram para si o quinho
mais pesado. At j nem  Joanna que fala, mesmo para contar a sua
historia. Ou s, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:

--E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu
disse-lhe:--Deita-me ahi po quente n'uma malga com meio quartilho de
vinho.--E vae ella disse-me:--Tenho ahi po velho, no enxerto o
outro.--E vae eu disse-lhe:--As bagadas que tenho chorado caiam sobre
ti.

No sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras
velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dr. Se
lhe falam dos ladres finge que no entende. Se insistem, a Joanna
responde com olhos de pasmo:

--Os ladres davam-me uma tigela de caldo.

No soube nada na vida, no foi nada na vida, no percebeu nada da vida.
Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de loua para lavar, de
carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a,
engrandeceste-a!...


Deante do universo  menos que um caco,  um pobre corao usado pela
dr. O ultimo gesto que a Joanna faz,  o seu primeiro gesto, mas
esboado apenas, como quem segue um fio j muito tenue de sonho que no
tem fora para levar at ao fim, o de aconchegar uma creana ao
peito--gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo,
repetido pelas successivas imagens de mulheres j desfeitas em p,
repetido no futuro por milhares de sres incriados.

O trabalho da vida  persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma
pedra sobre outra pedra No  s por fra que creamos rugas: por dentro
a usura  immensa. S a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a
dizer era como se formou esta alma e eu no sei dizel-o. Por fra
farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flr. Um fio
d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da
Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe s mos e aos trapos que a
vestem. O que eu no dou  a expresso, o que eu no dou  a luz.
Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impe-se-me pela expresso
maxima da dr. A Joanna debrua-se sobre uma grandeza com que no posso
arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem s ella no mundo
no se importa de morrer.


Talvez a morte seja para ella a vida.


Esta luzinha viaja h muitos milhares d'annos.  como a falha d'uma
estrella, perdida na immensido, que lhe custa a chegar  terra. E
caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito--sempre. Por
isso ella teimava:--O menino est vivo!...--Por vezes parece que se
apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada h seculos.
Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto:  que ella 
conduzida por uma mo enorme. A sua ternura  instinctiva, a sua
humildade  instinctiva... Pare. Pare a desgraa. Cria.  a velha que
tira a codea  bocca para a dar aos netos.  a velha que encontraste h
bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto 
cabea desde o principio do mundo, e ainda o no poude pousar. Embala os
beros. Pega nas creanas ao collo. Desde o principio do mundo que estas
mos asperas amparam. No  uma figura-- uma serie de figuras...


     16 de setembro

O desabar da chuva l fra dil-o-hieis no exterior, mas ligado ao teu
proprio sr: so lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escurido
opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a
alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma
dr. Este cheiro a pobre, estes traos corrodos pelas lagrimas, estes
typos amolgados pela desgraa, povoam-me a noite toda e dizem bem com o
desabar ininterrupto de lagrimas l fra. Outra coisa exprimem as
figuras denegridas que vo aparecendo por traz da figura da Joanna...

Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que me e reme
obstinado uma codea de po. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando
morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braos para a
enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre,
junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos
debruada sobre o catre:

--Vocemec conhece-me? vocemec conhece-me?

Os olhos no se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o
alvio, a enxada e a manta no fio. A cabea branca mirrou, a pelle 
como a crosta que calcamos. Tem no sei qu de raiz, tem no sei qu de
tronco, afra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo
revestiu-o da mesma cr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela
grandeza e pelo silencio s o comparo  pedra. Tudo isto foi pedra. Elle
e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida est ligada  vida da
terra. Creou-a.  terra s falta comel-o.


Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos,
poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, h
muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mos como pedras,
pelle como a tua pelle.


A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De
revolver a terra criou casco e um olhar profundo. S o comparo a
Christo, a um Christo que tivesse vindo at  velhice, de desiluso em
desiluso e de desamparo em desamparo.


Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz:--O corpo pede-me
terra:--A pobre, com um sacco de estopa s costas, espera a esmola e
reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage
compacta. A pedra pega pedra. As mos tem terra nas rugas desde que
lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle,
entranhada na alma.

