The Project Gutenberg EBook of Fanny: estudo, by Ernest Feydeau

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Title: Fanny: estudo

Author: Ernest Feydeau

Translator: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

Release Date: December 1, 2009 [EBook #30571]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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        Notas de transcrio:

        No texto impresso o tradutor, ou o impressor, no colocaram as
        marcas dos captulos XXXIII e XLIII. Esta traduo foi comparada
        com o texto original, em francs (Paris, 1859), e as marcas de
        captulo colocadas em conformidade com a inteno do autor.

        Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes.



                                   OBRAS

                                    DE

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO

                          EDIO PARA BIBLIOPHILOS

                                    XVI

                                   FANNY



VOLUMES PUBLICADOS

    I--Coisas espantosas.
    II--As tres irmans.
    III--A engeitada.
    IV--Doze casamentos felizes.
    V--O esqueleto.
    VI--O bem e o mal.
    VII--O senhor do Pao de Nines.
    VIII--Anathema.
    IX--A mulher fatal.
    X--Cavar em ruinas.
    XI, XII--Correspondencia epistolar.
    XIII--Divindade de Jesus.
    XIV--A doida do Candal.
    XV--Duas horas de leitura.
    XVI--Fanny.




                                   FANNY

                                  ESTUDO

                                    POR

                              ERNESTO FEYDEAU

                                  ROMANCE

           TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA EDIO

                                    POR

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO


                        Aquelle, que cavar um fosso, cahir n'elle;
                        aquelle, que derruir uma muralha,
                        ser assalteado por uma serpente.

                                                      ECCLESIASTES.



                              _TERCEIRA EDIO_



                                   LISBOA
                      PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
                              LIVRARIA EDITORA
                        _Rua Augusta, 50, 52 e 54_
                                   1903




        Officinas typographica e de encadernao, movidas a vapor
                      Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.
                                   LISBOA




I

A caza est situada de esgulha, sobre um comoro de areia,  orla da
praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle.  uma casa
baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do cho, um portal,
seis janellas, e uma chamin de gsso, meio esburacada, no cume do
telhado.

 primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos
cabedellos, tinha ella um to triste aspecto, que eu senti serrar-se-me
o corao. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que
desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas
desmantelladas. Gemia a porta a cada bulco do vento que a embatia
contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um
sudario, a nebrina que a envolvia.

Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas,
marulhando-as, revolvendo-as, e espedaando-as. Rolos de areia, de
mistura com entulho, limos e cardos, refluiam at  testada da porta. Do
outro lado,  maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que
invadia o antigo jardim.

Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente
sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto  raiz,
conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel
aspecto, se erguia ella, dentre os saces do vento, mas a goteira de
chumbo, pendida da cornija, e aoitada pelas refegas oppostas,
rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaos.

Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria,
que meu pae me herdra, e era o restante d'um casal, j desbaratado. Vim
alli procurar o silencio e a solido. Mas no reparei o solar da porta,
nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se
coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o
asperrimo furaco das noites do outono. No chumbei o gonzo do portal.
No levantei a goteira de chumbo. No me amiserei da velha arvore que se
estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte no se
amiserra de mim.

Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um
banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar,
foi o meu leito. Nunca na chamin se accendeu lume. Nutri-me do po
negro e duro dos marujos. Bebi agua empoada que me dava a cisterna.

E desde o dia que entrei ahi at ao dia em que isto escrevo, nunca mais
sahi da casa triste. Prostrado sobre a folhagem dura, sentado no banco
estreito, com os joelhos justa-postos, os braos pendidos, as mos
inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente.
Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados
entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas
remeniscencias.

Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos brios, transpunha
eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da
minha habitao maldita.  luz glida e palida das estrellas de
novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que
apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vr em p,
gemebunda, sob os aoites do vento que a verberavam.

Nunca, porm, me alonguei d'ella. Fra d'ahi quem poderia attrahir-me? O
oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono
e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes,
alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e
silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte
carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas,
ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande brao
minacissimo.


II

Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solido,  por que, por
desgraa minha, amei, e amo ainda. No cuideis, porm, que algum
terrivel successo me distanciou, a meu pezar, da mulher que amo.
Prouvera a Deus!... Poderia ainda abenoal-a!

Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos
estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu ento vinte e
quatro annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se
encontravam. Diante d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu
por fim que eu a amava, e serenamente, como quem se arremea a transpr
uma barreira, ella mesma, com sua mo gentil, removeu todos os
obstaculos.

Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, to
meiga e linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e
jovialidade da meninice, e a estes encantos alliava um no sei que de
serno que as mulheres adquirem na experiencia e costumes da
sociabilidade.

Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os
encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma
activa em agil corpo. Por costume, deixava cair os braos de rainha, e
nus os ajuntava cruzando as mos, quando estava em p: ento, as grandes
dobras do seu vestido de veludo-granada, caam-lhe verticaes sobre os
ps arqueados, e a cauda firmava-se no cho; e, quando caminhava a
passos solemnes, erguia um pouco a formosa cabea, radiosa sobre colo de
cysne, suavemente inclinado.

Sentada, gostava de encostar a face  mo direita, repousando o brao
esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como
franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos,
que desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em
redor do colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a
barba liza, tudo em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios
finos e justa-postos. Os olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo,
e amplas pupilas negras, languidamente envoltas em palpebras salientes
franzidas de cilios espessos, tinham uma expresso de ternura, de
candidez, de spasmo, de pureza que me irritava e endoudecia!

Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia
amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar
acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braos com transporte,
parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar
assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e
vim at este extremo em que me vdes.

Como eu quizera passar com ella os instantes todos da minha vida,
procurava todas as occasies de encontral-a. No podia contentar-me com
as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus
encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte,
ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os ps no
glo, s para vl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sda
cr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites,
com o corao angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de
suas janellas luminosas, ou, rebuado e confundido com a gentalha, lhe
expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado 
couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vl-a entrar no
baile, com os cabellos enlaados de flres, as espadoas nuas at aos
seios, e ento observa se o corpinho de setim branco tremia sobre a
presso anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a no me
ajoelhar aos ps d'ella, quando a cortejava respeitosamente.

Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob
os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do corao dos
lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os
olhos, encostada ao brao d'um ancio cravejado de medalhas, que a
denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas,
quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os
grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma
cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos
graves; ao passo que, unida ao hombro d'um walsador infatigavel, immovel
a cabea e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos
accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe ento os
olhos como estrellas, sob as flres que se desinastravam das espiraes
dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos
dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces
pallidas, e as alvas espadoas.

E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo p, mostrava-se  orla do
vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seduces
das homenagens, nem as excitaes da walsa, nem a minha mesma presena,
conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com
tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitaes do
olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os
d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras
e seductoras que so a falsa linguagem da lucta de um corao abalado
com um espirito indeciso; maneiras que desfaram e colorem as
concesses, e irritam a esperana sem desanimal-a.

Mas como  que a presena do seu amante a no perturbava nunca? Bem
podia eu fital-a at cegar na fixidez do olhar, que ella parecia no me
vr nunca.

Era mulher at s pontas dos cabellos!


III

Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao
infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas
flres; baixava os transparentes de brocatol cr de rosa, enramalhados
de flres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os
coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e
alizava com as mos o tapete de cadaro do meu leito. Regulava o
relogio, cujo pendulo to moroso ento me parecia. Sobre um bofete de
po das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dce de fructa,
pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados
de Marsalla. Mandava o creado passear at  noite, e ficava eu senhor
absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave
entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito
inquieto o dce ninho dos seus amores.

Que cuidados me no dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu
estremecia! com minhas mos pregava os alfinetes no pregador de veludo.
Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que
ella usava para alisar os cabellos descompostos pela presso de meus
dedos tremulos. Atiava o dce fogo que se avermelhava entre as cinzas.
Aproximava do fogo a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que
ella punha os ps, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando
seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro
d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: Vais
ouvir soar a hora de teu prazer, mais inquieto e agitado que nunca, ia
eu p ante p, da porta  janella, como vae e vem o co fiel,
atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono.

E eu dizia comigo: A esta hora, tambem ella lana a furto os olhos ao
seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na
barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre
a fronte pura. Involve as espadoas no chal escuro, e aperta-o sobre o
peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os
olhos negros accumula as dobras do vo tambem negro. Atravessa as salas
desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas.
Vou vl-a!

E depois, mais nada... Oh! que longo  o tempo quando se espera e
desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um
filho! Que desgraado sou! no vir ella? J se demora!

E, com tudo, era-me to dce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto
to bem disposto para ella! To dce o recebel-a nos braos, no limiar
da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! To bom
tocar-lhe as mos, os cabellos, e vl-a emfim fitar-me com seus olhos
lindos, e ouvil-a dizer: tu com aquella voz muzical!


IV

Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava
eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da
escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas
lagrimosas, e, sem erguer o vo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda
ao peito, cingia-me o pescoo, e, timorata e assustada como um
passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que
se fazia na casa ou na rua.

E, quando emfim os mdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor
o limiar, era uma como viso deslumbrante que alagava em ondas de luz a
camara fechada. Os menores objectos, com a presena d'ella, eram-me
thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se ento, como, nos
primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias
e taciturnas.

Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas
dos cortinados, atravessavam o espao, e quebravam-se ao fundo da
alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flres das jarras,
postas deante das janellas, desfolhavam uma a uma, juncando o tapete das
suas frescas petalas. Segredando, de mos dadas, palavras incoherentes,
contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoo deliciosa
e entranhada que nos adestringia docemente o corao, e nos marejava de
lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas
estas expanses; nossos pensamentos, porm, no ultrapassavam as paredes
discretas do quarto silencioso. Para ns o mundo todo estava alli.

E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos
braos! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu
lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha s
mos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a
pela cintura quebradia, e ella, oscillante entre os meus braos
compressores, tomava-me a face entre as suas mos, affastava-a com
meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a
aterrassem.

E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos ps d'ella,
beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrra alli, collados os labios quelles
ps infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de
plumas de cysne, a tiritar entre seus vos como o anjo da inquietao
meio involto na plumagem de suas azas!


V

Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural
o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E ento, no
explendor de sua desordem, desatadas as tranas, nuas as espaduas, nus
os braos, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais
enleada que eu mesmo, estava to senhora sua como se estivesse recostada
na cadeira de veludo ao p do fogo de sua casa. Eu no sei o que ella
no fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia
nem a molestava.


VI

De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos.
Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspiraes
da esperana, e o quanto era consolativo para amantes separados, o
pensar incessante um no outro. Fanny sobre tudo se deixava levar desta
unio espiritual com toda a expanso d'uma alma juvenil. Recebia as
confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam
n'uma especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratido,
rosadas as faces, palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar
embaciado, maravilhava-se ella da abundancia de minhas palavras, como
imagens graciosas que volitassem dos meus labios. No a fatigava o
ouvir-me.--Mais, mais,  meu Roger!--dizia ella. E, encostando o
cotovelo  almofada, inclinada a fronte na mo, requebrado o corpo, os
ps a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com
tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da
minha alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mos juntas, sorria de
prazer como creana amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se
nossas almas n'um apertar vago e dce, com estremecimentos voluptuosos.


VII

No instante em que ella ia sahir, era ento o irromper minha alma em
exploses de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com
ternura, seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente as mos,
que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. Fazia-me graciosamente
sermes maternaes. Acariciava-me com bondade, abraava-me, ia e vinha
para abraar-me ainda.--Tornarei a vr-te?--exclamava eu com
tristeza.--Cala-te, Roger,--respondia-me, abafando a voz n'um beijo.
Por fim, comprimia-a longo tempo ao corao; e, quantas vezes, ao
apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios
de ambos!


VIII

A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de
minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.

L ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu vo
fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado
a face.

A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o
movimento. Com ambas as mos ajustadas sobre a cintura, comprimia as
dobras da cachemira que a involvia desde a nuca at ao artelho. Nunca se
voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos
caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e eu
atirava-me sobre o leito, escondia nas mos o rosto, avocando,
hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me
illudir com possuil-a.


IX

A primeira vez que ella ahi veio, no se espantou, mas examinava tudo o
que a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia l espadas
de combate dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso.

Tambem se deteve diante de um retrato de minha me, que tinha sido
formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de
cartas. Mas, com discrio cheia de graa, passou, sorrindo, sem tocar
nas cartas.


X

Eu era feliz! Desprezava quantos no eram eu, porque ella os no amava!
De longe e de cima olhava o mundo. De tudo segregado, tudo via d'alto,
mas com indifferena, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre mim
convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do co. Nos olhares que
se encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o
murmurar confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como
acclamaes longinquas.

A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus
pensamentos todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais
consoladora que a esperana. Nunca eu antevera sedues tamanhas em
humana creatura, tantas delicadezas n'um corao, tanta graa na
reserva, tanto pudr na renuncia de si!

Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illuses e desalentos, de
melancolia e criancice, fra o bastante a conquistar-lhe o amor.
Parecia-me, todavia, pouco esmerada em attenes e cuidados. To amada,
por certo, tinha sido ella! Bella ainda, mais bella do que talvez se
cria, augmentava cada uma das suas graas com o esforo timido que punha
em evitar a apathia, que presentia de longe, com a vinda dos novos
annos.

Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava
os labios n'uma expresso de meditar mais affectuoso, quando seus
cabellos, fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras,
as envolviam com uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu ento
as mos candidissimas, e figuravam-se-me duplicadas, para que suas
ultimas caricias fossem mais copiosas e maternas. Escutava ancioso os
suspiros que lhe sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo
do corao que reagia ainda  indifferena, desejando-a acaso como
repouso, e expedia a sua mais bella flamma, antes de retrahir-se em si
para morrer.


XI

Eu era feliz! Mas a desgraa j vinha perto. At ento com a delicadeza
mais de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a
menor alluso a seu marido. Com uma pouca de bemquerena, conseguira eu
phantasial-a livre e minha, sem partilha. To pudicamente se me dra
ella! Foi como rainha, sem nada mercanciar do que no podia ser vendido.

Um dia, porm--como isto foi, no sei!--ressoou suavemente nos labios
d'ella o nome de um filho seu, e, em seguida, no pde deixar de
fallar-me d'elles.

Adorava-os com to furioso amor, que me abandonaria se me eu no
comprazesse em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus
filhos. Por mim fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella
contava como abundancia extraordinaria de corao; eu, porm,
escutava-lhe mais a musica das palavras que as idas. Eu adorava-lhe a
voz magica e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que
ella amava.

Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrra d'uma epidemia
passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de
se aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo corao. O que ella
ento fez forou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeio que uma
me pde dar a um homem. Esteve sem me vr seis semanas. No desamparou
esse bero sobre o qual se estorcia o dce thesouro vivo, formado do
proprio sangue do seu corao. Escreveu-me quatro linhas apenas,
admoestando-me a soffrer com ella. Homem orgulhoso que pertendes
dominar, unico, sobre o corao d'uma mulher! aos menores vagidos de uma
creana, v que lio te d a natureza!

 fora de pensar n'esta creana, entrei a pensar no marido de Fanny; e,
a meu pesar, d'ahi a pouco, j no pensava seno n'elle. Nunca o tinha
visto. A mim que se me dava, n'outro tempo, de vr o homem que lhe dava
o brao, para entrar no baile, e discretamente se sumia na multido logo
que um circulo de admiradores a compelliam a isolar-se d'elle?

A ella amava, a ella smente eu via, por ella vivia... que me importava
o marido d'ella?

Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia
que me vio no percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou,
porm, que uma preoccupao secreta me alvoroava, emquanto eu,
silencioso, lhe corria a mo sobre o brao nu. De repente, varada por
cruelissima suspeita, repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu
a atraioara.

Sorri com doura a esta louca arguio; e, tomaado-lhe a mo como
convite a sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe
novo favor, com receio de ser indiscreto.

--Que ?--disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de
surpreza.

Respondi que as seis semanas de solido me haviam feito reflectir
tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que
incidente algum podsse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos
aproximarmos. Finalmente, com um embarao que eu no podia dominar,
balbuciei:

--Por que no sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu
dissimulava a minha ida, fallando assim: por que, de subito,
resplandeceu de sorrisos, e lanando-me ao pescoo ambos os braos com
vehemencia, confessou, crando, que, desde o primeiro dia, ancira
sempre o vr-me em sua casa.

--Por que m'o no dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me,
fazendo gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que
querem ser adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia,
communicava-lh'os aos labios por entre beijos... Vr... amar os filhos
d'ella...

J Fanny redobrava de elegancia o salo mais intimo em que seus amigos
eram unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias,
reunir em volta de si, os objectos todos de sua mais viva affeio!
D'ora em diante no seria obrigada a tirar o pensamento de seus filhos,
para ir em busca da minha imagem atravez do espao, trazel-a para o meio
d'elles, e fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso,
decorado por ella s, a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um
maior logar--no em seu corao que no  possivel--mas em sua vida, e
tomarei quinho immediato em todos os seus jubilos, como em todas as
suas maguas. Era um bonito sonho!


XII

Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as
semanas convidava a jantar.

--Ahi nunca vae muita gente--disse ella--poders facilmente ligar-te
comnosco.

_Comnosco_!... Era a primeira vez, que, n'uma s palavra, ella associava
comsigo innocentemente o marido, sem dar f da angustia que esta
alliana me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma
oppresso indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois
d'aquella palavra, terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se.
Tinham decorrido as duas horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiana;
comigo ficou a esperana horrivel.


