The Project Gutenberg EBook of Continuao do Portugal enfermo por vicios,
e abusos de ambos os sexos, by Jos Daniel Rodrigues da Costa

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Title: Continuao do Portugal enfermo por vicios, e abusos de ambos os sexos

Author: Jos Daniel Rodrigues da Costa

Release Date: March 23, 2010 [EBook #31744]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTINUACAO DO PORTUGAL ENFERMO ***




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                              CONTINUAO DO

                             PORTUGAL ENFERMO

                           POR VICIOS, E ABUSOS

                             DE AMBOS OS SEXOS.


                                _PART. II_


                            DEDICADO AO SENHOR

                            JOS LUIZ GUERNER,

                        CONSUL DE S. M. SICILIANNA,

                                   POR

                      JOS DANIEL RODRIGUES DA COSTA,

                         ENTRE OS PASTORES DO TEJO

                             JOSINO LEIRIENSE


                                  LISBOA:
                            NA IMPRESSO REGIA.
                                 ANNO 1820

                              _Com Licena._




_Em louvor do Autor, hum Genio dado s Musas, bem conhecido, e muito
applicado, mandou o seguinte_


MADRIGAL.

    Musa, (disse eu  gentil Clio hum dia)
        Pois que ao jovial Josino
    A palma dste da immortal Poezia,
        Mimoso Dom Divino,
    Com que louva a virtude, o vicio prostra,
    E aponta as causas, e os effeitos mostra
        Da decadencia nossa;
        D-me tambem, que eu possa,
    Cantando o Vate, que do Ceo nos veio...
        Basta (me torna Clio);
    Suas obras, e no louvor alheio,
        So o seu Elogio.

                                    _Campelo._




Chama-se a isto hum

PROLOGO.


Curioso Leitor, ou Ouvidor, que no te escandalizo neste segundo nome,
porque tambem he de lugar de letras, consta este Folheto da Segunda
Parte de Portugal Enfermo por vicios, e abusos: contina na mesma
critica, na mesma boa moral, e com a costumada jovialidade. Mas se ainda
assim mesmo achares este Folheto sem sal, d-lhe alguma desculpa; porque
foi acabado agora, e por isso vai muito fresco. Primeiro que o
publicasse, fui consultar (como costumo em todas as minhas Obras,
seguindo o preceito dos nossos antigos Mestres) com talentos superiores
aos meus, judiciosos, e de bom criterio, que com sinceridade me
asseverro que este Folheto levava vantagem ao primeiro. _Si ita est,
fiat._

No passro de quatro at cinco genios mordazes, que no lhe podendo
pr outro defeito, foro publicando que a Obra no era minha, a ver se
isto pegava, como pegou a moda do _Tiro-liro_ por toda a parte. Ora
vejo Vossas Mercs, pelo amor de Deos, que tal ficaria eu quando
mo dissero! A Obra no ser minha; mas o primeiro Folheto imprimio-se,
e reimprimio-se, e eu recebi o producto de mil e quinhentos Folhetos.
Talvez que estes individuos campem melhor no pblico com cavallos
emprestados, trastes, e dinheiros alheios, do que eu com versos de
outrem! Nunca fui plagiario; antes os tenho encontrado de obras minhas:
e desde a primeira, que imprimi, que foi a Obra dos Opios, ainda no
mudei de estilo; porque me no acho com foras, para imitar os Guindados
do tempo.

Leitor, o primeiro paragrafo pertence-te, o segundo pertence aos quatro,
ou cinco Ruminadores, que com caracter de mal intencionados Zoilos,
mastigo toda a qualidade de papel, como fazem os que enjoo pelo mar: e
diz muita gente boa ser isto hum remedio contra os enjos; o que eu dou
quasi por certo, porque j o vi verificado em varias Senhoras, que so
as que enjo no mar com mais facilidade.

Aqui acabou o Prologo de repente. Coitado! Ainda ha pouco tempo estava
de perfeita saude! Que no somos nada neste mundo, este Prologo o prova;
porque, tambem na minha estimao, tornou-se em nada, e foi-se sem
se despedir no Latino idioma, como os outros Prologos fazem talvez por
no entender mais.

Agora, Leitor, com ingenuidade dirs se a Obra em si alguma cousa


                                                       Vale em Portuguez.




PORTUGAL ENFERMO PELOS VICIOS, E ABUSOS.

                        _No sou Poeta de palavras crespas,_
                        _Com que alguns do picadas, como vespas:_
                        _E no zunzum de termos exquisitos,_
                        _S fazem o zunido dos mosquitos_
                        _No escrevo por cifra, nem por cetra,_
                        _Nem sei fallar, seno ao p da letra._

                                                       Do Autor.


    Portugal, Portugal, no te conheo?
    Vives esmorecido, e eu esmoreo,
    Vendo-te com achaque to profundo,
    Que pouco j figuras neste mundo:
    Perdeste toda a tua bizarria;
    As familias perdro a alegria;
    Todos andam de caras tristes, serias,
    No ouo seno prantos de miserias:
    Ficars s com casas, mas sem gente;
    Pois muitos, de paixo, j vo morrendo;
    Porque com a desgraa no podendo,
    Caloteo, mendigo, degenero,
    E s na morte o seu descano espero.
    No se encontra em ti outro desafogo,
    Que no seja o do jgo, jgo, jgo,
    Que he onde inda apparece algum dinheiro,
    E j se faz officio de Banqueiro:
    Nelle se encarto mais os ajudantes,
    Socios olheiros, sempre vigilantes:
    Qual rapaz, que nas terras pe gaiola,
    Onde passaro mestre desenrola
    Agradavel gorgeio, com que chama,
    E as aves novas faz cahir na trama
    Das varas enviscadas da costella:
    Assim subtil Banqueiro arma a esparrella,
    Sendo passaro mestre, que appresenta
    De moedas em cruzios mais de oitenta,
    Que esto chamando ao visco os coitadinhos,
    Os quaes lhe vo cair, pobres patinhos!
    Que quando o caso em sortes bem no corra,
    O seu, e alheio vai tudo  desforra.
    Hoje em qualquer funo por essas sallas,
    Depois do ch, escuto-se estas fallas:
    A Senhora quer Ronda, ou quer Banquinha?
    Vo se chegando a mi, tia, e sobrinha,
    E por desgraa (aqui fique entre ns)
    T para a Ronda vo mesmo as avs:
    Quegilando o que tem cartas na mo,
    Que a primeira inda deo, segunda no:
    E se por hum acaso deo segunda,
    Era vez de a pespegar recebe tunda;
    Porque succede s vezes, cousa rara,
    Recolher inda menos que parra,
    E attribue logo ao crte da velhinha
    Ser a sorte com elle to mesquinha.
    Em outra sala esto tafues armados
    De copos novos, grozas de bons dados:
    Treze primeiro que oito, barro, topo:
    Levou trez onas de ouro, passa o copo.
    Busca para o passar qualquer aresto,
    Que o parceiro no quer jogo de resto.

    Dinheiro s se v nestes combates,
    E em cartuxos nas lojas dos rebates:
    Ou seja em Baptizado, ou Casamento,
    Funo d'annos, ou outro ajuntamento,
    Com outra qualquer cousa no se atina,
    Vai-se seguindo sempre esta rutina;
    T depois de hum enterro huns enojados
    Em casa do defunto os vi sentados
    Jogando o Voltarete com franqueza,
    Para se distrahir mais a tristeza.
    Esta a paixo, que he hoje dominante,
    E nisto he que a funo se faz brilhante,
    Sendo do Alcoro que no outro dia
    Se murmure de quem nella perdia,
    Dizendo-se: Fulano perdeo munto!
    Cento e tantos mil reis tinha elle junto,
    Em menos de huma hora, mas virou,
    Perdeo o ganho, e a bola despejou.
    Hum Fulano de tal, que appareceo,
    Esse quanto puxou tudo perdeo.
    Cento e tantas moedas l dissero,
    Fra cincoenta mais, que se no dero.

    Aonde, Portugal, esto sumidos
    Teus entretenimentos divertidos!
    Aonde esto as Arias, as Modinhas,
    Os Quartetos, que ao cravo sempre tinhas?
    Os graves Minuetes bem danados,
    Pelas regras da Dana executados!
    E no intrevallo a Dama mais discreta,
    Dando o Mote engenhoso ao bom Poeta
    Que em Sonetos, e Decimas galantes,
    Parecio as horas huns instantes.
    Esto divertimentos to luzidos
    A baralhos de cartas reduzidos;
    Mas se julgas que nisso te confortas,
    Vers que o jogo te ha de pr por portas.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    De te vr nesse estado desfaleo!
    Quanto mais faltas vejo de dinheiro,
    Mais vejo pr-se o luxo de poleiro!
    At nos tratamentos tenho visto
    Cousas, que fazem rir no meio disto.
    Ninguem--Vossa Merc--quer hoje em dia,
    Ho de dar-lhe por fora Senhoria:
    E por maior nobreza, e mais decencia,
    J puxa a Senhoria huma Excellencia.
    Tem este desacordo muita gente,
    Mesmo sem nada ter com que a sustente:
    Sem rendas, nem brazes, tudo devendo,
    Desta aura popular se vo mantendo;
    E a quem nesta mania assim se ceva,
    Ninguem lhe v lembrar Ado, e Eva.
    E que direi dos _Dons_? parecem praga!
    Em qualquer parte o _Dom_ nasce, e propaga.
    Ha _Dons_ j muito velhos, outros novos,
    Alm dos _Dons_, que esto inda nos ovos:
    E se a menina em prendas se affamou,
    O _Dom_ sahe logo  luz, no se gorou.