O casebre  de pedra,  de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao corao
do monte. Por tecto uma trave e colmo, por cho terra batida. A casa
tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflio, tudo no mundo deita as
mesmas raizes. Uma casa no  s alvenaria:  dr e vida e morte. A
arvore tambem aqui entra: a arvore  uma construco viva.


A me ficou prenhe. Eram to pobres que, para o que havia de nascer, s
amanharam um panninho, duas camisas e um leno. Vieram as dres e
nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o leno e o panno ao
meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a
chorar dando um seio a cada um.


Mais outras figuras se destacam ainda da noite. So de terra e pedra,
so figuras deshumanas. Remem o po devagar, e o fumo sobe pela parede
e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra  um
calho arrumado  parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite
funda, todos os mortos esto alli presentes e atendem... A pedra tosca
do lar, a pedra salitrosa  volta da qual se juntam,  muito mais que um
calho. A pedra  sagrada.

Est alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como ao, e dias
aps dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro at  raiz. Um
delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabea encostada ao
granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter.
Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a
mesma dr, que no sabem exprimir.

A cr  a cr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso
da vida e a terra entranhada.

 o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na
mulher as lagrimas. Ficou s a expresso descarnada, como nos montes,
como na propria casa onde as coisas so simples e eternas. Pariu-lhe
alli a mulher, entrou-lhe l dentro a morte. E as palavras reduziram-se
tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a
femea teem que dizer um ao outro. S o mrro consegue deitar um fio
d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflio
para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.


O escuro gera uma serie infinita de mulheres... H em todas um momento
de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea
encardida est velha. Est velha de fome. Est velha de trabalho. Ella
carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir 
villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de
jornal. Ella pesa o po e reparte-o, ficando com o quinho mais pequeno.
Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraa, e com os
annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas,
salientam-se traos, e a mesma cr humilde reveste a mulher e a
alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia
d'amanh; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a
vida, todos os dias se vo amalgamando, luctando, empurrando com
desespero, at se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso
da dr e pelo uso das lagrimas.

Ssinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda
ternura. Curvam-se sobre os beros, vo pedir pelos homens. E sobre isto
ignoram-se.

--Me--pergunta a filha mais moa--me que coisa  casar?

E ella responde como sua me lhe respondera:

--Filha,  fiar, parir e chorar.

A vida  uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado
mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que
as no ouam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as
trouxeram pela mo, entre as coisas familiares, o frno, o lar, os
potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a me, nasceram tambem os
filhos.


H seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. H
seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a
terra. H seculos que comem o mesmo po e a mesma usura os leva at 
cova. H seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma
agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes
falaram a ellas. O que se gasta, o que a dr e a vida consomem,  a
parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras do sempre o
mesmo po escasso, no monte no se estanca o fio d'agua, que, como o fio
de ternura reproduz a vida e remoa sempre quatro palmos d'herva. A
mulher, esta ou outra, chora, debruada sobre a maceira, pare com dr no
mesmo catre, morre com dr na mesma enxerga.


E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro
saem gemidos. A casa desapareceu: s correm lagrimas. Sinto uma mo que
procura a minha mo, e uma voz que me diz ao ouvido:

--Escuita! escuita!

 a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que s tem de seu
a saia que traz vestida, que mistura lagrimas s minhas lagrimas.

--Escuita! escuita!

E aquece-me as mos com bafo.


E se remexo o brazeiro--vejo outras figuras, outras ainda, at ao inicio
da vida. Esto alli o av, os avs, os jornaleiros. A um, to entranhado
de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e
disformes--outros como terra--outros como arvores decepadas--outros como
fome e que mal sabem exprimir-se--outros a quem s se vem as mos
nodosas--e a serie sumida de mulheres, bronco e dr, que a vida
consumiu, e que procuram debruar-se para ouvir... To longe! to
longe!... Mal descortino j a luz to pequenina e humilde, mal distingo
a vida na treva condensada--uma luzinha de candeia, que h seculos vem
de mo de mulher em mo de mulher... Tudo volta  cinza. Diante de mim
est sosinha a Joanna, que me mostra as mos rodas, as mos enormes, as
mos s dr...