XIII

Sim, esperana horrivel! porque eu no sei exprimir o que reluctava em
mim de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vl-a emfim sob os
olhos de quem lhe governava a vida.

Tudo isto se misturava em meu corao como venenos e contra-venenos, e
d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me
sentia na cabea latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim.

Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa
estreitissima meza, onde  claridade dos globos, nenhum conviva poderia
esconder os pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada
vi, e respondi ao acaso s perguntas que me fizeram. Comia
machinalmente. Esforava-me por ser attencioso e polido; mas denotava
mais inquietao que o assassino que se v em risco de ser descoberto.

Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito
das porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das
terrinas, pelo vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer
palavra, e se moviam sem rumor d'um passo, como sombras negras de luva
branca; e suffocado pela athmosphera calida da sala impregnada de
evaporaes penetrantes, misturadas com o odor do vinho e o das flres,
eu no olhava Fanny, nem mesmo a escutava. Tornou-se-me insopportavel a
par de mim a presena d'ella: era como um peso que me abafava.

E tambem o no encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de to
longe, com o desejo e terror de conhecel-o. Inceguecido por vises
funebres, eu no podia vl-o, com quanto elle estivesse defronte de mim.

De repente recobrei a minha lucidez sentindo um p de mulher rossar o
meu, e comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha
preoccupao visivel de mais. Dirigi-lhe um lano d'olhos agradecido; e,
encostando-me ao espaldar da minha cadeira, contemplei detidamente
aquelle que mal sabia que possante interesse ingendrra em mim o estudo
da sua pessoa.


XIV

Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.

Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira
gemia sob a gravosa flexo dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe
do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de
cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio
d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.

Comia, s mos juntas, mos carnudas e curtas, e levantava os cotovlos
para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre
cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos
grandes copos de vinho estreme.

No tinha m cara, nem vulgar. O aspecto era de fora. Todo elle
denotava pujana extraordinaria de musculos. A superficie das faces e
queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a
fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros j betados de
russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectido e
persistencia.

Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porm claro como
cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos
julgarieis felizes, evitando esse espelho de ao incommodativo  fora
de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando
em saces os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para
traz a cara vermelhaa. Era grave e sonora a sua voz; o gesto
tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas,
brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de
inteireza e aceio.

Pareceu-me ter quarenta annos.

Primeiro, ao vl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em
rivalidade com natureza to possante. Involuntariamente me confrontei
com elle, eu, a par d'elle to franzino, como o seriam quasi todos os
rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e
fineza de raa, e de elegancia, amesquinhava-se em comparao d'aquella
riqueza de sangue, pujana de frmas, e virilidade fria e pacata. Eu era
como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao p
d'elle que homem era eu? Forte e gentil expresso de homem era smente
elle, eu no.

E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparao de
mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dce e loura como Eva,
candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo
requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a
face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e to delicada
no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como  que ella poder amar
tal homem? Violenta associao de duas naturezas que entre si no tinham
um ponto s de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro!

Oh! Desdemona!--me dizia eu--que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny
que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra,
olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mo alvissima os
louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E
fallava-lhe a elle, sem turvao nem embarao... e dizia-lhe: _meu
amigo_, deante de mim.

E elle, com menos embarao ainda, lhe respondia, todo attenes e
deferencia, com ar, porm, de grande superioridade.

O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que
lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as
dizem aos filhinhos curiosos.


XV

Terminado o jantar, e passados os convivas  sala grande, e sentados em
redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia
os ps ao fogo.

Encostei-me ao rebordo da chamin; e, com palavras de ternura que lhe
dizia a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste
logar via eu as costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que
flammejavam as velas, involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em
magnificos castiaes de prata; ouvia o ruido dos tentos de madre-perola,
e o murmurio dos equivocos que os parceiros se trocavam. Cuidava eu que
estariamos assim a seguro de reparos, com alguma astucia, at porque a
dona da casa fra para o fundo da sala dedilhar no teclado do piano.
Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes ondeando o
ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas ainda,
cantavam em ns. Porm, separando-se do grupo dos jogadores junto ao
qual at ento estivera de p, o meu rival dirigiu-se a ns com
semblante gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que
fallavamos. Com melindrosa urbanidade, que excluia todas as maneiras
familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares
cortezes, entrou elle a dirigir a conversao e eu no pude deixar de
acompanhal-o.

Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibraes, de que elle
no dava f, fallou-me de caa, theatros, cavallos, que sei eu! no
deixando mesmo de entrar no amago dos assumptos banaes que eu
imprudentemente escolhra, mas que o interlocutor me condemnava a
repetir, como se elle os julgasse unicos dignos de mim.

Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as
com os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento.

Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas
cordas brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse
que em meu corao havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia
restrugir-lhe nos ouvidos, e insurdecl-o!

Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em
redor do claro dos castiaes. Sem me vr a mim, nem a outrem, nem a
ella, apertava-lhe machinalmente a mo, scismando talvez em no sei que.
E eu, contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos
espectaculos. Em quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida
como uma estatua de marfim; mas no ousava balbuciar, nem fallar, e
consentia.


XVI

Desde essa noite, uma s preoccupao me dominou--dissipar do meu
cerebro a imagem do que vira. Quiz,  custa de tudo, esquecer aquillo
que me humilhava e esmagava o corao. Como eu me castigava do que
fizera! Absurda cubia de conhecer o que ella to de siso me escondera,
e que eu devia ignorar sempre!

--Oh! no--me dizia eu--nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel;
nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos
ho-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de
mim, ha-de a mo d'elle apertar a tua,  mulher serena e docil!

Tres dias depois, quando veio a minha casa, no viu ella em mim mudana
alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas
dr era esta que simulava a quietao da paz.

Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no
corao, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos
escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme
invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe
fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a
preoccupava, Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da
minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma
dr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com
amargura:

--Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te ds por
venturosa se o juizo que esperas no lhe fr desfavoravel. Mas, Fanny,
tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira.

Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do corao lhe
refluiu  face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a
sua casa, para me vr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces
e queridos que lhe decoravam o corao!...

--D'onde vem essa mudana, Roger?--murmurou ella com penoso esforo.

D'onde vem?! exclamei eu infurecido... mas vi-lhe ento o rosto
innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus ps, abraando-a pelos
joelhos, disse-lhe brandamente:

 que eu sou horrivelmente desgraado, Fanny!...  porque me devoram
ciumes...

Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me
ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mos: eu permanecia de
joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espao, profundamente,
explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu
ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio,
exclamou:

Filho, meu pobre e querido filho!

E desde ahi, no tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.

Eu, porm, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder
abster-me de o recordar. Affagava-me ento ella, e reprehendia-me.
Perdes o tempo--dizia-me, sorrindo-me, e abraando-me, se me eu
detinha muito na exposio das minhas tristezas. E seus braos se me
inroscavam no pescoo com ameigadora volupia, com a fascinao dos olhos
me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus
seus labios. Mas tudo em vo. J se no franziam meus labios para
saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluando gemidos.


XVII

Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem
daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse,
no havia dilil-a de l. Pde ser que aos olhos de toda a gente fosse
elle ridiculo, mas aos meus no cuidei que o fosse. Para mim, era
sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos,
trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade.

O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama comeado por transportes
de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores,
desespros, no representava elle: to prudentes tinhamos ns sido!

Atroz mudana de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador
soffria da posse pela posse. No lhe restava mesmo o recurso de excitar
as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!

E era-me fora desconfiar e occupar-me d'elle!

A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este
papel de fugidio, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu
Deus! se eu a no amasse!...

Em comparao dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava
a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e no sabia que
flagellaes me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde ento,
se deante do fogo, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma
da dr presente, levando-a s memorias de amores passados; ou esporeando
 redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar
o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro,
ou se pedia  orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que
nunca me valeu uma gota d'agua do Lthes; ou se, n'um s lano de azar,
expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensao diversa
daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da
minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me,
invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no
sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na
remeniscencia da minha me morta, eu pude conseguir estrangular a
serpente que me atassalhava o corao. Comigo, a viso fatal sorria aos
meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado;
zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo
fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha
me.  flr de minhas recordaes todas, scenas incantadoras,
affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de
minha alma, surdiam incessantemente outras lembranas, outras imagens
que espancavam aquellas.

E no havia remedio seno acolher aquellas abominaveis lembranas;
affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso
violentado; venciam-me, e eu ento, encarava-as!

Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.

S quem ama pde formar ida vaga de minhas agonias. Era tudo claro e
patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher
amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo
do fogo em sua sala, ou  meza, no logar de honra, em face de seu
marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenes
delicadas para todos, attenes que so a magica linguagem da graa do
corao. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe
foroso prevenir suspeitas de homem to prespicaz: como no seria ella
carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas
coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou
tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expanses naturaes!... Era
elle o leo dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido,
e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco
de perigos mil, exposto a humilhaes degradantes, a uma bala, o roubava
nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinho.

Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia
pedaos o corao. Eu no podia suspender o trabalho indefesso de minhas
evocaes. Completava-as, ruminando minhas dres, com satanico prazer.
Ento se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, s por s
com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o ch
fumegava nas chavenas, ao suave claro da lampada, ao p do lume que
docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles
mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil,
fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convm
 mulher quando  formosa, e o dominador  forte. E no cuideis que eu
ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.

No podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe
outras. Era foroso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde,
agonisava a chamma no fogo obscuro, a lampada mortia abafava os seus
lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o
passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do
prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles
sosinhos. E eram esposos!...


XVIII

Chegado at este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha
alma, alguma coisa se estorcia e agonisava em convules desesperadas.
Estas imagens, evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraado, que se
eu tivesse visto a mulher adorada cuspida em minha presena. Erguia-me,
e via as horas; depois, despregava a rir, como doido, ou, involvendo a
cabea nos braos, lanava-me a chorar sobre o leito.


XIX

De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um
ttano.

E se me arrastava  janella, para aspirar um pouco de ar puro, a mesma
pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flr venenosa:

Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, j m'o disse; foi
por elle tirada  familia que a no queria ligar a um homem sem posio
e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que  energico e paciente. Sabe
querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a
mim? Somos to differentes um do outro!

Um dia, finalmente,  fora de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no
espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny.
Lembrando-me quanto ella era sensivel s caricias; figurando-me as
scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido,
invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que
o despreso, mais peonhenta que o odio, me subiu do corao aos labios.

--Ora ahi est por que ella me ama hoje--me disse eu sacudindo a cabea.
Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me
covardemente com uma nova punhalada.--Ama-me para variar--disse eu
amargurado--para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais
sentimental, mais delicado. A no ser para completar o seu ideal...
accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposio.

Mas em tal caso--grito eu com terror indisivel--eu no sou para ella
mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um corao! Fui
medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addio! No passo
d'um complemento.


XX

Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas
interminaveis meditaes na multido que peja os passeios. Achando-me
entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu
pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de
julgar-me to absolutamente miseravel, e classificava de creancice as
mais monstruosas hallucinaes-- o ciume--dizia--que me torna absurdo.
Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo brao
de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em
deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:--Quantas
mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem
n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em
amigo, e nem sempre!  de toda a gente, menos de sua mulher...

Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e
eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para
saber que no poderia jmais adquirir o espirito de conformidade com o
meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mo de seu
marido, amigo s que seja! Alm d'isso, eu no queria cortejar esse
dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o
homem indispensavel. Eu vaticinava--se as suspeitas alguma vez o
molestassem--quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas
mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para
destruil-as. E para aviltamento j bastava! D'aqui avante no
passo--protestava eu--j  de mais o lamaal do meu caminho.

Mais canado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da
primavera faziam-me vontade de chorar. A mornido da atmosphera
ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das
multides ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da
minha soledade.


XXI

Em troca d'estas dres, que por serem silenciosas, no eram menos
crueis, nenhuma consolao eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos.
A duvida resequira as novas flres d'elles com seu impuro sopro.

Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mo adunca da
mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrana d'aquelle que, na logica
da minha paixo, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo,
vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para
empeonhar nossas caricias.

Eu via os traos d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da
mulher que eu adorava. N'aquelles braos que me apertavam ao corao,
estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias
de Fanny, se infiltrra elle. Via-o na fronte pallida, no rosto
contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraando-me, com
ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus
abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro
sobre os panos verdes das mesas do jogo, s francas gargalhadas das
mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braos
abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E
ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles--dizia eu
lastimosamente--soffreu jmais por seu amor infertil, tanto quanto eu
soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possesso! quando nos
no fatigas, deshonras-nos.


XXII

Em fim contristava-me o desapreo que, a meu pesar, soffrra o idolo em
minha alma. At ahi, era um verdadeiro culto o que eu sentia: a
realisao de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: affizera-me a
vr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de deperecimento ou
macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a minha
piedade a ergura para manchar seus ps no contacto da terra, e
confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do
ciume, que principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de
adorao, odio, furor, e desprezo.


XXIII

Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um
duelo de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do corao
inficionados d'uma certa grosseria. Morrra o respeito em mim.
Dominavam-me ideas brutaes de lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de
castigar rudemente aquelle ente inoffensivo e graciozo que eu amava pela
vida! Eu queria invilecl-o diante de mim ainda mais do que a sua imagem
se invilecra na minha memoria.

Como pde ella resolver-se a isto!--exclamava eu inraivecido!--Oh! que
execravel zombaria  isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos
so coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os
enchugam.

No podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que at ento eu
guardava comigo s. Os homens no sabem soffrer longo tempo, sem
descarregar covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais
amam.


XXIV

Tu sabias que eu era cazada!

Foi a suprema razo que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus
primeiros queixumes, ainda moderados.

Eu respondi:

No sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e no podias
prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor?

E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado:

Como viveis juntos?

Ella corou: estava offendida.

No devemos fallar d'isso, Roger--respondeu com frieza.

Mas to desgraado me viu, que, por commiserao, fallou, violentando os
seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio.

Ella, porm, no me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de
conhecer a extenso da minha desgraa, querendo saber,  custa de tudo,
onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu estava enfiado e sem
ar. Poz-me a mo na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny contemplou-me
longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix at 
derradeira gota, disse-me que ia responder-me.

Eu, chegado a este extremo, com embarao imprevisto, com uma hesitao
que obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa
luz da inteno que eu tinha; com uma turvao doloroza, que augmentava
a angustia do corao animozo; illaqueando o pensamento na rede das
divagaes e periphrases, como se eu quizesse demorar o momento de
conhecer o que eu temia saber--interroguei-a cerca de mil coisas
tendentes a velar de mim a existencia intima d'ella. Respondeu-me com
simplicidade, to embaraada como eu, vencendo, porm, intrepidamente a
vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de mitigar-me as
dres, e dar-me um exemplo de desgostos que pde vencer a mulher que
ama, quando  desgraado quem ella ama.

E deu-se ento em mim uma successo monstruoza de caricias e golpes;
mistura sem nome de balsamos e venenos; associao horrivel de martyrios
e glorificaes. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel,
permanecia em toda a sua plenitude; porm, quantas consolaes podiam
modificar-lhe o corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me
prodigalisou, espiando com sobresalto em meu rosto o effeito das
palavras confusas mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira
pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se
n'ella uma soberba exploso de revolta, que me fez cahir a seus ps,
pedindo perdo. Eu devia crl-a. Muito vante tinha eu ido nas
conjecturas do meu ciume. Fanny repartia-se; mas no pensava sem horror
n'essa repartio.

Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa
confuso que ella acompanhava de tantas consolaes, pelas lagrimas que
lhe derivavam na face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua
vida; eu poderia ficar altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella
tamanha dr e humildade; mas, em meu espirito, havia uma s preocupao,
que me alheava de mim mesmo. Fra d'ella nada comprehendia, no pensava
em nada.

No tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe
receios pela sua tranquilidade.

Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o
n'outro tempo.

A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e no enchugou as lagrimas.
Roger! Roger--disse ella-- pena que tu sejas sempre creana. Ouves, e
no comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em ns? Que
mulher tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe d?
J no digo os cuidados, as attenes, os bons modos, a amizade; mas um
pouco desse balsamo que  a essencia da nossa vida toda--um pouco
d'amor!


XXV

Esta penosa discusso avantajou Fanny na minha estima, mas no me
consolou. Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da
inteno! O facto brutal era o mesmo. No obstante, reprehendi-me da
curiosidade do meu ciume, que at me roubava a sombra da duvida que eu,
por momentos, affagava ainda.

No podia, pois, atenuar a minha dr o effeito das ultimas palavras de
Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a
mesma angustia.

Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as foras, antes
de aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e no
podemos mais tempo resistir a ns mesmos. Fugiu de minha alma a menor
idea de lucta; do corao d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e
o abrao que nos apertou era to forte, que, mais uma vez, gostamos um
minuto de verdadeira felicidade.


XXVI

A confisso, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como
a mim. Ella, porm, to pouco se individualisava na offensa, que, desde
esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dres, todas as suas
escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me
graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que
vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupao
devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas
em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera,
como s nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que
precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade s
estreitesas da escravido da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos
molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos
desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes.
Tinha como brio de se vr em minha casa depois de haver-se exposto a
perigos tamanhos, feliz por a no terem encontrado, contente porque me
via menos triste. O vencer obstaculos, a conservao do segredo, manter
a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso no a deixava
sentir o cansao. No ha felicidade perfeita--dizia-me ella
enternecidamente com um suspiro--ambos pagamos  tristeza o tributo do
nosso amor; mas este amor  to bom que o tributo que a tristeza recebe
no me parece uzurario.