    Eu vejo pais s filhas embutindo
    A escolha de Convento, persuadindo
    Que passa vida santa, e descanada
    Quem vive no Mosteiro clausurada.
    E caminhando vo por este trilho,
    Para que boa casa fique ao filho,
    Fazendo professar as innocentes
    Com festas, e visitas de parentes.
    Em quanto os pais so vivos bem vai tudo,
    As mezadas se cobro a miudo;
    Vive huma Freira em paz com alegria;
    Conformando-se hum dia, e outro dia.
    Mas em morrendo os pais tudo vai mal,
    Nem pelo So Joo, nem no Natal
    Se faz  pobre Freira pagamento,
    T ficar em total esquecimento;
    Que o irmo, das mezadas incumbido,
    Cuida s em fazer o seu partido:
    Destroe a casa toda, como louco,
    Que para nutrir vicios tudo he pouco;
    Fica a mizera Freira mendigando
    Pelas outras, que esto tambem penando.
    Repetindo escrever a quem conhece,
    T vr quem de seu mal se compadece.
    Aqui temos os grandes beneficios,
    Que os pais fazem com estes sacrificios,
    Obrigando a Clausura, e Profisso
    Quem nunca teve aquella vocao;
    Sem ver que s acceita a Divindade
    Esta vida abraada por vontade;
    Que huma Freira, por fora alli metida,
    A maldizer-se leva sempre a vida.
    E armou-se rede tal com este dolo,
    Para se regalar hum filho tolo,
    Que estraga tudo, sem de si ter d,
    Ficando todos pobres, como J.

    Eu vejo as circunstancias malignadas,
    As origens dos ganhos estagnadas,
    Os generos subindo, ns descendo,
    Ora tristes chorando, ora gemendo.
    Precisa-se dinheiro, no o temos;
    E por desgraa nossa at j vemos
    Os meios de o haver difficultosos.
    Mas entretanto os homens viciosos
    No querem conhecer esta diff'rena:
    No ha flagello alheio, que os convena
    A regular a vida de outro modo;
    No se aparto d'aquelle mesmo engodo;
    O mal encaminhado contina,
    Gastando o que no tem, que he balda sua.
    Deixa a mulher sem po, filhos sem fato;
    E a moa desfrutando hum grande trato;
    Sem vr que huma mulher deshonestada
    No tem caracter firme, he descarada;
    Pois basta a causa ser, como he sabido,
    Da mulher viver mal com seu marido.
    Estas loucas ruina so do homem,
    Que quantos reaes tem tudo lhe comem;
    E porque para tanto no tem rendas,
    De ladro mui subtil nos mostra as prendas:
    Qual fogo, que devora quanto apanha,
    Com o que no he seu tambem se amanha;
    E quando se descobre, e se receia,
    Ou quebra, ou foge, ou vai a huma cadeia.
    O que joga, e que em jogos passa a vida,
    Joga sem conta, pezo, nem medida;
    O que se trata bem, e d jantares,
    Em funes tudo vai por esses ares;
    O que tem outros vicios adoptado,
    Porque nelles est habituado,
    Nutrillos he o seu mais bello vinho,
    Nem o tempo lhe ensina outro caminho;
    No ha destes hum s, que se contenha,
    Antes nestas despezas mais se empenha;
    E no sabendo donde lhe ho de vir,
    Como quer s basofias acudir,
    Fingindo que a escacez lhe no faz mossa,
    E que inda tem dinheiro, com que possa
    Ostentar o que d'antes ostentava,
    O remate he furtar, pois no o cava.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    Cada vez mais de ti me compadeo!
    Eu vejo humas familias tolineiras,
    Que nunca em suas casas so festeiras;
    Ajusto as funes botando a ida
    A terem meza posta em casa alha.
    Rio-se muito, bastante se brincou;
    A familia da casa he que o pagou.
    A noite foi da vespera perdida,
    S para se acudir com tanta lida
    As massas, aos recheios, aos guizados,
    A depenar as aves, aos assados:
    As criadinhas postas aos foges,
    Padecendo depois constipaes,
    Que todas trabalhro na officina,
    Para prompta se pr a pappa fina.
    Quando o dono da casa sente a asneira,
    J no pde sahir da ratoeira;
    Mas he bem bom que assim fique ensinado,
    Para vir a ser mais acautelado,
    E fugir dos ajustes puxativos,
    Feitos por certos genios logrativos,
    Promptos para banquetes, onde os ha,
    Porm que em suas casas s do ch.

    Eu vejo certos homens costumados
    A mostrarem-se muito desvairados;
    A cousa alguma presto atteno;
    Nas cousas de maior ponderao
    Com chufas, e risadas s respondem,
    E s vezes muita asneira nisto escondem;
    Por systema, por vicio, ou por maldade
    Fogem de conversar com seriedade:
    De todas as perguntas fazem mofa,
    S por tratarem tudo de galhofa;
    Deixando os dependentes mais afflictos,
    Por verem termos taes to esquisitos:
    Sujeito-se, calando, os que dependem,
    Mas fico em jejum no que pertendem.
    Homens assim no so muito seguros,
    Que trazem a cabea sempre a juros.
    Cuidado lhes no d o alheio int'resse,
    Pobre de quem depende, e quem padece.

    Eu vejo muitas casas de partidas,
    Que so com as dos doudos parecidas.
    Vem entrando co' a noite os assignantes,
    Passo em conversar breves instantes.
    A Prima conta  Prima o mo successo
    De huma esperta gatinha cr de gesso,
    Com malhas no focinho, e no costado,
    Que fazem o animal muito engraado:
    Relata o muito amor, que ella lhe tem,
    Enlevada naquelle bom desdem.
    Sahe d'alli logo Dona Presumida,
    Meia tafulla, meia convertida,
    (Que ao certo ninguem sabe inda entendella,
    Se ella he que deixa o mundo, ou elle a ella)
    E diz que tem por cousa do demonio
    Haver homem, que fuja ao Matrimonio.
    Como a materia he vasta, vai durando,
    Huns mettendo-a em questes, outros mofando.
    Chega o ch co' as fatias transparentes,
    Que lhes fico pegadas pelos dentes.
    Assim se passa aquelle bocadinho,
    T que as bancas se pem para o joguinho.
    Ento he que a criada da cozinha
    Desenferruja a lingoa co' a vizinha;
    Ento he que outra  porta do jardim
    De seus amores vai tratar o fim:
    E a velha Preta  chamin, qual mono,
    Sempre a cabecear, pdre de somno;
    Porque os donos da casa divertidos,
    Da Partida tirar querem partidos.
    Nada os pde fazer deixar o jgo,
    S vindo-lhes dizer que em casa ha fogo;
    E em quanto se entretem com este aresto,
    Fica  vontade da familia o resto;
    Que por isso da casa mal guardada
    Se tem visto fugir filha, ou criada;
    Ou succeder a alguma rapariga
    O que a decencia manda que eu no diga.
    Muita cautela, e no facilidades,
    Evita nas familias novidades;
    Porque donas de casa no previstas,
    Que no sabem deitar por tudo vistas,
    Sem determinao, amanho, e zelo,
    Ho de achar muito roubo, e desmazelo:
    Nos armarios mil cousas estruidas,
    As casas int'riores nem varridas,
    Sobejos de comer dentro do cobre,
    Por se no dar de esmola a tempo ao pobre:
    Sem durao a roupa, nem aceio,
    As lingoas das criadas sem ter freio;
    Pouco, e pouco a dispensa dizimada;
    Loua fina escondida por quebrada;
    E os vexados maridos com prudencia,
    Dizendo l comsigo: Ora paciencia!
    Porque se ralho, so insupportaveis,
    Se fecho tudo, so huns miseraveis,
    Se trombudos, so mal encaminhados,
    Se castigo, so homens mal criados;
    Ellas querem smente andar nas palmas,
    E os maridos, que peo para as Almas;
    Com tanto que ande Sempre a bolsa aberta,
    Que he quando com marido bom se acerta.
    Conheo que ha familias de bom porte;
    No he nestas que assenta este meu corte:
    Nem s outras tambem me determino
    Levando nesta critica destino.
    Atiro estes meus botes no pequenos,
    Porque o mundo tem disto mais, ou menos.

    Eu vejo huns homens ricos suffocados,
    T da sombra dos mais desconfiados,
    Que vo, por ver se fica bem segura,
    Mil vezes apalpar a fechadura
    Da burra, que n'hum lado tem da cama,
    Temendo da familia alguma trama;
    E homens taes, afogados em riquezas,
    Raras vezes se lembro da pobreza;
    Havendo casas to necessitadas,
    Nunca por elles so remediadas:
    Por mais ouro, que tenho, que lhes sobre,
    He raro quando do dez reis a hum pobre.
    Hum s rasgo no tem de caridade
    Para a triste viuva, ou orfandade.
    No sei que contas fazem homens taes
    Ajuntando, e escondendo os cabedaes!
    Morrem t sem fazerem testamento,
    Espirando n'hum trato o mais nojento,
    Depois de vida srdida, e mesquinha,
    Que nem mando comprar huma gallinha.
    E vo-se deste mundo rebolindo,
    Em quanto delles fica o mundo rindo:
    Acabo supportando aquella surra,
    Botando sempre os olhos para a burra.
    Ora descance em paz, senhor defunto;
    C fica quem lhe espalhe o que tem junto!