O mundo  feito de dr--a vida  feita de ternura.




PAPEIS DO GABIRU


     20 de novembro

Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece um dia nublado, outro dia
alvoroce negro e aspero. O vento abala a pedra sobre que  construido o
casebre. O inverno tem a sua voz propria, a sua cr, o seu vestido em
farrapos com que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fra. Mas o
inverno  sonho. S agora o comprehendo.  sonho concentrado: sob esta
casca resequida est uma primavra intacta. Esta voz clamorosa  a voz
dos mortos. Uma pausa, a prostrao da tempestade, e depois redobra o
clamor... Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocao reconheo esta voz
que me chama. E depois a tempestade, novos gritos, a escurido
profunda...


L andaremos todos no tarda! l andaremos todos no tarda!


E ouo sempre a mesma voz:

Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!


Saudade, saudade de tudo, at do fl, saudade de te no sentir ao p de
mim. Tenho saudade da vida. S poder aquecer-me ao lume, s sentir o
lume n'este inverno sem limites, n'este frio de morte--sem outra
primavra! O que a vulgaridade sabe bem! o que a materia sabe bem!


No vejo. Ceguei.


Disperso-me, e por mais esforos que faa, sinto-me desagregar: perco
pouco e pouco a consciencia de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco
mais. J no tenho lagrimas.


Quem me dera a desgraa!


E uma pena da vida! uma saudade da vida! uma tristeza de no poder
misturar-me  vida! A vida--e um cantinho do lume, a vida banal, a vida
comesinha... Tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.


Vive devagarinho. Aquece-te  restea do sol como quem nunca mais tornar
a aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.


Deixa que sobre ti caia o p d'oiro. Vive-a.


Tu s a nuvem, tu s a arvore. Enche a consciencia de todas estas
coisas, porque no tardars a perdel-a.


Vive--no tornas a viver. Pe d'acordo a tua alma com a pedra, extrahe
encanto do co e da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!


S agora dou pelo sabor das lagrimas.


Sorri, esquece, dorme, sonha...


     21 de novembro

No me comprehendo nem comprehendo os outros. No sei quem sou e vou
morrer. Tudo me parece inutil, e agarro-me com desespero a um fio de
vida, como um naufrago a um pedao de taboa.


Nem sei o que  a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta
saudade, a esta dr; chamo vida e morte a este cataclismo.  a
immensidade e um nada que me absorve;  uma queda immensa e infinita,
onde disponho d'um unico momento.

Talvez o mundo no exista, talvez tudo no mundo sejam expresses da
minha propria alma. Fao parte duma coisa dolorosa, que totalmente
desconheo, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dr ligada  minha
dr, consciencia ligada a minha consciencia.


Estou at convencido que nenhum d'estes sres existe. Este fl  o meu
fl, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto so
apenas expresses de dr--e mais nada.


Ns no vemos a vida--vemos um instante da vida. Atraz de ns a vida 
infinita, adiante de ns a vida  infinita. A primavra est aqui, mas
atraz d'este ramo em flr houve camadas de primavras d'oiro, immensas
primavras extasiadas, e flres desmedidas por traz d'esta flr
minuscula. O tempo no existe. O que eu chamo a vida  um elo, e o que
ahi vem um tropel, um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E nenhum
grito  inutil, para que o sonho vivo ande pelo seu p. A alma que vae
desesperada  procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e
dorida, a cada grito se aproxima de Deus. L vamos todos a Deus, os
vivos e os mortos.


O mundo  um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma n'este turbilho
infinito e perpetuo, n'este movimento atroz? O mundo  um sonho sem um
segundo de paz. A dr gera dr n'um desespero sem limites.


Eu no sou nada. Sou um minuto e a eternidade. Sou os mortos. No me
desligo disto--nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto
aos gritos.


Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mos
d'uma coisa desconforme. Sinto-me nas mos d'uma coisa embravecida pela
eternidade das eternidades. Sinto-me nas mos d'uma coisa immensa e
cega--d'uma tempestade viva.