Nunca suggeria discusses; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus
deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte.
Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que no podia
fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o
meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude
surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas tl-os-ia ella?...

Quando eu estava ssinho, pensava assim:--Que cautellas ter ella tomado
para dissimular este amor? que invenes! que calculos! que ardis! para
se furtar a discusses sobre as suas sahidas! Quantas concesses para
no ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que
perder! E eu to pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!

Tratava-me ella por creana, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas
coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de
penalisar-me!

Eu no queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era
completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a
retl-a em casa. Desconfiava ento de abominaveis calculos. Affirmava
que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitaes e
fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a.

Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vr os horrores do
meu infermo espirito.

Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para
entrar s profundezas da consciencia, dizia em mim: Quando a tenho
torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada,
golpeada no corao, perguntando-se se me tornar a vr em sua vida, que
far ella na rua para disfarar o tormento que a aperta, e mascarar o
rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver  mulher
risonha que eu conheo? Ser  custa de carinhos que ella affasta as
suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve
chorar com seus filhos! So tantos os esforos dolorosos que elles lhe
custam!

E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quo
certo  que, semelhantes  me, to bons, to discretos, com suas
mosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.

Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.

Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a
circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha
expresso de piedade.

Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte
perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos
pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.

Diante de mim smente ella affrouxava a rigidez do seu porte, e eu da
melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de
senhora feliz!

Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo,
sem ignominia!

No me deixes--dizia-me ella por vezes--Tu es-me necessario como a
luz!

E outras vezes accrescentava:

O que me prova que eu te amo,  que eu amo tudo que  teu, o teu dce
egoismo at, at a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustias!

Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento,
que no ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.

Eu observava-a, e ella sacudia a cabea. Depois, retorcendo os dedos,
exclamava:

Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a
idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus
negou-me fora, e, por toda a vida, cumprirei a sentena da minha
fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter;
tenho visto sempre ao p de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu
Deus! como eu me detesto!

Tomava-a ento nos meus braos para applacal-a; mas no achava que
responder-lhe--De que quer ella fallar?--Perguntava-me eu estupidamente.

Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e
attribuindo-me as palavras fugidas  consciencia d'ella, sentia-me feliz
e orgulhoso.

Isto s vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resolues--Guardarei
para mim os males todos, e as consolaes para ella--propunha eu comigo.

Por compaixo, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos;
sacudia o cansao do meu pesado scismar, por me deixar levar dos
transportes ardentissimos da paixo. Refazia-me em meiguice e ternura e
sujeio, mais affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia,
encontra o olhar do dono querido.

Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja  mulher estremecida;
tornei-me frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um
tempo, rindo desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que
dissesse respeito directo ao assumpto uzual dos meus tormentos.

Mas esta misso heroica, de que dei m sahida, no a enganava. Olhava-me
ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabea. Cuidaria ella, em
consciencia, que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor?

Estes accessos de heroicidade no podiam durar em mim longo tempo.
Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu
recobrava o meu aspecto triste.


XXVII

Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella
situao. Mas, d'ahi em diante, havia entre ns alguma coisa, que no
podia j mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que,
mutuamente, nos atormentava os coraes. Embora cerrassemos os labios
para o no deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como
dr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecaes. Um s grito
bastava ento para incendiar uma exploso subita, e eu, principalmente,
esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso  tristeza que
me devorava. No queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre.
Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os
labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se
embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor
ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia.
Fanny formalisava-se ento; meditava largo tempo antes de responder-me,
para no se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o
sobr'olho.

Os homens so insaciaveis--dizia ella, com grande espanto meu--No podes
contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se
passa em minha caza?

Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias,
esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de
sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas s de vl-a, toda
a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos ps d'ella, e
comprimia-a convulsivamente ao meu corao.

O que muito me espantava e irritava acremente era a docilidade com que
ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as
difficuldades, no podiam nada com ella. Vr-me, no me vr, era tudo o
mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e no
dizia palavra.

E se eu me matasse? exclamei eu, um dia.

Fanny encolheu os hombros.

E se algum incidente imprevisto nos separasse?

--Que queres que eu te faa!...--disse ella, e em seguida entrou a
chorar.

No podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de
modo que as suas menores inspiraes lh'as dsse eu. De sobra
comprehendia ella a minha inteno, e mostrava-se; mas no me cedia
nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E
dizia-me:

Eu sou obrigada a soffrer a posio que me deu a sorte. Devassar-lhe os
segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo...
Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.

Eu de mim esqueo-as sempre que venho aqui.

Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:

s muito egoista! Pelos modos eu no devo amar seno a ti!

Impellido, porm, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella
anteposesse a sua vontade  minha, astuciava com ella, impetrando-lhe
exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de
baixeza, que, irritado por ser eu s a penar, empregava toda a minha
influencia para exigir d'esta desgraada mulher que seguisse uma norma
de proceder deametralmente opposta  que seu marido lhe trara. Bem
sabia, eu, com isto, que a sua casa, at ahi pacifica, ia tornar-se um
inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansao, seguiu ella
docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois
senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho.
Ambos ns, sem treguas, lhe flagellavamos o corao.

Espicaada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de
inteiresa, disse-me:

Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o
repouso.

Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de
martyrio, por que era para mim cruelissima mortificao vl-a erigir-se
em defensora de seu marido. Fanny, alm disso, parecia fatigada d'essas
disputas aviltantes e penosas.--Tenho medo de infastial-a--disse-me eu
um dia.


XXVIII

Porm, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vr-lhe
no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na
mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para
me irritar. Tomei a peito depraval-a, buscando abafar este amor nas
cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas
diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de
Phrynea absorvida, e sria, nutrida dos mais finos primores como das
especiarias mais corrosivas da paixo, o que, alternadamente, se
assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo
immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expresso de spasmo que
reluzia perpetuamente em seus olhos azues, to rasgados, sob as placidas
e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os
sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! No poderei jmais
esquecer os olhos d'ella?...

Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabea, no andar, tinha
algumas vezes um no sei que que denunciava appetites de um sensualismo
profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concesso
duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma
palavra s, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.

Que mulher s tu, pois? lhe disse eu, em seguida a uma discusso em
que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou
ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos;
porm, commoo interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de
leve as faces.

--No posso viver sem amar--respondeu ella pausadamente--No posso viver
sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, so cousas
secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que 
exclusivo meu,  a minha paixo.--E com leal exaltao, ajuntou:
comprehendes-me?


XXIX

Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discusses. Todos os
annos, Fanny ia passar aquella estao ao campo, nos arrabaldes de
Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida;
eu, porm, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia
Escrever-nos-hemos disse ella. Semelhante resignao exasperou-me. No
sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me s que combati aquella
resoluo com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava to
alvoroado, to infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos
braos, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que
eu lhe indicasse.--S prudente! sobre tudo, no te arrisques--disse-me
ella, entre dois beijos, retirando.

Passados oito dias, encaminhei-me na direco de Chaville.  beira da
estrada real de Versaille  que estava a casa d'ella.

Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e
fui ter a um pavilho, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte
passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um
vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo.
Fechei a porta. Estvamos s escuras--No falles--segredou-me ella, com
extraordinaria agitao--elle est desconfiado ha tres dias; anda
triste; deve ter suspeitas.

Aqui est uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu no
contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mdo-- preciso que
elle no desconfie; no quero que elle o saiba; no quero. Tu s homem,
a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se  de sacrificios
que vaes fallar-me no temas, que eu sou forte.--E sentindo-se
desfallecer, vendo-me perdido de dr, disse-me com amargura:--Eu tinha
esquecido que tu no passas d'uma creana. Perdoa-me por haver-te
fallado como a um homem.

Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a
sentar ao meu lado--serei talvez creana, mas tenho coragem de homem.
Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, no sei que
inventar; mas, j que s forte, decide tu o que devemos fazer:
submetto-me.  preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua me, se
assim o queres, no me vers jmais, ainda que me procures por toda a
terra.

No quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo
no cho com o p. Depois tomou-me a cabea entre ambas as mos e
abraou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que
rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraados pela cintura, curvamo-nos
sobre a vidraa para vr quem assim passeava no jardim a hora tal.

Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados
que volteavam ao vento sobre a cabea nua. Caminhou parallelamente ao
pavilho, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que
cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mos enlaadas no
dorso, cabisbaixo, as feies alteradas, como homem que leva de poz si
pensamento oppressivo. Passou ante ns, e imbrenhou-se no cerrado
arvoredo.

Tive de sustentar em meus braos a desgraada mulher, por que os joelhos
no podiam sustel-a. Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido
nada suspeita. Est preoccupado; mas no se v alli a inquietao febril
dos ciumosos. Eu sei bem o que , de sobra me tenho observado a mim.

--Crs? exclamou ella n'um impeto de esperana que a vibrava.

Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias,
tornarei. D'aqui at l observa-o bem. No sei o que  que o inquieta;
mas eu a quem tu hoje chamas creana, digo-te isto: teu marido no tem
ciumes.


XXX

Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalo do solitario
passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro,
deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei
de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da
sua concentrao. Mas tinha cerrada a bcca, e impassivel a fronte.
Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o co
estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braos, como se
do corao lhe fugisse alguma prece ameaadora. E eu exclamei
mentalmente:  elle, pois, desgraado tambem!


XXXI

Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. No parava em
parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em
borbotes, como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella s! Dizia-me
no sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaado de perder
Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separao
violenta. No atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia
com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia
justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do co.

Ao oitavo dia,  hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez no
esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny.
No. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma
balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a no encontrasse
no pavilho. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus
temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra,
alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado
por mos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu
levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim
melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a
meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente
marulhados n'um rodopio. Os ces, que dormiam nos pateos, atiravam-se
aos portes latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que
estalavam na calada. E o vento que me aoitava a cara, murmurava-me aos
ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum
drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para isso, decidido a
no succumbir sem luctar com todas as foras que a desesperao desde
muito me tinha dado. Quo exaggerado eu era na espectativa como nos
preparatorios! Este meu espirito enthusiasta no sonhava seno combates
sobrehumanos, desinteresse fero, esforos heroicos!... Ai! e que
desenlace to vulgar me esperava!


XXXII

Transpondo o muro, fiquei surpreso de vr Fanny assentada na margem d'um
passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu
marido estivesse ainda fra. Logo, porm, que me avistou, Fanny, veio
para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa
pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mo. Pareceu-me vl-a inleada
e cuidadosa.

Que aconteceu?--perguntei, levando-a para debaixo das arvores.

--Tinhas mais que raso, Roger; meu marido no tem ciumes--disse
ella--Nunca se fiou tanto de mim. No me cancei a interrogal-o. Hontem
contou-me a causa da sua preoccupao. Os seus haveres todos,
depositados em Inglaterra, esto em risco com a fallencia d'um
banqueiro. Esta manh partiu para salvar alguns restos, se ainda for
tempo.  foroso que a inquietao fsse grande--ajuntou Fanny
suspirando--por que nunca foi commigo to expansivo.

No achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com
quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como
homem que soffreu violenta pancada na cabea. Regorgitavam-me nos labios
os sarcasmos; mas eu represava-os.

Nada respondes, meu amigo?--disse Fanny.

--Que heide responder?--exclamei, perdida a consciencia da minha
brutalidade.--Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser
privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... Mas?
atalhou ella.

--Mas no posso lamentar-te por teres sido ameaada de perder-me, e te
achares hoje mais livre que nunca para amar-me.

Fanny ergueu as mos ao co, como invocando o seu testemunho, com
expresso de piedade, e disse brandamente:

No fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.

Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos
darmos o brao, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou
ella deante de mim e tomou-me ambas as mos, e disse em tom de voz
submissa:

Roger, por que no fallas?

--No tenho consolaes que dar-te.

Por que?

--Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.

Pois que te succedeu?

--Nada.

Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella
curvando-se debaixo das franas, eu, erguendo-as, para ella passar.

--Agora vamos ns tomar quinho nas amarguras d'elle--disse eu de
repente. Assim deve ser respondeu ella com tranquillidade.

O remate do nosso encontro foi magoado por um comeo que eu no podera
prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu
pesar, tambem. E, todavia, eu no poderia justificar-me d'um certo
prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do
marido para sempre.

--Quem sabe--pensava eu commigo--se a sua ruina far o que a minha dr
no pde fazer?


XXXIII

Depois d'este dia s em Paris nos tornamos a vr. Era facil a Fanny
ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso
tornamos ao antigo viver. O que eu, porm, previra realisava-se com um
rigor de desesperar. No era s o pensamento seno a vida de Fanny que
estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade,
prazeres, expanses, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o
marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, no me
ouvia. Se recebia de manh carta inquietadora, ficava preoccupada e
taciturna. Quando a carta era de esperanas, irrompia ella em expluses
d'amor e d'alegria. Esta alegria, porm, molestava-me muito mais que a
tristeza, e aquelle amor, cuja exploso atava a alguma coisa que no
derivava d'elle mesmo, indignava-me. Glido deante de sua inquietao,
mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava
energicamente a receber a repercusso das novidades que tanto a
preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny no se incommodava ou nem dava
f dos meus enfados. Isto desesperava-me.

Em summa, aborrecido de me vr assim atado ao meu rival pela mulher,
que, repartindo-se equitativa por ns, dava todos os seus pensamentos
aquelle que ella julgava ter mais urgente preciso de suas sympathias;
indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as
alegrias que s podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do
ciume, e da desgraa, resolvi tentar um supremo esforo para recobrar o
socgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o
desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me;
mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para
dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasio. Foi ella que a
deu.


XXXIV

Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que
explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se
aliena, no pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraado dos
homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheo que, fartes vezes,
com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.

Commovido por este exordio, respondi balbuciante:

--E, todavia, a nossa alliana podia ser ditosa.

Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre ns  o amor.

O castigo secreto d'esta ligao  isso. Estas relaes s duram com a
condio de serem banaes; e, se o so, devem repugnar a coraes nobres
e delicados; se so profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem
as sente.

E suspirou. Respondi assim:

--Vou mais longe que tu, Fanny.

Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer
com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor
proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas
torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece
sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz,
no conhece a existencia do amante.

Isso  ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alando os
hombros, poz os olhos no co, e exclamou:--Que  o amor proprio, Deus
meu?

Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposio de espirito,
aventurei-me. Peguei-lhe da mo, e erguendo-me, em quanto ella me olhava
affectuosa, disse, n'um tom supplicante:

Com tudo... se tu quizeres...

Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.

--Que queres tu dizer-me?

No ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me
apertou meigamente a mo, e disse suspirando:--creana!

Eu fiz com a cabea um gesto negativo! Deixa-me!--disse ella de
sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? No posso
fazer-te feliz. Caza-te!--A dr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a
mo, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaa.
Mas to quebrantada a vi, que no tive coragem de a levar ao extremo, e
murmurei por de mais:

--Bem sabes que no  possivel isso.

Replicou:

Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu corao, e s tu quem me
castigas!

Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submisso; ella,
porm, no perdoava assim, e exclamou:

Que queres que eu faa mais?

--Se me amas, como creio, o teu dever est traado.

Corou outra vez:  que comprehendera.

Meu dever! meu dever! Muito indiscreto s em proferir semelhante
palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de
no deixar a caza que governo?

--Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me
ferir... que confronto!...

A caza--replicou ella baixando os olhos-- o posto d'honra confiado 
mulher! Mulher que se respeita, no a abandona nunca!

Quiz interrompl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e
olhando-me com ternura:

Raciocina um pouco, meu querido filho: pde uma mulher abandonar sua
familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Pde ella
desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos
olhos do mundo entre as mulheres perdidas?

--So bem tristes consideraes as da sociedade quando as cotejas com a
minha vida...--respondi eu.

Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:

Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que s muito
honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia foroso, algum dia,
fazer-me arrepender.

Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.

Podemos ns supprimir o passado? No s tu zeloso mesmo do passado? Oh!
quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lanando-me um
brao em roda do pescoo, em quanto com a mo sobre o meu peito, cravava
ternamente nos meus os seus olhos azues--Em teu logar, cr-me, eu seria
tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma
cadeira, e escondendo entre as mos a face: Por que me no fugiste,
quando era ainda tempo!

J era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela
primeira vez, passar deante de mim.

Ergueu-se outra vez, e abraou-me com mudo transporte. Pensativo,
alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:

--O amor, Fanny, pde consolar muitas dres, remir muitas humilhaes,
substituir muitos affectos. Diz tu: o que  a estima do mundo, os
tranquillos sentimentos da familia, comparados  absorpo d'uma
existencia por outra existencia?  acaso to longa a vida que possamos
consentir em immolal-a a coisas to frivolas? E, de mais, que se lucra?
Quem nol-o agradece?

Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral!

E eu prosegui:

--No ests canada de crar, de tremer, de te esconderes? No tens,
emfim, vergonha da vergonha? E no te repugna ao corao esperar,
esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos  minha
bca faminta? No espao d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem
horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, 
isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu
no pdes ouvir-me, sem que a lembrana de tuas inquietaes, perigos a
que te expes, os meus proprios tormentos, te no impallideam; e eu,
to desgraado! no posso uma s vez abraar-te, sem que logo um
espectro...

Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, no me digas que
s desgraado, por que me matas.