    Eu vejo certos homens systematicos,
    Que em tudo quanto penso so fanaticos:
    Cada falla he o estrondo de huma bomba,
    At parecem ter de porco tromba;
    Fallo pouco, e no gosto de ouvir nada,
    Tudo quanto se diz tudo os enfada.
    Hum Cavalheiro deste paladar
    Na loja de hum barbeiro foi entrar.
    O mestre fez-lhe a barba in continente,
    Mas no muito fallar impertinente.
    Feita a barba, o soturno Cavalheiro
    Disse ao tal fallador mestre barbeiro:
    Pois que o vejo verboso em novidades,
    E em discursos de varias qualidades,
    Queira dizer-me, que saber preciso,
    Qual he o animal de mais juizo?
    Que era o boi, respondeo o mestre prompto.
    Isso somente expressa hum homem tonto,
    Lhe disse o cavalheiro, e no cuidava
    Que huma resposta avssa assim me dava.
    Tornou-lhe o mestre: he o co ao dono grato.
    Tambem no acertou por mentecapto,
    Lhe disse o Cavalheiro, oua-me attento,
    Para tirar d'aqui hum documento.
    O bode he o animal nada ignorante,
    Porque sendo de barbas abundante,
    Tendo-as compridas, nunca as quiz fazer,
    Smente por barbeiros no soffrer.
    Assim ficou o mestre corrigido,
    Para ser em fallar mais comedido.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    E quanto tu padeces, eu padeo!
    Pois te vejo mais triste do que o dia
    De envernosa estao! Quem tal diria!
    Andas debilitado, empobrecido,
    Saudoso, sem descano, e esmorecido!
    O teu Xavier de Mattos bem fallou,
    No galante Soneto, que traou,
    Quando disse com arte, e natureza,
    Que da soturna imagem da tristeza
    Era hum retrato vivo, e verdadeiro
    _Qualquer homem de bem sem ter dinheiro_;
    Cuja falta tem feito no presente
    A ruina fatal de tanta gente.
    Mas no meio de quanto se padece,
    Hum genio creador nos apparece,
    Que por nossa fortuna nos offerta.
    Huma bem importante descuberta:
    E bem se deixa ver no raro invento
    O quanto pde hum homem de talento.
    De bons engenhos nasce a emulao,
    Com que se aperfeia huma nao.
    Receba parabens toda a Cidade
    De huma cousa de tanta utilidade.
    No supponho que he plano, ou so maneiras
    D'a ferrugem tirar s oliveiras:
    No cuidem que he fazer dar direco
    Hum viajante aerio ao seu Balo:
    Nem deve presumir tambem o povo
    Que tem de guarda-quedas molde novo:
    Este invento os perigos acautela,
    Mas em substancia he cousa mui singela.
    Agora me parece estar ouvindo
    O Leitor curioso serio, ou rindo,
    Dizer-me ou assentado, ou posto em p:
    Basta de franja, acabe, diga o que he!
    Ora eu o satisfao: Ha hum Fulano
    Dos que vestem casaca de bom panno,
    Que por ida sua, e risco seu
    Para huma tenaz o molde deu.
    Eu a vi, a qual era fabricada
    De hum podo metal, obra aceada:
    Hum destes ferros de encrespar cabello
    He mesmo o da tenaz fiel modelo.
    De curioso eu, que o traste via,
    Logo quiz indagar de que servia?
    Disse-me o inventor que fora feito
    Por servir a quem fuma de proveito:
    Que o lume no sigarro mais atura,
    Huma vez que a tenaz he que o segura;
    Que faz esta inveno perder os medos
    Aos sigarristas de queimar os dedos;
    Que os Mouros tem cachimbos de huma vara,
    Que a tenaz he aceio, e moda rara.

    Agora se descobrem novas minas,
    Com outras invenes mais genuinas;
    J temos hum moinho de vapor,
    Que o de vento no me talvez melhor.
    De vapor ho de haver carros tambem:
    Nas seges eu espero o mesmo trem.
    Se a cousa for feliz, e se pegar,
    Muitas cousas havemos de poupar!
    Os machos, desta sorte, escusos so,
    Ho de ficar em bestas de ceiro
    No tero preo a palha, nem cevada.
    Se chego a ver tal maquina ultimada,
    Affectando de grande personagem,
    Protesto sempre andar de carruagem.
    Grande cousa ha de ser, se se inventar
    O modo do vapor nos sustentar!
    Despeo-me de aougues, e Ribeira,
    E digo adeos  Praa da Figueira.
    He tudo isto bem bom; mas o peior
    He faltar o dinheiro no melhor!
    E assim como nas Caldas toda a gente
    Se anda sempre queixando de doente,
    Ns aqui com a mesma singeleza,
    S ouvimos clamores de pobreza:
    Molestia, que amofina, e que faz tedio,
    Que nem nas Caldas pde achar remedio.
    Luxo, e mais luxo, pdres, e mais pdres,
    Tudo cheio de vento, como os dres!
    Ha huns homens sagazes de tal sorte,
    Que desfrutarem muito he o seu forte;
    Pois no ramo, em que lido, e em que esto,
    No deixo escapar occasio:
    Vo-se enchendo, e fazendo caramunha,
    S para que ninguem lhes veja a unha:
    Mostro-se mui zelosos com systemas,
    Mas tem sempre o seu ovo duas gemas.
    E aqui fica a razo verificada
    De huns virem a ter tudo, e outros nada!
    A huns tudo lhes vai bater  porta;
    Outros no passo j da cepa torta!
    Isto mesmo succede a mais de mil,
    E eu comparo estas cousas a hum funil.
    O que pde beber pelo bocal,
    Sacia-se, e no vai de todo mal;
    E quem pelo canudo sorve o vinho,
    Tira quinho, porm muito mesquinho.

    Portugal, Portugal! o que bem pensa,
    Tem encontrado em ti grande diff'rena!
    Perdeste em alguns homens a verdade,
    Que dava sempre tom  sociedade.
    Em poucas partes ha palavra firme,
    E no falta com que isto se confirme.
    A minha Musa de apontar se izenta,
    Melhor o ha de applicar quem o exp'rimenta.
    Eu admiro nos homens hoje em dia
    De tocar os extremos a mania!
    Que ou perdularios gasto quanto tem,
    Fazendo mal a si, e aos outros bem;
    Ou to mesquinhos so, to acanhados,
    Que nem bons dias do, por serem dados.
    Pouco briosos so, faltos de aces,
    Remoques no lhes fazem vexaes:
    Nada querem, que custe hum s vintem,
    S o que he de tol lhes sabe bem.
    No querem acertar n'hum meio termo;
    Estes, e outros que taes te pem enfermo.
    Os homens de algum dia praticavo
    A boa educao que os Pais lhes davo;
    Mas hoje alguns modernos estou vendo,
    Que logrativos vo o tempo enchendo,
    Porque o que de espertezas mais se jacta,
    Engana aquelle mesmo com quem trata.
    Tem-se hoje descuberto novos trilhos;
    Nem ha filhos por pais, nem pais por filhos:
    No vejo seno genios desiguaes;
    Uso todos de termos mui geraes:
    _Verbi gratia_, Desejo-lhe prestar;
    Se precisar de mim, ha de me achar;
    Conhea que sou sempre seu amigo;
    Em tudo o que eu puder, conte comigo.
    Tudo palavras ocas, sem substancia,
    Ditas sem f, com arte, e sem constancia.

    Tambem vejo alguns homens em balanas
    Navegando no mar s de esperanas:
    Figures, que povo este mundo,
    Mas tem os fundos seus todos no fundo.
    Abalro co'a gente empavezados,
    Em quanto se no mostro naufragados;
    Depois so qual a uva j passada,
    Que mostra baga, e pelle, e umo nada.
    Portugal, tu tens tido alguma gente,
    Que se tem feito a si, e a ti doente.
    Muita especulao vejo eu fazer,
    Que em lugar de lucrar, bota a perder;
    Pois de ter perda certa no se izenta
    Quem para tirar dez dispende oitenta.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    Que me fazes tristeza te confesso!
    Homens ha mais nocivos do que a peste,
    E senhoras tambem de genio agreste:
    Enfado-se com todos, e com tudo,
    E parece que o fazem por estudo!
    No cesso de ralhar, e de moer
    As familias, por dar-lhes que soffrer:
    Trazem a casa toda em labyrintho,
    Pela condio aspera, que pinto.
    Tambem homens encontro de tal modo,
    Que assento que he j seu o mundo todo;
    Humas caras, que esto sempre estanhadas,
    Que ou riem muito, ou so embuziadas.
    Com condies assim no ha quem possa,
    A reprehenso no vexa, nem faz mossa.
    Isto nasce dos mimos, que lhes do
    Nas faltas da primeira educao.