Toda a vida est por esplorar: s conhecemos da vida uma pequena
parte--a mais insignificante. E o erro provem de que reduzimos a vida
espiritual ao minimo, e a vida material ao maximo. O homem  um S. F.
ligado a todo o universo.

Deus  eterno com a mascara sempre renovada. A alma h-de acabar por se
exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa bocca,
h-de acabar por falar claro.

Est tudo errado. S h um momento em que o comprehendemos. Mas n'esse
momento j no podemos voltar para traz.  quando, fazendo ainda parte
dos vivos, fazemos j parte dos mortos.


No s a sensibilidade  universal--a inteligencia  exterior e
universal.


O universo  uma vibrao. A vida  uma vibrao na vibrao.


A materia tambem existe em estado de nublosa--isto  um estado de dr.


Toda a theoria mechanica do universo  absurda. D'ahi a alguns annos
todos os systemas sero ridiculos--at o systema planetario.


O sonho completo  o universo realizado.


     23 de novembro

H dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mos da morte. H
dias em que no distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a
este sonho...

...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu s o meu sonho
phrenetico. No h outro maior. Cheguei ao ponto em que te no distingo
da vida. Tu s a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua
deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida
e avana desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que no me
metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. S tu agora me
prendes os olhos e de ti no posso arrancal-os. s o unico misterio que
me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que s de ti
espero. S tu resolves e explicas. S tu acalmas. Acceito-te mas
intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais
torpe--bem funda  a noite e est cheia de luzeiros:--recebo-te, mas
como um passo a mais para outra iniciao, para outro assombro, e at
para outra dr se quizeres, porque da dr extraio mais belleza, mais
vida e mais sonho.

...E contudo esta resignao  ficticia... No, nunca acordei sem
espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!


Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro.  ternura,
desgraa o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de
iluso, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos.
Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilho do
lodo. Mata-nos. Mas, um momento s que seja, obriga-nos a olhar para o
alto, e at ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.




TERCEIRA NOITE DE LUAR


     25 de novembro

Ha no mundo uma falha. Os poentes so labaredas rxas com resquicios de
escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo
co--uma maravilha chimerica. A outra primavra prolonga-se:
superabundancia de flres nas arvores, espiritualidade na materia, como
se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flres, mais
poentes onde o oiro e o rxo predominam, mais gritos no mundo, mais
vulces de cres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado,
esquisito, insuportavel dentro de ns proprios, que comparo ao som d'uma
borboleta esvoaando contra as paredes d'um vaso.


 a morte que faz falta  vida.


Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se
misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixes, e
essa alma envolve, penetra e reclama dr. Formam-se tempestades e
terrores electricos. Anda vida, desencadeia catastrophes, desaba
desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se-- peor: ninguem
lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes
incendios no co, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de
cr, em abismos rxos, paira em campos ethereos de uma serenidade
elysea. So talvez os mortos que reclamam mortos.  talvez a vida
universal perturbada. So outras geraes esquecidas, camadas informes
de que ninguem suspeita o nome, legies sobro legies incognitas-- a
vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.


E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouo passos e
vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos
se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que no
viveste queres agora por fora viver; tu que no mataste queres agora
por fora matar. Mais mortos desde o inicio--maior mixordia. Todo o
esforo era para virem  supurao. Atraz d'uma camada havia outra
camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os no
deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamo, nem se disseram
palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa
desconforme, e s vezes por uma fresta irrompia a claridade do
inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em
fumo.


O que era vida irreal,  agora realidade, o que era vergonha, ninharia e
ridiculo,  a vida agora. O que toma p so os sonhos, o que se agita
so as paixes desregradas. No ha limites nem peias. Vem-nos como eu
te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse
possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixes.
Elles so aquillo que ocultamente desejavam ser, so o que no se
atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. 
esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel.  esse.
Todo o homem  uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os.
Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixes  que formam as
figuras que actuam na vida.


Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar
branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de
figuras e d'aco at aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida
monotona e incerta, s se realisavam duas ou tres horas de exaltao. A
vida agora  uma exaltao perpetua.