--E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!...
No haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te
peo  ser eu s o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me
por ti eu s, preparar, suavisar sob os teus ps a vereda do futuro; ser
s a amar-te; o que eu quero  ser para ti o meio e o fim da felicidade;
 tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus
sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero  ser a um tempo teu
filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabea querida as mais
dces e solidas affeies,  concentrar em ti as lembranas do passado,
as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a
ser toda para mim, e que no haja na minha vida inspirao que no seja
tua, que no proceda de ti, que no sejas tu! Se tu quizesses... No ha
ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pdem
emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da
felicidade que  a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que
somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solido, onde,
sob um co azul sempre,  sombra d'arvores sempre veridentes,  beira
d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flr, ahi, nos
saboreamos por ns mesmos, como se a nossa dupla existencia mais no
fosse que uma palpavel recordao. Que desgraa poderia ferir-nos ahi?
que inquietaes assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume
contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses...
Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada?
procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus
olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os
labios? dormir com a boca presa  tua espadua, a mo inlaada na tua
mo? vr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais
tranquilla, mais graa que o sonho das virgens? Ouve mais: no seria
nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o
corao das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do
qual me estoro ha tanto tempo? teres-me dado tu s mais felicidade do
que homem na terra pde cobiar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te
diria: amo-te!... se tu quizesses!...

Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de
prazer. Inclinada para o hombro a cabea, cahidos os braos, as
palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que no queremos
perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensaes e
quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas
inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convules electricas lhe
crispavam a cutis; tremiam-lhe as mos em vibraes dulcissimas. J no
poder conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu
pescoo que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!

No se falle mais n'isso--disse ella, com expresso de angustia,
recuando a face, e apertando-me a fronte com a mo--Isso faz-me um
grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer,  egual ao
que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva  o mais
bello sonho dos meus encantos; mas, ai! no passa d'um sonho! Meu Roger,
amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, no falles assim mais!


XXXV

No me dei por vencido d'aquelle grito de desesperao que me revelava,
ao mesmo tempo, aspiraes ardentes, e dres mysteriosas. Nenhum de ns
nesta affectuosa discusso, havia empregado os verdadeiros argumentos.
Um tanto satisfeito por expr a suprema questo da minha vida quella
que devia resolvl-a, deliberei deixal-a reflectir, para pouco e pouco a
ir affazendo. Esperava azo propicio para reluctar e vencer a minha
adorada inimiga.

Depressa veio o ensejo. Terrivel e imprevisto era elle: havia ahi uma s
alternativa: vencer os extremos escrupulos de Fanny, ou perdl-a para
sempre.


XXXVI

Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas
bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me
de interrogal-a, e fiz que no dava f da sua turvaco. Acariciou-me
vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios
aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras
ociosas. Tinha Fanny a cabea inclinada sobre o meu brao, e eu, todo
attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando.
Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respirao suffocada; aos
meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o
voltar os olhos, crando.

Tomei-lhe a mo sem dizer palavra. Apertou-m'a com fora febril.

Falla em nome do co! disse-lhe eu empallidecendo. Abraou-me
convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.

Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias
confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo.
N'essa manh mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que
seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espao
de alguns annos. Em tal caso--accrescentava elle--deveria Fanny metter
no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho
mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em
fim proferir as abominaveis palavras de separao. Dessimulei, porm, as
angustias que me alanceavam o peito, e deixei s transparecer no
semblante os traos de dr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:

No ser assim, Fanny!--juro que no, por que  arrancarem-me o corao
o separarem-me de ti.

--Que hei-de eu fazer, meu Deus?--disse ella retorcendo as mos.

Amarmo-nos--respondi exaltado, com quanta fora temos, e tirar um
recurso da horrivel necessidade.

--Recurso!...--e eu interrompi-a logo: Fanny! este momento  solemne;
no ha que vr com subtis consideraes do mundo e dos ciumes, do
passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a
minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braos, repetindo:

--Que hei de eu fazer?

Fugirmos para to longe que ninguem nos veja mais.


XXXVII

Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de
meus braos, poz-me ambas as suas mos nos hombros, e fixou-me.

Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que
ella me revelou foi piedade smente. Repartida entre o seu amor, e o
dever que lhe apontava o logar digno ao p do chefe de familia, a luctar
ssinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma
agonia que no cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia
horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de unio to cara; mas
tambem comprehendia que lhe no era possivel desobedecer  voz que a
chamava. E isto flagelava-a com uma dr sem nome. Perder-me e ser ella,
uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios.

--Meus filhos!--exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma
despedaadora angustia. E pendurava-se-me do pescoo, fitando-me os
olhos penetrantemente--Meus pobres filhos, to creanas! Pensas tu
n'isto? Tu que s bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?

Immediatamente comprehendi pela commoo que me estorcia o animo, que
quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia,
senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignao.
Eu mesmo, no secreto de minha alma, no queria esse monstruoso abandono
de me, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que
adorava.

Mas, confessal-o-hei?--no me instigava tanto  lucta o desejo de passar
a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha
execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu
senti, abraando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a
perder que com a ida de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado
de mim, dr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:

Aqui ha mais ciume que amor. Entretanto, mais tranquilla, mas sempre
affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia
ssinha. Escutei-a.

Se eu ousasse... se eu no temesse mortificar-te...

--Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. J agora, no ha
nada ahi que possa fazer-me mais desgraado.

Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:

Pois bem! eu no tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso
d'elle est no meu dote.

-- isso s? deixa-lhe tudo o que tens. No sou eu bastante rico para
ns ambos?

No  isso! no  isso!--disse ella, meneando a cabea.

Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarar a
ida. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:

Como condemnal-o  solido n'este supremo momento em que elle lucta
tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em
mim a companhia de quinze annos da sua vida, a me de seus tres
filhos...

--Por que o enganaste?--atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da
minha colera; mas, com uma s phrase me esmagou ella:

Por que te amava! e com expresso de orgulho que a engrandecia a cima
de si mesma, accrescentou:--Mas a perfidia no competia a ti
reprovar-m'a, Roger!

D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente
rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem!
repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar,
fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir,
talvez, por esse infame meio.

Depois de olhar-me longo tempo, disse:

Que desgraado elle seria!...

Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:

Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...

Puz-lhe a mo nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta
de lagrimas. Posto que perturbado, no pude deixar de admirar-lhe a
franqueza nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida
na victima!

Que faria elle? murmurei. Fanny, levou as mos  face, e respondeu com
voz abafada:

--Talvez me perdoasse...--

E, passados os soluos que lhe embargavam a voz, disse:

--Estamos demasiadamente castigados! Se obedeo ao dever,
abandonando-te; se no lhe obedeo, deshonro-me. De ambos os lados s
vejo a desgraa, e fao desgraados. Infeliz por ti, por elle, por meus
filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir
a paz a todos! Deus meu, que me has dado o corao, que me no serve
para consolar os entes que amo, e nem as suas dres posso incerrar
n'elle, como thesouros caros!

E, a luz crepuscular na alcva, sobre as rendas dos flacidos
travesseiros, enlaados os braos e unidas as faces assim choravamos...
Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as
nossas entrevistas!


XXXVIII

Desde este dia funesto entendi que no devia esperar mais nada d'este
amor, e vivemos na penosa espectativa da deciso de um outro. Mas, como
se o destino houvesse resolvido no dos poupar em dr alguma, a soluo
todos os dias esperada, no chegava nunca.

J as cartas no eram smente assustadoras para Fanny. Era eu que as
desejava, e inquiria o contheudo dellas, e fazia ferventes votos pelo
bom exito d'aquelle que, mo grado meu, no luctava energicamente. Com
tudo por dar alguma coragem  desgraada mulher, exaggerava a minha
confiana, e encomiava a esperteza conhecida, a firmeza de caracter e a
fora de vontade de seu marido. Affirmava-lhe que elle ressarciria os
seus haveres, obteria justia, e recobraria o to merecido socego.
N'elle se estribavam todas as minha esperanas: pensava n'elle s, e
tomava apaixonadamente a peito a sua pendencia. A menos esperada ventura
que eu entrevia em meus vagos sonhos e almejava com o ardor da
desesperao, era a volta do meu rival, em cujos braos devia cahir a
mulher que eu adorava!

Se eu podesse coadjuval-o!... dizia eu commigo; mas de que sirvo eu? E
agora me pezava o inepto pudor que me no deixava entrar n'aquella
caza--Se eu tivesse menos orgulho, se eu no tivesse querido exaltar-me,
singularisando-me por uma delicadeza affectada, que, dos meus proprios
olhos, me no lava da minha aco; se, como fazem tantos nas minhas
circumstancias, eu me fizesse amigo do homem, cuja mulher roubava,
resgatando hoje a pequena parte remissivel de meus actos, poderia achar
algum lenitivo para esta afflico. Mas eu tivera sempre mais orgulho
que bom senso. Pungia-me, ento, a ida de que, por falta minha,
n'aquelle desastre em que cada qual heroicamente desempenhava o seu
dever, estava eu sendo um ente inutil. Contrapondo  minha consciencia
taes subtilezas, to futeis ellas eram, que no me illudiam. Mas, 
maneira do naufrago que se agarra aos limos fluctuantes, sem esperar
salvar-se, eu me escorava  minha propria dr, accuzando-me de faltas
no commettidas, falsificando meu proceder e sentimentos n'isso mesmo
que elles tinham de honra, por que eu no sabia que fazer para
readquirir uns longes de esperana.


XXXIX

Fanny visitava-me como visitamos um doente incuravel, e retiramos sempre
admirados de encontral-o vivo. Palavras de alento no as tinha para m'as
dizer, que no carecia menos ella de ser consolada. Se eram boas as
noticias, suspirava; se eram ms, chorava. Como ella, um dia
desenvolvesse em toda a sua horrivel extenso, a pesada cadeia das mais
secretas miserias que entrevia--atterrada por se no sentir com foras
para arrastal-a--eu rompi o silencio subitamente, e, com simplicidade,
lhe offereci todos os meus teres para desempenhar a honra de seu marido,
que, por derradeiro ludibrio, fra entregue aos azares do jogo.

Mas, a pesar mesmo deste novo desastre sobreposto ao antigo, e to
afflictivo que j fazia esquecer o outro, Fanny foi o que devia ser:

 desgraada a nossa situao--me disse ella com severidade
extraordinaria--Roger! amo-te agora mais do que nunca; mas no sou
livre; por isso mesmo que te adoro,  que tu s o unico homem de quem
no posso acceitar nada.


XL

A adversidade cansou. As cartas vinham cada vez mais animadoras, e j
no havia questes de honra, nem de miseria, nem se quer da separao
que tanto temeramos. Quando muito era s a perda de ametade dos bens que
podia preoccupar Fanny. Vieram o socego e os risos para ella; mas eu,
como um miseravel que tem duas chagas a penar, senti immediatamente
despertar o ciume, mais ardente que nunca. O marido estava a chegar, e
esta vinda, d'antes to desejada, incutia-me agora invencivel horror.
Dezejei-lhe a morte. Tornei-me sombrio, desconfiado, interrogador.
Recomearam as nossas luctas.


XLI

Nunca me viera a idea de romper com Fanny; mas travados outra vez em
guerra, de repente me appareceu, fulgurante como um relampago. E eu
senti entrar com ella em meu corao a suave caricia da esperana. Mas
esta esperana, ai! no durou mais que um segundo. Mo grado meu,
tremulo de horror, dei-me pressa em repulsar a idea do meu resgate.


XLII

Depois de uma discusso em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos
d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um
pensamento que eu no ousara nunca deixar-lhe vr.

--No fui esperta--disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por
muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo,
por que iria no acredital-o o teu interesse. No fui esperta, mas  que
eu nunca soube mentir.

Esta confisso foi para mim uma subita revelao, suppuz logo que ella 
semelhana d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia
vaidosamente a um tempo, vicios e dres, e, desgraada, queria que a
suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperana
que me ella gerava no corao no podia durar. Instei Fanny,
facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua
vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o
que me havia dito e tornou-me  desesperao.


XLIII

Approximava-se, n'esta conjunctura, o praso que o marido designara para
voltar. Parecia-me que devia ser esse o dia da nossa separao, e da
morte para mim. A idea da partilha enojava-me. Resolvi cem vezes
explicar-me com Fanny  cerca d'este assumpto horrivel, mas no me
attrevia. Havia n'ella uma especie de renascimento: nunca a vira to
terna e submissa. Ao mesmo tempo deu em ser muito expansiva. Nos ultimos
tempos, coisas insignificantes tocantes  sua vida intima, andavam
sempre em nossas praticas; d'ahi vinha o continuar ella agora a
fallar-me dos minimos incidentes da sua vida.  o que devia, mais tarde
collocar-nos face a face, na attitude ameaadora de dois inimigos.

No sei como se deu, nem qual de ns foi causa da scena atroz que
sobreveio; lembra-me s que Fanny estava j para sair, e ambos ns em
p. Acabava ella de apertar as fitas do chapo, deante do espelho do
fogo, ao qual eu me encostava; j tinha o chale nos hombros, e buscando
com os olhos o leno, que pozera sobre uma meza, acabava de abotoar as
luvas. Assim, continuavamos em termos meio affectuosos e familiares uma
contenda que intendia com ella e com o marido. Estavamos ambos serenos
quando lhe aconteceu proferir uma palavra que me gelou o sangue nas
veias:

--Eu mentiria, se dissesse que no tinha affeio a meu marido.

Logo que reflectiu na crueza d'essas palavras, to imprudentes como
inuteis, arrependeu-se de as ter dito. Sem accrescental-as, nem
desmentil-as, acercou-se de mim, affastou o chale para me cingir o
pescoo com o brao, amimou-me o rosto com a mo livre, e alteou-se nas
pontas dos ps para abraar-me.

Era carinhoso o olhar, que exorava perdo  crueldade da bca. Forcei-a
lentamente a desprender-se-me do peito, e disse-lhe severamente:

Vs outras, as mulheres, no tendes delicadeza alguma no corao.

Crou, fez-se mais meiga, mais insinuante, e quiz outra vez abraar-me.

Puz-lhe a mo no hombro e affastei-a: dizendo-lhe, tremulo de furor:

--Ha dias que me falla em seu marido, incarecendo-o muito. Esquece-se de
que no  elle agora o mais digno de lastima?

Apertou-me inergicamente a mo, em quanto com os labios cerrados, 
mingua de palavras, me fitava com ternura supplicante.

Mas a colera recrudescia a proporo que Fanny denunciava
arrependimento. Continuei:

 justo que o ame, por isso mesmo que a sua estima se lhe deve com
preferencia a tudo.

Conheceu Fanny que no poderia apaziguar-me. No sabendo que mais fazer,
deixou passar aquella phraze de interpretao doble, desdeu os laos das
fitas do chapeo, pousou o chapo e o chale sobre a cama, e assentou-se
n'uma poltrona defronte de mim. Com o cotovelo esquerdo apoiado no brao
da cadeira, a face na palma da mo, os olhares ondulantes, assim ficou
na sua habitual posio. Mais que nunca linda, com aquelles braos
maravilhosos, cuja alvura assombrada de pennugem destacava da seda negra
do vestido; com as grandes luvas de pelle da Suecia que lhe cobriam os
pulsos; com o collo flexivel e inclinado; e cr pallida; e os cabellos
louros voluptuosamente annelados sobre a fronte pura: era a semelhana
de algum bello retrato de Rubens. Por de sob a fimbria do vestido,
sahiam os pequenos ps reunidos e assentes no cho. Nas escuras dobras
da seda envolvia-se o brao direito, cuja mo, meio fechada, permanecia
immovel como se fra de marmore.


XLIV

Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em
Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo
grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos que sahiam
de bcas invejosas. No os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles.
Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.

Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de
novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porm, de astucia no fallava,
adivinhando que eu interpretaria  feio de minha raiva tudo que me
dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o
golpe final, eu reunindo as minhas foras todas para descarregal-o.

Decidi-me em fim: e, com uma s phraze cortante como gume de espada,
attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em
que eu no cria.

A resposta foi prompta e terrivel. Isso  indigno!--exclamou ella
erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expresso de colera e
indignao que me assombrou.

No quero que se rosse na honra do chefe de familia! No quero que se
deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que
conspurquei a parte de sua honra que elle me confia,  que eu prohibo
que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!...
Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi
commigo que...

Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na
indelicadeza de corao das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos
homens. No  s do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem
tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia,
filhos, repouso, e at a honra de seus maridos. Tudo lhes  mister para
desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter
crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso no  meu
marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas--castigo mil vezes mais
cruel-- o meu amor. Mereo esta pena... e  o snr. que me pune!

Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:

 como todos! O que ahi ha  orgulho. No sabe amar!

Desta vez, respondi turvado:

No sou desculpavel por aggredil-o?

--Aggrida-o como homem. No tem tantas causas para o fazer?

Por Deus que o farei!

Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei
para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que
eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da
cabea aos ps, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada,
deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu.


XLV

Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz,
ao amanhecer do dia seguinte.

Escrevi-lhe uma longa carta to submissa que no pude revl-a sem pejo.
Rasguei esta carta, comecei outra, mas to acerba de estylo que devia
exasperar quem eu queria commover. No a conclui, e andei uma hora a
passear phreneticamente em todas as direces no meu quarto. Primeiro
tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em
chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o
procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual,
consumando irremediavelmente a desgraa d'uma familia inteira, devia
tornar-nos desgraados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me
ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se
entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.