    Vejo huns homens tambem affeminados,
    No gesto, e no fallar muito affectados,
    Todos sentimentaes, cheios de nicas,
    Que algum dia chamavo-se Maricas;
    Mas assentro hoje bons engenhos,
    Que devio chamar-se homens gamenhos.
    A origem deste nome bem se aponta
    N'hum caso jovial, que ahi se conta.
    E so recommendaveis taes figuras
    Nos tregeitos, e vs caricaturas;
    T mastigo fazendo muito mmo
    O cheiroso Indiano cardammo,
    O qual trazem na boca largas horas,
    Para terem bom bafo entre as senhoras;
    Nem perdoo ao seu mestre barbeiro
    A dedada de banha de bom cheiro.
    E j houve hum, que tendo a irm de parto,
    E entrando casualmente no seu quarto,
    O cheiro da tal banha muito activo
    Da pobre endoudecer foi o motivo.
    Antes do Terremoto se munio
    De pastilhas de cheiro, que trazio,
    Em pivete, e em almiscar enfrascados,
    Parecio de alcorce ser formados.
    Destas verdades no se escandalizem,
    Que ainda ha velhos vivos, que isto dizem.
    Ento ero faceiras, e casquilhos
    No principio da moda dos polvilhos;
    Pelos tempos viero a peraltas,
    Mas hoje so tafues, e alguns com faltas:
    Os quaes agora tem por maravilha
    A barriga apertarem co' huma cilha,
    Enfivelada com tal arte, e geito,
    Que a barriga se encolha, e alte o peito;
    Porque querem mostrar que podem ter
    Perfeitos _patriotismos_ de mulher.
    Que errei esta palavra no se pense;
    Pois vem na biblioteca Tafulense
    Com _pito_, com _pinia_, com _chalaa_,
    _Cucanha_, _mujangu_, _Caurm_, que embaa
    E para o peito ter maior altura,
    E mostrar o que querem na figura,
    Do aos seus alfaiates a matraca
    De almofadar as bandas da casaca.
    Ora em trazerem cilha acho razo,
    Visto haver ferradura por taco!
    So estas invenes todas de fra,
    Ns somos de outros reinos firme escora.
    Os mais aprestes elles viro vindo,
    Pois que as outras naes fico-se rindo,
    Mandando engodos taes a Portugal
    Por sommas de dinheiro em bom metal.
    Tomra persuadir aos que uso disto
    Que usassem o que a muitos tenho visto:
    Nas modas meio termo, e na despeza,
    E nada de emendar a natureza.
    Deixemos que hum tal sestro as Damas tomem;
    Que a perfeio do homem he ser homem,
    E no trazer pescoo almofadado,
    Tingir cabello j esbranquiado,
    Ou pr grande chin da cr da amora
    Co' as bellezas mui brancas, e de fra,
    Como vejo aos que so de meia idade
    Filhos s do amor proprio, e da vaidade:
    Com outros desacordos deste lote,
    Que de certo no falta quem os note.

    E que direi de velhos enfeitados,
    Que so a hum cpo bem assemelhados?
    Assim como eu, que o digo, a quem os annos
    Feito hum espelho tem de desenganos,
    Mas se viuvo estou, e j maduro,
    Viuvo ficarei pelo seguro.
    No obstante elles verem-se encolhidos,
    De pernas a vergarem carcomidos,
    Assim mesmo meninas vo buscar,
    Querendo-lhes fazer seu p d'altar:
    Sem se lembrarem que huma franga nova
    Atira com hum velho para a cova.
    Se buscassem dos annos a igualdade,
    Inda lhes perdoaria a leviandade;
    Mas quererem que as pobres raparigas,
    Que por pouco escapro das bexigas,
    Atrs de algum vintem vo  lambugem,
    E que morro de nojo, e de rabugem!
    No posso levar tal  paciencia!
    Amor isto no he: conveniencia.
    Que em casamentos taes bem se conhece
    Serem ellas escravas do interesse.
    Que prazer pde ter muito a seu salvo
    A que se liga a hum velho chcho e calvo?
    He muito natural mais lhe aborrea,
    Se calvo for de quanto ha na cabea;
    Pois velho, que namora, e que se enlaa,
    Tem a cabea igual a huma cabaa;
    E porque a natureza lhe he avessa,
    Se tem dor de vazio he na cabea.
    Coitado! na figura, em que se v,
    J podio chamar-lhe a morte em p.
    Mas no dia do alegre casamento
    Resuscita com tal contentamento,
    Que he pena ter o velho, que faz rizo!
    Resurreio sem dia de juizo.

    Tambem noto que hum velho de algum dia
    Para a terra curvado he que pendia,
    Grossa bengala a corpo hia sustendo,
    E sobre as costas a marr crescendo
    Mas parece que a mesma natureza
    Nos quer mostrar que nada tem firmeza;
    Pois que os velhos, a quem tudo desanda,
    Ando hoje tombados a huma banda.
    Na velhice o estupor se reconcentra,
    E no torna a sahir huma vez que entra.
    Por acaso algum dia se fallava
    Que em alguma pessoa estupor dava.
    Eu sim me enganarei, mas ajuizo
    Que nos vem este grande prejuizo
    Do po, do vinho, do vinagre, e azeite,
    Quando generos taes levo enfeite.
    E se isto assim no he, porque razo
    S em Lisboa ha tal repitio?
    E l fra nas Villas, e Cidades
    So estas cousas humas raridades?
    Porque ha l menos gente? No convence;
    Bem que he mui natural que assim se pense.
    E hoje at na florida mocidade
    Se est vendo huma tal calamidade;
    Mas os moos, lem da razo dada,
    Tem outra circunstancia mais pezada,
    Que he o irem por gosto aos sacrificios,
    Para as foras perderem pelos vicios.

    So a saude, e o tempo dois objectos
    Estimados dos homens circunspectos;
    E diz a mocidade que tambem
    Estas cousas em grande valor tem:
    Porm com appetites, e loucuras
    Enxadadas vo dar nas sepulturas.
    Hum perdeo a substancia, o outro a cr
    Aquelle anda tolhido de huma dor.
    E j tantas molestias lhes acodem.
    Que nem armas, nem letras seguir podem:
    Sobrevindo-lhes tal debilidade,
    Que no podem gozar de longa idade.
    Perdem filhos os pais, o Rei vassallos,
    Porque a chusma dos vicios vem cortallos.
    Nelles a mocidade he que se illude
    Para estrago do tempo, e da saude:
    Preciosidades estas, que perdidas,
    No vemos com que possa o ser suppridas.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    Do que s, e do que foste no me esqueo!
    Dos teus usos antigos te tiraste,
    E he problema entre ns se melhoraste!
    Do que tinhas melhor j te esqueceste,
    E o que perder devias no perdeste!
    Puzeste cousas mil em confuses
    Das modas, que te vm de outras nas:
    T desprezas o solido alimento,
    E por isso te vejo to gosmento;
    No tens seno defluxos catarrosos,
    Indigestes, topres perigosos,
    Com que continuamente te prantas,
    Fruto de altos jantares, grandes cas:
    Ha cinco, e seis cubertas, e ha pessoa,
    Que a hum s prato que seja no perdoa.
    Hum individuo assim Pai Pai segundo,
    He capaz de comer quanto ha no mundo.
    Fica esmola a pedir quem o supporta:
    Tal gente longe v da minha porta!
    Portugal, s na meza acautelado;
    A gula te vai pondo em triste estado:
    J nas cazas de pasto frequentadas,
    J nas mezas dos ricos enfeitadas,
    Mostras fastio  spa, vaca, arroz,
    S queres fricasss, e fricandoz;
    O rosbife, que em sangue inda escorrendo,
    Os estmagos vai assim perdendo;
    Rabiolos, fatia  Prussiana,
    Pitos de toda a casta de chanfana;
    Que ha cozinheiro tal, to delicado,
    Que de folhas de parras faz guizado,
    Mujangus, varios mlhos, e frituras,
    Leite creme, pudins, e outras misturas,
    Compotas com as caldas refervidas;
    Tudo isto pouco a pouco acaba as vidas.
    Depois tens nos cafs vastos licres,
    Que alguns at se bebem pelas cres:
    Hum porque he cr de roza muito vivo,
    Outro o ser cr de goivo faz motivo;
    O de cravo, que agita, bem que esquenta,
    Hum, que se estima de hortel pimenta;
    O licor de canela, o marrasquino,
    Licor de ouro tambem que he caro, e fino.
    Eu inda espero ver licor de cardos,
    De alfazema, tomilho, e lirios pardos.
    Sahe hum Taful d'alli, que he todo braza;
    Se tomasse cantharides em casa,
    No julgava ficar assim to forte;
    Quer conservar a vida, e busca a morte.
    Se no se emenda disto, anda enganado,
    Cuida que morre cru, morrendo assado.