Tudo mudou: a arvore no existe como a pedra no existe. O unico mundo
real  o mundo irreal. Todos ns andamos a crear um mundo que  o unico
verdadeiro--os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan
para o mesmo fim. J a materia se adelgaava... O mundo ideal  o mundo
da dr, do sonho, e o universo reconstruido,  o maior dos dramas--com a
vida oculta ao lado--e cada dia tem o peso d'um seculo.


As creanas e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio
atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia
e extracto de vida, sentimentos que se no coadunam. Tenho vontade de
fugir para onde no oua o silencio... Avana direita a mim a floresta
apodrecida. Mais perto! mais perto!

Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as
peores ruinas. Esta vida  feita de todos os nossos esforos e dos
esforos do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu
queres falar com a tua voz,  que as ordens so mais cathegoricas e o
conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho,
inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta
ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos
phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...


 que a vida no s tu nem eu, a vida  uma massa confusa e heterogenea,
um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade
electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos.
No  um detalhe-- um panorama.  um immenso farrapo dorido. Anda aqui
a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas.  to necessaria a
este fluido a dr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda
aqui a primavra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda
para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e
a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma no vive sem a
tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte.
Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que h-de ser arvore e o
tronco que se desfez em luz.  um sr immenso a que no vejo seno
partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz no se distingue da sombra
nem a vida da morte. A vida est to feita adeante de ns como atraz de
ns. Est to feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda no
existe, o passado j no existe. E tudo isto se congrega. A vida
absorve-me e ponho-a em aco. Impregna-me e fao-a caminhar.
Pertence-me e perteno-lhe.  o passado e o futuro--Jesus Christo vivo,
Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.


     26 de novembro

Estamos  superficie d'esse oceano embravecido, e o impulso vem das
camadas mais profundas, das camadas informes. So todos. So at os que
nunca tiveram olhos para vr, os sres esboados, com mos rudimentares,
aparencias d'arvores e de figuras mutiladas.  a terra viva.


 s sonho,  sonho estreme e dr estreme. Cada um assiste  projeco
da sua propria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem
emfim as dimenses de dr, que as palavras, as regras e os habitos lhe
no deixavam ter. Cada alma  desmedida e tragica e vem desde os confins
da vida at ao infinito da vida. Cada um na floresta entontecida
representa o maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada sr  emfim um
sr completo e doirado, atinge a belleza e Deus.

As florestas j mortas, a luz das estrellas desaparecidas no cahos--tudo
aqui est presente. O esforo dos mortos, o sonho dos mortos, o
desespero dos mortos sobre mortos, o reflexo de ternura, a mo que
amparou, a bocca que sorriu, levadas pelo vento que soprou h dez mil
annos, aqui esto vivos. Aqui est vivo o sonho que sonhamos todos, o
primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de seculo em seculo, assim
como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da
terra, o primeiro resquicido, o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui
est na floresta embravecida. E, com ou sem bocca, com ou sem
consciencia, nunca mais deixarei de andar n'isto, disperso, amalgamado,
confundido, de fazer parte d'este drama, queira ou no queira, proteste
ou no proteste. Tudo  inutil, todo o esforo inutil, todas as palavras
inuteis. Reconheo-o. Mas no me canso de prgar, no posso deixar de
prgar, at cahir vencido e exhausto dominado e deslumbrado. Na floresta
embravecida, em que todos participam do mesmo sr, at a mulher da
esfrega encontra emfim Jesus:

--Ser vocemec o Jos do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos
ricos?

--Sou um pobre de pedir.

--Ser vocemec Nosso Senhor Jesus Christo que veio ao mundo para nos
salvar?


     30 de novembro

Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que
me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os
outros? So elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os
mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se aulam
entre mim e mim. Reconheo-os. O gesto esboado h milhares d'annos, e
perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou
n'uma bocca ignorada, faz cho no mundo. Todos os sonhos so realidades,
os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. S
os sonhos so realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha
vermelha de polo a polo.


Aqui est agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte,
passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui est a arvore, e
era a isto que se chamava a arvore! Aqui est a pedra e era a isto que
se chamava a pedra! Aqui est o co e era a isto que se chamava o co!
Reconheo-vos.