Mas ao mesmo tempo escasseava-me fora para o resgate. Affizera-me s
minhas dres, e no ousava trocal-as por dres desconhecidas.  preciso
ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeies d'uma mulher, o
corao que incessantemente regia os movimentos d'outro corao, para
poder comprehender os horrores da solido que segue um rompimento. Eu
delirava de raiva e dr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o
retrato de Fanny.

--Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.


XLVI

Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o co
carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a
nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os
passageiros davam-se pressa para fugir  tempestade que trovejava
surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e alm,
corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de p sacudido pelo vento
subiam diante de mim e toldavam o espao. A meio-caminho, quasi entre
_Rond-Point_ e o Arco do triumpho parei.

Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei.
A meus ps era a passagem das carruagens que vo do portal  avenida.
Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma s
lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que
translusia dos vidros escassamente brilhava como um claro duvidoso.
Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa est
vasia--pensei eu--e todavia Fanny no est em _Chaville_ por que a sala
tem luzes.

Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.

Relampaguearam os coriscos. Um bulco rugiu na ramagem dos alamos da
avenida, remoinhando turbilhes de folhas e terra. Ento vi uma sombra
de homem chegar  ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as
mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas
vidraas mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.

E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no co de todo
negro, eu em p debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro
janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.

De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou
ao p de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.

--Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da
estrada. Um _coup_ vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos
saces; depois uma grande carroa de viagem tirada por quatro cavallos,
voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois
batentes da porta-cocheira. Remirei a carroa com assombro. Ao fundo
estava um homem, que eu bem conheci--era elle. Ao seu lado uma mulher
que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braos,
tres meninos de cabellos louros. Foi uma viso rapida. No sei se me
viram. A carroa desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os
dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com
estrondo lugubre e cavernoso.

Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava
como senhor em sua casa.


XLVII

Por que me no esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na
alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.

Passava uma sege de praa; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro,
embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E
senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.

A chuva escorria sobre as vidraas corridas. Encolhido n'um angulo da
sege, com os braos cruzados, e a face encostada  almofada, vi de lado,
ao claro dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos
furaces. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E
eu dizia: Esta tormenta no os aterrar? No sei que tempo passei
blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege
que corria atravez das arvores do bosque, ao claro avermelhado dos
relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara
e nas mos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos
braos. Tomou-me uma sensao horrivel de frio. Tinha febre. Quer que
recolhamos? dizia de espao a espao o boleeiro canado.

--Quero--disse eu, fatigado j tambem.


XLVIII

Nascia a aurora lagrimosa no mal enchoto co, quando, erguendo a face,
reconheci uma casa  margem da estrada. Era a della. Todas as portadas
da janella estavam fechadas, e as luzes extinctas. Apenas um claro
avermelhado excessivamente mortio, semelhante ao que sahe d'uma
lamparina, brilhava como um ponto entre duas taboinhas de persiana, na
ultima janella da direita, em uma alcova lateral ao salo. Debrucei-me
longo tempo sobre o apoio da portinhola para enxergar o ponto vermelho e
expirante. Mas no chorava j. Ia tranquillo, de gelo, prostrado de
fadiga.--Dormir ella agora?--me dizia eu.


XLIX

Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um
estado de stupor de que no havia arrancar-me. Esperava no sei que, que
devia terminar-me a vida e os males.--Isto no pde acabar assim!--dizia
eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer
abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vr a lettra dos
sobre-escriptos. De Fanny no vinha alguma. Affigurava-se-me que ella
tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha raso.

Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento
de que ia vl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido.
Queria pedir-lhe perdo; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me;
queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a
em vo at noite fechada, contando as horas nas pulsaes alternadamente
precipitadas e desfallecidas do meu pulso. No veio. No escreveu.
Ninguem me deu um instante de esperana fazendo vibrar a campainha da
minha porta.

Ao anoitecer, sahi na direco da casa d'ella. Chegando  alameda fiquei
surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe,
to longe que eu no podesse vl-a mais, atravessou-me o cerebro como um
dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja
cabea subiram as fumaas da bravura, bati  porta e perguntei ao creado
se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle no
deu f.--A senhora est no campo--respondeu, Onde? em Chaville?--sim,
senhor.

Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.

Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolao
saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe
estorvara a vinda; mas no comprehendi por que me no escrevera durante
oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas
havia ainda muito egoismo no meu despeito.

--Quem sabe se ella me espera l--dizia eu para consolar-me.

Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vr
Fanny,  custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava ento perto de casa.
Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a
apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperana, com as esporas
cravadas nas ilhas sacudindo as redeas,  desfilada, enlameando
passageiros, sem mandar arredar ninguem.

Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e no conheci a casa de
Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das
agigantadas arvores. Mas, alando-me sobre os estribos, para olhar por
cima do muro conheci o pavilho. Apeei, e entrei no bosque para prender
o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a
graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava  porta. Ao
cabo da ala, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege
immovel.

A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco  esquerda, no centro de
um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilho fulguravam
aos raios d'um candieiro posto no interior.

--Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro
para encontrar a brecha por onde eu passra duas vezes. Mas apenas puz o
p no jardim, fiquei como pregado no cho. Estava ouvindo imprecaes e
soluos; do pavilho, a vinte passos de mim,  que elles sahiam.

Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos
arbustos, sob as quaes me escondera.

Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade;
de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu no tinha ouvido. Ao
chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a
portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluos. Sahiu um homem do
pavilho, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser?
Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou
os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calada sonora, e a
grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao p.

Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo,
avancei precipitadamente, sem precaues. Antes, porm, de levantar o
trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilho
estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria
um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com
a face entre as mos, dando soluos de rasgar o corao, era ella!
Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braos, e lancei-me de
joelhos a seus ps.

Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me
a cabea entre os braos, e abafou-me contra o seio. Eu no podia fallar
nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face,
mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabea e eu senti
cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se
agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mos palpitavam por
sobre meus hombros, face, pescoo, em phrenetica inquietao.
Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dr tirou por mim, e
arrastou-me na quda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as
lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz
quanto pude por chamal-a  vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se.
Caminhei para Fanny s apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do
vestido, e tirei-lhe a pedaos o colete. Depois,  fora de caricias,
rogos e oraes, aquecendo-lhe as mos com as minhas, e bafejando-a com
o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e
ergueu-se amparada nos meus braos, e parecia reflectir. Torrentes de
lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lanou-se a mim com tanto amor, e
com ar de tanta piedade, que eu, a soluar tambem, a comprimi ao peito.

--Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se
soubesses que desgraada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh!
que bem me faz o chorar sobre o teu corao... Meu querido Roger!

Os soluos embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se
explicasse. Eu no sabia ainda que dr podia ser esta, que rompia em
gritos de indignao.

--Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabea
negativo, e respondeu:

No, no  isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraada,
a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio,
as infimas mulheres no so mais desgraadas que eu!

A este grito, que lhe fugia do peito no tinha eu que oppor. Fiquei
estupido e estupefacto. No achava palavra que lhe dissesse. O que eu
fazia era abraar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de
luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se no aproveito esta
occasio para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo.
Tranquilla deste lance, nunca mais fallar.

Era judiciosa esta ida. Fiz bem escutar-lhe a inspirao. Empenhei,
pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo,
que por to largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a,
interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dr. Entrei, pois, no
segredo d'uma deploravel historia, no d'uma vez, mas arrancando-lh'a a
promenores, a pedaos, por que a sua exaltao, deixando-se ir at dizer
tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da
narrativa.

Fez-se luz ento para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel
na sua vida e proceder.


L

O marido de Fanny no era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava.
Era um terrivel dspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos
seus caprichos e obedeciam passivamente s exigencias do caracter
d'elle. Por zlos, no  que elle opprimia a mulher, seno que por
indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que
dava regra e  qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. No se
tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que
allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.

Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se
insensivelmente da norma de vida que elle traara, ficou primeiro, como
pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse
immediatamente na ordem. Todavia, no lhe deu canceira averiguar o por
qu d'aquella timorata tentativa de emancipao. A seu vr, toda a
mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que
no merece analyse sria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha
esposado por amor. No. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria
que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque
lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais,
queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.

E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra
gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a
miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade.
Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que
tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raa. Usam elles
mesmos arraoal-os com uma das mos, tendo na outra o chicote prompto a
castigar o menor desmancho.

Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior,
docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle.  fora de
paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade.
Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem
franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava
um longo habito de rebellio interior, e de dres inexpansivas. D'isso,
porm, o marido nem se quer suspeitou. Smente o accaso lhe trouxera s
mos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento
foi terrivel. No se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades
degradantes; nem duelo, nem explicaes, nem separao forada dos dois
imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo,
mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a
sua espoza que guardava a carta. E, desde ento, cada vez que a via
inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e
submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mos deste homem um
punhal com que elle espicaava a mulher para fazel-a andar deante
d'elle.

Era, pois, um vilissimo homem? No: era simplesmente orgulhosissimo.
Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o
marido no lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito,
era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia
degenerar em apparencias de crime. Mas no crime  que elle nunca
acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razo de que
sua mulher no podia mostrar-se criminosa para com elle. E no podia por
que era sua mulher. E no podia, por que elle... era ELLE. Por tanto,
censurando um pouco essa creancice humilhante, no se mostrava inquieto
nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle
seu corao de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda s
vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.

A arma, porm, continuava a ser arma em suas mos, e sempre com
serventia. Primeiro, graas  carta, obteve de Fanny que no fallasse
mais com sua me, que elle detestava, por que o no quizera de ba
vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos
em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe
desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a,
e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde
passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus
dois irmos. Finalmente, graas  prestimosa carta, no havia represses
que no lhe ordenasse, vexaes que no lhe impozesse mas sem maldade,
mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em
publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel
demonio a torturava com uma mo, e acariciava com outra.

Quando, porm, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes
 delicadeza d'ella,  que o marido rompia em transportes inauditos.
Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora
smente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na
cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar
affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: Vede que no ha que
temer de mim. Transfigurava-se em leo que a natureza amassara com as
suas mos callosas, e que a educao desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe
como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro
fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca
contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaassem
dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um
insulto que no deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava
sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame
que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como
ella dizia-- ultima escaleira de todas as mulheres.

Mas a sorte, que no tem compromissos com as paixes e os caracteres,
obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos
imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Ento
era sublime! No blasphemava, no injuriava a sorte, por que sabia que
era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava
silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a
sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna,  fora de audacia,
conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor
irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle,
esmoreceria, que vontade como a sua no havia quem a tivesse. Mas um
exito mediocre no bastava a este homem, insaciavel de exitos
estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fra a
pique. Queria salvar tudo, carregao, apparelhos, e at o lastro.
Jurra de no ceder ao oceano, um prego s. Eil-o ahi, que, descanando,
na meditao de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no
sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez.
Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fra
involuntaria testemunha.


LI

Parece que, ao jantar, em poucas palavras annunciara elle os seus
projectos a Fanny. Mostrara-se tranquillo, meditativo, quasi affectuoso.
Gracejou com Fanny sobre o seu ar melancolico, motivado pela vida
absurda do campo. Brincou com os filhos. Foi polido, como sempre, com os
creados que o serviam. Ao pospasto, levantou-se, pedio um charuto,
accendeu-o, e dirigiu-se ao pavilho, com Fanny sobraada, dizendo-lhe
frioleiras com geito amavel. Como os filhos os seguissem, brincando na
relva, foi ter com elles, abraou-os, despediu-os, e pediu-lhes
affectuosamente que fossem brincar mais longe. Depois, assentou-se no
divan do pavilho, cuja porta estava aberta, fumando o charuto, e
bebendo, o seu caf aos golinhos. Ao cerrar da noite, veio o escudeiro
com a luz. Pediu-lhe que mandasse pr os cavallos  carruagem. At ahi
dissera smente frivolidades com ar festivo; mas, retirado o escudeiro,
ergueu-se a fechar a porta, tirou tranquillamente do bolso um papel
sellado, e disse a sua mulher:

Minha querida, escreve a tua assignatura ao lado da minha no fundo
d'esta folha de papel.

Fanny pegou da penna que elle lhe offerecia, mas, antes de escrever,
disse-lhe:

--Que so estes engrimanos que eu assigno?

No  mais que um instrumento de doao reciproca de todos os nossos
bens.

Fanny depoz a penna sobre a meza, e perguntou-lhe mansamente algumas
explicaes sobre o uso que elle ia fazer d'aquillo. O homem avincou a
testa, e annunciou-lhe que, por algum tempo, ia reassumir o negocio, e
carecia de muito dinheiro.

--No somos ns j bastante ricos?--disse Fanny.

No.

--Ento vai ser exposto o meu dote?

A esta pergunta, encarou-a carrancudo, e respondeu provocante e
glacialmente:

Sim.

--Ento no assigno--disse ella como atterrada da sua coragem--porque
no quero expor os bens de nossos filhos.

Foi ento que estalou a borrasca. Foi curta, mas pavorosa. Vendo-se
contrariado por uma impossibilidade, o dspota rugiu de furor. Pela
primeira vez em a sua vida, travou do brao da esposa, apertando-lho
para obrigal-a a assignar, e pizou-lh'o. Fanny supportou, no respondeu,
nem chorou. Cumularam-se sobre ella desprezos, incriminaes, injurias,
todos os insultos e vilanias compendiadas pela recordao das passadas.
Veio tambem a affronta suprema, a palavra fatal, estalar na lingua do
insultador. Ahi  que Fanny chorou, soluou e decidiu-se a assignar.
Serenou logo o marido: agradeceu, e quiz beijar-lhe a mo; ella, porm,
mostrando-lhe o brao contuzo, disse:

--No  por isto, Deus me  testemunha, que eu o desprezo;  pela
covardia do insulto. Dito isto, elle pediu perdo por de mais,
chamou-lhe creana e m cabea, abraou-a por fora, chamou o cocheiro e
partiu.


LII

Logo que Fanny, cedendo s minhas instancias, me contou aquelles
extraordinarios successos,--no ordenados como os eu repito, mas em
fragmentos incoherentes, misturados de raptos de rancor;--logo que eu
nada tive que indagar, e que ella immudeceu por no ter nada que
contasse, ficamos algum tempo a contemplar-nos silenciosos,  luz tibia
das estrellas, com spasmo temeroso. Alguma coisa formidavel se estava
erguendo entre ns modificando estranhamente a nossa situao.

Eu no pude, ainda assim, entrar logo na averiguao dos factos que,
forosamente, deviam derivar d'aquella surprehendente confisso. Eu,
vendo Fanny ainda pallida, descompostos os cabellos, e tremula, s
pensava na sua humilhao.-- pois desgraada!--disse eu no intimo da
minha alma. Tirei-a a mim suavemente pelo colo, busquei-lhe os labios, e
abriguei-a nos meus braos com o ardor da esperana e da piedade.

Oh! como foi longo, estreito e desesperado aquelle abrao! Com elle se
esposaram nossas almas, e ali sentimos o que ha de piedade na mudez
d'aquelle apertar, de consolaes nos suspiros, e que sympathia
reflorece da mixto das lagrimas! ramos ssinhos, silenciosos, n'uma
vaga escurido, adornada pelo tibio alumiar de noite de estio. O
desalinho dos vestidos de Fanny, o cansao de chorar que a retinha
deitada nos meus braos, o pejo d'uma confisso, que, posto que lhe
desse alivio  alma, lhe opprimia o orgulho pela primeira vez; a
felicidade de nos revermos mais amantes, mais allianados que nunca,
aps uma scena terrivel que devia desligar-nos: isso tudo insinuava-nos
no sei que desaffgo de expanso reciproca, mesclada de amargura e
dulcificao. Emquanto meus labios lhe rossavam de leve os longos
cabellos desannelados, surprehendia-lhe no corao a velocidade de
movimentos que se me figuravam surdas expresses de clera. O
arrepender-se de ter defendido por tanto tempo e nobremente, contra os
meus ataques, aquelle que lhe era um jugo na vida, arrancava-lhe gritos
de uma ironia implacavel. A irritao do insulto, e a indignao do
aviltamento immerecido, apertava-lhe os braos em volta do meu pescoo
mais energicamente do que nunca o fizera o amor. Ao mesmo tempo, o pesar
de ter flagellado o amante, cuja s presena lhe estava sendo a mais
terna das consolaes, como a mais rapida e segura das vinganas,
inspirava-lhe a submisso e a supplica. A lembrana do meu rival,
presente a ns, ajuntava uma acrimonia angustiosa aos beijos d'ella, e
uma dr infinita s minhas caricias; e n'aquelle instante ao menos, em
que, sem fallar, trocamos tantas sensaes e idas bem comprehensiveis,
Fanny, estava emfim, na minha idealidade, absolutamente, e para sempre,
to ligada a mim quanto apartada d'elle.


LIII

Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita
exploso.

Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes,
sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal,
cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peonha a mais
corrosiva.

O sentimento da impotencia da vingana, a certeza de que os males
d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes
passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questes,
causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como
homem que acaba de levar uma bofetada, e no pode despedaar entre as
mos aquelle que lhe gravou o ferrete deshonroso... Na minha demencia,
parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais
desgraada ella era; e, envergonhado d'esta atroz ida, meditava em
matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porm, ainda abatida, mais
queria ser consolada que vingada.

Abraou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me
pacificar.


LIV

Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito
que eu no sentira, como ento, o espirito desoprimido de duvida.

Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de to
tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do
viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A
esperana d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde
que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me
 borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus ps
contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietaes, eram a
minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada
derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara,
emfim, de me transviar.

Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a
companheira que me seguira atravs dos abysmos da paixo. Soffrera
irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os
espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os ps. A mesma
dr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazra os nossos halitos. A
ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse
preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos
para a resignao, e com as mos trementes enxugava-me da fronte o suor
do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dres e trances particulares
que ella suportava heroicamente para me no angustiar.

Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados.
Renascer no poderiam mais. Ambos livres do phantasma que to cruelmente
nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas aces,
compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores.  maneira de
dois fugitivos, que no deixaram pgadas, e vo s bordas das fontes, e
 sombra dos bosques silenciosos, sacudir o p das sandalias, ns nos
amos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos
infligiramos.

D'est'arte sonhava eu, a ss commigo, contemplando a imagem querida de
Fanny que me sorria entre as mos, cingida em moldura de ouro, como
d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante ns as paragens do nosso
futuro.

Nunca eu afagara mais cruel illuso!


LV

O dia em que tornei a vr Fanny, era um dia explendido!

Veio a minha casa, de manh, deliciosamente vestida, como para celebrar
dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido cr de malva,
que to gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia
sobre as frmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os
ps. Os braos meio ns, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos
baos como os de marfim no lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o
seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as
faces ondulavam-lhe os cabellos.

Nenhum ruido nos perturbava, a no ser a campainha do relogio que no
ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das
carruagens, estremecendo a calada. Conversamos, mais uma vez, ss por
ss. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdo. Eu ergui-me para
servil-a, e abraava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com
graa, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle
brao que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o
nosso quarto nos parecera to bonito! Queriamos d'alli no sahir mais!

Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus ps sobre
uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo
estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mos,
intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E
eu beijava-lhe a outra mo, travada na minha.

--Oh Fanny! se tu no fosses casada!...--dizia-lhe eu com paixo. E ella
respondia:

--Oh Roger! se tu no fosses cioso!...

No sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares
de extasis, em abraos doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra
camara, que horas to instantaneas correram! Quiz saber a historia da
minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da
morte de minha me.

Muito havia que no estiveramos to intimos, serenos, e felizes. O
rancor atroz do ciume no nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por
isso mesmo foi completo o socgo de nossas almas. Havia ali felicidade
que bastaria  boa fortuna de dez amantes.

Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes,
lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera to
desgraados. Rompeu de minha boca uma exclamao furiosa, e, por piedade
das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, no pude conter-me que
no exprobrasse o oppressor.

Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir ento a testa, e morder os
labios. Relanceou-lhe rapida na face uma sensao, como o relampago
silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o co
d'uma tarde estiva. Eu, porm, curei de indagar a causa d'aquella
sensao dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por no sei que
confusa remeniscencia.


LVI

Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvao alguma. Depois que
sahiu, mil recordaes uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso
cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que
nunca incomprehensivel.

--Esta mulher  a mais extraordinaria ou a mais vil das
mulheres!--Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra
vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.--Por que
defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o
accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as aces
do homem que a ultraja? Oh!  possivel supporte tamanhos despresos,
vexaes to aviltantes, e conserve a minima affeio a um homem que a
tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que
ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de
calculos, de transaes, e o amor, esta paixo absoluta, intolerante, e
exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da
nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da
meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som
agudo; e,  maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo,
rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um
dia, para meu supplicio:

--Eu mentiria se dissesse que o no estimo.


LVII

Desde ento, illaqueado mais estreitamente que nunca na rede das
incertezas, um s desejo me dominava--tirar de Fanny a explicao do seu
caracter, no interrogando-a, mas compelindo-a a extremos indicativos.

Aggredi acintemente o marido deante de Fanny: difficil fra o
defendel-o, por que o ataque era dirigido s violencias que lhe eram a
ella feitas. Limitou-se, primeiro, ao silencio, erguendo ao co os
olhos, por que eu a estava pranteando; depois, mostrou-se descontente da
asperesa das minhas palavras. Repentinamente lhe assomou  face o
sangue, os labios cerraram-se, as palpebras descahiram, isto a tempo que
eu lhe estava exaltando a resignao para melhor accusar os caprichos do
marido. Obedeceu, por fim,  sua eterna preoccupao, e disse-me:

--No fallemos mais de tal: tudo isso  triste; mas eu sou obrigada a
submetter-me. Ao cabo de tudo, sempre  meu marido!


LVIII

Estas palavras nem me espantaram nem indignaram. Esperava-as. Sorri com
amargura, ouvindo-as dos labios da mulher estremecida. Eu passeava d'um
para o outro lado no meu quarto, e ella seguia-me com a vista.

-- a derradeira illuso que morre!--exclamei eu.

Fanny pediu-me a significao d'estas palavras, e eu recusei dar-lh'a, e
disse:

--J so que farte as questes que temos ha um anno; por minha vez, te
rogo que no te importe saber o que se passa em mim. Amemo-n'os taes
quaes somos. Por mais que desesperemos e resistamos nunca se mudar a
nossa indole.


LIX

Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram
grandes alteraes na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias.
Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo
disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos
passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos,
trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balces,
sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, alm d'isso
tudo, cartas infinitas, e trocavamos flres.

Fanny esmerava-se em attenes, para compensar-me do mal que me fazia.
Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam
dos homens, e dos quaes disvellos so to economicas, quando se dignam
conceder-lh'os. Beijava-me a mo, chamava-me seu querido filho,
mostrava-se submissa, e esmerava-se por que no houvesse coisa que
turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porm, tratando-me como
dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira
dignidade d'uma rainha.

s vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e
suaves que as do estio, fugiamos da cidade, como aves cansadas do calr
do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem
fechada, com as mos inlaadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um
pouco de ar, de silencio, e de solido. Rentes comnosco passavam fogosas
parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres
risonhas cujos vos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na
areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos
agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na
agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros.
A lua, s vezes to melancolicamente ingastada no co como nodoa de
prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as
hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da
mollido dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho
estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis
arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que
o estava a verde folhagem  sombra da noite linda. Era delicioso aquelle
momento em que Fanny, infadada, se me pendia do brao, e justapunha a
sua espadua  minha! No fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as
nossas respiraes; e, assim unidos, achavamos doura estranha n'aquelle
nosso silencio e na incerteza de nossos passos.

Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discusses,
remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porm,
tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creana, ou fazia que me no
intendia, ou, sacudindo-me o brao em ar de gracejo, dizia:

--Ora vamos, no se falla aqui do que j l vae.

Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez
mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo,
passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu
pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como
ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se
moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por
ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se 
vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me
prazer grande o vl-a assim dispr do que era meu. A minha casa, tornada
sua, parecia afeminada. J l se no viam por sobre as mezas esporas,
chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas
quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flres, alvissimas
caas rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustaes
de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e
fios de seda e l: no rebordo da chamin brilhavam o dedal e as
thesouras.

Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de
entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiana.
Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu
conservava no corao um certo azedume. No havia consolar-me de no ter
podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.

Cheguei  fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direco dos
meus bens. Fanny no entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis
pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiana
feminil. Pois no a consultava eu at em compras de cavallos? No tocante
ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das cres.
Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos ps para
chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas
que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os
instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. No dava um passo sem
sua approvao; no comprava luvas ou gravatas que ella no elegesse. O
numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes
que no agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem
ella  que eu no podia por mais que fizesse. Estava enfeitiado.


LX

Mas o meu ciume, esse no estava morto, nem se quer entorpecido: apenas
tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, j
no podia soffrer por causa de uma partilha que no existia; mas os
menores sentimentos que Fanny me deixava adivinhar, inquietavam-me.
Afra os filhos, e a me que ella via s escondidas, eu no lhe
consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo
nos tyrannisavamos mutuamente.

Um dia, quando eu lhe tirava o corpete, uma carta grande e
quadrada--lhe fra entregue quando saa de sua casa--escorregou-lhe do
peito e caiu aos meus ps. Levantei-a. Tinha o sllo de Londres. Encarei
Fanny, que, pallida, estendia a mo tremula a tomal-a.

Teu marido escreve-te? disse-lhe eu, entregando-lh'a.

--Que pergunta!--disse ella.

--Escreve-te regularmente?--ajuntei eu, depois d'um momento de silencio,
durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o
espirito.

--Pois ento!... disse ella--todas as semanas.

Porque te escreve elle?... Separados por to violenta discusso,
parecia que os coraes deviam separar-se para sempre.

Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse
resposta, replicou:

--Espantam-te sempre as mais singelas coisas. No  natural que meu
marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?

 justo... Eu no tinha pensado n'isso--murmurei.

Fallou-se de muitas coisas; mas, a ss commigo, reflexionei immenso.

Respondes s cartas de teu marido?

Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois
simulou um ar de indifferena, respondendo:

--Escrevo-lhe raras vezes;

--Sim? e, diz-me c, que lhe escreves?

--No sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto no te
interessa nada.

Fiquei um tanto inleado; mas no pude reprimir-me.

--Como  que nunca tiveste a ida de mostrar-me as cartas de teu marido?

Roger! Roger!--exclamou sorrindo contrafeita--eu creio que ests louco!
Uma mulher pde por ventura confiar a alguem, principalmente quelle que
ama, o segredo dos negocios de seu marido?

--Tambem  verdade--murmurei eu.

Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.

--Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te do
tanto que pensar. Provar-te-iam que  uma sem-razo recear alguma coisa.
Sabe, pois, espirito desconfiado, que no se pde viver em menos unio
do que eu vivo com meu marido.

--De certo!

--Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas
amarguras?

--D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: no
esqueas isto, Fanny.

--Oh! hoje  muito differente.

--Porque?

--Porque... c me entendo.

Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mos ao co com piedosa
expresso; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos
contemplavamos. Era-me impossivel a quietao. Agitava-me d'um para
outro lado.

--Se dizes a verdade, Fanny, por que me no mostras as cartas que lhe
mandas?

--No  possivel. Quem lsse uma, comprehenderia as outras.

--No obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque
lhe no escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que no
quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio.
Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, d-me esta prova de
confiana, para me tranquillisar que eu soffro muito.

--No  possivel--redarguiu ella, com signaes de offendida.

A raiva que me devorava o corao estalou desassombrada:

--Que lhe escreves tu que no queres que eu saiba? Juraste matar-me?
Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como
um algoz!

Fanny ergueu-se, pegou-me da mo e disse brandamente:

--Roger, eu no queria magoar-te.

--Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu s mulher de duas
caras; eu nunca fui amado por ti!

A esta phrase injusta, lanou-se-me ao pescoo, abafando-me com beijos
as palavras. Eu continuei:

Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel
contestao, ficaste despeitada com teu marido?

--S rasoavel: uma mulher pde ficar despeitada com seu marido?

Pois que?--exclamei furtando-me aos braos d'ella--tu perdoaste-lhe?

--Rigorosamente no--disse ella, sentando-se quebrantada--mas foi-me
preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, est tu
certo que no esquecerei mais os ultrages passados.

Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!--Bradei, de p em frente della,
que olhava para mim assombrada--No tens, pois, dignidade alguma? No te
sentes das injurias? s assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah!
isto  que eu no acreditaria nunca!

Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.

Diz-me c: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?

--No queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, no te
espantarias do que succede. Em summa, eu no quero fallar mais n'isto.
Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz
arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a
colera. Affirmo-te que o julgas mal.  possivel que eu exaggerasse os
factos no primeiro momento da indignao.. mas.

Calla-te!--bradei eu--se tens pudr, calla-te! Ha uma coisa que parece
passar-te desapercebida, e  que,  proporo que vaes fallando, no sei
que ida peonhenta lucta, em mim, com o meu amor. No accrescentes uma
s palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco,
por que te amo muito, por que no posso dissuadir-me de te amar; mas
sabe tu que maior mal no m'o podias fazer. Supplico-t'o--no digas mais
nada.

E lanando-me a seus ps, exclamei:

O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!


LXI

Sempre que tivessemos algumas dessas deploraveis luctas o apartamento
era frio, e eu ficava dias inteiros a reluctar com a memoria d'ella.
Mentalmente eu reproduzia os ataques e os argumentos, e inutilmente
sondava a causa misteriosa do seu proceder. Eu era muito moo e
inexperiente: avaliava-a mal. Aquella natureza complexa, que resumia no
seu caracter muitos caractres diversos, queria eu que visse as coisas
absolutamente como eu as via. Eu, o que ento sabia, era que as
palavras: sentimento, amor, delicadeza, ciume, e outras assim,
representavam para Fanny umas idas, e para mim outras. Ignorava que o
custoso para mim no o era para ella, e que lhe bastava sempre a boa
inteno para indulgencial-a d'um facto, qualquer que fosse. Em mim, no
descontava nada  sua fraqueza. Depois  que apprendi a conhecl-a.

Quantos maiores esforos eu fazia para desligar Fanny de seu marido,
mais eu estreitava os vinculos relaxados por quinze annos de existencia
commum. Fanny lastimava-me interiormente, mas eu devia ser-lhe pesado.
Bem sentia eu que a importunava, mas no estava em mim deixar de a
repellir de cada trincheira em que ella esperava o combate. No me
passava pela mente que o unico recurso para conseguir o meu fim, era
mudar de tactica. Ninguem me havia dito que eu devia esconder o meu
ciume, como principal causa da nossa separao. Que candura! Eu via nas
manifestaes do meu ciume provas de um amor que devia abalal-a. E, com
tudo, to facil me seria serenar-lhe a vida a ponto de a forar a
comparaes, com vantagens minhas, entre os dois homens de quem ella
dependia. Mas mais simples que tudo seria no amal-a!...

Ama ella o marido? No acredito, nunca o acreditei. Um sentimento banal,
resultante do costume e agradavel s almas pacificas, porque
naturalmente contina as coisas, e no cansa o espirito em mudanas,
esse devia tel-o. E o vr o despota humanisado diante d'ella,
commovia-a; e o receber caricias da mesma mo que a castigava rudemente,
dava-lhe uma especie de satisfao. No era isto fraqueza nem ingenita
baixeza de animo; era uma certa indifferena de genio, explicavel na
idade d'ella Fanny, em fim, certo, no tinha uma alma varonil, nem mesmo
uma alma muito nobre, por que antes queria astuciar que combater, e
antepunha o aviltar-se, repartindo-se, que transtornar o seu viver; era,
porm dotada de alma recta. Cuidava, certamente, que se resgatava, em
sua consciencia, da perfidia conjugal com uma submisso completa. At
certo ponto, era indemnisar o marido, o tolerar-lhe os caprichos do
genio. Em que restingas, em que abysmos, em que cahos de coisas sem
nome, a probidade, esta rara perola, se esconde?


LXII

Era urgente que eu accedesse  nova concesso do aproximarem-se os
esposos. Mas de concesso em concesso l se ia, desfeita em lagrimas, a
minha estima. Eu humilhava-me como o escravo que no pde resistir, com
gritos de raiva surda, e desejos immensos de vingana. Ah! se Fanny
soubesse que ella devia accusar-se s a si da minha abominavel vingana!


LXIII

Inraivecido por no poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny,
trahi-a. Amor e ciume, quiz tentar matal-os na devassido.
Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios
impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladro que
se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim
mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sde de vingana.
Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiana dos
ludibriados, eu arrastava commigo, aos braos da mulher querida, a torpe
recordao das creaturas degradadas, cujas caricias no tinha podido
sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny
commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis
immundices.

Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na
entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos
desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por
minhas proprias mos, martyrisava-me com o profundo pensamento da
inutilidade dos meus esforos. No sei que desgosto corporal me subia
aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a
noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo
os tormentos do cerebro. Debruado sobre o parapeito das pontes via
redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os
pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos
lamaaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel,
mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim,
perpassando como phantasma nas sombras que se tiravam ao longo das ruas,
via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar
sombrio, como que a visitar-me, mas forando-me a pensar n'ella quando
eu ia cuidando em matar-me para esquecl-a. Oh! que terrivel estado
aquelle, sem repouso nem treguas s minhas angustias! que me exacerbava
e prostrava! que incharcando no njo a minha desesperao, infamava o
meu ciume sem applacal-o!


LXIV

Sustentava-me, comtudo ainda, um resto de coragem, essencial na minha
indole. Estas pelejas intimas davam-me alento. Resolvera buscar o
remedio at encontral-o, e, no o tendo, emprehender algum arrojo de
desesperado, para arrebatar Fanny, a pezar d'ella. Ninguem sabe os
estragos que uma ida fixa pde fazer d'uma alma. Incrivelmente vos vos
roja at vr o bem nas coisas repugnantes s menos temerosas
consciencias.

Aps maduro reflectir, decidi-me ao penoso sacrificio da ultima
concesso. Estava eu como um doente, que desenganado da cura, pactua com
o mal, e dispe-se de modo que seja menos o soffrimento no restante de
seus dias.

Tudo te perdo!--disse eu a Fanny.--nunca mais te fallarei dos nossos
eternos motivos de discordia. No examinarei o teu proceder; no te
sondarei os sentimentos; tudo te concdo, tudo acceito, excepto a
abominavel partilha que tanto me fez soffrer, e to demorada tem sido.
No posso mais... antes quero vr-te desgraada; antes morta; quero
morrer eu. S-me leal, supplico-t'o--accrescentei com tristeza--porque
me faz um mal horrivel duvidar de ti.

--Pois bem, no haver mais partilha--respondeu Fanny, com um aperto de
mo--no te inquietes, no soffras mais. Quando meu marido voltar,
approveito-me do pretexto dos ultimos insultos para impor-lhe condies.
Viverei completamente separada d'elle em sua caza. E isto, por toda a
vida Roger, socega, s emfim feliz. No dependia de mim o seres feliz ha
mais tempo.