    Portugal, em mil couzas tens mudado!
    S te vejo aos abusos afferrado!
    Por exemplo: jogar-se tanto o entrudo,
    Em que se insulta o homem mais sisudo,
    Com agua, ps, laranjas, pulhas, peas,
    Em que aberto se tem tantas cabeas!
    Louvo que jantes bem nesses tres dias,
    Mas reprovo da ca as demazias.
    Pois comes sem discurso, ou reflexo,
    Para teres p'rigoza indigesto!
    Tens outro abuso, que he serrar a velha,
    Tolice, que no pde ter parelha;
    Para andarem por frios, e por lamas
    Os homens a fugir das suas camas,
    Fazendo levantar, vir  janella,
    Para se constipar esta, e aquella,
    Que sem juizo algum ama, e criada
    Perdem a noite nessa mascarada,
    At que no outro dia a cozinheira
    D ao demo to grande babozeira;
    Pois no podendo o somno disfarar,
    Deixou entrar o caturro no jantar.
    E que direi tambem das boas Festas?
    No devo criticar couzas como estas;
    Porque trazem motivo mui sagrado,
    Com que todo o Christo, bem educado,
    Deve ter alegria, e grande gloria
    Em trazer taes motivos  memoria.
    Mas quizera, encontrando-se as pessoas,
    Que abraando-se, dessem Festas boas;
    E que os que mais pudessem nestes dias,
    Embora uzassem grandes bizarrias,
    Mandando, no Bilhetes de prezente,
    Mas sim couzas, que alegrem o olho  gente:
    Bons pers, porcos, patos, ou perdizes,
    Seis gallinhas com doze codornizes,
    Tortas, pudins, pasteis, ou pasteles,
    Finas broas, gostozos massapes.
    Eis-aqui humas Festas de prazer,
    Que so de consolar, e agradecer.
    Isto prova a amizade ser fiel,
    E val mais que tirinhas de papel,
    Ou Bilhetes de nomes em carto,
    Que os criados s vezes nem os do:
    A sege mui fechada  porta chega
    A procurar aquelle, que se nega;
    E muito digno he de se notar
    O que de ambos devemos ajuizar;
    No da sege bem he que se supponha
    Que de dar Boas Festas se envergonha;
    Porque vai to fechado, e to occulto,
    Que parece que teme algum insulto.
    E esse, que em caza est, do amigo  espreita,
    Em no fallar-lhe faz-lhe huma desfeita.
    Por isso implico taes formalidades
    Com as bem reguladas amizades.

    Dizem que quanto mais se vai vivendo,
    Mais couzas, nunca vistas, se vo vendo;
    Mas eu outro conceito he bem que forme,
    Que quanto mais se vive, mais se dorme;
    E dou esta razo, porque supponho
    Que viver, e dormir he tudo hum sonho.
    Sonho parece quanto vejo, e digo,
    Alm do quanto fica s comigo.
    Porm vamos a couzas divertidas,
    E fallemos de velhas presumidas,
    Que algumas ha de tanta affectao,
    Que por invencioneiras do peno.
    Huma velha vi eu to melindroza,
    Que fugia do cheiro de huma roza,
    Dizendo lhe exaltava logo o flato;
    To estragado estava aquelle olfato!
    Succedeo de vizita ir esta lesma
    A caza de outra igual Dona Seresma
    A tempo que entrou logo outra vizita
    De huma grave Senhora, mui bonita,
    A qual tinha nas tranas espetada
    Huma perfeita roza avermelhada;
    E porque ao p da velha se assentou,
    Logo a velha aos arrotos comeou,
    Dando desta molestia por motivo
    Daquella roza o cheiro muito activo:
    Foi crescendo a afflico a mais e mais,
    E com afrontamentos grandes ais;
    Cahio do canap torcida toda
    Com huma convulso destas da moda.
    Acodio-lhe a Senhora a toda a pressa,
    Que trazia a tal roza na cabea,
    Dizendo que era sca, e que a comprra,
    Por ser roza de musgo, linda, e rara;
    Obra feita por mo de huma Franceza,
    Que nas flores imita a Natureza.
    Quando a velha ouvio tal, envergonhada,
    Fingio tornar a si com l queimada;
    E foi ento geral a zombaria,
    Que fez da dita velha a companhia.
    Eis-aqui as molestias, que do rizo,
    E a que se expem com faltas de juizo
    As velhas infundidas em vaidade,
    Que querem sempre estar na flor da idade;
    Que ha velha, que no modo de trajar,
    Presume as raparigas desbancar.

    Eu vejo raparigas enfeitadas,
    Rethoricas, porm pouco applicadas,
    De orelha palavrinhas apanhando,
    Com as quaes aos tafues vo affectando.
    Huma carta vi eu de huma senhora,
    Muito desvanecida de Doutora,
    Cuja carta era em verso, e era de amores:
    Queixas de auzencias, zelos raladores;
    Quando s tinha lido a mocetona
    As guerras de Alecrim, e Mangerona.
    A carta no me lembra at ao fim,
    Porm o seu principio vinha assim;

    _De pungentes receios combatida,
    Lembrando-me talvez o ser trahida,
    O meu ciume trepido, fervente
    Adeja sobre mim avidamente:
    Eu desafio a magoa, e a impaciencia
    No campo dilatado de huma auzencia,
    Ululando, e exprimindo o sentimento,
    Que me despenha em grande abatimento:
    Anhelando appellar nesta fraqueza
    Para o tribunal dubio da fineza._

    Que tal foi este parto sem parteira?
    Ella chamou-lhe carta, eu chamo asneira.
    No critico as Senhoras instruidas
    Em bons Autores, e Obras escolhidas,
    Que com principios bons de educao
    Mostro que tem juizo, e tem lio:
    Senhoras ha discretas, que nas fallas
    Tomro muitos homens imitallas.
    Tambem no noto aquellas coitadinhas,
    Que lido com dedal, agulha e linhas,
    Vivem do bastidor, ou da almofada,
    Que essas tempo no tem para mais nada.
    S murmuro daquella no sizuda,
    Que em trez dias a frma s modas muda,
    Que s cuida do luxo mui garrida,
    Da belleza, que tem, desvanecida;
    No lhe importa nem ler, nem trabalhar,
    E o que sabe he somente namorar,
    De janella esperando os valdevinos,
    Feitas huns papagaios femeninos;
    Formosuras pasmadas quanto a mim,
    Bem proprias para esttuas de jardim.

    Portugal, Portugal! no te conheo!
    Cada vez te vou vendo mais avo.
    Eu vejo tambem homens presumidos,
    Com desvanecimento de instruidos;
    Porm he hum saber to ffo, e escasso,
    Que ando a tropear a cada passo.
    Critico tudo, nada se respeita,
    Sem saber onde tem a mo direita.
    Soffrer j mais se pde que a ignorancia
    O merito confunda co' a jactancia.
    A ponto se me est reprezentando
    Hum caso, que nos vem aqui frizando:
    Nosso insigne Pintor Alexandrino
    Fallou ao Preto velho Pai Justino,
    Para que lhe caiasse a propriedade
    De humas casas, que tinha na Cidade.
    Caiou-lhe o Preto a frente muito bem,
    E no fim no lhe quiz levar vintem,
    Dizendo que hum a outro companheiro
    Era desatteno levar dinheiro.
    Ora, assim como o preto, muita gente
    Sonha em ser grande cousa de repente!

    Assentemos que o mundo cada dia
    He de doudos extensa enfermaria;
    Porque hum ser Mathematico projecta,
    Outro insigne Pintor, outro Poeta;
    Hum a Musico vai, outro a Letrado,
    Outro na Medicina he enfronhado;
    Hum he Filsofo, outro he Arquitecto,
    Outro quer ser da Lua, e do Sol neto;
    E muitos sem principios, nem razo,
    No sabem mostrar mais que presumpo;
    Pertendendo roubar a fama, e gloria
    A quem canou com livros a memoria.
    He tudo enthusiasmo, e parvoice,
    Desconcertos nascidos da doudice:
    E nas varias manias, que contm,
    Assenta cada qual que assim vai bem.
    Mas se viver por gosto assim pertendem,
    Que nem j huns aos outros bem se entendem,
    Vo vivendo, que as cousas deste mundo
    Humas fico em cima, outras no fundo;
    Porque a razo nos mostra, e nos ensina
    Que tudo toca a meta, e ento declina.

    Portugal, Portugal! nao te conheo!
    Quanto mais penso em ti, mais esmoreo.

      *      *      *      *      *


_Explicao dos Enigmas, Adivinhaes, e Charades do 1. Folheto, ou
primeira Parte desta Obra._

O 1. Enigma he = a letra _O_ = o 2. = _Dedos_ == o 3. = _Pares de
luvas_ = a Adivinhao = _Figos_ = a 1. Charade = _hum Soldado_ = a 2.
Charade = _hum Caador_ =.




_Escolher t acertar._

_Improvizo do Autor._

    Tafueszinhos deste tempo,
      Se estado quereis tomar,
      Deveis com muito sentido
      _Escolher t acertar._

    Daquella, que rir sem tempo,
      E esperta de mais fallar,
      Fugir de se lhe dar corda,
      _Escolher t acertar._

    A que de lograr os homens
      Com jactancia se gabar,
      Nem mais pr-lhe a vista em cima,
      _Escolher t acertar._

    Rapariga janelleira,
      He bom della no fiar,
      Namora a muitos, pois quer
      _Escolher t acertar._

    A que s modas afferrada
      A moda no perdoar,
      Deixalla, mas logo ir outra
      _Escolher t acertar._

    A que der costura fra,
      E meias a accrescentar,
      Deixalla ir pela malha,
      _Escolher t acertar._

    Daquella, que cr em bruxas,
      Que se anda sempre a assustar,
      Fazer-lhe huma cruz  porta,
      _Escolher t acertar._

    No vos enleve a menina,
      Porque canta, e vai walar;
      Sem tempo, no ha escolha,
      _Escolher t acertar._

    Fingi ter paixo por todas,
      Depois huma exceptuar,
      Fazei o que ellas vos fazem,
      _Escolher t acertar._

    Mal que a escolha se fizer,
      Sem demoras ir cazar,
      Mas tomar bem as medidas,
      _Escolher t acertar._

    Qualidades da senhora
      Podeis por fra indagar,
      Indagar no d, nem tira,
      _Escolher t acertar._

    O lao do Matrimonio,
      Dado sem se ponderar,
      Traz depois sempre a desordem,
      _Escolher t acertar._