A morte encontra-se s--cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo co como
um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos--de desvario em
desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de cr, abre a cauda
de oiro, de trambulho em trambulho...


A morte faz estremecer o mundo at  raiz. A morte j no tem a mesma
significao. A morte  agora inutil e anda  solta no infinito,
desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O
drama que se passa em cima  maior que o que se passa em baixo.  peor
este tumulto de inferno, este clamor de que me no chegam as vozes, esta
fora incoherente de p--todas as foras de p--posta a caminho para o
desconhecido.  peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em
cima.


Reconheo o grito que sae da noite. So os vivos e os mortos... Mas
ento que significao tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no
meio d'esta balburdia, d'esta escurido cerrada, d'este doirado feroz,
d'este redemoinho sem nome? Para que  que eu existo e tu existes? Para
que  que eu grito e tu gritas? Isto no s tu! isto no sou eu! Isto 
a vida temerosa, de que no representas seno uma insignificante
particula. Tu no s nada, a vida  tudo. O combate  incessante entre
os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo
tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.--Oh eu
quero crr!--Porque  que gritas?--Fecha os olhos! fecha os
olhos!--Agora sou eu quem falo! Agora so elles que falam!...

Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheo! Capaz de tudo, capaz de
baixezas e capaz de sacrificios. To pequena! to tranzida! No vales
nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste
arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a
iluso, a tinta do co, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu!
eras tu!... Tem-me custado a dar comtigo, to mesquinha e capaz de
povoares o co de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo.
Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca
satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida
amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontres contra a
massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella
de sonho. Fste a melhor e a peor parte do meu sr.


Eras tu! E pude com esta enxurrada de cres, de tintas, de impulsos, a
instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dr! Fiz
parte da dr. A desgraa viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com
a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de
palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D.
Ingracia? Suportei a vida--suportei tudo. Que importa a tua mentira, se
atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?


Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?


E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um
estremeo no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito
que acorda mais sonho e gera novo desespero.


Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a
caminho.


O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam
ao mesmo tempo de p para essa coisa immensa e doirada, n'um
deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada,
esto aqui de p ao nosso lado.

E o pezo  cada vez maior. At agora viviamos com elles, respiravamos
com elles, mas no sentiamos o pezo d'essa poeira viva que  a sombra e
a luz. Agora no podemos com elles...


E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos:
o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um
grito em cima.


E as mulheres das viellas pem-se a chorar, os ladres das estradas
desatam a chorar...


O uivo no cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Ns proprios?
O homem que range por no poder suportar a vida? O grito domina tudo,
trespassa o globo e echa no mundo.


E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se
entranhou de salto na vida, outro turbilho arrasta os homens.
Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no
infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de cr, na dr que
tomba desgrenhada de quda em quda. Todo o mundo se transforma a nossos
olhos. Cada sr augmenta como se encerrasse em si a vida at aos confins
dos seculos. O passado no existe, o futuro redobra de propores.
Perdeu-se a noo da desgraa e a noo do tempo, e a nodoa de sangue da
Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra
entre os astros, de lez a lez, na profundidade do co.


Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre mais alto e cada vez mais
fundo?...-- preciso matar segunda vez os mortos.




INDICE


                                      Pags.

A villa                                   9
O sonho                                  25
A villa e o sonho                        43
Papeis do Gabiru                         63
Atraz do muro                            67
O sonho em marcha                        77
Fevereiro                                95
A mulher da esfrega                     101
Papeis do Gabiru                        117
Outra villa                             123
Deus                                    133
O dever                                 141
A velha e os ladres                    149
Dialogo dos mortos                      159
Primavera eterna                        167
Deus                                    191
Co e Inferno                           197
A arvore                                211
Papeis do Gabiru                        221
Terceira noite de luar                  227




     ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTA 2.^a EDIO NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO
     DO BRASIL, (ALMANAK LAEMMERT) R. D. MANOEL, 62--RIO DE JANEIRO AOS
     5 DE JANEIRO DE 1921




ANTHOLOGIA UNIVERSAL


VOLUMES PUBLICADOS


     1--Manuel Bernardes--Historias varias.