Restitues-me a vida!--exclamei, lanando-me aos ps d'ella, e
abraando-os.

--Querido filho!

--Liguemo-nos por um juramento.

A isto sorriu-se ella, mas jurou solemnemente, dadas as mos, e fixados
mutuamente os olhos.

E agora--disse eu--se por qualquer motivo, uma vez s, resolveres
faltar  palavra, juras que me avisars, para que no haja entre ns
traio.

--Por que queres tu que eu jure.

Pela minha vida.

Fanny sorriu outra vez, mas jurou solemnemente.

Depois d'isto fiquei totalmente tranquillo. Picou-me n'alma o ciume como
a recordao de um sonho que de tempo a tempo, nos sobresalta.
Reapreceu-me a vida bella e ampla. Confiava.


LXV

E por isso a chegada do marido apenas me incommodou pela impossibilidade
de me avistar tantas vezes com Fanny. Chegara o estio. Fanny habitava
outra vez a sua casa campestre, e eu ia vl-a algumas vezes, por noite,
no caramancho da tapada, e mais vezes vinha ella a Pariz, quando
engenhava pretexto para passar fra um dia. Mostrava-se mais livre que
d'antes, pelo menos as visitas eram mais delongadas; mas, mais que
d'antes, me pareceu pensativa e preoccupada. Attribui este enleio aos
infadamentos procedidos da palavra que me dera. Entendo que novos
debates, novos tormentos a faziam desgraada; e, lastimando-a de todo o
meu corao, animei-a  resistencia, e consolei-a quanto em mim cabia.
Fanny, porm, denotava constrangimento, suspirava, e acolhia os meus
beijos  flr dos labios, como se tivesse esfriado em seu amor.

Estava escripto que tudo, na nossa historia, fosse extraordinario, e que
eu no intendesse nunca o procedimento d'esta mulher. Logo que me eu
persuadia de ter-lhe penetrado a nova tristeza--imputando-a a discordia
que o respeito do seu juramento devia acarear--soube um facto que me
atirou, mais que nunca, a um mar de incertezas.

Recobrando o repouso do animo, dei-me a um viver menos solitario. Meus
amigos procuravam-me, por que os eu procurara. Interessou-me, de novo, a
sociedade. Um dia, com grande espanto, soube que, a respeito do marido
de Fanny, vogavam boatos escandalosos. Dizia-se que, durante a sua
ultima viagem a Inglaterra, se tinha elle namorado de uma irlandeza que
se estreara no theatro da Rainha; que a tirara da scena; que a chamara
para Frana, havia um mez. Diziam-se maravilhas da magnificencia em que
elle a tinha. Era lindissima, alta e esbelta como Fanny, mas morena como
as filhas do Norte, com bellas cres rosadas, e finos cabellos sedados
que se desenrolavam languidamente em longos anneis at ao peito.

Jubiloso de nova tal, fiz teno de lhanamente contal-a a Fanny, a fim
de fortalecl-a na resistencia, e ministrar-lhe um terrivel argumento
contra o nosso inimigo, se elle se obstinasse em tormental-a. Nova
surpreza me esperava, que devia sobrelevar todas as mais a prodigiosa
altura.

Fanny, como tantas outras mulheres, atraioando seu marido, no queria
que elle a atraioasse. Irritada pelo meu ar de triumpho, nem deu
credito  realidade da historia, nem  sinceridade da justificao.

--Ou mangaram comsigo, ou o snr. forjou uma historia desinfadadamente,
para me atormentar. O que me diz aborrece-me. A grosseria desses
sentimentos enoja-me tanto que no posso perdoar-lhe, faa o que fizer.
Saiba que meu marido ama-me sempre. A tristeza que soffre, de mais o
demonstra. O juramento que o snr. me arrancou, lealmente o tenho
sustentado. Incumbe-lhe respeitar a minha sensibilidade, cessando de
calumniar um homem que, por causa do snr.,  desgraado.

Foi tamanha a minha estupefaco, que nem me occorreu a ida de censurar
aquellas estranhas palavras. Fanny mortificava-me cruelmente fallando-me
da sua susceptibilidade, do seu juramento arrancado, da minha supposta
calumnia a proposito da infidelidade exactissima, do homem que eu
detestava. Cuidava eu que Fanny se daria por feliz sabendo que, emfim,
espontaneamente, o marido se afastava d'ella, como ella, desde muito, se
afastara d'elle. Esperava eu aces da graa, e sahiu-me clera, orgulho
offendido, retaliaes, que, a meu vr, tinham as apparencias todas do
ciume. Isto era para indoudecer!


LXVI

Incutiram-se-me suspeitas novas, e estas, mais crueis mil vezes que
quantas me haviam suppliciado. Desta vez, porm, o acceital-as
docilmente, no me foi facil. Intranhara-se-me a desconfiana como
vibora no corao, e o germen da peonha, que ella ahi revessara,
circulava-me nas veias.

O ciume resurgiu mais abrasado. A s escusa, que podia mitigal-o, era
imposssivel. No era j da partilha que eu accusava Fanny; mas sim da
mais rasteira traio. Resolvi esclarecer a incerteza, por todo o preo.
Nada disse a Fanny, fingi-me longe de suspeitas. Menti no rosto como nas
palavras. Affectei consummado comico, a maior liberdade de espirito,
quando me estava a morte no corao.

Pela primeira vez na minha vida, fui homem. Por mim, e s commigo, fiz
quanto cumpria para descobrir a verdade. Comprei, com um pseudonimo, a
casa contigua  de Fanny. Instalei-me secretamente l. Todo o dia,
cosido com as portadas das janellas, escutava os menores rumores da casa
visinha, e via tudo que l entrava, como se estivesse  espera de vr
algum estranho entrar ahi a roubar-me a mulher que me era a vida. De
noite, escoava-me atravs da sebe de arbustos que separavam os nossos
quintaes, e andava debaixo das janellas de Fanny, como ladro que estuda
o edificio que quer assaltar. Assim apprendi os costumes da familia que
eu espionava. O erguer, o comer, o deitar, sabia tudo. Via de manh os
creados abrirem portas e janellas, e ouvia o roedr dos moveis,
deslocados na limpeza dos quartos e da sala. s oito horas, o dono da
casa descia ao jardim, onde encontrava os filhos. s nove apparecia
Fanny em desalinho campestre. Dava com elle alguns passeios. s onze
horas chamava a campainha ao almoo. Ao meio dia, esperava o _coup_ 
porta. O marido sahia, e s voltava s sete horas para jantar. Muitas
vezes, depois do meio dia, vi Fanny assentada na raiz d'uma arvore
enorme, que assombrava largo ambito, conversar com os filhos, lr, ou
occupada em algum trabalho de agulha. As visitas eram numerosas. Das
tres s seis horas, quando estava bonito o tempo, circuitava o grande
taboleiro de relva, longa fileira de trens, cujos cavallos escarvavam na
areia,  sombra das arvores, sacudindo os freios, a tempo que os bandos
de senhoras e cavalheiros, assentados em cadeiras de bambu, riam, e
bebiam gelados. Ao intardecer sahiam todos, e os homens faziam caracolar
os cavallos  portinhola das carruagens, ou reunidos atraz dos trens,
caminhavam lentamente fumando os seus charutos. Fanny recebia-as com uma
graa incantadora: variava muito de vestidos, e da minha janella via eu
que as mulheres examinavam detidamente os seus deliciosos enfeites, ao
passo que ella, parecia descuriosa de si, como se sempre estivesse
adornada, sem o saber. Raro sahia de noite, se o calr no era ardente.
O marido passeava ento com ella; mas ordinariamente tornava para Pariz
s oito horas, e quando tornava, era por alta noite.

Nos dias em que nos uniamos em Pariz, Fanny entrava no _coup_ com o
marido.--Qual de ns  o enganado?--dizia eu commigo. Eu montava, e por
travessas, e a galope, chegava a minha casa primeiro, e ahi era to
pouco preguntador quanto ella era meditativa. Era-o em toda a parte, em
sua casa como na minha. Ao mesmo tempo, os passos do marido, mandava-os
eu espiar. Nunca ia seno ao club, e a casa da amante. Aqui pernoitava
algumas vezes. Fallava n'isso francamente aos seus amigos, e continuava
a mostrar-se prodigo com ella em demasia. Era um homem prefeitamente
feliz. No o attribulavam suspeitas nem inquietaes: rico, pae de
galantes filhos, uma mulher adoravel. Que lhe faltava? Eu invejava-o.

Mas no me bastava assistir  vida exterior da familia, cujos segredos
eu queria conhecer. Ao cabo de quinze dias, vendo esteril a minha
espionagem, cancei-me da futilidade d'ella. Obtivera apenas o direito de
suppor que Fanny cumpria a palavra, por que o marido, passeando com
ella, parecia exclusivamente entretido com os filhos. Alm disso, a
frequencia das visitas que ella recebia, estorvava-me de vl-a
concentrada em si, tanto quanto eu queria. Resolvi introduzir-me em sua
casa, sem o ella saber. A frieza, com que me estava tractando, era
assustadora. Distrahida sempre. Muitas vezes, com terrivel commoo, de
longe a via, quando se julgava ssinha, cahir sobre um banco, e esconder
n'um leno, o rosto lavado de lagrimas. Em oito dias, centuplicaram as
minhas suspeitas.


LXVII

Por uma bella noite de agosto  que eu executei o horrivel designio,
cujo exito devia decidir do meu destino. No sei que hora era; mas,
havia muito que as estrellas radiavam na face do co a sua suave
claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa
contigua  de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela
rampa; pendurei-me do varo sutoposto  baranda da casa visinha; fixei
um p na goteira da sacada, depois o outro p, e saltei. Estava em casa
d'elles.

Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas
precipitadas pulsaes do corao. Perto de mim, uma janella alumiada
como um grande quadrado de luz, branqueava de claro bao, a parede
innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta
janella no estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se,
mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca,
pendentes diante das vidraas, deixavam-me vr todo o quarto atravs
d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.

Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre
este, uma cora de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro
que contrastavam com a brancura dos lenoes.  esquerda da cama, um
tapete estreito,  direita, uma commoda; ao p da chamin uma poltrona
de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam l,
mas eu no reparei. Ao principio, no vi ninguem no quarto, alumiado
desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz,
que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O
leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como
quer que eu me chegasse  vidraa para examinar se elle estava occupado,
uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas
cortinas brancas. Pulsou-me o corao mais rijo. Agachei-me rente com a
sala, recuando um pouco.

Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A virao tepida da noite de
agosto, suspirava  volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre
os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu no via, no
sentia, no investigava seno elle. Alongando o pescoo para ajustar os
olhos  entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse
para mim coisa extraordinaria vl-o de p n'um quarto de sua casa. Tinha
os ps nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos
encontros uma larga cala branca de flanella. Despeitorado, arregaado o
colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um
charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os
braos. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna
sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu
estava, via-lhe perfeitamente a sola do p n levantada ao nivel dos
meus olhos, e o brao carnudo descanado sobre o encosto da cadeira. O
outro brao subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos
beios o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava at mim.

De repente, voltou a cara para uma porta que eu no tinha devisado,
collocada ao p do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento
obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha
razo, uma frma vaga alumiada em rosto por um castial que ella trazia.

Potestades do co! Era ella! Oh Deus! por que me no fulminaste
n'aquelle momento!

Entrou vagarosamente, depoz o castial sobre a commoda, e, atravessando
longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava
tranquillo, e sem levantar-se.

Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira
algumas vezes pelas manhs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim
com os filhos. Era um chambro muito farto de cachemira azul aberta no
peito, entre flocos de cambraia, deixando vr o comeo dos seios.
Sahiam-lhe das largas mangas os braos ns. Trazia desmanchados
negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados
por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor,
l o apparentava no semblante.

Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? No pde
a recordao do amante retl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que
ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a
existencia d'algum homem para ella, seno aquelle que alli estava
sentado, encarando-a, sereno como ella.

Fuzilou-me na alma um relampago de esperana, mas foi relampago.
Abaixado sobre os joelhos e as mos, embaciado o vidro pelo meu bafo,
senti oscillar-me os braos como se o balco estremecesse debaixo de
mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros;
rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo
golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas foras tinha,
ergui-me sobre os joelhos e punhos.

Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava,
vagamente, e como em distraco nos objectos de sobre os moveis, tal
qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho.
Fallavam; mas a minha commoo s me deixava ouvir um murmurinho.
Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e
apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso
melancolico. Quiz vr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem
illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forada. No se mostrava pensativa,
nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente  sua vontade,
natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a
irritadora tranquillidade.

O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes.
Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusao que ella fazia,
sem clera, mas como uma malignidade gracejadora, que no era isempta de
desdem e altivez. Discutiam to pacificamente que pareciam nenhum
acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da
testa quadrada do marido, brilharam mortios os olhos; e, quando ella
perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o p, a deciso foi
prompta; calou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher,
sem resistencia, fl-a assentar no seu joelho.

Saltaram-me as lagrimas ento, lagrimas ardentes, que as palpebras no
podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces at aos labios.
Emfim, comprehendia tudo; via a profanao, posto que a no quizesse
vr; affirmava que no era sonho aquillo, e queria duvidar. No posso
exprimir o que ento se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o
mal que me fazia vr aquella mulher, que eu adorava, nos braos d'outro.

Fanny continuava sentada com as mos cruzadas sobre os joelhos, e com os
olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a
simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella
expresso dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela
cinta, amimava-lhe a face com a mo livre. A final, Fanny lanou-lhe por
sobre o hombro o brao esquerdo, e pendeu para elle langorosamente.
Vi-lhe ento as costas, cobertas de tranas dos cabellos, e o vestido
fazia roda por largo espao com impudor esplendido. Oh! como a
abominavel creatura cheia de graa e lascivia se aconchegava d'aquella
espadua robusta!

-- impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--No ha-de ser
assim!--Mas elle abraou-a, collando a boca espessa s puras faces
d'ella, e no sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto
negativo com a cabea, muitas vezes, sem crar. Elle, por cortezia,
insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher
scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou
algum tempo. No sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas
dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella
mulher de resplendores e flres, e, por um s movimento de braos e
hombros, fez escorregar o chambre at aos ps. Eu cahi de joelhos, e
ergui as mos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os ps do
monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o
leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu
assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia deps ella,
vagarosamente.

E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaal-a,
ingolphar meus braos nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo
o sangue d'ella, no se apagaria o ardr da minha tortura. Arquejante
como o tigre, que v a garra do leo cravada na sua preza, ergui-me a
prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face,
soluava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores
d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e
perdido, avanara um passo! mas os cabellos heriaram-se-me, e os olhos
saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal
nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir vante, e no pude. A
punio pregava-me os ps  balaustrada, e de minha bca sahiam
gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo,
a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que no tem nome nas
linguas humanas! Tentei de novo avanar, por que ouvira suspiros, e
queria saber qual das duas bcas os exhalavam. Por um esforo prodigioso
dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei
ainda um passo; mas por que ao corao intumecido me refluira todo o
sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balco.


LXVIII

Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri
as mos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua
exteno; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva
glacial.  custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava
com o corao, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir
at ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim.
Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha
fraqueza no podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao cho, e ahi, com
o rosto entre as mos, desafoguei-me em soluos.

--Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o co
impassivel!--De subito ergui-me, e, sem ida fixa, atravessei as trvas,
rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada;
saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr
sempre, com a cabea nua, chorando e fallando ssinho, atirei-me como um
attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos
flancos.

Onde ia eu? no sabia. Fugia quelle espectaculo. Salvava-me a todo o
correr, para o mais longe possivel, para no vr a imagem horrenda que
me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e
excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto
de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa.
Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os
meus vestidos a pedaos, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no
peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a
chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que
resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me
ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos,
estradas que desfilavam  roda de mim, como se o solo fosse arrastado
commigo no arremeo d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respirao, e
eu corria ainda, chorando, chorando sempre.

-- minha me!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro!

De repente, achei-me com os ps em agua. Ante mim, distendia-se um vasto
espao negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com
grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo
argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme
assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei
tropeando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida,
embargavam-me o passo. Horrida tentao me assaltou. Contemplei o co
sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dce astro dos amantes;
puz a mo sobre o corao, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas
sentia sempre o cho lodento em redor dos meus ps que escorregavam. No
podia mais. Vergado  fadiga e  commoo, soluando como as mulheres,
cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.


LXIX

O que decorreu depois d'isto, no sei.

Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante.
Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo
peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.

Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabea em fogo. Abri
os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo,
desde a cabea aos ps, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois
amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabea. Veio um homem,
e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer.
Isto durou muitos dias.

Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem
sentidos, nas margens do Sena, com a cabea envazada no ldo.
Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e,
guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e
tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.

Fanny, porm, ignorante de tudo, admirada de me no vr, veio uma manh;
mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e
contou-lhe o que sabia. Quiz afogar-se--disse elle--e agora est
doido--Ella, porm, no quiz crr no suicidio, e supplicou a entrada.
N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres
prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao
leito, com os braos alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei
na porta, que se abriu ao p do meu leito, uma frma humana, de p e
quieta.

No atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vr
moribundo, adornada de trajos de estio to elegantes e frescos, com
braceletes nos braos e flres no chapo: tambem no entendi por que
chegava com ambas as mos o seu vo branco ao rosto. Os meus amigos
tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto
fosse possivel, um segredo que no queria ser penetrado. A mulher
adiantou-se at  minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido.
Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o vo. Como que senti
refrigerar-se-me a alma, de vr sobre o meu rosto aquella face viosa
cheia de graa, e como perfumada de saude.

Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braos. Fanny abaixou-se a
soluar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecl-a;
levei-lhe  face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando
furioso sai d'aqui! Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se
chorando; mas com um resto de fora que a raiva me dra, bati-lhe no
hombro, e, ao lanar-me fora da cama, cahi por terra aos ps d'ella.


LXX

Quando sahi do lethargo, suppliquei, de mos postas, aos meus
enfermeiros, que no deixassem entrar em minha casa aquella mulher.

Ella, porm, que no podia suspeitar o succedido, e continuava a crr na
minha demencia, vinha todos os dias--disseram-m'o depois, e todos os
dias com gestos afflictivos, sollicitava vr-me.--O medico no
consente--respondia inflexivel o meu creado. Fanny offerecia dinheiro e
prendas; mas comprehendendo a final que a sua presena podia matar-me,
retirou-se, pedindo a Deus a minha cura, e offerecendo-lhe, em troca da
minha, a sua vida. D'isto no sabia eu nada ento. Decorriam os dias, e,
por desgraa minha, graas aos disvellos que me rodeavam, a vida pouco a
pouco affluiu apagando a febre.


LXXI

Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescena. J os amigos me
tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria
receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presena to
mal me fizera uma vez. Sempre com repello lhe disse que o expulsava se
a deixasse entrar. O desejo, porm, de a vr, entrou commigo, e
tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado
sobresaltado, que no intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu no
sabia; que ella vinha diariamente, e elle j no sabia que dizer-lhe,
para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu
impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a.

Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperana tentasse renascer
em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a clera se desvanecera;
mas ganhara-me uma dr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o
meu por tudo--que no podia viver. Aquella noite terrivel da traio,
lembrava-me como um sonho mo. A um tempo, amava e desprezava a mulher
graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava
para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.

Estava eu sentado n'uma poltrona, ao p da minha janella, com os olhos
fechados, repassando no animo o que eu diria  prejura, quando senti
apertarem-me a mo, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas.
Abri os olhos. A meus ps, de joelhos, livida, mas formosa ainda,
formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o
perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.

Fanny ergueu-se, abraou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os
seus dois braos ns. No resisti, porque me era aprazivel receber
aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto no fallasse. E por
isso mesmo  que no fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a no
abraava, Fanny disse:

--Foi-se o teu amor, Roger?

--Ainda no--respondi, tapando o rosto com as mos. Ella no intendeu, e
deteve-se em p e agitada defronte de mim.

--Fanny, diz-me que  um sonho, ou que estou doido. Diz-me que no devo
odiar-te, porque este odio dilacera-me.

No crou. No impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella
mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.

Foi ento que eu, reunindo as minhas foras todas, a tomei pela cintura
gentil em meus braos, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:

--Sei tudo.

O que? tu que sabes?

--Vi tudo.

Mas que?

--Porque me trahiste? Tu no cedeste, porque foste tu quem o procurou,
no foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o
seduziste a elle.

Fanny no perdeu ainda a cr, e quiz fallar. Eu, porm, com os olhos
cravados n'ella, sem clera, e frio como o ao, continuei:

-- necessario dizer-te tudo? No merecias confiana. Comprei a caza
vizinha da tua, em Chaville...

Aqui, impallideceu, e disse:

E depois?

--Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vo quinze dias,
arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balco da tua
casa. No sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraa do quarto de
teu marido, pude vl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle s.
Entraste...

Isso  falso! exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um
cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.

--Ser preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de
cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito n. Calavas
chinellas de setim. Ns, trazias os braos. Serena como sempre, no
momento mesmo em que prejuravas, no amaldioaste aquelle que vinhas
saciar, por que ha em ti dois coraes, para amar dois homens, Fanny, a
elle, e a mim.

Fanny sacudiu rapidamente a cabea, e disse com voz abafada:

 falso!  falso! tu no me conheces!

--Ser preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traio, que 
certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante
de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com
os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle
puchou-te para sobre o corao, e tu deixaste-te sentar sobre os
joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle
espectaculo diante...

Basta!--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer
horrorosamente; mas no chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e
crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas
accrescentei:

--Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e  de crr que a vergonha
e a dr no matem, por que eu vi tudo, e no morri.

Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em
contemplao, e immoveis. Por fim, disse ella:

Eu devo fazer-te horror!

--Fazes.

Ergueu-se, levantou as mos ao co, lanou-se a mim, como sobre uma
preza, apertou-me entre os braos, sentou-se-me nos joelhos, peito a
peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamaes:

--No importa! eu adoro-te sempre.

Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao cho, e ella ahi ficou.
Abismada a meus ps, como a Magdalena, soltas as tranas, nodados os
braos aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:

Perdo! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te
sempre! Tem compaixo de mim.

E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propz-me a
fuga, bradando:

Mata-me, e no me repulses! Esmaga-me aos teus ps. Sou culpada, mas
no me abandones. Amo-te. Rasga-me o corao...

Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas
eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narrao do meu
supplicio. Voltei as costas quella mulher, cuja soberba, por tanto
tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para
mim os braos; mas fiz-lh'os recuar  face, com um gesto.

--Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu-- isto o meu castigo, por
que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim,
s uma deshonra, e mais nada. s um idolo attascado em lama. Vi-te, em
attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca
e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos ces. Cala-te! tu
fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara:
essas, ao menos, no mentem.

Mas elle  meu marido!--disse Fanny.

--No tens consciencia? Diz-me com franqueza se  certo seres tu um ser
intelligente, e se uma ida dirigiu a tua aco funesta. Quem te
obrigava a ir procural-o?

Fanny, com grande esforo, respondeu:

Eu via que elle se desprendia de mim. No o amo, por que te amo, mas
dependendo d'elle. No  natural? Repartida entre o desejo de conservar
sua affeio, e o receio de ser forada a mostrar-lhe uma affeio
semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, 
escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O
temor de me vr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me.
Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres,  a causa de tudo. Eu
preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e
tu no conheces as mulheres. No calculas quanta honestidade pode haver
nas traies d'ellas.

--E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mos afflictivamente.
Eu prosegui:

--Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. No cedeste seno ao
orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que no amas, e
te no ama, e te opprime, e te despreza e insulta. No cedeste tambem 
sde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.

Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate,
quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:

Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o corao deste
corpo. O meu corao est puro. Vr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado,
bastra-me sempre. Por isso mesmo que te amo,  que tu s o unico ente,
mais que homem para mim. Tu s neste mundo o meu amor unico. s a minha
vida.

--Amas-me!--bradei eu com raiva.--Mas de que modo me amas? Acima de mim,
em teu corao to puro, esto vs consideraes do mundo, razes de
sociedade, costumeiras mesquinhas, est teu marido. No me falles de
teus filhos. Que amor  aquelle que no conhece a virtude dos
sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que  limitado? que
soffre prescripes? que no  uma abnegao absoluta do individuo, de
todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se
perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurana do seu futuro, e
chega, por amor delle, at ao crime, e se tortura a inventar maiores
provas ainda, no d o mais radioso testemunho da paixo exclusiva,
intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor no vive seno de
si, e nada reserva fra de si. Renegado sublime, piza os mais santos
objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a
impassibilidade. Porm, tu! mulher das dedicaes mesquinhas, das
virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. 
alto de mais para ti! a tua vista no alcana tanto. O que tens,
superior a ti,  a tua casa,  o teu bem-estar,  o luxo que te cerca, 
a falsa estima do mundo que tanto se d de ti como das outras, so as
relaes banaes,  um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me
amas! Supportarias tu o abandono da sociedade? Offereci-te tudo que
tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os
indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preo da
minha felicidade? No ultrajes, pois, o amor, a paixo soberanna, que
no quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que no seja a sua. Crs
que amas por te haveres entregado? Vai, j te disse que vi tudo. Estavas
com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braos para os
delle como d'um vestido para outro.

Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a
para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braos
cruzados, exclamei:

--Hasde ouvir tudo!

Faltou-me a expresso. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram
gritos. Cerrei os punhos em postura ameaadora; Fanny olhava-me de revz
com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:

--Eu nunca tive crena em ti. Tanta certeza eu tinha de que me
atraioavas, que, por minha desgraa, quiz conspurcar o nosso amor.
Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraioei-te
com as mais rasteiras mulheres.

Fanny no me acreditava. Attribuia  impotencia do furor o que eu
dissera, e fez um gesto de denegao soberba. Mo grado meu, repassado
de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha
clera cahiu sob o pezo da piedade.

--Sabe, pois, murmurei eu com as mos erguidas, que eu te amava ao mesmo
tempo com amor de me, de mulher, de creana. Quanta piedade, respeito,
e ternura que podem resumir-se em amor no corao, quantas delicias,
tocam a divinisao pela maviosidade, todas senti por ti, desde o
primeiro dia em que te vi passar com tuas graas, com a tua serena
suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que s
em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus
males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria
dado, risonho, a vida, que eu s amava por que te era aprazivel. V que
choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua me, tua casa, teus
creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus
vestidos, e as tuas rendas. Creio at que o amava a elle, por que, em
meu espirito, a tua imagem andava associada  d'elle. Nem minha me amei
como a ti. Por ti, tl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu
eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas
puras.

Perdo! exclamou ella, recahindo de joelhos.

--E tu, Fanny, calcaste aos ps este respeito, este amor incomparavel,
este corao...

Piedade!

--Recalcaste-me como a fra impassivel que esmagou com as garras as
primeiras flres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um
desgraado que no pode amar alguem, como o ancio, que viu em roda de
si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu corao.
Estou velho! tenho cem annos! vou morrer! sou um sepulchro! Tu sabes de
mais que estou ssinho no mundo...

Piedade! perdo!--exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis
e nas paredes.--No me digas que s desgraado!

--Oh! desgraado! e no digo bem o que sou. A lingua no tem voz que o
diga.

Ingrata! No te bastava ser senhora da minha alma, do meu corao, da
minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima
de ti... que me era mais que tu mesma!

Piedade! piedade!--continuava ella exclamando.

--Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxal que nunca soffras o que
eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!

Dito isto, quiz feril-a e abraal-a ao mesmo tempo; mas cahi
desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto
s apalpadellas, no a encontrei.


LXXII

No dia seguinte, senti-me saciado de vingana. Experimentava aquella
especie de serenidade cruel, que segue as execues supremas. Sentia-me
satisfeito, em fim, como o juiz que tem em seu poder a irrecusavel prova
do crime que puniu.

J me no afligia o pensar n'ella. No obstante, eu previa lucidamente
os graves desgostos da sua vida.

--Soffrer longo tempo, e depois odiar-me-ha. Incadeada sob o jugo,
debalde tentar soffrl-o corajosamente. A resignao desdiz do caracter
d'ella. Outro vir, mais tarde, substituir-me. Se a no amar, ser
despresado. Amando-a, repetir-se-ho immediatamente, e com as mesmas
phrazes--identicas luctas, as mesmas perfidias, iguaes torturas.
Emquanto viva, Fanny perseguir fatalmente a sua chimera. O amor ideal
que a arrasta no se dessipar mesmo nos gelos da idade; quando as rugas
sobrevierem a provar-lhe que tudo  mudavel na terra, ella continuar a
evocar o phantasma d'uma paixo que foi e ser sempre o seu supplicio.
Ha-de apartar-se da sociedade, como os soldados feridos no fogo de vinte
pelejas. Como elles, afastada de tudo, saciada de tudo, tirar commoes
para uma vida nova no mysterioso poema das suas remeniscencias. Os
filhos, que adora, no a consolaro. Quem sabe se viro a
desprezal-a?... Condemnada a amar por egoismo, no se far feliz a si,
nem a outrem. Impotente para o bem, ser-lhe-ha martyrio eterno o
procural-o. Para a felicidade propria, faltar-lhe-ha sempre um vicio;
para a felicidade alheia, faltar-lhe-ha sempre uma virtude. Tem corao
de mais, e coragem de menos.

Dest'arte, julgava eu, de longe, aquella mulher que eu, por ultimo
conhecera,  custa da minha ventura. No posso dizer que a lastimava.
Com quanto me sentisse prostrado de fadiga, a irritao surda, contra
ella, era immensa. Como se annos e annos medeassem entre ns as suas
barreiras, eu me sentia separado d'ella, mas ainda a sentia viver em
mim. Era-me a memoria d'ella, como o ferrete aberto com ferro em braza.
O estygma intalhado a fogo no corao, no podia eu, forado do amor
desvanecl-o.


LXXIII

Se, porm, julgando-a, me no compadecia d'ella, era-me impossivel
pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu
tinha, quanta affeio filial, ternura piedosa, e venerao, exhalava-se
de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava,
sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravra. Estorturava-se,
este amor, como joven robusto que saboreou a vida e no quer morrer. A
affeio de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differena
de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem
suavissimo; a venerao, em summa, que lhe era a ella um incenso grato,
isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu corao, e
evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual
viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas da Asia, por
um turbilho fluctuando raso com o cho, tal eu me sentia perplexo nas
minhas revolues, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia
vagarosamente, derramando-se em frmas confusas: fugia tudo; memorias
queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspiraes, tudo se
esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, ssinho, n'um grande
espao. E desse turbilho nevoento de sensaes, vontades, e habitos;
densas oscillaes impalpapeis de penas, prazeres, e esperanas,
prolongadas at ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um
phantasma enorme que subia, subia at ao co, tristemente involvido em
pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha
impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua
mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma
vez o tinha eu j visto crescer para mim, e me sentira estalejar com
elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi
minha me, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me
aferrara nos braos a glacial SOLIDO.

Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal
que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixra Fanny n'aquelle quarto
que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe
cobrira a cabea, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram
suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os
braos de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a
molle pegada do seu sapato, no coxim em que ella descanava os ps;
acol, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as
flres que ella amava; alm, as cortinas que ella tantas vezes levantava
com sua mo timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual
ella estava olhando sempre; aqui, o vo d'ella, aqui as cartas, seus
dces reflexos; alm, o pente embalsamado com o perfume dos seus
cabellos; e acol, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito
onde tantas vezes chorvamos.

Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e
esperamos. Como longinqua musica, trazida na virao do mar, soava-me
nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanao de flres que se
evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de
sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios
os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mo que ella tocara; ardia-me a
fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella
adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixo, o peito
que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao
retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda;
esperal-a ainda, como nos dias passados; vl-a chegar assustada, como a
cerva dos bosques, a esconder-se em meus braos. Mas, ao mesmo tempo,
no sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluos e gemidos.
Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava
todas as minhas idas. Meditativo, como pde sl-o o homem no leito da
morte, eu dizia commigo:--Acabou tudo! no nos tornaremos a vr, ns,
que tanto nos amamos!...


LXXIV

Era tamanha a minha tribulao, que eu receei succumbir  paixo. A
imagem d'ella, entrava em todas as minhas meditaes. Como no podia
arrancal-a da memoria, fugi com ella, precipitadamente, sem voltar o
rosto, como o incendiado que no quer ouvir os gritos de maldio
sahidos d'entre as chammas accendidas por sua mo cruel. Parti, sem
dizer onde ia, para partir, para me afastar. A minha mesma coragem me
apavorava. Mas a memoria ia commigo, chorava commigo. Canado um dia, da
vista dos homens, deixei os caminhos trilhados, e intranhei-me, ao
norte, nas areias que bordam a foz do Loire. Caminhei trinta horas sem
parar. Ao anoitecer, apeei n'um deserto, e resolvi acabar ahi...

No queria porm, eu, que ahi dissessem que irreflectidamente me
suicidara como um louco, ou como creana infraquecido na lucta.
Apozentei-me, pois, aqui, para luctar contra mim mesmo, e vr se a cura
me pde ser ministrada por um hospede menos frivolo que a morte.
Impuz-me o prazo d'um anno, para viver uma vida differente, s,
meditativa, austera. Estou resolvido a esperar at final. Algumas vezes,
detesto-me, e todavia espero. Fio-me no sei de que. Amo, como nunca
amei, a mulher que me reduzio a isto. No a desprezo j. Absolvo-a. Eu
teria feito o mesmo, se fosse ella, e affirmo que valem menos que ella,
as que de outro modo se comportassem. Mas ha momentos em que a detesto,
e me arrependo de a no ter esmagado. Assim, e incessantemente, vou d'um
extremo de amor e piedade, ao outro extremo de furor e odio. Oh! amar!
que supplicio!

As foras da minha alma esto extinctas. J me no pulsa o corao. Hoje
principalmente, que dou fim aos traos do drama da minha vida, sinto a
tentao terrivel de completal-o com um sanguinario epilogo.

Mas, porque ha-de ser aqui, e no ha-de ser alm ao p d'ella?  porque
me resta ainda o pudr d'um ciume feroz, que no quer ser carpido. Qual
besta-fra, que, ferida de morte, procura uma caverna onde morrer em
paz, e esconder seus ossos; assim eu, se devo morrer, quero que seja
n'um deserto, longe d'aquella que eu amei de mais.


FIM




                                PARCERIA

                         ANTONIO MARIA PEREIRA

                            LIVRARIA-EDITORA

                               OFFICINAS

                     TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO

                       _MOVIDAS A ELECTRICIDADE_

                     44 a 54--Rua Augusta--44 a 54

                                LISBOA





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     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     https://www.gutenberg.org

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