    Todos sabem que he melhor
      Prevenir do que emendar,
      Com brio, honra, e decencia
      _Escolher t acertar._

    Ser amante, e no velhaco,
      Prometter, e no faltar,
      E para mais segurana
      _Escolher t acertar._

    Os que nada tem de seu,
      Nem tem genio de casar,
      Desenganem, porque escuso
      _Escolher t acertar._

    Hoje as mulheres no querem
      Os maridos sustentar,
      Antes tomo por systema
      _Escolher t acertar._

    Donzella, ou viuva rica
      Pobretes no vo buscar,
      Vo entre os homens chineiros.
      _Escolher t acertar._

    Casamentos com juizo
      Poucos vejo effectuar,
      Se Amor vai com o interesse
      _Escolher t acertar._

    Formosura, e qualidades
      J ninguem vai disputar,
      Se o dinheiro he quem traz tudo,
      _Escolher t acertar._

    Porm siga embora o mundo
      Esse modo de pensar,
      Ide s honra, e juizo
      _Escolher t acertar._

    Vs deveis sem ambio,
      Se tendes com que passar,
      Nas honestas, recolhidas
      _Escolher t acertar._

    As ricas devem tambem
      Homens de bem amparar,
      E nos mais bem comportados
      _Escolher t acertar._

    Se todos isto seguissem,
      Melhor se havio de achar;
      Mas dinheiro quer dinheiro,
      _Escolher t acertar._

    A final ser virtude
      Penses do estado notar,
      E depois outro destino
      _Escolher t acertar._

      *      *      *      *      *


_Minhas filhas no caseis._

_Improvizo do Autor._

    Namoradinhas da moda,
      Vede bem o que fazeis,
      Com tafues atordoados,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Se tomais paixes de amor,
      De velhas no morrereis;
      Tira amor annos de vida,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Todos huns santos se inculco,
      Namorando cinco, e seis,
      Em lhes conhecendo a balda,
      _Minhas Filhas no caseis._

    So huns em quanto pertendem,
      Depois so hydras crueis,
      Como a cobra, a pelle mudo,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Destes frangainhos novos,
       Filhas, no vos fieis;
      Ando sempre dando s azas,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Trazem-vos anneis das feiras
      De vintem, e de dez reis,
      Porque a mais chegar no podem,
      _Minhas Filhas no caseis._

    De educao, e de genio
      He justo vos informeis;
      Com homens desconfiados,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Entre a guerra dos ciumes
      N'hum tormento vivereis;
      Meninas, corao livre,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Depois da primeira offensa
      Segunda no espereis,
      Fugi sempre a lograes,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Como he raro em Lotarias
      Achar a dos dezeseis,
      He raro achar bom marido,
      _Minhas Filhas no caseis._

    No duvido que finezas,
      E mil excessos acheis;
      Mas so iscas para a rde,
      _Minhas Filhas no caseis._

    As cartinhas amorozas,
      So finezas em papeis,
      O papel tudo consente,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Por huma verdade s
      Mentiras mil soffrereis,
      Olho vivo, preveno,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Como Amor cego se pinta,
      A mesma queixa tereis,
      Se haveis cahir por cegueira,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Aturar os pequerruxos,
      Do marido os aranzeis,
      So cousas, que custo muito!
      _Minhas Filhas no caseis._

    Vs em casa com mil sustos,
      Elles por outros quarteis;
      Vs em jejum, elles fartos,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Casar, e ficar depois,
      Como muitas achareis,
      Viuvas, pobres, doentes,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Os velhos so rabugentos,
      Os moos so infieis;
      Como ha pouco, onde se escolha,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Por sustos, penas, cuidados
      O descanco no troqueis,
      Solteiras no sois escravas;
      _Minhas Filhas no caseis._

    Rir, brincar, zombar de todos
      He bem bom, se isto fazeis,
      No vos enterreis em vida,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Vivei libertas, Meninas,
      Que contentes vivereis;
      Boi solto lambe-se todo,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Bem conheo, minhas Filhas,
      Que em velhas pouco valeis;
      Mas que serve acertar mal?
      _Minhas Filhas no caseis._

    Amor, juizo, e fortuna
      He com que acertar deveis;
      Isto he bom, mas onde ha disto?
      _Minhas Filhas no caseis._

    Nisto, que digo, vos mostro
      O fruto, que tirareis;
      S por trez dias de festa,
      _Minhas Filhas no caseis._

    Abraai os meus conselhos,
      Porque vos no enganeis,
      Mandai Amor  taba,
      _Minhas Filhas no caseis._

      *      *      *      *      *


APLOGO.

_A Gallinha, e os Pardaes._

    N'huma reserva de estrume
      Gallinha sfrega andava,
      Espalhando com os ps
      O deposito, que achava.
    Bando de espertos Pardaes
      Muito de perto a seguio,
      Quanto ella esgaravatava
      Elles, famintos, comio:
    Neste, naquelle lugar
      Andava a triste canada;
      Os Pardaes comio tudo,
      A pobre Gallinha nada:
    T que sacudindo as azas,
      Virou de repente, e vio
      A manada charleadora,
      Que quelle estrume acudio.
    Ento disse: Est mui bom
      Esse modo de viver!
      Eu descobrindo, e espalhando,
      Para os mais virem comer!
    Por certo que estou lograda!
      N'outra no torno a cahir:
      Donde vir estes golosos
      Eu cuidarei de fugir.
    Hum Pardal de escuro bico
      Dos outros sahio  frente,
      Que por ser Pardal ja velho,
      Se julgava intelligente:
    E querendo despicar
      Aquella descompostura,
      Deo  Gallinha em resposta
      Esta sentena madura:
    Este lugar, em que andamos,
      No he vedado a ninguem;
      Temos a elle o direito,
      Que qualquer Gallinha tem:
    De mais ha outro motivo;
      Quem por espalhar trabalha,
      He certo que j no quer
      As mesmas cousas, que espalha:
    Ns aproveitamos tudo
      Fiados nesta razo;
      Ninguem he tolo, que deixe
      De acceitar o que lhe do.
    A Gallinha envergonhada
      Das satisfaes, que ouvio,
      Deo huma volta em redondo,
      E nem mais o bico abrio.
    Os que acho dinheiro junto,
      Como herdeiros de seus pais,
      Fazendas, cpa de prata,
      E outros muitos cabedaes;
    Que espalho tudo por vicios,
      Appetites, e funces,
      Dando cabo do que tem
      Com loucas combinaes,
    Talvez que mais se acautelem,
      Se disto se recordarem:
      A Gallinha espalha, espalha,
      Para os mais se aproveitarem.

      *      *      *      *      *


CONTO EPIGRAMMATICO.

    Ha pelas casas das Sortes
      Tres Tabellas penduradas
      Com attractivas fortunas,
      Mas so fortunas pintadas.
    Tem por cima Premios grandes,
      Que se chamo de cabea;
      Por baixo os mais diminutos,
      Em que a gente nada int'ressa.
    Entrou na loja um Laponio,
      Querendo Sortes comprar,
      Metteo prompto a mo na caixa
      A rir muito, e a perguntar:
    Diga-me senhor caixeiro,
      Porque saber me convem,
      Se esses Premios de cabea
      Todos esta caixa tem?
    Respondeo hum dos que estavo
      Arrumados ao balco:
      Descance; que os de cabea
      Todos nessa caixa esto:
    Cabea he que ns no temos
      Em vir sentar-nos n'hum banco
      A trocarmos o dinheiro
      Por iscas de papel branco.

      *      *      *      *      *


CONTO

_Do Sabio por imaginao._

    Certo Rapaz de Provincia
      A Lisboa veio dar,
      O qual no sabia ler,
      Nem escrever, nem contar.
    Para ganhar o sustento
      Pz-se a servir hum Letrado,
      Esperto, prompto, e fiel,
      Mostrando-se hum bom criado.
    De tres a tres mezes o Amo
      Por costume lhe dizia:
      Esfrega-me essas estantes,
      Limpa-me essa Livraria.
    Ajuntou alguns vintens,
      E a sua patria buscou,
      Onde se estabeleceo
      Com fazendas que comprou.
    L na Botica da terra
      Elle hia as noites passar
      Com o Cura, e mais pessoas,
      Que alli vinho palestrar.
    N'huma noite huma questo
      Se moveo co'hum Estudante,
      Em que elle se foi metter
      Por atrevido e ignorante.
    Instava sem reflexo
      Dizendo: He que me faltava;
      Se por ter aberto livros
      Vossa Merc me encovava.
    Eu tambem Livros abri,
      Lidei com discreta gente;
      No jugue o senhor novato
      Que acha em mim algum demente.
    O estudante, que sabia
      Que o tal servra hum Letrado,
      Querendo-o desmascarar,
      Lhe respondeo enjoado:
    Eu sei que livros abrio,
      Mas diz gente verdadeira,
      Que abria livros alheios,
      Para tirar-lhe a poeira
    Eis como alguns impostores
      De sabios querem ter fama,
      Lendo s rostos de Livros,
      Nada fruto, e tudo rama.
    No estudo, nem se cano;
      Querem que a sabedoria
      Se pegue, bem como a febre
      Em tempo de epidemia.

      *      *      *      *      *


CONTO EPIGRAMMATICO.