     2--Soror Marianna--Cartas de Amor, nova restituio e esboo
     critico de Jaime Corteso.

     3--Jos de Alencar--Iracema, edio prefaciada por Mario de
     Alencar.

     4--Almeida Garrett--Frei Luiz de Sousa.

     5--Gonzaga--Lyricas (Da Marilia de Dirceu), prefacio e notas de
     Alberto de Faria.

     6--Ferno Mendes Pinto--Em busca do Corsario.

     7--Carlos Dickens--Canto do Natal, traduco de D. Virginia de
     Castro e Almeida.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+-----------+-------------------------+---------------------------+
|           |        Original         |         Correco         |
+-----------+-------------------------+---------------------------+
| #pg. 10  | insigniifcancia         | insignificancia           |
| #pg. 18  | aborecida               | aborrecida                |
| #pg. 19  | stamos                 | Estamos                   |
| #pg. 21  | peem                   | pe em                    |
| #pg. 23  | intincto                | instincto                 |
| #pg. 43  | infintio                | infinito                  |
| #pg. 49  | bolr e e nos           | bolr e nos               |
| #pg. 55  | a luxuria               |  luxuria                 |
| #pg. 57  | chumpo                  | chumbo                    |
| #pg. 59  | Dabalde                 | Debalde                   |
| #pg. 60  | gente de vive           | gente que vive            |
| #pg. 61  | pino do varo           | pino do vero             |
| #pg. 74  | Escutas                 | Escusas                   |
| #pg. 78  | qeu                     | que                       |
| #pg. 107 | oubtras                 | outras                    |
| #pg. 119 | entretento              | entretanto                |
| #pg. 136 | conscienia              | consciencia               |
| #pg. 143 | phantesma               | phantasma                 |
| #pg. 147 | superioridaed           | superioridade             |
| #pg. 153 | perdia                  | perdi-a                   |
| #pg. 155 | Meti-tudo               | Meti tudo                 |
| #pg. 155 | ronhar                  | sonhar                    |
| #pg. 156 | mair                    | mais                      |
| #pg. 162 | conduizdas              | conduzidas                |
| #pg. 162 | paquenas                | pequenas                  |
| #pg. 165 | faiza                   | fazia                     |
| #pg. 170 | de de todo              | de todo                   |
| #pg. 175 | papel doirada           | papel doirado             |
| #pg. 180 | transitos               | transidos                 |
| #pg. 180 | tempertade              | tempestade                |
| #pg. 182 | nos somos               | ns somos                 |
| #pg. 188 | dizeram                 | dizerem                   |
| #pg. 201 | auterior                | anterior                  |
| #pg. 206 | infniito                | infinito                  |
| #pg. 209 | desesdero               | desespero                 |
| #pg. 222 | conssiencia             | consciencia               |
| #pg. 234 | povoares e co          | povoares o co            |
+-----------+-------------------------+---------------------------+

Nesta obra surgem variaes de palavras, como por exemplo, "sobterraneo"
e "subterraneo". Mantivemos as variaes como as encontrmos no
original.

Na pgina 38 encontramos linhas repetidas. No original lia-se "(...) a
meu lado.  a essa ninharia que  a vida que deito as mos com sem a
sombra da morte a meu lado.  a essa(...)". Aps verificao de diversas
verses, removemos a frase a negrito, por considerarmos que se tratou de
um erro na impresso.

Na pgina 149 encontramos linhas repetidas. No original lia-se "(...)
enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez, dilhadas. Duas, tres
horas da madrugada talvez... (...)". Aps verificao de diversas
verses, removemos a frase a negrito, por considerarmos que se tratou de
um erro na impresso.

Em situaes pontuais substitumos vrgulas por pontos e vice-versa,
para respeitar a capitalizao presente no original.

Adicionmos o captulo Atraz do muro uma vez que este no figurava no
ndice.





End of the Project Gutenberg EBook of Humus, by Raul Germano Brando

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HUMUS ***

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providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
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Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation information page at www.gutenberg.org


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887.  Email
contact links and up to date contact information can be found at the
Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

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Literary Archive Foundation

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($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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