    Havia hum homem sagaz,
      E bastante indagador;
      Sempre das vidas alhas
      Queria ser sabedor.
    Por conseguir o seu fim
      Valia-se de mil modos,
      Louvando, ou dizendo mal
      Sabia tudo de todos:
    Com perguntas, e rodeios
      Botava a rede em cautela:
      Quem conversava com elle
      Por fora cahia nella.
    Adoeceo gravemente;
      E hum Medico foi chamado,
      Que da lingoa deste enfermo
      Vivia escandalizado:
    Receitou-lhe hum vomitorio,
      Mas com elle no lanou;
      Repetio segunda dose,
      Igualmente se frustrou;
    At que o Medico disse:
      Pasmo do caso presente!
      No vomitar quem tem feito
      Vomitar a tanta gente!
    E pois que o meu vomitorio
      Nada, ou pouco lhe aproveita,
      Se quer vomitar, amigo,
      Use da sua receita.

      *      *      *      *      *


CONTO

_Do Homem, e o Macaco._

    Hum Capito de Navios
      Trouxe do Brazil hum Mono
      De condio vingativo,
      Mas fagueiro com seu dono.
    O dono estimava-o muito,
      E o Macaco o conhecia;
      Disto dava o bruto provas
      Nas festas, que lhe fazia.
    Trepava por elle a cima,
      Catava-o de quando em quando,
      Punha-lhe a mo pela cara,
      De roda delle pulando.
    Ao animal finalmente
      So lhe faltava fallar;
      Tendo o dono ao p de si,
      O seu forte era brincar.
    Vio o Macaco huma vez
      Seu dono matar hum gallo;
      Pilhou-o fra de caza,
      Tentou tambem imitallo:
    Entrou pela capoeira
      Com huma faca na mo,
      Foi matando tudo a eito,
      E atirando para o cho.
    Vindo o dono para casa,
      E achando tal mortandade,
      Esconjurou o Macaco,
      Mais a sua habilidade;
    Mas passando-lhe a paixo,
      Co' hum po o ameaou,
      Deo-lhe huma leve pancada,
      E com d delle ficou.
    O bruto, que no perdeo
      A pancada da lembrana,
      Mesmo  bruta no deixou
      De tomar delle vingana;
    E pilhando no outro dia
      O dono ao p descuidado,
      Botou-lhe com dentes, e unhas
      A cara abaixo de hum lado.
    Quem dissera que por tempos
      Se mostrasse to cruel
      Hum bruto, que parecia
      To submisso, e to fiel!
    Ha duas moralidades,
      Que d'aqui se ho de tirar:
      A primeira he que nos brutos
      Ninguem se deve fiar:
    A segunda de que ha homens
      De huma apparente bondade;
      So huns, e parecem outros
      Por manha, e sagacidade.

      *      *      *      *      *


APLOGO.

_A Pulga, e o Mosquito._

    N'huma noite de Vero,
      E de bastante calor,
      Encontrou-se co' hum Mosquito
      A Pulga n'hum cobertor:
    Cumprimentro-se muito
      Co' a politica devida;
      E disse a Pulga ao Mosquito:
      Ando aqui desfalecida;
    De vossa merc me queixo,
      Que do sustento me priva;
      Estou tisica, e esfalfada,
      No sei como j sou viva:
    Ando por cima de leitos,
      Ando nas camas de cho;
      Vem vossa merc tocando,
      Comea a minha afflico;
    Se dou alguma picada,
      He sempre em sustos, e medos;
      Porque temo de cahir
      Na ratoeira dos dedos.
    N'hum individuo, que dorme,
      He onde janto, onde ceio;
      Mas no me presta o que como,
      Pelo meu justo receio:
    Se lhe chupo n'huma perna
      Sempre com cinco sentidos,
      Vem logo a sua trombeta
      Metter-se-lhe nos ouvidos.
    Acorda o que est dormindo,
      Dando a cantiga ao diabo;
      Se me sente, pe-me o dedo,
      E entre as unhas me d cabo.
    Por tanto quero pedir-lhe
      Tenha de mim compaixo;
      Que toque  gente acordada,
      Porm  que dorme no.
     filha, disse o Mosquito,
      Eu tambem soffro, e padeo;
      Pois levo s vezes bolos,
      Que da vida me despeo.
    Do bofetadas em si
      Os que ando comigo em guerra;
      E se me apanho no lance,
      Atiro comigo a terra.
    Os desastres que me conta,
      Por certo me mettem d;
      Mas he preciso tambem
      Que no queira comer s.
    Nestes termos, minha rica,
      A vontade lhe farei;
      Que engorde, e que viva farta,
      He que eu muito estimarei.
    Despediro-se hum do outro:
      E o Mosquito atraioado
      No fez nada do que disse,
      Que he traidor dissimulado.
    Perseguia a toda a gente;
      A quem dormia acordava,
      Por emulao  Pulga
      Fazia o que costumava.
    A Pulguinha muito afouta,
      Vendo hum homem a dormir,
      Ferrou-se-lhe no cachao,
      Sem lhe lembrar o fugir.
    O Mosquito pelos olhos
      A zunir muito, e a morder,
      Acordou o homem da sesta,
      Para a Pulga surprender:
    Que, coitadinha! espirou,
      Acabando o seu flagello,
      Entalada entre o sobrado,
      E entre a sola de hum chinelo.
    Daqui colligir se deve
      Que quando a vingana cega,
      Quasi sempre hum malfeitor
      O seu semelhante entrega.

      *      *      *      *      *


APLOGO.

_O Burro, e a Ratazana._

    Estava hum Burro comendo
       noite a sua rao,
      E huma velha Ratazana
      Quiz ter com elle quinho.
    Disse-lhe o Burro: Malvada,
      Vai a outro sitio comer:
      No basta a rao ser pouca?
      Mais pequena a vens fazer?
    Respondeo-lhe a Ratazana:
      Por hoje licena d;
      Que por estes oito dias
      Prometto de no vir c:
    Eu sei mui bem que teu dono
      Hum grande queijo comprou;
      Espreitei onde o metteo,
      E  manh com elle dou:
    Hei de fartar-me  vontade,
      Roendo-lho muito bem:
      Sei que a vizinha debaixo
      Bolos n'huma cpa tem:
    O criado, que te trata,
      Tem l n'huma parteleira
      Hum grande monte de cebo
      Junto dentro de huma ceira:
    L pelas aguas furtadas
      J atinei co' huns buracos
      Para saltar n'hum pombal,
      E chupar pombos dos cacos.
     vista das descubertas,
      Que j hoje tenho feito,
      Espero passar sem fome,
      Com subtileza, e com geito,
    Foi tasquinhando a rao
      Naquella doce esperana,
      Co'a imaginada fartura
      Sempre posta na lembrana.
    Do Burro se despedio
      Com affago, e cortezia;
      E foi de rabo estendido
      Para a cova, em que vivia.
    Porm l pela alta noite
      Tornou depois a sahir,
      E foi-se por certo atalho
      Nas casas introduzir.
    Andou em busca do queijo,
      Porm j o no achou
      No sitio, que imaginava,
      Onde d'antes se guardou.
    Voltou-se ao primeiro andar
      Para os bolos da vizinha,
      Basculhou a copa toda,
      E nem hum s bolo tinha.
    Canada, raivosa, e triste
      Ao quarto do moo veio;
      E porque estava acordado,
      Entrou com algum receio.
    Saltou para a parteleira
      Com o cebo no sentido;
      Mas no dia antecedente
      O tinha o moo vendido.
    A sahida deste quarto
      Empreza foi arriscada;
      Por se safar to ligeira,
      No mammou huma arrochada.
    L por outros escaninhos
      Ao telhado caminhou,
      S para entrar no pombal,
      Onde outras vezes entrou.
    Mal que se pilhou de dentro,
      Vio huns ninheiros mais baxos,
      Ficou-lhe o olho luzindo
      Co' o sentido nos borrachos.
    O dono, que de outros ratos
      Se via mais perseguido,
      Pz-lhe armada ratoeira
      Com petisco appetecido.
    Foi ento que a Ratazana,
      No se podendo conter,
      Cheirou-lhe a isca por fra,
      Quiz entrar dentro, e comer.
    Deo voltas, metteo focinho;
      Mas  dentada primeira
      Ficou a pobre engasgada
      Nos ferros da ratoeira.
    Quanto esperava falhou,
      E por mais infausta sorte,
      Toda a alegria passada
      Acabou nas mos da morte.

      *      *      *      *      *


CONTO EPIGRAMMATICO.

    Hum Author compunha hum livro,
      Livros velhos folheando:
      Perguntou-lhe hum seu collega:
      Que ests ahi procurando?
    Respondeo: Como no ha
      Livro algum que to mo seja
      Que no tenha alguma cousa
      Boa, que se note, e veja:
    De cada hum tiro hum pouco.
      Disto hum novo livro ageito
      Ficando de cousas boas
      Formado hum livro perfeito.
    Desta lio eu quisera
      Que os homens se aproveitassem,
      De cada hum imitando
      As virtudes, que lhe achassem.
    O homem, que isto fizesse,
      Hum grande brazo teria;
      Ficava sendo hum compsto,
      Que ao Mundo exemplo daria.

      *      *      *      *      *


APOLOGO.

_O Saloio, e huma Sorte de papel._

    Vendo nas casas das Sortes
      Premio de oitenta mil reis,
      Foi hum Saloio comprar
      Oito tostes de papeis:
    E tudo desembrulhando
      Hum Premio s no achou,
      Repetio dobrando a dze,
      Da mesma sorte ficou:
    Foi comprando mais e mais,
      Quanto comprava perdia,
      Gastou dezoito mil reis,
      E delles nem bia via.
    Raivoso se foi  caixa,
      Dizendo: Forte castigo!
      Tirou mais seis tostes dellas,
      Que era o que tinha comsigo:
    Tambem lhe sahro brancas,
      E o homem desesperou;
      Mas a ultima entre os dedos
      Deste modo lhe fallou:
    Saloio, quem quer que sejas,
      Toma do mundo lio,
      Todas as cousas pintadas
      Como parecem no so;
    No te illudas com os Premios,
      Que he natural o falharem,
      E nesse engodo emmagreces,
      Para os outros engordarem:
    Se o acaso der hum Premio,
      Pe logo no pensamento,
      Que para hum s ser feliz,
      So desgraados hum cento:
    O que tira tres moedas,
      J veio vinte deixar,
      E se inda no as largou,
      He isca para as largar.
    O que tira tres tostes,
      Fica de ns muito amigo,
      Sem ver que deixou o porco,
      E leva a corda comsigo.
    Os prudentes conceituo
      Ser tudo isto huma Tragedia,
      Que os felizes nestas casas
      So como os Reis de comedia.
    E porque em lojas de Sortes
      No gastes nem hum vintem,
      Huns conselhos vou a dar-te,
      Com os quaes te achars bem.
    Nao olhes para as Tabellas,
      Nem os mais vejas jogar,
      Que se algum tem sorte em preto,
      A ambio te vai tentar;
    Olha sim, para a dinheiro,
      Que est perdido no cho
      Em sortes desembrulhadas
      Da porta at ao balco.
    O Saloio respondeo:
      Teu desengano me embaa,
      Se se promettem fortunas
      Onde se encontra a desgraa.
     vista disto he razo
      Que este vicio em mim se quebre,
      Fugirei de toda a casa,
      Que vende gato por lebre.




Vindo s mos do Author huma Quadra bastantemente conceituosa, tentou
glosala pelo seguinte modo:


QUADRA.

    _Dois Entes regem o mundo_
    _Doce Amor, e Morte impa,_
    _A Morte co' a fouce corta_
    _Quanto Amor sema, e cria._


GLOSA.

1.

    Logo que foi construida
    Esta Maquina brilhante,
    No falhou hum s instante
    Na conta, pezo, e medida:
    Nem podia ser falida
    Obra de hum Saber profundo;
    He seu creador segundo
    O Tempo, que no faz pausa,
    Por mando da Eterna Causa
    _Dois Entes regem o mundo_

2.

    Hum he Amor, outro a Morte,
    Cada qual com fortaleza,
    Entre alegria, e tristeza,
    Mudo dos Mortaes a sorte:
    No que hum faz outro d crte,
    Que a desordem desafia,
    Disputo de noite, e dia,
    A qual mais poder encerra,
    Ando sempre em viva guerra
    _Doce Amor, e Morte impa,_

3.

    Nesta horrorosa campanha
    No faz figura a Razo,
    Nem ha capitulao
    (O que j se no estranha)
    Tudo de terror se banha,
    He immensa a gente morta;
    E por mais que Amor a exhorta,
    Sem respeito s creaturas,
    Searas verdes, maduras
    _A Morte co' a fouce corta_

4.

    Quando a paixo se declara
    De Amor entre dois amantes,
    Porque no fiquem triunfantes,
    A Morte v se os separa:
    Como he das vidas avara,
    Em suffocallas porfia;
    De balde Amor a vigia,
    Que a Morte, que tudo extingue,
    Trabalha porque no vingue
    _Quanto Amor sema, e cria._




Quadra, que mandou huma Senhora ao Author (talvez sem reflectir) com
muito empenho, para que lha glosasse; sendo asss bem difficultosa, pelo
veneno do tempo que tem comsigo, etc.

QUADRA.

    _No sigas, Bella, os caprichos,_
    _Que os Mortaes tem fabricado;_
    _Segue as Leis da Natureza,_
    _Felicita hum desgraado._

GLOSA.

1.

    Bella Nize, o Creador,
    Que o Mundo fez, e governa,
    Que com Providencia eterna
    He, e foi de tudo Author,
    He em quem devemos pr
    Os nossos desejos fixos;
    De genios que esto perfixos,
    Com a maior impiedade,
    Em negar esta verdade
    _No sigas, Bella, os caprichos._

2.

    Dar a todos a entender
    Por Fabula Ceo, e Inferno;
    Que no ha castigo eterno;
    Que nem premio pde haver;
    Que ha s nascer, e morrer
    Sem lembrana de peccado,
    Bem como bruto esfaimado,
    Eis a perversa doutrina,
    S para nossa ruina,
    _Que os Mortaes tem fabricado._

3.

    Quem na Pia do Baptismo
    As luzes da F recebe,
    O bom caracter concebe
    No Gremio do Christianismo:
    No temer penas do Abismo
    He ser de Lucifer preza
    Na Religio firmeza
    He quanto todos convem
    Inculto Gentio he quem
    _Segue as Leis da Natureza,_

4.

     Deos Eterno! he possivel
    Que o Christo, que tu creaste,
    Dos teus preceitos se afaste,
     tua voz insensivel!
    Sua pena era infallivel
    Por ter a Lei quebrantado;
    Mas o teu Poder sagrado
    Fallando-lhe ao corao,
    O salve da escravido;
    _Felicita hum desgraado._




CHARADE.

    Guarda a primeira e segunda
    Dos rigores da estao,
    E guarda a terceira as duas
    Por amor, e gratido:
    As tres conchego seu dono,
    Seja de inverno, ou vero.


CHARADE.

    No quer demora a primeira,
    A segunda he contra a fome,
    Separadas no tem bocca,
    Ambas juntas muita toca,
    Muita gente tem, que come.


CHARADE.

    He criminosa a primeira,
    E aos crimes, que commetteo
    Logo a segunda, e terceira
    Justa sentena lhes deo;
    Porm juntando-se as trez
    Entro em tanta harmonia,
    Que o mal, que a primeira fez,
    Torna-se em grande alegria.


CHARADE.

    A primeira diz aonde,
    Esta, e segunda cultiva,
    Evita a terceira o p,
    E de precipicios priva:
    Primeira, e ultima afflige,
    Nutre segunda, e primeira:
    Ha nas quintas, e fazendas
    A segunda co' a terceira:
    O bom commodo dos homens
    Nas tres syllabas se encerra
    Em couza, que serve muito
    Na paz, e tambem na guerra.


CHARADE.

    Da primeira, e segunda se gosta,
    Que he onde se chora, se folga, e se ri:
    Na segunda, e terceira apparece
    O aspecto da gente por bom, ou ruim;
    A segunda, e terceira d nome
    A huma alta serra do nosso paiz;
    Mas se as trs ajuntarmos, veremos
    Hum peixe saltante na praia a cahir.


ADIVINHAO.

    Eu visito toda a casa,
    E co' a gente desespero,
    Como com ElRei  meza
    Daquelles pratos, que quero;
    Seja a Dama a mais formosa,
    Mais pobre, ou mais abastada,
    Mesmo diante de todos
    Por mim ha de ser beijada;
    Ando sempre em viva guerra,
    Vivo entre muito inimigo;
    Mas sendo debil de foras,
    S pde o tempo comigo.


ADIVINHAO.

    No tenho sete cabeas,
    Co' a que tenho me governo,
    Meu rosto no tem feitio,
    At sou da cr do Inferno:
    Pareo no meu sustento
    Nascer no Signo de Aquario;
    E a minha condio he
    Semelhante  do usurario;
    Morro de huma ingratido,
    Que me faz ser infeliz;
    Pois do-me a morte por paga
    Do beneficio, que fiz.




Significao das Charades, e Adivinhaes deste Folheto.

_= ecraeb = amacar = zoccaa = sgausgenua = alacvo = oapaj = osacm =_

A Significao destas _Xarades_, e _Adivinhaes_ aqui vo no por sua
ordem, e at cada huma de per si com as letras trocadas, para maior
confuso, e gosto de quem as adivinhar: cujos nomes escolher para os
appropriar, e collocar onde pertencerem, visto no haver outro Folheto,
em que se explique, por ser este o ultimo desta Obra, que torno a
advertir se deve encadernar com a _primeira Parte_, e com o _Poema do
Balo aos Habitantes da Lua; que fica hum Livro divertido._

_Tudo se vende nas lojas: de Francisco Xavier de Carvalho defronte da
rua de S. Francisco da Cidade; de Antonio Manoel Polycarpo da Silva
junto ao Senado; de Antonio Xavier Moreira da Impresso Regia debaixo da
Arcada; de Joo Henriques no principio da rua Augusta, de Antonio Pedro
na rua do Ouro; de Luiz Jos de Carvalho aos Paulistas; e em Belm na
loja da Viuva de Jos Tiburcio. Custa este Folheto 240; a primeira Parte
outro tanto; e o Balo 160._




Notas de transcrio:

O texto aqui transcrito,  uma cpia integral e inalterada do livro
impresso em 1820.

Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto,
e que por isso no considermos necessrio assinal-los. Mantivemos
inclusivamente as eventuais incoerncias de grafia de algumas palavras, em
particular quanto  acentuao.





End of the Project Gutenberg EBook of Continuao do Portugal enfermo por
vicios, e abusos de ambos os sexos, by Jos Daniel Rodrigues da Costa

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